
Já escrevi aqui várias vezes que essa dicotomia entre duas esquerdas - uma radical e outra moderada; uma revolucionária e outra reformista; ou, como virou moda dizer, uma "carnívora" e outra "vegetariana" - é um dos maiores engodos que já apareceram em todos os tempos. Tão forte é essa tese que até mesmo críticos contumazes dos delírios e fantasias esquerdistas, como o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que esteve na Venezuela há alguns dias para participar de um colóquio sobre liberdade, se deixaram levar por ela, rasgando-se em elogios à suposta moderação do governo Lula, em comparação com a "revolução bolivariana" de Chávez e companhia. Que a revista semanal mais "direitista" do Brasil tenha engolido a isca não é algo, portanto, surpreendente.
Não sei se Mario Vargas Llosa e os editores de VEJA leram Gramsci. Também não sei se sua crença em uma esquerda responsável e moderada seria fruto de uma análise acurada da realidade ou de wishful thinking - acredito que seja este último caso o mais provável. Na verdade, por trás do aparente antagonismo esquerda carnívora-esquerda vegetariana (ou herbívora, como seria mais apropriado chamá-la), o que se esconde é tão-somente uma tentativa de, como se diz no Oriente, "salvar a face" da esquerda, cujas teses principais caíram por terra depois da queda do Muro de Berlim, em 1989. Uma grande enganação, enfim.
A primeira coisa a ser sublinhada é que a adesão de uma parte da esquerda à ortodoxia econômica e à responsabilidade fiscal não significa nenhuma evolução genuína, pelo simples motivo de que tal adesão não se deu de dentro para fora, mas de fora para dentro. Foi, dito de outro modo, uma imposição da realidade, e não uma ruptura verdadeira, decorrente de um gesto de coragem ou inteligência. Não é preciso coragem, nem inteligência, para saltar de um barco que está afundando. Era esse exatamente o caso do modelo socialista, marxista-leninista, no final dos anos 80. Pular fora dessa canoa furada foi o, por assim dizer, "mérito" do pragmatismo lulista, que tanto encanta empresários agradecidos - e iludidos -, os mesmos que não se importam com o fato de a China ser um sistema totalitário, desde que "funcione" economicamente. Em resumo: se os petistas deixaram de lado as teses marxistizantes e abraçaram a economia de mercado, não foi por nenhum compromisso deontológico, mas por puro oportunismo político e vigarice intelectual - ou alguém duvida que, se os ventos soprassem favoravelmente na direção do estatismo leninista, e não do capitalismo liberal, os petistas estariam, até hoje, defendendo a expropriação das grandes empresas multinacionais estrangeiras? Com a economia mundial marchando de vento em popa, era conveniente adotar uma postura favorável aos negócios e à livre iniciativa. A questão é: numa situação de crise, como a que o mundo vive atualmente (lembram da marolinha? pois é...), o que impede os cumpanhêru de promoverem uma recaída estatista?
Tanto em relação à economia quanto no tocante à democracia, o que houve foi uma conversão sem confissão, nem arrependimento. Ou seja: uma falsa conversão, motivada apenas por conveniências políticas. Os petistas jamais se arrependeram publicamente dos anos de demagogia antiliberal, em que não passava um dia sem que Lula ou algum outro caudilho esquerdista esbravejasse contra a política econômica de FHC e do FMI etc. e tal. Por que, agora, devemos dar crédito ao que dizem? (Só para comparar: imagine se os nazistas reaparecessem dizendo-se convertidos à democracia e aos direitos humanos, mas sem confessar nem se arrepender de seus crimes; essa "conversão" seria levada a sério?).
Não é assim porque eu quero. Lula e sua camarilha já deram mostras de sobra de que estão se lixando para a democracia, assim como estão se lixando para a ética (aí estão o mensalão e os delúbios da vida para comprovar isso). Apenas a título de exemplo, basta lembrar que praticamente não passa um dia sem que não se veja alguma tentativa por parte de algum ministro petista de controlar, regular, manietar a sociedade. Idem para as articulações para o terceiro mandato. Se Lula e os petistas não rasgam a Constituição e instalam de vez um regime ditatorial no Brasil, não é porque não queiram - é porque (ainda) não podem. Querem saber qual o modelo de Estado ideal e de sociedade ideal para os esquerdistas? Olhem para Cuba ou para a Venezuela.
Há uma grande diferença entre conversão - que implica, necessariamente, abjurar e arrepender-se da crença anterior - e uma operação plástica. Como demonstram Dilma Rousseff e o PT, é dessa última que se trata, quando se fala de uma esquerda "responsável" e "vegetariana". Eles mudaram, sim - mas não por dentro.












