segunda-feira, fevereiro 09, 2009

OUTRAS GUANTÁNAMOS

No post anterior, falei do paradoxo de se condenar a decisão da Igreja Católica de readmitir um arcebispo antissemita e saudar, ao mesmo tempo, o início de conversações "de paz" entre os EUA e o Irã do antissemita Mahmoud Ahmadinejad. Lembrei que os acenos do governo de Barack Obama a Teerã não estão sendo acompanhados de nenhum compromisso, por parte de Ahmadinejad, de que irá abandonar seu programa nuclear (alguém duvida para que este serve?), ou de que deixará de patrocinar o terrorismo palestino de grupos como o Hamas, ou de que reconhecerá o direito de Israel à existência. Logo, a possibilidade de que o resultado de tais conversações seja "a paz" no Oriente Médio é, sendo bastante otimista, algo mais do que remoto.
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Bem mais perto de nós, aqui mesmo na América Latina, um outro processo de conversações para "a paz" me chamou a atenção. Assim como no caso do Irã, trata-se de algo que está sendo celebrado pelos bem-pensantes e admiradores do novo presidente norte-americano, ou simplesmente pelos Cândidos da vida, como uma nova "esperança". Barack Obama, como se sabe, defende o início do diálogo com o regime de Cuba, capitaneado pelo primeiro-irmão, Raúl Castro. Também prometeu rever as políticas de seu antecessor, George W. Bush, no tocante ao combate ao terrorismo. Para assinalar que uma nova era estava começando, o novo Messias ungido anunciou, no primeiro dia de seu mandato, o cumprimento de uma promessa de campanha: o fechamento, no prazo de um ano, da prisão de Guantánamo, em território cubano. É a "mudança" em ação. (O que se fará dos prisioneiros, alguns dos quais já retornaram à faina terrorista, é, claro, assunto para outros resolverem...)

Pois bem. O anúncio do fechamento de Guantánamo está sendo celebrado por todos os que se opuseram à administração Bush como uma vitória dos Direitos Humanos. Em certo sentido, é mesmo, já que a tal prisão era mantida ao arrepio da lei internacional etc. e tal. Até aí, beleza. A essa altura, creio eu, todos querem o fechamento da prisão, onde, como fomos insistentemente bombardeados pela imprensa nos últimos oito anos, a tortura, ou algo parecido com a tortura, rolava solta. O.k., juridicamente, Guantánamo era uma aberração. O.k., os direitos humanos dos prisioneiros eram violados. O.k., havia mesmo alguns inocentes entre os detidos. O.k., a prisão precisava mesmo ser fechada. Tudo isso é certo. Mas tem uma coisa aí que não encaixa direito...

Não encaixa direito o fato de que a decisão de fechar a prisão tenha sido acompanhada do anúncio do começo de conversações com o regime de Cuba, um país que, como se sabe, tem não uma, mas cerca de trezentas Guantánamos, funcionando a todo vapor, há mais de cinquenta anos. Aliás, a ilha inteira é uma imensa prisão. No entanto, não se vê o mesmo tipo de pressão internacional sobre o regime de Havana para que feche suas cadeias e liberte os presos políticos. Pelo contrário. No final do ano passado, o governo do "democrata" Luiz Inácio Lula da Silva patrocinou a entrada de Cuba no Grupo do Rio, organização dos países da América Latina, sob a alegação de que é preciso evitar o "isolamento" de Cuba e "trazer de volta" a ilha para o "convívio democrático". Com um detalhe importante: não foi exigido absolutamente NADA do regime cubano para que fosse aceita sua entrada no tal Grupo. O que revela que há muito mais por trás de tais movimentos além de amor pela democracia e pelos direitos humanos...
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Do mesmo modo, os acenos de Obama em direção à ditadura cubana vieram acompanhados de alguma exigência de democracia e de respeito aos direitos humanos na ilha? Nenhuma. Nada, absolutamente nada, foi pedido a Havana. Pelo contrário: a exemplo do que ocorreu com Ahmadinejad, o regime castrista de Cuba não perdeu a chance de espicaçar o Grande Satã imperialista. Ao braço estendido de Obama, Havana respondeu com algum sinal de que irá permitir a liberdade de expressão e realizar eleições livres? Não. Em vez disso, apresentou uma longa lista de exigências à Casa Branca: entrega de Guantánamo a Cuba; fim do "bloqueio" à ilha; soltura de cinco cubanos presos nos EUA acusados de espionagem; e, de quebra, entrega de um cubano, Luís Posada Carriles, acusado de terrorismo contra o regime (será preciso dizer qual tipo de "justiça" será aplicada a Carriles, caso ele seja entregue à ditadura cubana?). Sobre permitir eleições livres e a livre circulação de opiniões, bem como libertar dezenas de pessoas presas há anos por desejarem a democracia para a ilha, nenhuma palavra, nem um pio sequer.

A ideia de que Cuba se tornará um dia uma democracia em função do que fará ou deixará de fazer o ocupante da presidência dos EUA é um dos mitos mais fortemente arraigados na psique coletiva ocidental nos últimos cinquenta anos. É uma forma de desviar a atenção dos verdadeiros culpados pela falta de liberdade no país, que são os irmãos Castro e sua camarilha, e, ao mesmo tempo, atirar a redemocratização da ilha para as calendas gregas. De acordo com essa visão, países como Cuba, Irã e Coreia do Norte só são ditaduras como uma forma de "reação" ao que os EUA fazem (os EUA são os culpados por tudo de ruim que acontece no mundo, desde as ditaduras e o terrorismo até a AIDS e a crise econômica). A conclusão daí decorrente é que, para que se tornem democracias, basta que os EUA "ajam". Na verdade, não há nada, exceto as teorias conspiratórias ou o wishful thinking, que corrobore essa tese. Cuba e o Irã não são regimes tirânicos porque assim determinou a política externa dos EUA, mas tão-somente porque seus líderes - os irmãos Castro e Ahmadinejad - não têm qualquer compromisso com os direitos humanos e a democracia. Daí que tais regimes não chegarão ao fim sendo adulados. Pelo contrário: é somente uma ação firme e decidida da comunidade internacional, mediante a pressão sobre tais regimes, o que poderá levar, um dia, à liberdade.

Alguns dias atrás, o ator Benicio Del Toro, que interpreta Che Guevara num filme, enrolou-se ao tentar justificar numa entrevista os fuzilamentos comandados por Che em Cuba, pois, segundo ele, muitos dos executados eram "terroristas". Essa, aliás, tem sido a justificativa-padrão repetida pelos defensores da tirania castrista para os fuzilamentos na ilha: "eram terroristas" etc. etc. Del Toro foi imediatamente desmentido, de maneira humilhante, pela entrevistadora, de origem cubana, que lembrou que a maioria dos fuzilados era de presos de consciência, não terroristas. Disso fica uma lição importante: em Guantánamo, até onde se sabe, nenhum dos acusados de terrorismo presos foi morto. Já em Cuba, o tratamento para aqueles acusados de terrorismo, como Posada Carriles, e mesmo para os que apenas se opõem ao regime, é o paredão, e isso é visto por muitos como algo plenamente justificável. Fico pensando o que diriam os "defensores dos direitos humanos" se alguém no governo dos EUA propusesse o fuzilamento sumário dos detidos em Guantánamo... Seria um escarcéu, sem dúvida. Essa diferença demonstra claramente quem está do lado da civilização e dos direitos humanos, e quem está se lixando para as duas coisas, usando-as apenas como armas de propaganda.

É por essas e outras que eu não canso de dizer que o mundo virou mesmo de cabeça para baixo (ou de ponta-cabeça). Graças, em grande parte, aos Lulas e Obamas da vida. Raúl Castro e Ahmadinejad podem ficar sossegados. Se depender do novo presidente dos EUA, eles ficarão no poder por muito tempo ainda.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

DE ANTISSEMITAS E GENOCIDAS


Pilha de mortos em Auschwitz: Isso, Ahmadinejad também nega

A Igreja Católica está - mais uma vez - sob fogo cerrado. Tudo porque o papa Bento XVI, numa decisão extrememente controversa, resolveu readmitir no seio da Igreja, alguns dias atrás, o arcebispo ultra-conservador Richard Williamson. Williamson, que pertence ao movimento cismático fundado em 1985 pelo falecido arcebispo Marcel Lefèbvre, que não aceita os rumos da Igreja após o Concílio Vaticano II, e que havia sido excomungado juntamente com Lefèbvre, deu uma entrevista a um canal de televisão negando o Holocausto judeu durante a Segunda Guerra Mundial. A gritaria foi geral. Imediatamente, o rabinato de Israel cortou relações com o Vaticano e o governo da Alemanha, presidido por Angela Merckel, deplorou a decisão da Santa Sé. Com as relações estremecidas com Berlim e Telavive, Bento XVI resolveu voltar atrás em sua decisão de readmitir Williamson, exigindo do arcebispo negacionista uma retratação - sob pena de excomunhão da Igreja. .

A onda de indignação contra Williamson é justa? É justa. Negar o Holocausto nazista é algo inadmissível, e tal atitude, que é crime na Alemanha, deve ser denunciada. Ainda mais se tratando de um prelado da Igreja Católica, tão atacada - muitas vezes, injustamente - por sua suposta condescendência com o genocídio judeu durante o conflito mundial. A questão da morte de 6 milhões de judeus nas mãos dos agentes de Hitler nos anos 30 e 40 é ainda hoje um assunto espinhoso para muita gente, dentro e fora da Igreja. Nessa perspectiva, as pressões sobre a Santa Sé são mais do que corretas e justas: são necessárias. Mas...

Na mesma semana em que o mundo inteiro se encheu de justa indignação contra Bento XVI por sua decisão de readmitir o antissemita Williamson, um outro fato me chamou a atenção. A imprensa norte-americana e mundial anunciou com fanfarra que o governo de Barack Obama iniciou conversações com o Irã. O que isso tem a ver com o caso Williamson? Muita coisa. A notícia do começo das conversações com o Irã foi saudada pelos setores "progressistas" - os mesmos que quase convocaram uma revolta geral contra o papa pelo caso Williamson - como uma esperança de paz. Beleza? Beleza. Mas há um detalhe aí para o qual, ao que parece, quase ninguém deu muita bola: o Irã é, desde 1979, uma teocracia islâmica, na qual vigora a sharia, a lei do Profeta. Seu líder é Mahmoud Ahmadinejad. Assim como o arcebispo católico Williamson, ele nega abertamente, e até com orgulho, que tenha havido o Holocausto nazista. Mais que isso: ele defende abertamente a destruição do Estado de Israel - um novo Holocausto, portanto.
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Por que a condenação de Williamson é algo justo e correto - o que de fato, é - e os acenos de Obama em direção ao Irã de Ahmadinejad são uma "esperança de paz"? Afinal, não são ambos, Williamson e Ahmadinejad, notórios antissemitas e negadores impenitentes do Holocausto? Notem que não se condicionou o início das negociações com o iraniano a nenhuma retratação pública sua em relação aos judeus. Pelo contrário: Ahmadinejad aproveitou o ramo de oliveira estendido pela Casa Branca para reforçar sua coleção de diatribes contra Israel e os EUA, exigindo que Washington, vejam só, peça desculpas pelo apoio ao Estado de Israel, entre outras coisas inaceitáveis. Em outras palavras: ele não deu nenhum sinal, até o momento, de que irá reconhecer o direito de Israel existir, nem de que está realmente interessado na paz na região.
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Além do mais, o arcebispo Williamson, até onde se sabe, é uma voz isolada, e fala por si mesmo. Já Ahmadinejad é um chefe de governo, e tem um poderoso exército à sua disposição. O Irã, aliás, é o principal financiador do Hamas, grupo terrorista que também jurou varrer Israel do mapa, e que travou uma guerra contra Israel no mês passado na Faixa de Gaza. Em um caso, o de Williamson, a questão é, no máximo, um assunto interno da Igreja. No caso de Ahmadinejad, o problema é da humanidade. Por que, então, a condenação exigida se restringe à Igreja Católica, não chegando também aos maiores antissemitas da atualidade, os fanáticos islamitas? Em um caso, indignação. Em outro, júbilo. Alguém me explique isso, por favor.

(Por falar no Hamas, aí vai um parêntese importante: lembram daquele bombardeio de Israel a um prédio da ONU, no dia 6 de janeiro passado, no auge da guerra entre Israel e o Hamas, que teria matado 43 pessoas na Faixa de Gaza e que causou uma onda de furor antiisraelense na opinião pública mundial? Pois é. Era tudo mentira. O tal bombardeio contra o prédio da ONU nunca aconteceu. O bombardeio aconteceu do lado de fora do prédio. Quem admitiu isso foi a própria ONU - na segunda-feira passada, quase um mês depois do bombardeio. Foram os próprios funcionários da ONU que reconheceram que a informação era falsa, e que esconderam isso durante quase um mês. A notícia está no jornal Haaretz, de Israel. Pergunto: onde estão as manchetes nos grandes jornais ocidentais sobre essa farsa? Também não vi ninguém na imprensa humanista ocidental indignar-se contra as execuções de membros do Fatah por militantes do Hamas após a saída das tropas israelenses de Gaza. Fechemos o parêntese.)

De tudo que está aí em cima, o que se depreende é o seguinte: muitos dos que estão indignados com Bento XVI não se opõem ao antissemitismo, mas à Igreja Católica. A prova disso é que aplaudem a decisão de Obama de conversar com o antissemita Ahmadinejad. Para eles, o arcebispo Williamson deve ser punido não por ser antissemita, mas por ser católico. Antissemitas de outras religiões, como Ahmadinejad, segundo essa visão, devem ser não punidos, mas readmitidos na ordem internacional. Difícil entender.
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O antissemitismo é um crime abjeto e imperdoável. A negação do Holocausto também. Seus defensores são inimigos da paz e da humanidade. Daí porque é tão difícil compreender porque o antissemitismo de uns é mais aceitável, ou menos inaceitável, do que o de outros. Em outros tempos, isso se chamava hipocrisia. Hoje, é "tolerância" ou "pragmatismo". O mundo virou mesmo de pernas para o ar.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

AINDA SOBRE O PORCO FEDORENTO - UM VERMELHO-E-PRETO COM DOIS "CHEDÓLATRAS"


Um devoto do culto a Santo Che Guevara, em luta contra um cruel agente do imperialismo da Terra-do-Nunca


Ainda no embalo da imperdível entrevista em que a jornalista Marlen Gonzalez fez picadinho do idiota útil Benicio Del Toro, resolvi fazer uma rápida pesquisa na internet, em busca de artigos sobre Che Guevara. Procurei sobretudo artigos sobre uma reportagem de capa da revista VEJA, publicada em setembro de 2007, a qual desconstrói o Porco Fedorento. A reportagem, para quem lembra, causou alvoroço e indignação entre muitos esquerdistas. Alguns deles, tomados de Síndrome de Peter Pan e revoltados com esse crime de lesa-divindade, até então inédito na imprensa brasileira, reencarnaram Torquemada e fizeram uma fogueira com a revista em frente à editora Abril - é assim que os totalitários costumam reagir diante de algo que leram e não gostaram (ou que não leram e não gostaram, dá na mesma).
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Pois bem. Não tive dificuldade em achar vários artigos e textos em blogs de esquerdiotas que saíram em defesa de El Chancho, o fuzilador-mor de La Cabaña. Resolvi analisar um deles, com um titúlo até vistoso - "Che, a Veja e a amnésia seletiva"-, de autoria de um tal Bruno Fiuza e de uma certa Maíra Kubík Mano. Peguei-o como exemplo, pois os "argumentos" utilizados no texto são basicamente os mesmos repetidos por outros chedólatras ou guevaradólatras. Aí vai o texto, em vermelho, com meus comentários em preto.
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A revista Veja traz, na capa da edição corrente, um perfil de Ernesto Che Guevara, com o suposto objetivo de desconstruir o mito criado pela esquerda em torno do revolucionário argentino.
Não foi um "suposto" objetivo, mas o objetivo claro e declarado da matéria a desconstrução do mito Che Guevara. O que não é algo difícil de fazer, é preciso admitir.
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A tese apresentada pelos jornalistas Diogo Schelp e Duda Teixeira é a de que Che não foi o herói romântico e idealista de um mundo melhor, mas sim um assassino “cruel e maníaco”. E ponto.
Acham pouco? Só para lembrar: foram necessárias décadas para que se revelasse o caráter cruel e maníaco de outro assassino cultuado pela esquerda, Stálin. Até então, ele era visto também como um herói romântico e idealista, lutando por um mundo melhor... Sempre a cantar e a dançar alegremente, como escreveu um dia desses um de seus maiores fãs, Oscar Niemeyer.
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Para defender seu argumento, os autores da matéria fazem, na verdade, o oposto do que se propõem: ao invés de desconstruírem um mito e apresentar um ser humano complexo e contraditório, eles criam um outro mito.
Vejamos que "outro mito" seria esse que a revista estaria criando. Adiante.
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O Che Guevara apresentado por Veja é unidimensional. Para chegar a isso, é preciso uma brutal descontextualização. Apenas alguns pontos:
Antes de entrar no mérito do tema, é bom nos concentrarmos nessa palavra, "unidimensional". O que seria isso? Simples: a VEJA, assim como todos os que denunciam os crimes de Che, estaria pecando por ver apenas um lado do personagem, o lado mau, esquecendo-se de uma outra sua dimensão, positiva, seu lado bom, enfim. Eu fico aqui pensando se alguém teria a coragem de tentar reabilitar Hitler, por exemplo, criticando a visão "unidimensional" que esquece que o ditador nazista gostava, por exemplo, de doces e cachorros... Alguém aí se habilita a, em nome de uma visão, digamos, "multidimensional" do Führer, deixar de lado, por um momento, questões como o Holocausto?
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1) Em nenhum momento os autores apresentam o cenário político cubano antes da revolução de 1959. A ditadura de Fulgêncio Batista e suas ações são completamente ignoradas.
A matéria era sobre Che Guevara, não sobre Cuba antes de 1959. Mas tudo bem, eu faço a vontade dos adoradores de Che, e lembro alguns fatos sobre Cuba antes da tomada do poder por Fidel e seus barbudos. Eis alguns dados interessantes sobre a realidade cubana antes da revolução:
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- A ditadura de Batista perdera o apoio dos EUA; aliás, foi por isso que caiu;
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- A luta contra Batista, encabeçada pelo Movimento Revolucionário 26 de Julho (M-26-7), pelo Diretório Revolucionário e por uma miríade de organizações políticas visava, primordialmente, ao restabelecimento da democracia e das eleições diretas, com a restauração da Constituição liberal de 1940. Todas essas promessas foram convenientemente esquecidas por Fidel Castro após tomar o poder;
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- No plano econômico e social, Cuba detinha o terceiro lugar entre os países com o maior PIB e estava entre os cinco com o melhor padrão de vida na América Latina em 1958, inclusive em setores como saúde e educação.
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Como se vê, se a revista tivesse citado esses dados, teria reforçado sua tese, ajudando a desconstruir ainda mais o mito do revolucionário argentino.
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2) Em todos os cenários de luta armada apresentados (Cuba, Congo e Bolívia), a situação local e as forças envolvidas nesses combates não são apresentadas ao leitor eo “instinto assassino” de Guevara surge quase como uma segunda natureza, imanente à sua personalidade. A frase de Jon Lee Anderson é pinçada entre as mais de mil páginas de seu livro, uma importante e completa biografia de Che, para justificar isso: “para ele, a realidade era apenas uma questão de preto e branco. Despertava toda manhã com a perspectiva de matar ou morrer pela causa”. Num contexto de guerrilha, chega a soar engraçado esperar que a atitude de um combatente não fosse essa.
Mais uma vez, façamos a vontade de quem escreveu o que está aí em cima, e falemos um pouco sobre a situação local em cada cenário e as forças envolvidas. Já falei sobre a situação em Cuba pré-1959. No Congo, onde Guevara esteve em 1965, ele colocou-se ao lado de forças guerrilheiras lideradas, entre outros personagens, por um tal Laurent-Desiré Kabila, que se tornaria ditador do país em 1997 e estaria à frente do massacre de milhares de pessoas, até ser, ele mesmo, assassinado em circunstâncias misteriosas. Na Bolívia, o maior fracasso de Che, que acabaria custando-lhe a vida, ele esbarrou na desconfiança e hostilidade da população indígena local, que via os guerrilheiros não como libertadores, mas como invasores (em certo momento, como está em seu famoso diário, ele chegou a cogitar usar a "tática do terror" para conquistar o apoio dos camponeses). Sem falar no Partido Comunista local, que lhe deu as costas, e de uma até hoje mal-explicada omissão por parte do governo de Havana (segundo um dos três únicos sobreviventes da guerrilha boliviana, Dariel Alarcón Ramírez, "Benigno", Che teria sido "traído" por Fidel Castro). Enfim, esses eram os cenários em que Che queria deslanchar sua "revolução internacional".
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Uma correção: o tal instinto assassino de Che, citado pela revista - cerca de 400 prisioneiros, a maioria presos de consciência, executados no paredón em alguns meses em 1959 -, ao contrário do que está escrito aí em cima, não era sua segunda natureza: era a única que ele tinha. Era sua própria personalidade. Se têm alguma dúvida, então por favor me expliquem como deve ser classificado quem louva "o ódio como fator de luta, o ódio intransigente ao inimigo, que o impulsiona além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar". Convenhamos, até no contexto da luta guerrilheira, deve-se esperar que haja limites. É nesse contexto que a frase retirada do livro de Jon Lee Anderson deve ser analisada.
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3) Em determinado trecho da matéria, Guevara é acusado de ser o responsável pelo colapso econômico do país: “No comando do Banco Central e depois do Ministério da Indústria, Che começou a nacionalizar a indústria e foi o principal defensor do controle estatal das fábricas. ‘Che era um utópico que acreditava que as coisas podiam ser feitas usando-se apenas a força de vontade’, diz o historiador Pedro Corzo, do Instituto da Memória Histórica Cubana, em Miami. Como resultado de sua ‘força de vontade’, a produção agrícola caiu pela metade ea indústria açucareira, o principal produto de exportação de Cuba, entrou em colapso. Em 1963, em estado de penúria, a ilha passou a viver da mesada enviada pela então União Soviética”. Pois bem, o que os autores não falam é que no ano anterior, em 1962, foi decretado o embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba, que continua até hoje apesar de ter sido vetado inúmeras vezes pela Assembléia Geral da ONU.
A ideia por trás dessa última afirmação é de que a culpa pelo descalabro econômico da ilha, e dos desmandos na área por parte de Guevara, seria do tal embargo econômico dos EUA a Cuba, que teria, inclusive, levado a ilha para a dependência em relação à URSS. É mentira. A ajuda econômica da ex-URSS a Cuba começa antes de qualquer embargo norte-americano à ilha, datando de 1960, quando o então Ministro do Comércio da URSS, Anastas Mikoyan, visita o país a convite de Fidel e Raúl Castro. Não há qualquer relação entre o embargo e a dependência de Cuba da URSS, assim como não há qualquer relação entre qualquer ação do governo dos EUA e a falência econômica do regime cubano, que é o resultado única e exclusivamente da incompetência crônica da ditadura castrista.
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Como mostra a citação acima, uma das fontes consultadas é um professor que vive em Miami. No início, o texto já diz que mesmo cheios de rancor, os cubanos dissidentes são uma fonte “da maior credibilidade”. Assim como os agentes da CIA que capturaram e assassinaram Guevara. Isso demonstra o outro pilar essencial para construir a tese da matéria: ouvir apenas um dos lados da história.
Aqui está em ação um dos instrumentos mais caros à esquerda: a velha argumentação ad hominem. As fontes consultadas pela revista, como se compõem de dissidentes que vivem em Miami, não mereceriam nenhuma credibilidade porque, afinal, trata-se de... dissidentes que vivem em Miami! Assim como os "agentes da CIA que capturaram e assassinaram Guevara" - como se todos os exilados em Miami pertencessem a essa categoria. Desqualifica-se, assim, toda uma comunidade - cerca de 2 milhões de pessoas -, simplesmente por fazerem parte dessa mesma comunidade de exilados. Se fosse para levar esse tipo de argumentação a sério, nenhum exilado deveria ter suas palavras levadas em conta. A começar por José Martí, herói nacional cubano, que passou boa parte de sua vida no exílio.

Sem falar que não foram "agentes da CIA", mas sim o Exército boliviano, que capturou e matou Guevara em 1967 (havia apenas um agente da CIA na operação, Félix Rodríguez, que chegou ao local onde Guevara foi fuzilado depois de sua captura e não teve qualquer participação em sua execução).

Os autores gostariam que a revista ouvisse "o outro lado" da história. O outro lado é o governo cubano. Seu ponto de vista já é por demais conhecido. Basta ler o Granma. A reportagem busca exatamente ir além da visão heroica oficial e revelar o verdadeiro Che, o Che por trás do pôster e da camiseta. E o consegue.

Refugiando-se na afirmação de que o regime castrista é “policialesco” e não permite a livre circulação de informações, a matéria se desincumbe de entrar em contato com qualquer fonte igualmente próxima de Che mas que tivesse outra visão sobre os acontecimentos.
Notaram as aspas em "policialesco"? Pois é. Os autores dessa fábula devem acreditar que Cuba é uma democracia em que todos têm livre direito de expressar seu pensamento. Mas deixemos isso de lado, por ora. Acharam estranho que VEJA não tenha entrado em contato com qualquer fonte próxima de Che com "outra visão" sobre o personagem? Quem seria? Um dos filhos de Che, que morreu quando eram todos ainda crianças pequenas e só sabem do pai aquilo que a propaganda oficial cubana repete? Ou Fidel e Raúl Castro? A opinião desses já é sobejamente conhecida. Ah, esse pretenso jornalismo isentista, que pretende ouvir todos os lados e que cultua a neutralidade....

Isso porque nem entramos aqui no mérito do “tom” do texto, que desqualifica com adjetivos seus personagens e se distancia de um jornalismo equilibrado: “Enquanto Che foi cristalizado na foto hipnótica de Alberto Korda, ele próprio, o supremo comandante, aparece cada dia mais roto, macilento, caduco, enquanto se desmancha lentamente dentro de um ridículo agasalho esportivo diante das lentes das câmeras da televisão estatal cubana”.
Viram só? O problema agora é com o "tom" do texto, que se distanciaria de um - vou repetir a expressão - "jornalismo equilibrado"... Fica a pergunta: que "jornalismo equlibrado" seria esse? Não é a VEJA, certamente, pois esta tem, sim, lado, e não esconde isso de ninguém. Provavelmente, claro, os autores devem estar se referindo a monumentos de imparcialidade jornalística como a Caros Amigos...

Não deixo de ficar intrigado com esse tipo de, vá lá, "argumento": "não gostei do 'tom' do texto, achei desrespeitoso etc.". Como se um órgão de imprensa devesse prestar reverência a um dos maiores engodos do século XX e a um tirano assassino e caduco, cada vez mais ridículo e deplorável diante do mito, eternamente jovem, que ele criou para dar sustentação a seu regime totalitário. Os autores devem estar tristes porque, infelizmente para eles, os tiranos envelhecem, ainda não encontraram um meio de fazer o tempo obedecer a suas ordens.

Por fim, a visão de história apresentada é, no mínimo, discutível. Ao afirmar que Che Guevara deveria ser “jogado na lata de lixo onde a história já arremessou há tempos outros teóricos e práticos do comunismo, como Lenin, Stalin, Trotsky, Mao e Fidel Castro”, os autores assumem uma perspectiva que reúne o pior da escola positivista do século XIX - como se a história fosse uma sucessão de etapas, uma melhor que a outra - ea notória concepção de Francis Fukuyama, segundo a qual “a história acabou” com o triunfo do capitalismo.
Finalmente, a cereja do bolo: a afirmação da revista, de que Guevara deve ir para o lugar onde já estão outros próceres do totalitarismo esquerdista, seria o resultado de uma "perspectiva que reúne o pior da escola positivista do século XIX" - como se o Positivismo, na verdade, não fosse uma doutrina filosófica com traços em comum com o marxismo, em especial a crença nas etapas sucessivas e progressivas da História (feudalismo, capitalismo, socialismo... até a pretensa "sociedade comunista perfeita"). Enfim, tenta-se atribuir aos inimigos do totalitarismo - como a VEJA - uma visão que é, ironicamente, partilhada pelo marxismo. Assim, a frase de Fukuyama é distorcida - na verdade, ele fala em triunfo das ideias liberais - para tentar "recuperar" algo de legitimidade ao totalitarismo marxista, do qual Guevara foi um dos representantes. O mesmo poderiam dizer os seguidores de outros líderes totalitários, como Hitler e Mussolini. Qual visão histórica não seria discutível para os autores do texto? A marxista, ora.
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Certamente, o culto de Che Guevara continuará, e os mesmos que queimaram exemplares da VEJA dois anos atrás encherão páginas e páginas de blogs com protestos contra a jornalista Marlen Gonzalez e a favor de Benicio Del Toro. É algo normal, e acharia até estranho se fosse diferente. Afinal, a Síndrome de Peter Pan é uma doença que atinge a muitos, que se recusam a crescer e se apegam, doentiamente, a seus mitos de infância. Não lembro bem, mas eu certamente devo ter levado um choque tremendo quando descobri, com cinco ou seis anos, que Papai Noel não existe. Quem sabe um dia os esquerdóides e idiotas úteis que idolatram Che Guevara cairão finalmente na realidade?
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Enfim, toda a lengalenga contra a reportagem de VEJA, assim como contra qualquer um que tenha a coragem de desmascarar o verdadeiro Che, não passa de uma tentativa desesperada e ideológica de preservar um mito, semelhante a outros mitos que alguns idiotas ainda insistem em idolatrar, como Stálin e Mao Tsé-tung. Uma simples questão de propaganda. Mas contra os fatos não há propaganda que resista. Pelo menos enquanto houver imprensa livre.

A INCRÍVEL IGNORÂNCIA DE UM IDIOTA ÚTIL


O ator porto-riquenho Benicio Del Toro, que interpreta Che Guevara num filme que está para estrear por estas plagas, passou por uma saia-justíssima ao ser entrevistado pela bela jornalista de origem cubana Marlen Gonzalez, no programa Primer Plano, do canal "41 Noticias", de Miami. O video da entrevista, que desde a semana passada foi bastante visto no Youtube, mostra um Del Toro totalmente despreparado e balbuciante diante das perguntas incisivas da estonteante apresentadora. Em uma verdadeira aula de como deve ser uma entrevista, simplesmente o rapaz foi humilhado, deixando claro que não sabe nadinha de nada sobre o personagem, El Chancho ("O Porco"), que encarna no filme de Steven Soderbergh. Dá vontade de dar pena. Creio que, de agora em diante, Del Toro deverá mudar de nome para Del Becerrito ou Del Burro.

A jornalista começa a entrevista perguntando a Del Toro se ele não considerava uma provocação lançar o filme, que faz a apologia de Guevara, em Miami, onde vivem tantas vítimas do regime castrista. Del Toro, completamente surpreso e apatetado pela pergunta inesperada, esboça uma negativa. Marlen lhe pergunta então se um filme que mostrasse o "lado bom" de Hitler não ofenderia 15 milhões de judeus e a memória de 6 milhões de judeus mortos no Holocausto. Aí Del Toro veio com a seguinte pérola: gaguejando, ele diz que não crê que Guevara, ao contrário de Hitler, tenha criado algum campo de concentração... Pois é: o rapaz não sabe nada sobre a carreira do carcereiro-mor de Cuba, quando o bravo revolucionário argentino foi o criador dos primeiros campos de concentração da ditadura castrista.

Estamos falando de assassinatos. Não é igualmente assassino quem mata um, cem, cem mil...?”, continua Marlen, deixando Del Toro ainda mais incomodado. Sem resposta, coitado, ele tentou comparar Che a um general durante a guerra... Um vexame.

Mas a saia-justa não terminou por aí. Ao lembrar as opiniões de Del Toro favoráveis sobre Che, feitas em uma infinidade de entrevistas, ela pergunta, na bucha, se ele sabia que o valente revolucionário, quando comandava a prisão de La Cabaña, mandou fuzilar mais de 400 prisioneiros. Del Toro dá uma resposta que já se tornou padrão em certos círculos: "Sabia. Muitos dos que foram fuzilados eram terroristas..." Aí é que Marlen completa o massacre: Nada disso, ela diz. “Noventa por cento eram presos de consciência. [morreram] Simplesmente por discordar do sistema nascente, por pensar diferente”. “Ah, não sabia disso”, suspira o ator...

No final, a apresentadora lembra uma frase de Che, o humanista: “A ação mais positiva e forte, independentemente de qualquer ideologia, é um tiro bem dado, no momento certo, em quem merece”. Uma frase típica de um bravo general em campo de batalha, como se vê. Del Toro, que àquela altura já havia virado um bezerrinho, pergunta a Marlen de onde ela retirou aquelas informações. Marlen então lhe presenteou com o livro Guevara: Misionero de la Violencia, do historiador cubano e ex-preso político Pedro Corzo.

Alguns podem dizer que Del Toro é apenas um ator, e que suas opiniões não devem ser levadas em conta. Nada disso. Dele não se espera, claro, um conhecimento acadêmico sobre Che e a Revolução Cubana. Mas, como qualquer pessoa, não lhe é dado flertar com a mentira e a mistificação, repetindo bobagens como se fossem a verdade. Em uma infinidade de entrevistas, ele andou pelo mundo declarando seu amor pela figura do revolucionário-fuzilador, posando de "engajado". Criticou, inclusive, o embargo norte-americano à ilha de Cuba, embora não tenha feito nenhuma menção à ditadura castrista, a verdadeira causa da penúria e da falta de liberdade na ilha-prisão. Chegou a dizer, com aquela atitude frívola típica de tantos em Hollywood, que comparava Guevara ao Batman. Fidel, pelo visto, deve ser o Homem-Aranha. E Stálin é o Super-Homem.

A ideia de que "é apenas um ator" não é desculpa para a ignorância. Ainda mais quando o sujeito não cansa de repetir que, para interpretar o personagem, ele se preparou por SETE ANOS (pelo visto, a preparação de Del Toro deve ter sido lendo os livros de Frei Betto e Emir Sader...). No momento em que aceitou estrelar e produzir um filme que enaltece um assassino como Guevara, Del Toro deveria saber que um filme sobre tal personagem não seria apenas uma "obra de arte", e que estava assumindo um papel também de formador de opinião. Não por acaso, o filme está sendo bastante elogiado em Cuba.

Benicio Del Burro, digo, Del Toro, não é "apenas um ator", assim como José Saramago não é "apenas" um escritor, nem Oscar Niemeyer é "apenas" um arquiteto. Todos esses são conhecidos, principalmente, pelas suas opiniões políticas pró-comunistas e pró-totalitárias. Ao revelar todo seu despreparo e todo seu desconhecimento sobre um personagem histórico que não cansa de elogiar, Del Toro entrou para a mesma galeria dos Jimmy Carter, dos Sean Penn, dos Michael Moore e dos Oliver Stone, ou seja: dos idiotas úteis e cretinos fundamentais.

Meus parabéns a Marlen Gonzalez, que mostrou que beleza e inteligência podem ser compatíveis e deu um show de bom jornalismo, ao não se deixar deslumbrar pelas luzes do show business e encostar na parede mais um "useful idiot". É uma pena que nós aqui só tenhamos os Zecas Camargos da vida...

terça-feira, fevereiro 03, 2009

SAIBA O QUE ACONTECEU NO FORUM SOCIAL MUNDIAL DE BELÉM DO PARÁ


Aí vai uma pequena reportagem do jornal O Liberal, de Belém (PA), sobre o tal Forum Social Mundial, que aconteceu na semana passada na capital paraense. Dá uma ideia geral sobre o que foi o tal encontro dos que defendem "um outro mundo possível". Leia aqui o que você não viu no Jornal Nacional e veja para o que serviram os mais de R$ 100 milhões que o governo Lula investiu na brincadeira:
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Cotidiano de um mundo “alternativo”

JOSUÉ COSTA


Da Redação

Afinal, qual o perfil do novo mundo que o Fórum Social Mundial (FSM) 2009 acha possível construir? As respostas dos seus participantes não são uníssonas. Os dois territórios do evento mostram um abismo entre o que se diz e o que se faz. O clamor por uma sociedade mais justa que vem das tendas parece conviver de mãos dadas com cenas de ilegalidade, consumo de drogas e exploração do trabalho infantil, entre outras mazelas distantes do propósito do evento, mas que se tornaram corriqueiras no cotidiano dele.

'Não acredito que outro mundo é possível com essa dispersão', criticou, em alta voz, para uma platéia de cerca de 30 universitários, o jovem Fábio Felix, coordenador do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Brasília (UnB). A crítica do estudante candango repousa, em parte, no que vê: nem todos os participantes do evento estão nos territórios para reunir, discutir, aprovar ou reprovar demandas voltadas para a construção do tão sonhado mundo novo.

Os territórios das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (Ufra) servem de chão para muitos participantes que vivem completamente indiferentes ao que acontece nas tendas e outros palcos de discussão das propostas. São tantos que não se pode dizer se são minoria ou maioria. Estão por toda parte, no vai-e-vém dos corredores asfaltados, sequer se importando com o propósito do FSM. Na Ufra, as cenas que reforçam o abismo são mais frequentes.

COMÉRCIO

Nas universidades, acontece de tudo - ou quase tudo. Dentro das tendas, nem sempre com seus assentos todos ocupados, vê-se gente valorizando o evento, fazendo valer o propósito do encontro, expondo e debatendo a pauta programada. Fora delas, no entanto, o cenário é degradante: trabalho infantil, consumo de drogas, comércio informal desorganizado e comercialização de produções piratas, como CDs e DVDs, aqueles mesmos que a Polícia combate fora desses territórios.

Na manhã de ontem, por exemplo, por volta das 10 horas, no território da Ufra, a reportagem acompanhou parte dos passos de um grupo de cinco estudantes que, mais tarde, descobriu-se, veio de Feira de Santana, na Bahia. Nesse horário, o grupo tomava o café da manhã numa barraca. Tapioquinha, pão, café, cigarro de maconha e o 'Loló', que é a inalação de jatos de um spray sobre uma flaneja, faziam parte do cardápio. Tudo a céu aberto, em meio à multidão, sem qualquer discrição. Terminaram e caminharam. Tomaram rumo contrário a todas as tendas de discussão.

DROGAS

Na perspectiva dos valores que abraçam, nada de errado no comportamento do grupo nordestino se, pertinho da barraca do café da manhã, não estivesse acontecendo um encontro de estudantes, cuja postura estava afinadíssima com o propósito do evento. Eram em torno de 30. Muita tenda para pouca gente. A quantidade, pelo que se via e ouvia, era superada pela qualidade. Foi lá que a reportagem entrevistou Fábio Felix.

O estudante da UnB esbravejava exatamente contra os 'dois' FSMs que acontecem em Belém: o dos que valorizam a proposta e dos que, mesmo presente nos territórios, estão para outros fins. Felix, como quem fala de cima de um trio-elétrico disparava críticas à organização do evento. 'Não tenhamos dúvidas de que este fórum, financiado pelo governo, foi preparado exatamente para esse fim: dispersar. Ele (governo) preparou uma programação e montou uma infraestrutura nitidamente para provocar dispersão, desinteresse e, assim, evitar críticas, críticas contra o governo Lula e contra o governo Ana Júlia', disparou o rapaz, recebendo demorados aplausos.

Nem Eduardo Freitas, da organização da Associação Secreta dos Maconheiros Assumidos, concordava com o que via. 'Nossa orientação não reprime o consumo da maconha, mas pede discrição, orientando o consumidor a não se expor, fumando, por exemplo, na frente das crianças', ponderou o rapaz, discordando das cenas que lhe eram apontadas.
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Uso de entorpecentes como a maconha foi frequente durante a semana
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Se fumar maconha na frente de crianças é desaconselhável, muito mais é submeter essas mesmas crianças ao trabalho. Trabalho infantil, aliás, conforme soam as vozes das tendas, é crime. Mas, enquanto o combate está reservado para outras circunstâncias, nos territórios do Fórum Social Mundial (FSM) 2009 é comum ver crianças trabalhando. 'É R$ 1, R$ 1. Água mineral geladinha. Só R$ 1', gritava João Paulo dos Santos, 12 anos, na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), na manhã de ontem.

Morador da Terra Firme, disse que estava judando o pai, que estava perto do filho, com outra venda. E perto deles, o comércio de CDs e DVDs piratas. Outra cena de ilegalidade. Indagado se havia orientação para reprimir o consumo de drogas, o bombeiro militar Pessoa não quis responder. Limitou-se a dizer que só o oficialato da corporação poderia conceder entrevista. Ele, oficial, e mais quatro colegas estavam de prontidão perto de uma barraca onde a fumaceira da erva tragada lhes chegava no rosto.
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COELHOS
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'Isso era previsto', avaliou Trajano de Jesus, chefe de Segurança da Ufra. Trajano, que conta com um efetivo de 38 homens desarmados, diz que a única preocupação de sua tropa é defender o patrimônio. Nesse sentido, tudo em ordem, à exceção do sumiço de quatro coelhos, que foram parar numa panela de um acampamento. 'Nesses dias, quem manda são eles. Deixamos de ser Ufra para sermos o território do Fórum', contemporiza.
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Outras preocupações, afirma Trajano, existem. E dizem respeito ao comportamento de grupos de participantes. Na última quinta-feira, por exemplo, ele saiu de casa para o trabalho às 6 horas e retornou à meia-noite. À 1 hora da madrugada o telefone tocou. Foi chamado para resolver um problema de um som que tocava em alto volume, numa tenda de acampamento. (J. C.)
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Comento
Pois é... Como é mesmo aquela conversa, de que "um outro mundo é possível"? Não tenho nada contra o sujeito encher os pulmões de fumaça de erva se quiser, desde que não seja com o dinheiro público - quer dizer, com o meu, o seu, o nosso suado dinheirinho. Também não tenho nada contra organizar uma bacanal, com muito sexo e bebida, desde que o façam às próprias expensas. Fiquei sabendo que o governo - que paizão é o governo Lula! - distribuiu 600 mil camisinhas no evento. Querem fumar? Que fumem. Querem cheirar? Que cheirem até virarem uma uva passa. Querem transar? Que transem até esfolar o couro. Só não aceito que façam isso às custas dos impostos que todos pagamos. Também não me peçam para levar a sério esse papo furado de "outro mundo é possível", por favor...

Esse Forum Social Mundial já virou uma piada, um misto de Woodstock com feira de produtos ideológicos com data de validade vencida. Não passa de uma gigantesca convenção de bichos-grilos, um convescote esquerdista-indigenista que serve apenas para fazer a alegria de quem está no cio e de palanque para os Hugo Chávez da vida. Ao contrário do que dizem alguns, que acreditam que esse tipo de encontro serve para alguma coisa útil. Nenhum debate sério, nenhuma discussão substantiva sobre nenhum assunto. Apenas a eterna reiteração de velhos chavões e slogans esquerdóides e anticapitalistas, gritados em geral por adolescentes de classe média entediados e em busca de um estilo de vida, digamos, "alternativo". Uma esbórnia, enfim, bancada com o dinheiro público. Até a "Associação Secreta dos Maconheiros Assumidos" (!) achou que a "galera" extrapolou.

Já estive em alguns encontros de estudantes, quando eu estava na faculdade, e, francamente, é tudo uma palhaçada! Ainda há quem insista em dizer que esses encontros servem para alguma coisa, mas é tudo uma grande presepada. O que há é muita bebedeira, muito sexo inconseqüente, muita maconha e outras coisas mais pesadas, e nada, absolutamente zero de seriedade. Acreditem: esse tipo de encontro serve só para isso, e nada mais. A diferença é que nós mesmos bancávamos nossas idas para esses festivais etílico-ideológicos, não recebíamos um centavo do governo para nossas farras homéricas. Fazíamos nossas presepadas, mas com nossos caraminguás. Também não explorávamos o trabalho infantil enquanto discursávamos contra o neoliberalismo, a globalização etc.
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Depois do Bolsa-Família e do Bolsa-Terrorismo, eis aí o Bolsa-Maconha e o Bolsa-Camisinha. Aonde mais os lulistas vão chegar?

sexta-feira, janeiro 30, 2009

EXTRADITEM TARSO GENRO!


Um leitor me mandou um link para que eu juntasse meu nome a um abaixo-assinado de repúdio à decisão do Ministro da Justiça, Tarso Genro, de conceder status de refugiado político ao terrorista italiano Cesare Battisti e negar sua extradição para a Itália (http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/3794). O abaixo-assinado é uma resposta a outro, firmado por 505 figuras conhecidas e nem tão conhecidas da nossa esquerda tunipiniquim, como Oscar Niemeyer e Emir Sader, a favor da decisão. A ideia é produzir um documento com mais assinaturas do que o outro, para ser enviado a Tarso Genro.

Ainda não coloquei minha assinatura no abaixo-assinado. Considero a iniciativa válida, mas, devo confessar, manifestos desse tipo não fazem meu gênero. Sei que o objetivo é justo e bem-intencionado, e que a pessoa que me mandou o link está coberta de razão. Mas não sei se adiantaria alguma coisa. Manifestos e abaixo-assinados, para mim, são um subgênero literário, e têm mais a ver com nossos artistas e "intelequituais" de esquerda, muitos dos quais transformaram a confecção de tais documentos coletivos em sua maior - senão, a única - produção artística e acadêmica. Além do mais, o texto será endereçado a Tarso Genro, que certamente nem se dará ao trabalho de lê-lo, devendo terminar repousando, esquecido, em alguma gaveta empoeirada do Ministério da Justiça. Tudo bem que o objetivo não é convencer Tarso a mudar de ideia, mas firmar posição de uma parte da sociedade contra a concessão do refúgio a Battisti, mas não consigo evitar uma certa sensação de frustração em apôr meu nome em algo que não será lido pelo destinatário.

Muito melhor seria, a meu ver, solicitar a extradição de Tarso Genro. Não sei a quem isso poderia ser solicitado, nem se a proposta é factível (desconfio que, infelizmente, não é), mas a ideia me parece muito mais interessante do que qualquer manifesto ou abaixo-assinado contra a decisão do governo brasileiro de não devolver a Itália um terrorista homicida. Tarso Genro já demonstrou que é um perigo para os brasileiros. É uma ameaça à nossa segurança, a perfeita antítese do que se espera que seja um Ministro da Justiça. O mínimo que se poderia esperar seria querer que nos livrássemos dele de uma vez.

O que dizer de alguém que ocupa a pasta da Justiça e concede refúgio político, à revelia da lei italiana e da do próprio País, a um criminoso condenado à prisão perpétua por quatro homicídios na itália? E que, ao tentar justificar essa sua decisão, que provoca uma desnecessária crise diplomática, mentir deslavadamente, ao ter dito que o citado terrorista "não teve o direito de defesa" e "corre o risco de perseguição política" em seu país de origem, como se a Itália fosse uma ditadura bananeira qualquer? E que mentiu novamente, quando disse que a condenação de Battisti havia-se baseado tão-só no depoimento de uma única pessoa, militante do mesmo grupo terrorista de ultra-esquerda, em troca do benefício da delação premiada, quando os documentos do caso revelam claramente que a condenação se baseou no depoimento não de uma, mas de DEZ testemunhas, que viram Battisti na cena dos crimes e participando das mortes?

O que dizer de um Ministro de Estado da Justiça que, agindo como verdadeiro capitão-do-mato, mobiliza a Polícia Federal para prender dois boxeadores cubanos que tentavam fugir da ilha-prisão do Caribe e que os coloca, em tempo recorde e no meio da noite, em um avião fretado pelo governo de Hugo Chávez da Venezuela, de volta para Cuba? E que, ao tentar justificar esse seu ato, afirmou categoricamente que os dois atletas haviam se apresentado "voluntariamente" e "praticamente imploraram" para retornar a seu país, tendo sido pego mais uma vez na mentira, quando, algum tempo depois, um dos atletas, aproveitando a primeira oportunidade, evadiu-se da ilha para a liberdade? (Detalhe: os cubanos NÃO RESPONDIAM A NENHUM PROCESSO PENAL em seu país.)

O que dizer de um Ministro da Justiça que propõe a revisão da Lei de Anistia, promulgada em 1979 e que perdoou tanto terroristas de esquerda quanto agentes da repressão política, sob o pretexto de que o crime de tortura é imprescritível, mas que não diz uma palavra sobre a imprescritibilidade do terrorismo? E que, no afã de justificar o revanchismo, chega ao ponto de desmentir as próprias organizações armadas de esquerda, ao dizer que não considera terrorismo a luta armada dos anos 60 e 70?
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Ainda há quem pense que a decisão de Tarso Genro em conceder refúgio político a Cesare Battisti foi o resultado de uma leitura equivocada do processo, e não de puro e simples favorecimento ideológico. Bobagem. Basta perguntar: se Cesare Battisti fosse um ex-membro de uma organização fascista, de extrema direita, ao invés de ter militado no Proletários Armados para o Comunismo (PAC), a decisão de Tarso Genro seria a mesma?

Quando Márcio Thomaz Bastos foi nomeado Ministro da Justiça para livrar a cara de Lula e sua quadrilha das acusações do mensalão, eu achei que os petistas haviam atingido o fundo do poço. É que eu não sabia que o sucessor de Bastos seria Tarso Genro.

Que tal um abaixo-assinado pedindo a extradição de Tarso Genro para Cuba? Eu assino!

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Um diálogo sobre discursos (ou: da necessidade de recolocar frases no contexto)

Criança palestina vestida de terrorista em manifestação do Hamas:
Isso, Israel não faz

(É necessário ler primeiro meu texto "Escudos humanos, um problema da humanidade")
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Escreveu-me Pablo Capistrano, um conterrâneo filósofo com quem troco umas ideias de vez em quando. Ele em vermelho. Comento em preto.

Oi Gustavo, mais uma vez eu agradeço a repercusso do meu artigo no seu Blog e queia escarecer apenas alguns pontos:

1. A infrmação sobre o Olmet foi retirada da TV, acho que a fonte não estava bem informada, mas não importa posto que veio de uma autoridade israelense.
Tudo bem, Pablo, erros acontecem. Ainda mais quando a fonte em que nos baseamos é a TV. Normal.

2. A questão dos atentados me referia aos homens bomba e não as miseis do Hammas ou Hezbolah, voce tem razão em relação aos miseis mas deve concordar comigo que após a construção do muro na cijordânia e as medidas de segurnça do estado de israel os atentados com homen bomba diminuiram significativamente.
Que bom que você concorda que o muro cumpriu e cumpre uma importante função de segurança. É bom lembrar que, quando ele começou a ser construído, se não me engano durante o governo de Ariel Sharon, não faltou quem criticasse a decisão de Israel de erguê-lo, comparando-o, inclusive, com o Muro de Berlim, o que é um absurdo em todos os sentidos. Finalmente, parece que reconheceram que o muro é uma necessidade!... Isso vai direto à essência da questão - Israel é um Estado sitiado e diariamente ameaçado de destruição, e tem o direito de defender-se. Algo com o que você concorda, como está escrito mais adiante.

3. o que eu crítico no meu artigo não é a política militar israelense nem a existência do estado de israel. O que eu fiz no meu artigo foi algo que não se reduz a análise política das ações militares, eu analisei o discurso, algo que para mim, como filósofo me parece mais problmático no momento.
Perdão, Pablo, mas não vejo como separar a crítica do discurso da crítica da ação israelense em Gaza. A frase que você criticou - "nós cuidamos de nossas crianças" - não pode ser retirada do contexto em que foi pronunciada. E o contexto foi a guerra de Israel contra o Hamas em Gaza. Peres estava se referindo a uma prática do Hamas que foi sistematicamente omitida pela imprensa: a de usar os civis palestinos (principalmente, crianças) como escudos humanos, a fim de provocar mortes entre a própria população e assim indispor a opinião pública mundial contra Israel. Nesse contexto, convenhamos, não é preciso ser antissemita para concluir que Israel não tem o direito de se defender - ou de existir.
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Infelizmente, a sua interpretação da frase como tendo algo de "racista" e "etnocêntrico" vai nesse sentido. Vou lembrar aqui o que você escreveu: "Quando a autoridade israelense fala "nós cuidamos de nossas crianças" ele acaba se aproximando de um discurso de tipo (1). Um discurso de exclusão, cisão, separação. O problema não é meu, porque aquelas não são "minhas crianças". As crianças dos outros são um problema dos outros, das minhas cuido eu. Curiosamente esse é o discurso do Hamas, que obviamente não vai se preocupar com as crianças israelenses, porque eles pensam que estão defendendo as crianças palestinas (apesar de enchê-las de bombas, usa-las como escudo ou lançá-las em um martírio suicida e inútil). O sinistro é justamente que, com essa declaração o discurso da autoridade israelense e dos grupos que eles tentam combater se torna o mesmo".
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Em outras palavras: segundo sua interpretação do discurso, Peres estava dizendo algo assim: "Estou me lixando para as crianças palestinas; não é problema meu etc." Não é preciso ser especialista no conflito israelo-palestino para perceber que esta é uma interpretação truncada e retirada do contexto. Isso porque a questão subjacente ao discurso de Peres, e que não foi levada em conta, foi a dos ESCUDOS HUMANOS, que Peres estava denunciando. Mas o que ficou foi a suposta "arrogância racista e etnocêntrica" da autoridade israelense.
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O curioso é que, mesmo que sua interpretação da frase de Peres fosse verdadeira, Pablo, este não seria ainda o discurso do Hamas, porque o Hamas, ao contrário de Israel, não dá a mínima para as crianças dos dois lados - israelense ou palestino.
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4. Acho que mesmo no contexto que você situou a resposta do Peres (ou Olmet) foi equivocada. Ela não condiz com os princípios étcos do judaismo nem com os preceitos morais da religião de Moisés, principalmente quando dito por um lider de governo. acho que ele poderia ter sido mais feliz na resposta.
Já escrevi sobre o verdadeiro significado da frase de Peres, e deixo claro que não se tratou de nenhuma afirmação "racista" ou "etnocêntrica". Francamente, não sei se isso condiz ou não com os princípios éticos e morais da religião de Moisés, até porque, ao contrário do que pensam os terroristas do Hamas, a questão não é religiosa: é, isso sim, uma questão de civilização versus barbárie. A superioridade moral de Israel em relação ao Hamas é um fato irrefutável. É por isso que eu, mesmo não sendo judeu, me perfilo ao lado de Israel contra os que querem destruí-lo. Creio que não preciso dizer aqui que lado representa a civilização, e qual lado, a barbárie. Ver "racismo" e "etnocentrismo" na frase de Peres, mesmo truncada como foi pela imprensa, como se fosse um sinal verde para as tropas israelenses "massacrarem" as criancinhas palestinas, francamente, é algo que não pode ser levado a sério.

5. acho que você não conseguiu entender o que Kant disse, e o fato de você apoiar a causa de Israel contra o Hamas (o que para mim é plenamente legitimo e que de certa forma eu também apoio) acabou fazendo com que você perdesse a dimensão de que há, nos dois lados do conflito, uma perigosa semelhança. A ideia de uma "terra sem povo para um povo sem terra" é mais semelhante a retórica do Hammas do que você percebeu.
Sobre Kant, não vou falar, pois você certamente sabe mais do assunto do que eu. Apenas me ative ao que você escreveu, citando o grande filósofo, que era contra qualquer tentativa de compartimentalizar a humanidade, para expressar que considero a defesa de Israel uma causa não de uma nação ou de uma tribo, mas da humanidade. Você diz que minha postura, de apoio a Israel contra o Hamas, é plenamente legítima e que "de certa forma" também a apóia, pelo que eu o felicito (a maioria dos comentaristas, infelizmente, acha normal manter-se "neutro" entre Israel e o Hamas, como se fosse possível a neutralidade entre a corda e o pescoço). Mais uma vez: parabéns por essa sua posição! Só não concordo quando você diz que colocar-se ao lado de Israel contra o Hamas me faz perder de vista a existência de uma "perigosa semelhança" entre os dois lados do conflito. Primeiro, porque, ao menos que Israel queira abertamente riscar o Estado palestino do mapa e exterminar sua população, não há semelhança alguma entre os dois lados. Segundo, porque o lema "uma terra sem povo para um povo sem terra" não corresponde, em hipótese alguma, à política de Israel em relação aos palestinos na atualidade, tendo sido empregado nos primeiros anos do movimento sionista para justificar a emigração de judeus para a região, a partir do final do século XIX. Terceiro, mesmo esse lema equivocado e historicamente datado não condiz com os objetivos e métodos de grupos como o Hamas: ao contrário dos sionistas de cem anos atrás, seus membros sabem muito bem que o Estado que eles querem destruir é habitado, e não fazem segredo de sua intenção de varrê-lo do mapa. Enfim, afirmar qualquer semelhança ou equivalência moral entre Israel e o Hamas é - insisto - uma rematada falsidade, que só beneficia o lado dos que querem destruir Israel.
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6. Isarel tem o direito de existir e ele não pode ser destruido, o estado de Isarael é uma realidade asim como a existência do povo palestino. Mas Israel precisa do discurso correto para legilitimar-se moralmente e se manter do lado da justiça.
Novamente, Pablo, meus parabéns por você reconhecer o direito de Israel existir. Com isso, você está se diferenciando de nove em cada dez analistas "sérios" que, nos últimos dias, não cansaram de repetir na TV, até a exaustão, o mantra da "reação desproporcional" de Israel contra o Hamas (como se Israel devesse, em nome da proporcionalidade, provocar um genocídio em Gaza). Alguns chegaram mesmo, no auge da demência, a fazer comparações completamente descabidas entre a luta de Israel contra o Hamas e o... nazismo! Isso demonstra até que ponto o antissemitismo, velado ou não, já tomou conta da cobertura do conflito no Oriente Médio. Felizmente, ao que parece, você não compactua com esse discurso imoral e calhorda. Faço apenas um adendo: mesmo que o discurso do Shimon Peres fosse incorreto (o que não foi o caso), isso não iria mudar muita coisa: independentemente do discurso que tenham as autoridades israelenses, e até de quais sejam suas ações (basta ver a história da região nos últimos nove anos), os atentados terroristas do Hamas e do Hezbollah, assim como a mentalidade antissemita de parte da opinião mundial, continuariam do mesmo jeito. Infelizmente, para os inimigos de Israel, não importa o que seus líderes digam ou façam, a legitimação moral do Estado de Israel jamais será por eles reconhecida. Diante disso, resta a Israel apenas defender-se. É uma pena que tanta gente considere isso uma atitude "racista" e "etnocêntrica".
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Enfim, aí vai um resumo da questão:

- Israel é um Estado democrático e tem o direito de existir e de se proteger;

- Os inimigos de Israel, como o Hamas, juraram destruí-lo e exterminar sua população;

- A ação militar israelense em Gaza foi defensiva e visou a eliminar ou debilitar essa ameaça;

- No decorrer da ação de Israel em Gaza, o Hamas não hesitou em usar a população palestina, inclusive crianças, como escudos humanos;

- A maior parte da opinião pública mundial mordeu a isca e se colocou contra Israel, acusando-o inclusive de promover um "massacre" em Gaza;

- Diante das acusações, Shimon Peres tratou de colocar os pingos nos is, ao dizer que, ao contrário do Hamas, Israel cuida de suas crianças;

- A frase foi interpretada por muitos como uma demonstração de arrogância de Israel, e não como a constatação de uma realidade óbvia: Israel, ao contrário do Hamas, não usa crianças como escudos humanos para ganhar pontos na guerra de propaganda.

Tudo isso apenas comprova uma coisa: há uma campanha sistemática anti-Israel, e quase ninguém se dispõe a defendê-lo dos verdadeiros racistas e genocidas.

Cada vez mais concordo com a frase de Golda Meir: "Prefiro receber protestos a receber condolências".

O resto é conversa pra boi dormir.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

AS IMPRESSIONANTES CREDENCIAIS DO BRASIL

Como todos sabem, desde que Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse no Palácio do Planalto, uma Nova Era se iniciou na História deztepaís. O Brasil, que antes era um quintal dos EUA e uma colônia desimportante dos banqueiros internacionais, tornou-se, enfim, uma nação de respeito. Nosso prestígio e protagonismo nos assuntos mundiais, como o recente périplo do Chanceler Celso Amorim pelos países do Oriente Médio demonstrou cristalinamente, não cessam de crescer, arrancando aplausos e suspiros de admiração em todas as latitudes. Sob a mão digna e altiva do companheiro Lula, o Brasil caminha a passos largos para sair de sua posição periférica e subserviente e assumir um lugar de destaque na arena das relações internacionais, perfilando-se ao lado das grandes potências, com vez e voz nos grandes temas mundiais. Não por acaso, um dos objetivos mais persistentes de nossa diplomacia é, com toda razão, uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, onde poderemos ensinar o mundo como se comportar.
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Para que não fique nenhuma dúvida de que a política externa brasileira realmente entrou em uma fase gloriosa em sua História, e de que o Brasil reúne todas as credenciais para colocar-se entre os grandes do mundo, vou me restringir a elencar algumas importantes conquistas alcançadas nos últimos anos, em apenas uma área: a dos Direitos Humanos. Vejam como, nesse campo, já nos colocamos na vanguarda mundial, podendo dar lição de moral a qualquer país:

- Em 2006, o Brasil votou contra a condenação do governo do Sudão no Conselho de Direitos Humanos da ONU. A invejável democracia sudanesa estava sendo acusada de promover uma campanha de extermínio da população da região de Darfur. O Brasil, coerente com sua tradição de pacifismo e de respeito à lei internacional, negou-se a reconhecer, como fez a ONU, que o que estava acontecendo em Darfur, e continua a acontecer, é um genocídio. O voto brasileiro foi correto, como se verifica pelos 300 mil mortos na região desde 2003.

- No mesmo órgão da ONU, e também de forma coerente com sua tradição legalista e democrática, o Brasil se absteve de condenar o regime de Cuba pelo fuzilamento e prisão de dissidentes que cometeram o terrível crime de querer ausentar-se do país ou de criticar o governo. Novamente, uma decisão sábia, baseada no princípio da não-politização da questão dos Direitos Humanos. A não-politização dessa questão, realmente, é uma cláusula pétrea da atual diplomacia brasileira, como veremos a seguir.
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- Ainda sobre Cuba, em 2007 o governo brasileiro, fazendo jus à sua reputação de farol da democracia, e não querendo politizar a questão dos Direitos Humanos, devolveu ao governo cubano dois boxeadores que queriam aproveitar os Jogos Pan-Americanos, então disputados no Rio de Janeiro, para cometer a terrível aleivosia e crime de lesa-humanidade de escapulir de seu país para a Europa. Seguindo todos os trâmites e procedimentos da lei internacional, e em plena conformidade com as normas do Estado de Direito democrático, bem como da não-politização da questão dos Direitos Humanos, o Ministério da Justiça apreendeu os dois atletas e meteu-os, no meio da noite, num avião fretado pela Venezuela de volta a Cuba, onde lhes foram dadas, como sabemos, todas os garantias (menos a de competir outra vez fora da ilha, mas isso é um detalhe). O ministro da Justiça do Brasil, o grande humanista Tarso Genro, acalmou a todos, dizendo que os pugilistas haviam praticamente implorado para voltar a Cuba. Há alguns meses, um dos atletas, ingratamente, comprovou que realmente implorara para ser devolvido a Cuba, ao reincidir no delito e aproveitar a primeira oportunidade para fugir para a Europa... O governo brasileiro também se negou a condeder refúgio a opositores do governo boliviano de Evo Morales, que, como sabemos, já se mostrou um amigo do Brasil, tendo uma predileção especial pelas refinarias da Petrobrás.

- Com outro país latino-americano, a Venezuela, a diplomacia independente e altiva do Itamaraty também não tem deixado de dar mostras de grande apreço pela democracia. Um exemplo eloquente do compromisso de nossa atual política externa com os valores democráticos está na atitude do governo Lula no tocante ao fechamento de um canal de televisão pelo governo de Hugo Chávez, um conhecido democrata. Diante de algumas críticas de alguns pessimistas e sombrios de plantão, nosso Guia Genial deixou clara a posição do governo brasileiro sobre o que está acontecendo no país vizinho: a Venezuela, segundo Lula, tem "democracia até demais".

- No começo de 2008, mais uma vez o Brasil deu uma demonstração de todo o equilíbrio e sabedoria de sua política externa, durante a crise entre Colômbia e Equador por causa da morte do dirigente número dois das FARC pelo Exército colombiano em território do Equador. Sabiamente, como sempre, o governo Lula colocou-se ao lado do Equador, cuja soberania foi violada, contra a Colômbia, que, como sabemos, agiu por pura maldade, pois não tem problemas com terroristas que usam as fronteiras de outros países. O Brasil foi mais além, e aproveitou o episódio para reiterar que não reconhece as FARC como terroristas, como declarou Marco Aurélio Garcia. A posição acertada do Brasil foi ainda mais fortalecida quando foi revelado que o governo do Equador dá abrigo e apoio às FARC.

- Mais recentemente, o governo brasileiro reforçou ainda mais suas credenciais humanistas, ao condenar a ação militar de Israel na Faixa de Gaza, mas não o Hamas. É que Israel, como é notório, agiu por pura perversidade, para atingir de propósito prédios da ONU e matar o maior número possível de criancinhas palestinas, enquanto o Hamas, como também é notório, é como as FARC para o Brasil. Evidentemente, isso qualifica plenamente o Brasil como um mediador para alcançar a tão sonhada paz na região. Quem sabe vem aí um Prêmio Nobel.

- Ainda há poucos dias, o governo brasileiro demonstrou todo seu tirocínio na defesa intransigente dos princípios democráticos, ao conceder o status de refugiado político a um italiano, Cesare Battisti, foragido da Justiça de seu país por algumas ideias políticas, como matar quatro pessoas à queima-roupa nos anos 70. Na ocasião, Tarso Genro justificou a decisão, pois afinal trata-se de um país, a Itália, que, ao contrário de Cuba, é uma ditadura, na qual o acusado não teve nem teria nenhum direito de se defender. O governo da Itália, claro, não gostou. Mas, felizmente, temos Lula para defender a nossa soberania. Esta, aliás, consiste em peitar os mais ricos e pôr em dúvida os procedimentos jurídicos de outro país, como até uma criança sabe.
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Mas o caso Battisti não é o único a ilustrar nosso compromisso com a Lei e o Direito. Há alguns anos, o governo brasileiro concedeu refúgio a um ex-padre, Olivério Medina, que se apresenta como representante das FARC no Brasil. Sua esposa, aliás, trabalha como funcionária do Ministério da Pesca, para cuja sede em Brasília foi transferida a pedido de Dilma Rousseff, dedicando-se, desde então, a alfabetizar os pobres favelados do Lago Sul de Brasília. Em tempo: Tarso Genro deseja revogar a Lei de Anistia, para punir os que cometeram crimes políticos durante a ditadura militar no Brasil - menos, claro, os que o fizeram em nome de um ideal elevado e humanista, como o comunismo.

Como se vê, sob a batuta de Lula, Celso Amorim, Marco Aurélio Garcia e Tarso Genro, o Brasil está mesmo preparado para assumir um lugar de liderança entre os países defensores da Democracia e dos Direitos Humanos. Quem duvida que, com essas impressionantes credenciais, teremos nossa voz ouvida e acatada em qualquer foro internacional? Dá-lhe Brasil!

quarta-feira, janeiro 21, 2009

OBA-OBAmania

Devo confessar que não me emociono facilmente. Diante de uma cena ou de um discurso feito sob medida para arrancar lágrimas da plateia, geralmente eu me encrespo e procuro reprimir o máximo meu lado passional e sentimental, buscando guiar-me sempre pela razão. Não que eu seja um monstro de frieza e de insensibilidade. É que, diante de ondas de emotividade e de consensos fabricados, acho impossível não ficar com um pé atrás. Prefiro fazer o que pouca gente faz numa hora dessas: pensar.
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Se o motivo de emoção e histeria à minha volta é a posse de um presidente ou o discurso de um político, sou ainda mais radical. Simplesmente não consigo abrir mão do 0,0002% de meus genes que não compartilho com os chimpanzés e juntar-me à multidão ululante. Discursos - ainda por cima, de políticos - não me comovem nem um pouco. Antes, causam-me um tédio irreprimível. Não me entusiasmam, apenas me provocam bocejos de hipopótamo. Prefiro o zumbido de uma abelha ou de uma mosca a permanecer de pé, ou mesmo sentado, tendo os ouvidos e a inteligência massacrados por uma catarata de promessas e frases de efeito, tão vazias quanto as cabeças para as quais se dirigem.
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Foi exatamente assim, profundamente entediado, que me senti ontem, ao ver pela televisão a cerimônia de posse de Barack Obama na presidência dos EUA. Tem gente que está chorando até agora. Afinal, era um "momento histórico". Teve uma repórter, se não me engano da Globo, que achou isso pouco, e tascou um "esse é um momento histórico na história da humanidade". Só faltou dizer que estava presenciando o advento do novo Messias, o redentor da espécie humana. Aliás, para muita gente, era isso mesmo que estava acontecendo.

Em seu discurso de posse, Obama falou em "reconstruir" a nação (ela foi destruída?). Esse tipo de discurso, em vez de me entusiasmar, me dá calafrios. A ideia de "reconstrução" do país - ou do mundo - é algo presente nos discursos de todos os líderes ditatoriais do século XX, de Hitler e Stálin a Fidel Castro e Hugo Chávez. Traz em si um claro componente de messianismo salvacionista, algo tão conhecido de nós, brasileiros. Não duvido que já estejam acendendo velas para Obama em alguns lugares dos EUA, assim como já estão acendendo velas para São Luiz Inácio em algumas cidades do interior do Nordeste. Uma das frases do discurso de Obama foi "a esperança venceu o medo". Impossível evitar a impressão de déjà vu.

Obama é o presidente "histórico". Sua eleição está sendo considerada, por dez em cada dez veículos da grande imprensa, uma vitória contra o racismo e um raio de esperança para a humanidade. Quanto a ser uma vitória contra o racismo, já escrevi sobre isso, e acho que foi exatamente o contrário - Obama dificilmente teria sido eleito não fosse justamente a questão racial, ou seja, o fato de ser (americanamente, diga-se) negro. Com relação à segunda questão, de se Obama é ou não uma esperança, é aqui que tenho minhas maiores dúvidas. A vitória de Obama pode ser creditada a uma série de fatores, inclusive à crise financeira mundial, mas é inegável que foi também uma vitória dos inimigos dos EUA. Muitos que torceram por ele compartilham da visão segundo a qual os EUA só agem, e o mundo reage. O terrorismo islamita, por exemplo, é visto, segundo essa visão, sempre como uma forma de reação, de resposta, à política externa norte-americana. O discurso de Obama, ao proclamar que guerras se vencem com mais do que armas e ao prometer diálogo com regimes como o do Irã, vai nessa direção. Soube que ele pretende fechar a prisão de Guantánamo e conversar também com Raúl Castro, que governa um regime que mantém umas 600 Guantánamos na ilha-prisão de Cuba, mas ninguém - principalmente, os que votaram em Obama - dá a menor bola para esse último detalhe.

Outro fato interessante é que, com a aposentadoria de George W. Bush, os devotos de Obama terão um problema pela frente. Com Belzebu fora da Casa Branca, quem irão demonizar e culpar por todos os males do mundo? O novo Satã para se atirar o sapato já foi escolhido: Israel, contra o qual os idiotas úteis e arautos do "outro mundo possível" já voltaram suas baterias de ódio, inclusive de antissemitismo disfarçado. De fato, pouco importa quem esteja na Casa Branca: por trás do ódio a Bush, estava o ódio aos EUA, que é anterior a Bush e continuará a existir durante o governo Obama, pois suas raízes são muito mais profundas. A diferença é que, com Obama na presidência, há a possibilidade de o discurso do Blame America First tornar-se oficial, para gáudio dos que se alegraram com os atentados de 11 de setembro.
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Aliás, para sermos justos, até isso é duvidoso no que concerne a Obama. Vamos lembrar. Ele montou uma equipe de governo composta de algumas figuras previsíveis e outras, como o responsável pela segurança, oriundas da Era Bush. Isso demonstra como os slogans de "mudança" que embalaram a campanha podem ser - pelo visto, são - vazios e eleitoreiros. É mais um detalhe a aproximar Obama de seu colega Lula da Silva. O Apedeuta, como sabemos, copiou a política econômica de FHC, que passou anos atacando com fervor jesuíta. Hoje, com aquele seu jeito misto de Rolando Lero e Dercy Gonçalves, reivindica até a paternidade da estabilidade econômica... O que leva à seguinte conclusão sobre os dois presidentes: tanto num caso como em outro, eles se opunham a seus antecessores, não a suas políticas.
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No começo deste texto afirmei que, diante de ondas de irracionalidade coletiva, não consigo abandonar meu lado racional e deixar de pensar. E pensar é duvidar. E é exatamente isso o que a posse - e a pose - de Obama me induzem a fazer. No momento em que se celebra sua ascensão, uma série de perguntas e dúvidas pululam em minha cabeça. A primeira de todas é: ele realmente nasceu nos EUA? Se sim, porque vem há meses se esquivando de mostrar sua certidão de nascimento, como lhe é exigido em um processo legal movido por um advogado de seu próprio partido? Qual é exatamente sua relação com figuras como Tony Rezko, Bill Ayers, Jeremiah Wright e Raila Odinga? Que papel teve no escândalo da ACORN, a maior derrama de títulos de eleitores falsos da História dos EUA? Finalmente, por que a imprensa não divulga nada disso? Sobre qualquer um desses pontos, nenhuma investigação, nenhuma matéria ou reportagem mais cética e investigativa. Se há algo de histórico na eleição e posse de Obama, não é a cor de sua pele nem seu nome pouco usual, mas o nível realmente inédito de adulação com que o brindou a imprensa norte-americana e mundial, um culto da personalidade verdadeiramente soviético em suas proporções e em sua disposição de esconder fatos pouco abonadores da vida do novo Messias. E ai de quem chame a atenção para essas questões não-respondidas! Será tachado de maluco ou nazista, e ponto final.
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Pouco mais de dois anos atrás, ninguém sabia quem era Barack Hussein Obama. Hoje, continuam não sabendo. Há apenas uma certeza: com ele na Casa Branca, os EUA se tornaram um país mais caudilhesco, mais terceiromundista, mais bananeiro.

terça-feira, janeiro 20, 2009

"Ai que preguiça"...


Recebi um post anônimo muito engraçado. Relutei um pouco antes de publicá-lo aqui, por motivos que, imagino, não são difíceis de perceber, mas não resisti. Os meandros da mente humana, sobretudo quando se mostra propensa a bizarrices, é algo que sempre me fascinou. Aí vai. Comento em seguida.

Gustavo,

Eu realmente me divirto muito com o teu blog. Simplesmente porque ele é falso e ridículo como qualquer outro blog existente. Tem meses que sou os mais variados tipos de pessoas, sejam esquerdistas, direitistas, anti-imperalistas, americanista, nordestina homossessual, pró e contra Fidel... São infinitos os meus pseudônimos. A verdade como você coloca, e principalmente no meio que você coloca, não existe. Tudo aqui é falso... eu, as pessoas que aqui escrevem, você e, principalmente, o blog em si.

No momento eu desapareço, mas futuramente volto a aparecer, de maneira diferente, de qualquer forma possível, para te apoiar ou te refutar, não importa. O que interessa é brincar neste blog imaginário que você criou... hehehe

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Fico feliz em saber que há gente que se diverte com meu blog, embora este não seja meu objetivo. Eu, da minha parte, sofro um bocado. Primeiro, pela falta de tempo para escrever sobre tudo que eu gostaria, o que sempre gera um sentimento de frustração. Segundo, porque o sentimento que me anima a escrever e a manter o blog não é bem a jocosidade, mas a tristeza - a pena da galhofa e a tinta da melancolia, como diria Machado de Assis, tão massacrado pelas "homenagens" que recebeu no ano passado. Tristeza diante daquilo que considero errado, falso, injusto ou simplesmente idiota - como o artigo impagável de Oscar Niemeyer que transformou um livro demolidor sobre Stálin em apologia do tirano -, e que demandaria mais de uma vida para ser comentado. Tristeza diante de comentários que usam e abusam de adjetivos como "falso e ridículo" sem apresentar um mísero argumento que seja, sobre qualquer assunto, a respaldar esse tipo de afirmação. Enfim, diante de tudo que me faz dizer "epa", em vez de "oba". Diante disso tudo, da miséria da condição humana, confesso que às vezes bate uma profunda e irresistível fossa, uma vontade de sentar no meio-fio e chorar, chorar...

Compreendo perfeitamente as razões que levam a comentários como o que eu transcrevi acima. Afinal, por que não consigo ser alguém "normal", politicamente correto, mainstream, do tipo de que todos gostam? Alguém assim, sem opinião, seguidor da multidão, sempre pronto a dizer algo edificante, adaptável camaleonicamente a qualquer ambiente e a qualquer platéia, mais ou menos como o personagem do filme de Woody Allen, Zelig? Por que não guardo minhas opiniões para mim mesmo e não deixo de azucrinar os bem-pensantes com essa minha mania de querer debater? Por que não perco a chance de criticar o Lula por sua apologia da ignorância ou por coisas desimportantes como o mensalão e sua devoção à ditadura cubana? Por que, destoando de nove de cada dez exemplares da espécie humana nesses dias, eu me recuso a fechar os olhos para o terrorismo do Hamas e condenar a ofensiva de Israel em Gaza? Por que me escandalizo e vejo um claro viés ideológico na decisão de um ministo da Justiça em conceder refúgio político a um terrorista de esquerda condenado por vários homicídios na Itália, um país democrático, quando esse mesmo ministro desse mesmo governo negou refúgio a dois atletas que tentavam fugir de Cuba? Por que não me emociono com a posse de Santo Obama e prefiro, em vez disso, encasquetar com tolices como o fato de que ele até agora não provou ter nascido nos EUA, como determina a Constituição que ele jurou hoje respeitar e defender? Por que insisto nessa besteira de blog? Por que, enfim, não sou um cara legal?

Mas o.k., o autor (ou autora) do comentário acha que o blog é falso, assim como este que escreve. Quer dizer com isso que tudo que aqui escrevo, assim como eu mesmo, é falso, não existe, assim como o próprio blog em si, um mero produto de minha imaginação certamente delirante etc. etc. E ainda diz, amparada no anonimato, que gosta de brincar, dizendo-se ora isso, ora aquilo, ora do contra, ora do a favor. Se a pessoa em questão entra aqui se fingindo passar por outra, e com opiniões diferentes só para ver no que vai dar, é algo, para mim, irrelevante. O que importa é sua afirmação de que, com isso, o meio escolhido, o próprio blog, é uma ilusão. Sei não. Talvez tenha razão. Talvez o blog não exista mesmo. Talvez a internet seja só uma lata de lixo, e nada mais. Talvez os fatos e argumentos que aqui apresento sejam ilusórios. Talvez eu não exista. Talvez nada exista. Talvez o Sol gire em torno da Terra, e não o contrário. Talvez, quem sabe, tudo seja um grande video-game ou uma espécie de matriz virtual. Talvez sim, talvez não, algo assim pós-moderno, um papo meio assim... sei lá, entende? Mil coisas...

Pois é, para que refutar o que este blogueiro diz, com fatos e argumentos? Para que pensar, né? Dá um trabalho danado e, além de tudo, é algo tão chato... Melhor é seguir o rebanho. Ai que preguiça...