segunda-feira, junho 01, 2009

LOBOS EM PELE DE CORDEIRO


Às vezes me perguntam por que pego tanto no pé dos esquerdistas, e dos petistas em particular. Por que, enfim, reservo a eles minha fúria crítica, poupando dos mesmos adjetivos os partidos e políticos de direita.

A pergunta em si traz um desconhecimento total do assunto. Tudo bem, eu respondo. Faço-o por vários motivos. O primeiro deles é que, até que me convençam do contrário, não há nada nem ninguém no horizonte político brasileiro que possa ser encaixado, mesmo remotamente, no rótulo "direita", o que é uma pena (a menos que se considere o adesismo oportunista de um DEM ou o esquerdismo envergonhado de um PSDB como legítimas manifestações do pensamento conservador, mas isso é tema para outro texto...). Em segundo lugar, e o mais importante, é que, ao contrário da direita, que inexiste entre nós, pode-se dizer, sim, com toda segurança, que existe uma esquerda brasileira extremamente organizada - a tal ponto que esta domina inteiramente o cenário político nacional, e inclusive já conseguiu enganar até mesmo setores insuspeitos da opinião pública e da imprensa.

Um exemplo dessa enganação é a revista VEJA desta semana - sim, ela mesma! -, que traz uma reportagem que se derrama em elogios ao caráter "moderado" do governo Lula e do PT. A reportagem, assinada por Otávio Cabral - e que dificilmente, ao contrário de outras reportagens da revista sobre corrupção, será contestada pelo PT -, se refere à "exportação" do modelo petista de governar, que seria caracterizado pelo pragmatismo, em oposição ao dogmatismo tradicional da esquerda jurássica, para países como El Salvador, onde o presidente recém-empossado, Maurício Funes, da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), estaria seguindo os mesmos passos dos "leões vegetarianos" de Lula e do PT. Inclusive, técnicos do PT estariam ensinando o novo governo salvadorenho a implementar versões locais do Bolsa-Família e do PAC (um mau sinal, mas isso também fica para outro post). A mensagem do texto é clara: assim como o PT fez a partir de 2002, a FMLN abandonou as teses radicais de esquerda e abraçou a legalidade democrática e a economia de mercado, deixando para trás o marxismo-leninismo e os anos de luta armada, que deixaram cerca de 75 mil mortos no país. Mais que isso: esse "modelo" supostamente criado pelos petistas seria uma espécie de contraponto, ou de antídoto, à influência do radicalismo tosco de caudilhos como Hugo Chávez e Evo Morales, com seus socialismos bolivarianos e indigenistas e receitas econômicas anacrônicas.

Já escrevi aqui várias vezes que essa dicotomia entre duas esquerdas - uma radical e outra moderada; uma revolucionária e outra reformista; ou, como virou moda dizer, uma "carnívora" e outra "vegetariana" - é um dos maiores engodos que já apareceram em todos os tempos. Tão forte é essa tese que até mesmo críticos contumazes dos delírios e fantasias esquerdistas, como o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que esteve na Venezuela há alguns dias para participar de um colóquio sobre liberdade, se deixaram levar por ela, rasgando-se em elogios à suposta moderação do governo Lula, em comparação com a "revolução bolivariana" de Chávez e companhia. Que a revista semanal mais "direitista" do Brasil tenha engolido a isca não é algo, portanto, surpreendente.

Não sei se Mario Vargas Llosa e os editores de VEJA leram Gramsci. Também não sei se sua crença em uma esquerda responsável e moderada seria fruto de uma análise acurada da realidade ou de wishful thinking - acredito que seja este último caso o mais provável. Na verdade, por trás do aparente antagonismo esquerda carnívora-esquerda vegetariana (ou herbívora, como seria mais apropriado chamá-la), o que se esconde é tão-somente uma tentativa de, como se diz no Oriente, "salvar a face" da esquerda, cujas teses principais caíram por terra depois da queda do Muro de Berlim, em 1989. Uma grande enganação, enfim.

A primeira coisa a ser sublinhada é que a adesão de uma parte da esquerda à ortodoxia econômica e à responsabilidade fiscal não significa nenhuma evolução genuína, pelo simples motivo de que tal adesão não se deu de dentro para fora, mas de fora para dentro. Foi, dito de outro modo, uma imposição da realidade, e não uma ruptura verdadeira, decorrente de um gesto de coragem ou inteligência. Não é preciso coragem, nem inteligência, para saltar de um barco que está afundando. Era esse exatamente o caso do modelo socialista, marxista-leninista, no final dos anos 80. Pular fora dessa canoa furada foi o, por assim dizer, "mérito" do pragmatismo lulista, que tanto encanta empresários agradecidos - e iludidos -, os mesmos que não se importam com o fato de a China ser um sistema totalitário, desde que "funcione" economicamente. Em resumo: se os petistas deixaram de lado as teses marxistizantes e abraçaram a economia de mercado, não foi por nenhum compromisso deontológico, mas por puro oportunismo político e vigarice intelectual - ou alguém duvida que, se os ventos soprassem favoravelmente na direção do estatismo leninista, e não do capitalismo liberal, os petistas estariam, até hoje, defendendo a expropriação das grandes empresas multinacionais estrangeiras? Com a economia mundial marchando de vento em popa, era conveniente adotar uma postura favorável aos negócios e à livre iniciativa. A questão é: numa situação de crise, como a que o mundo vive atualmente (lembram da marolinha? pois é...), o que impede os cumpanhêru de promoverem uma recaída estatista?

Tanto em relação à economia quanto no tocante à democracia, o que houve foi uma conversão sem confissão, nem arrependimento. Ou seja: uma falsa conversão, motivada apenas por conveniências políticas. Os petistas jamais se arrependeram publicamente dos anos de demagogia antiliberal, em que não passava um dia sem que Lula ou algum outro caudilho esquerdista esbravejasse contra a política econômica de FHC e do FMI etc. e tal. Por que, agora, devemos dar crédito ao que dizem? (Só para comparar: imagine se os nazistas reaparecessem dizendo-se convertidos à democracia e aos direitos humanos, mas sem confessar nem se arrepender de seus crimes; essa "conversão" seria levada a sério?).

Não é assim porque eu quero. Lula e sua camarilha já deram mostras de sobra de que estão se lixando para a democracia, assim como estão se lixando para a ética (aí estão o mensalão e os delúbios da vida para comprovar isso). Apenas a título de exemplo, basta lembrar que praticamente não passa um dia sem que não se veja alguma tentativa por parte de algum ministro petista de controlar, regular, manietar a sociedade. Idem para as articulações para o terceiro mandato. Se Lula e os petistas não rasgam a Constituição e instalam de vez um regime ditatorial no Brasil, não é porque não queiram - é porque (ainda) não podem. Querem saber qual o modelo de Estado ideal e de sociedade ideal para os esquerdistas? Olhem para Cuba ou para a Venezuela.

Assim como os defensores da tese da "esquerda responsável" não levam o que está aí em cima em consideração, preferindo descansar na ilusão narcotizante de que "eles mudaram", acreditam piamente que Lula é uma alternativa, e não um parceiro de Chávez, Morales ou Correa. Mesmo com todos os fatos demonstrando sem sombra de dúvida que todos esses governos estão no mesmo barco, unidos pelo Foro de São Paulo - a organização revolucionária de esquerda criada por Lula e pelo tirano Fidel Castro em 1990 para "reconstruir na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu", e cuja própria existência foi mantida em segredo, com a cumplicidade de grande parte da imprensa, por mais de quinze anos! A política externa "moderada" e "responsável" de Lula não tem feito outra coisa senão referendar os delírios totalitários de um Hugo Chávez - Lula já chegou a declarar que, na Venezuela, há democracia "até demais"... - ou proclamar-se "neutra" em relação aos narcoterroristas colombianos das FARC. Do mesmo modo, nosso presidente "pragmático" e "moderno" não hesita um segundo antes de elogiar a tirania cubana dos irmãos Castro, considerando-a um modelo de igualdade e justiça. O governo Lula fez vista grossa para o encampamento das refinarias da Petrobrás pelo índio de araque Evo Morales na Bolívia e para ações semelhantes de Rafael Correa no Equador contra uma empreiteira brasileira, e se tem negado sistematicamente a votar contra o regime genocida do Sudão na Comissão de Direitos Humanos da ONU. O mesmo governo modelo de moderação e democracia não vê nenhum problema em convidar para visitar o Brasil o patrocinador do terrorismo islamita e notório negador do Holocausto Mahmoud Ahmadinejad do Irã, e em apoiar um conhecido antissemita e queimador de livros para a direção-geral da UNESCO. É essa a esquerda vegetariana e responsável, comprometida com a democracia e os direitos humanos?

Os mesmos "moderados" que não têm qualquer pudor em se colocarem ao lado de tiranos e genocidas enquanto fazem juras de amor à democracia se revelam quando se trata de difamar seus adversários. Há alguns dias, assisti ao programa eleitoral do PT na televisão. Vários ministros do governo Lula, como Guido Mantega e Patrus Ananias, sem falar na presidenciável Dilma Rousseff, passaram boa parte do tempo demonizando a política econômica de FHC - a mesma a qual se converteram depois de chegarem ao poder! É por causa desse tipo de discurso vigarista que eu não me canso de pegar no pé da esquerda e dos petistas.

Há uma grande diferença entre conversão - que implica, necessariamente, abjurar e arrepender-se da crença anterior - e uma operação plástica. Como demonstram Dilma Rousseff e o PT, é dessa última que se trata, quando se fala de uma esquerda "responsável" e "vegetariana". Eles mudaram, sim - mas não por dentro.

Jogando um osso para um leitor muito ético


Obama e seu cachorrinho, "Press", digo, "Bo"

Um desses petralhas que não têm o que fazer resolveu passar por aqui e descarregar um pouco de sua bile. Eis o que escreveu o valente:
.
Continua defendendo a grande inteligêncio neoliberal? A ética americana? É, tem pessoas que, como as cães, andam sempre a procura de um dono...
Publicar este comentário.
Recusar este comentário.
.
Pois é... Continuo, sim, a defender, neste espaço, a inteligência "liberal" e a ética "americana". Com o detalhe de que, até o momento, achei que estava defendendo a inteligência e a ética (assim, sem adjetivos). Agradeço ao distinto leitor por ter me chamado a atenção para o fato de que a inteligência e a ética devem vir acompanhadas desses dois adjetivos. Aliás, devo dizer que já desconfiava disso, pois dificilmente alguém me verá defendendo uma "inteligência" ou uma "ética" comunistas - até porque, a "inteligência" e a "ética" comunistas foram responsáveis por 100 milhões de mortos...
.
É, tem pessoas que, como os cães, andam sempre à procura de um dono... Principalmente se esse dono tiver transformado o Estado num aparelho do partido para ser distribuído entre seus apaniguados. O mundo está cheio de gente que, diante de um cargo oficial ou das palavras sábias de um messias político, babam de excitação e abanam o rabo como um chihuaha. Diante de um Lula ou de um Obama, não hesitam em atender todos os seus comandos de "Senta", "Rola", "finge de morto" etc.
.
Falando nisso: já deu a patinha para seu dono hoje, petralha?

sexta-feira, maio 22, 2009

Saiba um pouco mais sobre Farouk Hosny, o candidato apoiado pelo Brasil para dirigir a UNESCO...


O que vem a seguir é a tradução, feita por mim, de um texto publicado no Le Monde de 21/05, assinado por três importantes intelectuais (um dos quais, Prêmio Nobel da Paz). Deveria ser lido e relido por todos os diplomatas brasileiros, ou pelo menos por qualquer pessoa que ainda leve a sério coisas como tolerância e liberdade de pensamento. Isso não inclui, obviamente, quem está à frente da diplomacia brasileira hoje. .

UNESCO: A VERGONHA DE UM NAUFRÁGIO ANUNCIADO

Quem declarou, em abril de 2001: “Israel jamais contribuiu para a civilização em qualquer época que seja, pois jamais fez mais do que se apropriar do bem dos outros” – e reiterou dois meses depois: “A cultura israelense é uma cultura inumana; é uma cultura agressiva, racista, pretensiosa, que se baseia em um princípio muito simples: roubar o que não lhe pertence”?

Quem explicou em 1997, e o repetiu depois em todos os tons, que era “o inimigo ferrenho” de toda tentativa de normalização de relações de seu país com Israel? Ou ainda, em 2008, quem respondeu a um deputado do Parlamento egípcio que se alarmava que livros israelenses pudessem ser introduzidos na biblioteca de Alexandria: “Queimemos esses livros; se eu os encontrar, eu mesmo os queimarei na sua frente”?

Quem, em 2001, no jornal Ruz Al-Yusuf, disse que Israel era “ajudado”, nas sombras, pela “infiltração de judeus na mídia internacional” e por sua habilidade diabólica de “espalhar mentiras”? A quem devemos essas declarações insensatas, esse florilégio do ódio, da burrice e do conspiracionismo mais descarado?

INCENDIÁRIO DE CORAÇÕES

A Farouk Hosni, ministro da Cultura egípcio há mais de quinze anos e, sem dúvida, o próximo diretor-geral da UNESCO se nada for feito antes de 30 de maio, data de encerramento das candidaturas, para deter sua marcha irresistível rumo a um dos postos de responsabilidade cultural mais importantes do planeta.

Pior: as frases que acabamos de citar são só algumas – e não as mais nauseabundas – das inumeráveis declarações de mesmo teor que marcam a carreira de Farouk Hosni há uma quinzena de anos, e que, por conseguinte, o precedem quando ele postula um papel cultural federativo na escala do mundo contemporâneo.

A evidência é assim clara: Farouk Hosni não é digno desse papel; Farouk Hosni é o contrário de um homem de paz, de diálogo e de cultura; Farouk Hosni é um homem perigoso, um incendiário de corações e de espíritos; resta muito pouco tempo para evitar que se cometa o erro maior que seria a elevação de Farouk Hosni a esse posto eminente entre todos.

Apelamos assim à comunidade internacional a se poupar da vergonha que seria a designação, já dada por quase certa pelo próprio interessado, de Farouk Hosni ao posto de diretor-geral da UNESCO. Convidamos todos os países amantes da liberdade e da cultura a tomar as iniciativas que se impõem a fim de conjurar essa ameaça e de evitar à UNESCO o naufrágio que constituiria essa nomeação.

Convidamos o próprio presidente egípcio, em lembrança de seu compatriota Naguib Mahfouz, Prêmio Nobel de Literatura, que deve, a essa hora, se revirar em sua tumba, nós o convidamos, pela honra de seu país e da alta civilização da qual ele é herdeiro, a tomar consciência da situação, a desabilitar urgentemente seu ministro e a retirar, em todo caso, sua candidatura. A UNESCO cometeu, certamente, outros erros no passado – mas essa impostura seria tão enorme, tão odiosa, tão incompreensível, seria uma provocação tão manifesta e tão manifestamente contrária aos ideais proclamados da Organização que ela não se ergueria mais. Não há um minuto a perder para impedir que seja cometido o irreparável.

É preciso, sem demora, apelar à consciência de cada um para evitar que a UNESCO caia nas mãos de um homem que, quando ouve a palavra cultura, responde com um auto-de-fé.


Bernard-Henri Lévy, filósofo ;
Claude Lanzmann, cineasta e diretor da revista Les Temps modernes ;
Elie Wiesel, escritor e Prêmio Nobel da Paz em 1986.

terça-feira, maio 19, 2009

WILSON SIMONAL, UM CASO EXEMPLAR DE PERSEGUIÇÃO IDEOLÓGICA NO "SHOW BUSINESS" BRASILEIRO


Está em cartaz um documentário que vale a pena assistir. É Simonal: Ninguém Sabe o Duro que Dei, assinado, entre outros, pelo humorista Claudio Manoel, do Casseta & Planeta. Ainda não vi, mas o tema em si justifica a ida ao cinema. Trata-se de algo, até onde eu sei, inédito na cinematografia brasileira. O que o torna um filme que, a meu ver, deveria ser exibido em todas as escolas e universidades do País.

O documentário narra a trajetória de um dos cantores de maior sucesso no Brasil no final dos anos 60 - época de ouro da Tropicália e dos festivais da Canção -: Wilson Simonal. Mais especificamente, documenta a escalada para o sucesso e a rápida e dolorosa decadência, acompanhada de anos e anos de completo declínio e obscurantismo, de um ídolo da música brasileira do período. Decadência, declínio e obscurantismo que não foram provocados por nenhum demérito artístico ou musical do cantor, mas por fatores políticos, alheios à música.

Simonal é um caso exemplar de artista que, por causa de um erro, explorado até as últimas consequências pelas patrulhas ideológicas esquerdistas, viu sua carreira - e sua vida - transformada em poeira da noite para o dia. Sua débâcle é creditada a um fato ocorrido em 1971, no auge de sua carreira e da ditadura militar, quando Simonal, desconfiado que seu contador, Raphael Viviani, estava lhe roubando, pediu a "ajuda" de dois seguranças amigos seus "para resolver o problema". Ocorre que um dos seguranças a quem recorreu dava expediente no DOPS, a temida polícia política da ditadura militar. Viviani foi sequestrado e espancado. Sua mulher botou a boca no mundo. Para piorar, Simonal tentou se safar apelando para um expediente idiota: perante a imprensa, gabou-se de suas conexões "com os homens", os generais do regime...

Foi seu fim. Desde então, Simonal ficou marcado: era "dedo duro" e "agente da repressão". Nunca mais sua carreira foi a mesma. Os convites para shows escassearam, as gravadoras lhe fecharam as portas, as rádios e a TV o baniram de sua programação. Do dia para a noite, de ídolo das multidões, capaz de reger um coro de 30 mil vozes no Maracanãzinho cantando Meu limão, meu limoeiro, Wilson Simonal tornou-se um pária, um leproso, banido dos rádios e da TV e estigmatizado como vinculado aos órgãos de repressão político-militar do regime de 64. No final da vida, com a carreira já acabada e corroído pelo alcoolismo, Simonal fazia shows em cima de caminhões para dez ou quinze pessoas. Terminou topando fazer comerciais do Supermercado São Cristóvao em Natal (RN), uma sombra do que fora um dia.

Não gosto da música de Simonal e, mesmo se gostasse, não é da minha época. Inclusive, não simpatizo com a figura. Acredito mesmo que o rótulo que recebeu, de arrogante e deslumbrado com a fama, não seja totalmente falso. Se vivesse hoje e tivesse o mesmo sucesso que chegou a alcançar em seu período áureo, é provável que Simonal estivesse tocando em algum grupo de pagode, coberto de jóias, com os cabelos descoloridos e agarrado a alguma loura, siliconada e oxigenada. Também não tenho a pretensão de dizer aqui que ele foi uma espécie de anjo: o erro que cometeu, e que selaria seu destino, só pode ser visto, ainda hoje, como uma canalhice. Mas nada disso diminui o fato de que ele foi, sim, com todos os seus defeitos, vítima de uma das mais insidiosas, desproporcionais e, no fim, injustas campanhas de calúnia e difamação já montadas pela gigantesca máquina de propaganda esquerdista que se instalou no Brasil, sobretudo no terreno artítistico e cultural. Daí porque o filme, que o reabilita, vale a pena ser visto.

Em primeiro lugar, jamais foi provado que, tirando o episódio com o contador, Simonal tivesse qualquer envolvimento com qualquer órgão da repressão. Isso ficou comprovado ao final de sua vida, quando o governo federal reconheceu, oficialmente, que tal alegação era falsa. Mas, àquela altura, isso pouco ou de nada adiantou. O dano à reputação de Simonal já estava feito e era irreversível. Isso porque o pecado de Simonal foi muito além do episódio com o contador. Seu pecado, na verdade, foi não ter rezado pela cartilha da esquerda.

Simonal era um artista que não se incomodava em cantar, cheio de ginga e "pilantragem", País Tropical, de Jorge Benjor (então apenas Jorge Ben), em plena época do ufanismo da ditadura militar. Cantava as glórias das belezas naturais do País e da seleção canarinho na Copa de 70 - com a qual viajou para o México, ao lado de Pelé -, sem dar a menor bola para a pecha, então em voga, de "alienado". Fazia música para divertir, no que era bastante competente, não para "conscientizar" ou "de protesto". Isso, por si só, o colocou na lista negra dos artistas "malditos" pela esquerda, que, com Chico Buarque à frente, passou a monopolizar a cultura "pensante" no Brasil. Era alguém feito sob medida para ser enterrado em vida caso fizesse uma besteira. Quando a fez, a esquerda se banqueteou.

Além do mais, no linchamento a que foi submetido coube também um forte elemento de preconceito racial. Simonal era negro (ou afro-brasileiro, como queiram). Mais que isso, viera da pobreza (era filho de empregada doméstica). Isso o levava a destoar ainda mais do estereótipo cultuado pelas esquerdas. Era negro e nascera pobre, mas não fazia o gênero coitadinho, vítima de preconceito, tão ao gosto do "movimento". Também não erguia nenhuma bandeira de luta, do tipo black power ou a favor de cotas raciais, por exemplo. Pelo contrário: com o dinheiro que conseguiu, fazia questão de ostentar sua riqueza. Roberto Carlos tinha um carrão? Pois Simonal tinha três Mercedes na garagem. E fazia questão que todos soubessem. Como também adorava se exibir com suas namoradas (quase todas, brancas). Às críticas, Simonal respondia, sorrindo: "ninguém sabe o duro que dei" (daí o título do documentário). Um negro que canta músicas alienadas e que gosta de exibir luxo e riqueza? E que ainda por cima transa com brancas? Aí é demais, pensaram os bem-pensantes de nossa esquerda festiva, em geral brancos e bem-nascidos.

O estereótipo do "negro arrogante", deslumbrado com a fama e com tudo que esta e o dinheiro podem trazer - carrões, ostentação, mulheres - caiu em Simonal como uma luva, servindo à perfeição para a máquina de demolir reputações da esquerda. O Pasquim, em particular, com Ziraldo e Jaguar à frente, não lhe deu trégua. Outros nomes da cultura nacional, como Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre e José Guilherme Merquior, foram alvos da artilharia esquerdista, mas Simonal foi simplesmente destruído (também, pudera: era um alvo muito mais fácil). A polícia do pensamento esquerdista, que hoje está nos gabinetes oficiais, não se contentou em difamá-lo - ainda há quem pense que ele pessoalmente torturou prisioneiros... -; era preciso mais: era preciso calá-lo para sempre. Era preciso sepultá-lo vivo.

A morte em vida de Wilson Simonal é mais um exemplo didático de como a esquerda brasileira, que na mesma época era censurada pelo regime militar, não hesita em utilizar métodos ditatoriais e stalinistas para se livrar de figuras incômodas. Ao mesmo tempo em que a "direita" - representada pelos militares - punha-os na cadeia, os esquerdistas tupiniquins trataram de impor, praticamente sem serem incomodados, sua ditadura ideológica no terreno da cultura, desde as universidades até o show business. Assim, a música de massas, malgrado seu óbvio apelo comercial, tornou-se, ela também, uma trincheira da "luta contra a ditadura". Criou-se mesmo uma sigla - MPB - para designar esse "movimento" representado pelos Chicos Buarques e Geraldos Vandrés, que, apesar do "popular" no rótulo, era consumida principalmente pelas elites instruídas e pela classe média dourada de Ipanema e de Copacabana. Música, para esse pessoal, só se fosse cabeça, "de protesto", cheia de metáforas e com manual de interpretação. Simonal estava em outra.

Enquanto Simonal era silenciado pela patrulha ideológica esquerdista, o povão não estava nem aí para esses marxistas de galinheiro e revolucionários de opereta. O povão gostava mesmo é de Wilson Simonal, de Waldick Soriano, enfim, de cantores "bregas" e "alienados". Por não ser da turma, Simonal pagou um alto preço. A esquerda, que monopoliza a cultura dita "alta" no Brasil, jamais o perdoou. Não por ter feito uma besteira. Mas por não ser um deles. Nâo podendo cooptá-lo, destruíram-no.

segunda-feira, maio 18, 2009

ELES ESTÃO SE LIXANDO


O egípcio Farouk Hosny é o candidato apoiado pelo Brasil para a direção-geral da UNESCO. A UNESCO é o órgão da ONU encarregado da educação, ciência e cultura. Como tal, espera-se de seu diretor-geral que seja alguém afinado com os ideais do humanismo, da liberdade de expressão e de pensamento. Tal é o entusiasmo do governo brasileiro com a candidatura de Hosny que o Itamaraty deixou de apoiar o nome de um brasileiro, Márcio Barbosa, que cogita lançar-se candidato por um outro país.

Mas quem é o preferido do Brasil para assumir a direção da UNESCO? Farouk Hosny, o candidato apoiado pelo governo Lula e pelo Itamaraty, é o ministro da Cultura do presidente egípcio Hosni Mubarak, no poder há 28 anos. Mubarak, um general da Força Aérea, não dá trégua à oposição, que invariavelmente acaba na cadeia. Hosny é seu ministro desde 1987. Um candidato afinado com os ideais de humanismo e de liberdade de pensamento que deveriam nortear a UNESCO, como se vê.

Mas isso não é o mais grave.

Farouk Hosny, o candidato preferido de Lula e Celso Amorim, é conhecido principalmente por uma declaração, digamos, controversa sobre a literatura judaica. Ele não é muito fã de obras como o Talmude ou o Pentateuco. Tanto que, certa vez, disse o seguinte: "Se eu encontrasse livros em hebraico numa biblioteca egípcia, eu os queimaria".

A frase acima deveria, pelo menos em teoria, desqualificar seu autor como um antissemita hidrófobo e um inimigo da cultura e do humanismo, certo? Não para Lula. Não para o Itamaraty. Em ocasiões como essa, o discurso oficial brasileiro já vem pronto: "Não podemos ter relações apenas com quem concordamos", foi a frase-clichê repetida por Celso Amorim para justificar o voto brasileiro em Hosny. Também se costuma alegar altas razões geopolíticas, como a "aproximação com os países árabes" etc. É verdade. Nenhum país pode dar-se ao luxo de relacionar-se somente com quem está de acordo. As eleições em organismos internacionais obedecem a complexos cálculos geopolíticos e estratégicos. Tudo isso é verdade. Como verdade também é o fato elementar de que não se pode apoiar para a direção da UNESCO um conhecido antissemita e queimador de livros.

Nossos sábios do Itamaraty acreditam que é sempre melhor dialogar com figuras como Hosny do que firmar posição em defesa de coisas como democracia e direitos humanos. Com isso, acreditam que o Brasil, do alto de seu poder, poderia influenciar, de algum modo, governos como o do Irã e da Coreia do Norte. Como se fosse possível influenciar e trazer à razão quem nega o Holocausto e queima livros. A essa atitude auto-proclamada pragmática chamam de smart power. Recentemente, tivemos uma amostra bastante didática desse smart power, com o convite feito por Lula e Celso Amorim para que o antissemita e negador do Holocausto Mahmoud Ahmadinejad visitasse o Brasil. Na última hora, e sem avisar o Itamaraty, Ahmadinejad cancelou a visita. Esnobado, o Itamaraty teve como único resultado concreto uma chuva de críticas de todos os lados pelo convite ao sucessor de Hitler. Isso é smart power...

Pensando bem, não deveria causar surpresa o apoio do Brasil a tipos como Farouk Hosny. Defender a candidatura à direção da UNESCO de um queimador de livros é mesmo a atitude mais coerente de um governo que se nega a condenar o genocídio de 300 mil pessoas pelo governo do Sudão e que recusa a Israel o direito de se defender, além de ver "democracia até de mais" em países como Cuba e a Venezuela. Pensando bem, é mesmo algo coerente. Assim como coerente foi a declaração do Apedeuta a respeito da farra das passagens áreas no Congresso, de que não se tratava, afinal, de crime tão grave assim... Sabem como é: para quem tem um mensalão nas costas e já disse que caixa dois é algo "normal, porque todo mundo faz", alguns milhões de reais dos cofres públicos para levar a namorada para passear não é grande coisa mesmo.

Nas últimas semanas, um deputado causou furor ao dizer que se lixa para a opinião pública. Foi, com justiça, linchado pela imprensa. O governo Lula, o Itamaraty, estão se lixando para os direitos humanos. Estão cantando e andando para a democracia. E parece que ninguém está dando a mínima.


segunda-feira, maio 11, 2009

O MINISTRO MACONHEIRO


Mais um texto impecável do blog do Reinaldo Azevedo. Até pensei em escrever algo sobre o assunto, mas fico acanhado de fazê-lo quando me deparo com algo assim: um artigo preciso, claro, cortante como uma navalha bem afiada. RA não dá trégua aos petralhas e aos cultuadores da ilegalidade como suprema virtude revolucionária. Diante de uma paulada dessas, qualquer coisa que eu pudesse escrever seria supérflua.

Só um comentário breve, se me permitem. Há duas maneiras de encarar o crime: uma, é combatê-lo sem contemplação e defender a Lei como válida para todos; outra, é se render à prática ilegal, "descriminalizando-a". Quem defende a primeira é tido como careta e reacionário. Quem defende a segunda vira ministro de Estado do governo Lula.

---
TIREM O COLETE DE MINC E LHE METAM UMA CAMISA-DE-FORÇA

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, como sabem, foi à Marcha da Maconha. O homem é mesmo um revolucionário. Numa das ações armadas de que participou quando pertencia a um grupo terrorista, o mesmo de Dilma Rousseff, um inocente foi assassinado. O homem já treinava os dedos para mudar o mundo. Que coisa! Minc é ministro de Lula. A menos que seja ainda mais irresponsável do que dá a entender, foi à tal manifestação com autorização de seu chefe. Na prática, é como se o governo se mobilizasse contra uma lei que ele tem de fazer cumprir. E a presença de Minc na tal marcha se torna, então, um emblema do real comprometimento do governo com o combate às drogas.

Sua fala no evento não poderia ser mais clara: “A lei atual despenalizou, mas não descriminalizou. Ainda é crime [fumar maconha], e eu acho que nós deveríamos avançar". Como se vê, trata-se da fala de quem tem uma agenda, de quem sabe que é preciso caminhar aos poucos, mas “avançar” sempre. Hoje a maconha; depois, a cocaína; amanhã, sabe Deus. Botaremos todos os brasileiros na legalidade extinguindo as ilegalidades, entenderam? Corolário: se voltarmos ao estado da natureza, os crimes deixam de existir. Como já escrevi aqui, em vez de a sociedade corrigir os Marcolas, os Marcolas é que vão reeducar a sociedade.

Pouco me importa, já escrevi quinhentas vezes, o que cada um fuma, cheira ou injeta. Não tenho nada com isso. Ocorre que a droga, infelizmente, não é só uma mera questão de adesão ou não a um hábito ou vício.

Pensemos um pouco sobre a fala do “Coroa do Rio”, com aquela sua pinta de Tio Sukita do surf. O efeito da liberação total da maconha — descriminada, na prática, ela já está — no que respeita ao crime organizado seria ZERO. Para que houvesse alguma mudança nessa área, seria preciso descriminar todas as drogas, especialmente a cocaína. E o Brasil adotaria sozinho tal posição. O resto do mundo continuaria a reprimir as drogas. Passaríamos a ser um centro mundial de atração de cérebros derretidos. Como se não nos bastassem os nossos próprios idiotas — alguns deles no topo da República.

Esse ministro bocó deveria estudar um pouquinho, um pouquinho só, de lógica e de economia antes de disparar suas tolices. O que Minc acha que aconteceria com a mão-de-obra criminosa que hoje se dedica ao narcotráfico? Todos se converteriam em trabalhadores? Até o mais rematado dos imbecis, menos Minc, pode intuir o óbvio: ela migraria para outros crimes.

“Ah, te peguei, Reinaldo! Então você está dizendo que o narcotráfico é até uma solução?” Não! Estou afirmando que o governo não cumpre a sua parte na repressão ao tráfico de drogas e suas conseqüências, como o tráfico de armas. Elas chegam de barco em plena Baía da Guanabara! As fronteiras brasileiras são terra (e águas) de ninguém. E esse estado continuaria a ser omisso. A legalização das drogas, que levaria a uma explosão de consumo — com as suas previsíveis e óbvias conseqüências na saúde pública —, faria o país mergulhar no caos social. Acreditem: o estado necessário para cuidar dos efeitos da liberação teria de ser muito mais competente do que aquele que se encarrega — e mal — da repressão. Ou seja...

Alguns dos meus leitores devem fumar maconha. Outros podem se emocionar quando uma linha reta, de repente, dá uma entortadinha. Alguns talvez gostem do Bolero de Ravel. Tenho certeza de que há quem vá ao cinema e mande colocar aquela manteiga nauseabunda na pipoca — pelo amor de Deus, gente! Cinema é lugar de namorar, não de entupir as coronárias... O ser humano é variado, às vezes estranho. Digo, com Terêncio, que nada do que é humano me é estranho. Mas não imito Fernando Lugo, o garanhão de batina (levantada) do Paraguai. Não recorro a Terêncio para justificar minha falta de limites. Ao contrário: ele me serve como convite à tolerância com o Outro (o que não quer dizer, claro, condescendência com o vale-tudo). Pois bem: digamos que não haja nada de intrinsecamente mal na maconha (não é a opinião de um bom número de estudiosos) e que consumi-la possa ser igual a ouvir, como faz alguém em algum apartamento aqui das redondezas, o Bolero no último volume (a minha sorte é que há um bando de maritacas que mora entre o meu prédio e o prédio vizinho...).

Bem, se o mundo decidir proibir o Bolero ou a nauseabunda manteiga derretida na pipoca — sei que não contarei com essa graça, hehe... —, por mais que eu considere que seja mera questão de gosto e direito individual consumir ou não aquelas drogas, será preciso que eu reflita sobre as conseqüências de integrar a cadeia certamente criminosa que se vai formar para comercializar o Bolero e a manteiga. Por alguma razão, o Bolero e a manteira são liberados mundo afora, mas as drogas não. A questão não é de moral privada, mas de ética coletiva. Essa história de que “sou apenas o consumidor e não tenho culpa se a maconha é proibida” é típica do infantilismo ético do nosso tempo. Tem, sim. Ao fazer certas escolhas, amigão, você escolhe um mundo. O fato de haver pessoas nefastas que não consomem drogas e consumidores que podem ser gente boa não serve como critério para orientar políticas públicas.

IRRESPONSÁVEL. É isso o que Minc é. Ele é ministro de Estado. Se vai a uma marcha da maconha, leva a voz do governo. A música que embalou a passeata, como se noticiou, era a tal “Vou apertar, mas não vou acender agora”, toda ela feita de referências um tanto desairosas à Polícia — e, pois, ao estado —, em oposição à suposta esperteza da nata da malandragem. Nada mais patético do que ver os bacanas do Rio (ou de qualquer lugar) macaqueando a suposta linguagem dos pobres — pobres que, diga-se, não compareceram ao evento. Pais e mães de família dos morros e das periferias das grandes cidades detestam as drogas. Sabem que seus filhos, se vitimados pelo mal, terminam assassinados antes dos 20. Já os usuários de Copacabana, Ipanema ou Leblon terão vida longa. Podem consumir droga à vontade, que seu futuro está mais ou menos garantido. Os de mais sorte chegam a ministros de estado.

Imaginem se um comportamento como esse de Minc não viraria um escândalo político em qualquer democracia do mundo! Imaginem o que a oposição não faria... Por aqui, não vai acontecer nada. Ou melhor, vai: as drogas continuarão proibidas; a polícia continuará corrompida; o estado continuará omisso; 50 mil pessoas continuarão a ser assassinadas todo ano; os Mincs da vida continuarão a ir a marchas da maconha, e os marchadores da erva logo organizam uma outra marcha, aí pela paz. No sábado, dão dinheiro para os bandidos comprar rifles; no domingo, protestam contra o uso que eles fazem dos rifles que compraram. Entenderam?

Minc precisa trocar os seus coletes transadinhos por uma camisa-de-força. Pronto! Fumei um ministro inteiro. E não tou sentindo nada...

terça-feira, abril 28, 2009

UMA EXCELENTE OPORTUNIDADE PARA NOSSOS ESQUERDISTAS DEMONSTRAREM SEU AMOR À DEMOCRACIA


Dentro de alguns dias, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, estará no Brasil. Será recebido com pompas e honras oficiais em Brasília por Lula da Silva e associados. Alguns grupos judaicos já convocaram manifestações de protesto e de repúdio pela presença de Ahmadinejad no país. Uma dessas manifestações ocorrerá no próximo domingo, na Avenida Paulista.

A vinda de Ahmadinejad será uma excelente oportunidade para nossos esquerdistas do PT, PCdoB, PSOL e outros que tais demonstrarem todo seu amor e compromisso com a democracia, a tolerância e os direitos humanos. Poderão fazer o que já fazem nossos vizinhos argentinos, que se recusam a receber o louco de Teerã, bem como a manter qualquer contato com o governo iraniano, que em 1994 patrocinou um atentado à bomba contra um centro israelita em Buenos Aires, e que desde então protege os responsáveis pelo ataque, que deixou 85 mortos.
.
Certamente, como bons humanistas e inimigos ferrenhos que são de qualquer ditadura ou ditabranda - e vocês hão de convir que a iraniana está longe de ser uma ditabranda -, nossos esquerdistas deixarão extravasar toda sua indignação, toda sua revolta, convocando seus milhões de militantes da CUT, UNE e outros aparelhos ideológicos e ONGs, em protestos barulhentos contra esse conhecido antissemita e homofóbico, apoiador do terrorismo e negador do Holocausto, que prega o genocídio contra os judeus. Paladinos da liberdade que são, não deixarão passar em brancas nuvens essa oportunidade. O mínimo que se espera de tão angelicais criaturas é que queimem a bandeira do Irã em frente à embaixada do país. Talvez, mesmo, Oscar Niemeyer aproveite a ocasião para inaugurar um monumento em homenagem aos mortos no Irã desde 1979.
.
Esperemos para ver o que nossos Greenhalgs, Freis Bettos, Sáders e Marilenas Chauís farão para demonstrar toda sua devoção à democracia e à civilização quando da visita do governante iraniano. Vou ficar esperando. É pagar para ver.

quinta-feira, abril 23, 2009

A PROIBIÇÃO DE COMPARAR


Protesto da esquerda contra a Folha de S. Paulo, que chamou o regime de 64 de "ditabranda": será que os que seguram essa faixa consideram mais "branda" a ditaDURA de Cuba?

Pode-se comparar ditaduras? Essa pergunta tem sido feita há algumas semanas, desde que a Folha de S. Paulo ousou publicar um editorial em que chama o regime militar brasileiro (1964-1985) de "ditabranda".
.
Imediatamente o jornal foi bombardeado por críticas raivosas de muitos intelectuais e intelequituais de esquerda, indignados com o que lhes pareceu uma diminuição ou justificação das barbaridades cometidas pelos militares, como a tortura e a censura. Dois professores da USP enviaram cartas furibundas à redação do diário, tendo recebido uma resposta à altura do jornal, que classificou a indignação dos mesmos de cínica e hipócrita, pois os mesmos professores, tão zelosos da democracia no Brasil, não têm pudor em bater palmas para ditaduras em nada brandas, como a dos irmãos Castro em Cuba. De nada adiantou. Acuada, a Folha teve de pedir desculpas por esse "pecado", e uma turba fez uma manifestação de protesto em frente ao prédio do jornal, enquanto panfletos partidários travestidos de publicações "sérias", em geral a soldo do governo, tomaram as rédeas do farisaísmo esquerdista.
.
Fatos como esse demonstram aquilo que venho dizendo há tempos, aqui e alhures: que vivemos uma espécie de ditadura mental - ditadura mesmo, e não ditabranda -, caracterizada pela hegemonia do pensamento de esquerda e do politicamente correto. O que causou indignação nas hostes esquerdistas não foi a classificação do regime militar de 1964 como "ditabranda" - foi a ousadia do jornal paulista em mostrar as diferenças existentes entre esta e regimes venerados pela esquerda, como o de Cuba. Em outras palavras: é proibido comparar.
.
Respondendo a pergunta que inicia esse texto, digo que sim, pode-se comparar regimes ditatoriais. Digo mais: é necessário compará-los. Sem isso, é impossível compreendê-los.
.
Antes que o digam, já me adianto: não se trata de relativizar o que ocorreu no Brasil quarenta anos atrás, como se se estivesse dizendo "pô, a ditadura militar não era tão ruim, afinal", nem, muito menos, de justificar a repressão política do período, mas sim de colocar os pingos nos is da História, infelizmente monopolizada pela visão esquerdista. Para tanto, uma visão objetiva e, tanto quanto possível, desapaixonada dos fatos se faz necessária.
.
A ideia de que não se pode comparar o que houve no Brasil com o que segue ocorrendo em países como Cuba, ou entre ditaduras de direita e ditaduras comunistas, é essencialmente falsa pois, sob os mais diversos pretextos - "não existe hierarquia da dor", "pouco importa quem matou mais" etc. -, o que se esconde é a tentativa, até aqui bem-sucedida, de eliminar qualquer senso de proporção.
.
O senso de proporção é a bússola mesma que orienta o comportamento e o pensamento humano. Eu só sei se sou alto ou baixo, gordo ou magro, feio ou bonito, em comparação com alguém ou alguma coisa. Sem esse termo de comparação, sem esse senso de medida, perdemos completamente o rumo, não há como dizer se fulano ou determinado objeto é assim ou assado. Sem esse elemento, enfim, não há referências. Isso vale tanto para as relações entre as pessoas e as coisas, como para os regimes políticos.
.
Além do mais, vale lembrar: a comparação é a base do Direito. Quem mata ou fere um será punido com a sanção que é devida a quem mata e fere um, e não dez ou vinte. Do mesmo modo, quem mata, mutila e tortura não vinte ou cem ou quinhentos ou mil, mas cem mil, ou cem milhões, merece receber uma punição muito mais severa, compatível com a gravidade desses crimes. Isso não sou eu que digo: é o Código Penal.
.
Um exemplo da perda desse senso de proporção patrocinado pelas esquerdas é a recusa destas de discernir entre regimes autoritários e totalitários. Com frequência, ouvimos algum propagandista ideológico travestido de professor vociferar contra a ditadura "fascista" de 64 etc., reduzindo um fenômeno político-social extremamente complexo - o fascismo - aos métodos empregados pelos esbirros da repressão. É uma falsidade. Já escrevi antes que é um absurdo classificar o regime de 64 de fascista, pois, entre outras coisas, não havia um partido único no poder aos quais os militares estivessem submetidos (pelo contrário: por ter extinguido todos os partidos políticos, o regime militar foi de certa forma o oposto do fascismo). Pelo mesmo motivo, é um erro afirmar que se tratava de um regime totalitário, e não autoritário. Não se trata de uma distinção acadêmica: foi justamente por não diferenciar os nazistas dos social-democratas, a quem chamavam de "social-fascistas" (!), que os comunistas alemães perderam o foco e permitiram a ascensão de Hitler e os nazistas, no começo dos anos 30.
.
Certo, para quem foi vítima da repressão e sofreu torturas, a distinção acima significa pouco, ou quase nada. Mas isso não muda em um milímetro a questão. Não é segredo para ninguém que tortura e assassinatos também acontecem, infelizmente, em democracias, e essas não deixam de sê-lo por causa disso. Pode parecer cruel, mas não é o sofrimento desse ou daquele indivíduo o que determina o caráter de um regime político. Fosse assim, qualquer pessoa que tivesse tomado uns safanões em uma delegacia de bairro poderia argumentar, com razão, que vivemos em uma ditadura fascista.
.
Na verdade, por trás de todo o barulho e ranger de dentes contra editoriais como o da Folha, o que existe é, como disse o jornal em resposta aos dois professores da USP, muito cinismo e hipocrisia. Duvido muito que os que fizeram a manifestação em frente ao prédio do jornal estejam minimamente preocupados com democracia e direitos humanos (basta ver o símbolo do partido na faixa da foto acima). Estão, isso sim, interessados em jogar poeira nos olhos de todos, usando os casos brasileiro ou chileno como biombo, fazendo todos esquecerem o que sempre defenderam. Por trás das declarações enfurecidas contra a tortura e dos discursos a favor da dignidade da pessoa humana, o que defendem, na realidade, é a proibição de comparar. A tática é conhecida: maximizar os delitos do adversário e minizar os próprios. Até que só se enxergue os crimes do inimigo, e se esqueça por completo - ou se justifique - os cometidos em nome do socialismo. Desse modo, conseguirão o que desejam, fazendo todos acreditarem que os crimes da esquerda são infinitamente mais desculpáveis do que os da direita. Ou não são crimes. Pura desonestidade intelectual.
.
Tudo isso tem um objetivo prático: as esquerdas sabem que os regimes e movimentos comunistas mataram mais, e de maneira muito mais sistemática e, se quiserem, científica, do que qualquer ditadura militar sul-americana, ou mesmo do que os regimes nazi-fascistas. No século XX, foram cerca de 100 milhões os mortos pelo comunismo em países como a ex-URSS, a China, o Camboja e a Coreia do Norte. Isso faz do comunismo uma ideologia muito mais assassina do que qualquer coisa engendrada, até aqui, pela mente humana. Não por acaso, Stálin dizia que a morte de um homem é uma tragédia; a de milhões, é uma estatística. É por isso que as esquerdas berram sempre que alguém tem a ousadia de comparar as ditaduras de direita e as de esquerda: tendo mais esqueletos no armário que esconder, sentem-se injuriadas quando alguém os expõe à luz, chamando de fascista e reacionário quem o fizer.
.
Estou dizendo que as ditaduras de direita, como a brasileira ou a de Pinochet no Chile, porque mataram menos, devem ser justificadas? Não! Estou dizendo apenas que as ditaduras de esquerda mataram mais, infinitamente mais, e que são, por isso, mais criminosas do que as de direita. Além disso, as de esquerda não se contentam geralmente em exterminar ou calar seus opositores: fazem questão de implantar um sistema de coerção mental que não tem nenhum paralelo com nada que a direita tenha inventado até hoje. Ou, como disse certa vez Jorge Amado: "atrevo-me a dizer que as ditaduras de esquerda são piores, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto; quem o fizer contra as de esquerda será tachado de reacionário, vendido, traidor".
.
Ditaduras são ditaduras. Não importa de onde venham, que cor ideológica tenham, não existem ditadores bons: existem apenas ditadores, e ponto. Isso, porém, não deve nos deixar cegos, surdos e mudos para as diferenças entre eles. Pode-se, sinceramente, dizer que a ditadura militar brasileira foi tão sanguinária quanto, por exemplo, a argentina, com seus 30 mil desaparecidos políticos? Ou que as ditaduras de Salazar em Portugal, ou mesmo a de Franco na Espanha, foram tais e quais as de Hitler e Stálin, que deixaram atrás de si uma montanha de milhões de cadáveres? Mesmo assim, afirmo e reafirmo que eram todos regimes ditatoriais. Será que a esquerda, que idolatra Lênin e Fidel Castro, pode dizer a mesma coisa?
.
O regime militar brasileiro matou 424 pessoas em 21 anos de existência. Foi, portanto, 424 vezes execrável. A ditadura cubana matou quase cem mil, entre fuzilados e afogados tentando escapar da ilha-prisão. Logo, merece ser repudiada cem mil vezes. Comparar não é relativizar, nem justificar o que quer que seja. É repor a verdade histórica.

quarta-feira, abril 22, 2009

AHMADINEJAD, O QUERIDINHO DAS ESQUERDAS


Ao discursar na Conferência sobre o Racismo da ONU, em Genebra, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, aproveitou o evento para atacar, mais uma vez - adivinhem - Israel, chamando-o de um país "racista", negando seu direito à existência etc. etc. Diante de tal disparate, as delegações dos países europeus, presentes à reunião, fizeram a única coisa decente a se fazer numa situação dessas: retiraram-se da sala. Fizeram muito bem!

Que uma conferência das Nações Unidas sobre racismo conte com a presença de Ahmadinejad, um racista e antissemita declarado, que já afirmou em alto e bom som que o Holocausto nazista é uma ficção e que deseja a destruição de Israel, já é de um absurdo e de uma desfaçatez sem limites. Daí a decisão - acertada, como se verificou - dos EUA e de Israel, bem como de vários países europeus, de boicotar a reunião. Que o discurso de Ahmadinejad tenha ocorrido poucas horas antes de os israelenses lembrarem a memória dos 6 milhões de mortos pelos nazistas no Holocausto (Shoah), é algo que só pode ser entendido como uma provocação antissemita.


Curiosamente, muitos que se mostram indignados com a discurseira racista de Ahmadinejad na Conferência sobre o Racismo de Genebra costumam referendar suas teses, mesmo sem o saber, quando se trata de atacar Israel e seu direito de se defender. Nem vou falar aqui de uma certa esquerda, representada por tipos como o bufão venezuelano Hugo Chávez, que já anunciou até uma "aliança estratégica" com os imãs iranianos contra o Satã imperialista norte-americano. Vou me referir aos "moderados" mesmo, os chamados "vegetarianos" (que melhor seria chamar de herbívoros).
.
No começo do ano, um verdadeiro exército de "progressistas" bombardeou o governo israelense por sua decisão de caçar e eliminar os terroristas islamitas do Hamas, que da Faixa de Gaza lançavam ataques com mísseis contra Israel. Choveram protestos de todos os lados, com acusações de "racismo" e até mesmo "genocídio" contra a ação militar israelense. Uma frase mal-interpretada e retirada do contexto do presidente israelense Shimon Peres, segundo a qual Israel, ao contrário do Hamas, cuida de suas crianças - o que é, aliás, a mais pura verdade -, foi utilizada como arma de propaganda contra Israel, como "prova" de uma atitude "racista" e "etnocêntrica". Em Davos, na Suiça, o representante da Turquia chegou mesmo a abandonar um debate com Peres, que ficou falando sozinho. De volta a seu país, foi recebido como herói.
.
Em meio a essa onda antiisraelense, quase ninguém lembrou que o Hamas, que usa a população palestina como escudo humano, é um grupo fundamentalista terrorista e genocida, que tem por objetivo, nada mais nada menos, a destruição de Israel - ou seja, um novo Holocausto. Do mesmo modo, pouca gente lembrou que o principal patrocinador do Hamas é o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. Muita gente, aliás, em geral as mesmas pessoas que estão agora ardendo de indignação pelas palavras do presidente iraniano, acredita piamente que é possível negociar com figuras desse tipo, vendo no culto obamista a nova religião redentora da humanidade.

Por falar em Ahmadinejad, ele virá ao Brasil no começo de maio, onde será oficialmente recebido por Lula da Silva, com tapete vermelho e honras de chefe de Estado. Adivinhem o que dirão os sábios do governo Lula e do Itamaraty? Falarão em pragmatismo, relações com todos os países, cooperação Sul-Sul, balança comercial, essas coisas. Só não falarão o que é preciso dizer: que Ahmadinejad é um fanático racista e antissemita, patrocinador oficial de pelo menos dois grupos terroristas - enfim, um perigo para a humanidade, e que fechar os olhos para esse fato é cumplicidade com o crime e com a demência, um atestado de delinquência ideológica e intelectual.

.
PS.: E o Brasil, como se comportou na referida conferência sobre o racismo de Genebra? A resposta, quem a dá é o chefe da delegação brasileira, o Ministro da Integração Racial (?!), Edson Santos (quem?). Em entrevista a um jornal do Paraná, logo após a reunião, o ministro negou que o discurso de Ahmadinejad tenha sido racista. Culpou, ainda, os próprios judeus pela existência do antissemitismo (!). Tivesse ele culpado os negros pelo racismo, como seria isso chamado? Racismo, claro. É o Brasil caminhando célere rumo à - como é mesmo? - "integração racial"...

segunda-feira, abril 20, 2009

ALGUMAS SUGESTÕES DE LEITURA PARA HUGO CHÁVEZ

Mais uma vez, o bufão da Venezuela, coronel Hugo Chávez, mostrou que não tem senso do ridículo. E, mais uma vez, a grande imprensa se deixou levar na onda. Na 5ª Cúpula das Américas, que ora se realiza em Trinidad e Tobago, Chávez fez questão de presentear o presidente dos EUA, Barack Obama, com um livro. Que livro? As Veias Abertas da América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano.

Se Chávez tivesse escolhido a coleção completa de Recruta Zero ou de Reco-Reco, Bolão e Azeitona, teria regalado o mandatário estadunidense com uma obra de muito maior valor e estofo intelectual. O livro de Galeano é um dos piores já escritos na história da humanidade, não passa de um panfleto choroso e mal-ajambrado contra o “imperialismo” e a “exploração” das potências européias – e, claro, dos EUA, responsabilizados por todos os males do continente, passados e presentes.

Ao contrário de amigos seus, como o Apedeuta, que sabidamente nunca leu um livro na vida – e que é louvado por muitos intelequituais por isso –, Chávez faz o tipo “intelectual”, malgrado a grossura. Ele gosta de bancar o professor. Em seu programa dominical de rádio e televisão, vira e mexe ele recomenda livros à platéia, como os de Noam Chomsky e o que ele deu de presente a Obama. Ou seja, sempre livros de propaganda esquerdista mais vulgar e vagabunda, do tipo que nossos professores da USP adoram e que ainda fazem a cabeça de muitos idiotas mundo afora.

A grande imprensa, claro, bateu palmas para o gesto de Chávez, considerando-o mais um sinal de “reaproximação” entre a América Latina (representada por Chávez, vejam só...) e os EUA. Não percebeu, ou não quis perceber, que tudo foi mais um teatrinho do proto-ditador de Caracas, mais uma jogada em sua cruzada retórica contra o “império”.

Esse tipo de teatro trash-ideológico não seria possível se Barack Obama não fosse o atual ocupante da Casa Branca. Obama, como se sabe, está sendo incensado por ter dado um passo “histórico” (como tudo que ele faz, aliás), ao retirar restrições a visitas e remessas de dinheiro a Cuba, medida que foi logo interpretada como o sinal de uma nova relação dos EUA com a América Latina etc. etc. O aperto de mão que trocou com Chávez, no início da conferência, bem como o presente do livro, estão sendo vistos nesse contexto. De fato, há uma mudança nisso aí. Nos discursos de Chávez, o presidente dos EUA deixou de ser “el diablo” e passou a ser o “pobre ignorante”...

Como não poderia deixar de ser, os governos aliados da castradura cubana, como os de Chávez e o de Lula da Silva, aproveitaram o palco da Cúpula das Américas para defender o retorno de Cuba à OEA etc. etc. Como se o fato de Cuba ser uma tirania dependesse não dos irmãos Castro, há cinqüenta anos no poder, mas, única e exclusivamente, dos EUA e de seu “bloqueio” (aliás, inexistente, ver artigo anterior). Ninguém parece se importar com o fato de que, até o momento, as possibilidades de a tirania cubana retribuir o gesto norte-americano, abolindo a censura e realizando eleições livres, por exemplo, são mais do que remotas. Aliás, até o momento em que escrevo estas linhas, não vi Lula ou Celso Amorim falarem nenhuma vez de democracia e respeito aos direitos humanos na ilha-presídio.

Mas voltemos ao livro de Galeano. Como disse antes, é uma das piores coisas já saídas de um cérebro humano. Por esse motivo, aí vão algumas dicas minhas de leitura que, espero, sejam de alguma utilidade para Chávez da próxima vez que quiser presentear o presidente dos EUA.

Ele poderia começar com o Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, de Plínio Apuleyo Mendoza, Álvaro Vargas Llosa e Carlos Alberto Montaner, que faz um apanhado bastante abrangente de todas as taras ideológicas da esquerda do continente, a começar pelo antiamericanismo, essa doença que parece resistir à qualquer tentativa de cura. Serve como uma luva para compreender a forma de "pensar" de figuras como Chávez. O livro, aliás, tem um apêndice em que os autores dissecam os dez livros que mais emocionaram o perfeito idiota latino-americano. Adivinhem que obra mereceu o primeiro lugar na lista? Se você pensou no livro de Eduardo Galeano, acertou em cheio.

Outro livro que eu sugeriria é A Obsessão Antiamericana, do filósofo francês Jean-François Revel, o qual, como o próprio título indica, demonstra sem compaixão as origens e (in)conseqüências do antiamericanismo, algo caro a Chávez. Bastante interessante e oportuno também é Como Terminam as Democracias, do mesmo autor, que, embora escrito há mais de vinte anos, parece descrever à perfeição o que está se passando hoje em países como a Venezuela e a Bolívia.

Mas, se o fanfarrão venezuelano preferir uma obra de um autor de seu próprio país, pode tentar o clássico Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário, de seu conterrâneo Carlos Rangel, um dos livros que melhor dissecou o pensamento esquerdopata na América Latina, com sua atração por líderes demagogos e caudilhos populistas. Ou então um outro livro do mesmo autor, Ideologia Terceiro-Mundista, que descreve de forma clara e objetiva esse mito político do século XX, que só gerou – e continua a gerar – atraso e autoritarismo.

Como esses, eu poderia sugerir muitas outras leituras, uma biblioteca inteira de obras que deixam no chinelo as patacoadas esquerdopatas dos Galeanos e Chomskys da vida. Mas desconfio que minhas sugestões não serão bem acolhidas pelo caudilho de Miraflores. É que esses livros são para pensar, não para fazer teatro em reuniões internacionais perante uma imprensa embasbacada e um presidente dos EUA que, infelizmente, se presta a esse tipo de patetice.

quarta-feira, abril 15, 2009

CUBA: O VERDADEIRO BLOQUEIO

A notícia da semana foi a decisão do governo dos EUA de levantar restrições às visitas de exilados cubanos a Cuba, bem como ao envio de dólares para seus parentes na ilha. A partir de agora, os cubanos que vivem nos EUA - cerca de dois milhões - poderão cruzar o estreito da Flórida e visitar o país quantas vezes quiserem, e não apenas uma vez por ano, e a quantidade de dólares que remetem anualmente a suas famílias será ilimitada. Como não poderia ser diferente em se tratando do governo Obama, a iniciativa foi saudada como "histórica", "um passo rumo ao restabelecimento das relações" entre os EUA e Cuba etc. etc. Um marco, enfim.
.
O.k., até aí, nada a comentar. Tirando o fato de que tudo o que Obama faz, até assoar o nariz, é "histórico" para seus devotos na imprensa, a decisão é certamente bem-vinda, pois é sempre um fato positivo eliminar restrições ao reencontro de familiares, ainda mais quando se sabe que estão separados há mais de cinquenta anos por um regime despótico e ditatorial. Além do mais, é provável que a análise que li nesses últimos dias por alguns críticos ferrenhos da ditadura dos irmãos Castro, de que a medida de Obama retirou uma das principais bandeiras de aliados políticos da tirania castrista como Hugo Chávez e Lula, que sempre esbravejaram contra o "bloqueio" mas se calam quanto à situação dos direitos humanos na ilha, esteja correta. Mas é bom ir devagar com o andor.
.
Saudar como um passo positivo, e até humanitário, a iniciativa norte-americana é uma coisa. Outra coisa, bem diferente, é afirmar, como ouvi na TV nesses dias, que isso irá conduzir a ilha-presídio de volta à democracia. O fim das restrições a viagens e a remessas de dinheiro para Cuba não é uma garantia de que a tirania cubana irá concordar, voluntariamente, com sua abolição. Aliás, à luz de iniciativas anteriores, é altamente provável que ocorra exatamente o contrário: o regime não apenas não irá se democratizar, mas irá reforçar ainda mais seu aparato repressivo, tornando ainda mais remotas as esperanças de redemocratização. Em outras palavras, a questão é a seguinte: haverá reciprocidade por parte de Havana? É pouco provável. Eu diria mesmo: é quase impossível.
.
Ao contrário do que vem sendo alardeado pela imprensa, existem razões de sobra para acreditar que, infelizmente, o gesto do governo Obama não virá acompanhado de nenhuma iniciativa dos tiranos cubanos no sentido de uma abertura do regime. Os sinais disso são evidentes. Vendo que um de seus principais trunfos retóricos para justificar a repressão foi por água abaixo, o que fez o próprio Fidel Castro, vindo da tumba? Aplaudiu a decisão de Obama, saudando-a como um passo importante para a normalização das relações entre os dois países? Nada disso. Esbravejou contra a medida, tachando-a de "muito tímida", e aproveitou para espinafrar, pela enésima vez, o "bloqueio imperialista" - que muitos idiotas consideram a causa de todos os infortúnios que afligem Cuba, inclusive, e principalmente, da própria ditadura comunista -, e, para finalizar, saiu-se com mais uma de suas bazófias machistas: "Cuba não aceita esmolas".
..
Tudo indica, portanto, que a iniciativa do governo Obama, embora bem-vinda para muitas famílias cubanas, não irá mudar muita coisa. Pelo contrário: corre-se o risco de a tirania castrista, ao invés de abrir-se, fechar-se ainda mais. Em alguns dias, será realizada a 5a cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, onde será discutida a questão de Cuba. Quanto querem apostar que Lula e Hugo Chávez irão tomar a palavra para falar em nome da ditadura castrista e defender o fim do "bloqueio" e a readmissão de Cuba à Organização dos Estados Americanos, mas não falarão uma palavra sobre eleições livres e democracia na ilha-cárcere?
.
Por trás de tudo isso, está algo que já demonstrei várias vezes aqui, e que faço questão de repetir: a penúria cubana não é o resultado de nenhum "bloqueio" dos EUA, até porque este não existe - o que há é um embargo comercial norte-americano, totalmente irrelevante para a continuidade ou não do regime, pois não o impede de realizar operações de comércio triangulares e de comerciar livremente com quase todos os países -, mas, única e simplesmente, da ditadura dos irmãos Castro. Esta, por sua vez, não é também a consequência de nada que os EUA tenham feito no passado, mas, tão-somente, da ambição política e da megalomania de Fidel Castro, que transformou um país outrora próspero numa ruína de pobreza e opressão. Não será Obama, ou quem quer que seja, que o convencerá a largar o osso.
.
É bom lembrar: agora os cubanos que residem nos EUA podem visitar Cuba livremente, mas o mesmo não pode ser dito dos 11 milhões de cubanos que sobrevivem, a duras penas, na ilha-prisão, e que veem a toda hora seu desejo de viajar para o extterior negado pelas autoridades. A esses, o único caminho que resta é apenas o de agarrar-se a um bote ou a um pneu velho, e rezar para não virar almoço de tubarão na perigosa travessia. Esses continuarão esperando o dia em que poderão sair do país quando quiserem, assim como falar em público o que pensam sem o risco de irem parar na cadeia.
.
Esse é o único bloqueio a que o povo cubano está submetido - o bloqueio da censura, das prisões políticas, das eleições de cartas marcadas, do partido único. Enquanto esse bloqueio não chegar ao fim, nada que os EUA fizerem ou deixarem de fazer fará qualquer diferença. Se depender dos Lulas e Chávez da vida, esse bloqueio será eterno.

segunda-feira, abril 13, 2009

Viva João Ubaldo Ribeiro


Segue artigo do mulato, baiano e brasileiro João Ubaldo Ribeiro, um escritor que - felizmente - não sucumbiu à onda "politicamente correta" que quer nos convencer que o Brasil é um país bicolor onde impera um racismo tão ou mais funesto do que o que vigorou, um dia, na terra de Nelson Mandela. Saiu n'O Globo de 5/04.

João Ubaldo, como de hábito, acerta em cheio e deixa claro que coisas como raça são para mamíferos de quatro patas da família dos canídeos, não para seres humanos. Simplesmente perfeito, a começar pelo título, que já diz tudo. Uma resposta inteligente e bem-humorada a quem, sob o pretexto de combater o racismo (sempre da "elite, branca e de olhos azuis", como diria o Apedeuta, aliás ele próprio, como escreveu certa vez João Ubaldo, um ex-mulato), está disposto a tudo - inclusive a torná-lo oficial. Assino embaixo.

Quem tem raça é cachorro

05/04/2009

No domingo passado, citei aqui a frase de meu amigo e conterrâneo Zecamunista que hoje uso como título. Ele de fato diz isso, como eu também digo, nas conversas intermináveis havidas com amigos desde a juventude, quando nos ocorre a felicidade de revê-los. Coroas meio ou bastante chatos, compreendemos quando os mais novos nos cumprimentam com a possível afabilidade, depois mantendo prudente distância. Portanto, a maior parte de nossas conversas não passa mesmo do papo de dois velhotes irresignados e rezinguentos, que não sai, e geralmente não deve ou não precisa sair dali, pois costuma ser algo sem o qual ou com o qual tudo permanece tal e qual, como sentenciava minha avó Pequena Osório, a respeito de meus livros.

Mas, no caso, quando estamos ameaçados de ver consagrada nas leis do País a divisão do povo basileiro entre raças, acho que devemos fazer o nosso papo transcender os limites do Largo da Quitanda, a ágora da Denodada Vila de Itaparica, onde hoje vultos menores, como Zeca e eu, ocupam com bem pouco brilho o lugar de tribunos da plebe legendários, como Piroca (Piroca é um apelido para Pedro, no Recôncavo Baiano; não tem nada demais, é um fenômeno que atinge o nome “Pedro” de forma curiosa; quer ver, pergunte a um amigo americano o que quer dizer “peter”, com P minúsculo) e Zé de Honorina, este negro pouco misturado com branco, aquele mulato. Zé, aliás, um dos homens mais inteligentes, argutos e eloquentes que já conheci – e cito o que se segue como um dado interessante – não tinha muita noção de que era negro e uma vez me pediu explicações sobre “negritude” e “irmandade” entre negros, conceitos que lhe eram pelo menos parcialmente estranhos.

Mas vou deixar de nariz de cera e de vaselina, porque creio que o assunto merece ser tratado na grossura mesmo, como vem sendo por muita gente, em todas as faixas de opinião. Quem tem raça é cachorro (em inglês, breed, não race), gente não tem raça. Não vou repetir, porque qualquer um com acesso ao Google pode se encher de dados sobre isto, os argumentos científicos que desmoralizam a raça como um conceito antropologicamente irrelevante e equivocado, sem apoio algum entre os que estudam a genética humana. Entretanto, o atraso da espécie (ou raça) humana leva a que continuemos a lhe emprestar importância desmedida e irracional, odiando por causa dele, matando por causa dele e até ameaçando o planeta por causa dele. De qualquer forma, incorporando o conceito de raça a seu sistema jurídico, o Brasil estará dando um ridículo (mas de consequências possivelmente temíveis, ou no mínimo indesejadas) passo atrás, mais ou menos como se o Ministério da Saúde consagrasse a geração espontânea de micro-organismos como fonte de infecções.

Mais ridículo e até grotesco é que os defensores do reconhecimento das “raças” que compõem o povo brasileiro façam isso depender de uma declaração ou opção da pessoa racialmente classificada, até mesmo em circunstâncias nas quais essa opção pode não ser honesta, mas apenas de conveniência, como nos casos, já acontecidos, de gente que se considerava branca declarar-se negra para obter a vaga destinada a um “negro”. Ao se verem num mato sem cachorro para definir a raça de alguém, exceto copiando manuais nazistas e tornando Gobineau e Gumplovicz autores básicos para a formação de nossos cientistas sociais, médicos, dentistas, músicos, atletas e profissionais de outras áreas onde as diferenças de aptidão ou fisiologia são “visíveis”, assim como era visível a superioridade dos atletas de Hitler que o negro Jesse Owen botou num chinelo, os defensores de cotas raciais se valeram desse recurso atrasado, burro, grotesco e patético em sua hipocrisia básica. Não há como defender critério tão estapafúrdio e destituído de qualquer fundamento.

Outra coisa chata, enquanto vemos o Brasil querer botar na letra da lei, o que outros países onde houve e há até mesmo apartheid, como nos Estados Unidos, não só de ontem como ainda de hoje, apesar do presidente Obama, fazem força para retirar, é a persistência do que eu poderia chamar de síndrome de Mama África, contra a qual quem eu mais vejo protestar são escritores amigos meus de países africanos, que não aguentam mais ser embolados num mesmo pacote como “africanos”, transformando em folclore disneyano a enorme complexidade cultural de um continente como a África. Burrice falar em “cultura africana”, “comida africana” e similares, em vez de pluralizar essas entidades, porque são plurais. Além disso, nada mais racista e simplório do que achar que os negros são “irmãos”. Os negros são tão irmãos entre si quanto os europeus entre si, ou seja, irmãos em Cristo, tudo bem. Mas o racismo contra si mesmos de muitos que se acham negros insiste em que há essa irmandade. Documentos escravagistas do Segundo Império, no Brasil, recomendavam que se mantivessem escravos de nacionalidades diversas na mesma senzala, porque muitos se odiavam ou desprezavam entre si mais do que ao opressor. Quem já viu um alemão racista olhar um polonês (eslavo, que curiosamente tem a mesma origem que “escravo”) sabe o que estou dizendo. Desumaniza-se o negro, tornando-o imune à baixeza de seus companheiros de humanidade (mas não de raça). Isto, claro, é outra asnice desmentida pelos fatos ontem e hoje. Ontem, quando mercadores negros de escravos vendiam outros negros por eles mesmos escravizados; hoje, quando negros continuam a escravizar negros e a guerrear entre si, exatamente como os homens de outras raças, o que lá seja isso, desgraça de atraso de vida na cabeça das pessoas, triste exemplo de um país misturado pela graça de Deus querer jogar no lixo esse dom inestimável e irreproduzível, “modernizando-se” pela condenação por vontade própria ao que a História não o condenou.

quinta-feira, abril 09, 2009

UMA VOZ DA RAZÃO EM MEIO À BARBÁRIE

Nonie Darwish é uma escritora e palestrante nascida no Egito em 1948. Quando criança, sua família mudou-se para a Faixa de Gaza, então controlada pelo governo egípcio. Seu pai, um oficial do Exército, era o Chefe do Serviço de Inteligência do Exército egípcio em Gaza. Como tal, organizou diversos ataques terroristas levados a cabo por militantes árabes ("fedayeen") contra a população de Israel - àquela época, anos 50, já havia terrorismo árabe contra Israel; não foi algo que surgiu somente após a derrota árabe na Guerra dos Seis Dias, em 1967, como se convencionou dizer depois.
.
Em 1956, comandos israelenses assassinaram, em represália, o pai de Nonie Darwish, que se tornou assim um "shahid" (mártir) da causa árabe. Em discurso, o então presidente do Egito, o coronel Gamal Abdel Nasser, então um ídolo para milhões de árabes, chegou a perguntar às duas filhas do militar assassinado, uma delas Nonie Darwish, ainda crianças: "qual de vocês duas irá vingar a morte de seu pai matando judeus?"
.
Diante do que está aí em cima, seria de esperar que Nonie Darwish, que nasceu no mesmo ano da criação do Estado de Israel, fosse uma antiisraelense e antissionista raivosa, uma aliada ou simpatizante, quando não militante ostensiva, de organizações palestinas radicais, como outrora foi a OLP de Yasser Arafat, ou uma devota fanática do terrorismo islamita praticado pelo Hamas ou pelo Hezbollah. Seria de esperar que ela fosse uma senhora amargurada, cheia de ódio e ressentimento, desejando do fundo de sua alma a destruição completa do Estado de Israel, com a consequente aniquilação de sua população. Certo?
.
Pois é. Se você pensou assim, sinto informar, mas você está errado. Completamente errado. Dolorosamente errado.
.
Pois Nonie Darwish não apenas NÃO é uma inimiga jurada de Israel e dos israelenses, como se transformou numa das mais ardorosas defensoras da paz com Israel. Mais que isso: ela é uma das poucas vozes árabes que defendem abertamente Israel e seu direito de existir. Em seu site, arabsforisrael.com, ela não poupa críticas aos governos árabes, aos quais acusa de se utilizarem do drama do povo palestino com objetivos políticos a fim de atacar Israel, negando, por exemplo, o direito dos palestinos adotarem a nacionalidade dos países em que se encontram, mesmo se forem casados com um nacional da Síria ou da Arábia Saudita. É essa estratégia claramente demagógica, e não a ação de Israel, aponta Darwish, a responsável pela miséria do povo palestino, que se arrasta por décadas.
.
Sobre a morte de seu pai, Darwish dá o seguinte depoimento: "Eu sempre culpei Israel pela morte de meu pai, porque foi isso que me foi ensinado. Eu nunca procurei saber por que Israel matou meu pai. Meu pai foi morto porque os fedayeen estavam matando israelenses. Meu pai foi morto porque, quando eu era menina, tínhamos que recitar poesia que pregava a jihad contra Israel. Ficávamos com lágrimas nos olhos, prometendo que queríamos morrer. Eu falo para gente que pensa que não havia terrorismo contra Israel antes da guerra de 67. Como podem negar isso? Meu pai morreu por isso."
.
Quanto ao Islã, com quem rompeu há anos, Darwish é também incisiva. Ela afirma que o Islã é uma ideologia retrógrada e autoritária que está tentando impor ao mundo normas de comportamento e de pensamento do século VII. Vai mais além: o Islã é uma força sinistra a que devemos resistir e conter. Ela diz ser difícil compreender como toda uma religião e uma cultura acredita que Deus ordena a matança de não-crentes, e acusa o Islã e a Sharia (a lei islâmica, vigente em países como o Irã) de, com sua incitação ao ódio e à violência, aumentar a miséria no mundo. Para ela, o Corão é um texto "violento, incendiário e desrespeitoso", que enaltece a brutalização de mulheres, a perseguição de homossexuais, assassinatos por honra, a decapitação de apóstatas e o apedrejamento de adúlteros, entre outras barbaridades.
.
Naturalmente, Nonie Darwish é um alvo frequente de ameaças de morte por parte dos fundamentalistas islamitas, que veem nela uma "traidora" da causa islâmica, ainda mais porque ela se converteu ao cristianismo e é hoje cidadã dos EUA. Mas, como ocorre com todos os que lutam o bom combate, ela não se intimida. Pelo contrário: as acusações de heresia e de apostasia apenas fortalecem sua disposição de combater o obscurantismo islamofascista e defender a paz com Israel. Seu último livro, aliás, tem um título sugestivo: Now They Call me Infidel (Agora eles me chamam de infiel).
.
Os idiotas e cretinos de todos os tipos, que se acostumaram a atacar sem trégua a ação militar de Israel contra seus inimigos mas se omitem de condenar o islamofascismo e o terrorismo islamita, certamente veem em Nonie Darwish uma aberração, ou nada mais que uma "traidora" da causa árabe e palestina. Sobretudo nossos esquerdiotas, que adoram posar de bons-moços e adorariam ver Israel riscado do mapa, mas não ousam admiti-lo em público, veem nela só mais uma conservadora de direita - como se "conservador" e "de direita" fossem verdadeiros anátemas. Certamente, imaginam que uma mulher com sua história de vida, obrigatoriamente, deveria estar vociferando contra o "terrorismo de Israel", ou até mesmo se lançando em um ataque homicida-suicida como mulher-bomba contra algum mercado israelense cheio de gente. Diante de uma mulher corajosa que faz exatamente o contrário, e não hesita em criticar duramente os ditos "moderados" que silenciam diante da violência terrorista e genocida de grupos como o Hamas, ficam estarrecidos. Não percebem, em sua estupidez, que é exatamente por causa de sua história de vida, e não apesar dela, que Nonie Darwish se converteu numa defensora de Israel e adversária implacável do terror islamita. Ela ousou desafiar o discurso do ódio pregado durante décadas contra os judeus e demais habitantes de Israel por mulás fanáticos e governos despóticos do Oriente Médio. Ao fazer isso, ela percebeu o óbvio: que a única solução para o problema israelo-palestino é o reconhecimento do direito de Israel à existência. Enquanto tanta gente não perceber isso, não haverá qualquer chance para a paz na região, e o ciclo de violência se perpetuará.
.
Acrescentei o site de Nonie Darwish à minha lista de favoritos no blog. Vale a pena dar uma olhada. É um raio de luz em meio à escuridão. Uma voz da razão em meio à barbárie.

quarta-feira, abril 08, 2009

IDIOTAS ÚTEIS OU AGENTES DA TIRANIA?

Os jornais do mundo inteiro estamparam ontem a manchete com estardalhaço: "delegação de congressistas norte-americanos visita Raúl Castro em Cuba". A notícia foi saudada, por dez em cada dez grandes veículos de imprensa, como um "passo histórico" rumo à "normalização das relações" entre Cuba e os EUA. Uma demonstração clara da nova política do governo de Barack Obama para a ilha etc. etc.
.
Os deputados que foram a Cuba são do Partido Democrata, o mesmo de Obama, e foram a Cuba como emissários do novo presidente norte-americano. É motivo suficiente para muita gente, especialmente nos círculos esquerdistas, ficar ouriçada com as brilhantes possibilidades de um futuro radioso pela frente. Afinal, tudo que diz respeito a Obama é imediatamente coroado com o adjetivo "histórico", ainda que seja a mera repetição de platitudes. Desconfio até que, se ele disser que a Terra é redonda, muita gente irá erguer a sobrancelha e exclamar que não sabia, até aquele momento. Há alguns dias ele esteve na Turquia, onde, para variar, fez mais uma declaração "histórica", ao dizer que a luta dos EUA era contra o terrorismo, não contra o Islã. Esqueceram-se que a frase vem sendo dita desde 2001, tendo sido repetida até a exaustão por ninguém mais, ninguém menos do que George W. Bush, o belzebu aposentado. Ah, esse Obama...
.
E a visita dos sete congressistas americanos à ilha-prisão dos irmãos Castro? Também está sendo tratada, como não poderia deixar de ser, com confete e serpentina, mais um evento "histórico". Os deputados democratas avistaram-se com Raúl e com Fidel Castro, que classificou o encontro como "magnífico" (hummm...). É motivo suficiente, a meu ver, para ficar com o pé atrás. Os deputados falaram em acabar com o "bloqueio" americano à Cuba (hummm...), esquecendo-se que o único bloqueio existente é o que a ditadura dos irmãos Castro impõs ao povo cubano, já se vão mais de cinquenta anos. Após encontro com Fidel Castro, a chefe da delegação, a deputada Barbara Lee, disse, cheia de entusiasmo, que o Coma Andante "nos pareceu cheio de energia, nos reunimos em sua casa, uma casa muito modesta. Sua mulher estava lá, seu filho tirou fotos, foi um encontro muito emotivo, de certa maneira". Comovente, sem dúvida. Desnecessário dizer, mas as excelências não mencionaram em momento algum os presos políticos na ilha, nem se dignaram a se encontrar com nenhum deles.
.
Até aí, você poderia dizer, nada de novo no front da desinformação esquerdista: visitas como essa ocorrem desde o governo Carter, que também ensaiou uma aproximação com Havana, recompensada em 1979 com o apoio de Fidel Castro à invasão do Afeganistão pela então URSS, e no ano seguinte com um dos maiores êxodos de refugiados dos tempos modernos, no qual o tirano aproveitou para se livrar de milhares de elementos "indesejáveis" na ilha-presídio. A visita seria apenas - de fato, foi - apenas mais um capítulo na interminável novela de enganação e auto-enganação patrocinada pela esquerda ocidental, que acredita piamente, ou finge acreditar, sei lá eu, que a ditadura castrista um dia chegará ao fim, bastando que para isso os EUA - sempre os EUA - deem o "primeiro passo". É uma lorota das grandes, claro. Mas o que me chamou a atenção, nesse caso, foi que, até mesmo para o nível habitual de enganação que cobre todas as notícias que nos chegam sobre Cuba, a visita dos parlamentares americanos ultrapassou todos os limites de mentira e manipulação.
.
Vejamos a chefe da torcida organizada pró-tirania cubana, a deputada pela Califórnia Barbara Lee. Querem conhecer um pouco da referida? Dei uma pesquisada na internet. A mencionada foi, simplesmente, a única parlamentar que votou contra a decisão do governo norte-americano de usar a força contra a Al-Qaeda no Afeganistão depois dos ataques de 11 de setembro. Querem saber mais? Ela é uma militante esquerdista de longa data, tendo começado a carreira como simpatizante do grupo Panteras Negras, que pregava o racismo negro nos anos 60 e 70. Natural, portanto, que tenha feito boca de siri em relação à situação dos direitos humanos na ilha de Cuba, e se empenhado, em vez disso, em conseguir, junto ao governo dos EUA, a libertação de cinco espiões cubanos presos há anos nos EUA, onde foram condenados após julgamento, na forma da lei, tendo-lhes sido garantidas todas as possibilidades de defesa (coisa que não se pode dizer dos presos políticos cubanos). Uma pessoa altamente gabaritada para cumprir tão importante missão, não acham?
.
"Ah Gustavo, mas que preconceito! Só porque ela é de esquerda..." Pudera. Se fosse só o que está aí em cima, já seria o suficiente para duvidar de mais essa tentativa de "aproximação". O problema, porém, vai mais além. A tirania castrista - a ditadura mais antiga do Ocidente - só existe e se mantém há mais de meio século por causa da repressão interna, implacável, e do apoio declarado de governos favoráveis, como os da Venezuela e do Brasil, e de idiotas úteis, que insistem em ver na ditadura castrista um exemplo de "dignidade" e de "resistência", enxergando na suposta intransigência da política norte-americana a verdadeira culpada pela... ditadura castrista, ora pois! Afirmam, nesse sentido, que basta o governo norte-americano - o culpado por tudo - fazer alguns gestos de boa vontade, como levantar o embargo comercial, e a ilha se tornará, um dia, uma democracia sueca. É uma mentira deslavada, que só se sustenta pela repetição incessante nos cérebros mal-informados. Cuba não é uma tirania por vontade dos EUA, nem deixará de sê-lo por causa disso. Nem, muito menos, vai virar uma democracia sendo adulada.
.
Gente como Barbara Lee e os palhaços que a acompanharam a Havana para lamber as botas de Raúl Castro e de seu irmão moribundo não merecem sequer ser chamados de idiotas úteis. Ao contrário desses, eles não podem alegar ignorância ou ingenuidade. São, isso sim, agentes conscientes de uma das tiranias mais sanguinárias da História da América Latina. E não são os únicos.