terça-feira, novembro 18, 2008

Um texto primoroso de João Pereira Coutinho

Quero ser o primeiro a reproduzir na blogosfera o texto de hoje do João Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo. Simplesmente primoroso. Vai ao encontro de muita coisa que tenho escrito aqui sobre o assunto, principalmente sobre o Iraque. Deveria servir de leitura obrigatória para todos os antiamericanos de plantão, que vêem em Bush - e não em Bin Laden ou em Ahmadinejad - a encarnação do demônio. Confiram.
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George Bush não existe
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João Pereira Coutinho
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Eu sou um masoquista. De vez em quando, entro em certas salas de cinema com a certeza absoluta de que irei sofrer horrores. E sofro. Mas sofro com um sorriso nos lábios. Serei normal?
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Oliver Stone é um caso. Nunca, em toda a minha vida, assisti a um filme de Oliver Stone que não fosse medíocre e desonesto. Mas, ano após ano, não desisto: compro o bilhete, entro na sala e sofro, sofro, sofro.
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Esse ano, foi "W", o filme que Stone preparou para se despedir de George W. Bush. E que tem Stone para nos dizer sobre o Belzebu?
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Usando metade do cérebro, Oliver Stone evita o clichê sacramental: apresentar Bush como um pobre ignorante do Texas que pensa e age como um símio. Para desânimo de milhões de idiotas do mundo inteiro que se sentem estupidamente inteligentes porque acreditam que Bush é estupidamente analfabeto, Stone não cai nessa tentação.
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Mas não consegue evitar outra: espalhar a sombra de Bush (pai) sobre Bush (filho). Os mandatos de Bush são reduzidos a um drama freudiano em que George W. Bush apenas pretende o amor de seu pai homônimo.
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A invasão do Iraque, por exemplo, não é o resultado de um pensamento estratégico da administração americana; não é baseada em informação, errada ou parcelar, dos serviços secretos; e jamais é percepcionada como punição pelo fato de Saddam Hussein violar as resoluções da ONU.
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Caçar Saddam é mera vingança: o carniceiro de Bagdá tentara matar Bush (pai). O filho, no papel de Rambo, pretende agora vingar o pai e ser finalmente reconhecido por ele. O Bush de Stone não inspira ódio; inspira pena. Uma amiga minha, feroz anti-bushista, terminou o filme com vontade de abraçar o presidente.
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O filme de Oliver Stone tem uma moral: os anos de Bush ainda não são pensáveis racionalmente. São tema para ignorâncias várias que disputam uma versão do presidente sem reconhecerem a complexidade, e mesmo a ambigüidade, que existe em qualquer estadista.
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Para uns, Bush é a encarnação do demônio. Para outros, o presidente certo em tempos de guerra incertos. Para outros ainda, um pobre de espírito e um ignorante sem perdão.
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Mas o retrato, a poucos dias do fim, não autoriza nenhuma dessas versões. E o tempo acabará por fazer com Bush o que fez igualmente com Truman ou mesmo Nixon: conceder-lhe um lugar, alguns méritos e alguns deméritos.
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Comecemos pelo Iraque. Um erro monstruoso, que alimentou Guantánamo, os escândalos de Abu Ghraib e a emergência do Irã como potência regional a caminho da bomba? Provavelmente, sim.
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Mas a invasão do Iraque, por outro lado, terminou com o reinado de um dos maiores déspotas da história moderna e um patrocinador reconhecido do terrorismo do Oriente Médio. E se a guerra iraquiana parecia perdida há quatro anos, é hoje consensual que o aumento de homens no terreno pacificou o país e pode produzir uma democracia funcional. Não é coisa pouca.
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Como não é coisa pouca o fato de os Estados Unidos não terem sofrido outro 11 de setembro. Isso fez-se com o sacrifício de algumas liberdades civis? Também é verdade, e o próximo presidente deverá reequilibrar a velha equação entre segurança nacional e liberdade individual. Mas Bush entendeu, depois do 11 de setembro, que era necessário desacreditar as ideologias islamitas a que alguns países davam abrigo, como a Arábia Saudita e o Paquistão, hoje irreconhecíveis. E ainda está por escrever a história completa dos operacionais da Al Qaeda que as forças americanas eliminaram. A Al Qaeda de 2008 é uma sombra da Al Qaeda triunfal de 2001.
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O que resta? Resta um déficit gigantesco, a que a crise econômica e financeira dá uma expressão dramática. Inegável. Mas resta também uma ajuda humanitária ao flagelado continente africano sem paralelo na história dos Estados Unidos. O combate à AIDS, por exemplo, contou com US$ 15 bilhões; contra a tuberculose e a malária, com US$ 48 bilhões. E perdoou-se a dívida externa a 19 países africanos, qualquer coisa como US$ 34 bilhões. Estes números não têm comparação com qualquer outro presidente americano, Bill Clinton incluso. Na hora do adeus, África já sente saudades de Bush.
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E o mundo?
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O mundo discute se Bush foi um herói, um vilão, um idiota. Ou, como Oliver Stone, um Édipo invertido, disposto a ganhar o amor do pai pela força das armas contra Saddam. Cautela, gente: Bush não existe como caricatura. E pensar com metade do cérebro não é coisa de pessoas racionais.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Resposta a uma leitora muito tolerante


"E se contar aquela piada de bichinha, eu prendo e arrebento!"


Recebi um comentário muito delicado, de uma conterrânea minha. Trata-se de alguém, como vocês verão, muito tolerante com as opiniões alheias, muito aberta ao diálogo franco e democrático, além de muito civilizada, com uma linguagem bastante elevada. O comentário em questão foi sobre meu texto "A Intolerância dos Intolerantes (ou: o direito de dizer besteira)", publicado aqui em 21 de abril passado. Eis aqui o comentário, o qual transcrevo na íntegra:

Ao me deparar com textos como esse[sem senso algum]eu percebo quantos imbécis existem nesse país.O fato é que vc pode usar esse espaço aqui e falar todas essas besteiras [ sim, porque vc não é homossexual, portanto, não sabe nada, digo e repito, nada sobre a dor e a felicidade de sê-lo]enquanto muitos de nós [ sim, sou homossexual, nordestina, mulher e feminista, e daí?!]não sabemos se voltaremos para nossas casas, pois nesse país, de maioria cristã, somos PERSEGUIDOS [ isso não é posar de vítima é mostrar a realidade, se informe antes de escrever sandices!] não só com palavras, mas com agressões físicas.Não só por estes cristão, mas por muitos outros que acham que estamos violando as leis divinas.Lamento por um colega de profissão [sou graduanda de história pela UFRN] tenha uma postura tão infantil diante de uma realidade tão infame e vergonhosa para nossa humanidade.

Recomendo que vc leia urgentemente Michel Foucault [ História da Sexualidade], Simone de Beauvoir [ Segundo Sexo, já que vc acha as feministas umas "vítimas-posers"].

Luci Araújo

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Pois é... Cada uma que a gente tem que agüentar em nome da liberdade de expressão, não é mesmo? Já estou acostumado com esse tipo de faniquito. Tudo bem dizer que meu texto é "sem noção" (adoro esses neologismos) e me brindar com epítetos carinhosos ("imbécil" - assim mesmo, com acento e tudo!). Também não vejo problema em dizer que uso este espaço para dizer "besteiras" e "sandices" e em lamentar minha postura tão "infantil". Não tenho problema nenhum com isso. Afinal, queira-se ou não, são opiniões também. Nada mais do que isso.

Não peço a ninguém que goste de minhas opiniões, nem que concorde com elas. É do jogo. Peço apenas que não distorçam a realidade nem queiram que eu cale a boca. E é exatamente isso que faz a autora do comentário acima, essa pérola de elegância e de argumentação lógica. A mim, podem xingar à vontade; aos fatos, não.

Comentando as "besteiras" que eu aqui digo, a amável leitora, que vai logo brandindo a sua condição de "homossexual, nordestina, mulher e feminista" (e ainda indaga: "e daí?", como se eu tivesse alguma coisa a dizer, contra ou a favor, sobre alguma dessas condições - com exceção, talvez, do fato de ser feminista, mas isso é assunto para outro post), a amável leitora, dizia eu, usa essa sua condição auto-proclamada para afirmar algum tipo de superioridade cognitiva intrínseca nessa sua "opção" sexual ("vc não é homossexual, portanto, não sabe nada, digo e repito, sobre a dor e a felicidade de sê-lo").

Bom, sobre a felicidade ou não de ser gay, confesso que não sei nada mesmo, e espero que a distinta leitora me perdoe por eu não ter a menor intenção de conhecer esse estado beatífico da natureza humana. Sou hetero, e estou muito feliz assim, obrigado. Logo, segundo o que se depreende do comentário acima, devo pertencer a uma categoria, digamos, menos evoluída, menos avançada da humanidade. Acho, portanto, que vou continuar na ignorância das delícias supostamente associadas a essa "opção", para sua tristeza...

Já quanto à suposta dor de sê-lo, a remetente parece saber bastante, a julgar pela veemência com que descreve os perigos supostamente atribuídos à condição homossexual ("muitos de nós [...] não sabemos se voltaremos para nossas casas, pois neste país, de maioria cristã, somos PERSEGUIDOS", além do mais, "não só com palavras, mas com agressões físicas").

Ao ler o que vai aí em cima, fiquei realmente preocupado, pois acreditei, por um instante, que eu vivia em um país em que não existe Democracia, nem Lei, nem Constituição - a qual, aliás, já pune com a devida sanção penal quem quer que, por qualquer motivo, encha de bolachas um travesti ou um "viadinho", pela única e simples razão de não gostar de homossexuais...

Também me imaginei, por uma fração de segundo, que no país em que eu vivia - o qual tem, diga-se, a maior "Parada do Orgulho Gay" do mundo, e que já virou até programa familiar dominical -, os gays estariam sendo vítimas de um verdadeiro "genocídio", como gostam de dizer, com campos de extermínio dedicados, 24 horas por dia, a transformar seus corpos em fumaça.

Mas aí eu acordei e percebi que o país onde eu estava era o Brasil mesmo, e não o Irã ou a Arábia Saudita. Então respirei aliviado.

Pois é. É justamente num país assim, conhecido pela tolerância com que trata os homossexuais - se têm alguma dúvida, dêem uma olhada nos programas de TV e perguntem quais atores/diretores/produtores NÃO são gays -, que uma minoria organizada de militantes profissionais e seus apoiadores estão enxergando um novo Holocausto homossexual, com neonazistas de cabeça raspada e pastores evangélicos fanáticos armados até os dentes em cada esquina.

E é num país como esse, em que todos - digo e repito: todos (heterossexuais, homossexuais, bissexuais, panssexuais, assexuados etc.) - são IGUAIS perante a Lei, que essa minoria pretende, sob a alegação de combater o preconceito (que existe, não nego), criar uma nova situação jurídica, na forma de uma lei "anti-homofóbica" que, se aprovada, irá institucionalizar o que pretende combater - ou seja: a discriminação, o preconceito, por motivo de opção sexual, apenas com o sinal trocado.

Quem perde com isso? Não o preconceito, certamente. Perde, isso sim, é a liberdade de expressão, sobretudo a liberdade de expressão religiosa (e inclusive a liberdade de os homossexuais expressarem como quiserem sua sexualidade), e a igualdade de todos perante a Lei. Enfim, a própria Democracia, que será tutelada pela censura e pela ditadura do politicamente correto.

Tudo isso, claro, não significa nada para quem escreveu o comentário transcrito acima. Para ela, Democracia e liberdade de expressão só devem existir se for para beneficiar a tribo a que pertence. Quem ousar contestar essa atitude, e lembrar que a Lei é para todos, será rotulado de "homofóbico". A que ponto chegamos.
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P.S.: Ah mais uma coisa: agradeço a sugestão de leitura. Mesmo não tendo Foucault e Beauvoir lá em alta conta em minha biblioteca particular. Faço apenas uma ressalva quanto ao "leia urgentemente". Para ler um livro, minha cara, deve-se ter tudo menos pressa. Ao contrário, deve-se ler com vagar, com calma. Assim, pelo menos, não corremos o risco de sair por aí espumando de raiva e distribuindo impropérios contra quem pensa diferente. A leitura deve ser um antídoto à intolerância, principalmente quando disfarçada de tolerância.

A ATEMPORALIDADE DO HORROR POLÍTICO - RESPOSTA A UMA LEITORA COM UMA GRANDE SENSIBILIDADE ARTÍSTICA



Há quem não veja nenhuma semelhança entre as duas imagens acima...

Aí vem uma leitora, que se assina "Sumaia Villela", e escreve o seguinte reclamando do meu texto - na verdade, da imagem que eu escolhi para ilustrar o texto - de 25 de fevereiro, "Fidel, o discurso isentista e a filosofia dos eunucos morais", em que eu comentava a reação da imprensa brasileira diante da "renúncia" do Coma Andante, depois de 49 anos mandando e desmandandado na ilha-presídio de Cuba:

"Acho que você deveria saber que o autor do quadro que ilustra seu comentário, o Goya, era revolucionário na sua época. Era simpático aos ideais da revolução francesa, que derrubou regimes monarquistas em diversos países e diminuiu seu poder nos que ainda o mantém. Essa imagem é da invasão da Espanha pela França, e, apesar de ser favorável ao lema "liberdade, igualdade e fraternidade", Goya demonstrou com muita propriedade o horror provocado pela guerra e o massacre realizado pelos franceses. Mas, infelizmente, nada tem a ver com seu assunto, e acho desapropriado utilizar uma imagem que reflete outro tempo histórico para ilustrar um assunto contemporâneo.

Não vou tocar aqui nas discordâncias elementares que tenho, só queria enriquecer seu conhecimento, porque é uma obra de arte belíssima, mas que foi utilizada erroneamente, ao meu ver."

Olha, sei que já disse isso antes, mas ô pessoal esquisito esses esquerdistas, viu? Na falta de argumentos para rebater um texto, resolvem implicar com a imagem que o ilustra. Devem se achar críticos de Arte também. Pena que, com isso, só dão com os burros n'água. Demonstram não só sua visão bastante distorcida do que vem a ser Arte, como sua incapacidade de compreender a relação desta com a realidade atual. Não entendem sequer uma associação simples entre imagem e idéia, assim como são incapazes de entender a ironia. Não deve ter sido por acaso que o melhor que produziram, em termos artísticos, foram os monstrengos do "realismo socialista"... Acho que vou precisar inserir a tecla SAP no blog.

O quadro de Goya - Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 - retrata um episódio particular da ocupação francesa na Espanha, durante a Era Napoleônica. Mas não se resume a isso, minha senhora. Como toda obra de arte, ele transcende o espaço físico e histórico em que foi produzido. O quadro é um retrato atemporal do horror político. Não se refere, portanto, a um outro tempo histórico simplesmente, sem qualquer relação com o presente. Do mesmo modo que o Guernica, de Picasso, não se resume a um episódio particular da Guerra Civil Espanhola, mas constitui um símbolo da violência política e da brutalidade fascista, até hoje capaz de nos emocionar e nos fazer pensar. É por isso que os dois quadros são obras-primas.

O que o quadro de Goya demonstra? O horror, a brutalidade de um massacre por uma força de ocupação contra um povo indefeso. Isso não ocorreu apenas na Espanha de então, mas continuou e continua a acontecer, em países como Cuba. Foi por isso que o escolhi para ilustrar meu texto sobre a ditadura dos irmãos Castro, sobre o paredón. Deve ter sido isso que incomodou a autora do comentário. Se o texto fosse sobre a ditadura de Pinochet no Chile, ou sobre Abu Ghraib, será que ela iria querer dar uma aula de História da Arte, dizendo que era "desapropriado" usar tais imagens para ilustrar um assunto contemporâneo?

Para ficar mais claro o que quero dizer, vou colocar, antepostos, o quadro de Goya e uma fotografia do paredón em Cuba. Será que agora a pessoa em questão vai dizer que estou usando imagens "erroneamente"?

O esquerdismo não embota somente a inteligência e a capacidade crítica das pessoas. A sensibilidade estética também.

segunda-feira, novembro 10, 2008

ESQUERDISTAS REACIONÁRIOS

Hitler e Stálin em caricatura de 1939, referente ao "pacto de não-agressão" entre os dois ditadores. A esquerda alia-se a fascistas e terroristas, enquanto chama a todos os outros de "reacionários"


Mahmoud Ahmadinejad mandou uma carta de felicitações a Barack Obama por sua vitória na eleição presidencial americana. Ahmadinejad é o presidente do Irã. O Irã é dominado, desde 1979, por uma teocracia islâmica ferozmente antiocidental e antiamericana, que pune com chibatadas as mulheres que mostrarem os cabelos em público e executa quem desobedece as leis religiosas. O país está há anos desenvolvendo um controvertido programa nuclear. Em seus discursos, Ahmadinejad defende, entre outras coisas, que Israel deve ser varrido do mapa. Obama já anunciou que quer conversar com Ahmadinejad. Este, claro, está feliz com a eleição de Obama. A imprensa do mundo todo, o New York Times à frente, igualmente encantada, saudou o aceno de Obama a Ahmadinejad como uma esperança de paz entre os dois países.
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Na mesma semana em que Ahmadinejad enviou sua saudação a Obama, o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, declarou esperar, ao referir-se às perspectivas das relações entre os EUA e a Rússia, que elas melhorem daqui para a frente, porque Obama é, afinal, "jovem, bonito e bronzeado". A expressão pegou mal. A imprensa italiana e mundial gritou "horror, horror" e acusou Berlusconi pelo que julgou uma imperdoável manifestação de racismo. Só faltou pedirem sua cabeça numa bandeja de prata.
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O clamor que se ergueu por causa da declaração supostamente racista de Berlusconi contrasta abertamente com o silêncio sepulcral da imprensa dita "progressista" do Ocidente em relação às declarações claramente anti-semitas e genocidas de Ahmadinejad sobre Israel, a única democracia do Oriente Médio. É que Berlusconi é um direitista, logo um reacionário. Já Ahmadinejad é um "combatente contra o imperialismo". Ah, bom.

Ahmadinejad prega abertamente a destruição de um país e o extermínio de sua população, propondo nada menos do que a reedição do Holocausto nazista. No entanto, ninguém na imprensa chique e de esquerda parece dar muita bola para isso. Estão mais preocupados com o escorregão verbal de Berlusconi, que foi quase crucificado porque se referiu, de uma maneira considerada politicamente incorreta, à cor da pele de Obama. Em um caso, há claramente a apologia do genocídio; em outro, há no máximo uma expressão infeliz de um político trapalhão. Pergunto: quem é o reacionário, Ahmadinejad ou Berlusconi?

Os esquerdistas do mundo todo estão extasiados com a vitória de Obama. Vêem nele um novo Messias, alguém acima do bem e do mal. Esquerdistas também se acham acima do bem e do mal. Julgam-se imbuídos de uma missão histórica especial, em nome da qual podem subordinar tudo: a ética, a democracia, a lógica. Crêem-se, enfim, o lado bom da humanidade, os heróis do bem, do justo e do belo, defensores de boas causas. Enfim, gente bonita e maravilhosa, tolerante e multicultural, aberta às diferenças - gente, além de tudo, bastante sofisticada, que gosta de jazz... Todos os que não partilham de seu credo, a "direita", não passam de um bando de reacionários e imperialistas, racistas, caipiras, bandidos e canalhas. Assim é também nos EUA, país que, com a eleição de Obama, ficou mais bananeiro, mais caudilhesco e terceiro-mundista, como lembrou Diogo Mainardi.

Essa impressão, que tenho há anos, foi reforçada nas últimas semanas, devido ao êxtase generalizado da oba-obamania. Uns três ou quatro dias atrás, recebi um e-mail de uma pessoa que se declarou confusa diante de um fato da realidade a que poucos prestam atenção. A questão que formulou foi a seguinte: se os conservadores americanos são protecionistas, nativistas e isolacionistas, como são geralmente descritos na mídia, então por que a esquerda americana - que votou em massa em Barack Obama - se opõe à intervenção no Iraque e no Afeganistão? A própria remetente do e-mail admite que a pergunta é meio "idiota". Eu discordo. De idiota, a pergunta não tem nada. Pelo contrário: ela demonstra o nível de empulhação e de vigarice ideológica associado à canonização de Obama, e como isso ajuda a encobrir o reacionarismo da esquerda.

Sim, a esquerda é reacionária. Por que digo isso? Porque os fatos não mentem. Vejam só. Nos EUA, país do livre comércio, quem é mais protecionista: os democratas ou os republicanos? Resposta: os democratas. Se têm alguma dúvida, pesquisem quem, no Congresso dos EUA, votou contra e quem votou a favor da manutenção dos subsídios aos agricultores norte-americanos. Os que torceram por Obama imaginando que ele seria mais aberto ao livre comércio com os países em desenvolvimento terão uma surpresa. Perguntem também qual dos dois candidatos, McCain ou Obama, fez a única referência ao Brasil durante a campanha, defendendo tarifa zero para o etanol brasileiro nos EUA. Vou dar uma dica: não era o candidato da "mudança"...

E quem é mais nativista e isolacionista? Historicamente, seriam os republicanos, a "direita", certo? Também não é bem assim. Pelo menos desde o 11 de setembro, desde que Bush mandou invadir o Afeganistão e o Iraque, como parte de sua estratégia de implantar a democracia à força no Oriente Médio para combater o terrorismo, essa escrita mudou radicalmente. Os republicanos de fato eram conhecidos por se oporem a aventuras externas, desejando limitar-se - isolar-se, é a palavra - à área de influência dos EUA, as Américas. Os democratas, por sua vez, desde o governo de Woodrow Wilson (1913-1921) se notabilizaram pelo que se chamou, depois, de "intervencionismo messiânico", a defesa de uma postura mais assertiva dos EUA, inclusive no campo militar, nas relações internacionais. Foi com base nessa postura intervencionista norte-americana que o país foi às duas guerras mundiais, contra a vontade dos isolacionistas, e foi criada a Liga das Nações, embrião da futura ONU. Pois bem. Com os atentados de 11 de setembro e a ascensão dos "neoconservadores" do Pentágono e da Casa Branca - Wolfowitz, Rumsfeld, Perle, Cheney etc. -, essa divisão entre "isolacionistas" e "intervencionistas" deixou, na prática, de existir. Ou melhor: os opositores da guerra, os "progressistas" americanos, sob o pretexto do "multilateralismo", assumiram inteiramente a atitude isolacionista, colocando-se ao lado de regimes como o do Irã e da Coréia do Norte. Os "falcões" de Bush, por sua vez, tomaram para si o cetro do intervencionismo, e nesse ínterim derrubaram duas ditaduras, levando a democracia para lugares que jamais a tinham conhecido em mais de três mil anos de História. Quem é progressista? Quem é reacionário?

Esse é o grande paradoxo dos tempos modernos: em nome da segurança, a "direita" americana, os Bush e McCain da vida, tomaram a dianteira da luta pela democracia e pelos direitos humanos no mundo. Já a esquerda, os "liberais" e "progressistas", perfilam-se ao lado das forças mais atrasadas e obscurantistas do planeta, justificando o terrorismo islamita e a tirania em países como Cuba e Coréia da Norte. Em outras palavras, defendem em Londres e em Nova York o que não têm coragem de defender em Teerã e Pyongyang. Mais uma vez, pergunto: quem é reacionário, Ahmadinejad ou Sarah Palin?

Já apontei essa contradição antes, mas vale a pena repetir: antes, os EUA eram atacados porque davam apoio a ditaduras. Eram acusados, então, de intervencionistas e anti-democráticos. Agora, os EUA são criticados por derrubar ditaduras. Até hoje não sei se é para criticar os EUA por não terem agido contra ditaduras ou por terem agido para acabar com elas, como fizeram no Iraque e no Afeganistão. Ainda espero que algum filósofo da USP me explique essa estranha dialética.

O mesmo vale para o comércio internacional. Sabe-se que os democratas costumam ser mais protecionistas do que os republicanos. No entanto, a eleição de Obama foi saudada pela esquerda mundial como o começo da redenção para os países menos desenvolvidos. A mesma esquerda dos mesmos países que costumam se queixar do protecionismo das grandes potências bate palmas, porém, para o protecionista francês José Bové, o maior inimigo das exportações brasileiras para a União Européia. Já desisti de cobrar coerência da esquerda há muito tempo. Também já desisti de indagar se, para os esquerdistas, o protecionismo é algo bom ou ruim.

Os esquerdistas, muitos dos quais torceram por Obama, vêem o capitalismo como um problema, não como a solução. Nos últimos dois séculos, o capitalismo retirou milhões de pessoas da miséria e permitiu o surgimento de regimes e sociedades democráticas. O socialismo, onde quer que se tenha instalado, só gerou opressão política e pobreza, agravando-a onde ela já existia e instalando-a onde ela era inexistente. Qual dos dois é progressista? Qual dos dois é reacionário?

Nada disso, claro, importa para os esquerdistas. Afinal, para eles, reacionários são Bush e McCain, não Bin Laden e Fidel Castro. Não surpreende que Ahmadinejad esteja tão contente com a eleição de Obama. Não surpreende que a esquerda tenha visto isso como um bom sinal.
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Se algo é bom para a esquerda, não é bom para a humanidade.

quinta-feira, novembro 06, 2008

VITÓRIA DO RACISMO


"Eu tenho um sonho... de que um dia na América um homem seja julgado por seu caráter, e não pela cor de sua pele" - Martin Luther King

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Se eu não for linchado na rua por uma multidão de esquerdistas furiosos depois deste texto, vou me convencer que vivemos realmente em um país democrático. Mas, se a linguagem não foi inventada para que digamos a verdade ou o que realmente pensamos, então deveria ser desinventada. Vamos lá.

Agora que todos (ou quase todos) choraram e se emocionaram, agora que os comentaristas da Globo ficaram com a voz embargada após repetir, 236 vezes em um único dia, a palavra "histórica" para se referir à vitória de Barack Obama, agora que Arnaldo Jabor deve estar abrindo uma garrafa de champagne pela vitória de seu candidato e pela derrota de McCain e de Sarah Palin, eu digo: a vitória de Obama foi uma vitória do racismo.

Isso mesmo. Você leu certo. Obama ganhou porque os EUA são um país profundamente racista. Infelizmente.

A vitória de Barack Hussein Obama nas eleições presidenciais norte-americanas está sendo apresentada como uma vitória dos direitos civis e da tolerância racial, um fato histórico, o primeiro presidente negro dos EUA etc etc. Beleza. Tal fato seria realmente impensável quarenta anos atrás, e a eleição de Obama, por esse ângulo, é mesmo, vá lá, "histórica". É uma prova de que a democracia americana é mesmo para valer, ao contrário do que se verifica em outras latitudes. Até aí eu concordo. Mas daí a dizer que a eleição não teve nada a ver com fatores de raça, e que seu resultado não decorreu de uma hábil manipulação emocional, e não de qualquer debate racional, em torno desse fator específico - a cor da pele do candidato -, vai uma grande diferença. Obama ganhou, entre outros motivos, porque é negro.

A que se deve o triunfo de Obama? Fundamentalmente, a quatro fatores: 1) a quantidade pantagruélica de dinheiro despejado em sua campanha, que lhe permitiu praticamente monopolizar a atenção da mídia, numa proporção de quatro para um em relação ao candidato adversário; 2) o culto da personalidade criado e explorado em níveis stalinistas em torno de sua figura por uma campanha de marketing eficientíssima e baseada em nada mais do que em palavras vazias e em slogans altissonantes ("change", "yes, we can"), fortes porque não querem dizer rigorosamente nada; 3) a crise financeira mundial; e 4) a chantagem racial.

Foi esse último fator, a meu ver, o fiel da balança da eleição presidencial deste ano nos EUA. Senão, vejamos. Se não foi pelo fator epidérmico, que outro motivo levou Obama à presidência dos EUA? Experiência? Ele não tem. Idéias? São extremamente vagas. Caráter? É no mínimo duvidoso, depois de ter passado a campanha inteira tentando (com a ajuda da grande imprensa) se esquivar de perguntas embaraçosas e se distanciar de figuras ao lado das quais sempre esteve, como Jeremiah Wright e Bill Ayers, e até mesmo de apresentar sua certidão de nascimento num processo judicial. Sobra a cor da pele. E a aura de Messias iluminado que guiará todos à terra onde jorra leite e mel.

Durante toda a campanha, Obama se esquivou do papel de "candidato negro" (ou "afro-americano"), dizendo-se apenas o candidato da "mudança", sem conotações raciais. Mas é inegável que o fato de ser negro pesou em sua campanha. Obama escolheu o dia 28 de agosto - mesmo dia do discurso "I have a dream" de Martin Luther King, em 1963 - para lançar oficialmente sua candidatura a presidente. O clima de endeusamento de sua figura apenas reforçou esse estereótipo racial. Fosse ele branco e de olhos azuis, casado com uma loura com cara de Barbie como a mulher do McCain, dificilmente seu discurso de "mudança" teria o mesmo impacto. Não deixa de ser racismo, mesmo que um racismo com o sinal trocado.

Os negros são 13% da população dos EUA. Foram somente eles que votaram em Obama? Claro que não. A maioria da população americana - branca e protestante - votou nele também. Isso significa que seu voto foi uma demonstração de tolerância e de união de toda a nação, certo? Sim e não. Sim, porque a união em torno de Obama, por um lado, transcendeu as fronteiras raciais. A tese racialista ("vitória dos negros"), assim, cai por terra. Não, porque foi justamente o fato de não ser branco, juntamente com a massiva campanha propagandística que o apresentava como o candidato "da mudança", o que levou muitos americanos brancos "progressistas" a cederem à chantagem racial (Obama era o candidato das minorias oprimidas e dos direitos civis; logo, votar em McCain seria votar no racismo e na Ku-Klux-Klan, escreveu Arnaldo Jabor). Além disso, para muitos, Obama foi eleito não porque é negro, mas porque encarnou o anti-Bush. Foi por isso que muitos brancos, e inclusive muitos republicanos, votaram nele, e não em McCain. Pode-se discutir se o fizeram pelo motivo certo (pessoalmente, acho que não), mas o fato é que, apesar disso, a eleição de Obama deve-se, também, ao fato de ele ser negro.

Negro e "de esquerda", diga-se. Basta lembrar um fato. O governo Bush - sim, Bush - já contava com dois negros proeminentes em seu primeiro escalão. Colin Powell e Condoleeza Rice - negra e mulher - exerceram o mesmo cargo, de secretário de Estado, o segundo na hierarquia da República mais poderosa do planeta. E nem por isso se viu nada semelhante, em grau de histeria, ao que se tem visto desde que foi anunciada a vitória de Barack Obama. Pelo menos não me lembro de se ter repetido na imprensa americana e mundial, até enjoar, loas ao "primeiro secretário ou secretária de Estado negro" da história americana etc. Isso se deve, claro, ao fato de a presidência ser um cargo muito mais importante, e carregar um simbolismo muito maior. Mas só em parte. O fato de Obama se apresentar como o anti-Bush e anti-republicano por excelência, é óbvio, fez aqui toda a diferença. Foi por isso que ele foi apoiado, entre outros, por Louis Farrakhan, Hugo Chávez e Ahmadinejad. Ao fator racial deve-se somar o fator ideológico.

Escolhi como epígrafe a este texto a célebre frase de Martin Luther King, que se tornou uma espécie de mantra do movimento pelos direitos civis nos EUA nos anos 60. Ela resume exatamente o que eu quero dizer. Desde que foi eleito, Obama está sendo ligado constantemente à figura de Luther King, e a essas palavras em particular. Pois a frase do líder negro assassinado em 68 significa exatamente o contrário do que representa Obama. Ele não foi eleito por seu caráter, nem por suas idéias, mas pela cor de sua pele. Martin Luther King deve estar se revirando no túmulo.

LULA, O CASTRISTA


"Não há nada que justifique na história da humanidade o bloqueio [sic] a Cuba". A frase é de Lula, ao aproveitar uma entrevista coletiva para fazer seu primeiro pedido ao novo presidente eleito dos EUA, Barack Obama. Lula quer que os EUA acabem com o "bloqueio" (na verdade, um embargo comercial norte-americano) à ilha de seus ídolos, Fidel e Raúl Castro, que ele considera "injustificável" e "insensível".

De todas as mentiras e balelas inventadas pela esquerda nos últimos cem anos, a de que Cuba só seria o que é hoje por causa do tal "bloqueio imperialista e genocida" americano é, certamente, uma das mais persistentes. E uma das que mais ofendem a inteligência. Como já afirmei aqui, não há qualquer bloqueio dos EUA contra Cuba. Há, sim, um embargo comercial, o que é algo bem diferente. E que, mesmo assim, não impede a ilha de comerciar livremente com a maioria dos países (inclusive o Brasil), recebendo milhões de dólares de exilados anticastristas que vivem nos EUA, que os remetem anualmente para suas famílias que permaneceram na ilha (a maioria, desconfio, contra a própria vontade). Na prática, portanto, o tal "bloqueio" não passa de uma desculpa retórica da ditadura cubana para justificar a repressão no país (não por acaso, os cubanos chamam o embargo, à boca pequena, de "o pretexto"). O único bloqueio imposto a Cuba é o da ditadura cubana contra seus próprios cidadãos, desprovidos de todos os direitos, a começar pelo de escolher livremente seus governantes ou de sair da ilha-cárcere. É o bloqueio da falta de liberdade, da ausência de eleições livres, do partido único, da polícia secreta, do paredón. Contra esse bloqueio Lula não fala nada. Nem vai falar.

Vamos recordar a história: o embargo foi instituído em 1962, como represália dos EUA à encampação das propriedades norte-americanas na ilha, mas também aos fuzilamentos sumários, que ocorrem a partir de 1959. Até mesmo por uma questão cronológica, não dá para dizer que o "bloqueio" seja a causa do descalabro econômico em que mergulhou a ilha a partir de então, nem muito menos da falta de liberdade em Cuba. As duas coisas se devem unicamente - repito, unicamente - à incompetência do totalitarismo castrista. Durante nada menos do que trinta anos, de 1961 a 1991, Cuba se beneficiou de uma generosa ajuda econômica da extinta URSS, na forma de subsídios, no valor de cerca de 100 bilhões de dólares. É dinheiro suficiente para alavancar a economia de qualquer país. O que se viu, entretanto, foi um festival de má-utilização de recursos, como é típico de regimes totalitários: muito desperdício com programas fracassados socialistas, muita gastança inútil em guerras no estrangeiro. No começo dos anos 80, com toda a mesada da URSS, a renda per capita de Cuba já havia declinado do terceiro para o 15o lugar na América Latina, e a população sobrevivia na base da libreta de racionamento. O país já estava no buraco. Não me venham dizer que isso é culpa do "bloqueio" americano, por favor.

Suponhamos, por um momento, que Obama, ou qualquer outro presidente americano, faça o que Lula deseja e resolva negociar o fim do embargo com Cuba. Imaginemos a seguinte troca: os EUA levantam o embargo à ilha e os irmãos Castro convocam eleições livres e democráticas, libertando os presos políticos e eliminando a censura à imprensa. O mesmo para Guantánamo: os americanos fecham a prisão e devolvem a base aos cubanos, em troca da permissão do governo de Raúl Castro para a formação de partidos políticos plurais na ilha. Será que Raúl aceitaria esse trato? Duvido.

Mas então, por que diabos existe o embargo? A resposta está num fato ignorado pelos fãs de Fidel e sua ditadura jurássica: desde que os irmãos Castro tomaram o poder, no longuínquo ano de 1959, cerca de dois milhões de cubanos e seus descendentes fugiram da ilha-prisão, da ilha-Alcatraz, em busca de liberdade. A maioria desses refugiados nunca teve nenhuma relação com o regime deposto por Fidel e os barbudos. São pessoas que, em sua imensa maioria, perderam tudo que tinham, inclusive a liberdade, e não encontraram outro caminho senão agarrar-se a uma bóia e atirar-se ao mar, rezando para não morrerem afogados ou virarem comida de tubarão na travessia. Muitos fugiram quando ficou claro que Fidel não cumpriria sua promessa de convocar eleições livres e restaurar a Constituição democrática de 1940, implantando, em lugar disso, sua ditadura pessoal apoiada pelos comunistas.

Mesmo assim, a propaganda castrista considera todos os exilados e dissidentes uns gusanos, literalmente, "vermes", no pior estilo stalinista. Vou repetir quantos são: dois milhões. Cuba tem 11 milhões de habitantes. Numa conta rápida, se Cuba fosse o Brasil, seria algo como 40 milhões - quarenta milhões! - de refugiados políticos. Pois bem. São esses exilados, concentrados principalmente na Flórida, que pressionam os congressistas americanos para manter o embargo. Para os EUA, pouco se lhes dá manter o embargo ou não: trata-se de uma questão interna da política norte-americana. O embargo é a melhor maneira de pressionar o regime cubano e obter algumas reformas? Pode-se discutir isso. Mas pode-se censurar os exilados cubanos por quererem que a ditadura de Fidel e Raúl seja pressionada? Sinceramente, creio que não.

Tudo isso prova apenas uma coisa: o embargo é uma desculpa do regime de Havana e de seus apoiadores, como Lula, para a eternização da ditadura mais sanguinária da história da América Latina e a mais antiga do planeta. Nada mais do que isso. Dissidentes foram presos? É culpa do "bloqueio". Mais um que tentou fugir da ilha foi fuzilado? É culpa do "bloqueio". Falta carne e papel higiênico no mercado? Culpe o "bloqueio", claro. O país não tem eleições democráticas nem imprensa livre? Idem, ibidem. E assim por diante. E muitos trouxas caem nesse truque, ou com ele compactuam. O regime cubano é uma ditadura sustentada por democracias. Uma aberração, em todos os sentidos. Uma aberração cheia de amigos, como Lula.

A mentira da vez é dizer que é preciso "ajudar" o governo cubano, impedir seu "isolamento", a fim de contribuir para a "democratização" da ilha. Este é o discurso oficial brasileiro. É uma farsa, está óbvio. Cuba já recebeu - e recebe - ajuda demais de outros países, e até agora isso não fez o país avançar um milímetro em direção à democracia. Pelo contrário: serviu apenas para reforçar e fortalecer a ditadura, que só se mantém devido à repressão política e aos amigos que tem no exterior. A História demonstra que regimes totalitários são irreformáveis, e que ou entram em colapso ou se perpetuam.

Para termo de comparação, lembremos que o regime racista do apartheid na África do Sul, por exemplo, não desapareceu por causa de nenhuma "ajuda" recebida do exterior, mas devido a um cerco ferrenho e intransigente das democracias ocidentais e dos demais países africanos, que incluiu até mesmo um boicote no campo esportivo. Algo semelhante ocorreu com outras ditaduras latino-americanas, como a de Fulgencio Batista, na própria Cuba. Esta só caiu, ao contrário da lenda revolucionária criada posteriormente e sistematicamente explorada por Fidel Castro, porque perdeu o apoio dos EUA, e não por causa da luta de guerrilha na Sierra Maestra. Lula esteve em Cuba há alguns dias. Na ocasião, anunciou a intenção de seu governo de tornar o Brasil o principal parceiro de Cuba. Assim como Hugo Chávez, ele deve estar preocupado com o destino da ilha-presídio. Vai que um dia aquilo ali vira uma democracia...

Não há nada na história da humanidade e do universo que explique a devoção dos lulistas pela castradura cubana. Assim como já fizeram com a ética e a coerência, Lula e os petistas já mandaram a democracia para o beleléu. Ou para a Cuba que os pariu.

quarta-feira, novembro 05, 2008

O MINISTRO TERRORISTA


Notícia da Folha de S. Paulo, volto depois.

05/11/2008 - 10h47

Esquerda armada não é terrorista, diz Tarso

da Folha Online

O ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que os grupos de esquerda que adotaram a luta armada contra a ditadura militar "não podem ser classificados como terroristas". Tarso disse, porém, que a luta armada foi "um equívoco", apesar de essa decisão ser "compreensível historicamente", informa nesta quarta-feira reportagem de Kennedy Alencar, publicada pela Folha (a íntegra está disponível apenas para assinantes do jornal e do UOL).

"No caso brasileiro, um ou outro ato de terrorismo pode ter acontecido, mas não houve nenhuma organização que usasse os métodos do terror como prática permanente", disse.

A Folha indagou Tarso a respeito da declaração do ministro Gilmar Mendes, que afirmou que o "crime de terrorismo é imprescritível". O ministro da Justiça disse que não responderia especificamente ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), mas aceitou conversar em tese sobre o tema.

"Se o Ministério da Justiça não tiver opiniões a respeito dessas questões, emitidas com respeito a quem pensa diferente, não cumpre a sua função política institucional."

Comento
O que dizer de Tarso Genro? Vocês o conhecem. Ele já deportou, na calada da noite e em cumplicidade com Hugo Chávez, dois atletas cubanos que queriam fugir da ilha-prisão de Cuba, servindo de capitão-do-mato do tiranossauro Fidel Castro. Já recebeu em audiência agitadores armados que, um dia antes, haviam promovido uma arruaça a tiros em frente ao palácio do governo de São Paulo, ferindo com um balaço de pistola 9 milímetros um comandante da PM. Agora, de uns tempos para cá, encasquetou de querer mudar a Lei - no caso, a Lei de Anistia, de 1979. Quer porque quer, juntamente com Dilma Rousseff e Paulo Vanucchi, revogar a lei para que puna apenas um lado - o lado da repressão. Diante do chamado à razão - e à Lei - por parte do Ministro Gilmar Mendes (ainda há juízes em Brasília, felizmente), que apontou para o caráter imprescritível do crime de terrorismo (assim como o de tortura), Tarso não se fez de rogado: o que a esquerda armada praticou no Brasil nos anos 60 e 70 não foi terrorismo, diz ele.

Dita por uma pessoa comum, a afirmação acima seria apenas um equívoco histórico, ou mera demonstração de ignorância ou má-fé. Mas Tarso Genro não é um cidadão comum. É ninguém menos do que o Ministro da Justiça. Isso quer dizer que ele é, em teoria, a pessoa nomeada para tratar dos temas da Justiça no País e, como ele mesmo diz, emitir opiniões a respeito de assuntos concernentes, o que seria sua função constitucional. Acontece que, com ele, Tarso, o cargo passou a ter outra função: mistificar e distorcer a História para justificar o revanchismo.

Tarso Genro diz que a luta armada não pode ser classificada como terrorismo, mas como um "equívoco", além do mais, "compreensível historicamente". Duas conclusões lógicas decorrem inevitavelmente dessa afirmação. Primeiro, a repressão, a tortura e o AI-5 não foram, portanto, crimes, mas igualmente "equívocos", e "compreensíveis historicamente". Segundo, Tarso está em franco desacordo com os próprios militantes de esquerda que pegaram em armas no Brasil. Militantes como Carlos Mariguella, o principal ideólogo da luta armada, que em seus escritos - entre eles o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, que se tornaria um clássico - disse coisas doces como as que seguem:

"Hoje, ser terrorista é uma condição que enobrece qualquer homem de honra porque isto significa exatamente a atitude digna do revolucionário que luta, com as armas na mão, contra a vergonhosa ditadura militar e suas monstruosidades". Citado em Elio Gaspari, A Ditadura Escancarada, 2002, p. 142.

"Sendo o nosso caminho o da violência, do radicalismo e do terrorismo (as únicas armas que podem ser antepostas com eficiência à violência inominável da ditadura), os que afluem à nossa organização não virão enganados, e sim, atraídos pela violência que nos caracteriza" ("O papel da ação revolucionária na Organização"). Citado em Daniel Aarão Reis Filho e Jair Fernandes de Sá, Imagens da Revolução, 1985, p. 212.

"Ao terrorismo que a ditadura emprega contra o povo, nós contrapomos o terrorismo revolucionário" - "La lutte armée au Brésil", novembro de 1969 - citado em Elio Gaspari, A Ditadura Envergonhada, 2002, p. 106.

Como se vê, das duas uma: ou Tarso Genro tem razão, e nesse caso Mariguella era um grande mentiroso, ou é ele, Tarso, que está mentindo. Fico com a segunda opção.

Mas Tarso Genro não se dá por satisfeito. Ele afirma ainda que "nenhuma organização armada [de esquerda] empregou os métodos de terror como prática permanente". Deve ter esquecido que a organização de Mariguella, a ALN, como os trechos acima não deixam dúvidas, abraçou o terrorismo de forma permanente como sua principal - a partir de certo momento, a única - forma de luta. E que foi seguida, nesse caminho, por outras siglas, como a VPR, o MR-8 e a VAR-Palmares, das quais participaram, como militantes, vários integrantes do atual governo. E que, nesse trabalho permanente, foram mortos e feridos não somente agentes da repressão, mas vítimas inocentes, atingidas em assaltos a bancos, seqüestros e atentados à bomba. Nenhum parente das pessoas mortas pela esquerda armada, cujo número total chega a 119, ao contrário das famílias dos 376 (ou 424, em outra contagem) mortos pela repressão política, recebeu, até o momento, nenhuma indenização do governo federal, nem mesmo um pedido de desculpas. Sabe-se que há casos, inclusive, de membros das próprias organizações armadas de esquerda fuzilados por seus próprios companheiros de luta. Mas isso não interessa a Tarso Genro.

A discussão sobre a revisão ou não da Lei de Anistia já se transformou num circo montado por Tarso Genro e outros que, como ele, querem reescrever a História para condenar os que combateram a esquerda e louvar os que cometeram atos terroristas. É uma iniciativa que se baseia em três falácias. A primeira já foi mencionada, é a que afirma que o terrorismo da esquerda não era terrorismo. A segunda sustenta o mito de que a luta armada de esquerda era uma forma de resistência democrática contra a ditadura militar. Contra a ditadura militar, não há dúvida que era, mas daí a dizer que os terroristas de esquerda queriam a democracia vai uma distância muito grande. As primeiras ações armadas de esquerda ocorrem ANTES do AI-5 - geralmente considerado o "momento inicial" da guerrilha no Brasil pela historiografia de esquerda -, com atentados como a explosão de uma bomba no aeroporto dos Guararapes, em Recife, que deixou dois mortos e 17 feridos em julho de 1966. Além disso - pesquisem se quiserem -, o projeto guerrilheiro era anterior ao próprio regime de 64, sendo levado adiante pelas Ligas Camponesas de Francisco Julião desde pelo menos 1961, em pleno regime democrático. Não há nenhum documento, um mísero pedaço de papel sequer - e olhem que a esquerda sempre foi pródiga em produzir manifestos, panfletos e resoluções - atestando que a democracia era o objetivo dos grupos armados de esquerda. Pelo contrário: como mostram Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá, TODOS os grupos da esquerda radical do período viam no socialismo, e não na democracia, o objetivo a ser alcançado; o que os guerrilheiros desejavam não era restaurar o status quo ante, mas implantar no Brasil um regime político semelhante ao de Cuba ou da China de Mao Tsé-tung. Em outras palavras: não lutavam pela democracia, mas para substituir uma ditadura por outra, muito mais terrível e assassina. Em nome desse objetivo, os militantes das organizações armadas de esquerda no Brasil mataram 119 pessoas, muitas delas sem nenhum envolvimento com os órgãos de repressão. Mas isso não é terrorismo, segundo Tarso Genro. Vale lembrar: esse é o mesmo governo que se recusa a considerar os narcobandoleiros marxistas das FARC terroristas.

A terceira falácia está diretamente ligada às demais, e vem agora sendo reforçada pela campanha revanchista de Tarso Genro et caterva. Trata-se de uma tentativa de politizar e de ideologizar o tema dos direitos humanos. Isso a esquerda vem fazendo de forma sistemática, diariamente, em relação à questão dos "anos de chumbo" do regime militar no Brasil. Para Tarso Genro, assim como para Dilma Rousseff, a esquerda é sempre vítima, jamais culpada. O terrorismo que ela pratica não é terrorismo; o combate a ele, sim. Logo, os mortos pelas mãos da esquerda, mesmo que simples transeuntes ou clientes de banco, não são vítimas - ou mereceram morrer, ou foram simples "danos colaterais" de uma luta necessária. A morte de um guerrilheiro, mesmo que em combate, porém, é algo terrível e escandaloso, que precisa ser denunciado. É uma maneira de dizer que os terroristas eram moralmente superiores aos torturadores, ou de afirmar, subrepticiamente, o seguinte: "Nós, da esquerda, podemos fazer o que aos demais mortais é vedado. Podemos matar, roubar, seqüestrar, explodir bombas, e estaremos fazendo algo glorioso e profundamente humanista. Todos aqueles que se colocarem em nosso caminho rumo ao comunismo são vermes e merecem ser esmagados".

A Lei de Anistia perdoou os dois lados, torturadores e terroristas. Foi justa? Pode-se discutir isso. Mas uma coisa é certa: tivessem os esquerdistas ganho a parada e tomado o poder, certamente o outro lado não teria sido perdoado. Aí está Tarso Genro para provar isso.

Ah, gostaram da foto? Adivinhem quem é o sujeito amarrando a venda nos olhos do prisioneiro prestes a ser executado pelo pelotão de fuzilamento: é Raúl Castro, irmão do Coma Andante e atual manda-chuva da ilha de Cuba. A foto é de 1959, quando Raúl e seu irmão Fidel tomaram o poder e passaram a pôr em prática, imediatamente, sua "justiça revolucionária". Raúl, que virá ao Brasil em dezembro, é um dos ídolos de Tarso Genro e Paulo Vanucchi, e é interpretado pelo galã Rodrigo Santoro num filme-exaltação sobre Che Guevara lançado no mês passado num festival de cinema em São Paulo. É mais uma prova do grande humanismo da esquerda, de seu compromisso inquebrantável com a democracia e os direitos humanos... Ou, quem sabe, um simples "equívoco", "compreensível historicamente", como diria Tarso Genro.
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MEMENTO MORI

Conforme até as pedras do Capitólio já sabiam, Barack Hussein Obama foi eleito o 44o presidente dos EUA, por 66% dos votos. Como também não poderia ser diferente, os jornais do mundo todo o aclamam como "o primeiro presidente negro" e outros clichês do tipo, repetidos ad nauseam para definir uma eleição (para usar outro clichê) "histórica". Um dia após sua consagração nas urnas, mensagens de felicitações surgem de todas as partes do planeta. Lula já declarou que a a eleição de Obama foi "uma vitória da democracia" (se fosse McCain o vencedor, teria ele dito o mesmo?). Enfim, a glória.

Na Roma Antiga, quando um general voltava de uma campanha vitoriosa e era recebido em triunfo, com uma coroa de louros e em uma carruagem puxada por quatro cavalos, um escravo era designado para gritar, em meio aos vivas e às aclamações da multidão: "Memento mori", ou "memento te humanun esse". A expressão significa algo como "lembre-se que você é (apenas) humano e que morrerá um dia". Era uma forma de impedir que a vaidade e a soberba subissem à cabeça dos comandantes militares romanos, recordando-lhes, em seu momento de maior glória, que tudo aquilo era efêmero, que eles eram simples mortais, que não eram, em sua essência, diferentes do restante da humanidade. Uma forma de fazê-los descer do salto ou baixar a bola, diríamos hoje. Pois bem. Eu sou o escravo que diz, destoando do êxtase geral em relação a Obama: "Memento mori". Eu sou o escravo que repete, para que todos ouçam: "Memento te humanum esse".

Obama terá uma dura tarefa pela frente: além de enfrentar os problemas que afligem os EUA e o mundo - duas guerras, uma crise financeira mundial, o terrorismo islamita, o antiamericanismo perene -, terá que lidar, de agora em diante, com os frutos amargos do mito criado em torno de sua figura. Este será, a meu ver, seu maior desafio.

Será uma decepção, claro. Tantas foram as esperanças depositadas em Obama, o candidato da "mudança", que dele não se espera menos do que separar as águas do Mar Vermelho e conduzir todos à Terra Prometida. Duvido que Obama irá cumprir pelo menos metade do que se espera dele. Se quiser governar, ele terá de administrar uma série de expectativas resultantes do oba-oba de campanha, o que significa: terá que contrariar muitos dos que o apoiaram, ao mesmo tempo em que terá que provar, todos os dias, que é mesmo "O Escolhido", o Messias que irá resolver todos os problemas da humanidade.
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Como vocês sabem, torci por MCain, embora sem muita esperança. Não porque eu seja um admirador do velho senador republicano do Arizona, mas porque não engoli o mito Obama desde o começo. Torci sem muita convicção, claro, pois desde o princípio percebi que, a depender da cobertura dos meios de imprensa, Obama já estava eleito, ou melhor, ungido, o novo presidente dos EUA. A eleição presidencial americana foi transformada em uma luta do bem contra o mal, em que só um lado - o de Obama, claro - poderia ganhar. Qualquer outro resultado que não fosse sua vitória acachapante seria descartado como ilegítimo, até mesmo como um golpe dos racistas brancos e da KKK, como gosta de dizer Arnaldo Jabor. Obama foi canonizado antes de ser eleito. Diante disso, todos os pontos obscuros sobre sua vida - e que permanecem sem resposta -, como sua verdadeira nacionalidade e suas conexões com terroristas como Bill Ayers foram rapidamente colocados debaixo do tapete. Até McCain, ao que parece, deixou-se intimidar por essa avalanche pró-Obama, repetindo em seus discursos que ele, Obama, era "um homem decente". Com um adversário assim, pronto a defendê-lo, Obama nem precisava ter gasto tanto dinheiro em sua campanha.

Não digo que Obama seja um Cavalo de Tróia que a Al-Qaeda e Osama Bin Laden infiltraram no establishment dos EUA para destruir a civilização ocidental judaico-cristã. Não compartilho dessa visão conspiratória. Digo, isso sim, que ele deve explicações. E há muita coisa para ser explicada. A começar por seu verdadeiro local de nascimento. Há algumas semanas, encerrou-se o prazo dado em um processo legal movido por um advogado da Pensilvânia (aliás, democrata) para que ele, Obama, mostrasse o original de sua certidão de nascimento (vejam aqui: http://www.obamacrimes.com/). O prazo chegou ao fim, e Obama se recusou a apresentar o documento. Pela lei, isso equivale a uma confissão de que ele nasceu não no Havaí, como alega, mas no Quênia, o que o torna legalmente inelegível. Em outras palavras, o novo presidente da maior potência do planeta irá assumir o cargo sob o signo da suspeição em torno de um dado básico de sua biografia. E isso é apenas a ponta do iceberg.

Os próximos quatro anos verão o declinar de um mito - o mito Obama, o maior dos últimos tempos. Anotem aí. Guardadas as devidas proporções, ocorrerá, com o novo mandatário americano, o mesmo que ocorreu - bem menos do que deveria, é verdade - com outro mito surgido mais ao sul, o mito Lula, desde que este assumiu a presidência de Banânia, em 2002. Na ocasião, vocês lembram, Lula também não foi eleito: foi aclamado. Bastaram pouco mais de dois anos para que, de santo milagreiro que era, o Apedeuta se visse desmascarado como o chefe de uma quadrilha de aloprados e mensaleiros. Apesar de diferenças óbvias - a formação escolar e a origem social, por exemplo -, é inegável que Obama e Lula têm muito em comum. Ambos foram elevados aos píncaros da santidade por um culto de suas personalidades sem paralelo na história de seus países. Ambos foram aclamados como os novos Messias e apoiados entusiasticamente pela esquerda. Boa coisa não pode vir daí.

Hoje, o mito Lula só persiste devido ao silêncio cúmplice da imprensa, que cala diante das evidências irrefutáveis de seu papel protagônico no maior escândalo de corrupção da História do Brasil, além da permanência de uma certa mentalidade bolorenta e politicamente correta, que prefere um presidente corrupto "de esquerda" a um honesto "de direita" - sem esquecer, claro, o Bolsa-Família, o voto de cabresto em versão federal. E Obama, o que farão para defendê-lo seus seguidores quando o mito criado em torno dele começar a fazer água? Não terão mais um Bush por perto para demonizar e culpar por todos os problemas. Só lhes restará apelar para a chantagem racial. Tudo para manter viva a chama da "mudança". A conferir.

terça-feira, novembro 04, 2008

FARSA HISTÓRICA

Escrevo este texto meio que às pressas na tarde de 4 de novembro, quando ainda não foi divulgado o resultado da eleição americana. O novo presidente dos EUA só será anunciado, diz a TV, às 11 horas da noite, horário de Washington. Portanto, quando não se sabe ainda quem ganhou a eleição. Independentemente do resultado, porém, creio que já é possível tirar algumas conclusões a respeito do pleito presidencial na terra do Tio Sam.
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A primeira conclusão, na verdade, não é sobre as eleições, mas sobre como a imprensa - de lá e de cá - cobriu a campanha dos dois candidatos. O que houve não foi a cobertura da eleição nos EUA: foi a cobertura da eleição de Obama. Desde o momento em que o candidato democrata entrou na corrida presidencial, não passou um único dia sem que a palavra "histórico" não fosse utilizada para se referir a ele. Pela primeira vez, viu-se um candidato que fazia discursos que já nasciam "históricos" antes mesmo de serem pronunciados. Além disso, todos os pontos nebulosos de sua biografia - e são muitos! -, como sua verdadeira nacionalidade, além de seu relacionamento com figuras sinistras como Jeremiah Wright e William Ayers, foram rapidamente encobertos pela imprensa, que preferiu falar das gafes e do penteado de Sarah Palin a dar crédito ao que chamou, desdenhosamente, de "rumores da internet". Com uma cobertura favorável assim, além de gratuita, Obama nem precisaria dos milhões a mais de seu caixa de campanha.
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Isso nos leva à segunda conclusão. De fato, a campanha deste ano nos EUA foi sui generis. Obama foi eleito muito antes do dia de hoje, pela grande mídia americana, por Hollywood, pela Globo, pela Folha de S. Paulo, por Arnaldo Jabor... Aliás, acabo de ler um texto dele, Jabor, em que, com seu estilo habitual, ele chama todos os eleitores de McCain de idiotas e racistas. Desde o dia em que se definiu a candidatura democrata, apenas um resultado - a eleição de Obama - foi apresentado como legítimo. Desconfio até que, se der zebra e McCain sair vitorioso das urnas, se erguerá um coro de vozes alegando que a eleição foi uma fraude e pedindo sua anulação, levando a uma crise institucional. Sabem como é: Obama já ganhou, somente imbecis e a Ku-Klux-Klan não irão votar nele...
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Eleito ou não Barack Obama para a presidência dos EUA, a democracia norte-americana sairá enfraquecida. A campanha obamista foi um pretexto para que os inimigos dos EUA e da democracia despejassem seu antiamericanismo mais estúpido e boçal. E, agora, com o álibi perfeito: vitorioso, Obama será louvado por todos os adversários da liberdade, como Ahmadinejad, Hugo Chávez e Fidel Castro. Se for derrotado, estará comprovada, para essa gente, o caráter racista e discriminatório do "sistema" americano. O mundo inteiro caiu nessa armadilha.
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Quem vai ganhar? Obama? McCain? Pouco importa. O que vale mesmo é que nunca na História se viu um espetáculo tão grotesco de unanimismo em torno de uma figura de passado obscuro e biografia nebulosa, alçado meteoricamente de ongueiro à condição de líder messiânico mundial. Isso sim, é histórico. Uma farsa histórica.

segunda-feira, novembro 03, 2008

O RISCO OBAMA


Faltam menos de 24 horas para que os EUA elejam o novo ocupante da Casa Branca pelos próximos quatro - ou oito - anos. À essa altura, a vitória de Barack Hussein Obama já é dada como certa por praticamente todos os jornais e TVs do mundo. Durante meses e meses a imprensa americana e mundial bombardeou de tal maneira os espectadores com epítetos como "histórico" para se referir à campanha de Obama, tratando de entronizá-lo e canonizá-lo como o "candidato da esperança", que, no caso improvável de uma vitória de McCain, acredito que haveria uma revolta geral de militantes pró-Obama, que saíriam às ruas queimando casas, virando carros e surrando brancos, gritando "racismo! racismo!", o que renderia mais uma performance televisiva de Arnaldo Jabor esculachando os caipiras republicanos.

Influenciados por essa campanha nunca vista de santificação de um candidato, cujo único mérito até agora foram discursos vazios e não um, mais dois livros de memórias (aos quarenta e poucos anos!), os americanos deverão colocar na Casa Branca alguém cuja própria nacionalidade é nebulosa, sem nenhuma experiência administrativa a não ser como ongueiro, nem idéias claras, apoiado ostensivamente, em plena guerra ao terrorismo islamita, por fanáticos antiamericanos e terroristas. Pessoas como Jeremiah Wright, o pastor da igreja que Obama freqüentou durante cerca de duas décadas e com quem só rompeu publicamente depois da divulgação de um vídeo em que ele, Wright, aparece amaldiçoando o país que seu ex(?)-pupilo pretende governar.

Encontrei o texto a seguir por acaso, no seguinte site: http://thesop.org/index.php?article=10617. Dei-me ao trabalho de traduzir do inglês. Não conheço o autor. Sei apenas que o texto, que foi escrito em abril deste ano - antes, portanto, da oficialização da candidatura Obama -, traz algumas questões interessantes, que devem estar pululando na cabeça de muitos americanos e não-americanos que não sacrificaram ainda suas dúvidas e seu senso crítico no altar da fé obâmica. Certamente, muitos nos EUA - e no mundo - devem compartilhar da mesma preocupação, embora muitas vezes de forma velada, pois temem melindrar o dogma politicamente correto. Sabem como é: entre pensar independentemente e seguir o rebanho, abdicando do pensamento próprio e cedendo à chantagem racial, a primeira opção é bem mais arriscada. Preferem calar-se a não ferir o unanimismo criado em torno do Messias Obama, o profeta da nova religião, o obamismo. Assim pensavam também muitos em países como a Alemanha e a Rússia, algumas décadas atrás. Deu no que deu.

Leiam e guardem.

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A América não pode arriscar uma presidência Obama
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John Lillpop
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Em sua campanha para a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama está pedindo ao povo americano para confiar-lhe o presente e o futuro de nossa grande nação. O assunto é simples assim e grave assim.
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A América não pode, não deve, ceder ao clamor para eleger um candidato afro-americano ou uma mulher unicamente na base de gênero ou raça. O sentimentalismo e as emoções "positivas" não têm lugar no mundo hostil e perigoso em que nos encontramos.
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É precisamente por isso que o patrocínio de Barack Obama ao Reverendo Jeremiah Wright é tão alarmente. Esse patrocínio seria errado para qualquer americano; é infinitamente mais errado para alguém que assumiria a tremenda responsabilidade de defender 300 milhões de americanos como o CEO e o comandante-em-chefe militar da nação.

E se, Deus não o permita, outro ataque terrorista como o de 11 de setembro acontecer enquanto o Presidente Barack Obama estiver presidindo o Exército, a Força Aérea, a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos?

Como o Presidente Obama manejaria o conselho do Reverendo Wright, que disse o seguinte em 16 de setembro de 2001, cinco dias depois de os terroristas derrubarem as Torres Gêmeas?

"Nós temos apoiado o terrorismo de Estado contra os palestinos e os negros sul-africanos, e agora estamos indignados porque a coisa que fizemos no exterior voltou-se agora para nossos próprios jardins. As galinhas da América estão voltando para o poleiro (*)".

O Presidente Obama simplesmente daria de ombros e aceitaria a afirmação? Talvez ele "consolasse" o povo americano com um discurso nacional ao pé da lareira:

"Boa noite, meus caros americanos. O 11 de setembro é um dia que viverá na infâmia.

Pois nessa data fatídica, as galinhas americanas voltaram para o poleiro. Nosso terrorismo mereceu a retribuição e a ira de Deus, como evidenciado pela carne humana ainda fumegante encapsulada em aço retorcido no Grau Zero na Cidade de Nova York.

Não se enganem sobre isso, a política e a arrogância americanas trouxeram a carnificina à Cidade de Nova York. A culpa é nossa, completa e totalmente.

Vocês, o povo americano, me elegeram para trazer mudança a nosso governo e a nosso papel nos assuntos internacionais. Eu pretendo cumprir meu compromisso de mudança alterando o modo como esta nação reage a ataques em nosso solo.

Assim, não haverá investigação sobre o 11 de setembro. Nenhum monumento legal e exagerado para honrar aqueles que foram incinerados nas Torres Gêmeas.

Não haverá reação militar ao atentado mais justificado da história humana. As forças armadas NÃO serão enviadas em missões de represália.

De fato, eu ordenei uma "parada" total a todo o pessoal militar dos EUA em todo o planeta.

Diplomaticamente, eu peço aqui desculpas a Osama bin Laden e a Al-Qaeda.

Eu declaro que a América está de acordo com os ataques de 11 de setembro, uma vez que entendemos que os EUA são culpados e precisavam de um chamado a despertar.

Além disso, em uma tentativa de melhorar as relações da América com Osama e outros líderes islâmicos, eu despachei uma equipe diplomática de peritos em política externa americana para locais estratégicos no Afeganistão para se encontrarem com aqueles que nos ofenderam tão gravemente.

Essa equipe consiste de meus conselheiros espirituais pessoais, o Reverendo Jeremiah Wright e Louis Farrakham. Esses homens estão autorizados a falar em meu nome enquanto se renderem.

Este é o tipo de mudança que vocês, o povo americano, me elegerem para implementar! Estou orgulhoso e honrado de render a soberania e o poder militar desta nação a uma causa maior e mais nobre, em nome de vocês.

Para terminar, deixem-me compartilhar uma conversa telefônica que eu acabei de ter com o Reverendo Wright enquanto ele se dirige para o Afeganistão no Força Aérea Um.

Citando a gravidade do momento e a natureza séria de sua missão com o Sr. Farrakham, o reverendo me pediu para juntar-me a ele em um breve momento de oração.

Sua oração era: "Deus amaldiçoe a América!"

Isso, meus caros americanos, diz tudo, e foi por isso que vocês me elegeram para ser seu presidente.

Boa noite, e Deus amaldiçoe a América!"

E assim seria se a América for irresponsável o bastante para eleger Barack Obama!
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(*) = expressão americana ("America's chicken are coming home to roost"). Algo como "os americanos estão colhendo o que plantaram".

sexta-feira, outubro 31, 2008

LULA EM HAVANA: A FAVOR DE OBAMA... E DA DITADURA CUBANA

Lula e sua paixão


Notícia saída do forno, do Portal Terra. Comento depois.
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Cuba: Lula torce por Obama e pede fim de embargo
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Elaine Lina

Direto de Havana
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O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, disse nesta sexta-feira em Cuba que está torcendo pelo candidato democrata, Barack Obama, nas eleições americanas, que acontecem na próxima terça-feira. "É uma decisão soberana, mas existe uma ponta de alegria na mente silenciosa de cada um de nós se um negro for eleito nos Estados Unidos", disse.

Lula destacou ainda que, seja quem for o vitorioso na disputa americana, espera que acabe com o embargo a Cuba, que classificou como insensível e inexplicável. "Talvez a única explicação seja apenas a insensibilidade, a insensatez ou interesses políticos - ou apenas ressentimento de um país grande que perdeu para um país pequeno", disse.

O presidente disse estar consciente do fim do embargo econômico a Cuba e comentou os únicos três votos contrários à decisão da ONU: "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura", afirmou. Segundo Lula, é comum a ONU ter decisões cumpridas quando é de interesse "dos grandes", mas disse que, de qualquer maneira, está agradecido à decisão política da organização.
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Lula afirmou que, embora não conheça muito bem McCain nem Obama, "da mesma forma que o Brasil elegeu um metalúrgico, a Bolívia elegeu um índio, a Venezuela elegeu Chávez e o Uruguai elegeu um bispo, seria bom um negro nos Estados Unidos".
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O presidente brasileiro fez a afirmação durante discurso de inauguração do escritório da Agência Brasileira de Promoção das Exportações (Apex), no país governado por Raúl Castro.

Comento
Sabem por que o Apedeuta está torcendo para que Obama vença as eleições nos EUA? Em parte respondi a isso em meu texto anterior. Para quem não leu, eu repito: ele sente uma "ponta de alegria" diante da possibilidade de Obama ser eleito porque Obama, como já escrevi antes, é o Lula americano. Porque ambos são almas gêmas (viu, Arnaldo Jabor?). Porque, assim como Lula em 2002 e em 2006, ninguém sabe ao certo o que pensa Obama, e ele já foi eleito e canonizado antes mesmo das eleições. Lula se identifica com essa trajetória.

A vitimização - social, racial, sexual etc. - de si próprio e de seus aliados já se transformou numa característica inseparável dos esquerdistas. De acordo com esse padrão politicamente correto, pertencer a alguma "minoria oprimida" - negro, índio, mulher, gay etc. - é meio caminho andado para chegar ao poder. É pura demagogia, claro, que serve apenas para encobrir o vazio de idéias - ou interesses inconfessáveis. Nosso Guia Genial sabe disso por experiência própria, tendo chegado ao governo não por qualquer mérito pessoal, mas pela manipulação de seu passado sofrido de coitadinho. É, de certo modo, uma nova ideologia, o pobrismo ou coitadismo. Natural, portanto, que ele pense que seria bom os EUA terem um "negro" na Casa Branca, embora confesse não conhecer bem McCain e Obama (incrível...).
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Para ilustrar o que diz, o Apedeuta compara a provável eleição de Obama à sua própria ("um metalúrgico") e a dos companheiros Morales ("um índio"), Chávez (que dispensa epítetos) e Lugo ("um bispo") no Paraguai - e não Uruguai, como ele disse em mais uma gafe geográfica. O que ele quer dizer com isso? Ninguém sabe. Talvez ele esteja estabelecendo um novo critério para aferir a honestidade pessoal e a capacidade administrativa dos políticos: em vez de honesto, digno e competente, "negro" (ainda que seja só pela metade), "índio" (ainda que seja de butique), "bispo" (desde que seja da escatologia da libertação, claro...) e, last but not least, "metalúrgico" (notem que sem o "ex"). Ou, como ele já se definiu ideologicamente, alguém assim, com idéias claras e objetivas, nem de esquerda nem de direita, politicamente torneiro mecânico... .
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Há mais, claro. Lula está torcendo por Obama não somente porque ele é negro (para os padrões americanos, entenda-se), mas porque, assim como os companheiros Chávez, Morales e Lugo, acredita que Obama irá trabalhar para acabar com o embargo (que o regime cubano chama de "bloqueio" e os cubanos comuns chamam, às escondidas, de "o pretexto") dos EUA a Cuba. Em algumas declarações, Obama já deu a entender que fará isso. Afinal, o Apedeuta considera o embargo/pretexto algo "insensível" e "inexplicável", fruto do (palavras suas) "ressentimento de um país grande que perdeu para um país pequeno". Simplesmente não passa pela cabeça do Molusco que o tal embargo possa ter algo a ver com o fato de o "país pequeno" - ou melhor, Fidel Castro - ter promovido o saque das propriedades do "país grande" de uma forma absolutamente despótica, ou ter transformado a ilha em sua fazenda e em sua prisão particular, mandando ao paredón ou ao exílio qualquer um que ousasse se opor a seu poder absoluto. Não chega a seu cérebro semiletrado que a manutenção de tal medida por parte do Congresso dos EUA se deva à pressão - justa, diga-se de passagem - dos cerca de 2 milhões de refugiados políticos cubanos e seus descendentes que vivem hoje nos EUA, aonde chegaram fugindo da ditadura de Fidel e Raúl Castro. Para ele, Lula, nada disso importa: o embargo é o resultado de simples ressentimento. De uma, digamos assim, dor-de-cotovelo do Tio Sam...

Por falar em embargo, vejam que curioso: Castro tomou o poder em Cuba e impôs sua ditadura pessoal apoiada pela defunta URSS após romper os laços econômicos que a ilha tinha com os EUA, os quais acusava de imperialistas. Na ocasião, o que dizia Fidel? Que os americanos exploravam as riquezas da ilha, que era pobre (não era: Cuba tinha o 3. melhor nível de vida da América Latina) porque era uma "colônia" dos EUA. Pois bem. O que ele deseja agora, assim como Lula? Que o próximo presidente dos EUA seja "sensato" e acabe com o embargo, ou seja, que os imperialistas ianques voltem a explorar a ilha... O Coma Andante deve estar ansioso para que os gringos voltem e invistam seus dólares na ilha, fazendo dela o prostíbulo que ele diz que era Cuba antes de 1959 (as jineteras da ilha não devem estar dando conta do recado, pelo visto...). Deve ter chegado à conclusão que o sistema socialista que impôs a Cuba é mesmo um fiasco completo, ou que o comércio que a ilha mantém com a maioria dos países - 185 dos quais votaram ontem pelo fim do embargo na Assembléia Geral da ONU - não é suficiente para tirar o país do buraco sem fundo em que ele o atirou por décadas de descalabro econômico e falta de liberdade.

A viagem de Lula a Cuba é a segunda que ele faz à ilha somente este ano. Isso demonstra o interesse do chefe dos petralhas pela ilha de Fidel e Raúl. A presente viagem tem por finalidade, entre outras coisas, estreitar os laços da PETROBRÁS com a estatal cubana de petróleo, ajudando na prospecção de petróleo na ilha. Na verdade, a ida a Cuba já se tornou uma espécie de ritual, uma peregrinação dos esquerdistas à ilha-prisão, na qual enxergam um modelo de "justiça social" e de "dignidade" (pois é...). Lula declarou que os países da região precisam se unir para evitar o isolamento de Cuba no continente. Os países devem cuidar de agir e ajudar Cuba, segundo Lula, pois do contrário há o grande risco de Cuba se tornar - horror! - uma democracia...

Tenho uma coisa em comum com o Apedeuta, assim como com outros admiradores da castradura cubana, como Frei Betto, Chico Buarque e Oscar Niemeyer. Assim como eles, me interesso bastante pelo que se passa em Cuba. Estudo a História da ilha e da Revolução Cubana há anos. Por isso só posso expressar meu pasmo diante de tamanha paixão pelo totalitarismo caribenho.

quinta-feira, outubro 30, 2008

SANTO BARACK INÁCIO OBAMA DA SILVA

"Se Obama não ganhar as eleições, os Estados Unidos vão decair como as torres do 11 de Setembro". A frase, histérica e apocalíptica, é de Arnaldo Jabor, no Jornal da Globo de ontem, dia 29. Eu já me preparava para dormir quando fui surpreendido por essa afirmação retumbante de Jabor, feita em seu costumeiro estilo teatral e histriônico. Sua fala veio logo após uma extensa reportagem sobre Barack Obama, e como os americanos - principalmente os negros - o amam e o veneram. Jabor entrou de cabeça na obamamania. "Obama é o jazz, é o novo, é a inteligência, é o humanismo, é a liberação sexual, é os anos 60", entoava o ex-cineasta de vanguarda, quase em êxtase, contrapondo o democrata ao "obscurantismo" dos republicanos. Uma demonstração de idolatria e de tietagem explícitas. Ave, Obama!

Faltam cinco dias para as eleições presidenciais nos EUA. E, desconfio cada vez mais, os americanos - e o mundo - estão prestes a cair num enorme conto-do-vigário. Não, não me refiro apenas à quantidade de auto-ilusão que costuma acompanhar grande parte do eleitorado, em qualquer eleição, em qualquer país, a que quase sempre se segue uma ressaca cívica monumental. É do jogo. Não importa quem seja vitorioso, a desilusão provavelmente será a mesma. Refiro-me, isso sim, à enormidade do mito criado em torno do personagem Barack Obama, que, ao contrário de McCain, permanece um enigma envolto num mistério. Em minha opinião, se ele, Obama, for eleito, os americanos irão colocar um completo desconhecido na Casa Branca. Vão dar um salto no escuro (sem trocadilho).

Nas últimas semanas, a campanha de John McCain passou a engrossar o discurso contra Obama, apostando no que os marqueteiros chamam de "propaganda negativa" (e os defensores de Obama preferem chamar de "campanha do medo"). Passaram a centrar fogo, principalmente, numa questão que causa arrepios ao cidadão americano médio, branco e protestante: afinal, Obama é muçulmano?
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A meu ver, essa é a menor das dúvidas a respeito do candidato democrata. Como bem disse o ex-secretário de Estado (republicano) Colin Powell, ao anunciar seu apoio a Obama, não há nada de fundamentalmente errado em ser muçulmano. De fato, não há, assim como não há nenhum problema em ser judeu, ou budista, ou ateu, ou crer em gnomos. Há problema, isso sim, em ser mentiroso. E Barack Hussein Obama tem sido tudo menos transparente em relação a um número não desprezível de fatos de sua biografia. A começar por seu verdadeiro local de nascimento. Afinal, ele nasceu no Havaí ou no Quênia? Por que ele se recusa a mostrar sua certidão de nascimento, conforme lhe foi solicitado judicialmente por um advogado, aliás democrata? Ele concorda ou não com Jeremiah Wright? Se não, por que esperou mais de vinte anos para romper com ele, e somente às vésperas das eleições mais importantes de sua vida? Qual é exatamente sua relação com o terrorista William Ayers? E com o vigarista sírio Tony Rezko? Ele deu ou não dinheiro ao genocida queniano Raila Odinga? Se Obama é tão moderado e inofensivo quanto diz e como gostam de pensar seus apoiadores, por que recebe o apoio tão entusiasmado do extremista islamita Louis Farrakhan, e até de Ahmadinejad? Até o momento, há mais perguntas do que respostas, mais dúvidas do que certezas.
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Não são questões sem importância, convenhamos. Vamos supor que Obama seja, realmente, muçulmano, como insinuam muitos que votarão em McCain. Como disse Colin Powell, que problema haveria? Seria mais uma prova de que os EUA são um país tolerante e pluralista - exatamente o oposto do que dizem os antiamericanos, muitos dos quais, aliás, apóiam Obama. O problema é que não se sabe ao certo quem é Obama, que se diz cristão, mas não o diz claramente, e cujo sobrenome do meio, "Hussein", só aumenta as dúvidas. Seria bom se ele viesse a público e esclarecesse essas questões de uma vez por todas. Até mesmo para eliminar certos preconceitos e rumores. Se ele dissesse, com todas as letras, que é um devoto de Maomé e que nasceu na África, poderia até perder as eleições, mas estaria dando uma prova de honestidade - aí sim, histórica. Isso é o mínimo que se espera de alguém que pretende assumir a presidência do maior país do planeta. Sem falar que seu silêncio apenas alimenta as especulações, muitas delas, vá lá, movidas por preconceito. Então, por que ele se cala?

A quantidade de perguntas sem resposta - e de perguntas que simplesmente não são feitas - sobre quem é e o que realmente quer Obama, além do endeusamento de sua figura, lembram inevitavelmente um filme - e um protagonista - que nós, brasileiros, já conhecemos. Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva elegeu-se presidente da República com base em um discurso "Lulinha Paz e Amor", reelegendo-se em 2006, embalado por um culto de sua personalidade jamais visto na história do Brasil. Na ocasião, o Foro de São Paulo, criado por Lula e Fidel Castro, já existia há mais de uma década, com o PT e as FARC convivendo harmoniosamente nas reuniões do foro. No entanto, o assunto foi completamente ignorado pelos meios de comunicação durante a campanha, inclusive pelos demais candidatos. Como ignoradas foram também as denúncias de corrupção nas cidades administradas pelo PT, que remontavam a 1996, e o caso Celso Daniel. Nos dois casos - Lula e Obama -, a chantagem mental era e é óbvia: quem ousasse tocar nesses assuntos seria imediatamente tachado de paranóico e reacionário, assim como quem ousar fazer as perguntas elencadas acima sobre Obama será automaticamente chamado de racista e nazista. Tivesse a imprensa brasileira feito seu dever de casa, cumprindo a função básica de informar, ao invés de cantar loas ao "presidente-operário", muito do que se viu depois teria sido evitado. Certamente, não teria havido Zé Dirceu, nem mensalão, nem aloprados, nem Palocci, nem a "república de Ribeirão Preto", só para citar os escândalos mais conhecidos. Mas aqui, como lá, pouca gente parece estar interessada na verdade.

Assim como Lula nas duas vezes em que foi eleito, Obama já está eleito de antemão, não pelo que ele é ou defende, mas pelo que se espera que ele seja - o anti-Bush, o anti-republicano por excelência. Nunca na história dos EUA, como nunca na história deztepaís, alguém foi brindado com um apoio tão explícito dos meios de imprensa, nunca se depositou tanta esperança em um candidato com slogans tão vagos. Obama tem baseado sua campanha numa única palavra: change ("mudança"). O.k., mas que mudança? Hitler e Stálin também falavam em mudança. Lula e Fidel Castro também.

Na semana passada, foi descoberto um plano neonazista para assassinar Obama. Dois debilóides queriam causar um banho de sangue, matando o candidato democrata e uma porção de negros. Como não poderia deixar de ser, muitos viram nisso mais uma prova da intolerância reinante nos EUA, a pátria do racismo, omitindo, propositalmente ou não, que o plano só foi descoberto e presos seus autores devido à pronta ação dos agentes secretos do governo Bush, esse facínora racista. Mas nada disso importa. O fato é que esse é mais um ponto a favor do mito Obama, que não raro é comparado a Martin Luther King, o líder negro assassinado em 1968. Eu prefiro compará-lo a Lula, ou a Santo Luiz Inácio, para quem já começaram a acender velas e a fazer promessas no interior do Nordeste.

O mais curioso é que todo esse culto messiânico de Obama, ouso dizer, irá desaparecer tão rápido quanto surgiu. Como todo ídolo fabricado pela mídia, Obama tem pés de barro. E se ele vencer as eleições? O que dirão os antiamericanos de plantão? Continuarão a gritar que os EUA são a pátria do racismo, do preconceito, do imperialismo? Certamente que sim. Os EUA são, para essa gente, a pátria do racismo, do preconceito e do imperialismo independentemente de quem esteja na Casa Branca. Passado algum tempo de namoro e embevecimento com "o primeiro presidente negro", cujos discursos já nascem "históricos", virá o cansaço e, com ele, a desilusão. Os terroristas islamitas continuarão a se explodir em atentados contra o "Satã imperialista ocidental"; demagogos como Hugo Chávez continuarão a ver conspirações da CIA para matá-lo; militantes de esquerda seguirão culpando o "neoliberalismo" e a "globalização" por todos os males do mundo etc. etc. No final, tudo será como dantes no quartel de Abrantes. A diferença é que todos esses inimigos do progresso e da civilização terão diante de si um governo bem mais vacilante e menos resoluto na hora de usar a força, muito mais interessado em relações públicas e em não ferir suscetibilidades politicamente corretas do que em agir efetivamente contra quem deseja a destruição da liberdade e da democracia. Uma fórmula para o suicídio.

Os EUA já têm seu santo eleito previamente para a presidência. O Brasil também tem o seu. Deu no que deu. Mundus vult decipi. O mundo quer ser enganado.