sábado, janeiro 10, 2009

Ainda o conflito em Gaza - sobre bombardeios massivos e ações pontuais

Escreve uma leitora que se assina "Ana", aparentemente indignada com meu texto "Duas Perguntas Inconvenientes sobre o Conflito em Gaza", que aqui publiquei em 5 de janeiro:
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Nossa Gustavo!
Está na hora de você rever os seus conceitos.
Ninguém defende o Hamas ou os seus métodos. Mas uma coisa é uma ação pontual contra uma facção terrorista e outra coisa é o bombardeio massivo contra uma região onde há milhares de civis.
Basta você contar o número de baixas (incluíndo mulheres e crianças) no lado palestino e o número de baixas de Israel. Sabia que até a ONU, inútil por sinal (fugiu completamente dos propósitos aos quais foi criada), já processou vários relatos feitos pelo pessoal da Cruz Vermelha que levariam Israel a ser condenado por crime de guerra?
Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009 18h16min00s BRT
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Confesso que sempre desconfiei de textos que começam com a frase "está na hora de você rever seus conceitos" ou coisa que o valha. Esse tipo de afirmação deveria vir ao final da argumentação, não antes, como uma conclusão, e não como intróito. Dá a impressão de que a pessoa não está muito disposta a apresentar fatos e argumentos, e se baseia, em vez disso, numa frase-clichê. Acredito que seja exatamente esse o caso.
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A primeira divergência que tenho com a leitora diz respeito à seguinte frase: "Ninguém defende o Hamas ou os seus métodos". Há gente que defende isso sim, cara leitora! Se não acredita em mim, veja o que estão dizendo em outros blogues por aí, a maioria de esquerda (mas há sociopatas de ultra-direita também, vide os fascistas). Estes adorariam ver o Hamas cumprir sua promessa de riscar Israel do mapa e afogar sua população num mar de sangue. Claro, a maioria não diz isso abertamente, com todas as letras, mas nem por isso deixa de torcer pelos islamofascistas. Aqueles que se enchem de indignação contra a ação militar israelense, tachando-a de "reação desproporcional", ao mesmo tempo em que fecham os olhos para o caráter TERRORISTA e GENOCIDA do Hamas, acreditando, ingenuamente ou de má fé, que é possível negociar com quem não reconhece o direito de Israel existir, certamente estão torcendo por um lado no conflito - e não é o lado de Israel.
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Concordo inteiramente com você, Ana, quando diz que uma coisa é uma ação pontual contra uma facção terrorista, outra é o bombardeio massivo contra uma região cheia de civis. Porque é exatamente isso - uma ação pontual e seletiva contra o Hamas, não contra a população palestina como um todo - o que as forças de defesa de Israel estão fazendo em Gaza neste exato momento. Acha que eu estou mentindo? Então vejamos os números. Em duas semanas de intensos combates, morreram até o momento cerca de 700 palestinos. A maioria, cerca de 500 - são dados do próprio Hamas - eram terroristas dessa facção genocida. Isso em quase quinze dias de bombardeios, e numa região, a Faixa de Gaza, com 40 quilômetros de extensão por 10 de largura e 1,5 milhão de habitantes, a mais densamente povoada do mundo. Não sei não, mas isso não me parece um "bombardeio massivo" (ou "indiscriminado", como li num artigo um dia desses) contra uma população indefesa. Pelo contrário: parece-me uma ação dirigida seletivamente para destruir o Hamas, no que está sendo bem-sucedida.
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Ainda assim, o.k., você poderia lembrar que cerca de 200 pessoas, inclusive muitas crianças, foram mortas até agora pelas bombas e tiros israelenses. Eu respondo lembrando algo que a quase totalidade da mídia vem ignorando desde que o conflito começou: a prática cínica do Hamas de utilizar a própria população civil palestina como reféns e escudos humanos. A idéia é exatamente provocar o maior dano possível à própria população, expondo-a de propósito às bombas e mísseis israelenses. Isso é vantajoso para o Hamas por vários motivos. Primeiro, para fanáticos desse tipo, a carne das crianças palestinas é artigo barato, e pode render bons dividendos na guerra da propaganda. Segundo, nesse trabalho sujo de manipulação de imagens e de sangue, eles podem contar com uma imprensa inclinada a enxergar Israel como algoz, e não como vítima de uma agressão, o que de fato é. Essa guerra, a da desinformação, infelizmente o Hamas está vencendo. É por esses motivos, cara Ana, que as baixas são tão diferentes de um lado e de outro.
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A ação militar israelense em Gaza, portanto, não tem nada de "massiva" ou "indiscriminada", como são, aí sim, os ataques do Hamas ou do Hezbollah. Daí porque toda a discussão sobre esse aspecto do conflito é irrelevante. Até porque Israel já praticou ações seletivas antes, eliminando líderes individuais do terrorismo palestino - o atual Ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, participou diretamente de uma dessas ações contra líderes da OLP no Líbano, em 1973, episódio mostrado no filme Munique, de Steven Spielberg - e tais ações foram condenadas da mesma maneira. Não faz a menor diferença. A verdadeira questão está resumida nas duas perguntas que faço em meu texto: 1) Israel tem ou não o direito de existir? e 2) tem ou não o direito de se defender? Sem responder a essas duas perguntas fundamentais, nenhum debate racional é possível.
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Quanto a ONU, concordo novamente com você, Ana, pois essa organização realmente fugiu totalmente dos fins para os quais foi criada, sendo hoje um misto de ONG global e de clube de ditadores. Para esses, aliás, ela está longe de ser inútil: é, pelo contrário, um importante instrumento para a defesa de regimes ditatoriais e genocidas, e uma tribuna para todo tipo de ataque contra Israel e os EUA. Basta lembrar como a ONU se opõs à uma ação militar contra Saddam Hussein no Iraque. A mesma organização que exige um cessar-fogo de Israel e que acolhe denúncias de crimes de guerra contra as tropas israelenses se nega a tomar qualquer medida concreta contra os genocidas do Hamas e se omite de forma vergonhosa em casos como o de Darfur, onde já morreram mais de 300 mil pessoas. Será porque os cadáveres do Sudão valem menos do que os palestinos? Nessas circunstâncias, não me surpreenderia nem um pouco se o Hamas estiver utilizando instalações da ONU na Faixa de Gaza para lançar seus mísseis contra Israel. Diante disso, pergunto: Israel deveria abdicar do uso da força para se proteger, e passar a depender, em vez disso, dos bons serviços da ONU?
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Enfim, espero ter ajudado você a "rever seus conceitos". Os meus continuam inalterados. Pelo menos até que me convençam, com fatos e argumentos sólidos, que, entre uma democracia sitiada e um bando de fanáticos terroristas que querem destruí-la e massacrar sua população, eu deveria me colocar ao lado desses últimos e negar à primeira o direito de se proteger.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

A IDEOLOGIA GAGÁ DE NIEMEYER



Vamos rir um pouquinho? Depois de tantos dias de intensa propaganda antiisraelense na mídia, em que fomos bombardeados com todo tipo de crítica ao "massacre" das forças israelenses contra os palestinos enquanto quase não se fez menção ao caráter terrorista-genocida do Hamas e à maneira cínica como utiliza as crianças palestinas como escudos humanos, sem falar nas declarações bucéfalas de Marco Aurélio Garcia sobre o conflito em Gaza, acho que é hora de desopilar o fígado.

Oscar Niemeyer publicou um texto hoje, dia 9, na Folha de S. Paulo. O que diz o nosso gênio oficial? Ele fala de um livro, "uma obra fantástica do historiador inglês Simon Sebag Montefiore, sobre a juventude de Stálin, que tem alcançado enorme sucesso na Europa, reabilitando a figura do grande líder soviético, tão deturpada e injustamente combatida pelo mundo capitalista".

O venerável Oscar vai mais além. Ao analisar a obra que supostamente leu, ele enaltece "a figura de Stálin ainda muito jovem, sua paixão pela leitura, o seu interesse nos problemas da cultura, das artes e da filosofia, sempre a cantar e a dançar alegremente com seus amigos".

Há mais:

"E o livro relata as prisões sucessivas que ocorreram em plena juventude, as torturas que presenciou, enfim, tudo que marcou a sua atuação heroica na luta contra o capitalismo".

E mais (quando Niemeyer se refere ao autor do livro):

"É bom lembrar que não se trata de autor de esquerda, mas de alguém que, pondo de lado suas posições político-ideológicas, soube interpretar uma juventude diferente, marcada pela inquietação cultural, que levou Stálin à posição de revolucionário e líder supremo da resistência contra o nazismo".

O livro que Niemeyer menciona com tanto entusiasmo e que diz ter emprestado a um amigo seu é O Jovem Stálin, de Simon Sebag Montefiore. Até aí, tudo bem. Acontece que o livro não reabilita Stálin coisa nenhuma. Pelo contrário: trata-se de um compêndio, fartamente documentado, de atrocidades, crimes e loucuras cometidas pelo futuro ditador soviético. Traz, inclusive, revelações surpreendentes, como sua verdadeira data de nascimento e seu papel como líder de uma gangue terrorista orientada por Lênin no Cáucaso antes da Revolução de 1917. Não por acaso, o livro começa com uma descrição bastante gráfica de um assalto a banco comandado por Stálin ("Sossó" ou "Koba"), em que morreram cerca de cinqüenta pessoas. Como eu sei disso? Simples: eu li o livro.

O autor do livro-denúncia que Niemeyer transformou em louvação a seu ídolo-deus Stálin, Simon Sebag Montefiore, escreveu ainda outro livro, Stálin - A Corte do Czar Vermelho, em que demole por completo qualquer resquício que ainda pudesse existir de culto da personalidade do tirano soviético e de sua camarilha, mostrando, com base em documentos recentemente publicados, o que eles realmente foram: uma gangue de assassinos, dedicada 24 horas por dia a matar, torturar e exterminar qualquer um que passasse por inimigo - inclusive entre eles mesmos. Há, inclusive, revelações interessantes de como Stálin via com bons olhos outro ditador da época - Hitler - e de como os dois genocidas foram, na prática, aliados durante um período e desfecharam juntos a Segunda Guerra Mundial. Como eu sei disso? Simples também: fiz aquilo que Niemeyer não fez - eu li o livro.

O artigo de Niemeyer é uma das coisas mais engraçadas que eu li nos últimos tempos. Não resisti a tanta sabedoria e mandei uma cópia do artigo para um amigo meu que, por acaso, está lendo o livro. Até agora, não consegui parar de rir.

O fato de desconhecer totalmente o assunto de que fala, a ponto de escrever um artigo de jornal elogiando um livro que obviamente não leu, como se fosse um panegírico, e não uma crítica demolidora, a um personagem que admira, deveria ser o suficiente para desmoralizar o grande arquiteto para sempre. Mas a senilidade ideológica de Niemeyer vai mais além. No final do texto, ao afirmar que mandou uma cópia a um seu amigo editor, nosso gênio relata que este, muito animado, disse-lhe que "esse vai ser um dos livros que com o maior interesse irá publicar". Não sei se Niemeyer emprestou a seu amigo uma cópia francesa ou inglesa do referido livro, pois o mesmo já é facilmente encontrado em qualquer livraria brasileira há mais de um ano, em excelente tradução, em uma edição da Companhia das Letras.

Eu já sabia que Niemeyer era um gênio da arquitetura, e já sabia que era um comunista e admirador de Stálin. Sabia também que ele é visto como uma espécie de totem inatacável, um verdadeiro semideus. Só não sabia ainda que ele era autor de textos cômicos. Um verdadeiro humorista, o velho Niemeyer.

Algumas almas piedosas ou excessivamente indulgentes poderiam dizer que estou sendo duro demais com um ancião de 101 anos, que esse tropeço do grande arquiteto se deve à sua idade avançada, e que, diante disso, é até covardia zombar do bom velhinho. Seria, certamente, se não fosse um detalhe: Niemeyer já repetia essas sandices quando tinha 30 ou 40 anos. Seu descompasso com a realidade não é, portanto, de hoje. A senilidade de Niemeyer não é de idade: é ideológica. Na verdade, ele é a prova viva de que nem sempre a idade traz sabedoria. Pelo contrário: em alguns casos, pode-se ficar ainda mais burro com o passar dos anos. Se você for stalinista, então, a probabilidade de piorar com o tempo é bem maior.

Ah, sabem qual o título do texto de Niemeyer? "Quando a verdade se impõe". Pois é. Nessas horas eu me lembro da frase do Paulo Francis: "Se você quiser ver um comunista se desmoralizar, basta deixá-lo falar".

Stálin foi um tirano sanguinário que deixou atrás de si um rastro de opressão e morte, contabilizando cerca de 30 milhões de mortos, dos mais de 100 milhões que o comunismo produziu no século XX. Sob sua ditadura, milhões foram torturados até a morte, e as artes e a cultura se tornaram um apêndice do Partido Comunista. E isso tudo ele fez com seus amigos, a cantar e a dançar alegremente, como diz Niemeyer.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

MEIO SÉCULO DE MENTIRAS

Imagine que, há 50 anos, seu país foi tomado de assalto por um amplo movimento revolucionário que derrubou um ditador odiado e corrupto. Com o apoio da opinião pública, tanto nacional como internacional, e inclusive dos EUA e da CIA, esse movimento, encabeçado por um líder carismático, prometeu restaurar a democracia no país e convocar eleições livres. Em poucos meses, porém, as promessas democráticas deram lugar à implantação de uma ditadura pessoal, muitíssimo pior do que a anterior. Milhares de pessoas - entre as quais muitos que apoiaram a revolução e lutaram contra a ditadura - são presas, centenas fuziladas, e cerca de 20% da população do país parte para o exílio, fugindo da opressão e da penúria. O novo ditador, falando em nome do povo, trai todos os compromissos democráticos pelos quais lutara, e se instala definitivamente no poder, aliando-se a uma potência estrangeira e extracontinental, o que quase provoca uma guerra nuclear. Para se manter no poder, o ditador em questão tenta durante anos incendiar o continente, patrocinando vários grupos e movimentos terroristas em outros países, muitos dos quais contra governos democraticamente constituídos.

Cinqüenta anos depois, o país, que antes fora próspero e relativamente desenvolvido, permanece na mesma situação política; agora, porém, é uma ruína, ostentando alguns dos piores índices econômicos do continente. Toda a imprensa é censurada pelo Estado. As eleições são uma farsa, com partido único no poder, e sem possibilidade de alternância. Em mais de 50 anos, o país não avançou um milímetro em direção à democracia. Não há liberdade de expressão, e os cidadãos estão probidos de saírem do país quando quiserem. Um dia, o supremo ditador, que permanece no poder, ininterruptamente, por mais de quatro décadas, cai doente, e é sucedido por seu irmão, tão ou mais tirânico do que ele. À parte algumas mudanças cosméticas, saudadas por algumas almas excessivamente ingênuas ou otimistas como um sinal de "democratização" do país - seus cidadãos, há alguns meses, já podem ter celular e comprar computadores, mas sem acesso à internet -, não há nenhuma mudança política significativa à vista.

O leitor atento já deve ter percebido de que país e de qual ditadura estou falando. Agora, faça uma experiência. Feche os olhos e imagine, por um instante, que o país em questão é o Brasil.
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Depois de ter vislumbrado, mesmo por um segundo, esse pesadelo, fica mais fácil compreender o que quero dizer. O país em questão, qualquer um com um mínimo conhecimento de História já deve ter percebido, é Cuba.
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Há exatos cinqüenta anos, no dia de hoje, 8 de janeiro, as forças de Fidel Castro entraram triunfalmente em Havana, após o ditador Fulgencio Batista ter fugido da ilha, em 1 de janeiro. Começava, aí, em meio a uma onda de esperança democrática, a ditadura mais feroz e longeva da história da América Latina. Ditadura essa que sobrevive, paradoxalmente, graças ao apoio que lhe é prestado, de forma incondicional, por muitos governos ditos democráticos, como o de Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda hoje, mesmo com a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, há quem defenda a tirania cubana, um regime totalitário, e fale em democracia.
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Na verdade, é difícil até mesmo dizer o que exatamente o regime cubano celebra nesse começo de 2009. Oficialmente, é o cinqüentenário da Revolução Cubana. Mas isso é complicado de dizer, porque não há uma, mas duas revoluções cubanas, como houve duas revoluções russas. A primeira revolução russa, quem conhece História sabe, foi a revolução de fevereiro de 1917, democrático-liberal, que resultou na queda do czarismo. A segunda revolução, a de outubro, foi o golpe de estado bolchevique, arquitetado por Lênin e Trotsky. Os bolcheviques a fizeram prometendo a liberdade e a convocação de uma Assembléia Constituinte: três meses depois, em janeiro de 1918, eles dissolveram a dita Constituinte, e instauraram em seu lugar a ditadura do partido comunista. O que se seguiu foram setenta anos de opressão. Em Cuba, ocorreu algo semelhante. Fidel e seu irmão Raúl tomaram o poder numa revolução, a de janeiro, e fizeram outra, a própria, dando um golpe de Estado. Dois anos depois da primeira revolução, em que a população saiu às ruas para comemorar a fuga de Batista, o domínio da dinastia Castro já estava estabelecido: em 16 de abril de 1961, Fidel proclamava em discurso que a Revolução Cubana era "socialista"; em 2 de dezembro, afirmou, perante milhares de pessoas: "sou marxista-leninista e o serei até morrer".
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Cuba é, de fato, um cancro no panorama político das Américas, a única ditadura totalitária da História do continente. Mesmo assim, não há tirania mais louvada, mais elogiada e paparicada. Muitos que dizem discordar do regime político elogiam os supostos avanços do regime cubano em áreas como a saúde, mas se esquecem de comentar casos como o da médica cubana Hilda Molina, proibida de sair de Cuba desde que ousou criticar a política sanitária da ditadura castrista, que privilegia o atendimento aos turistas e visitantes estrangeiros (como Michael Moore), em vez da população cubana, cada vez mais à míngua. Fala-se também que em Cuba não há analfabetismo e que todas as crianças cubanas estão na escola, mas se esquece de dizer que a doutrinação ideológica é uma característica indelével do sistema educacional cubano - como é, aliás, em qualquer sistema totalitário. Ainda há os que tentam justificar a opressão castrista lembrando o embargo comercial norte-americano (que chamam, ignorantemente ou de má fé, de "bloqueio") - como se alguém fosse ditador por vontade alheia. Além disso, esquece-se que Cuba já apresentava índices respeitáveis nessas duas áreas, saúde e educação, antes da chegada dos irmãos Castro ao poder.
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No mês passado, o sucessor de Fidel, Raúl Castro, visitou o Brasil. Na ocasião, na Costa do Sauípe, na Bahia, o governo brasileiro conseguiu a entrada de Cuba no Grupo do Rio, sem pedir absolutamente nada em troca. Não se falou em presos políticos (presos de consciência, 23 dos quais, jornalistas), nem em dissidentes (tratados, invariavelmente, como "mercenários"), nem de liberdade de expressão, nem de direitos humanos, nem de democracia, nem de eleições livres e plurais. Nada. Mas houve quem repetisse na imprensa o discurso oficial de que o Brasil marcou, com a reunião, um importante ponto a seu favor, pois estaria se tornando um líder regional, assumindo um papel protagônico na América Latina, sem a "tutela" de ninguém etc. etc. Bobagem. Se a reunião da Costa do Sauípe demonstrou alguma coisa, de forma clara e sem ambigüidades, é que o Brasil está se tornando líder sim, mas da torcida pró-ditadores da região. Uma vergonha.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

A SUPERIORIDADE MORAL DE ISRAEL

O bombardeio de uma escola palestina administrada pela ONU na Faixa de Gaza por tropas israelenses, que deixou, segundo dizem, cerca de 40 mortos no dia de ontem, é chocante por vários motivos. O primeiro é o mais óbvio: as cenas de crianças mortas, seja por que causa for, causam choque e indignação até no mais frio dos mortais. O segundo motivo - e aqui está, a meu ver, a maior fonte de indignação - é a escandalosa e abjeta exploração desse e de outros episódios terríveis para fins de propaganda antiisraelense pelos fanáticos terroristas do Hamas, os maiores responsáveis por essa tragédia.
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Sim, não é Israel, nem os EUA, nem a grande conspiração sionista mundial o culpado pela morte de 40 inocentes. Se alguém deve ser responsabilzado pela catástrofe que tomou conta de Gaza, e inclusive pela matança de crianças, é o Hamas. Não custa repetir: o Hamas, em sua luta pela destruição de Israel e pelo extermínio de sua população - o que inclui, obviamente, as crianças israelenses - não tem nenhum pudor em sacrificar sua própria população como carne barata para alcançar seus objetivos genocidas. As Forças de Defesa de Israel afirmam que a escola atingida abrigava uma célula terrorista e que de lá partiram foguetes contra Israel, e têm os vídeos para mostrar. O Hamas, claro, nega, e parte da opinião pública, intoxicada pela propaganda anti-Israel e pelo pacifismo leso, assina embaixo. Da minha parte, acredito no que diz Israel. O Hamas é capaz de coisa pior. Cada criança palestina morta, cada civil palestino mutilado na Faixa de Gaza, é uma vitória para o Hamas.
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"Mas onde estão as crianças mortas do lado israelense?", perguntam as boas almas pacifistas, como se o fato de o Hamas não ter, até o momento, feito crianças israelenses em pedaços fosse um claro sinal da "injustiça" da situação (talvez se o Hamas começar a explodir criancinhas em atentados suicidas em Tel-Aviv eles dirão que isso é ético e justo). Esses arautos da proporcionalidade entre terroristas e quem os combate não se dão conta de que estão fazendo o jogo dos maiores inimigos da paz e da humanidade. Ontem mesmo fizeram essa pergunta - "por que não morrem crianças do lado israelense?" - ao Presidente de Israel, Shimon Peres, Prêmio Nobel da Paz. Sua resposta foi demolidora: sim, não houve, até o momento, crianças mortas do lado israelense, ao contrário do que se tem verificado do lado palestino. E o que isso mostra? Que os israelenses, ao contrário do Hamas, cuidam bem de suas crianças. Não as expõem propositalmente ao fogo inimigo, nem celebram suas mortes como troféus de propaganda, por exemplo.

A morte de uma criança é sempre uma tragédia. Significa um crime contra o próprio futuro. É difícil conceber algo mais lastimável e repulsivo. Por isso é tão repugnante ver terroristas e genocidas explorando desavergonhadamente a dor e o sofrimento de famílias inocentes para daí tirar proveito na guerra de propaganda. Não há canalhice mais abjeta.

Ainda assim, a multidão de idiotas úteis e pombas lesas do pacifismo, para quem Israel é o lado agressor, insiste no mantra de que a reação israelense é "desproporcional" (nos meios, talvez; nos fins, de maneira alguma), e que a ofensiva em Gaza é um "crime de guerra". Nesse caso, deveriam responder as seguintes perguntas:
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- Quem é a favor e quem é contra a solução de dois Estados para a região - um israelense, outro palestino? Israel ou o Hamas?
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- Quem violou sistematicamente a trégua entre os dois lados, atirando foguetes sobre o outro lado da fronteira?
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- Quem ataca civis, INTENCIONALMENTE, esperando provocar o maior número de mortes do outro lado, e quem, na busca pelos responsáveis por tais atos terroristas, mata civis de forma não-intencional?
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- Quem está usando civis - inclusive crianças - como escudos humanos, um crime de guerra?
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Desafio qualquer um a responder a essas perguntas, e depois negar que, do ponto de vista ético, Israel é superior ao Hamas. Mesmo assim, sempre haverá alguém que fará a pergunta: qual a diferença entre Israel e seus inimigos? A resposta é: os israelenses têm escrúpulos.
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Que a realidade se mostre invertida a tantos que se dizem inteligentes e racionais, a ponto de tomarem agredidos por agressores e negarem o direito de um povo sitiado de se defender de quem jurou riscá-lo do mapa, é algo que desafia a compreensão mais elementar.
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Como li um dia desses, a ignorância tem cura. A estupidez, não.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Sobre as regras do blog - um recado à Al-Qaeda eletrônica

Não tem jeito. Mesmo eu já tendo escrito o que segue, algumas mentes são como sacos sem fundo: é preciso repetir, repetir, repetir sempre, para que alguns cérebros entendam que vivem em sociedade e que há regras a serem cumpridas. Regras de educação, de etiqueta, de convivência, de civilidade. Sem falar nas de gramática.
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Refiro-me, claro, aos militontos da Al-Qaeda eletrônica, essas criaturas folclóricas que gostam de gastar seu ócio vomitando ofensas na internet, invariavelmente sem apresentar nenhum argumento nem acrescentar nada ao debate. Vez ou outra uma dessas alimárias emporcalha minha caixa de entrada com seus zurros e bramidos. Não raro, gostam de deixar mensagens com palavrões, muitas vezes a única linguagem que conhecem (já percebi que possuem especial fixação freudiana por uma parte específica da anatomia, situada entre a última vértebra e a parte superior traseira das coxas, provavelmente o resultado de alguma experiência traumática na infância). Para esses mestres na arte de se desmoralizarem, repito aqui as regras de postagem do blog:
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- Tentem apresentar argumentos, não grunhidos;

- Procurem ser claros e objetivos;

- Respeitem a língua portuguesa;

- Se possível, usem linguagem educada, pelo menos acima do nível da sarjeta;

- Mensagens com ofensas pessoais serão ignoradas.

Essas poucas regras não são para mim, são para os que lêem o blog. É em respeito a eles, mais do que a minha pessoa, que elas existem.

Já disse aqui que não tenho nada contra o palavrão. Também não tenho nada contra o insulto. O insulto, quando bem elaborado, isto é, quando acompanhado de fatos inegáveis e de uma argumentação consistente, é algo aceitável, admirável até. Mas não é esse o caso dos que me escrevem tentando avacalhar. Por mim, podem me insultar à vontade. Só não queiram que eu publique aqui essa porcaria. Há milhões de outros blogs cujos donos ficariam muito felizes em divulgar esse tipo de lixo. Eu não. Até por caridade e compaixão com quem perde seu tempo usando a web para extravasar seus recalques e tentar aparecer. Liberdade de expressão não é (ou não deveria ser) sinônimo de burrice.

Ah, acharam essa minha atitude "autoritária"? Pois é mesmo. O blog é meu, e sou eu, e mais ninguém, quem escolhe o que merece ser publicado e o que vai para a lixeira.

Entenderam? Agora, podem voltar a comer alfafa.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

DUAS PERGUNTAS INCONVENIENTES SOBRE O CONFLITO EM GAZA

Militantes islamitas carregam cartaz com a frase "Deus abençoe Hitler":
mera coincidência?


Agora que a quase totalidade da imprensa de todos os países já elegeu Israel como o inimigo número um da paz e da humanidade e o lado agressor no conflito que ora ensangrenta a Faixa de Gaza, e que a opinião pública mundial já se deixou engabelar pela propaganda pró-Hamas e pró-terrorismo islamita, creio que é hora de fazer aqui duas perguntas absolutamente essenciais:
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- Israel tem ou não o direito à existência?

- Se sim, tem ou não o direito de se defender dos que querem destruí-lo?

As duas questões, como qualquer pessoa razoavelmente inteligente poderá facilmente perceber, estão intimamente relacionadas, são inseparáveis: não se pode concordar com uma sem concordar, necessariamente e de forma infalível, com a outra. Se você respondeu "Sim" a qualquer uma delas, você está do lado da civilização contra a barbárie, da humanidade contra o terror. Se você respondeu "Não", então você está do lado do Hamas. Responder a essas duas questões é o primeiro passo para qualquer discussão que se queira ter sobre o conflito árabe-israelense e a questão palestina. O resto é conversa pra boi dormir.

Sei, o mantra da vez é repetir que a ação militar israelense é uma "reação desproporcional" aos ataques do Hamas com foguetes contra assentamentos israelenses. Isso já se tornou um verdadeiro dogma. E, como todo dogma, traz em si uma forte dose de mentira e empulhação. Do ponto de vista estritamente militar, a guerra é, vá lá, desproporcional. Afinal, pode-se argumentar, os israelenses têm tanques, caças modernos e helicópteros, enquanto o Hamas tem seus foguetes caseiros, mísseis Katiuscha e homens-bomba. Aliás, que ótimo que seja assim! Se, mesmo com essa desproporção de meios, o Hamas já tenha derramado tanto sangue israelense, imaginem o que seus militantes fariam se tivessem a mesma força militar que Israel... Mas voltemos à questão principal. O que importa aqui é que, do ponto de vista dos objetivos pelos quais se está lutando, nota-se que a desproporcionalidade está, isso sim, não do lado dos israelenses, mas dos inimigos de Israel.
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Para que a reação israelense fosse realmente desproporcional, os tanques e aviões deveriam estar reduzindo a cinzas, nesse momento, não a infra-estrutura do Hamas em Gaza, mas TODA a população palestina da região e da Cisjordânia, e os soldados israelenses deveriam estar eliminando intencionalmente - como faz o Hamas em seus atentados - todo e qualquer cidadão palestino que passasse à sua frente. Ou melhor: isso seria não desproporcional, mas proporcional ao que o Hamas e o Hezbollah querem fazer com a população de Israel. Em outras palavras, não seriam 500 pessoas - a maioria, os próprios terroristas admitem, militantes do Hamas - em dez dias de combates, mas a totalidade da população palestina - mais de um milhão de pessoas, só em Gaza - que estaria morta a essa altura.

"Mas, ao bombardear a Faixa de Gaza, os israelenses estão se equiparando aos terroristas do Hamas". De maneira alguma essa afirmação é verdadeira. Primeiro porque, como escrevi no parágrafo anterior, Israel quer destruir o Hamas, e não o povo palestino. Ao contrário do Hamas, que não faz distinção, em seus atentados, entre civis e militares israelenses. Ou melhor: faz sim, distinção, pois visa, propositalmente, aos civis em seus ataques insidiosos. Segundo, e isso deriva diretamente da afirmação anterior, não existe equivalência moral entre a violência terrorista e a violência de quem a combate. Pois não há equivalência moral possível entre Auschwitz e o bombardeio de Dresden. Na verdade, sob o pretexto de criticar uma resposta desproporcional ao terrorismo, o que os advogados da tese da "equivalência moral" defendem é... resposta nenhuma. Para essas pessoas, a única reação de Israel aos foguetes e atentados do Hamas deveria ser... não fazer nada. Com isso, dizem ainda, afetando um suposto realismo político, pelo menos não estariam "estimulando" o surgimento de mais terroristas... Como se a única resposta aceitável aos terroristas fosse ignorá-los por completo e deixá-los agir livre e impunemente. O suicidio não é uma opção.
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Mas e as crianças mortas? E os civis indefesos? Não são vítimas inocentes dessa guerra estúpida? Evidentemente que sim. São as maiores vítimas, e deve-se lamentá-las e chorá-las com toda a dor. A morte de qualquer pessoa diminui a humanidade, nunca é demais dizê-lo. Daí porque, infelizmente, a ação de Israel é tão necessária e justa. Como, necessária e justa? Então, é justo e ético matar crianças? Não! Nunca! Justo e ético é, isso sim, perseguir e neutralizar quem se aproveita do sofrimento alheio, de civis inocentes, para fins de propaganda. Utilizando-os como escudos humanos, por exemplo, e depois adorando seus cadáveres como se fossem troféus de luta. Na verdade, canalhas desse tipo não estão chorando esses mortos; estão, isso sim, comemorando mais úma vitória na guerra de propaganda, que estão vencendo, com o apoio da mídia anti-Israel e anti-EUA.

Um argumento cínico não deixa de sê-lo porque é repetido por tolos. Hipócritas e pervertidos morais tentam convencer a todos de que a ação militar israelense em Gaza é injusta e imoral, e nisso recebem a adesão de ingênuos e inocentes úteis, os quais, empunhando a bandeira e os slogans pacifistas, nunca faltam nessas horas. Na verdade, não têm a coragem de dizer abertamente, como faz Ahmadinejad, que Israel deveria ser varrido do mapa, e se refugiam em chavões pseudo-humanistas.
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Muitos dos que se comovem até as lágrimas com as cenas de crianças palestinas mortas em bombardeios israelenses são os mesmos que não mexem um músculo do rosto com as crianças, velhos, mulheres e jovens israelenses trucidados e mutilados em atentados terroristas do mesmo Hamas ou do Hezbollah. Muitos desses, quando condenam a "reação desproporcional" israelense, estão, na verdade, lamentando que o Hamas ou o Irã não tenham - ainda - a capacidade militar de transformar Israel num monte de escombros e sua população numa pilha de cadáveres. Esses mesmos piedosos humanistas não derramariam uma lágrima caso Israel fosse varrido do mapa, e toda a sua população exterminada. Aliás, chorariam sim, mas de alegria.
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Vamos lembrar: o Hamas foi fundado em 1987 com a intenção deliberada de destruir Israel, cujo direito à existência - o que inclui a sua população - se nega intransigentemente a reconhecer. Após inúmeros atentados terroristas contra alvos israelenses - civis, principalmente -, chegou ao poder na Faixa de Gaza após vencer as eleições legislativas de janeiro de 2006. Três meses depois, tomou o restante do poder à bala do grupo palestino rival, o Fatah do moderado Mahmoud Abbas. Na breve guerra civil entre palestinos, morreram mais de 500 pessoas. Os prisioneiros do Fatah foram fuzilados à queima-roupa pelos militantes do Hamas. Imaginem o que não fariam com os israelenses, caso tenham a chance e o poder militar de fazê-lo, como gostariam muitos que condenam a "desproporcionalidade" do conflito atual em Gaza.
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Algum tempo atrás, alguém cunhou a expressão "islamofascismo" para designar os grupos terroristas islamitas, como a Al-Qaeda, o Hamas e o Hezbollah. Em seus métodos e em seus objetivos, tais grupos combinam, segundo essa definição, os métodos e objetivos do fundamentalismo religioso islâmico e dos partidos nazista e fascista do passado. De fato, os terroristas islamitas têm em comum com os nazi-fascistas a intenção claramente genocida em relação aos judeus, hoje reunidos no Estado de Israel. E, assim como os nazi-fascistas, usam e abusam da propaganda e da desinformação para angariar apoios e iludir os incautos. Isso é geralmente esquecido pelas legiões de idiotas esquerdistas que saem às ruas, em Paris, Roma e outras cidades européias e ocidentais, pedindo paz e defendendo o fim do "genocídio" em Gaza. Assim como seus ancestrais pacifistas dos anos 30, estão completamente cegos ou estupidificados pela propaganda. E, assim como muitos antes deles, estão obcecados pelo antiamericanismo, acreditando que se opor aos aliados dos EUA, tais como Israel, significa colocar-se automaticamente ao lado do bem e da justiça. Desnecessário dizer que isso se transmuda, no caso do Oriente Médio, em anti-sionismo e mesmo em anti-semitismo mal-disfarçado. Nunca o termo islamofascismo fez tanto sentido, e nunca foi tão necessário combatê-lo.

Voltei

Estou de volta, após as festas de fim de ano. E já há uma nova enquete no blog. Votem!
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Um excelente 2009 a todos que merecem!

terça-feira, dezembro 30, 2008

POR UMA PALESTINA LIVRE - DO HAMAS!

Terroristas do Hamas: eles só querem destruir Israel


Marco Aurélio Garcia classificou o ataque israelense na Faixa de Gaza como uma "brutalidade". O assessor especial de Lula para assuntos internacionais afirmou também que o Brasil poderia dar uma contribuição às negociações de paz na região, pois, ao contrário dos EUA, "não tem lado" no conflito. O Brasil não apóia Israel, a única democracia do Oriente Médio. Em vez disso, aproxima-se cada vez mais dos países árabes, alguns deles, como a Síria, inimigos dos israelenses e patrocinadores do terrorismo. Lula já visitou quase todos os países do Oriente Médio e já realizou uma reunião de Cúpula dos países árabes e sul-americanos, em Brasília. Jamais visitou Israel.

As declarações de Marco Aurélio Top Top Garcia são mais um motivo para apoiar Israel contra os terroristas do Hamas. São mais uma razão para aplaudir os bombardeios dos caças F-16 e a entrada dos tanques israelenses em Gaza.

Assim que foi lançada a operação, provocada pelos ataques diários do Hamas com foguetes contra a população israelense do outro lado da fronteira, rompendo uma trégua de seis meses, as palavras mais usadas na mídia para classificar a ação do governo de Tel-Aviv foram "genocídio", "reação desproporcional" etc. Não faltou também a velha ladainha de que os ataques israelenses irão apenas agravar a situação, fazendo aumentar o ódio e o ressentimento que servirão de incubadora para novas levas de terroristas suicidas. Israel, como em todas as outras ocasiões, está sendo apresentado como o lado mau da história, o agressor, e os militantes do Hamas como bravos resistentes ou como vítimas indefesas. O número desigual de baixas fatais de lado a lado, até o momento em que escrevo estas linhas - 360, do lado palestino, e 4, do israelense - apenas reforça essa impressão de desproporcionalidade.

À primeira vista, o conflito em Gaza é mesmo desigual, e a reação enérgica das forças de defesa israelenses daria razão a Marco Aurélio Garcia. Essa impressão, porém, é enganosa. Se há um culpado pela nova onda de violência no Oriente Médio, não é Israel: é o Hamas. Este não é um interlocutor normal e respeitável, nem seu objetivo é alcançar algum tipo de modus vivendi com Israel. É, isso sim, um grupo terrorista fundamentalista islamita que jurou nada mais, nada menos, do que destruir Israel e aniquilar sua população, implantando, em seu lugar, uma teocracia islâmica nos moldes da iraniana. Isso está em todas as suas proclamações, e, quem quiser, que as leia. Como tal, não é possível lidar com ele com luvas de pelica. A trégua, para grupos como o Hamas, é apenas um intervalo para recompor suas forças e lançar novos ataques terroristas. Isso porque seu objetivo final não é outro senão a aniquilação total do Estado e da população israelenses. Um novo Holocausto, enfim. Logo, não se trata de uma guerra entre dois Estados, ou entre dois povos, mas de uma ação de legítima defesa de um Estado sitiado contra bandos armados que querem a sua destruição, e que usam a população civil da área, uma das mais densamente povoadas do mundo, como escudos humanos - daí o elevado número de baixas civis nos ataques israelenses. Como se pode falar em reação desproporcional israelense, se um dos lados - o Hamas, e não Israel - simplesmente se recusa a reconhecer o direito do outro à existência?

Suponhamos que a situação se invertesse. Que fosse o Hamas, e não Israel, o lado militarmente mais forte. Que fossem os israelenses, e não os palestinos, que estivessem sob ataque de aviões e tanques. Alguém duvida que, em vez de 300 ou 500, teríamos milhões de mortos? Alguém duvida que, aí sim, teríamos um verdadeiro genocídio? Alguém duvida que, em vez de danos colaterais entre a população civil, usada como escudo pelos terroristas islamitas - mais um motivo para que esta deseje se livrar deles de uma vez por todas -, teríamos um massacre de proporções hiltleristas? Isso sim, é algo desproporcional. Ou melhor: isso sim, seria algo proporcional às intenções do Hamas em relação a Israel e a seu povo.

Outra balela que já virou um dogma é a de que seria a ação militar de Israel a causa do terrorismo palestino. É uma variação do "Blame America First", segundo o qual os EUA seriam os responsáveis últimos pelo terrorismo da Al-Qaeda, bem como por toda manifestação de antiamericanismo no mundo. Segundo essa visão, defendida por muitas almas puras e ingênuas, ou simplesmente mal-informadas, bastaria os israelenses desocuparem os territórios conquistados aos palestinos que estes deporiam as armas e todos viveriam em paz e felizes para sempre. Essa fantasia cor-de-rosa é totalmente desmentida pelos fatos. Basta lembrar que a atual situação em Gaza começou quando o governo israelense de Ariel Sharom - então a besta-fera do sionismo internacional - ordenou, de forma unilateral e sem exigir nada em troca, a retirada dos colonos israelenses estabelecidos na região desde 1967, o que causou não pouco choro e ranger de dentes entre os judeus mais radicais. Desde então, o Hamas assumiu o poder em Gaza. Pois bem. O que aconteceu? Os ataques a Israel cessaram? Pelo contrário. O Hamas se fortaleceu, e chegou mesmo a tomar o poder da facção palestina rival e mais moderada, a Fatah de Yasser Arafat e Mahmoud Abbas. Os fanáticos do Hamas impuseram sua própria opressão sobre a população palestina e Gaza se transformou numa base avançada dos terroristas islamitas, que lançam diariamente ataques com foguetes e incursões em território israelense. O mesmo aconteceu depois de 2000, quando as tropas israelenses se retiraram do sul do Líbano: a região logo se transformou em território do Hizbollah, que passou a lançar ataques diários contra a população israelense, provocando a reação militar de Israel em 2006 - uma guerra que, a julgar pelo grosso do noticiário internacional, foi desfechada por Israel não para eliminar uma ameaça a suas fronteiras, mas somente para devastar o Líbano.
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Obviamente, a responsabilidade pela barbárie não é apenas dos fanáticos do Hamas. Parcela importante de culpa recai sobre quem sempre fez vista grossa para a violência dos fundamentalistas, recusando-se a enxergá-los como o que de fato são: terroristas assassinos e inimigos da paz. Eis um outro exemplo recente bastante didático: em 2000, o governo do então primeiro-ministro israelense (e atual ministro da defesa), Ehud Barak, ofereceu a Yasser Arafat, então líder da Autoridade Palestina, mais de 90% de todo o território reivindicado pelos palestinos desde 1967, o que incluía a maior parte da Cisjordânia. Em troca, os refugiados de guerra palestinos ficariam impedidos, em um primeiro momento, de retornar e a Autoridade Palestina (a Fatah) se comprometeria a conter os movimentos terroristas em seu território, como o Hamas. Era a maior oferta de paz feita até hoje por Israel. O que fez Arafat? Aceitou a oferta israelense, que teria terminado com décadas de confronto ou, pelo menos, constituído um passo importante para alcançar esse objetivo? Nada disso. Ao invés de aceitá-la, recusou-se até mesmo a prosseguir as negociações, optando por um caminho de radicalização que levou a uma nova escalada de violência. Desde 1994, quando estabeleceu seu Estado nos territórios palestinos após ter reconhecido, seis anos antes, o direito de Israel à existência - o que o Hamas não dá nenhum sinal de que fará um dia -, Arafat, que morreu em 2004, não moveu uma palha para impedir os atentados do Hamas e do Hizbollah. Resultado: esses grupos logo tomaram o lugar do Fatah, e em 2006 tomaram o poder à bala na Faixa de Gaza, mandando as negociações com Israel às favas. É mais um motivo para que o Fatah deseje a eliminação do Hamas por Israel.

Isso tudo comprova apenas uma coisa: enquanto houver Hamas, não haverá esperança de paz na região. E, no entanto, nunca vi nenhuma declaração do governo brasileiro condenando explicitamente esse bando de fanáticos assassinos, assim como nunca vi, nem certamente verei um dia, alguma nota do PT condenando os narcobandoleiros das FARC ou a tirania castrista em Cuba. É que quem condena abertamente o terrorismo islamita, claro, está defendendo uma "brutalidade", é isso...

Uma vez, alguns anos atrás, tive uma discussão feia com um colega argentino, aliás descendente de árabes. Cometi a imprudência de lembrar que Israel é um país sitiado. Foi o suficiente para eu ser acusado de defender o extermínio de todos os palestinos. Fui mais além em minha ousadia, e lembrei que grupos como o Hamas e o Hizbollah querem a destruição de Israel. Aí meu colega me veio com a seguinte pérola: "O Hamas não existe". Para Marco Aurélio Garcia, o Hamas também não existe. Os israelenses estão lutando pela sua sobrevivência. E o Hamas e o Hizbollah, pelo que lutam?

Há sessenta anos, Israel luta para existir. Para garantir a própria sobrevivência. Seus inimigos, como o Hamas, lutam para destruí-lo. Para exterminar sua população, trucidá-la, afogá-la em sangue, terminando o serviço que Hitler deixou inacabado. Diante disso, a diplomacia brasileira diz não ter lado. Eu não. Eu tenho lado. E não é o lado do Hamas.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Resposta a um leitor da "mudança"


Começo analisando um comentário de um certo "Humberto", sobre meu texto "Vitória do Racismo", de 6/11. Ele vai em vermelho.
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Desculpe ser tão sincero quanto você, mas quando ignora os fatos que levaram Obama à presidência dos EUA, colocando-o como um produto de meia dúzia de jornais, e não que esses conglomerados tivessem se rendido às suas superiores virtudes em relação ao seu oponente, você age como um “apedeuta”, termo muito caro à ti.
Olha, desculpe se eu parecer pretensioso, mas duvido que você tenha sido tão sincero quanto eu. Primeiro porque não, meu amigo, não ignorei fato nenhum sobre os motivos que levaram à vitória eleitoral de Santo Obama. Pelo contrário: tudo que fiz, e continuo fazendo, foi chamar a atenção para esses fatos, que são sistematicamente omitidos. Que fatos são esses? Vamos lembrar: 1) a quantidade de dinheiro despejada na campanha obamista, superior a qualquer coisa já vista até hoje na história dos EUA (e cuja origem das doações permanece um mistério); 2) o culto da personalidade de São Barack Hussein Obama, o Messias Prometido; 3) a crise financeira; e 4) a chantagem racial ("se você não votar em Obama, você é um racista").
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Esses fatos vão muito além de "meia dúzia de jornais" - pelo contrário: a "obamania" tomou conta do mainstream, de praticamente a totalidade da grande mídia americana e mundial, que se converteu num verdadeiro comitê de campanha a favor do candidato "histórico". Quais são as "superiores virtudes" de Obama em relação a seu oponente, senão os fatores elencados acima? A experiência? As idéias? Ou o marketing e a lábia, além da cor da pele?

Em tempo: o termo "apedeuta" (procure no dicionário) significa alguém que cultiva a ignorância como uma virtude e despreza o conhecimento e os próprios fatos para emitir seus juízos. Um termo adequado para definir quem se deixa levar pela mitomania em torno de um sujeito de idéias e passado desconhecidos apenas porque este sai bem no vídeo. É por isso que não acredito que você esteja mesmo sendo sincero, nem para mim nem para você mesmo.

Só o fato de ter convencido os democratas a escolhê-lo tirando a forte candidata Hillary da parada, já fica difícil aceitar a argumentação de mero produto de márquetim.
Aqui eu vou ter que imitar o Paulo Francis: Woooow! Então o simples fato de o sujeito ter vencido a Hillary nas prévias e convencido os democratas é o suficiente para credenciar o candidato como o mais preparado, o mais sábio etc. etc.? É isso mesmo? Como se os democratas - e os republicanos, também, diga-se - não estivessem atrás de um símbolo, mais do que alguém de carne e osso, para ganhar as eleições? E como se, nesse processo, o "márquetim" não tenha falado mais alto? Desde quando os democratas - o partido de Bill Clinton e de Al Gore, dois notórios picaretas - é a associação de sábios e filósofos cuja aprovação é um selo de qualidade para qualquer político? Agora já sei de quem devo buscar a suprema aprovação quando eu fizer qualquer coisa, desde escrever um texto até dar uma pirueta. Os americanos votaram num símbolo, num produto de "márquetim", como queira.

Se o TSE deles leva em banho-maria sobre sua procedência, por que criar caso? É muito difícil de a justiça eleitoral deixar correr até o candidato ser eleito pra depois barrá-lo porque não cumpriu algum ritual anterior, principalmente um candidato eleito por ampla maioria e “pelo mundo”.
Vamos explicar para quem chegou agora: Obama está sendo processado na Justiça americana por um advogado (democrata, diga-se) porque não apresentou, até agora, documento nenhum provando que é cidadão americano nato. Isso - o não provar ter nascido nos EUA - o torna automaticamente inelegível para a presidência dos EUA. Particularmente, não sei se Obama nasceu no Havaí, como alega, ou no Quênia, ou na Patagônia. A questão é que nunca se viu na história dos EUA um presidente eleito mobilizando um batalhão de advogados para fugir de cumprir um requerimento tão simples, tão essencial, exigido de qualquer cidadão. Assim como nunca se viu uma operação de acobertamento, pela grande imprensa, de algo potencialmente tão explosivo.
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Caso se comprove que Obama nasceu fora dos EUA, isso não será um simples detalhe: será a senha para a maior crise constitucional da hstória do país, algo só visto em republiquetas de bananas. E a crise será tanto maior quanto devido ao fato de o candidato em questão ter sido eleito por ampla maioria e "pelo mundo" (inclusive por Ahmadinejad e por Hugo Chávez, é bom não esquecer...). O companheiro acha difícil a justiça dos EUA deixar correr isso e depois barrar o candidato por não cumprir essa exigência legal básica? É porque essa situação nunca ocorreu antes, o que não significa que não seja uma possibilidade. Além do mais, o processo está sendo movido por um advogado, de forma quixotesca, enquanto Obama conta com um exército de apoiadores a seu serviço. Enfim, é o desconhecimento da gravidade dessa situação, além de óbvio desprezo pela Lei, o que leva alguns sabichões a se perguntarem: "e daí que ele jogou a Constituição no lixo, gente? Por que criar caso?"

Rasgar a Constituição e esconder documentos em um processo judicial pode ser algo normal no Brasil ou no Zimbábue. Mas nos EUA, que, presume-se, seja um país sério, convenhamos, isso tem conseqüências. No caso de Obama, a conseqüência será desastrosa.
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Pela sua insistência, parece que quer destituí-lo de qualquer maneira. Se seu governo(de Obama) se mostrar medíocre, são outros 500, mas ele tem impressionado não só seus confrades, como parte de seus oponentes, os direitistas, e isso não é pra qualquer um.
Epa! Peraí! De qualquer maneira, não! Quero apenas que ele cumpra a Lei de seu próprio país. Provando ser cidadão americano nato, em primeiro lugar. Isso é o mínimo que se espera de alguém que vai assumir o cargo mais importante do planeta. Poderia aproveitar e explicar melhor sua relação com figuras como Tony Rezko, Bill Ayers e Raila Odinga, para variar. Ou então como ignorou durante 20 anos (!) que Jeremiah Wright é um fanático racista. A democracia agradeceria.
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Em que Obama tem impressionado deus e o mundo? Tudo bem que o sujeito convenceu muita gente de que faz chover e anda sobre as águas. Afinal, há otários para todos os gostos. Mas, francamente, a mim ele só impressionou, até o momento, pela devoção irracional criada em torno de sua figura pelo "márquetim", além da incrível capacidade de fugir de perguntas espinhosas, bancando o peixe ensaboado. No que se assemelha muito a um certo presidente de uma certa república sul-americana, também favorecido pelo silêncio cúmplice ou acovardado da imprensa vendida e de rabo preso... Tanto num caso como em outro, exigir que o sujeito cumpra a Lei, ou que, pelo menos, não minta muito, já virou um verdadeiro tabu: quem for corajoso o bastante para criticar algum desses ícones será tratado como um pária, um paranóico, um nazista ou um maluco. É preocupante.
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Obama não quis entrar pelo espinheiro de uma campanha focada em raça porque além de perigosa não era seu escopo, deixou sua tez de lado e se identificou como “pós raça”(uma coisa assim). Não foi eleito por ser negro, mas apesar de ser negro. Impos seu discurso não se fazendo de coitadinho por ser um negro discriminado, rejeitado.
O caro leitor leu o texto que comenta? Se leu, não entendeu. Se entendeu, se faz de sonso. Tudo bem, vou resumir o que escrevi: Obama não foi eleito porque é negro (mulato, na verdade). Se fosse assim, somente os negros americanos (13% da população dos EUA) votariam nele. Foi eleito porque é um símbolo. Símbolo de quê? De algo extremamente vago, amorfo, chamado "mudança". Um símbolo, enfim, feito de muito marketing e pouca, pouquíssima substância (basta ver quem ele nomeou para seu gabinete, praticamente um replay do governo Bush), baseado não em idéias, mas única e simplesmente em algumas características, digamos, cosméticas do candidato-produto. Qual dessas características era (é) a mais importante e a que mais chama a atenção? A raça - o "primeiro presidente negro" etc. Obama não reivindicou a bandeira do black power durante a campanha, pois afinal é um político, e sabe que isso alienaria muitos de seus eleitores. Mas é inegável que a chantagem racial ("negro vota em Obama", "quem votar em McCain é racista" etc.) esteve presente e pesou no resultado final.

Se você continuar escrevendo o que escreve, defendendo o que defende, cuidado, você pode acabar como articulista da Veja, é a sua cara. As belezas que se vê lá, confundem-se com suas posições.
Que estranho... Acompanhei a cobertura das eleições americanas pela VEJA. O articulista da revista que escreveu as matérias sobre o assunto foi André Petry. Ele é pró-Obama, suas matérias eram todas - todas - simpáticas ao democrata, e frias em relação a McCain. O que mostra que ou o gentil leitor não leu a revista ou não sabe o que está dizendo, ou as duas coisas. Pois só isso explica essa tentativa de piada sem graça sobre eu acabar como articulista da revista dos Civita (o que seria uma honra, digo logo). Isso apenas demonstra que falar mal da VEJA sem lê-la já virou uma espécie de mandamento dos esquerdiotas. Pudera: estes preferem as maravilhas que se vê na Caros Amigos e na Carta Capital...

Fiquemos assim: sei que você não concordou com nada do que escreví assim como também não concordo com seu ponto de vista. Sem problemas.
Realmente, não concordei com nada que você escreveu, mas faço um adendo: ao contrário de você, justifiquei meu ponto de vista com fatos e argumentos. Da próxima vez, tente fazer algo parecido e apresentar algo consistente. Do contrário, teremos, sim, problemas. Ou melhor: o problema é inteiramente seu.

Deix'eu ir que já provoquei demais.
Não provocou. Apenas me fez rir um pouco. Mais sorte - e competência - da próxima vez.

Próóóóóximo!
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P.S.: Sobre a imagem que ilustra este texto, eis a tradução: "As seis palavras que realmente deveriam ASSUSTAR pra valer a América são: BARACK HUSSEIN OBAMA COMANDANTE EM CHEFE. (Obama, vestido de Napoleão): "Não precisamos de forças armadas, pois eu sou o Messias e o salvador do mundo! Haverá paz mundial porque eu sou o consagrado e eu exijo isso!" (Os dois soldados, no canto esquerdo): "Em sua juventude, McCain passou 5 anos e meio como prisioneiro de guerra". "Obama passou sua juventude fumando maconha e cheirando cocaína". No canto direito, dois apoiadores de Obama: Jeremyah Wright e Louis Farrakhan.

De volta

Estou de volta, após uma semana de recesso de Natal. Já há comentários para ser analisados. Em breve, novos textos.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

PIADA INFAME


(ler primeiro o post anterior)

Desculpem a piada meio infame, mas é inevitável: depois da entrada de Cuba no Grupo do Rio, é impossível não citar a expressão usada um dia desses pelo Apedeuta:
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"A Democracia sifu".
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P.S.: Antes de qualquer coisa, vou logo esclarecendo: a piada infame a que me refiro não é a expressão de Lula, mas a entrada de Cuba no tal Grupo do Rio...

ISSO SIM, É PRA SE JOGAR O SAPATO


"- Voy bien, Fidel? - Vás sí, Lulinha. Ahora el próximo paso es destruir la democracia en toda la América Latina y enfrentar al imperialismo yankee."


Do blog de Reinaldo Azevedo. RA, como sempre, fala por muitos. Diante de coisas assim, qualquer comentário seria supérfluo. Leiam e atirem também o sapato em quem patrocinou mais esse absurdo da Era Lula.

Mais uma vez, os companheiros mandaram a democracia para a Cuba que os pariu.

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AMORIM E LULA, BABÁS DE DITADORES

Em outros tempos, o ingresso de Cuba no tal Grupo do Rio, sob o patrocínio do Brasil, provocaria um certo alarido na imprensa brasileira. O petralha indagaria: “Nos tempos da ditadura?” Não. Diria que, há coisa de cinco ou seis anos, tal atitude não passaria sem uma crítica severa feita pelos radares, vá lá, democrático-liberais da nossa imprensa. Agora, se houver um muxoxo, será muito. O tal Grupo do Rio reúne países da América Latina e Caribe. Uma das cláusulas de inclusão — e, pois, de exclusão — era a “democracia”. Sim, exigia-se que o país cultivasse um regime democrático. Cuba é uma tirania — notem: nem escrevo “ditadura”, mas tirania mesmo. E é agora membro permanente da tal cúpula.

A reunião se realizou na Costa do Sauípe. A estrela da festa foi o ditador cubano Raúl Castro, que aproveitou para deitar falação contra o embargo americano, afirmando que o país sofre há décadas com isso etc e tal. Conversa. Até quando existia a URSS, a tirania tinha tudo aquilo de que precisava para ser, em suma, uma tirania. Na prática, o embargo hoje já não tem grande importância. O que mantém na miséria a população da ilha é a ditadura.
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Celso Amorim, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, não cabe em si de contentamento. Está feliz porque o Brasil conseguiu fazer a reunião sem observadores externos — leia-se assim: ninguém dos Estados Unidos. De fato, trata-se de uma grande honra: a democracia americana não vem nem para olhar, mas se joga no lixo um princípio do grupo e se acolhe uma ditadura. Dela, nada é exigido. Ao contrário: Raúl Castro foi tratado como um grande herói. Entre os presentes, notórios aproveitadores — gente que vem desafiando e humilhando o Brasil nas relações bilaterais: com destaque, Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador); na segunda linha, Fernando Lugo (Paraguai). Todos eles regidos pelo maestro Hugo Chávez (Venezuela).

Amorim foi mais discreto no ataque à OEA, mas Castro, que não está muito acostumado a esses ambientes, vá lá, um pouquinho mais plurais, entregou o jogo: a idéia é fazer o tal Grupo do Rio substituir a OEA — porque, afinal de contas, a Organização dos Estados Americanos conta com a presença dos Estados Unidos. A cúpula da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) aproveitou a oportunidade para uma rápida reunião, formalizando a criação do Conselho Sul-Americano de Defesa — outra tentativa de sabotar a OEA de lado. Não custa lembrar que, no conflito havido entre o filoterrorista Equador e a democrática Colômbia, não fosse a Organização, o país que estava sendo realmente agredido — aquele presidido por Álvaro Uribe — teria ficado sozinho. O Brasil — sim, o Brasil — liderou a tentativa de censura à Colômbia. Por quê? Ora, Brasília não considera as Farc terroristas. Logo, não considerava grave que Rafael Correa abrigasse os bandidos em seu território. Como sei disso? Procurem algum documento da época ou declaração censurando o Equador. Nada! Amorim se mobilizou contra a Colômbia — sem contar o Marco Aurélio Top Top Garcia, que, por estes dias, decidiu submergir um pouco.

Os que, no Brasil, pedem com tanta energia a revisão da Lei de Anistia para punir, como dizem, os torturadores não se importam que Cuba seja paparicada pelo Brasil. A ilha tem reservadas suas masmorras para intelectuais, artistas e oposicionistas em geral. A dupla Castro, por 100 mil habitantes, criou e lidera um regime assassino. Já demonstrei aqui que Fidel é 2.700 vezes mais homicida do que o regime militar brasileiro. Mas o que estou dizendo, não é? Os 95 mil mortos da tirania cubana certamente eram reacionários nojentos, direitistas safados, contra-revolucionários asquerosos, gente que merecia morrer mesmo por não entender os altos desígnios daqueles bravos guerreiros do povo.

Para Lula, este é um momento de ouro. Amorim comentou nestes termos o ingresso de Cuba no grupo: “A posição do Brasil sobre esse tema sempre foi de manter o diálogo aberto. Eu acho que não foi feito com a intenção de pressionar ninguém, isso é uma decisão da América Latina e do Caribe e dos países que integram o Grupo do Rio. Agora, se servir para que o futuro presidente dos Estados Unidos veja para que lado estão soprando os ventos, eu acho válido”. Entenderam? Amorim está mandando um recado para Barack Obama: “Os ventos estão mudando”. Ora, se os ventos mudam porque Cuba passa a integrar um clube, eles mudam necessariamente para pior. Trazem o cheiro da morte. Em seu discurso, Raúl Castro teve a coragem de falar dos “muitos que tombaram” para Cuba ser o que é. Nem diga. A sua ditadura matou, reitero, 95 mil pessoas.
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Ah, sim: Obama deve ter tremido nas bases ao saber da declaração de Amorim e deve ter pensado: "Preciso ouvir o que tem a dizer este sábio".

terça-feira, dezembro 16, 2008

O PARADOXO DA SAPATADA

Há duas maneiras de interpretar o gesto do jornalista iraquiano que atirou os sapatos contra o presidente George W. Bush ontem, em Bagdá. A primeira, que se está impondo como a única, é o óbvio ululante: Bush é impopular também no Iraque, e o tal sujeito que arremessou os sapatos contra ele estava expressando aquilo que milhares de pessoas no mundo inteiro, que se opõem à presença norte-americana no Iraque, querem dizer. Um protesto legítimo contra uma guerra unilateral e desastrosa que deixou milhares de mortos etc. etc. Meio estúpido, mas justo. Até aí, nenhuma novidade.
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A segunda interpretação é bem diferente. Sim, muitos iraquianos querem os americanos fora do Iraque. Sim, a impopularidade de Bush o torna o alvo preferido de sapatadas. Tudo isso é sabido. Mas o protesto, mesmo idiota, demonstra até que ponto a intervenção anglo-americana no Iraque foi acertada. Sem querer, o manifestante que arremessou os sapatos contra Bush fez o maior elogio que se poderia imaginar à invasão do país pelas forças lideradas pelos EUA, cinco anos atrás. Isso mesmo. As sapatadas do repórter no mandatário mais poderoso do planeta - embora em seu ocaso - revelam, por vias tortas, uma realidade que os inimigos de Bush tentam a todo custo esconder: o Iraque hoje é um país muito, mas muito melhor mesmo, do que era antes de 2003.
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O repórter atirou os sapatos em Bush, chamando-o de cachorro. Trata-se de uma ofensa gravíssima no mundo islâmico, uma forma de dizer, como não cansa de repetir didaticamente o noticiário, que a pessoa-alvo do xingamento não vale a terra que pisa. Está preso, e sofrerá processo, como sofreria quem fizesse o mesmo com Lula ou com o prefeito de Pindamonhangaba. Aí é que está o diferencial. No Iraque de hoje, o autor da sapatada está preso e responderá a processo judicial. Nos tempos de Saddam, ele já estaria morto, depois de terríveis sessões de tortura nas mãos dos agentes da repressão política, e sua família sofreria represálias fatais. A cena do protesto, que já virou até piada e jogo na internet, seria censurada pela imprensa oficial, a única permitida. Qualquer manifestação de rua a favor da libertação do repórter sapateiro seria reprimida com brutalidade, e seus líderes, também, assassinados pela polícia secreta. Enfim, tudo terminaria com uma bala na nuca, e o caso não teria qualquer repercussão. Então, valeu ou não a pena ter derrubado o Saddam?
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Desde 2003, quando Bush resolveu invadir o Iraque e remover Saddam do poder, pela primeira vez em sua história o povo iraquiano - xiitas, sunitas, curdos, cristãos - pode expressar-se livremente. Pode, inclusive, atirar os sapatos na cara do presidente dos EUA, sem o risco de ter os olhos vazados, as orelhas cortadas ou os testículos arrancados por causa disso. Que tenha sido um repórter de TV o autor desse atentado cômico é uma clara demonstração dessa nova realidade. O Iraque luta hoje para ser uma democracia. E, numa democracia, há protestos. Em uma ditadura totalitária, como era a de Saddam ou como é a do Irã, esse tipo de coisa não existe: o governo tem 100% de apoio da população (os que não declaram seu apoio total ao regime ganham um bilhete só de ida para a prisão ou para o além). Em outras palavras, se hoje um cidadão iraquiano pode manifestar toda sua raiva contra os EUA atirando os sapatos em Bush e não virar um cadáver, isso se deve a... Bush e aos EUA.
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Os antiamericanos de todos os tipos comemoraram as sapatadas em Bush como se tivessem sido um gol. Não levaram em consideração nada do que está escrito aí acima. Demônio, para eles, é Bush, não Saddam. Ou então, para eles, Saddam Hussein era como as armas de destruição em massa do Iraque: nunca existiu. Ao atirar os sapatos na direção de Bush, o jornalista-manifestante gritou: "Aqui está seu beijo de despedida, cachorro". Poderia ter dito: "Muito obrigado por agora sermos livres, Mr. Bush, muito obrigado".

quinta-feira, dezembro 11, 2008

O FIM DE UM MITO


Recebi o seguinte comentário, de alguém que prefere manter-se anônimo, sobre meu texto "Zumbi, o escravocrata", publicado aqui em 20/11:

"buscar argumentos em fatos isolados para esconder os preconceitos culturais tradicionais burgueses de uma elite não superam o precoceito vigente, e tomar uma posição destas nõa resolve e nem contribui para a solução do paroblema. o debate é outro,não sei como deixam colocar na net tais afirmações!
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Vamos tentar analisar o que o autor do comentário acima quer dizer. A que "fatos isolados" ele se refere? Vou explicar: à revelação, feita por pesquisadores, de que Zumbi dos Palmares, o maior símbolo da luta dos negros contra a escravidão no Brasil, era, ele mesmo, dono de escravos. Daí vem todo o trololó ideológico sobre "esconder os preconceitos culturais tradicionais burgueses de uma elite" etc etc.

Pois é. Para o distinto leitor que me mandou o comentário, o fato de Zumbi, o símbolo principal do "movimento negro" no Brasil, ter sido um escravocrata é de somenos importância. É, como ele diz, um "fato isolado", que não retira a gravidade da questão racial no Brasil, um país, como todos sabem, tão racista quanto a África do Sul nos tempos do apartheid... Em outras palavras: e daí que Zumbi tinha escravos? O importante é que o racismo existe e a luta continua, companheiro. A-hã.

Fico aqui pensando: imaginem se fosse descoberto que Martin Luther King era, na verdade, um tremendo racista, ou que Gandhi era, sei lá, um belicista e admirador de Hitler? O que diriam os seus seguidores? Será que continuariam a venerá-los como ícones? Ou será que, lá em seu íntimo, colocariam a mão na consciência e começariam a duvidar de suas convicções?

Trocando em miúdos: o que diria um "militante negro", com cabelo Black Power e retrato de Malcolm X na parede do quarto, diante da revelação de que Zumbi, na verdade, vivia cercado de mucamas e de molequinhos, todos negros como ele, que passavam o dia a atender-lhe todos os caprichos e a tirar-lhe bichos de pé? O que diriam diante de um Zumbi gordo, refestelado numa rede, sendo servido por um cortejo de serviçais para os quais tinha sempre à mão uma palmatória, em caso de necessidade de um corretivo por algum erro cometido? O que diriam de um Zumbi sinhozinho da casa-grande, e não líder rebelde da senzala?

A revelação de que Zumbi era dono de escravos, assim como o fato de que havia negros escravizadores - sim, negros escravizadores! estudem a História - muito antes de os primeiros portugueses chegarem à África, não é um simples fato isolado. Pelo contrário: é uma revelação da maior importância, que demonstra a que ponto de empulhação intelectual chegou o tal "movimento negro" no Brasil, o qual, como vários outros "movimentos" do tipo, já transformou a "reparação histórica" numa fonte de culpa eterna e numa verdadeira indústria (literalmente falando).

A figura de Zumbi foi utilizada por décadas por esse movimento para defender seus pontos de vista e, como tal, era intocável. Um filme dos anos 80 retrata o líder do Quilombo dos Palmares como um mártir da luta pela liberdade e contra a escravidão. Trata-se de um símbolo, um verdadeiro mito: não por acaso, a data de sua morte - 20 de novembro - foi adotada há anos, pelo calendário oficial, como o "Dia da Consciência Negra", em contraposição ao 13 de maio, Dia da Abolição, do qual hoje quase ninguém se lembra. Agora, com o fim desse mito, fica claro que a única liberdade pela qual Zumbi lutou era a própria, não tendo nada contra a escravidão em si. O mínimo que se pode esperar daí é que o 20 de novembro seja definitivamente enterrado e esquecido. Será que depois disso aquela faculdade que só aceita alunos "afro-descendentes" vai manter o mesmo nome?

Caiu mais um mito dos militontos esquerdistas brasileiros. Pena que estes não costumam aprender muito com a História. Em vez disso, tentam até censurar a internet. O Brasil não é um país racista, embora os "militantes negros" desejam que ele seja. É esse o debate.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

TRÊS TIPINHOS ORDINÁRIOS

De uns tempos para cá, ao fustigar os esquerdinhas, jornalistas como Reinaldo Azevedo têm contribuído para enriquecer o vocabulário da língua portuguesa. São dele tiradas preciosas e alguns neologismos impagáveis, que dão a impressão de surgir quase naturalmente, como "petralha" - mistura de petista com os Irmãos Metralha, com desvantagem para esses últimos -, "esquerdopata", "esquerdiota", "tontons-maCUTs" - os sindicalistas homiziados no cleptopetismo no poder - e, ainda, "Apedeuta" ou "Babalorixá de Banânia", para se referir ao chefe de todos, o Molusco de língua presa e fílósofo da marolinha que virou tsunami, que virou, por sua vez, uma diluviana diarréia.
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Pois bem. Como não poderia ficar de fora, também tenho cá a minha modesta contribuição ao léxico da política nacional. Não sei se alguém já o fez em meu lugar. Refiro-me a três tipos bem ordinários e vagabundos que há tempos nos atormentam, com sua pinta romântica de bons-moços e de santarrões sem pecha nem mácula, e que já se converteram numa verdadeira praga bíblica, dessas de deixar as sete pragas do Egito no chinelo. Eis uma breve definição de cada um deles. Leiam e depois me digam se eles não são umas baratas: estão em todos os lugares.
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O primeiro tipo é o menos numeroso, mas o mais barulhento e irritante de todos. É o militonto, o militante tonto de causas idem. É o petista ou comunista de carteirinha, folclórico, do tipo que adora vestir camiseta vermelha com a estampa de uma estrela ou da foice e do martelo e que prega adesivo do Partido no vidro do carro. Extremamente idealista, é facilmente encontrado em sindicatos, principalmente os vinculados à CUT, e nas universidades, geralmente públicas, tanto do lado de lá quanto do lado de cá dos bancos escolares, embora não se mostre muito afeito aos estudos. Prefere agitar bandeiras e gritar slogans contra o "neoliberalismo", a "globalização" e os EUA, mas não costuma dispensar um bom celular ou uma roupa de grife (se for sindicalista, é geralmente apreciador de um bom uísque escocês).
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Apesar de seu anticapitalismo, o militonto é bastante ligado à moda também: vez ou outra é visto desfilando com uma camiseta muito fashion de Che Guevara, aquele que gostava de fuzilar sem piedade. Sem perder a ternura, claro. Em geral, é gente de certas posses, embora pretenda falar em nome dos pobres e excluídos. Talvez por isso, seja adepto fervoroso da religião do pobrismo e do coitadismo ("ah, como é bela a pobreza, como é autêntica..."). Altruísta, é bastante caridoso, um defensor intransigente da distribuição de renda - principalmente se for com o dinheiro alheio.
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Como sói acontecer em certas seitas, o militonto costuma expressar-se por meio de uma linguagem própria, que em alguns casos lembra o português, principalmente na forma como trata seus assemelhados, chamando-os, invariavelmente, de "companheiro" ou "camarada". Se você crê, como José Saramago, que Marx tinha razão e que a humanidade - menos você, claro - não merece viver, então pode ter certeza: você é um "companheiro" ou "camarada". Todos os demais, que ainda defendem coisas como a democracia e a liberdade de pensar, são uns alienados e canalhas da pior espécie, lacaios do imperialismo e porcos direitistas; deveriam estar debaixo de sete palmos de terra, comendo capim pela raiz.
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Outro ambiente em que o militonto é facilmente encontrado são as ONGs, principalmente aquelas dedicadas a causas do bem, genuinamente pilantrópicas, abastecidas com dinheiro público. Acima de tudo, ele faz questão de estar presente em qualquer "movimento social" que erga a bandeira das "minorias" (negros, índios etc.), ecologistas (onde também atendem pelo apelido de ecochatos), feministas, gays etc., com amplo trânsito nos jornais e nos meios artísticos e "intelequituais".
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Atualmente aboletado no governo, em geral em algum cargo comissionado, o militonto geralmente não vê problema algum em usar os mesmos métodos de seus adversários "de direita", antes por ele tão condenados, já que todos os meios são válidos se são para o bem da revolução e da classe trabalhadora. Mas toma o cuidado de livrar a cara do mandante-mor, blindando-o contra qualquer engraçadinho que quiser chamar-lhe à responsabilidade, e atribuindo todas as acusações de corrupção a uma conspiração das elites e da mídia - ainda que quase toda ela esteja em seu bolso, literalmente - para desestabilizar o melhor governo da história da humanidade.
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Dono de uma fé absoluta e de uma certeza inabalável na justeza de sua causa, o militonto vê a si mesmo como um herói e um grande humanista, o paladino da ética e da virtude - mesmo que, para atingir seu objetivo, atire a ética e a virtude pelo ralo. Os mais extremados dentre os membros dessa fauna - sempre há uns mais radicais do que outros, num processo centrípeto sem fim - costumam denunciar seus ex-companheiros, considerando a corrupção um "desvio de rota" da ideologia original, supostamente pura e imaculada - coisa "de direita", enfim. Assim, "racham" e formam novas siglas, que, não considerando a sigla-mãe suficientemente esquerdista, apenas repetem a trajetória daquela de onde vieram, num processo de metástase.
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Messiânico, o militonto faz uma distinção entre o "legal" e o "legítimo", defendendo o "Direito achado na rua". Assim, não mede esforços para colocar um figurão na cadeia e fazer justiça, ainda que à custa da própria Justiça. Não raro, enxerga a Lei como um obstáculo, e não como um instrumento ("um mero pedaço de papel"), a serviço do que considera ser a verdadeira justiça - ou seja, aquilo que considera os verdadeiros anseios da sociedade, dos quais se diz o legítimo porta-voz e cumpridor implacável. Crê que pensar criticamente é falar mal do capitalismo e elogiar o socialismo. Adora falar em democracia e em direitos humanos. Menos em Cuba e na Coréia do Norte.
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O segundo tipo, mais numeroso que o primeiro e menos do que o terceiro, mas nem por isso menos importante, é o simpatizanta, o simpatizante anta. Não é radical como o militonto, mas endossa todas as suas atitudes. Não sendo abilolado o suficiente para pertencer à primeira categoria, nem cara-de-pau o bastante para ser do outro tipo, prefere o meio-termo. Na verdade, é um militante envergonhado, que não quer se comprometer, adotando uma posição bastante cômoda, oferecendo apoio na retaguarda. Atua como o torcedor que prefere assistir ao jogo em casa, com cervejinha e em frente à TV, longe da agitação da geral, para não correr riscos.
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Geralmente, de forma inconsciente, o simpatizanta torce pelo PT e pela esquerda, ou melhor, contra o DEM e o PSDB, não porque se identifique plenamente com as teses esquerdistas, mas porque teme passar por "direitista" ou "reacionário" na roda de amigos, quase todos eles também de esquerda ou simpatizantas como ele. Acredita piamente que a esquerda é o lado do bem e do justo e que seu apoio tácito a ela não é um compromisso com mensaleiros e aloprados. Geralmente um bom sujeito, do tipo que tem muitos amigos, seu maior medo é passar por chato ou inconveniente. Sua maior ambição na vida é ser reconhecido como uma boa pessoa e seguir a multidão, que para ele está sempre certa. Antigamente, era chamado de "inocente útil".
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Finalmente, o terceiro tipo: o equilibesta, ou filósofo do equilíbrio, ou radical da isenção. Filho dos tempos pós-modernos, é o tipo mais numeroso de todos, e constitui a maioria nas redações dos grandes jornais e demais veículos de imprensa. Também conhecido como "nem-nem", por basear sua visão de mundo na expressão "nem com fulano, nem com beltrano", adota como filosofia de vida o isentismo ou nenhumladismo. É o eunuco da política: se o militonto é conhecido por suas certezas absolutas e inabaláveis, o equilibesta cultiva a dúvida constante e o relativismo. Ou seja: diante de um fato ou de um personagem polêmico, temendo passar por fanático ou intolerante, ele prefere não tomar posição e ficar em cima do muro, colocando-se a favor nem de um lado, nem do outro. Dito de outro modo: seu lado é não ter lado algum. Ou: sua posição é não ter qualquer posição. Em outras palavras: o equilibesta não é contra nem a favor, muito pelo contrário. Tudo em nome da análise fria e objetiva, pautada pela mais científica isenção e pela imparcialidade salomônica.
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Com isso, bancando a Suiça, o equilibesta acredita adotar uma postura o mais possível livre de preconceitos e paixões ideológicas, esperando pairar acima da própria realidade. O que não o impede de se perfilar, quase sempre, ao lado da esquerda. É o que acontece, por exemplo, quando se revela horrorizado com a invasão do Iraque pelos EUA ou com os mortos por Pinochet no Chile, enquanto silencia ou tenta mostrar-se neutro diante da agressão da Rússia à Geórgia ou de ditaduras como a dos irmãos Castro em Cuba. Tudo em nome da moderação, claro.
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Geralmente um indivíduo com certo nível intelectual, que lê bons livros e escuta bons discos, dono de gostos artísticos e estéticos, sobretudo musicais, bastante sofisticados, o equilibesta adora detonar o Bush e seus aliados, culpando a eles e ao "imperialismo do Ocidente" pelo terrorismo da Al Qaeda e das FARC. Obcecado por ser isento e orgulhoso de sua própria imparcialidade, que confunde com neutralidade e justiça, tem verdadeiro horror a tudo que lhe pareça partidarismo. No entanto, jamais se viu nenhum deles condenar com a mesma veemência os mais de 100 milhões de mortos pelo comunismo no século XX, pelo menos da mesma maneira como condenam e denunciam os crimes, reais ou não, do "capitalismo" e da "direita". No máximo, afirma a equivalência moral entre comunismo e nazismo, esquecendo-se que este último, ao contrário do primeiro, jamais se proclamou um novo humanismo, assim como da quantidade de vítimas, bem maior no caso do comunismo. Se estivéssemos na década de 30, o defensor do equilíbrio e da eqüidistância estaria a favor da neutralidade entre Churchill e Hitler, ou entre Roosevelt e Mussolini. Tentaria achar um juste milieu, certamente, até entre o Gulag soviético e os fornos crematórios de Auschwitz. Proclamaria a impossibilidade de tomar uma posição a favor da democracia ou do totalitarismo e iria dormir.
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Do mesmo modo, o equilibesta defende a equivalência moral entre o terrorismo islamita e aqueles que o combatem, como Israel e os EUA. Imparcial, acredita que o ódio que os fundamentalistas islâmicos cultuam contra o Ocidente é culpa do próprio Ocidente, sem se importar com o fato de que isso equivale praticamente a culpar as vítimas pelos atentados. Considera irracional e truculento qualquer um que aponte a diferença entre quem faz pessoas inocentes em pedaços em explosões destinadas intencionalmente a fazer o máximo possível de vítimas e corta cabeças de inimigos por não terem a mesma religião e quem, por sua vez, usa a força para punir os responsáveis por atrocidades desse tipo e, no caminho, faz vítimas de forma não intencional. Ou entre quem rouba desbragadamente em benefício próprio e quem rouba dizendo fazê-lo em nome de altos ideais humanistas. Ignora que, diante da morte e da mentira, não fazer nada já é tomar uma posição. Mesmo assim, defende com unhas e dentes a neutralidade entre a corda e o pescoço, entre a bala e o peito. Por trás disso tudo, é fácil perceber, o que existe é apenas o medo elementar de fazer escolhas morais.
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Os três tipos acima citados se complementam, um não existiria sem o outro. Não haveria militontos se não houvesse os simpatizantas, nem equilibestas, para lhes dar corda. E vice-versa.
Os três tipos .
Esse é um pequeno mostruário de alguns tipos que já se tornaram dominantes entre nós. Podem-se encontrá-los com facilidade em qualquer lugar, em qualquer conversa: no trabalho, nas escolas, nas igrejas, nas festas de fim de ano, nos batizados, nas mesas de bar. Esses três tipos, além dos oportunistas de sempre, compõem a base de apoio do atual governo do Brasil.