segunda-feira, dezembro 08, 2008

TRÊS TIPINHOS ORDINÁRIOS

De uns tempos para cá, ao fustigar os esquerdinhas, jornalistas como Reinaldo Azevedo têm contribuído para enriquecer o vocabulário da língua portuguesa. São dele tiradas preciosas e alguns neologismos impagáveis, que dão a impressão de surgir quase naturalmente, como "petralha" - mistura de petista com os Irmãos Metralha, com desvantagem para esses últimos -, "esquerdopata", "esquerdiota", "tontons-maCUTs" - os sindicalistas homiziados no cleptopetismo no poder - e, ainda, "Apedeuta" ou "Babalorixá de Banânia", para se referir ao chefe de todos, o Molusco de língua presa e fílósofo da marolinha que virou tsunami, que virou, por sua vez, uma diluviana diarréia.
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Pois bem. Como não poderia ficar de fora, também tenho cá a minha modesta contribuição ao léxico da política nacional. Não sei se alguém já o fez em meu lugar. Refiro-me a três tipos bem ordinários e vagabundos que há tempos nos atormentam, com sua pinta romântica de bons-moços e de santarrões sem pecha nem mácula, e que já se converteram numa verdadeira praga bíblica, dessas de deixar as sete pragas do Egito no chinelo. Eis uma breve definição de cada um deles. Leiam e depois me digam se eles não são umas baratas: estão em todos os lugares.
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O primeiro tipo é o menos numeroso, mas o mais barulhento e irritante de todos. É o militonto, o militante tonto de causas idem. É o petista ou comunista de carteirinha, folclórico, do tipo que adora vestir camiseta vermelha com a estampa de uma estrela ou da foice e do martelo e que prega adesivo do Partido no vidro do carro. Extremamente idealista, é facilmente encontrado em sindicatos, principalmente os vinculados à CUT, e nas universidades, geralmente públicas, tanto do lado de lá quanto do lado de cá dos bancos escolares, embora não se mostre muito afeito aos estudos. Prefere agitar bandeiras e gritar slogans contra o "neoliberalismo", a "globalização" e os EUA, mas não costuma dispensar um bom celular ou uma roupa de grife (se for sindicalista, é geralmente apreciador de um bom uísque escocês).
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Apesar de seu anticapitalismo, o militonto é bastante ligado à moda também: vez ou outra é visto desfilando com uma camiseta muito fashion de Che Guevara, aquele que gostava de fuzilar sem piedade. Sem perder a ternura, claro. Em geral, é gente de certas posses, embora pretenda falar em nome dos pobres e excluídos. Talvez por isso, seja adepto fervoroso da religião do pobrismo e do coitadismo ("ah, como é bela a pobreza, como é autêntica..."). Altruísta, é bastante caridoso, um defensor intransigente da distribuição de renda - principalmente se for com o dinheiro alheio.
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Como sói acontecer em certas seitas, o militonto costuma expressar-se por meio de uma linguagem própria, que em alguns casos lembra o português, principalmente na forma como trata seus assemelhados, chamando-os, invariavelmente, de "companheiro" ou "camarada". Se você crê, como José Saramago, que Marx tinha razão e que a humanidade - menos você, claro - não merece viver, então pode ter certeza: você é um "companheiro" ou "camarada". Todos os demais, que ainda defendem coisas como a democracia e a liberdade de pensar, são uns alienados e canalhas da pior espécie, lacaios do imperialismo e porcos direitistas; deveriam estar debaixo de sete palmos de terra, comendo capim pela raiz.
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Outro ambiente em que o militonto é facilmente encontrado são as ONGs, principalmente aquelas dedicadas a causas do bem, genuinamente pilantrópicas, abastecidas com dinheiro público. Acima de tudo, ele faz questão de estar presente em qualquer "movimento social" que erga a bandeira das "minorias" (negros, índios etc.), ecologistas (onde também atendem pelo apelido de ecochatos), feministas, gays etc., com amplo trânsito nos jornais e nos meios artísticos e "intelequituais".
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Atualmente aboletado no governo, em geral em algum cargo comissionado, o militonto geralmente não vê problema algum em usar os mesmos métodos de seus adversários "de direita", antes por ele tão condenados, já que todos os meios são válidos se são para o bem da revolução e da classe trabalhadora. Mas toma o cuidado de livrar a cara do mandante-mor, blindando-o contra qualquer engraçadinho que quiser chamar-lhe à responsabilidade, e atribuindo todas as acusações de corrupção a uma conspiração das elites e da mídia - ainda que quase toda ela esteja em seu bolso, literalmente - para desestabilizar o melhor governo da história da humanidade.
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Dono de uma fé absoluta e de uma certeza inabalável na justeza de sua causa, o militonto vê a si mesmo como um herói e um grande humanista, o paladino da ética e da virtude - mesmo que, para atingir seu objetivo, atire a ética e a virtude pelo ralo. Os mais extremados dentre os membros dessa fauna - sempre há uns mais radicais do que outros, num processo centrípeto sem fim - costumam denunciar seus ex-companheiros, considerando a corrupção um "desvio de rota" da ideologia original, supostamente pura e imaculada - coisa "de direita", enfim. Assim, "racham" e formam novas siglas, que, não considerando a sigla-mãe suficientemente esquerdista, apenas repetem a trajetória daquela de onde vieram, num processo de metástase.
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Messiânico, o militonto faz uma distinção entre o "legal" e o "legítimo", defendendo o "Direito achado na rua". Assim, não mede esforços para colocar um figurão na cadeia e fazer justiça, ainda que à custa da própria Justiça. Não raro, enxerga a Lei como um obstáculo, e não como um instrumento ("um mero pedaço de papel"), a serviço do que considera ser a verdadeira justiça - ou seja, aquilo que considera os verdadeiros anseios da sociedade, dos quais se diz o legítimo porta-voz e cumpridor implacável. Crê que pensar criticamente é falar mal do capitalismo e elogiar o socialismo. Adora falar em democracia e em direitos humanos. Menos em Cuba e na Coréia do Norte.
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O segundo tipo, mais numeroso que o primeiro e menos do que o terceiro, mas nem por isso menos importante, é o simpatizanta, o simpatizante anta. Não é radical como o militonto, mas endossa todas as suas atitudes. Não sendo abilolado o suficiente para pertencer à primeira categoria, nem cara-de-pau o bastante para ser do outro tipo, prefere o meio-termo. Na verdade, é um militante envergonhado, que não quer se comprometer, adotando uma posição bastante cômoda, oferecendo apoio na retaguarda. Atua como o torcedor que prefere assistir ao jogo em casa, com cervejinha e em frente à TV, longe da agitação da geral, para não correr riscos.
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Geralmente, de forma inconsciente, o simpatizanta torce pelo PT e pela esquerda, ou melhor, contra o DEM e o PSDB, não porque se identifique plenamente com as teses esquerdistas, mas porque teme passar por "direitista" ou "reacionário" na roda de amigos, quase todos eles também de esquerda ou simpatizantas como ele. Acredita piamente que a esquerda é o lado do bem e do justo e que seu apoio tácito a ela não é um compromisso com mensaleiros e aloprados. Geralmente um bom sujeito, do tipo que tem muitos amigos, seu maior medo é passar por chato ou inconveniente. Sua maior ambição na vida é ser reconhecido como uma boa pessoa e seguir a multidão, que para ele está sempre certa. Antigamente, era chamado de "inocente útil".
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Finalmente, o terceiro tipo: o equilibesta, ou filósofo do equilíbrio, ou radical da isenção. Filho dos tempos pós-modernos, é o tipo mais numeroso de todos, e constitui a maioria nas redações dos grandes jornais e demais veículos de imprensa. Também conhecido como "nem-nem", por basear sua visão de mundo na expressão "nem com fulano, nem com beltrano", adota como filosofia de vida o isentismo ou nenhumladismo. É o eunuco da política: se o militonto é conhecido por suas certezas absolutas e inabaláveis, o equilibesta cultiva a dúvida constante e o relativismo. Ou seja: diante de um fato ou de um personagem polêmico, temendo passar por fanático ou intolerante, ele prefere não tomar posição e ficar em cima do muro, colocando-se a favor nem de um lado, nem do outro. Dito de outro modo: seu lado é não ter lado algum. Ou: sua posição é não ter qualquer posição. Em outras palavras: o equilibesta não é contra nem a favor, muito pelo contrário. Tudo em nome da análise fria e objetiva, pautada pela mais científica isenção e pela imparcialidade salomônica.
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Com isso, bancando a Suiça, o equilibesta acredita adotar uma postura o mais possível livre de preconceitos e paixões ideológicas, esperando pairar acima da própria realidade. O que não o impede de se perfilar, quase sempre, ao lado da esquerda. É o que acontece, por exemplo, quando se revela horrorizado com a invasão do Iraque pelos EUA ou com os mortos por Pinochet no Chile, enquanto silencia ou tenta mostrar-se neutro diante da agressão da Rússia à Geórgia ou de ditaduras como a dos irmãos Castro em Cuba. Tudo em nome da moderação, claro.
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Geralmente um indivíduo com certo nível intelectual, que lê bons livros e escuta bons discos, dono de gostos artísticos e estéticos, sobretudo musicais, bastante sofisticados, o equilibesta adora detonar o Bush e seus aliados, culpando a eles e ao "imperialismo do Ocidente" pelo terrorismo da Al Qaeda e das FARC. Obcecado por ser isento e orgulhoso de sua própria imparcialidade, que confunde com neutralidade e justiça, tem verdadeiro horror a tudo que lhe pareça partidarismo. No entanto, jamais se viu nenhum deles condenar com a mesma veemência os mais de 100 milhões de mortos pelo comunismo no século XX, pelo menos da mesma maneira como condenam e denunciam os crimes, reais ou não, do "capitalismo" e da "direita". No máximo, afirma a equivalência moral entre comunismo e nazismo, esquecendo-se que este último, ao contrário do primeiro, jamais se proclamou um novo humanismo, assim como da quantidade de vítimas, bem maior no caso do comunismo. Se estivéssemos na década de 30, o defensor do equilíbrio e da eqüidistância estaria a favor da neutralidade entre Churchill e Hitler, ou entre Roosevelt e Mussolini. Tentaria achar um juste milieu, certamente, até entre o Gulag soviético e os fornos crematórios de Auschwitz. Proclamaria a impossibilidade de tomar uma posição a favor da democracia ou do totalitarismo e iria dormir.
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Do mesmo modo, o equilibesta defende a equivalência moral entre o terrorismo islamita e aqueles que o combatem, como Israel e os EUA. Imparcial, acredita que o ódio que os fundamentalistas islâmicos cultuam contra o Ocidente é culpa do próprio Ocidente, sem se importar com o fato de que isso equivale praticamente a culpar as vítimas pelos atentados. Considera irracional e truculento qualquer um que aponte a diferença entre quem faz pessoas inocentes em pedaços em explosões destinadas intencionalmente a fazer o máximo possível de vítimas e corta cabeças de inimigos por não terem a mesma religião e quem, por sua vez, usa a força para punir os responsáveis por atrocidades desse tipo e, no caminho, faz vítimas de forma não intencional. Ou entre quem rouba desbragadamente em benefício próprio e quem rouba dizendo fazê-lo em nome de altos ideais humanistas. Ignora que, diante da morte e da mentira, não fazer nada já é tomar uma posição. Mesmo assim, defende com unhas e dentes a neutralidade entre a corda e o pescoço, entre a bala e o peito. Por trás disso tudo, é fácil perceber, o que existe é apenas o medo elementar de fazer escolhas morais.
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Os três tipos acima citados se complementam, um não existiria sem o outro. Não haveria militontos se não houvesse os simpatizantas, nem equilibestas, para lhes dar corda. E vice-versa.
Os três tipos .
Esse é um pequeno mostruário de alguns tipos que já se tornaram dominantes entre nós. Podem-se encontrá-los com facilidade em qualquer lugar, em qualquer conversa: no trabalho, nas escolas, nas igrejas, nas festas de fim de ano, nos batizados, nas mesas de bar. Esses três tipos, além dos oportunistas de sempre, compõem a base de apoio do atual governo do Brasil.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Ainda SaraMAGO, o mago do "comunismo hormonal"...


Ah sim, no "debate" de alguns dias atrás da Folha de S. Paulo, citado em meu último post, o grande humanista José Saramago também deitou falação sobre o tal acordo ortográfico, ratificado pelo Apedeuta algum tempo atrás. Disse o mago do "comunismo hormonal":

"Em princípio, não me parecia necessário. De toda forma, continuaríamos a nos entender. O que me fez mudar de opinião foi a idéia de que, se o português quer ganhar influência no mundo, tem de adotar uma grafia única. Se Portugal tivesse 140 milhões de habitantes, provavelmente teríamos imposto ao Brasil a nossa grafia. Acontece que os 140 milhões estão no Brasil, e o Brasil tem mais presença internacional. Perderíamos muito com a idéia de que o português é nosso, nós o tornaríamos uma língua que ninguém fala. Quando acabou o "ph", não consta que tenha havido uma revolução."

Saramago é a favor do acordo ortográfico. Eu sou contra. Ele está certo, claro, porque é um Prêmio Nobel, e eu sou um joão-ninguém. Mesmo assim, não posso deixar de estranhar mais essa pérola do filósofo de Lanzarote.

Em primeiro lugar, se o objetivo da estrovenga é facilitar o nosso entendimento, e, com ou sem o referido acordo, continuaríamos a nos entender do mesmo jeito, então qual a utilidade do mesmo? Difícil entender. Mais difícil ainda é compreender a lógica por trás da afirmação de Saramago, de que, para obter influência no mundo, o português teria que adotar grafia única. Primeiro, porque não me consta que é por meio de acordos e penadas do tipo que um idioma irá aumentar sua influência mundial (caso isso ocorra com o português, será um caso inédito na História). Segundo, porque o inglês não tem grafia única nos dois lados do Atlântico - veja a grafia de "harbor" e "harbour", por exemplo -, e isso não o impediu de ser a língua dominante nos negócios. Terceiro, se o critério para unificar a grafia devesse ser o número de habitantes por país, como sugere Saramago, o padrão lingüístico deveria ser o vigente no Brasil, que tem mais habitantes do que qualquer outro país lusófono. Ou seja: em vez de "voo" ou de "leem", como querem obrigar-nos todos a escrever a partir de agora, deveria ser adotado o "vôo" e o "lêem", tal qual se usa no Brasil. Quarto, e finalmente, não são 140, mas 190 milhões de habitantes...

O acordo é uma bobagem, uma inutilidade que só vai empobrecer, e não enriquecer, a língua de Camões. Com ele, o colorido das diferenças dará lugar ao artificialismo de uma decisão burocrática. Além disso, com ou sem o acordo, continuaremos a escrever e a falar errado - apenas precisaremos adaptar nossos erros às novas regras. Muito mais útil do que mudar as regras me parece seria simplesmente melhorar o nível do ensino de Português nas escolas (veja a imagem acima). Mas isso dá trabalho, é mais fácil "unificar" tudo apondo uma assinatura num pedaço de papel... Enfim, trata-se de uma tolice enorme, quase tão monumental quanto a egolatria de Saramago. Mas nada disso importa, pois Saramago é um Nobel e é um gênio, e sua palavra tem força de Lei. Falar mal dele, e do acordo ortográfico, é coisa de gente "do contra" como eu.

terça-feira, dezembro 02, 2008

SARAMAGO, O COMUNISTA HORMONAL


José Saramago é, como todos sabem, o maior nome atual das Letras Portuguesas. Mesmo assim, vou pedir licença e falar mal desse monumento. Mais uma vez, vou cometer esse sacrilégio. Quem sou eu para desancar Saramago? Eu não sou ninguém, claro. Não sou nada. Saramago, por sua vez, é tudo. Afinal, ele é, como Oscar Niemeyer, uma figura venerável, acima do bem e do mal, e, como tal, se acha no direito de dizer qualquer coisa e será certamente ouvido - e levado a sério. Além de tudo, é um Prêmio Nobel. Um gênio. Já eu, bem... sou apenas um blogueiro, e o que digo deve fazer alguma diferença, talvez, para a meia dúzia de abnegados que me lêem. Mas vamos lá, na humildade.

Alguns dias atrás, Saramago esteve no Brasil, onde participou de um debate promovido pela Folha de S. Paulo. Bem, debate é maneira de dizer. Saramago, na verdade, fez um comício. Figuras como ele, totêmicas, não debatem: simplesmente falam. E ponto. Saramago falou pouco de Literatura, como é de seu feitio, e muito de política. Resumidamente, o sábio de Lanzarote repisou para uma platéia atenta e embevecida de mais de 300 pessoas suas teses favoritas: "a história da humanidade é um desastre", começou sua arenga, e "não merecemos a vida", ponderou, pessimista. Repetiu para si mesmo que "Marx nunca teve tanta razão quanto agora", ao se referir à atual crise econômica mundial. Em dado momento, ele deu uma definição de si mesmo e de sua opção ideológica - como direi? - bastante lírica: "Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista." Ao final de sua palestra, uma integrante da platéia, demonstrando todo seu senso crítico e pretendendo falar em meu nome, gritou bem alto, enquanto Saramago terminava de falar: "Em nome de todos os brasileiros, obrigada por existir".

Tenho algo em comum com Saramago: também acho que a humanidade não merece viver. Mas, ao contrário do gênio, sou bem mais modesto em minhas intenções assassinas. Para mim, apenas uma parte da humanidade, uma parte ínfima aliás, deveria partir desta para melhor (ou pior). Refiro-me aos tiranos e genocidas - gente como Stálin, Mao Tsé-tung e Fidel Castro, que, assim como Saramago, acreditavam/acreditam que a humanidade também não presta e trataram de exterminar todos aqueles que não lhes agradavam. Uns 70 milhões, no caso de Mao, mais uns 35 milhões no de Stálin, e uns 95 mil no de Fidel. Assim como Saramago, esses líderes compartilhavam/compartilham do credo comunista. E, assim como Saramago, eles se excluíam/excluem da humanidade que querem despachar para o túmulo. Afinal, como diria Sartre, o inferno são os outros.

Saramago faz a apologia da morte. A apologia do genocídio, da destruição física de milhões de seres humanos. Mas e daí? Ele é um grande humanista. Truculento e insensível, claro, é quem o critica. Como este que escreve estas linhas.

Mas a parte de que eu mais gostei da palestra de Saramago foi sua confissão de que é um "comunista hormonal". Ele confirmou, assim, aquilo de que eu já suspeitava há tempos: o comunismo é mesmo uma doença. Um distúrbio dos hormônios, segundo o grande escritor. Deve ser mesmo. Somente uma alteração hormonal, ou genética, poderia produzir delírios como o "homem novo" ou a "ditadura do proletariado", que só geraram opressão e morte em escala industrial. Um hormônio que obriga pessoas aparentemente racionais a ser comunista, assim como faz crescer a barba, só pode ser um defeito congênito, uma aberração da natureza. Um amigo meu - aliás, simpatizante esquerdista - certa vez usou a expressão "socialista hormonal" para se referir à manada de revolucionários juvenis que pululam nas escolas e universidades e no que se convencionou chamar de "movimento estudantil". Gostei na hora da expressão, e a adotei. Já tendo sido eu mesmo um desses idiotas - felizmente, curado a tempo -, sei bem a influência dos hormônios na cabecinha de um adolescente entediado e com raiva do mundo. O esquerdismo, como já disse, é uma doença infantil, um sarampo ou uma catapora. O que causa estranheza são senhores de idade provecta vomitando essas sandices - e sendo aplaudidos por isso.

Vejam bem, não estou falando do Saramago literato, do Saramago escritor - sua literatura, aliás, com seus períodos longuíssimos sem vírgulas nem parágrafos, me diz muito pouco, quase tão pouco quanto os livros de Paulo Coelho, embora reconheça seu mérito literário em relação a este último. Estou falando do Saramago ideólogo, ou, mais precisamente, da persona política que Saramago criou para si próprio. Um misto de profeta apocalíptico e defensor empedernido do stalinismo, sempre pronto a espezinhar o "sistema" quando tem oportunidade, ao mesmo tempo em que fecha os olhos, voluntariamente, para os piores crimes já cometidos contra a humanidade. Não por acaso, atrevo-me a dizer, um de seus livros mais conhecidos se chama, exatamente, Ensaio sobre a cegueira... Já o título de outro livro seu, Ensaio sobre a lucidez, não parece muito adequado para definir o autor.

Além de comunista, Saramago é ateu. É outra coisa que temos em comum. No entanto, ao contrário do sábio português, não pretendo substituir o Todo-Poderoso por tiranos, ou por mim mesmo. Os marxistas, como Saramago, passaram décadas bombardeando os ouvidos alheios com a frase de que a religião é o ópio do povo. Melhor fez Raymond Aron, ao chamar o marxismo de o "ópio dos intelectuais". Saramago, com seu comunismo glandular, que o diga.
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Saramago é um gênio, um medalhão, um peito galardoado. Como tal, acostumamo-nos a enxergá-lo com o temor e a reverência próprios de devotos. Qualquer crítica que lhe for dirigida toma, assim, ares de blasfêmia, de crime de lesa-divindade. É mais um sintoma de nosso atraso intelectual, de nossa estupidez, de nossa babaquice sem limites.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

AVISO AOS NAVEGANTES

Os seis ou sete teimosos que costumam ler este blog devem ter percebido, de uma semana para cá, que o ritmo de postagens minhas diminuiu bastante. Fiquei vários dias sem publicar nada. Não foi por falta de assunto - os esquerdopatas e esquerdiotas, afinal, parece que não dormem: estão sempre aprontando das suas... Acontece que, nos últimos dias, a vida - e a rotina - deste blogueiro sofreram uma verdadeira reviravolta, que vai além de minha vontade e tornou o acesso à internet, pelo menos nessa última semana, algo bastante difícil, senão proibitivo.
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Em breve retomarei ao ritmo normal de posts, se o tempo e as circunstâncias assim permitirem.

quinta-feira, novembro 20, 2008

ZUMBI, O ESCRAVOCRATA


Hoje é o "Dia da Consciência Negra". Sobre a data, que já entrou para o calendário oficial brasileiro, não vou me estender muito aqui. Já escrevi extensivamente sobre o assunto (quem quiser saber o que penso da efeméride, é só clicar aqui: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/11/dia-da-conscincia-negra-uma-data.html). Vou-me limitar a comentar, de passagem, alguns fatos no mínimo curiosos a respeito dessa que já se tornou uma cause célebre dos militantes de esquerda no Brasil: a questão racial. Acompanhem.

- Na mesma semana em que se comemora o "Dia da Consciência Negra", a revista VEJA publica uma matéria reveladora sobre Zumbi dos Palmares, o maior ícone da luta de resistência contra a escravidão negra no Brasil, adotado pelos "militantes negros" como símbolo maior da luta contra o racismo.

A reportagem informa que, segundo pesquisas recentes de historiadores, Zumbi era, ele próprio, dono de escravos. Além disso, na época em que ele viveu (século XVII), a idéia de igualdade entre os homens era simplesmente inexistente - esse conceito só surgiria um século depois, com o Iluminismo na Europa. Assim como aconteceu com Tiradentes, sua transformação posterior num símbolo da luta anti-escravista foi, na verdade, o resultado de uma mistificação histórica, de um processo de idealização. Caiu mais um mito da esquerda brasileira.

- Alguns anos atrás, três estudantes da PUC do Rio foram agredidos, verbal e fisicamente, por uma horda de colegas indignados. O motivo: alguns artigos publicados num jornalzinho que mantinham.

No jornalzinho que editavam, os três estudantes criticavam a abordagem da questão racial pelos militantes do "movimento negro", e usaram uma expressão - "negros escravocratas" - que desencadeou toda a onda de ódio contra eles por parte de seus colegas e da direção da Universidade.

A expressão se referia à escravização de negros africanos por membros de outras tribos na África, o que durou séculos, antecedendo de muito o início do tráfico negreiro para o outro lado do Atlântico. E que continua, aliás, hoje em dia, em alguns países do Leste da África.

Trata-se de um fato histórico, sobejamente provado e comprovado por dezenas de estudos e livros. Mas os estudantes foram espancados por uma multidão raivosa, que considerou a expressão "racista".

- Na UnB, uma das maiores universidades do Brasil, um professor do curso de Ciência Política foi punido com vários dias de suspensão depois que um aluno, sentindo-se ofendido por ele ter usado a expressão "crioulada" em sala de aula, entrou com uma queixa-denúncia contra ele por "racismo".

Na mesma semana, o presidente Lula usou, entre risos, a mesma expressão (crioulo, crioulada) para se referir a um fato de sua infância. Não se ouviu nenhum clamor ou queixa contra ele por causa disso.

Mais recentemente, o mesmo Lula, ao se referir à eleição de Barack Obama para a presidência dos EUA, saiu-se com a seguinte frase: "Se o governo Obama não der certo, serão necessários séculos para outro negro ser eleito presidente dos EUA". Novamente, não se viu ninguém acusando Lula de racismo ou coisa parecida.

- Na mesma UnB, há algum tempo vigora um sistema de cotas raciais que reserva 20% das vagas nos cursos oferecidos a estudantes que se declararem e forem considerados "afro-descendentes". No ano passado, dois irmãos gêmeos idênticos se inscreveram no vestibular da UnB pelo sistema de cotas. Um foi considerado negro e outro, não.

Esses são apenas alguns exemplos de uma realidade cada vez mais difícil de esconder no Brasil.

O Brasil não era um país racista. Graças aos "militantes negros", está se tornando.

P.S.: Você está vendo algum branco na gravura acima?

quarta-feira, novembro 19, 2008

ELES NÃO DESISTEM - MAIS FALÁCIAS DOS REVANCHISTAS

Antes, queriam Anistia; hoje, querem revanche - e chamam isso de justiça


Segue um vermelho-e-azul com o texto "Terrorismo de Estado", publicado na seção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo de hoje, 19 de novembro, de autoria da "jurista" Deisy Ventura, professora da USP (onde mais?). Quem ainda tiver neurônios para pensar não vai ter dificuldades para perceber que, por debaixo do trololó aparentemente humanitário e do "juridiquês" de araque, se esconde um raciocínio bastante tortuoso, que serve apenas para justificar o revanchismo de Tarso Genro e assemelhados. Ela em vermelho; eu em azul.
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Terrorismo de Estado
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DEISY VENTURA
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Urge repelir a idéia de que a anistia "vale para os dois lados". Primeiro, pelo descalabro técnico. Depois, pela infâmia política
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Esquentam as mãos do ministro Eros Grau, no Supremo Tribunal Federal, dois processos que marcarão a cultura política e a imagem internacional do Brasil.Como relator da ação em que a OAB questiona a interpretação da Lei de Anistia, Grau pediu vista dos pedidos argentino e uruguaio de extradição do general Manuel Cordero, um dos protagonistas da iniciativa supranacional de repressão política denominada Operação Condor.Caberá, então, ao STF decidir não apenas sobre a possibilidade de julgar agentes públicos pelos crimes contra a humanidade praticados durante a ditadura militar brasileira, mas também exercer a espúria faculdade de impedir que países vizinhos façam o mesmo em relação aos seus acusados.
Logo de início, a desonestidade intelectual mais descarada. Não há qualquer termo de comparação entre a ditadura militar no Brasil e as ditaduras militares argentina e uruguaia. No Brasil, morreram 376 pessoas (segundo contagem do próprio governo) nas mãos de agentes da repressão durante 21 anos (mais as 119 assassinadas pelos terroristas de esquerda). Nesses outros dois países, a repressão foi muito mais feroz. Na Argentina, houve cerca de 30 mil mortos. No Uruguai, em certo momento praticamente um em cada cinqüenta (1/50) uruguaios estava na cadeia, um record mundial. A participação de militares brasileiros na chamada "Operação Condor" foi mínima. Qualquer comparação entre o que aconteceu no Brasil e nos países vizinhos é pura forçação de barra.
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E antes que digam: não, isso não significa justificar nada do que aconteceu nesses países. Significa repor as coisas em seu devido lugar. Não há comparação possível entre 376 mortos e 30 mil, ou entre 376 e 100 milhões. Não há comparação possível entre anos de chumbo e rios de sangue. Adiante.
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Num Brasil gravemente acometido de amnésia seletiva, o debate encontra-se turbado pela estapafúrdia tese do "vale para os dois lados" -isto é, rever a anistia dos militares implicaria necessariamente rever a dos subversivos, ditos "terroristas". Urge, portanto, repelir a idéia de que a anistia vale tanto para torturados quanto para torturadores.
Concordo totalmente com a afirmação sobre a amnésia coletiva do brasileiro. A começar pela própria autora, que insiste em retratar os "anos de chumbo" de forma unilateral, "esquecendo-se" de mencionar a violência da esquerda no período. Aliás, é exatamente isso o que faz Tarso Genro e Paulo Vanucchi: querem "rever" a Lei de Anistia de 1979 para punir apenas um dos lados - o lado, justamente, da repressão. O "vale para os dois lados", minha senhora, não é uma "tese", muito menos "estapafúrdia"; é um fato - a Lei, goste-se ou não dela, perdoou a todos. Querer revogá-la é, portanto, querer punir a todos, e não uma parte somente. Repito: o perdão não é uma tese - é um fato histórico, que a esquerda quer agora que seja revogado a seu favor.
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Primeiro, pelo descalabro técnico.Há quem reconheça como jurista só aquele que o defende. Porém, o direito aqui é cristalino. O Estado detém o monopólio da violência legítima. Dele apropriando-se ilegitimamente e agindo em seu nome, "autoridades" dispuseram de recursos estatais para promover sistematicamente a tortura, que resultou, em numerosos casos, na execução sumária, agravada pela ocultação de cadáver.Depois, o poder estatal garantiu-lhes acordo leonino, pelo qual crimes comuns, entre eles o estupro, foram interpretados como se políticos fossem.
Analisemos a questão tecnicamente, então. De fato, há quem reconheça como jurista somente quem o defenda - os "juristas" que defendem o terrorismo como legítimo, por exemplo. Estes não dão a mínima para os males causados pelos terroristas, pois só se importam com um lado da questão. Aqui, também, o direito é cristalino: a Constituição Federal de 1988, por exemplo, deixa claro em seu texto que terrorismo e tortura - e não somente um ou outro - são crimes inafiançáveis. Ou seja: a Lei determina que ambos são crimes contra a humanidade, como está também em várias convenções internacionais, aceitas pelo Brasil. Além disso, explodir bombas e matar pessoas inocentes, bem como seqüestrar diplomatas e assaltar bancos, assim como estupro, são também crimes comuns, e não políticos. Ou o monopólio da violência legítima, nesse caso, mudou de mãos e passou para as organizações de esquerda que matavam, roubavam e seqüestravam? Isso, sim, me parece um descalabro.
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Ademais, quem se opõe à violação da ordem constitucional não é terrorista, é resistente. O direito à resistência é vigente no Brasil desde os anos 1950, por força do direito humanitário, que igualmente veda a tortura e a execução, mesmo durante a guerra.
Ahá! Viram só? Coloquei a frase em negrito de propósito. Ela revela o próprio cerne do texto. Segundo a autora, o terrorismo da esquerda não era terrorismo. Não era terrorista, mas "resistente", quem explodia bombas e arrebentava a coronhadas a cabeça de prisioneiros... E isso por quê, meus senhores e minhas senhoras? Porque os bravos "resistentes" estavam lutando contra a "violação da ordem constitucional"... Eram, portanto, lutadores pela democracia e pela liberdade. Uma resistência democrática, enfim. Desculpem a falta de jeito, mas nessa questão é preciso ser o mais claro possível: ISSO É SIMPLESMENTE MENTIRA!
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A autora parece desconhecer completamente o que os próprios terroristas (perdão, "resistentes") diziam a respeito de si mesmos. Como Carlos Mariguella, o principal ideólogo da luta armada e dirigente da organização de Paulo Vanucchi, a ALN, que em seu Minimanual do Guerrilheiro Urbano enalteceu explicitamente o terrorismo ("ser terrorista é uma condição que enobrece qualquer homem de bem"...). Assim como ignora por completo que não há nenhum documento de organização da esquerda armada no período que defenda a democracia contra a "violação da ordem constitucional" pelos militares no poder. Ao contrário, o que valentes como Mariguella e Paulo Vanucchi queriam não era restaurar a democracia coisa nenhuma, mas simplesmente trocar de ditadura - no caso, a ditadura militar por uma ditadura de esquerda, socialista ou comunista, nos moldes de Cuba ou da China maoísta. Sem falar que o projeto guerrilheiro - a luta armada como caminho para a tomada do poder - já existia muito antes do golpe de 64 (logo, antes da "violação da ordem constitucional"). Não dá para deixar de dizer: Vai estudar, dona Deisy! Vai se instruir!
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Segundo, pela infâmia política.Há quem defina como ideologia somente a dos outros. É o primeiro passo para criminalizá-la. Ora, nunca houve risco real de implantação de um regime comunista no Brasil. A ampla maioria dos cassados, torturados e desaparecidos jamais praticou qualquer violência. Contudo, impunes aves de rapina não cessam de difamá-los, argüindo que tiveram o que mereciam, como se as vítimas estivessem a jogar o queixo contra os punhos dos algozes. Vocês percebem como eu sou paciente com essa gente? Eles distorcem a História descaradamente, acintosamente, e mesmo assim eu me dou ao trabalho de refutá-los com fatos e argumentos. Parafraseando a própria autora: há quem defina como História somente o que lhe convém. É o primeiro passo para deturpá-la.
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Coloquei o trecho em negrito também de propósito. Hoje, no distanciamento histórico, é fácil dizer que os grupos armados de esquerda não representavam perigo para o regime militar. Mas a percepção da época - e, principalmente, da esquerda - era bem diferente. Leia-se qualquer texto produzido pela esquerda na época e fica claro o triunfalismo, a sensação de que a vitória da revolução e do socialismo estava ao alcance da mão, estava bem ali, na esquina... Os militares levaram a sério esse perigo, e cometeram muitos abusos. Mas certamente menores, diga-se, do que os que a esquerda praticaria, caso chegasse ao poder (basta ver a campanha de Tarso Genro para revisar a Lei de Anistia para perceber que dificilmente a esquerda anistiaria seus inimigos).
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Além disso, em 1964, houve sim o risco de o Brasil se transformar numa ditadura comunista ou, pelo menos, sindicalista. Quem diz isso não sou eu, nem é qualquer militar golpista: são os próprios comunistas. Pouco antes do golpe, Luiz Carlos Prestes declarou de forma clara que os comunistas já estavam no governo, e preparavam apenas o assalto ao poder. Jacob Gorender, num livro que tem o mérito da honestidade (Combate nas Trevas, Ed. Ática, 1987), afirma claramente que, em 1961-1964, o Brasil vivia uma situação "pré-revolucionária", e que o golpe dos militares, portanto, foi "preventivo". Basta correr os olhos rapidamente sobre qualquer livro (sério) de História sobre o período que se perceberá que a esquerda radical caminhava a passos largos para a tomada do poder, o que significaria a destruição da democracia. Quando os militares derrubaram o governo Goulart, há muito este fizera sua opção pela ilegalidade. Não foram somente os milicos que acabaram com a democracia em 1964: simplesmente ninguém a queria. Tendo perdido a parada, a esquerda, desde então, tem se apresentado como democrata. É um engodo. Uma verdadeira infâmia política..

Outra coisa. Sim, é verdade que vários cassados, torturados e mortos (não "a ampla maioria", como diz a autora) pela repressão no Brasil não tinham nada a ver com a luta armada. Mas isso não torna o terrorismo menos sanguinário e criminoso. Não justifica os seqüestros e assassinatos cometidos em nome de Lênin, Fidel e Mao. Até porque, como a própria autora afirma, nem todos que se opuseram à ditadura optaram pela luta armada - o que demonstra que esta não era a única forma de luta possível contra o regime militar. Entretanto, para a doutora Deisy, lembrar esses fatos é difamar os mortos. Ela não parece preocupada com o fato de que, ao classificar os terroristas como "resistentes", ela está, isso sim, difamando suas vítimas, muitas das quais simples transeuntes. Não venha me dizer que a luta armada não era terrorismo e era uma forma de resistência democrática, por favor!
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Diante de tal (in)cultura, não surpreende que, na atualidade, jovens favelados já nasçam suspeitos, esgueirando-se nas ruas diante dos temidos agentes do Estado.
Como é que é? Então os favelados são vistos como suspeitos pelos meganhas por causa da Lei da Anistia? É isso mesmo? Essa senhora é incrível...
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Aliás, é curioso: Tarso Genro e Paulo Vanucchi parecem muito preocupados em revisar a Lei para punir crimes de quarenta anos atrás, enquanto não demonstram o mesmo entusiasmo em impedir o mesmo crime de tortura e coisas piores nas cadeias brasileiras hoje em dia. Deve ser porque os torturados de hoje não têm o mesmo pedigree ideológico...
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É preciso também refutar o enganoso argumento da prescrição.Farta e unânime jurisprudência internacional, inclusive da Corte Interamericana de Direitos Humanos, cuja jurisdição é aceita pelo Brasil, sustenta a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade. Não se trata de imposição, eis que o direito internacional consiste justamente no exercício da soberania nacional em foro externo. Construído pelo consenso entre as nações, aplicá-lo é tarefa constitucional de cada Estado.
Bom... Nesse ponto, dona Deisy, acho que estamos de acordo. Sim, porque, assim como a senhora, também considero imprescritível e crime contra a humanidade a tortura. Tenho os torturadores na mesma conta que amebas ou protozoários. Mas, ao contrário da senhora, estendo essa mesma classificação para o crime de terrorismo, seja de esquerda ou de direita ou de centro (supondo que haja terrorismo de centro). Além disso, temos um problema aí. Ainda que a CIDH diga que tortura seja crime imprescritível, e mesmo eu não sendo especialista em Leis (deixei o curso de Direito no segundo ano), não vejo como revogar uma Lei de 1979, que se refere a crimes cometidos de 1961 até aquela data, com base numa legislação de 1988 (a Constituição Federal). Convenhamos que isso seria meio complicado, não acha? Então, das duas uma: ou se mantém a Lei como está, garantindo a anistia ampla, geral e irrestrita - como queria, aliás, a esquerda na época de sua aprovação -, ou se revoga a Lei, e, nesse caso, se pune todo mundo: torturadores e terroristas. A senhora concorda com isso?
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Contudo, orgulhoso por sua retumbante inserção comercial internacional, o Brasil está cada vez mais isolado do mundo no que tange à memória e à justiça. Cumpridor do direito do comércio, o país ainda engatinha quanto à aplicação do direito internacional dos direitos humanos.
Confesso que esse pessoal me deixa cada vez mais confuso... O que tem a ver o "direito do comércio" - do qual o Brasil, aliás, ainda está longe de ser um cumpridor fiel - com memória e justiça e direitos humanos? Vai ver que para que o Brasil se torne realmente um país de primeiro mundo é preciso, antes de mais nada, revogar (seletivamente) a Lei de Anistia e voltarmos à situação pré-1979, apenas com o sinal ideológico invertido... Esquerdistas são esquisitos mesmo.
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Uma recente audiência pública da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o anúncio de que uma vítima de Cordero levará o Brasil à corte interamericana auspiciam que a responsabilidade internacional do Estado poderá ser invocada em caso de omissão. Por outro lado, por força do princípio da jurisdição penal universal, outros países já deflagraram ações contra torturadores brasileiros.Apesar de tudo, o governo brasileiro está dividido. No julgamento da ação bravamente movida pelo Ministério Público Federal contra o general Ustra, a atuação da Advocacia Geral da União foi constrangedora.
Por que a atuação da AGU foi constrangedora? Teria sido porque cumpriu o que está na Lei? Mesma Lei, aliás, que anistiou muitos dos que Ustra prendeu e, dizem, torturou? teria sido porque não fez um julgamento político, e sim jurídico, da questão? Afinal, Lei se cumpre, e ponto. A propósito: parabéns para a AGU!
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Ou será que agora existem duas leis, uma para a esquerda, que está hoje no poder, e outra, para ser "bravamente" aplicada somente para punir milicos de pijama, sem mais qualquer influência na vida nacional? Isso mostra apenas uma coisa: para a doutora Deisy, a aplicação da justiça deve obedecer a um critério ideológico. Se o mal foi cometido contra a esquerda, é um crime contra a humanidade. Se foi a esquerda que cometeu... é outra coisa.
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Além do mais, sendo o terrorismo um crime contra a humanidade, assim como a tortura, o mesmo critério poderia ser adotado para pedir a punição dos responsáveis pelas mortes de cidadãos estrangeiros no País por organizações armadas de esquerda. Gente como o capitão norte-americano Charles Chandler, por exemplo, metralhado na frente de sua família por um grupo de fogo da ALN e da VPR (um dos assassinos recebeu uma gorda indenização do Estado como "perseguido político"), ou o major alemão Westerhnagen, morto por engano por um comando terrorista no Rio de Janeiro. Será que a doutora Deisy aprovaria a punição dos que cometeram essas ações, em nome do princípio da jurisdição penal internacional? Cuidado, doutora, vai que a senhora consegue o que deseja...
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Os políticos favoráveis ao julgamento levam a pecha de revanchistas.Seria também revanche o sentimento a mover os 400 juristas que assinaram o manifesto em prol do debate público nacional sobre a Lei de Anistia, lançado em 28/8/08, no pátio da Faculdade de Direito da USP? E as 3.500 pessoas de 38 diferentes países que se somaram à Campanha Internacional pela Extradição de Cordero?
"Na falta de argumentos sólidos, apelemos para a força dos números..." É a velha tática esquerdista em ação: tantas pessoas puseram seus nomes num manifesto, logo o manifesto só pode expressar algo certo e justo... Ainda espero um dia esse mesmo critério matemático ser utilizado para pedir indenização ao Estado pelas 119 vítimas (muitas delas, inocentes) da esquerda armada no Brasil de 1964 a 1979. Ou será que esses mortos escolheram o lado errado?
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No programa para crianças que anima na rádio Justiça ("Aprendendo Direitinho"), o ministro Eros apresenta-se como vovô Grau. Em breve, ele terá de contar aos netinhos-ouvintes uma história sobre terríveis condores, disfarçados de cordeiros e passarinhos. Que seja bem contada e sem páginas arrancadas, que a trama não se passe numa ilha e que, ao final, prevaleça a justiça.
Titia Deisy: venho aqui dizer que assisto ao programa do Vovô Grau. Só queria que a senhora me dissesse quando é que vai me contar aquela historinha, aquela sobre terríveis guevarinhas e maozinhos, disfarçados de bonzinhos combatentes da liberdade. Queria que ela fosse bem contada e sem páginas arrancadas, sem esconder nada, e que a trama se passe aqui mesmo, embora a senhora pareça morrer de amores por uma certa ilha, onde um velhinho barbudo manda há 50 anos e já despachou 95 mil para o além. Talvez seja lá, nessa ilha da fantasia, com seu paredón, que se alcançou, para a doutora Deisy e para Tarso Genro e Paulo Vanucchi, a verdadeira justiça...

terça-feira, novembro 18, 2008

TRÊS PERGUNTAS SEM RESPOSTA PARA BARACK OBAMA



A imagem acima mostra um anúncio de página inteira, publicado na edição de segunda-feira, 17 de novembro, do jornal The Washington Times.

Antes de entrar no assunto do anúncio propriamente dito, vamos recordar alguns fatos.

Há meses vem rolando um processo na Justiça norte-americana movido por um advogado da Pensilvânia, Phil J. Berg, contra o presidente eleito dos EUA, Barack Hussein Obama.

O processo exige que Obama apresente provas documentais irrefutáveis de que é um cidadão norte-americano, uma vez que a Constituição dos EUA exige esse pré-requisito a qualquer cidadão que queira um dia ocupar a Casa Branca. Foi dado a Obama um prazo para que apresentasse a documentação requerida judicialmente.

Algumas semanas atrás, o prazo chegou ao fim - e Obama não apresentou o documento (original ou cópia autenticada da certidão de nascimento) provando ser ele cidadão nato dos EUA.

De TODOS os 43 presidentes norte-americanos até agora, Barack Obama foi o ÚNICO que NÃO fez isso.

Desnecessário dizer que o assunto foi completamente ignorado pela imprensa brasileira, assim como pela norte-americana e mundial.

A ser verdade o que diz o anúncio - o qual, até agora, não teve nenhum desmentido -, em 20 de janeiro de 2009 tomará posse na presidência do país mais poderoso do mundo um indivíduo que mentiu sobre sua nacionalidade, e que desrespeitou acintosamente a Constituição do país que irá governar.
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A seguir, apresento alguns trechos selecionados do anúncio de página inteira publicado no Washington Times. O original em inglês está aqui: http://www.obamacrimes.com/
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A propósito: o advogado que entrou com o processo contra Obama, Phil J. Berg, é Democrata.
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Leiam e tirem suas próprias conclusões.

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Três Perguntas Não-Respondidas

Barack Obama nasceu no Quênia?

Ele é mesmo um Cidadão da Indonésia?

A Constituição ainda vale?


(...)

Obama diz que está qualificado [para ser presidente dos EUA]. Mas, Berg, múltiplos processos legais e um número crescente de cidadãos americanos estão dizendo: "Prove". Um requerimento básico, vital e constitucional.

Por que Obama não responde um requerimento tão simples e essencial?

(...)

A própria avó de Barack Obama disse que ele nasceu no Quênia. Enquanto os políticos são conhecidos por fazê-lo, avós raramente mentem. Está gravado em fita:

"Eu estava na sala de parto em [Mombasa], Quênia, quando ele nasceu em 4 de agosto de 1961". - Sarah Obama, avó paterna de Obama

(...)

Especialistas classificaram a Certidão de Nascimento colocada on-line [no site oficial de Obama] como uma falsificação. Berg relatou que "ela foi claramente alterada", o que a invalida, de acordo com o próprio documento. Acrescente-se a isso a lei do Havaí na época, que permitia que as pessoas se registrassem em um formulário simplificado não-hospitalar (sem a assinatura de um médico) até um ano depois da data de nascimento da criança.

(...)

Somente cidadãos indonésios podiam freqüentar escolas indonésias na época em que Barack Obama freqüentou a escola indonésia em que ele foi registrado como Barack Soetoro. Sua cidadania foi listada como indonésia, sua religião como Islã, e seu pai como Lolo Soetoro, M. A. Também não havia dupla cidadania à época. (...)

Além disso, de acordo com a lei dos EUA concernente a nascimentos no exterior, de "24 de dezembro de 1952 a 13 de novembro de 1986", a fim de registrar o nascimento da criança como um cidadão nato dos EUA à época do nascimento de Obama, ele ou ela deve ser: 1. Nascido de dois cidadãos dos EUA; OU 2. Se somente um dos pais for cidadão dos EUA à época do nascimento, esse pai deve ter residido nos Estados Unidos por pelo menos 10 anos, pelo menos cinco dos quais deve ter sido após a idade de 14 anos.

Uma vez que o pai de Barack Obama não era cidadão dos EUA e a mãe de Obama tinha somente 18 anos de idade à época do nascimento dele, ela não cumpriu as exigências legais de residência nos EUA por pelo menos cinco anos após os 14 anos de idade.

Ou a Constituição vale ou não vale

(...)
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Agora, a pergunta que não quer calar:
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Por que nada disso apareceu no New York Times ou no Jornal Nacional?

Um texto primoroso de João Pereira Coutinho

Quero ser o primeiro a reproduzir na blogosfera o texto de hoje do João Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo. Simplesmente primoroso. Vai ao encontro de muita coisa que tenho escrito aqui sobre o assunto, principalmente sobre o Iraque. Deveria servir de leitura obrigatória para todos os antiamericanos de plantão, que vêem em Bush - e não em Bin Laden ou em Ahmadinejad - a encarnação do demônio. Confiram.
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George Bush não existe
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João Pereira Coutinho
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Eu sou um masoquista. De vez em quando, entro em certas salas de cinema com a certeza absoluta de que irei sofrer horrores. E sofro. Mas sofro com um sorriso nos lábios. Serei normal?
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Oliver Stone é um caso. Nunca, em toda a minha vida, assisti a um filme de Oliver Stone que não fosse medíocre e desonesto. Mas, ano após ano, não desisto: compro o bilhete, entro na sala e sofro, sofro, sofro.
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Esse ano, foi "W", o filme que Stone preparou para se despedir de George W. Bush. E que tem Stone para nos dizer sobre o Belzebu?
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Usando metade do cérebro, Oliver Stone evita o clichê sacramental: apresentar Bush como um pobre ignorante do Texas que pensa e age como um símio. Para desânimo de milhões de idiotas do mundo inteiro que se sentem estupidamente inteligentes porque acreditam que Bush é estupidamente analfabeto, Stone não cai nessa tentação.
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Mas não consegue evitar outra: espalhar a sombra de Bush (pai) sobre Bush (filho). Os mandatos de Bush são reduzidos a um drama freudiano em que George W. Bush apenas pretende o amor de seu pai homônimo.
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A invasão do Iraque, por exemplo, não é o resultado de um pensamento estratégico da administração americana; não é baseada em informação, errada ou parcelar, dos serviços secretos; e jamais é percepcionada como punição pelo fato de Saddam Hussein violar as resoluções da ONU.
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Caçar Saddam é mera vingança: o carniceiro de Bagdá tentara matar Bush (pai). O filho, no papel de Rambo, pretende agora vingar o pai e ser finalmente reconhecido por ele. O Bush de Stone não inspira ódio; inspira pena. Uma amiga minha, feroz anti-bushista, terminou o filme com vontade de abraçar o presidente.
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O filme de Oliver Stone tem uma moral: os anos de Bush ainda não são pensáveis racionalmente. São tema para ignorâncias várias que disputam uma versão do presidente sem reconhecerem a complexidade, e mesmo a ambigüidade, que existe em qualquer estadista.
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Para uns, Bush é a encarnação do demônio. Para outros, o presidente certo em tempos de guerra incertos. Para outros ainda, um pobre de espírito e um ignorante sem perdão.
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Mas o retrato, a poucos dias do fim, não autoriza nenhuma dessas versões. E o tempo acabará por fazer com Bush o que fez igualmente com Truman ou mesmo Nixon: conceder-lhe um lugar, alguns méritos e alguns deméritos.
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Comecemos pelo Iraque. Um erro monstruoso, que alimentou Guantánamo, os escândalos de Abu Ghraib e a emergência do Irã como potência regional a caminho da bomba? Provavelmente, sim.
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Mas a invasão do Iraque, por outro lado, terminou com o reinado de um dos maiores déspotas da história moderna e um patrocinador reconhecido do terrorismo do Oriente Médio. E se a guerra iraquiana parecia perdida há quatro anos, é hoje consensual que o aumento de homens no terreno pacificou o país e pode produzir uma democracia funcional. Não é coisa pouca.
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Como não é coisa pouca o fato de os Estados Unidos não terem sofrido outro 11 de setembro. Isso fez-se com o sacrifício de algumas liberdades civis? Também é verdade, e o próximo presidente deverá reequilibrar a velha equação entre segurança nacional e liberdade individual. Mas Bush entendeu, depois do 11 de setembro, que era necessário desacreditar as ideologias islamitas a que alguns países davam abrigo, como a Arábia Saudita e o Paquistão, hoje irreconhecíveis. E ainda está por escrever a história completa dos operacionais da Al Qaeda que as forças americanas eliminaram. A Al Qaeda de 2008 é uma sombra da Al Qaeda triunfal de 2001.
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O que resta? Resta um déficit gigantesco, a que a crise econômica e financeira dá uma expressão dramática. Inegável. Mas resta também uma ajuda humanitária ao flagelado continente africano sem paralelo na história dos Estados Unidos. O combate à AIDS, por exemplo, contou com US$ 15 bilhões; contra a tuberculose e a malária, com US$ 48 bilhões. E perdoou-se a dívida externa a 19 países africanos, qualquer coisa como US$ 34 bilhões. Estes números não têm comparação com qualquer outro presidente americano, Bill Clinton incluso. Na hora do adeus, África já sente saudades de Bush.
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E o mundo?
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O mundo discute se Bush foi um herói, um vilão, um idiota. Ou, como Oliver Stone, um Édipo invertido, disposto a ganhar o amor do pai pela força das armas contra Saddam. Cautela, gente: Bush não existe como caricatura. E pensar com metade do cérebro não é coisa de pessoas racionais.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Resposta a uma leitora muito tolerante


"E se contar aquela piada de bichinha, eu prendo e arrebento!"


Recebi um comentário muito delicado, de uma conterrânea minha. Trata-se de alguém, como vocês verão, muito tolerante com as opiniões alheias, muito aberta ao diálogo franco e democrático, além de muito civilizada, com uma linguagem bastante elevada. O comentário em questão foi sobre meu texto "A Intolerância dos Intolerantes (ou: o direito de dizer besteira)", publicado aqui em 21 de abril passado. Eis aqui o comentário, o qual transcrevo na íntegra:

Ao me deparar com textos como esse[sem senso algum]eu percebo quantos imbécis existem nesse país.O fato é que vc pode usar esse espaço aqui e falar todas essas besteiras [ sim, porque vc não é homossexual, portanto, não sabe nada, digo e repito, nada sobre a dor e a felicidade de sê-lo]enquanto muitos de nós [ sim, sou homossexual, nordestina, mulher e feminista, e daí?!]não sabemos se voltaremos para nossas casas, pois nesse país, de maioria cristã, somos PERSEGUIDOS [ isso não é posar de vítima é mostrar a realidade, se informe antes de escrever sandices!] não só com palavras, mas com agressões físicas.Não só por estes cristão, mas por muitos outros que acham que estamos violando as leis divinas.Lamento por um colega de profissão [sou graduanda de história pela UFRN] tenha uma postura tão infantil diante de uma realidade tão infame e vergonhosa para nossa humanidade.

Recomendo que vc leia urgentemente Michel Foucault [ História da Sexualidade], Simone de Beauvoir [ Segundo Sexo, já que vc acha as feministas umas "vítimas-posers"].

Luci Araújo

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Pois é... Cada uma que a gente tem que agüentar em nome da liberdade de expressão, não é mesmo? Já estou acostumado com esse tipo de faniquito. Tudo bem dizer que meu texto é "sem noção" (adoro esses neologismos) e me brindar com epítetos carinhosos ("imbécil" - assim mesmo, com acento e tudo!). Também não vejo problema em dizer que uso este espaço para dizer "besteiras" e "sandices" e em lamentar minha postura tão "infantil". Não tenho problema nenhum com isso. Afinal, queira-se ou não, são opiniões também. Nada mais do que isso.

Não peço a ninguém que goste de minhas opiniões, nem que concorde com elas. É do jogo. Peço apenas que não distorçam a realidade nem queiram que eu cale a boca. E é exatamente isso que faz a autora do comentário acima, essa pérola de elegância e de argumentação lógica. A mim, podem xingar à vontade; aos fatos, não.

Comentando as "besteiras" que eu aqui digo, a amável leitora, que vai logo brandindo a sua condição de "homossexual, nordestina, mulher e feminista" (e ainda indaga: "e daí?", como se eu tivesse alguma coisa a dizer, contra ou a favor, sobre alguma dessas condições - com exceção, talvez, do fato de ser feminista, mas isso é assunto para outro post), a amável leitora, dizia eu, usa essa sua condição auto-proclamada para afirmar algum tipo de superioridade cognitiva intrínseca nessa sua "opção" sexual ("vc não é homossexual, portanto, não sabe nada, digo e repito, sobre a dor e a felicidade de sê-lo").

Bom, sobre a felicidade ou não de ser gay, confesso que não sei nada mesmo, e espero que a distinta leitora me perdoe por eu não ter a menor intenção de conhecer esse estado beatífico da natureza humana. Sou hetero, e estou muito feliz assim, obrigado. Logo, segundo o que se depreende do comentário acima, devo pertencer a uma categoria, digamos, menos evoluída, menos avançada da humanidade. Acho, portanto, que vou continuar na ignorância das delícias supostamente associadas a essa "opção", para sua tristeza...

Já quanto à suposta dor de sê-lo, a remetente parece saber bastante, a julgar pela veemência com que descreve os perigos supostamente atribuídos à condição homossexual ("muitos de nós [...] não sabemos se voltaremos para nossas casas, pois neste país, de maioria cristã, somos PERSEGUIDOS", além do mais, "não só com palavras, mas com agressões físicas").

Ao ler o que vai aí em cima, fiquei realmente preocupado, pois acreditei, por um instante, que eu vivia em um país em que não existe Democracia, nem Lei, nem Constituição - a qual, aliás, já pune com a devida sanção penal quem quer que, por qualquer motivo, encha de bolachas um travesti ou um "viadinho", pela única e simples razão de não gostar de homossexuais...

Também me imaginei, por uma fração de segundo, que no país em que eu vivia - o qual tem, diga-se, a maior "Parada do Orgulho Gay" do mundo, e que já virou até programa familiar dominical -, os gays estariam sendo vítimas de um verdadeiro "genocídio", como gostam de dizer, com campos de extermínio dedicados, 24 horas por dia, a transformar seus corpos em fumaça.

Mas aí eu acordei e percebi que o país onde eu estava era o Brasil mesmo, e não o Irã ou a Arábia Saudita. Então respirei aliviado.

Pois é. É justamente num país assim, conhecido pela tolerância com que trata os homossexuais - se têm alguma dúvida, dêem uma olhada nos programas de TV e perguntem quais atores/diretores/produtores NÃO são gays -, que uma minoria organizada de militantes profissionais e seus apoiadores estão enxergando um novo Holocausto homossexual, com neonazistas de cabeça raspada e pastores evangélicos fanáticos armados até os dentes em cada esquina.

E é num país como esse, em que todos - digo e repito: todos (heterossexuais, homossexuais, bissexuais, panssexuais, assexuados etc.) - são IGUAIS perante a Lei, que essa minoria pretende, sob a alegação de combater o preconceito (que existe, não nego), criar uma nova situação jurídica, na forma de uma lei "anti-homofóbica" que, se aprovada, irá institucionalizar o que pretende combater - ou seja: a discriminação, o preconceito, por motivo de opção sexual, apenas com o sinal trocado.

Quem perde com isso? Não o preconceito, certamente. Perde, isso sim, é a liberdade de expressão, sobretudo a liberdade de expressão religiosa (e inclusive a liberdade de os homossexuais expressarem como quiserem sua sexualidade), e a igualdade de todos perante a Lei. Enfim, a própria Democracia, que será tutelada pela censura e pela ditadura do politicamente correto.

Tudo isso, claro, não significa nada para quem escreveu o comentário transcrito acima. Para ela, Democracia e liberdade de expressão só devem existir se for para beneficiar a tribo a que pertence. Quem ousar contestar essa atitude, e lembrar que a Lei é para todos, será rotulado de "homofóbico". A que ponto chegamos.
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P.S.: Ah mais uma coisa: agradeço a sugestão de leitura. Mesmo não tendo Foucault e Beauvoir lá em alta conta em minha biblioteca particular. Faço apenas uma ressalva quanto ao "leia urgentemente". Para ler um livro, minha cara, deve-se ter tudo menos pressa. Ao contrário, deve-se ler com vagar, com calma. Assim, pelo menos, não corremos o risco de sair por aí espumando de raiva e distribuindo impropérios contra quem pensa diferente. A leitura deve ser um antídoto à intolerância, principalmente quando disfarçada de tolerância.

A ATEMPORALIDADE DO HORROR POLÍTICO - RESPOSTA A UMA LEITORA COM UMA GRANDE SENSIBILIDADE ARTÍSTICA



Há quem não veja nenhuma semelhança entre as duas imagens acima...

Aí vem uma leitora, que se assina "Sumaia Villela", e escreve o seguinte reclamando do meu texto - na verdade, da imagem que eu escolhi para ilustrar o texto - de 25 de fevereiro, "Fidel, o discurso isentista e a filosofia dos eunucos morais", em que eu comentava a reação da imprensa brasileira diante da "renúncia" do Coma Andante, depois de 49 anos mandando e desmandandado na ilha-presídio de Cuba:

"Acho que você deveria saber que o autor do quadro que ilustra seu comentário, o Goya, era revolucionário na sua época. Era simpático aos ideais da revolução francesa, que derrubou regimes monarquistas em diversos países e diminuiu seu poder nos que ainda o mantém. Essa imagem é da invasão da Espanha pela França, e, apesar de ser favorável ao lema "liberdade, igualdade e fraternidade", Goya demonstrou com muita propriedade o horror provocado pela guerra e o massacre realizado pelos franceses. Mas, infelizmente, nada tem a ver com seu assunto, e acho desapropriado utilizar uma imagem que reflete outro tempo histórico para ilustrar um assunto contemporâneo.

Não vou tocar aqui nas discordâncias elementares que tenho, só queria enriquecer seu conhecimento, porque é uma obra de arte belíssima, mas que foi utilizada erroneamente, ao meu ver."

Olha, sei que já disse isso antes, mas ô pessoal esquisito esses esquerdistas, viu? Na falta de argumentos para rebater um texto, resolvem implicar com a imagem que o ilustra. Devem se achar críticos de Arte também. Pena que, com isso, só dão com os burros n'água. Demonstram não só sua visão bastante distorcida do que vem a ser Arte, como sua incapacidade de compreender a relação desta com a realidade atual. Não entendem sequer uma associação simples entre imagem e idéia, assim como são incapazes de entender a ironia. Não deve ter sido por acaso que o melhor que produziram, em termos artísticos, foram os monstrengos do "realismo socialista"... Acho que vou precisar inserir a tecla SAP no blog.

O quadro de Goya - Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 - retrata um episódio particular da ocupação francesa na Espanha, durante a Era Napoleônica. Mas não se resume a isso, minha senhora. Como toda obra de arte, ele transcende o espaço físico e histórico em que foi produzido. O quadro é um retrato atemporal do horror político. Não se refere, portanto, a um outro tempo histórico simplesmente, sem qualquer relação com o presente. Do mesmo modo que o Guernica, de Picasso, não se resume a um episódio particular da Guerra Civil Espanhola, mas constitui um símbolo da violência política e da brutalidade fascista, até hoje capaz de nos emocionar e nos fazer pensar. É por isso que os dois quadros são obras-primas.

O que o quadro de Goya demonstra? O horror, a brutalidade de um massacre por uma força de ocupação contra um povo indefeso. Isso não ocorreu apenas na Espanha de então, mas continuou e continua a acontecer, em países como Cuba. Foi por isso que o escolhi para ilustrar meu texto sobre a ditadura dos irmãos Castro, sobre o paredón. Deve ter sido isso que incomodou a autora do comentário. Se o texto fosse sobre a ditadura de Pinochet no Chile, ou sobre Abu Ghraib, será que ela iria querer dar uma aula de História da Arte, dizendo que era "desapropriado" usar tais imagens para ilustrar um assunto contemporâneo?

Para ficar mais claro o que quero dizer, vou colocar, antepostos, o quadro de Goya e uma fotografia do paredón em Cuba. Será que agora a pessoa em questão vai dizer que estou usando imagens "erroneamente"?

O esquerdismo não embota somente a inteligência e a capacidade crítica das pessoas. A sensibilidade estética também.

segunda-feira, novembro 10, 2008

ESQUERDISTAS REACIONÁRIOS

Hitler e Stálin em caricatura de 1939, referente ao "pacto de não-agressão" entre os dois ditadores. A esquerda alia-se a fascistas e terroristas, enquanto chama a todos os outros de "reacionários"


Mahmoud Ahmadinejad mandou uma carta de felicitações a Barack Obama por sua vitória na eleição presidencial americana. Ahmadinejad é o presidente do Irã. O Irã é dominado, desde 1979, por uma teocracia islâmica ferozmente antiocidental e antiamericana, que pune com chibatadas as mulheres que mostrarem os cabelos em público e executa quem desobedece as leis religiosas. O país está há anos desenvolvendo um controvertido programa nuclear. Em seus discursos, Ahmadinejad defende, entre outras coisas, que Israel deve ser varrido do mapa. Obama já anunciou que quer conversar com Ahmadinejad. Este, claro, está feliz com a eleição de Obama. A imprensa do mundo todo, o New York Times à frente, igualmente encantada, saudou o aceno de Obama a Ahmadinejad como uma esperança de paz entre os dois países.
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Na mesma semana em que Ahmadinejad enviou sua saudação a Obama, o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, declarou esperar, ao referir-se às perspectivas das relações entre os EUA e a Rússia, que elas melhorem daqui para a frente, porque Obama é, afinal, "jovem, bonito e bronzeado". A expressão pegou mal. A imprensa italiana e mundial gritou "horror, horror" e acusou Berlusconi pelo que julgou uma imperdoável manifestação de racismo. Só faltou pedirem sua cabeça numa bandeja de prata.
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O clamor que se ergueu por causa da declaração supostamente racista de Berlusconi contrasta abertamente com o silêncio sepulcral da imprensa dita "progressista" do Ocidente em relação às declarações claramente anti-semitas e genocidas de Ahmadinejad sobre Israel, a única democracia do Oriente Médio. É que Berlusconi é um direitista, logo um reacionário. Já Ahmadinejad é um "combatente contra o imperialismo". Ah, bom.

Ahmadinejad prega abertamente a destruição de um país e o extermínio de sua população, propondo nada menos do que a reedição do Holocausto nazista. No entanto, ninguém na imprensa chique e de esquerda parece dar muita bola para isso. Estão mais preocupados com o escorregão verbal de Berlusconi, que foi quase crucificado porque se referiu, de uma maneira considerada politicamente incorreta, à cor da pele de Obama. Em um caso, há claramente a apologia do genocídio; em outro, há no máximo uma expressão infeliz de um político trapalhão. Pergunto: quem é o reacionário, Ahmadinejad ou Berlusconi?

Os esquerdistas do mundo todo estão extasiados com a vitória de Obama. Vêem nele um novo Messias, alguém acima do bem e do mal. Esquerdistas também se acham acima do bem e do mal. Julgam-se imbuídos de uma missão histórica especial, em nome da qual podem subordinar tudo: a ética, a democracia, a lógica. Crêem-se, enfim, o lado bom da humanidade, os heróis do bem, do justo e do belo, defensores de boas causas. Enfim, gente bonita e maravilhosa, tolerante e multicultural, aberta às diferenças - gente, além de tudo, bastante sofisticada, que gosta de jazz... Todos os que não partilham de seu credo, a "direita", não passam de um bando de reacionários e imperialistas, racistas, caipiras, bandidos e canalhas. Assim é também nos EUA, país que, com a eleição de Obama, ficou mais bananeiro, mais caudilhesco e terceiro-mundista, como lembrou Diogo Mainardi.

Essa impressão, que tenho há anos, foi reforçada nas últimas semanas, devido ao êxtase generalizado da oba-obamania. Uns três ou quatro dias atrás, recebi um e-mail de uma pessoa que se declarou confusa diante de um fato da realidade a que poucos prestam atenção. A questão que formulou foi a seguinte: se os conservadores americanos são protecionistas, nativistas e isolacionistas, como são geralmente descritos na mídia, então por que a esquerda americana - que votou em massa em Barack Obama - se opõe à intervenção no Iraque e no Afeganistão? A própria remetente do e-mail admite que a pergunta é meio "idiota". Eu discordo. De idiota, a pergunta não tem nada. Pelo contrário: ela demonstra o nível de empulhação e de vigarice ideológica associado à canonização de Obama, e como isso ajuda a encobrir o reacionarismo da esquerda.

Sim, a esquerda é reacionária. Por que digo isso? Porque os fatos não mentem. Vejam só. Nos EUA, país do livre comércio, quem é mais protecionista: os democratas ou os republicanos? Resposta: os democratas. Se têm alguma dúvida, pesquisem quem, no Congresso dos EUA, votou contra e quem votou a favor da manutenção dos subsídios aos agricultores norte-americanos. Os que torceram por Obama imaginando que ele seria mais aberto ao livre comércio com os países em desenvolvimento terão uma surpresa. Perguntem também qual dos dois candidatos, McCain ou Obama, fez a única referência ao Brasil durante a campanha, defendendo tarifa zero para o etanol brasileiro nos EUA. Vou dar uma dica: não era o candidato da "mudança"...

E quem é mais nativista e isolacionista? Historicamente, seriam os republicanos, a "direita", certo? Também não é bem assim. Pelo menos desde o 11 de setembro, desde que Bush mandou invadir o Afeganistão e o Iraque, como parte de sua estratégia de implantar a democracia à força no Oriente Médio para combater o terrorismo, essa escrita mudou radicalmente. Os republicanos de fato eram conhecidos por se oporem a aventuras externas, desejando limitar-se - isolar-se, é a palavra - à área de influência dos EUA, as Américas. Os democratas, por sua vez, desde o governo de Woodrow Wilson (1913-1921) se notabilizaram pelo que se chamou, depois, de "intervencionismo messiânico", a defesa de uma postura mais assertiva dos EUA, inclusive no campo militar, nas relações internacionais. Foi com base nessa postura intervencionista norte-americana que o país foi às duas guerras mundiais, contra a vontade dos isolacionistas, e foi criada a Liga das Nações, embrião da futura ONU. Pois bem. Com os atentados de 11 de setembro e a ascensão dos "neoconservadores" do Pentágono e da Casa Branca - Wolfowitz, Rumsfeld, Perle, Cheney etc. -, essa divisão entre "isolacionistas" e "intervencionistas" deixou, na prática, de existir. Ou melhor: os opositores da guerra, os "progressistas" americanos, sob o pretexto do "multilateralismo", assumiram inteiramente a atitude isolacionista, colocando-se ao lado de regimes como o do Irã e da Coréia do Norte. Os "falcões" de Bush, por sua vez, tomaram para si o cetro do intervencionismo, e nesse ínterim derrubaram duas ditaduras, levando a democracia para lugares que jamais a tinham conhecido em mais de três mil anos de História. Quem é progressista? Quem é reacionário?

Esse é o grande paradoxo dos tempos modernos: em nome da segurança, a "direita" americana, os Bush e McCain da vida, tomaram a dianteira da luta pela democracia e pelos direitos humanos no mundo. Já a esquerda, os "liberais" e "progressistas", perfilam-se ao lado das forças mais atrasadas e obscurantistas do planeta, justificando o terrorismo islamita e a tirania em países como Cuba e Coréia da Norte. Em outras palavras, defendem em Londres e em Nova York o que não têm coragem de defender em Teerã e Pyongyang. Mais uma vez, pergunto: quem é reacionário, Ahmadinejad ou Sarah Palin?

Já apontei essa contradição antes, mas vale a pena repetir: antes, os EUA eram atacados porque davam apoio a ditaduras. Eram acusados, então, de intervencionistas e anti-democráticos. Agora, os EUA são criticados por derrubar ditaduras. Até hoje não sei se é para criticar os EUA por não terem agido contra ditaduras ou por terem agido para acabar com elas, como fizeram no Iraque e no Afeganistão. Ainda espero que algum filósofo da USP me explique essa estranha dialética.

O mesmo vale para o comércio internacional. Sabe-se que os democratas costumam ser mais protecionistas do que os republicanos. No entanto, a eleição de Obama foi saudada pela esquerda mundial como o começo da redenção para os países menos desenvolvidos. A mesma esquerda dos mesmos países que costumam se queixar do protecionismo das grandes potências bate palmas, porém, para o protecionista francês José Bové, o maior inimigo das exportações brasileiras para a União Européia. Já desisti de cobrar coerência da esquerda há muito tempo. Também já desisti de indagar se, para os esquerdistas, o protecionismo é algo bom ou ruim.

Os esquerdistas, muitos dos quais torceram por Obama, vêem o capitalismo como um problema, não como a solução. Nos últimos dois séculos, o capitalismo retirou milhões de pessoas da miséria e permitiu o surgimento de regimes e sociedades democráticas. O socialismo, onde quer que se tenha instalado, só gerou opressão política e pobreza, agravando-a onde ela já existia e instalando-a onde ela era inexistente. Qual dos dois é progressista? Qual dos dois é reacionário?

Nada disso, claro, importa para os esquerdistas. Afinal, para eles, reacionários são Bush e McCain, não Bin Laden e Fidel Castro. Não surpreende que Ahmadinejad esteja tão contente com a eleição de Obama. Não surpreende que a esquerda tenha visto isso como um bom sinal.
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Se algo é bom para a esquerda, não é bom para a humanidade.

quinta-feira, novembro 06, 2008

VITÓRIA DO RACISMO


"Eu tenho um sonho... de que um dia na América um homem seja julgado por seu caráter, e não pela cor de sua pele" - Martin Luther King

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Se eu não for linchado na rua por uma multidão de esquerdistas furiosos depois deste texto, vou me convencer que vivemos realmente em um país democrático. Mas, se a linguagem não foi inventada para que digamos a verdade ou o que realmente pensamos, então deveria ser desinventada. Vamos lá.

Agora que todos (ou quase todos) choraram e se emocionaram, agora que os comentaristas da Globo ficaram com a voz embargada após repetir, 236 vezes em um único dia, a palavra "histórica" para se referir à vitória de Barack Obama, agora que Arnaldo Jabor deve estar abrindo uma garrafa de champagne pela vitória de seu candidato e pela derrota de McCain e de Sarah Palin, eu digo: a vitória de Obama foi uma vitória do racismo.

Isso mesmo. Você leu certo. Obama ganhou porque os EUA são um país profundamente racista. Infelizmente.

A vitória de Barack Hussein Obama nas eleições presidenciais norte-americanas está sendo apresentada como uma vitória dos direitos civis e da tolerância racial, um fato histórico, o primeiro presidente negro dos EUA etc etc. Beleza. Tal fato seria realmente impensável quarenta anos atrás, e a eleição de Obama, por esse ângulo, é mesmo, vá lá, "histórica". É uma prova de que a democracia americana é mesmo para valer, ao contrário do que se verifica em outras latitudes. Até aí eu concordo. Mas daí a dizer que a eleição não teve nada a ver com fatores de raça, e que seu resultado não decorreu de uma hábil manipulação emocional, e não de qualquer debate racional, em torno desse fator específico - a cor da pele do candidato -, vai uma grande diferença. Obama ganhou, entre outros motivos, porque é negro.

A que se deve o triunfo de Obama? Fundamentalmente, a quatro fatores: 1) a quantidade pantagruélica de dinheiro despejado em sua campanha, que lhe permitiu praticamente monopolizar a atenção da mídia, numa proporção de quatro para um em relação ao candidato adversário; 2) o culto da personalidade criado e explorado em níveis stalinistas em torno de sua figura por uma campanha de marketing eficientíssima e baseada em nada mais do que em palavras vazias e em slogans altissonantes ("change", "yes, we can"), fortes porque não querem dizer rigorosamente nada; 3) a crise financeira mundial; e 4) a chantagem racial.

Foi esse último fator, a meu ver, o fiel da balança da eleição presidencial deste ano nos EUA. Senão, vejamos. Se não foi pelo fator epidérmico, que outro motivo levou Obama à presidência dos EUA? Experiência? Ele não tem. Idéias? São extremamente vagas. Caráter? É no mínimo duvidoso, depois de ter passado a campanha inteira tentando (com a ajuda da grande imprensa) se esquivar de perguntas embaraçosas e se distanciar de figuras ao lado das quais sempre esteve, como Jeremiah Wright e Bill Ayers, e até mesmo de apresentar sua certidão de nascimento num processo judicial. Sobra a cor da pele. E a aura de Messias iluminado que guiará todos à terra onde jorra leite e mel.

Durante toda a campanha, Obama se esquivou do papel de "candidato negro" (ou "afro-americano"), dizendo-se apenas o candidato da "mudança", sem conotações raciais. Mas é inegável que o fato de ser negro pesou em sua campanha. Obama escolheu o dia 28 de agosto - mesmo dia do discurso "I have a dream" de Martin Luther King, em 1963 - para lançar oficialmente sua candidatura a presidente. O clima de endeusamento de sua figura apenas reforçou esse estereótipo racial. Fosse ele branco e de olhos azuis, casado com uma loura com cara de Barbie como a mulher do McCain, dificilmente seu discurso de "mudança" teria o mesmo impacto. Não deixa de ser racismo, mesmo que um racismo com o sinal trocado.

Os negros são 13% da população dos EUA. Foram somente eles que votaram em Obama? Claro que não. A maioria da população americana - branca e protestante - votou nele também. Isso significa que seu voto foi uma demonstração de tolerância e de união de toda a nação, certo? Sim e não. Sim, porque a união em torno de Obama, por um lado, transcendeu as fronteiras raciais. A tese racialista ("vitória dos negros"), assim, cai por terra. Não, porque foi justamente o fato de não ser branco, juntamente com a massiva campanha propagandística que o apresentava como o candidato "da mudança", o que levou muitos americanos brancos "progressistas" a cederem à chantagem racial (Obama era o candidato das minorias oprimidas e dos direitos civis; logo, votar em McCain seria votar no racismo e na Ku-Klux-Klan, escreveu Arnaldo Jabor). Além disso, para muitos, Obama foi eleito não porque é negro, mas porque encarnou o anti-Bush. Foi por isso que muitos brancos, e inclusive muitos republicanos, votaram nele, e não em McCain. Pode-se discutir se o fizeram pelo motivo certo (pessoalmente, acho que não), mas o fato é que, apesar disso, a eleição de Obama deve-se, também, ao fato de ele ser negro.

Negro e "de esquerda", diga-se. Basta lembrar um fato. O governo Bush - sim, Bush - já contava com dois negros proeminentes em seu primeiro escalão. Colin Powell e Condoleeza Rice - negra e mulher - exerceram o mesmo cargo, de secretário de Estado, o segundo na hierarquia da República mais poderosa do planeta. E nem por isso se viu nada semelhante, em grau de histeria, ao que se tem visto desde que foi anunciada a vitória de Barack Obama. Pelo menos não me lembro de se ter repetido na imprensa americana e mundial, até enjoar, loas ao "primeiro secretário ou secretária de Estado negro" da história americana etc. Isso se deve, claro, ao fato de a presidência ser um cargo muito mais importante, e carregar um simbolismo muito maior. Mas só em parte. O fato de Obama se apresentar como o anti-Bush e anti-republicano por excelência, é óbvio, fez aqui toda a diferença. Foi por isso que ele foi apoiado, entre outros, por Louis Farrakhan, Hugo Chávez e Ahmadinejad. Ao fator racial deve-se somar o fator ideológico.

Escolhi como epígrafe a este texto a célebre frase de Martin Luther King, que se tornou uma espécie de mantra do movimento pelos direitos civis nos EUA nos anos 60. Ela resume exatamente o que eu quero dizer. Desde que foi eleito, Obama está sendo ligado constantemente à figura de Luther King, e a essas palavras em particular. Pois a frase do líder negro assassinado em 68 significa exatamente o contrário do que representa Obama. Ele não foi eleito por seu caráter, nem por suas idéias, mas pela cor de sua pele. Martin Luther King deve estar se revirando no túmulo.