segunda-feira, março 16, 2009

A IMPRESSIONANTE SABEDORIA DE UMA MENTE ANARQUISTA

Nero, na interpretação magistralmente canastrona
de Sir Peter Ustinov, em "Quo Vadis" (1951)


Se tem uma coisa com a qual jamais vou deixar de me surpreender, é a capacidade que certas pessoas têm de enxergar sabedoria na loucura, beleza no crime, virtude na barbárie. Um tal "Leo" - mas poderia ser Adolf, ou Josef - está há alguns posts tentando me convencer que a melhor solução para a questão do Oriente Médio - ou para qualquer outra questão da humanidade - é a destruição, pura e simples, de todos os envolvidos. Em outras palavras: a Anarquia. Eis o último produto saído desse cérebro privilegiado (os grifos são meus):

Engano seu! Não compartilho do ideal do Hamas. Quero que ele, como todos os seus seguidores, seja automaticamente destruído por alguma outra força maior do que ele. Talvez a India ou a China, vale até os EUA. (Que joguem uma bomba atômica naquele pedaço de terra ridículo menor que a maioria dos estados do Brasil, e que não tem nada de bom lá. É a briga mais idiota que já ouvi falar: Israel x Hamas!)

Eu homem-bomba? Nem pensar! Quero mais que a humanidade se destrua... Vou ficar só assistindo e rindo... MUITO! (Quanto as 72 virgens, prefiro ficar com apenas 27 não-virgens do mundo terreno, que vale mais a pena!)

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O que dizer do que está aí em cima? Alguém poderia afirmar que não vale a pena responder esse tipo de lixo, e pode ser que tenha razão. Mas não consigo resistir. Desde a época de faculdade, tenho o costume de tentar debater com todo mundo, até mesmo com quem já mandou a razão para as cucuias faz tempo. É algo que simplesmente não consigo evitar. Além do mais, não posso negar, é divertido. Certa vez, passei uma noite inteira discutindo com um sujeito que se dizia anarquista. Ele gastou horas tentando me convencer das vantagens de uma vida sem Estado e sem qualquer tipo de autoridade. No final, ele estava derramando-se em lágrimas, chorando como um bezerrinho, confessando seu desejo de que todos voltássemos a ser crianças...

O tal leitor não foge à regra. Ele diz que não compartilha do ideal do Hamas (como se eu, em algum momento, tivesse dito que ele era seguidor desse grupo) e que deseja sua destruição, no que estou de acordo. Só esquece que não é preciso compartilhar do ideário de uma organização terrorista e genocida, não é necessário converter-se ao Islã fundamentalista e abster-se de comer carne de porco, para corroborar suas ações. Basta dizer, por exemplo, que o sangue deve jorrar.

Em outras palavras, basta considerar os atentados suicidas-homicidas do Hamas e do Hezbollah como "necessários" para se atingir algum objetivo utópico - a extinção do "Estado" e da "autoridade", ou a futura sociedade comunista perfeita - para justificar a morte e a mutilação de inocentes, numa reedição do Holocausto nazista. E nisso ele está em comum acordo com todos os que veem em Israel o lado mau, o lado que não tem o direito de se defender dos que querem destruí-lo e transformar sua população numa montanha de ossos - fanáticos islamitas, esquerdistas de galinheiro, pacifistas etc.

O caro leitor, em sua sabedoria niilista - como é fácil se achar mais sábio e mais esperto não acreditando em absolutamente nada... - quer que o Hamas seja destruído - no que estou de acordo -, mas se abstém de dizer como se dará isso. Diz apenas, abstratamente, que quer que ele seja "automaticamente destruído" por "alguma outra força" depois de varrer Israel do mapa. Qual força seria essa? "Talvez a Índia ou a a China, vale até os EUA"... Por que não o Brasil? Ou os adeptos da Seicho-No-ie? Ou os habitantes do Planeta Kripton?

Mas o leitor tem a solução perfeita para a questão. Simples: basta jogar uma bomba atômica "naquele pedaço de terra ridículo menor que a maioria dos estados do Brasil, e que não tem nada de bom lá". Isso mesmo. Com o detalhe de que o pedaço de terra ridículo a que o leitor se refere, imagino, é a Faixa de Gaza, ou mesmo todo o território da Palestina e de Israel. Como é que não eu não pensei nisso antes?...

Louvo esse tipo de sinceridade, é bem melhor do que a afetação de horror dos que rasgaram as vestes de indignação pela ação militar israelense contra o Hamas em Gaza no começo do ano. Que se jogue uma bomba de 500 megatons sobre aquela região, e pronto! Até porque, diz o leitor humanista, "não tem nada de bom lá". É mesmo. Não tem nada de bom lá. Só alguns milhões de pessoas.

Recomendei ao leitor que ele fosse coerente com sua defesa do genocídio como caminho para a anarquia, e se explodisse num atentado suicida-homicida como fazem os homens-bomba do Hamas. Seria algo coerente com sua pregação apocalíptica. Como esperado, ele declinou da proposta. Valente, ele acha muito mais conveniente ficar assistindo a tudo de camarote, e quer mais, como dizia aquele personagem de Chico Anysio, que a humanidade se exploda... O.k., é um direito dele ter raiva do mundo. É um direito dele achar que a humanidade deve ser reduzida a um monte de cinzas. Só pergunto uma coisa: por que assistir ao extermínio de milhões de pessoas RINDO (e rindo "muito", ainda por cima)?... Dizem que Nero assistiu ao incêndio de Roma tocando uma harpa, e que Calígula queria que todos tivessem uma só cabeça para decepá-la de um só golpe. Mas precisa rir da morte de milhões de velhos, mulheres e crianças? Convenhamos, há aí uma certa dose de insanidade.

Mas e daí, não é mesmo? Afinal, para quem acha que esse mundo é uma bosta, por que não provocar um banho de sangue em escala planetária? Quem precisa de 72 virgens (ou 27 não-virgens, sei lá eu) quando se é um nerd idiota que anseia pelas glórias da Anarquia?

Como é fácil ser niilista! Como é fácil ser estúpido!

sexta-feira, março 13, 2009

BRASIL, PARAÍSO DE ASSASSINOS


Josef Mengele, o "Anjo da Morte", criminoso nazista que morreu no Brasil: ele também seria bem recebido, a depender de Tarso Genro

E o ministro da "Justiça", Tarso Genro, não desistiu ainda de seu objetivo de transformar o Brasil em um paraíso para terroristas e assassinos... Ao discursar ontem na Comissão de Relações Exteriores do Senado, o valente tentou justificar sua decisão de conceder refúgio político ao terrorista de esquerda italiano Cesare Battisti, que provocou até uma crise diplomática com a Itália. Disse Tarso:

“[Se for enviada uma solicitação nas] mesmas condições [de Battisti] sobre tal jovem fascista, este ministro dará também o refúgio. Isso é uma condição de neutralidade do Estado. Isso não está na questão da política partidária, mas do direito internacional".

Entenderam? Segundo Tarso, bastaria o governo receber como refugiado político um criminoso fascista, "nas mesmas condições" em que foi concedido tal status a Battisti, que o Brasil estaria demonstrando sua neutralidade, sua ausência de preconceitos ideológicos, seu senso de justiça. "Viram só? O Brasil também aceita conceder refúgio político a fascistas. Isso mostra que não houve critério ideológico no refúgio a Battisti. Isso prova que está tudo empatado".

Tarso Genro acredita que, ao conceder refúgio a um delinquente de extrema direita, está apagando o mal causado pela concessão do mesmo status a um assassino da extrema esquerda. Como se uma decisão compensasse a outra.

FALSO! Tal decisão não revelaria equilíbrio e isenção ideológica, mas simplesmente cinismo. UM ERRO NÃO SE CORRIGE SENDO REPETIDO. DOIS ERROS NÃO FAZEM UM ACERTO.

Em outras palavras: nem terroristas de esquerda, nem facinorosos de direita - nenhum deles é bem-vindo num Estado de Direito Democrático. O lugar a que pertencem é a cadeia, no país onde cometeram seus crimes. O resto é balela.

O que Tarso pretende, com esse tipo de afirmação? Nada mais do aquilo que vem fazendo desde que assumiu a pasta em que se encontra: jogar areia nos olhos da população, desviando a atenção dos verdadeiros motivos que o levaram a abrigar Battisti. E, com a ajuda de certa imprensa dita "isentista", está conseguindo.

Alguns posts atrás, escrevi neste blog, em negrito, ao comentar a decisão de Tarso Genro sobre o caso Battisti: "se Cesare Battisti fosse um ex-membro de uma organização fascista, de extrema direita, ao invés de ter militado no Proletários Armados para o Comunismo (PAC), a decisão de Tarso Genro seria a mesma?" Agora, Tarso parece querer responder essa pergunta afirmativamente. Infelizmente para ele, eu não coloquei o complemento necessário da frase: E NÃO DEVERIA SER MESMO! O BRASIL NÃO TEM POR QUE RECEBER ESSE TIPO DE VAGABUNDO E DELINQUENTE. NEM TARSO GENRO É CORTE REVISORA DA JUSTIÇA ITALIANA. Ponto final.

Foi por causa desse tipo de atitude ideologicamente "neutra" que países como a Argentina e o Paraguai se tornaram, após a Segunda Guerra Mundial, um paraíso e um refúgio para criminosos nazistas. Quem será o próximo beneficiado pelo senso de justiça lulista? Osama Bin Laden?

O cinismo dos lulistas não tem mesmo limites. Seu desprezo pela inteligência alheia também não.

terça-feira, março 10, 2009

A NOVA INQUISIÇÃO

Muito barulho causou nos últimos dias o caso da menina de nove anos violentada pelo padrasto em Pernambuco, e que, por causa do estupro, teve de abortar de gêmeos. O que causou maior escândalo não foi tanto o estupro da menina por um membro da própria família - uma realidade que, infelizmente, é corrente nesse imenso e semi-bárbaro Brasil -, nem o trauma adicional do aborto, mas a decisão do arcebispo católico de Olinda e Recife de cumprir prontamente o que determina o Direito Canônico em casos como esse. Em outras palavras: a excomunhão dos médicos que realizaram o aborto em Recife e da mãe da menina, que o permitiu.
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Não me considero católico, apesar de meu histórico familiar e de ter estudado em colégio católico, nem sou religioso. Aliás, não acredito em Deus nem em deuses, nem tenho qualquer simpatia por qualquer religião, como já escrevi aqui. Logo, talvez eu seja a pessoa menos indicada para defender a Igreja de seus detratores. Mas, a bem da honestidade, não há como não ver no caso uma tentativa orquestrada de difamar uma religião e tentar submetê-la a uma visão ideológica, disfarçada de progressista, mas hipócrita em seus meios e totalitária em seus objetivos.
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O caso está sendo apresentado como uma luta contra o reacionarismo e o obscurantismo de uma instituição religiosa, que estaria fechando os olhos para uma questão de saúde pública. Na verdade, não é nada disso. A questão não é sobre a intransigência da Igreja, nem se a excomunhão é correta ou não, não é sequer sobre o aborto. É se os católicos têm ou não o direito a continuar a ser católicos. É se a Igreja tem ou não o direito a ser o que é. É essa a questão.
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Os inimigos da Igreja viram no caso um prato cheio para dar vazão a seus ataques antirreligiosos. Atacaram a decisão de excomungar a mãe e os médicos, captando nela um claro odor de Inquisição, e submeteram o arcebispo de Olinda e Recife a um linchamento moral. Logo se ouviu o coro de vozes "progressistas" clamando contra o clérigo tacanho e reacionário, que teria agido como um inquisidor, um moderno Torquemada. Nada mais falso.
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A intensa propaganda anticatólica com que fomos bombardeados na TV e a pretensa unanimidade forjada em torno do caso são falsas pelos seguintes motivos: primeiro, não foi o arcebispo fulano de tal que excomungou as pessoas envolvidas no aborto - foi a Igreja católica. Mesmo se o quisesse, o arcebispo não poderia agir de forma independente, nesse ou em qualquer outro caso semelhante. No caso de aborto, a excomunhão é automática. É pecado, e ponto final. Não foi o arcebispo que inventou isso. A imprensa não ter apontado esse fato, atribuindo a decisão da excomunhão à arbitrariedade de um arcebispo em particular, é algo que demonstra ignorância ou má-fé - ou ambas.
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Segundo, a excomunhão diz respeito aos membros da Igreja católica, e a eles somente. Ninguém é obrigado a acreditar que o aborto é um pecado mortal, nem a concordar com isso. Acredita e concorda quem quiser. É assim que é num país onde existe - felizmente - uma coisa chamada separação legal entre a religião e o Estado. Do mesmo modo, a democracia assegura a plena liberdade religiosa. Há quinhentos anos, os médicos que realizaram o aborto e a mãe da menina já teriam virado cinzas, após serem queimados num auto-de-fé. Hoje em dia, quando vivemos em uma democracia, onde teoricamente todos são livres para crerem no que quiserem, não resta outra coisa à Igreja católica, como a qualquer outra religião, senão proclamar os seus dogmas para quem neles quiser acreditar. E um desses dogmas é que o aborto é pecado, e quem o pratica deve ser excomungado. Ou seja: será expulso da Igreja, não poderá comungar nem frequentar a missa, pelo menos não até arrepender-se. Será excluído, definitivamente ou não, do convívio com os demais fiéis, e não preso, torturado ou queimado numa fogueira. Para todos os que não acreditam nesse dogma, ou seja, para os não-católicos, isso não faz a menor diferença, e a vida continua. Em suma, a separação entre religião e Estado é de mão dupla: a Igreja não dá palpite nos negócios públicos e o governo não se mete nos assuntos da Igreja. Como diz aquela musiquinha infernal, cada um no seu quadrado.
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Outra mentira que foi sistematicamente repetida nesses dias é que o tal arcebispo, transformado em símbolo de obscurantismo pela propaganda abortista, teria justificado o estupro de que a menina de nove anos foi vítima, pois excomungou (mais uma vez: não foi ele, o arcebispo, mas a Igreja...) a mãe e os médicos, mas não o padrastro estuprador. "Estupra mas não mata", pareceram querer dizer, ressuscitando a frase antológica daquele político picareta. Mais uma vez, uma tentativa tosca e descarada de manipulação. É claro que o estupro é um crime terrível, e o arcebispo deixou isso bem claro em suas declarações. Mas onde está escrito, na lei da Igreja, que é um pecado contra a vida? O padrasto estuprador será punido, pois para isso existe a Lei dos homens, e espera-se que seja punido com todo rigor e severidade. Já os que praticam aborto, e sendo católicos, o mínimo que devem esperar é o anátema da Igreja, a excomunhão. O estupro é uma questão legal, ou melhor, criminal. O aborto, pelo menos nesse caso, é uma questão teológica.
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Como afirmei acima, não me considero católico, logo não me importo se um dia eu vier a ser excomungado. Para mim, que não partilho dos dogmas da Igreja, isso não faria a menor diferença, não perderia meu sono por causa disso. Exatamente por esse motivo, ou seja, por não estar sujeito às leis da Igreja, não consigo entender como alguém que se diz católico, mesmo num país de catolicismo extremamente frouxo como o Brasil, ao mesmo tempo se escandaliza diante da aplicação do que está na lei canônica. Afinal, não sabem que o aborto é um pecado mortal para a Igreja? Imaginem um judeu ou um muçulmano se sentindo confortável num banquete em que seja servido, por exemplo, carne de porco... Os cristãos de todas as denominações acreditam que há 2 mil anos Deus enviou à Terra seu filho, que nasceu de uma virgem, morreu na cruz, ressuscitou depois de três dias e prometeu voltar no dia do Juízo Final. Por que não acreditam que o aborto é um pecado que merece excomunhão?
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Pode-se discordar dos dogmas cristãos, assim como das ideias católicas sobre homossexualismo e contracepção - e quero deixar claro que discordo delas totalmente -, mas pode-se, em nome do que quer que seja, tentar proibir as pessoas de professarem essas ideias? Pode-se, sem o risco de cairmos numa forma de ditadura mental, querer proibir um bispo de cumprir sua função eclesiástica? Pode-se querer proibir a Igreja de ser Igreja? Tão inaceitável quanto querer obrigar, pela força da lei, uma criança de nove anos a parir gêmeos - o que a Igreja, mesmo se quisesse, não pode fazer -, é querer impedir que a Igreja proclame sua opinião sobre o assunto. O Estado deve ser laico, não ateu.
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Daí minha estranheza ao ver a maré de indignação contra o arcebispo. Assim como acho estranho como, nessas horas, pipocam doutores em teologia em cada esquina, dando palpite sobre a decisão da Igreja como quem opina sobre o resultado de um jogo de futebol. Outro dia vi na televisão o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o ministro do Meio Ambiente (?), o midiático Carlos Minc, defendendo o aborto e condenando o arcebispo com furor jesuíta. Fico imaginando o que suas excelências diriam se um bispo viesse tentar ensinar-lhes medicina ou ecologia... Lula também não perdeu a chance de tirar uma lasca do arcebispo - com toda a autoridade moral que bem sabemos que tem, ele condenou a "hipocrisia" da Igreja no caso... Pois é. Se deixassem, os cumpanhêro progreçista dariam aula de teologia até mesmo ao Papa. Literalmente, querem ensinar padre a rezar missa.
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Ninguém é obrigado a ser católico, assim como ninguém é forçado, em um país democrático, a seguir os preceitos dessa ou daquela religião, ou a acreditar em Deus e nos santos. E a condenação do aborto, com a excomunhão automática de quem o pratica, é, queiramos ou não, um dogma do catolicismo. Se todos fossem obrigados a seguir, por Lei, os dogmas cristãos - ou de qualquer outra religião -, seria o caso de rebelar-se, pois viveríamos em um Estado teocrático, inimigo da liberdade humana (e do livre-arbítrio). Mas, bem ou mal, vivemos em uma democracia, com separação legal entre religião e Estado, onde todos são livres para escolher seguir, ou não, a crença que quiserem. Logo, não há como interpretar os ataques à Igreja senão como uma onda de propaganda antirreligiosa, disfarçada de defesa da liberdade individual e até mesmo da vida. A defesa não do Estado laico, mas do Estado ateísta, como era a ex-URSS.
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Por falar nessa última, é curioso como os ataques à Igreja tenham partido de um governo de esquerda, ideologicamente ligado a regimes como o de Cuba, onde há cinquenta anos impera a religião oficial do castrismo e onde até dez anos atrás até a festa de Natal estava proibida por lei. Sabemos que em todas as ditaduras totalitárias, sobretudo as comunistas, a religião constituiu um rival poderoso do Estado, a ser domado e, se possível, colocado a seu serviço (vejam como os ditadores comunistas da China tratam os budistas tibetanos seguidores do Dalai lama, por exemplo). Sabemos também que um dos pilares em que se assentou a fundação do PT foi a chamada teologia da libertação (que melhor seria chamada de "escatologia da escravidão"), que nada mais era do que uma forma mal-disfarçada de infiltração comunista na Igreja (alguém classificou os padres adeptos dessa aberração ideológica, muito apropriadamente, de "irmãos em Castro"). Hoje, com a auto-proclamada teologia da libertação desmoralizada e em baixa, tentam submeter a Igreja por outros meios, forçando-a a ceder à maré abortista, inclusive pela força coercitiva do Estado. Os que resistirem a essa onda "progressista", mantendo-se fiéis a seus princípios religiosos, são estigmatizados como carolas e reacionários. De certa forma, os católicos são os judeus de hoje.
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Que essa propaganda antirreligiosa seja orquestrada e dirigida para atingir um objetivo político-ideológico determinado, é algo que fica claro quando se contrastam os ataques à Igreja com a forma como são tratadas outras religiões. Os mesmos que se enchem de fúria santa contra as ideias católicas sobre aborto e camisinhas costumam ser bem mais condescendentes em relação ao Islã, por exemplo. Outro dia eu citei aqui uma fatwa, ou decreto religioso, de uma autoridade muçulmana do Marrocos defendendo o casamento com meninas de nove anos de idade, mesma idade da menina pernambucana, pois, "elas dão um resultado melhor na cama do que mulheres de 20". Não me lembro de ter visto nenhuma onda de protesto e indignação semelhante.
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Os críticos da Igreja afirmaram que o aborto era necessário, usando argumentos médicos, pois a vida da menina estuprada corria risco caso viesse a ter os gêmeos. É, pode ser que tenham razão nesse ponto. Mas não há como negar que a gritaria geral não foi tanto por isso, mas porque a Igreja considera o aborto um pecado, e agiu conforme dita a doutrina católica. Na verdade, não era a vida da menina que estava em jogo, mas um dogma da Igreja que muitos querem ver revogado, substituído por sua própria visão "progressista". Em outras palavras: para os companheiros lulistas no poder, a Igreja só é boa, só defende uma boa causa, quando fica de seu lado. Quando deixa de ser Igreja para virar também um aparelho partidário ou governamental, portanto. Se depender de Lula e companhia, não duvidem: os padres deveriam pregar em seus sermões as virtudes do aborto e distribuir camisinhas, como um dia muitos deles distribuíam - alguns ainda o fazem, embora menos - cartilhas marxistas defendendo o socialismo.
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Por trás de todo o barulho e de todo o escarcéu sobre o caso da excomunhão dos médicos e da mãe da menina de nove anos em Pernambuco, o que os inimigos da Igreja católica querem mesmo é destruí-la, e fundar uma nova Igreja. Uma Igreja sem Deus, cujos principais sacerdotes seriam Lula, Carlos Minc e José Gomes Temporão. Dessa Igreja, podem me considerar excomungado.
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Não há dúvida de que, a pretexto de combater uma visão obscurantista e inquisitorial, o que os abortistas desejam é impor uma nova Inquisição. Uma Inquisição feita de patrulhas ideológicas e de pensamento politicamente correto. Sob o pretexto de defenderem nossos corpos, o que querem mesmo é controlar nossas mentes. Na minha, pelo menos, eles não mandam.

AINDA OS DEFENSORES DA BARBÁRIE - A SEDE DE SANGUE DE UM LEITOR ANARQUISTA

Portão de entrada do campo de extermínio de Auschwitz: há quem ache que um novo Holocausto faria bem para a humanidade...

O leitor anarquista que louva o terrorismo do Hamas contra Israel - na verdade, contra a humanidade - não desistiu ainda de fazer o elogio do genocídio ("Que jorrem rios de sangue" etc.). Escrevendo sobre meu texto "Cruzando a linha: mais um leitor justifica a barbárie terrorista", ele comete o seguinte comentário singelo:
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Suas considerações estão corretas, exceto no ponto que quero unicamente a destruição de Israel. Meu comentário (aqueles que tiverem a curiosidade leiam abaixo) foi em defesa do movimento e contra o Estado. Desta forma, sou contra o Irã, Brasil e futuramente o Hamas, quando este constituir um Estdo próprio. Não existe ideal algum pelo bem individual e bla bla bla sem sentido sobre a genealogia de uma moral ou um mundo idílico e melhor. O homem tem uma natureza má e através das épocas promove revoluções em pró de mudanças, sejam elas boas ou ruins. Não colocamos uma burguesia nojenta no poder através da revolução Francesa? Agora devemos derrubá-la e colocar algo diferente, que ninguém ainda tentou. Nada de comunismo ou socialismo. Apenas algo novo que derrube este estado permanente em que estamos...
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Traduzindo, o que está ai em cima é o seguinte:
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- O leitor é contra toda forma de Estado, pois é anarquista;
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- Israel é um Estado, assim como o Brasil;
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- Logo, segundo o leitor, Israel deve ser destruído.
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Mais:
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- O Hamas (e o Hezbollah, e o Irã) juraram destruir Israel;
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- Logo, as bombas e atentados dos islamofascistas contra Israel, inclusive a morte e mutilação de velhos, mulheres e crianças, é algo bom e positivo.
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Em outras palavras: segundo o, por assim dizer, raciocínio do leitor, Israel deve ser destruído, aniquilado, riscado do mapa, e sua população deve virar fertilizante - e isso é algo bom, louvável, progressista. O terrorismo fundamentalista islamita, ainda de acordo com essa visão, seria uma força revolucionária positiva, pois prepararia o terreno para novas e futuras revoluções - e assim por diante, indefinidamente, até culminar na abolição dessa instituição funesta, o Estado. Isso porque o que importa é o "movimento", que seria sempre progressista e caminharia no sentido da extinção do Estado por revoluções sucessivas, num ciclo interminável. Assim, o extermínio da população israelense, quiçá numa revolução islâmica como a que ocorreu no Irã, cumpriria uma função histórica a serviço desse ideal (o leitor admite que não "quer unicamente" a destruição de Israel - ah, bom...). Uma função libertária, portanto...
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Logo, em vez de nos indignarmos com o que o Hamas quer fazer com a população israelense, em vez de nos horrorizarmos com cada atentado com homem-bomba contra civis indefesos, deveríamos torcer para que os fanáticos islamitas atinjam seu objetivo de transformar Israel numa pilha de ossos, para futuramente nos opormos ao Hamas, "quando o Hamas constituir seu Estado" (como se o Hamas já não tivesse implantado seu Estado teocrático na Faixa de Gaza desde 2006, inicialmente por eleições e depois por meio de um banho de sangue...).
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Genial, não é mesmo? O novo Holocausto, a morte de milhões de pessoas, uma coisa positiva... Isso porque a extinção de alguns milhões de seres humanos daria lugar a "algo diferente, que ninguém nunca tentou"... O quê, exatamente? Não importa. O importante é que o "movimento" apontaria sempre na direção de um futuro radioso de Liberdade e Igualdade, onde, após muito derramamento de sangue e sofrimentos inomináveis, finalmente não haveria mais opressão e todos viveriam felizes para sempre... Afinal, se a "burguesia nojenta" tomou o poder na França em 1789, por que não o proletariado, ou o que quer que seja chamado por esse nome, não poderia também fazer sua revolução e derramar alguns milhões de litros de sangue - e sangue judeu, ainda por cima - em nome do porvir? É... Aí estão os exemplos da Alemanha nazista e da URSS de Stálin, sem falar no Irã dos aiatolás, para provar que as revoluções são mesmo o caminho para construir o paraíso na Terra... Pelo visto, o Hamas é mesmo uma força revolucionária a serviço da liberdade do homem, assim como são também o Comando Vermelho e o PCC - afinal, eles também lutam contra o Estado, não é mesmo?
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Somente uma coisa me intriga: se o distinto leitor anti-Israel e fã da Anarquia vê com tanta simpatia a luta do Hamas, por que não se engaja de cabeça nela? Fica aqui uma sugestão: para ser coerente com seu libertarianismo, o leitor deveria ir para Israel e dar sua contribuição ao "movimento", amarrando uma carga de TNT na cintura e indo pelos ares num mercado israelense lotado, gritando "Viva a Anarquia!" (ou "Viva a barbárie", dá na mesma...). Talvez ele não vá para o Paraíso deleitar-se com 72 virgens, como creem os fanáticos do Hamas, mas certamente estaria sendo coerente com seu ideal de um mundo com um Estado - e um povo - a menos... Se quiser, eu pago a passagem.
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Certa vez eu li uma definição de revolucionário que nunca esqueci. Era assim: um revolucionário é um sujeito que se acha o dono da chave da História e que está disposto a cometer o mal no presente em nome de um bem hipotético no futuro. Isso vale não só para os os totalitários, como os comunistas, os nazistas e os islamofascistas, mas também para os anarquistas, os auto-proclamados defensores da liberdade. Para todos os que querem um banho de sangue, enfim.
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O CAMINHO PARA O INFERNO ESTÁ PAVIMENTADO PELOS OSSOS E PELO SANGUE DE MILHÕES QUE PERECERAM NAS MÃOS DE QUEM PROMETEU O PARAÍSO. COMO É FÁCIL CONDUZIR, EM NOME DE UM IDEAL ABSTRATO, À OPRESSÃO, AO CRIME E AO ASSASSINATO CONCRETOS...

sexta-feira, março 06, 2009

RAZÕES DE UMA OBSESSÃO

Hitler e Stálin: ditadores e cúmplices, mas muitos ainda repudiam
apenas um dos dois. A questão é saber por quê.


Eu sou um obsessivo. Sou o primeiro a reconhecer e a proclamar esse defeito (será defeito?) de minha personalidade. Admito que meus temas favoritos de discussão, assim como certos gostos pessoais, artísticos ou culinários, são da preferência de pouquíssimas pessoas. A maioria prefere discutir sobre futebol, ou fofocar sobre os parentes e os colegas de trabalho, ou jogar conversa fora. Eu, não. Esses assuntos me entediam. Se eu tiver a chance, debato um assunto apenas: política. E, dentro da política, tenho uma ideia fixa: o comunismo.
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Ninguém quer discutir sobre o comunismo, eu sei. Assim como poucas, pouquíssimas pessoas mesmo, se dispõem a debater sobre política a sério, fugindo da banalidade de uma conversa de botequim. Também sei que, para a maioria das pessoas, o assunto é árido, chato mesmo, e não combina muito com uma mesa de bar. Ninguém quer perder suas horas de lazer pensando e debatendo sobre coisas como totalitarismo, stalinismo, maoísmo e outros ismos que, segundo uma visão anestésica e reconfortante que já virou lugar comum, pertencem ao passado apenas. Para que remexer nesses esqueletos? É aí que eu entro: com minha mania de ser "do contra", corro o risco de parecer maluco dizendo que os comunas não desapareceram da face da terra coisa nenhuma. Pelo contrário, a cada dia que passa, eles ocupam cada vez mais espaço na vida cultural e cotidiana, de forma quase imperceptível, como demonstram o governo Lula e o Foro de São Paulo etc. Enfim, recordo, pondero, me exalto, analiso. Claro que isso só me traz dissabores, reforçando minha fama de pessoa obcecada e paranóica, sem falar em polêmica e persistente, o que me afasta da maioria, com sua obsessão - ops! - em parecer correta, "normal". Mas não me importo. Como dizia Nelson Rodrigues, outro obcecado, o que somos é a soma de nossas obsessões. Além do mais, só as mentes obsessivas me interessam. Os cucas frescas, os que não ligam para nada, os que acham tudo normal, os que estão sempre sorrindo, os que não se inflamam, são tão vazios quanto suas cabeças. Ninguém se lembrará deles pelo que pensam. Simplesmente porque escolheram não pensar em nada.
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Nas últimas semanas, alguns fatos contribuíram para reforçar ainda mais essa minha obsessão pelo - na verdade, contra - o comunismo em particular e as ideologias totalitárias em geral. Refiro-me à farsa da brasileira Paula Oliveira, que confessou ter inventado a estória da agressão por um grupo de skinheads neonazistas na Suiça, e à discussão sobre o antissemitismo, reavivada pelo caso do arcebispo católico inglês Richard Williamson, expulso da Argentina e ameaçado de excomunhão por negar o Holocausto numa entrevista a uma TV sueca no ano passado. O que esses dois casos têm a ver com minha fixação anticomunista e antitotalitária? Já vou chegar lá. Antes, quero me concentrar no que eles têm em comum.
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O caso de Paula, como se sabe, foi um vexame nacional, com a revelação de que a advogada não foi atacada por neonazistas coisa nenhuma, nem estava grávida, e que inventou a estória toda, sabe-se lá por que motivo obscuro. O caso foi um constrangimento porque a mídia e o governo brasileiro o tomaram desde o início como verdadeiro, baseando-se tão-somente no testemunho de um lado apenas, deixando de consultar o governo suiço e dispensando maiores verificações. O Itamaraty, inclusive, acrescentou mais uma gafe em sua lista de fanfarronices patrioteiras, ao ameaçar, com estardalhaço, levar o caso à ONU e tudo o mais. Durante alguns dias, os brasileiros ficaram horrorizados e revoltados com o que seria - ninguém prestou atenção ao condicional - um caso de xenofobia e brutalidade contra uma compatriota num país europeu. Foi preciso que a própria imprensa suiça divulgasse a confissão de Paula de que armara tudo para que a onda de revolta e indignação furibunda dos brasileiros arrefecesse, e desse lugar finalmente a um sentimento de vergonha, a um silêncio acabrunhado. Ninguém - absolutamente ninguém - colocou em dúvida, por um minuto sequer, que Paula Oliveira tinha sido vítima de uma agressão neonazista na Suiça. Por quê? Porque, como disse uma famosa jornalista defensora da "imparcialidade" midiática, tentando justificar, num programa de TV, a monumental barriga da imprensa brasileira no caso, era algo "verossímil", embora não verídico... Como se o compromisso da imprensa - na verdade, de qualquer pessoa honesta - fosse não com os fatos, mas com hipóteses.
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O caso do arcebispo Richard Williamson tem algumas semelhanças com o de Paula. Assim como no caso da brasileira, a onda de indignação foi geral, desta vez pelo motivo certo - Williamson negou o Holocausto. Como não poderia deixar de ser, os inimigos da Igreja Católica, que não são poucos e não perdem uma boa oportunidade, aproveitaram para atacar o papa Bento XVI, exigindo a cabeça do bispo e denunciando a suposta leniência da Santa Sé no caso. Aproveitaram para recordar a conduta até hoje meio nebulosa do Vaticano diante do Terceiro Reich nazista e do extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Como no caso de Paula, aqui também não havia necessidade de verificação. Afinal, a Igreja não é acusada, até hoje, de omissão diante da morte dos judeus pelas SS? Diante disso, as declarações claramente antissemitas de Richard Williamson caíram como uma luva. Um bispo católico negando o Holocausto? A Igreja fazendo vista grossa ao antissemitismo de um dos seus? Verossímil, sem dúvida.
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Quem quer que tenha botado um pouco a cabeça para funcionar já deve ter percebido aonde eu quero chegar. Os dois casos, com suas diferenças, tratam, no essencial, da mesma questão: o repúdio, diria eu instintivo, que qualquer pessoa decente tem pelo nazismo e pelo antissemitismo, em qualquer de suas formas. Trata-se de algo que já nos é natural, tendo sido ensinado a cada um de nós desde o pré-primário. O antissemitismo do bispo Williamson é inaceitável e causa repulsa, e não precisamos nos indagar por quê. O mesmo sentimento de horror e repúdio, porém, não costuma se repetir quando se trata de quem nega, por exemplo, os crimes de Stálin ou de Fidel Castro. Paula Oliveira, para montar sua farsa, inventou uma agressão por três neonazistas, chegando ao requinte de descrever um deles com uma suástica tatuada na cabeça. Se tivesse dito, em vez disso, que foi brutalizada por um bando de comunistas agitando bandeiras vermelhas, teriam lhe dado o mesmo crédito? Em outras palavras, uma estória assim também seria considerada, como diz Eliane Cantanhêde, verossímil?
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É aqui que entra minha obsessão anticomunista ou, se preferirem, antitotalitária, de que falei há pouco. Sim, há xenofobia na Europa, como há antissemitismo. Sim, a negação do Holocausto é uma aberração histórica. Sim, o fascismo e o nazismo são ideologias totalitárias e inimigas da espécie humana. Mas e o comunismo? Por acaso seus crimes foram menores? Não estou dizendo que se deve deixar de lembrar os horrores de Auschwitz ou de Dachau. Mas por acaso isso anula ou diminui o Gulag? Ambas as ideologias não são totalitárias?
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O contraste entre a forma como são encarados pelo senso comum o nazifascismo, de um lado, e o comunismo, em todas as suas variações, de outro, é um fenômeno que sempre me intrigou. Afinal, o comunismo matou cerca de 100 milhões de pessoas, demonstrando ser uma máquina genocida muito mais eficiente do que os campos de concentração nazistas, onde pereceram 6 milhões de judeus. Para se ter apenas uma ideia, em dois anos, 1930 a 1932, foram mortos de fome induzida cerca de 20 milhões de camponeses na Ucrânia. Em apenas um ano - 1961 - morreram, também de fome provocada pelo Estado, quase 30 milhões de chineses. E isso como parte de um plano sistemático, meticuloso, de extermínio de classes inteiras, assim como o nazismo planejou o extermínio das "raças inferiores".
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Mesmo assim, os dois totalitarismos, o de raça e o de classe, são vistos com prismas diferentes. Quem quiser ser enxotado do debate político que se declare abertamente pró-fascista ou pró-nazista. Será tratado com desprezo e com horror. Já os comunistas - igualmente totalitários, igualmente defensores de um Estado opressor e inimigos da liberdade - são tratados com respeito e reverência, ocupando posições de destaque na área cultural. Alguns deles, como José Saramago ou Oscar Niemeyer, são tidos na conta de grandes humanistas e até mesmo gênios. Por sua vez, os nazifascistas são - corretamente, nunca é demais dizer - execrados, assim como execrado é qualquer um que tenha a audácia de negar o Holocausto. Então, por que o mesmo não ocorre com quem nega a montanha de mortos deixada pelo comunismo? Por que o mesmo não acontece com os comunistas e seus simpatizantes?
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Uma parte da explicação está, claro, no fato de que as democracias ocidentais (EUA, Reino Unido, França etc.) e a URSS de Stálin foram aliados na Segunda Guerra Mundial contra o Eixo nazifascista. Isso conferiu ao comunismo uma aura de respeitabilidade e um manto de resistência ao nazifascismo que apagaram da memória coletiva a cumplicidade explícita entre os dois regimes totalitários antes da invasão da URSS pelas tropas de Hitler, em 1941. Subitamente, todos pareceram se esquecer do pacto Molotov-Ribbentrop de agosto de 1939, que dividiu a Polônia entre os dois ditadores e foi, na verdade, a causa imediata da Segunda Guerra Mundial. Como pareceram se esquecer, também, dos massacres promovidos pelo stalinismo, que continuaram durante e após a guerra. Com o detalhe adicional de que, ao contrário dos nazistas, os esbirros comunistas não deixaram muitos registros gráficos de seus crimes...
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Outro motivo da amnésia coletiva em relação às atrocidades vermelhas é que, no Brasil, estamos acostumados a ver os comunistas no papel de vítimas e perseguidos, jamais como algozes. A luta armada dos anos 60 e 70, por exemplo, ainda é vista pela maioria dos estudantes como uma forma de resistência democrática contra a ditadura militar e a favor do retorno das liberdades constitucionais, quando a verdade é que os guerrilheiros lutavam, na realidade, pela implantação de outra forma de ditadura no País - uma ditadura comunista, em nome da qual praticaram não poucos atos de terrorismo, e não só contra agentes do governo. Tais mitos estão entranhados na mentalidade coletiva brasileira, de maneira que levará muito tempo ainda para que a verdade se imponha.
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Assim como sequestraram a democracia, os comunistas sequestraram o antifascismo e o antinazismo. De fato, ninguém usa com mais frequência o termo "fascista" como xingamento do que os comunistas. Na boca de um comunista, a palavra "fascista" se dilui e se banaliza, perde completamente seu significado, sendo utilizada como mera arma de propaganda, a fim de classificar qualquer um que lhe desagrade - qualquer um que se diga anticomunista, enfim, o que inclui um leque bastante abrangente de correntes políticas, desde os fascistas propriamente ditos até conservadores, liberais e democratas. Aquele político ousou lembrar os horrores do Gulag tropical da ilha-prisão de Cuba e denunciar a tirania castrista? É um "fascista". Aquele jornalista teve a petulância de lembrar que Stalin e Mao Tsé-Tung eram dois genocidas sanguinários, responsáveis pelos piores crimes cometidos contra a humanidade em todos os tempos? É um "fascista", claro. Aquele historiador teve o desplante de comparar as ditaduras de direita, como os regimes militares da América Latina, com as ditaduras totalitárias comunistas do Leste Europeu, concluindo pela maior quantidade de mortos e pela maior brutalidade dessas últimas em relação àquelas? Só pode ser um propagandista do fascismo, é evidente. Criou-se uma associação, que certamente demorará anos ou décadas para desaparecer, entre anticomunismo e fascismo, ou entre este e conservadorismo ("direitismo"), associação esta que não tem sentido algum fora dos slogans da propaganda comunista, que associam, também de forma totalmente mecânica e automática, comunismo com antifascismo. Como se todos os que se opõem, de alguma maneira, às teses comunistas - democratas, liberais, sociais-democratas etc. - fossem, automaticamente, fascistas ou simpatizantes do fascismo. Uma completa farsa.
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(O mais curioso é que os mesmos esquerdistas que se enchem de indignação contra o que consideram uma nova onda neofascista ou neonazista na Europa ou dentro da Igreja Católica não hesitam um segundo em cerrar fileiras ao lado dos islamofascistas do Hamas ou do Hezbollah e da tirania xiita iraniana, que juraram exterminar os habitantes de Israel e provocar um novo Holocausto. Babam de fúria contra as declarações antissemitas de um bispo católico, mas aplaudem entusiasmados, ou dão de ombros, para o antissemitismo de Mahmoud Ahmadinejad, descartando suas ameaças contra Israel e o Ocidente como mera invenção da CIA. Deve ser porque não consideram isso algo verossímil, é claro...)
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Os comunistas e a legião de idiotas úteis que os acompanham não têm o menor direito de condenar o fascismo, por mais repugnante que tenha sido essa doutrina política, e qualquer crítica que fizerem a regimes como o de Mussolini ou de Hitler não passa de manipulação cínica e mentirosa. Por dois motivos principais: primeiro, porque os crimes cometidos pelas tiranias comunistas no século XX - e que continuam no século XXI, ao contrário do nazifascismo, em países como Cuba, China e Coreia do Norte - ultrapassam, em gravidade e magnitude, tudo que os nazifascistas possam ter concebido, inclusive o Holocausto. E segundo, porque comunismo e fascismo, ao contrário da percepção comum, são irmãos gêmeos, não são antagônicos.
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Tamanha é a propaganda de esquerda destinada a esconder esse último fato que até mesmo muitos democratas e anticomunistas sinceros se deixam cair nessa armadilha. Outro dia li na imprensa uma carta de um leitor que reclamava da ênfase excessiva da mídia nas barbaridades cometidas pelos nazistas, como o Holocausto. "Por que falar dos crimes dos nazistas? Os crimes dos comunistas foram muito piores". A premissa é verdadeira, mas o leitor esqueceu desse detalhe fundamental: tanto na ideologia, quanto na prática, o nazifascismo não fez outra coisa senão macaquear o comunismo. Está tudo lá: os campos de concentração (criação de Lênin, em 1918), a polícia política, a ditadura do partido único, o controle partidário das forças armadas (a prática dos bolcheviques de manter comissários políticos junto aos militares), o uso intenso da propaganda, o culto da personalidade do chefe (o Vozhd Stálin, o Führer, o Duce)... Não custa lembrar que Mussolini começou sua carreira no Partido Socialista italiano. Até no nome que escolheram para si - Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães -, os nazistas eram uma paródia da propaganda bolchevique. E por aí vai. Condenar a barbárie nazista, portanto, não é desviar o foco dos crimes comunistas, mas chamar a atenção para a mesma realidade brutal e desumana do totalitarismo, comum a ambos os regimes.
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Daí mais uma vez a questão do verossímil e do verdadeiro, tão cara à imprensa brasileira dita "imparcial", para analisar o caso Paula Oliveira na Suiça. Um suposto crime cometido pela "direita" neofascista, mesmo sem provas, é julgado mais digno de verossimilhança do que um que tenha sido praticado pela esquerda, portanto merece mais repercussão e uma revolta imediata e mais profunda. Enquanto isso, militantes do MST fuzilaram à queima-roupa três seguranças de uma fazenda em Pernambuco, mas ainda há quem resista a classificar essa organização como criminosa. Do mesmo modo, o governo Lula resiste em classificar as FARC como terroristas e fecha os olhos para os ataques contra brasileiros no Paraguai, onde governa um presidente alinhado com as teses petistas. E os dólares de Cuba ao PT? E o envolvimento direto de figurões do governo Lula com os narcoterroristas das FARC? E de Lula no escândalo do mensalão? Tudo isso é ou não é bastante verossímil? Então por que nada disso provoca um décimo da revolta causada por casos como o de Paula Oliveira? Por que nada disso é investigado como deveria?
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Esses episódios deixam claro que nossa percepção da realidade está contaminada ideologicamente de alto a baixo. Verossímil ou verídico, na visão de nossa imprensa "imparcial" e isentista, é o que é verossímil ou verídico para a esquerda. Todo o resto, tudo que não vier das hostes esquerdistas, é suspeito e passível de dúvida e verificação. Ponto.
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Então, tenho ou não tenho razão para ser obsessivo?

quinta-feira, março 05, 2009

CRUZANDO A LINHA: MAIS UM LEITOR JUSTIFICA A BARBÁRIE TERRORISTA


Fiquei alguns dias longe da internet. Foi o suficiente para que alguns leitores me brindassem com uma saraivada de comentários, especialmente sobre meu último post. Agradeço a todos. Embora seja impossível responder a todos os comentários, e embora este blog não seja um fórum de debates, faço questão de não deixar alguns leitores sem resposta. É o caso de um certo "Leo", que escreveu um comentário a meu último post que é, para dizer o mínimo, curioso.

O tema do post é o conflito entre Israel e o Hamas, que eu prefiro chamar de luta de Israel contra o terrorismo - pois o chamado "conflito israelo-palestino", como já afirmei aqui em outras ocasiões, deixou de existir há tempos, pelo menos desde os Acordos de Oslo em 1993. O tal leitor, que é anarquista - conheço todas as manhas dessa turma, acreditem -, começa seu arrazoado com uma frase que eu subscrevo sem titubear, afirmando que estamos "impregnados de uma esquerda burra, que não atenta em momento algum para a realidade que a cerca" e que defende "o terrorismo como uma simples revolta". Mas logo em seguida ele comete a seguinte frase: "Mas devemos também confessar a burrice da direita que defende a violência do estado como uma forma de sobrevivência de seu povo" (sic). E critica o dono deste blog, "estritamente maniqueísta, do tipo 'ou você está comigo ou contra mim'" etc.

O que vem em seguida é uma longa, longuíssima, arenga ideológica sobre o mundo ser pleno movimento, e que em política o movimento se dá pela revolução, que o Estado é um grande mito que deve ser posto em questão, e que não existe revolução sem derramamento de sangue etc. etc. etc... Enfim, uma lengalega anarcóide-juvenil supostamente libertária que não merece ser transcrita integralmente. Basta dizer que todo o trololó sobre o Estado ser isso ou aquilo e sobre a Revolução Francesa e etcétera e tal desemboca na seguinte ideia brilhante: "Israel deve ser derrubado por uma revolução também! Islâmica talvez, através do Hamas, e quando este pensar em constituir um estado, deve ser derrubado por uma nova revolução. Devemos pensar na mudança sempre e não em manter um mesmo pensamento contra o movimento." E isso porque, em nome dessa mesma "revolução" e desse mesmo "movimento", afirma o leitor: "Nenhum Estado deve se manter. Devemos derrubar, construir e novamente derrubar. Sempre! Que se matem judeus e islamitas! Que derrubem o Brasil! O sangue deve jorrar!"
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Pois é, minha gente... O que foi mesmo que eu disse no último post, sobre cruzar a linha e achar que, a partir daí, tudo é permitido? Como se vê pelo comentário acima, tem gente que acredita realmente nisso. Tanto que creem piamente que encontraram a solução para um dos problemas mais complexos da atualidade. Que solução seria essa? Simples: a briga não é entre o Estado de Israel e os fanáticos islamitas que querem varrê-lo do mapa (ou seja: querem passar a fio de espada a sua população)? E o Estado não é, como dizia Bakunin, um mal a ser extirpado? Então... que se matem todos, ora! Que o Hamas e o Hezbollah atinjam seus objetivos, e cortem a garganta de cada cidadão israelense - judeu ou não, homem, mulher, velho, criança -, fazendo correr rios de sangue. Mais que isso: que o Irã também cumpra sua promessa de riscar Israel do mapa, e lance logo uma bomba atômica sobre Telaviv. Mais ainda: que se extermine todo judeu da face da terra, que sejam todos confinados em guetos e em campos de concentração, onde virarão sabão e alimentarão fornos crematórios, como tentou fazer um dia um sujeito de voz esganizaçada e bigodinho engraçado... Por que não? Afinal, é tudo em nome da "revolução", do "movimento". Ou, como se dizia antigamente, da liberdade individual, da Anarquia, enfim... Como é mesmo aquele ditado, "os fins justificam os meios"? Pois é...

Confesso que, de todos os delírios esquerdóides já engendrados por mentes certamente doentias, o anarquismo é o que mais me fascina. Devo dizer que tenho até, lá no meu íntimo, uma certa simpatia platônica pela ideia anarquista - extinção do Estado, liberdade individual irrestrita etc. Afinal, algo que eu nunca consegui entender é por que alguns indivíduos merecem um tratamento diferenciado, especial, por causa da quantidade de dinheiro que possuem na conta bancária ou do cargo que ocupam. Durante um certo tempo, em minha adolescência, flertei com a ideia de mandar tudo isso às favas. Só que, como acontece também com o comunismo, logo percebi que, entre a ideia e a realidade, ou entre o ideal e o real, existe uma grande diferença.

Sempre achei estranho que, em nome de um ideal elevado - a igualdade comunista ou a liberdade individual, por exemplo -, algumas pessoas estejam dispostas a sacrificar tudo, inclusive esses mesmos ideais. Os comunistas, falando em igualdade, erigiram os regimes mais desiguais e iníquos da História. No caso dos anarquistas, muitos deles não hesitariam em usar todos os meios para conseguir a abolição do Estado - inclusive meios autoritários. No final do século XIX e começo do século XX, era comum militantes anarquistas colocarem em prática suas idéias libertárias e antiestatistas esfaqueando padres e atirando bombas em restaurantes cheios. Um desses anarquistas, chamado Ravachol, ficou famoso na França por sua prática de defender a liberdade individual assassinando velhinhos e roubando prostitutas... Pelo visto, os anarquistas do século XXI são mais sofisticados: em vez das bombas de fabricação caseira e dos atos de terrorismo individual do passado, agora se colocam do lado de fanáticos religiosos e defendem o genocídio de um povo inteiro em nome de seus ideais elevados... Grandes humanistas!

Isso tudo apenas prova o seguinte: o caráter da sociedade que se quer alcançar está indissoluvelmente ligado aos meios escolhidos para se chegar a esse fim. Se você começa, em nome de uma sociedade mais justa e mais livre, assassinando pessoas inocentes ou mesmo justificando a barbárie genocida e terrorista, você poderá alcançar qualquer coisa, menos uma sociedade mais justa e mais livre. No máximo, conseguirá um banho de sangue.

O leitor defende o fim de Israel, até mesmo por uma revolução islâmica, como a pregada pelo Hamas, aliás apoiado e sustentado pelo Irã. Lembrei imediatamente de um fato mais próximo historicamente de nós, a queda do xá do Irã em 1979. Quem tiver mais de 40 anos vai lembrar que a totalidade da esquerda mundial, e inclusive os anarquistas, saudou a revolução islâmica do aiatolá Khomeini como uma aurora de liberdade. Deve ter sido mesmo, porque, mal os aiatolás se instalaram no poder, as primeiras vítimas dos pelotões de fuzilamento dos pasdaran xiitas foram os - adivinhem! - comunistas e esquerdistas em geral... Pelo visto, esse pessoal não aprende mesmo. Daí porque eu concordo plenamente com o que leitor diz sobre a esquerda burra, que não enxerga a realidade em sua volta.

Eu, da minha parte, não preciso dizer o que acho disso tudo. Afinal, este é um blog maniqueísta, do tipo "ou está comigo ou contra mim", não é mesmo?

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Eu não poderia terminar este post sem mencionar também outro leitor, o Felipe, uma boa pessoa. Ele não é anarquista como o leitor a quem eu respondi acima, mas pacifista. Ele é contra, por princípio, qualquer violência, venha de onde vier. O que significa ser contra não apenas os atentados e homens-bomba do Hamas, mas a reação militar de Israel, pois os mísseis israelenses, como ele diz de forma veemente, "destroem habitações inocentes (...), matam (querendo ou não) crianças e demais inocentes!" etc. etc. Em suma: para ele, os dois lados, Israel e o Hamas, se equivalem moralmente, estão igualmente errados.

Comovido e sensibilizado por esse alto grau de justiça, que eu, infelizmente, por ser "maniqueísta", sou incapaz de alcançar, resolvi escrever uma cartinha ao novo primeiro-ministro de Israel, com cópia para os principais líderes do Hamas. Creio que, se eles seguirem direitinho o que está na carta, teremos finalmente a paz na região, e todos viverão felizes para sempre. Eis a carta:

Excelentíssimo premiê Benjamin Netanyahu,

Venho, por meio desta, humildemente apresentar a Vossa Excelência e ao povo de Israel um plano de paz perfeito para a região do Oriente Médio, que, garanto, irá pôr fim a seis décadas de derramamento de sangue, na maioria inocente, entre Israel e seus inimigos.

Meu plano, que foi elaborado após horas e horas de profunda reflexão lendo e relendo os comentários que me foram feitos pelo Felipe em meu blog, consiste em um único ponto. Ei-lo:

Renúncia total do uso da força por parte de Israel - Em outras palavras, a cada homem-bomba palestino, a cada atentado homicida-suicida do Hamas ou do Hezbollah, Israel não mais responderá com tanques e tropas. Em vez disso, agirá de forma muito mais inteligente, muito mais racional: simplesmente não reagirá a nenhuma violência que lhe for dirigida; não fará nada.

Com isso, asseguro a Vossa Excelência, o Hamas e o Hezbollah, bem como os governos que os apóiam e financiam, como o Irã, desistirão de uma vez por todas dos atentados e do objetivo jurado de destruir Israel e transformar sua população num monte de cadáveres. Eu garanto.

Além disso, ao não mais reagir e caçar os responsáveis pelos ataques, Israel finalmente poderá contar com a simpatia e o apoio dos meios de comunicação mundiais, não incorrendo mais na indignação da opinião pública por ocasionalmente, na perseguição aos culpados, atingir civis inocentes usados por estes como escudos humanos. Eu também garanto.
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Pode ser que, no começo, essa tática apresente alguns inconvenientes, como, por exemplo, o aumento de mortes do lado israelense. Mas asseguro em nome de Gandhi e de Martin Luther King que a não-violência trará resultados positivos, se não nesta, pelo menos na próxima vida. Os possíveis mortos se tornarão mártires de uma boa causa e, principalmente, as condolências não serão substituídas por protestos, como acontece hoje em dia.

A tática acima mencionada é 100% garantida, é infalível. Basta Israel abandonar completamente sua política de defesa, derrubando o muro que o separa da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e dialogando com o Hamas e o Hezbollah, que esses grupos entregarão suas armas e abandonarão a luta armada. Garanto que o resultado será a paz e a segurança para os israelenses, que poderão então viver tranquilos e sem medo de ser explodidos por um foguete ou um homem-bomba.

Para tornar concreta essa iniciativa, que - repito - é a mais racional e inteligente que se pode conceber, estou pedindo ao meu leitor Felipe que vá à Faixa de Gaza conversar com os líderes do Hamas e convencê-los desse plano. Afinal, sabemos que eles são todos boas almas também, e só esperam uma oportunidade dessas para desistir de seus objetivos genocidas e abraçar o pacifismo.

Respeitosamente,

Gustavo (Blog "Do Contra")

P.S.: A mensagem acima está sendo enviada também ao Hamas, ao Hezbollah e ao presidente Ahmadinejad, do Irã. Também está sendo psicografada, por meios espirituais, a Adolf Hitler - embora desconfio que, nesse último caso, infelizmente não haverá nenhum resultado concreto, pois não inventaram ainda um pacifismo com efeitos retroativos...

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

ACONTECEU. UM LEITOR ESCREVE JUSTIFICANDO O TERRORISMO ISLAMITA. AGORA TUDO É PERMITIDO


Aconteceu. Finalmente um leitor escreveu para este blog para justificar o injustificável e cantar loas à morte. Finalmente alguém escreveu defendendo, com todas as letras, a violência cega e genocida contra um Estado democrático. Uma linha foi cruzada. Agora, como diria Dostoievski, tudo passa a ser permitido.
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Por injustificável quero dizer o terrorismo islamita, os atentados homicidas-suicidas de grupos de fanáticos religiosos genocidas como o Hamas, o Hezbollah e a Al-Qaeda. Por cantar loas à morte quero dizer enxergar nos ataques desses facínoras uma forma legítima de "resistência" contra o que seria uma forma de opressão - no caso, representada pelo Ocidente e particularmente por Israel, elevada à condição de Grande Satã do momento depois da aposentadoria do Bush. Por defender a violência cega contra um Estado democrático digo bater palmas para quem deseja, nada mais, nada menos, do que um novo Holocausto, ainda pior do que o primeiro.

Leiam por si mesmos, e digam se eu estou exagerando. O leitor em questão é um tal de Humberto, que, escrevendo para comentar meu post anterior, no qual rebato o pacifismo de outro leitor, que insistia em igualar Israel ao Hamas, cometeu o seguinte texto, que aqui transcrevo em vermelho, seguido de meus comentários, em preto:
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Concordo contigo, a guerra é legítima, defender seu território é legitíssimo. Por isso os palestinos se insurgem com bombas e pedras. Para que Israel fique em seu quintal e não invada quintal alheio.
Leiam atentamente o parágrafo acima. O autor justifica o terrorismo de grupos como o Hamas - que ele não cita em momento algum, preferindo esconder-se atrás da fórmula simpática dos "palestinos que se insurgem com bombas e pedras" -, associando-o a uma suposta reação contra uma suposta invasão do quintal alheio por parte de Israel. Como se os foguetes e homens-bombas do Hamas e do Hezbollah fossem uma justa resposta contra a ocupação israelense. Já disse antes, mas vou repetir, dessa vez da forma mais didática possível: ISSO É FALSO!
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O terrorismo palestino contra Israel não decorre de nenhuma ação ou "invasão" israelense nos territórios palestinos, como diz o leitor anti-Israel. Essa teoria pode ter sido verdadeira um dia, durante os anos de luta - terrorista também, é bom que se diga - da antiga OLP contra Israel, até, digamos, meados dos anos 80, antes que a OLP abandonasse oficialmente o terrorismo e aceitasse a existência de Israel, e antes da assinatura dos Acordos de Oslo, em 1993, pelos quais os dois lados - palestinos e israelenses - se reconheceram mutuamente. Hoje em dia, porém, afirmar que o terrorismo islamita tem alguma coisa a ver com a luta para "libertar" os territórios palestinos ocupados de uma suposta "invasão" israelense é algo que só pode ser fruto de cinismo ou ignorância. Nos últimos nove anos, Israel fez diversos movimentos em direção à paz definitiva, inclusive concessões territoriais, e nada disso se converteu em movimentos semelhantes do outro lado. Chegou mesmo a retirar à força os colonos israelenses da Faixa de Gaza, UNILATERALMENTE E SEM PEDIR NADA POR ISSO, e nem assim os ataques do Hamas cessaram ou diminuíram. Pelo contrário: desde então, os atentados se multiplicaram! Como dizer, portanto, que o terrorismo é uma forma de insurgência contra uma "invasão" israelense??? Simplesmente mentiroso!
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Enquanto Israel invadir e implementar assentamentos judeus na palestina, vai levar bomba. E merece!
Mais uma vez: o leitor apela para a mentira para justificar o terror. O terrorismo islamita não tem nada a ver com os assentamentos judeus, como está claro no exemplo de Gaza. Querem mais um exemplo? Em 2000, as tropas israelenses se retiraram do sul do Líbano, que se transformou então em território do Hezbollah. O que aconteceu desde então? Os ataques do Hezbollah contra os colonos judeus da Galiléia, assim como os do Hamas a partir da Faixa de Gaza, diminuíram? Nada disso: foram intensificados! Isso PROVA que o terrorismo contra Israel não tem nenhuma relação, absolutamente nenhuma, com qualquer "luta pela terra" na região.
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Agora, prestem bastante atenção a uma coisa que eu vou dizer, e que talvez choque algum leitor menos informado: O CHAMADO CONFLITO ISRAELO-PALESTINO NÃO EXISTE MAIS, ACABOU FAZ TEMPO. Desde, pelo menos, os Acordos de Oslo de 1993, assinados por Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, a questão palestina já está resolvida: os dois lados concordaram em reconhecer o direito de cada um existir e com a solução de dois Estados - um israelense, outro palestino (este último, compreendendo os territórios da Faixa de Gaza e da Cisjordânia). Sobraram algumas arestas a ser resolvidas, como o status de Jerusalém, mas a questão, do ponto de vista territorial, já está resolvida. O que existe, então? O que existe é o terrorismo de grupos de fanáticos como o Hamas e o Hezbollah, apoiados pelo Irã e pela Síria e que não aceitam o direito de Israel à existência, nem reconhecem a solução dos dois Estados. Esses grupos não querem a paz, não lutam por um Estado palestino convivendo ao lado de Israel: querem, isso sim, a destruição completa de Israel, o genocídio de toda a sua população. E para isso estão dispostos a literalmente tudo, inclusive a usar a população civil palestina como escudos humanos e a massacrar seus oponentes do Fatah - contando, para isso, com a conivência de grande parte da imprensa mundial, que insiste em ver em Israel, e não no Hamas e no Hezbollah, o lado agressor.
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Agora que o “Mr. Assentamento”(Bibi) vai tomar posse, tem tudo pra ser uma festa de bomba.
Outra mentira, que se baseia na tentativa de culpar o governo de Israel, seja quem lá estiver, pelo terrorismo. Se novas ondas de homens-bombas ocorrerem, isso não será devido a nada que o novo governo israelense fizer ou deixar de fazer, mas será única e somente culpa dos próprios terroristas, que juraram varrer Israel do mapa.
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Assim como, em 2000, a intransigência de Yasser Arafat ajudou involuntariamente a eleger o "linha-dura" Ariel Sharon, em 2009 o terrorismo do Hamas ajudou a eleger Netanyahu. Mas isso, no final, tem pouca importância. Pois, AINDA QUE O NOVO GOVERNO ISRAELENSE INTENSIFIQUE OS ASSENTAMENTOS, AINDA QUE RESOLVA REOCUPAR TODOS OS TERRITÓRIOS DEVOLVIDOS POR ISRAEL AOS PALESTINOS NOS ÚLTIMOS ANOS, NÃO SERÁ ESSA A CAUSA DE NENHUM ATENTADO DO HAMAS OU DO HEZBOLLAH. SEJA QUAL FOR O OCUPANTE DO GOVERNO ISRAELENSE, OS INIMIGOS DE ISRAEL NÃO VÃO DESISTIR DE SEU INTENTO DE DESTRUIR ISRAEL E TRANSFORMAR O PAÍS NUM OCEANO DE SANGUE E CADÁVERES. Sabem por quê? Por um motivo muito simples, simplícissimo, que o leitor-admirador do terrorismo não menciona em seu comentário: ao contrário do Fatah, o Hamas e o Hezbollah não aceitam a existência do Estado de Israel, não aceitam a solução de dois Estados - inclusive o Estado palestino - e querem nada mais, nada menos, do que DESTRUIR Israel. Repito aqui a pergunta que formulei em outro post, e que até agora permanece sem resposta: ALGUÉM ACREDITA QUE, SE ISRAEL DEVOLVER TODO O TERRITÓRIO OCUPADO AO LONGO DOS ANOS, OU MESMO QUE AS FRONTEIRAS NA REGIÃO VOLTEM A SER COMO ERAM ANTES DE 1947, O TERRORISMO ISLAMITA VAI DEIXAR DE EXISTIR?
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Custa o judeu respeitar o território que não é seu? Precisa agir de modo provocativo, incentivando o ódio contra sí?
Vou deixar de lado a lengalenga sobre "respeitar o território" - creio que basta ler o que está aí em cima para perceber quem respeita o território alheio, e quem não reconhece sequer o direito do outro existir. Vou me concentrar aqui somente no que o leitor diz sobre "o judeu" (como se Israel não fosse, na verdade, um Estado democrático e plurirreligioso) agir "de modo provocativo, incentivando o ódio contra si". Esse tipo de afirmação, ao inverter a realidade, busca omitir o seguinte fato: para o Hamas, para o Hezbollah, a maior provocação que um judeu pode fazer é simplesmente existir. Aliás, um certo ditador alemão pensava do mesmo jeito, algumas décadas atrás...
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O dia em que existir uma entidade internacional com autoridade, pra impor que se cumpra a divisão da palestina não com um mas com DOIS Estados, e que se imponha o respeito às fronteiras, sem ocupações, sem assentamentos ilegais, aí sim, poderá se crimimalizar a insurgência(de ambos os lados), de outro modo, fica difícil.
Afirmação desonesta, por dois motivos: 1) presumo que a dita entidade internacional a que o autor se refere seja a ONU, que se coloca inteiramente ao lado dos palestinos contra Israel (basta lembrar o caso da tal escola da ONU que teria sido bombardeada por forças israelenses no começo do ano, e que se revelou uma farsa); e 2) a divisão da região em DOIS ESTADOS já foi acordada, como disse antes, desde 1993. A paz não chegou à região não porque a dita entidade internacional não tenha força para impor essa solução, mas porque é conivente com quem não aceita essa solução. No final, a paz depende não de Israel, mas do reconhecimento de Israel por quem o enxerga como agressor. Logo, querer a partir daí condenar a resposta israelense ao terrorismo islamita só pode ser cretinice.
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É preciso reconhecer que a insurgência primeira, vem dos invasores judeus, com seus muros e soldados, sua imposição. A violência gerada,é consequência.
Mentira. A violência parte de quem não aceita a existência de Israel e os Acordos de Oslo. Israel se defende. Ponto.
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Os donos do mundo são fiadores desse estado de coisas, o troco pode ser tanto uma palestina insurgente, como um “onze-de-setembro”.
Prestem atenção nessas expressões: "donos do mundo", "fiadores desse estado de coisas"... Quem seriam os tais donos do mundo? Os trinta ou quarenta banqueiros judeus que mandam nos negócios mundiais? Ou a grande conspiração sionista internacional financiada, ao mesmo tempo, pelos grandes tubarões capitalistas e pelos... bolcheviques? Se você lembrou dos Protocolos dos Sábios de Sião e da propaganda nazista do Dr. Goebbels, acertou em cheio.
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E - vejam só - seriam esses mesmos "donos do mundo", esses judeus-malvados-assassinos-de-Cristo, os responsáveis por uma, como diz o leitor, "Palestina insurgente" (leia-se Hamas e Hezbollah, de que já falei) e também por um... "11 de setembro". É isso mesmo que você leu, caro leitor: segundo o sábio leitor que mandou o comentário acima, os atentados terroristas de Osama Bin Laden e da Al-Qaeda seriam também uma forma de resistência do "oprimido" contra o Ocidente opressor... Claro, não importa muito que o tal representante dos oprimidos do mundo seja um multimilionário saudita com algumas idéias exóticas sobre como as mulheres devem se vestir e ser recebido por 72 virgens no paraíso em caso de morte na luta por Alá... Mais que isso: segundo o distinto leitor simpatizante do Hamas, tais ataques seriam o resultado do que se planeja nos porões da Casa Branca, talvez com a presença de um dos tais Sábios de Sião denunciados nos famosos Protocolos... Alguém aí pensou em teorias conspiratórias?
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Finalmente um defensor do terror islamita deixou cair a máscara, colocando-se abertamente do lado dos islamofascistas, que promovem a morte e a dor como método para exterminar um povo inteiro e impor pela força uma visão religiosa obscurantista do mundo. Falta pouco, muito pouco, para que o distinto leitor comece a negar o Holocausto, achando exagerados os relatos de 6 milhões de mortos em câmaras de gás... Alguém aí pensou em antissemitismo?
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Posso mencionar pelo menos dez bons motivos para defender Israel e condenar, sem ambigüidade, o terrorismo islamita. Aí está mais um: não consigo aceitar a mentira, ainda mais quando visa a justificar a barbárie.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

RESPOSTA A UMA BOA ALMA (OU: POR QUE O PACIFISMO NÃO É UMA BOA PALAVRA)


O primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que acreditava poder apaziguar Hitler, mostrando o acordo assinado com o ditador alemão em Munique em 1938, e que seria "a paz de nosso tempo": ele também achava a guerra intolerável

Escrevi alguns posts respondendo a um leitor que, de uns dias para cá, vem tentando me convencer que Israel não tem o direito de se defender. Parece que ele não se deu por satisfeito com minhas observações. Respondo-lhe, então, mais uma vez. Como vocês verão, ele é pacifista; eu, não. Ele acha que a ação de Israel e do Hamas são a única e mesma coisa; eu, não. Ele acredita que a força jamais deve ser empregada, em nenhuma circunstância; eu, não. Ele é, enfim, uma boa pessoa, uma alma piedosa. Ele em vermelho, eu em preto, como sempre.

Gustavo,

Entendo o que queira dizer, mas é difícil aceitar de todo. Sou pacifista (creio que esta é uma boa palavra), e não consigo aceitar nenhum tipo de violência. Não aceito a manifestação do Hamas e nem a de Israel. Não creio que ser contra a violência (venha ela de quem vier) seja ser necessariamente contra Israel. Vejo o mundo por uma perspectiva diferente, onde me é intolerável qualquer tipo de guerra.
Não peço ao caro leitor que aceite o que eu digo. Peço-lhe apenas que aceite os fatos. E os fatos são inquestionáveis: há um país, Israel, que há sessenta anos enfrenta inimigos que querem destruí-lo e transformar sua população em adubo. E há quem ignore completamente isso, defendendo que Israel "dialogue" com quem quer provocar um novo Holocausto. Ponto e parágrafo.

O leitor se declara pacifista e contrário a qualquer tipo de violência, seja de onde vier. Nesse caso, só confirmou para mim o que eu já tinha concluído há muito tempo: que o pacifismo, na verdade, não passa de uma desculpa para fechar os olhos para uma forma de violência - sobretudo, se essa violência vier acompanhada de um verniz de defesa dos "oprimidos" contra os "opressores" etc. Isso pode ocorrer por malícia ou por ingenuidade. Se eu não fosse caridoso, eu diria que é por malícia. Como sou caridoso, digo que é por ingenuidade.

Vamos deixar os eufemismos de lado e chamar as coisas pelo nome: a que "manifestações" do Hamas o leitor se refere? À prática de lançar foguetes a esmo contra Israel, esperando com isso provocar o máximo possível de mortes e feridos entre a população israelense? Ou à prática de enviar homens-bombas (muitos dos quais, adolescentes que sofreram lavagem cerebral ou com problemas mentais) para, também de forma indiscriminada, matar e mutilar o maior número possível de civis israelenses? Gostaria que o leitor fosse um pouco mais claro.

Do mesmo modo, gostaria de saber exatamente qual manifestação de Israel ele condena. Seria a prática de reagir da única maneira possível aos atos de terrorismo genocida descritos acima, ou seja, caçando os responsáveis e punindo-os, onde quer que estejam? Seria a prática de recorrer à força para neutralizar e deter quem não reconhece seu direito de existir e jurou riscá-lo do mapa e transformar o país num mar de sangue?

Se o leitor condena igualmente as duas formas de ação, se realmente não vê diferença alguma entre elas, se de fato acha que ambas se equivalem do ponto de vista moral e ético, então, só posso concluir uma coisa: para ele, não há qualquer diferença entre o criminoso e a vítima, ou entre o agressor e o agredido. O Hamas e o Hezbollah agradecem comovidos.

O leitor afirma que, para ele, é intolerável qualquer tipo de guerra. Essa é uma afirmação muito fácil de ser feita, é como dizer que a dor é algo intolerável. Já afirmei antes que a guerra nunca é uma boa opção, mas isso não quer dizer que, em certas situações, não seja a única opção possível. Aqueles que tentaram apaziguar Hitler na década de 30 também consideravam a guerra algo intolerável, e acredito que alguns deles tinham até boas intenções. Nada disso impediu a carnificina que veio em seguida. Pelo contrário: foi justamente esse pacifismo, essa "perspectiva diferente", que preparou o caminho da tragédia. Pergunto: por mais intolerável que seja a guerra, havia outro meio de impedir a barbárie nazista?

Pergunto-te: Que direito tem os EUA de atacar o Irã se o quiserem? Talvez Israel pudesse atacar, mas os EUA? Não vejo porque o mundo deveria permitir isto... A morte de um único inocente não vale para mim o bônus que se possa ganhar posteriormente com a guerra.
Respondo a sua pergunta: nem os EUA, nem o Brasil, nem as Ilhas Fiji, nem Botsuana, têm o direito de atacar o Irã ou qualquer outro país "se o quiserem". A questão, mais uma vez, é desonesta: não se trata de atacar pela mera vontade, como se fosse por capricho, mas porque há boas razões para fazê-lo. Os Aliados não atacaram a Alemanha nazista porque "quiseram", mas porque a Alemanha nazista era uma ameaça à paz e à humanidade. Mesmo assim, não creio que os EUA deveriam atacar o Irã - em momento algum eu defendo isso. Defendo, sim, é que um acordo de paz entre os EUA e o Irã sob Ahmadinejad é uma farsa e uma fantasia. Pelo menos enquanto os líderes iranianos continuarem a defender a destruição de Israel e a patrocinar o terrorismo do Hamas e do Hezbollah. Assim como defendo que dialogar com o Hamas ou o Hezbollah é um passaporte para o suicídio. Preciso explicar por quê?

PS: Agradeço a paciência e as explicações.
De nada. Estarei aqui sempre disposto a esclarecer esse e mais pontos. Vou me permitir apenas mais uma observação.

É muito fácil se dizer pacifista, declarar-se contra a violência de uma maneira geral e idílica, condenar todas as guerras e depois ir dormir com a consciência tranqüila. Mas isso não elimina o fato de que há quem se aproveite do pacifismo, ingênuo ou não, para promover massacres e atrocidades contra a humanidade. Dizer-se contra toda forma de violência é o mesmo que se dizer igualmente contra o bandido e a polícia. É o mesmo que defender o fim das leis, pois a lei nada mais é do que a violência organizada para manter a paz e a ordem na sociedade. É defender, pois, a inação e o imobilismo contra a violência terrorista e genocida. É, enfim, preparar o caminho para o terror e a morte de milhões de pessoas - o exato oposto da paz, portanto.

É um erro dos mais terríveis acreditar que, ao não fazer nada diante da morte, ou ao condenar em geral a violência, está-se deixando de tomar partido. No caso de Israel, grupos de fanáticos como o Hamas só precisam da condescendência, não do apoio explícito, da opinião mundial para porem em prática seus planos assassinos. Só precisam que se condene Israel, ou que se coloque a ação israelense no mesmo patamar moral que o deles próprios, para alcançar legitimidade. E isso estão conseguindo, graças à propaganda midiática que insiste em equiparar a violência dos dois lados.

P.S.: É por essas e outras que não sou pacifista. Definitivamente, o pacifismo não é uma boa palavra.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

UM DESABAFO CÍVICO

Quem também matou a pau foi o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Em entrevista à revista VEJA desta semana, o senador pernambucano e ex-governador de Pernambuco desceu o malho em seu próprio partido, o PMDB, classificando-o de corrupto. Entre outras verdades, Jarbas afirmou que a eleição de seu colega José Sarney para a presidência do Senado é um retrocesso e que Renan Calheiros, que atualmente preside a legenda, não tem condições éticas de presidir partido nenhum. Ataca duramente o governo Lula e termina denunciando, meio desesperançoso, o clientelismo e a mediocrização geral da política brasileira. Uma verdadeira paulada.
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Não tenho o hábito de elogiar políticos. Mas abro aqui uma exceção. A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos para a VEJA entrará para a História como um momento de rara honestidade e lucidez na política brasileira. Um verdadeiro desabafo, de um político e parlamentar pertencente à outra época, em que a política era algo mais do que um simples jogo de interesses para conseguir cargos e benesses, não importa de que governo. Minhas passagens favoritas são as seguintes:

A favor do governo Lula há o fato de o país ter voltado a crescer e os indicadores sociais terem melhorado. O grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só. O país não tem infraestrutura, as estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é que essa mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso.

Mas esse presidente que o senhor aponta como medíocre é recordista de popularidade. Em seu estado, Pernambuco, o presidente beira os 100% de aprovação. O marketing e o assistencialismo de Lula conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.

O senhor não acha que o Bolsa Família tem virtudes? Há um benefício imediato e uma consequência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de assistencialismo. Há um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece.

A oposição está acuada pela popularidade de Lula? Eu fui oposição ao governo militar como deputado e me lembro de que o general Médici também era endeusado no Nordeste. Se Lula criou o Bolsa Família, naquela época havia o Funrural, que tinha o mesmo efeito. Mas ninguém desistiu de combater a ditadura por isso. A popularidade de Lula não deveria ser motivo para a extinção da oposição. Temos aqui trinta senadores contrários ao governo. Sempre defendi que cada um de nós fiscalizasse um setor importante do governo. Olhasse com lupa o Banco do Brasil, o PAC, a Petrobras, as licitações, o Bolsa Família, as pajelanças e bondades do governo. Mas ninguém faz nada. Na única vez em que nos organizamos, derrotamos a CPMF. Não é uma batalha perdida, mas a oposição precisa ser mais efetiva. Há um diagnóstico claro de que o governo é medíocre e está comprometendo nosso futuro. A oposição tem de mostrar isso à população.

Como não poderia deixar de ser, os caciques do PMDB e o governo Lula, auxiliados por seus porta-vozes na imprensa dita "imparcial", já começaram a campanha de difamação contra Jarbas. Mal saiu a entrevista, e começou-se a cobrar do senador pernambucano provas do que disse. Como assim, "provas"? Leiam de novo o que está aí em cima, principalmente sobre a mediocridade do governo Lula e o enorme embuste eleitoreiro que é o Bolsa-Família. Isso precisa de provas? Trata-se de uma realidade evidente por si mesma, não há necessidade de provas. Ah, querem nomes? Jarbas denuncia práticas, mas se quiserem nomes, basta lembrar o noticiário nos últimos dez ou quinze anos. É curioso como Collor foi derrubado sem que se apresentasse nenhuma prova concreta contra ele. Foi, inclusive, absolvido pelo STF alguns anos depois. Quando se trata do governo Lula e de seus aliados, porém, a escrita é diferente. Por quê?

Na impossibilidade de refutar o que diz Jarbas, a petralhada de todos os partidos agora está dizendo também que ele só resolveu falar porque está armando alguma jogada. Estaria preparando seu caminho para desligar-se do PMDB e "tucanar", de olho na candidatura à vice-presidência numa eventual chapa com o PSDB de José Serra em 2010. É, pode ser. E daí? Isso por acaso diminui o peso de suas declarações? Na verdade, tais ilações não passam de uma manobra para desviar a atenção e evitar o debate, reduzindo tudo à velha política miúda de sempre, a mesma prática denunciada por Jarbas na entrevista. Jarbas é um dissidente. E dissidentes não costumam ser perdoados pelos medíocres e conformistas.

É raríssimo ver um político, ainda mais de um partido governista, abrir o jogo e chamar as coisas pelo nome. Por isso a entrevista de Jarbas Vasconcelos é tão importante. É um marco. Um verdadeiro desabafo cívico.