sexta-feira, outubro 10, 2008

Resposta a um leitor muito sensível

Alguém não gostou de meu texto "Inveja do Iraque", que publiquei neste blog em 1/11/2007 (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/11/inveja-do-iraque.html). Um leitor muito sensível e humanista, que se apresenta como "Marcos", escreveu o seguinte comentário ao texto:

"Na minha escala de valores, tortura é pior do que corrupção" Victor Meirelles

Seguindo nas linhas de nosso cineasta, um erro não justifica outro!

Sim, era algo bestial o que sofriam as populações iraqueanas e afegãs nos regimes rígidos de Saddam e do talebã respectivamente. Mas a presença dos EUA não deixa a desejar em totalitarismo, manipulação, controle rígido e humilhações à essas mesmas populações...

Então, elogiar a atitude norte-americana como a coisa mais louvável desde o fim da segunda guerra mundial quando acabaram com a nazismo... É algo que me dói ler.

Mesmo porque, graças a ação do exército da União Soviética, que impuseram a primeira derrota a Hitler - fazendo-o recuar, é que os americanos puderam derrotar os alemães e retomar o controle do centro da Europa.

Sem entrar na questão de quem seria o tal "Victor Meirelles" - acho que o gentil leitor se equivocou, trocando o cineasta Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus e Blindness, pelo pintor do século XIX -, concordo plenamente com a epígrafe, assim como com a conclusão do Marcos, de que "um erro não justifica outro". Só não concordo com sua maneira muito peculiar de "pensar".

Sim, concordo totalmente - em gênero, número e grau - com a afirmação de que a tortura é pior do que a corrupção. Aliás, vou mais além: na minha escala de valores, que acredito não seja só minha, mas a da civilização e da humanidade, a tortura é algo bestial e abominável, e o torturador é um canalha da pior espécie, que não merece perdão: é o escalão mais baixo da humanidade.

Pois bem. Não é outra coisa o que eu digo no texto comentado pelo Marcos, e que repito em vários outros textos no blog. O que eu digo? Algo muito simples, simplíssimo, que chega a ser atordoante por sua simplicidade: a tortura é algo criminoso, repugnante, nojento. A tortura com morte é pior.

Isso significa justificar a tortura? Significa aplaudir quem arranca as unhas com alicate e dá choque elétrico em prisioneiro?

Não.

Significa dizer tão-somente o que eu escrevi: torturar é mau; torturar e matar é pior.

Ou, em outras palavras: quem tortura é um torturador. Quem tortura e mata é um torturador e assassino.

Ficou claro? Ou preciso desenhar?

Acredito que o Marcos vai entender, se pensar um pouco, que apontar essa diferença não faz de mim um apologista da tortura, assim como espero que nem ele nem o Meirelles sejam justificadores da corrupção.

No meu texto - vamos lembrar - eu falo da prisão de Abu Ghraib, em que prisioneiros iraquianos foram torturados por soldados americanos, que foram devidamente punidos por isso. Lembrei que, na época de Saddam, os prisioneiros eram não só torturados, mas também chacinados, assassinados, e seus torturadores e assassinos eram não punidos, mas condecorados e promovidos por causa disso. Quem me chamou a atenção para esse detalhe - que é mais do que um detalhe - foi alguém que não tem nada de direitista: o jornalista inglês Chistopher Hitchens. Ele, ao contrário do Marcos, percebeu o óbvio: que o Iraque, desde que Saddam foi defenestrado, melhorou bastante, inclusive no terreno dos Direitos Humanos.

Dito isso, vejamos o que o Marcos quer dizer. Ele reconhece que as populações civis iraquiana e afegã sofriam sob o tacão de Saddam e do Talibã. É uma grande conquista dele reconhecer isso! Pelo menos ele não caiu na esparrela de dizer que o Iraque sob Saddam era uma espécie de Suiça do Oriente Médio, como muitos pareceram querer dizer na época da invasão anglo-americana... Mas, logo em seguida, ele vem com a seguinte tirada: "a presença dos EUA não deixa nada a desejar em totalitarismo, manipulação, controle rígido e humilhações a essas mesmas populações..."

Como é que é? Então a presença americana "não deixa nada a desejar" em termos de totalitarismo etc. e tal? É isso mesmo que eu li? Puxa, mas nem um pouquinho? Nem o fato de Abu Ghraib, por exemplo, ter deixado de ser um matadouro de carne humana como era na época do Saddam significa alguma coisa? Nem o fato de o Partido Baath, do Saddam, ter deixado de ser o partido único no poder? Ou o de que grupos como os xiitas e os curdos finalmente podem falar sem medo? Nada disso conta?

Fico pensando cá com meu botões qual deve ser o conceito de Totalitarismo para o Marcos. Porque, certamente, não é o mesmo que eu li, já faz alguns anos, no Dicionário de Política editado por Norberto Bobbio. A edição é um pouco antiga, o livro está um pouco gasto, mas acredito que a definição continua valendo. Lá, está dito que Totalitarismo é um regime político baseado nas seguintes características (para citar apenas algumas das mais importantes): 1) partido único de massas no poder, que se confunde com o próprio Estado ou se coloca acima dele; 2) ideologia e terror oficial, que se estende a todos (daí o nome Totalitarismo) os aspectos da vida social e pessoal, inclusive à religião; 3) mobilização constante do povo mediante a vigilância onipresente da polícia secreta e o monopólio dos meios de comunicação de massa; 4) culto da personalidade do chefe.

Agora, me digam: todos esses aspectos caracterizavam que regime, e que país? Não o Iraque de hoje, certamente. Mas se você respondeu o Iraque de Saddam, acertou em cheio. Em 2005, pela primeira vez o Iraque teve eleições livres e democráticas - pela primeira vez, em mais de 3 mil anos de História! Pela primeira vez também, desde Saddam, os xiitas (60% da população) podem rezar livremente, e inclusive até mandar bala nuns gringos de vez em quando. Pergunte a algum xiita ou curdo iraquiano o que ele acha dos americanos e provavelmente ele dirá que os detesta. Agora, pergunte se ele deseja o retorno da tirania de Saddam... Não, Marcos, Totalitarismo foi o que os EUA derrubaram no Iraque e no Afeganistão, e não o que implantaram.

Agora eu entendi por que o autor do comentário a meu texto disse que lhe doía ler que a derrubada de Saddam e do Talibã foram as duas coisas mais acertadas que os EUA fizeram desde a Segunda Guerra Mundial. É que a Lógica é uma deusa implacável, que pode ser também muito dolorosa. Principalmente para quem nutre crenças infantis há muito arraigadas, baseadas num antiamericanismo primário e idiota. Mas para que ninguém tenha dúvidas nem interprete mal minhas palavras, vou deixar bem claro, em letras garrafais, o que achei da decisão dos EUA e de seus aliados de enxotar o Saddam do poder no Iraque: FIZERAM MUITO BEM!

Agora, uma pequena lição de História.

Não Marcos, não foi "graças à ação do exército da União Soviética" que os alemães sofreram sua "primeira derrota" na Segunda Guerra Mundial. A primeira derrota de Hitler - pergunte a qualquer historiador do conflito - foi para a GRÁ-BRETANHA, então governada por um famoso conservador e anticomunista, Winston Churchill, na chamada Batalha da Inglaterra, em agosto-setembro de 1940. Mais de dois anos antes de o glorioso exército vermelho de Stálin ter começado a reverter a maré a seu favor, em Stalingrado, e quase um ano antes de a URSS ter entrado na guerra. Enquanto isso, Stálin e Hitler eram na prática ALIADOS, tendo assinado em agosto de 1939 o infame "pacto de não-agressão" que dividiu a Polônia e... abriu as portas para a guerra! Stálin, aliás, poupou a Hitler grande parte do trabalho, ao mandar fuzilar quase um terço dos oficiais superiores militares soviéticos antes da guerra. Não foi a URSS que salvou o Ocidente na Segunda Guerra; foram os ianques imperialistas e seus aliados ocidentais que salvaram o mundo (e a própria URSS) do nazi-fascismo, e ainda permitiram que os comunistas de Moscou satelizassem o Leste Europeu. Não gosto de me gabar, mas sou tentado a dizer: nunca tente ensinar História a quem já foi professor da matéria.

Aliás, é curioso como, para apoiar seu ponto de vista sobre tortura, nosso amigo resolva mencionar a finada URSS. Logo um país em que, como todos nós sabemos, não havia tortura, nem totalitarismo, nem humilhação de populações inteiras... Assim como outros países atualmente, como Cuba e Coréia do Norte. Tenho certeza de que o Marcos, que é uma pessoa muito sensível e humanista, deve estar roendo-se de indignação pelo que acontece nesses lugares. Afinal, um "erro" não justifica outro, não é mesmo?...

Enfim, perceber que ainda há gente que fecha os olhos para o que está dito aí em cima... é algo que, realmente, me dói ler.

quarta-feira, outubro 08, 2008

A FARSA OBAMA


Se Barack Hussein Obama for eleito o próximo presidente dos EUA, será por dois motivos principais:

1) a intensa campanha da grande imprensa norte-americana e mundial, maciçamente engajada em favor do endeusamento de sua figura e da criação de um culto de sua personalidade, que contrasta enormemente com o tratamento dispensado ao candidato republicano, John McCain, e em particular à sua vice, Sarah Palin; e

2) a atual crise financeira que assola os mercados dos EUA e do mundo, cuja responsabilidade é atribuída, em particular, ao governo Bush e, genericamente, ao "neoliberalismo" - e para a qual Obama e os democratas, com sua receita supostamente "progressista" baseada na maior intervenção e controle estatal, teriam a solução.

Esses são os principais trunfos da candidatura Obama. Elimine-os e aposto que, em menos de dois segundos, sua campanha vira fumaça. O que demonstra a fragilidade e o nível de impostura em que ela se fundamenta.

Sejamos francos: o que sustentou, até agora, a candidatura Obama? Certamente, não sua experiência (ele não a tem), nem suas idéias (ele tem slogans, como "Change"), nem a racionalidade de suas propostas (ele propôs, como solução para a questão do Irã, sentar-se para conversar com o maluco Ahmadinejad), mas aquilo que está num vídeo lançado algum tempo atrás pelos republicanos: ele é uma celebridade, e ponto. Melhor: ele foi transformado numa celebridade, devido a um processo de santificação de sua imagem que há muito não se via. Com raras exceções, a imprensa dos EUA - e, por extensão, do mundo como um todo - já elegeu Obama há tempos.

Não vi o debate de ontem entre Obama e McCain, mas sei que, certamente, antes mesmo de este ter acabado, já havia gente nas redações dos principais jornais americanos proclamando a vitória do democrata. Comparem a forma como a imprensa cobre as duas candidaturas. Creio que, a esta altura, já está claro, pelo menos para a minoria dos que pensam, que Obama é uma criação artificial, uma peça de puro marketing, sem qualquer substância, e que se beneficia de décadas de propaganda politicamente correta e esquerdista para passar uma persona de novo Kennedy, ou de novo Martin Luther King (sua confirmação como candidato democrata à presidência foi em 28 de agosto - mesma data do famoso discurso "I have a dream" de Luther King em 1963). Como tal, ele não precisa abrir a boca para ser aplaudido, e seus discursos já nascem "históricos", antes mesmo de serem pronunciados. Qualquer crítica que lhe for dirigida, e mesmo não sendo críticas - como a capa da revista New Yorker mostrando-o como um terrorista - será automaticamente interpretada como uma manifestação de "preconceito" (soa familiar?). No Brasil, quem falar mal de Lula é tachado de preconceituoso e elitista. Nos EUA, quem fizer o mesmo com Obama é racista. Assim como o Apedeuta, Obama não tem eleitores: tem devotos.

O oba-oba criado em torno da candidatura obamista pela imprensa americana só não é maior do que a disposição desta em achincalhar e demonizar a candidatura adversária. Na ausência de fatos escabrosos para atacar o titular, John McCain (o máximo que descobriram até agora foi uma advertência do Senado por um suposto escândalo financeiro de mais de vinte anos atrás), os marqueteiros de Obama passaram a centrar fogo na vice do senador republicano, Sarah Palin. Contra ela, não poupam ataques nem adjetivos injuriosos - "despreparada" e "inexperiente" (como se Obama o fosse!) são alguns dos epítetos mais suaves com que a brindam. Já chegaram a criticá-la até mesmo por ser... mãe! Por essas bandas cá em baixo, a coisa não é muito diferente. A GLOBO, Arnaldo Jabor ("Obama é sexy!")... até a VEJA entrou de cabeça na campanha pró-Obama, macaqueando a "mídia imperialista", antes tão combatida.

Toda essa fúria anti-McCain e anti-Sarah Palin parece servir para desviar a atenção do acobertamento de detalhes obscuros da biografia de Obama, que não são poucos. Sua verdadeira nacionalidade, para não falar em sua religião, por exemplo, é motivo de controvérsia. Recentemente, veio a público - não por acaso, pela boca de Sarah Palin - que quem pagou seus estudos na prestigiosa Universidade de Harvard foi uma associação encabeçada por um ex-militante terrorista do grupo Weathermen ("Homens do Tempo"), que se especializou em atirar bombas e em outros atos de violência nos anos 60. Sem falar no caso até agora mal-digerido de Jeremiah Wright, o pastor da igreja que Obama freqüentou por duas décadas e que ele considerava, até um dia desses, seu mentor e guia espiritual. Obama rompeu publicamente com Wright somente depois de ter vazado um vídeo na internet em que ele, Wright, amaldiçoava, com todas as letras, o país que Obama quer presidir. Tais fatos passaram como um relâmpago pela imprensa, enquanto o "despreparo" de Sarah Palin, e até seus hábitos pessoais e zelo de mãe cuidadosa ("hockey mom", dizem os americanos) são, há semanas, motivo de escândalo e escárnio nos EUA. No caso de Obama, o acobertamento, para usar um paradoxo de linguagem, só falta saltar aos olhos. No de McCain e Sarah Palin, beira a difamação pura e simples.

Não é preciso ter um QI de 180 ou possuir um Nobel de Física emoldurado na sala para perceber que estamos diante de uma monumental farsa, talvez a maior de todos os tempos. O pior de tudo é que se trata dos EUA, e não de uma republiqueta bananeira qualquer, em que esse tipo de coisa é corriqueiro. Que o digam os habitantes de um certo país da América do Sul, governado há seis anos por um sujeito que se elegeu e reelegeu graças a décadas de lavagem cerebral esquerdista e à sua incrível capacidade de embromação.

Quanto ao segundo motivo listado acima, creio que, infelizmente, será o fiel da balança na eleição americana. A crise financeira global é mais um motivo para desconfiar de Obama. Crises como a que os EUA estão enfrentando agora são um prato cheio para demagogos. Gente em geral sem nenhum compromisso senão com o poder vêem em colapsos financeiros como o que ora ocorre uma oportunidade de chegar aonde sempre quiseram chegar, sem muito esforço. A desconfiança tem mais razão de ser quando se vê que Obama escolheu bater em Bush e em sua política econômica "liberal" para responsabilizar pela crise, quando muitos conservadores americanos vêem o atual presidente dos EUA como qualquer coisa, menos um liberal em economia. Mas nada disso importa. O que realmente vale, para os sedentos de poder, é aproveitar o momento, mesmo violentando os fatos. Já vimos esse filme.

Não sei quem vencerá as eleições nos EUA. Provavelmente, Obama. Até porque, o que ele fará da vida se não for eleito para o supremo cargo da maior República do mundo, e para o qual já foi ungido e aclamado antes mesmo das eleições? A Secretaria Geral da ONU já está ocupada. A cadeira do Papa também. Quem sabe o governo mundial das ONGs.

Crise mental 3 - um texto esclarecedor

Segue artigo do jornalista Laurence Bittencourt, que pelo visto sabe das coisas. O texto reafirma muito do que eu venho dizendo aqui, e apresenta alguns fatos que eu desconhecia. Está no Jornal de Hoje, de Natal-RN, nesta data. É impressionante como, diante da onda de besteirol publicada na chamada "grande imprensa" do centro-sul sobre a crise financeira global dos últimos dias, mais uma vez seja necessário vir alguém lá da província, escrevendo num pequeno jornal, dizer aquilo que precisa ser dito. Leiam e tirem suas próprias conclusões.
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Inútil, totalmente inútil
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Um amigo meu que tem um ódio monumental a tudo que cheire aos Estados Unidos estava me dizendo outro dia, que com essa crise americana agora, não tem mais jeito, eles não só perderam a hegemonia econômica como o capitalismo está vivendo seu último estertor. Menas verdade, como diria o nosso "sábio" Lula.
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Óbvio que é inútil argumentar o contrário contra quem pensa dessa forma. Inútil, rigorosamente inútil. Fiquei tentado a lembrar-lhe que também diziam que os americanos tinham perdido a hegemonia em 1929, com o crack da bolsa de Nova York. Os americanos entraram na guerra em 1941, e quando terminou a guerra tinham 50% do PIB mundial. Mas é inútil. É inútil.
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Agora vejam, dos 850 bilhões de dólares dados pelo governo americano para conter a crise, esse valor representa apenas, 8% do PIB dos EUA. Adianta? Mas posso citar outro exemplo, para mostrar que não há perda de hegemonia. Quando terminou a guerra do Vietnam, por exemplo, disseram que os americanos, por perder politicamente, tinham perdido a hegemonia do mundo capitalista e consequentemente da economia. Hoje, o Vietnam é um dos maiores clientes dos States, ou melhor, o maior cliente do Vietnam são os americanos, e o Vietnam vai muito bem das pernas. Mas é inútil. É inútil.
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Para quem não lembra, mas eu lembro, quando os americanos foram derrotados no Irã (o que só prova que para os americanos não importa derrotas politicas, política é coisa de país subdesenvolvido) durante o governo Carter, disseram a mesma coisa. Nada disso ocorreu. Mas é inútil. É inútil.
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O que move os Estados Unidos é a riqueza material e financeira. Sempre foi assim, desde a guerra pela Independência contra os ingleses, quando os americanos se rebelaram contra os altos impostos do país colonizador. Só para você leitor ter uma idéia, o deposito bancário nos EUA atual é algo da ordem de 5 trilhões, que é quase quatro vezes o PIB brasileiro. Isso é muito menos, guardando as devidas proporções, que o Proer deu ao Banco do Brasil (humm), o nosso admirável Banco estatal, para ele não quebrar. Também é possível ler que com a crise, os americanos perderam a hegemonia e consequentemente (é inevitável essa consequência) perderam o valor do dólar. Bom, o incrível é que diante de toda a crise o dólar está se valorizando. Mas é inútil. É inútil.
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Agora imagine a seguinte cena: um sujeito (que pode ser você leitor) vai aplicar 100 reais em um Banco qualquer no Brasil. Desses 100 reais, 45 reais vão direto para o Banco Central, que não pode fazer nada com esse dinheiro. Mas aí, acompanhe-me, uma indústria qualquer quer ampliar, modernizar, ou mesmo expandir seus negócios, e para isso tem que pedir dinheiro emprestado aos Bancos. Como quarenta e cinco por cento do dinheiro dos empréstimos privados fica retido no Banco Central do Brasil, claro que irá faltar recursos para tomar emprestado, e se tomar, como a quantidade disponível é limitada os juros também sobem à estratosfera. Essa é nossa mentalidade "capitalista". Você sabe quanto das aplicações em Bancos nos EUA são retidos? Eu digo: até 10 milhões de dólares em aplicação, há isenção. De 10 milhões até 44 milhões são retidos 3% e mais de 44 milhões são retidos 10%. É isso o que explica a riqueza daquele país. Não é o Estado que financia o desenvolvimento, mas a iniciativa privada. Adianta explicar isso? Não. É inútil. Totalmente inútil!
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Pois bem, se voltarmos para as nossas indústrias brasileiras que precisam de empréstimos e não têm como conseguir, o que elas fazem? Vão pedir empréstimo fora, ao mercado estrangeiro porque tem mais dinheiro e barato. E para onde eles vão? Exatamente para os Bancos americanos. Você pode não lembrar, ou mesmo não saber, mas a compra da Vale do Rio Doce por 3 bilhões de dólares, só foi conseguida através de empréstimos que o Benjamin Steinbruch fez junto ao Banco americano de investimentos Goldman Sachs. Hoje é a 2ª maior mineradora do mundo. Agora com a crise americana, que segundo meu amigo está levando os States a perderem a hegemonia, as linhas de credito de lá, foram fechadas. Mas o "sábio" do Lula ainda insiste em dizer que a crise não chegou ao Brasil. Talvez Lula, assim como meu amigo, ache que os americanos vão perder a hegemonia econômica. A esperança desse amigo comunista, e também de Lula, certamente, é que o peso cubano venha a substituir o dólar. Mas penso eu que o peso cubano "pesou" tanto no mundo, que terminou destruindo a economia soviética com as "mesadas" que os comunistas soviéticos tinham que doar a Fidel e "sua" Ilha.
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A crise chegou ao Brasil, claro, mas a hegemonia econômica dos Estados Unidos não vai ser abalada. Aliás, o Império Romano caiu na antiguidade, porque era um império estatal. Os Estados Unidos é um império capitalista e não vão perder a hegemonia econômica. Adianta explicar isso? Não. É inútil. Totalmente inútil.
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Autor: Laurence Bittencourt Leite
E-mail: Jornalista (laurencebleite@zipmail.com.br)

terça-feira, outubro 07, 2008

CANDIDATO, EU? TÔ FORA!

O namorado de uma prima minha, jornalista lá em minha terra, Natal-RN, resolveu se candidatar a vereador nessas eleições. Em sua campanha, defendeu uma plataforma voltada para a proteção do meio ambiente - tema que, desconfio, jamais sairá de moda. Defendeu ônibus 24h e banheiros públicos nas praias da cidade. Prometeu defender a cultura local e iniciar a "desintoxicação" da Câmara Municipal, além de assumir, como compromisso de campanha, a instalação de uma webcam ligada 24h em seu gabinete caso fosse eleito. Não foi eleito.

Eu até votaria nele, com quem, aliás, até simpatizo como pessoa, e que me parece um sujeito honesto e bem-intencionado, se não fosse por algumas circunstâncias. Primeiro: há anos morando em Brasília, já me acostumei a justificar meu voto, o que faço sempre a contragosto, pois um dos mistérios do universo que até agora não consegui decifrar é por que, sendo o Brasil uma democracia, somos todos obrigados a comparecer às urnas, sob pena de não podermos concorrer a um concurso público se não o fizermos. Segundo: a política local, paroquial, miúda - para muitos, a única política que existe - jamais me entusiasmou; prefiro discutir idéias aos mexericos e picuinhas típicos desse tipo de campanha. E terceiro - e mais importante -: o partido pelo qual a pessoa em questão se candidatou é o PCdoB.
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Esse, para mim, é um pecado imperdoável. Se ele tivesse se saído candidato pelo PT ou até mesmo pelo PSTU, vá lá, eu poderia relevar. Mas não o PCdoB. Não o partido da foice e do martelo. Não o partido de João Amazonas e de Aldo Rebelo.
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Creio que não preciso repetir, aqui, o porquê dessa minha aversão aos comunistas. Basta passar o olho por qualquer texto deste blog para entender por quê. Vou me concentrar apenas na candidatura de meu quase-parente.
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Fiquei sabendo dela há mais ou menos um ano, na última vez em que fui à minha cidade natal, em uma reunião de família. E fiquei sabendo de uma maneira, como direi?, pouco usual. Estava eu tentando conversar - eu sempre tento, embora quase nunca consiga - sobre Política (desta vez, Política, com "P" maiúsculo). Ou seja: sobre os rumos do País, os escândalos de corrupção no governo federal, os desmandos dos petralhas etc. Em dado momento, fiz uma afirmação que costuma me acompanhar nessas ocasiões: "É por isso que não sou de esquerda". Foi então que ouvi uma voz, entre surpresa e indignada: "Mas eu sim, sou de esquerda!".
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Era ele. Começamos então um diálogo meio estranho, na verdade quase um monólogo, no qual tentei explicar-lhe minhas razões, do ponto de vista histórico, político e ideológico. Tentei ser o mais didático possível. Comecei lembrando que Churchill, por exemplo, era de direita, enquanto Stálin e Mao Tsé-tung eram de esquerda. Lembrei o caráter totalitário da mesma, os massacres do comunismo, os expurgos stalinistas, os horrores do Gulag, os cem milhões de mortos no século XX... Em vão. À minha arenga contra o esquerdismo, meu interlocutor respondia com um silêncio atencioso, entremeado por uma ou outra observação superficial, entre uma tragada e outra no cigarro. Quando descobri que ele ia candidatar-se pelo PCdoB, então, percebi logo: eu estava falando sozinho. Ainda tentei demovê-lo de sua decisão, mas sem sucesso.
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O que me espantou não foi o fato de que ele não pareceu se comover nem um pouco com os fatos que eu narrava, que demonstram a natureza intrinsecamente criminosa e genocida da ideologia comunista, mas que ele não via nisso nenhum problema, nenhum empecilho para lançar-se candidato por um partido que, até hoje, não aceitou a denúncia do stalinismo feita por Krushev em 1956. Aliás, pareceu desconhecer por completo tudo o que eu dizia. Fiquei com a impressão de estar falando grego ou mandarim. Ele simplesmente não dava a mínima para nada disso. Dizia que resolvera se candidatar porque queria trabalhar pelo meio ambiente, pela cultura etc. etc., e o PCdoB era o que estava à mão. Pouco lhe importava o partido.
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É por essas e outras que - podem escrever - jamais vou me candidatar em qualquer eleição. No Brasil, as eleições, principalmente as municipais, já perderam há muito qualquer sentido educativo ou politizador que porventura tenham tido um dia. Na verdade, pode-se dizer mesmo que eleição, por estas plagas, não tem nada a ver com politização. Muito pelo contrário. E não me refiro apenas ao festival de patacoadas e bizarrices que costuma acontecer nessa época, os Cacarecos e Macacos Tião da vida, ansiosos por seus 15 segundos de fama no horário eleitoral, ou o nível em geral bucéfalo dos candidatos. Se fosse só isso, seria apenas engraçado. O buraco, porém, é muito mais embaixo, e não tem nenhuma graça.
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A maioria dos candidatos, principalmente dos partidos de esquerda, não tem a menor idéia, ou não liga a mínima, para a história de seus partidos e para o que eles realmente defendem. Tirando o núcleo duro de dirigentes, que transformaram a ideologia - e o poder - em sua razão de viver, arrisco que uns 90% de seus quadros é composto daquilo que se convencionou chamar de "companheiros de viagem", pessoas que se filiam sem saber ao certo em que estão se metendo, muitas vezes por simples laços de amizade. Isso acabou contribuindo enormemente para a despolitização da política, ou a transformação das eleições em uma gincana de mediocridade, feita de jingles e frases ocas.
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Não que os slogans lisérgicos do PSTU ou do PCO sejam preferíveis; mas, pelo menos, supõe-se que os membros dessas seitas ideológicas sabem o que estão dizendo. O mesmo não se pode dizer da maioria dos esquerdistas. Pergunte a um militante do PCdoB ou do PSOL, para não falar do PT, o que ele ou ela tem a dizer sobre os crimes do stalinismo e do bolchevismo e a maioria, tenho certeza, vai responder que desconhece completamente o assunto. Pergunte, em vez disso, a opinião deles sobre a aliança com zezinho ou chiquinho para ganhar as eleições em Cudumundópolis do Salto da Onça e eles lhe darão uma aula sobre a arte dos conchavos para obter cargos públicos. Debater idéias? Discutir História? Esqueça.
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Como já escrevi aqui, não gosto de política (com "p" minúsculo). Por isso escrevo sobre a Política (com "P" maiúsculo). Mesmo que prefiram falar de banheiros públicos e webcam 24 horas em gabinete de vereadores.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Crise mental 2 - um vermelho-e-azul com José Sarney

É impressionante. Nesse dias em que quase não se fala em outra coisa senão na crise das bolsas e no pacote de ajuda econômica do governo americano aos mercados financeiros, sou surpreendido a cada dia com um artigo ou uma análise de algum bambambã desancando o "neoliberalismo". Primeiro foi aquele professor da UNICAMP, que escreveu na Folha de S. Paulo botando a culpa pela quebradeira dos bancos nos "liberais". Agora é uma figura bastante conhecida de todos nós, o ex-presidente e atual senador José Sarney. Ele mesmo, o bigodão, autor de jóias da literatura universal como Os Marimbondos de Fogo. Lá está ele, na mesma Folha de hoje, no mesmo espaço, demonstrando toda sua incrível capacidade de argumentação e conhecimento de causa, para falar mal do sistema capitalista e do Bush. O título do artigo já diz tudo: "Réquiem para o neoliberalismo".
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Como escrevi antes, não me considero um liberal no terreno econômico. Mas coisas como a que vem em seguida vão acabar me convertendo às teses de Hayek e de von Mises. Sarney em vermelho, eu em azul.
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Réquiem para o neoliberalismo
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AS BOLSAS, fartas dos tempos do vale-tudo, pediram que não lhes mandassem flores, e sim o socorro que elas sempre condenaram como uma intervenção maléfica no mercado, que, sozinho, tudo resolveria, até mesmo os problemas da economia e da sociedade. Caímos na armadilha.
Vejamos de que "armadilha" nosso ex-presidente está falando. Provavelmente, não é o Plano Cruzado ou qualquer outro pacote, comuns até pouco tempo atrás, em que se acreditava que a intervenção benéfica do Estado tudo resolveria. Pois é, caímos nessa armadilha direitinho.
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O comunismo morreu sem um tiro, vítima de suas próprias contradições: foi um suicídio. O capitalismo está morrendo, não funciona mais com suas próprias pernas e socorre-se do Estado interventor. Este surge como tábua de salvação.
Que o comunismo morreu, pelo menos como realidade estatal ("socialismo real", como gostam de dizer os que ainda o defendem como "idéia"), não há dúvida, embora não falte quem queira ressuscitá-lo. Por exemplo, defendendo o lema oposto, de que "o capitalismo está morrendo". A história demonstra que esta é a melhor maneira de substituir o livre mercado e a democracia pelo seu inverso, ou seja: o dirigismo estatal e a tirania. Esta é a alternativa ao capitalismo.
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Tony Blair falou certa vez na Terceira Via, que não era nem terceira, nem via, mas, sim, uma maneira de salvar os dedos, perdendo alianças, e não anéis. Melhor pensou Deng Xiaoping, com sua China de dois sistemas, capitalista e socialista, que pelo menos tem a vantagem da evidência do sucesso.
Quanto a Blair e sua Terceira Via, estou de acordo. Não passava de uma forma enganosa de salvar a cara das esquerdas diante do fracasso inegável do socialismo. Mas quanto a Deng Xiao-ping... O sistema chinês não é modelo para ninguém, exceto para os que queiram as benesses do livre mercado sem abrir mão da repressão política. Ou seja: para os totalitários. Seria este o caso de Sarney? Ainda acredito que não, mas posso estar enganado.
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Aliás, é engraçado o Sarney citar a China, país em que cerca de 400 milhões de pessoas - dois brasis - foram retiradas da miséria nos últimos trinta anos por obra e graça do... "neoliberalismo"! Vejam só!
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Nesse episódio da atual e surpreendente crise a que estamos assistindo, sem saber onde está o fundo, fica a vergonha da classe política americana, que se mostrou incapaz de servir ao país e desrespeitou o interesse público.
Maravilha. De incapacidade de servir ao país e de desrespeito ao interesse público, Sarney entende bastante. Em casa de ferreiro...
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Deram o mau exemplo de não distinguir entre os interesses da pátria e os dividendos políticos e eleitorais. Onde estão um Lincoln, um Jefferson, um Washington ou um Roosevelt?
Hum... sério, presidente? Os gringos fizeram uma lambança eleitoral em cima da crise? Interessante... Isso me lembra um certo ex-presidente, de um ex-país da América do Sul, uns vinte e poucos anos atrás, que baixou um pacote congelando os preços somente para, no dia seguinte às eleições em que seu partido faturou quase tudo, revogar o congelamento e voltar à inflação. Pelo visto, Sarney sabe mesmo do que está falando quando fala em dividendos políticos e eleitorais...
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Os próprios candidatos esconderam-se na mediocridade de subterfúgios e lugares-comuns, sem mostrar capacidade de liderar. A primeira virtude do líder é a coragem, a segunda é não ter medo de decidir segundo o interesse do povo, sem julgar se ele próprio vai ganhar ou perder.
Mais uma vez: que corajoso esse Sarney, heim? Corajoso e altruísta. Tanto que não estava nem aí para qualquer ganho eleitoral em 1986, quando patrocinou a monumental farsa do Cruzado. Um exemplo de coragem e coerência política, como se vê. E ainda passa um pito nos americanos, como Lula quando criticou os "especuladores" por sua "falta de ética"... Pois é.
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Acrescente-se o fato de que esta é a primeira crise que ocorre com a globalização financeira, que chega até mesmo a Bora-Bora. Para usar uma citação lugar-comum, lembremos Fukuyama falando no fim da história, com a definitiva implantação da economia de mercado e da democracia liberal. Se uma e outra se mostram incapazes de resolver uma crise dessa dimensão, como achar que elas esgotam os caminhos da humanidade? Faliram o mercado selvagem e a democracia, logo no país que é o seu berço e padrão, mostrando-se incapazes de criar homens públicos que sirvam de exemplo de estadista mundial.
Epa, que estória é essa de dizer que "uma e outra" - ou seja, a economia de mercado e a democracia liberal - se mostram "incapazes" de resolver a atual crise econômica? Tomado o que está dito aí em cima ao pé da letra, teremos a conclusão de que as antíteses de ambas - o intervencionismo estatista e o totalitarismo - é que são a solução para todos os problemas. Será que é isso o que Sarney quer dizer? Ou terá sido um lapso? Então o "mercado selvagem" e a DEMOCRACIA "faliram"? Foi isso mesmo que eu li? E isso tudo por causa de um bando de especuladores? Então a democracia e o capitalismo, em vez de serem reforçados e estimulados, devem ser abandonados, é o que diz Sarney.
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O senador maranhense comprova aquilo que era apenas uma suspeita para mim: quando um adversário do livre mercado apregoa o "fim do neoliberalismo", está mirando, na verdade, na própria democracia. É por isso que, sempre que um desses senhores cita Francis Fukuyama - que falou em "fim da história", mas também no "último homem" -, fico com uma pulga atrás da orelha.
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Bush nivela-se a tais parceiros neste episódio. Ele passará à história não como Quixote, o cavaleiro da triste figura, mas como a figura do triste homem que levou seu país ao fundo do poço.
Os EUA estão no fundo do poço? E o culpado por isso foi o Bush? Jura? Mas não foram os "neolibeais", o próprio mercado, enfim, que teria produzido a crise e agora apela para a proteção estatal? Sarney me confunde. Afinal, Bush é criticado por muitos economistas e políticos conservadores nos EUA exatamente porque estes o consideram demasiado... intervencionista! Aliás, foi justamente por isso que muitos de seu próprio partido votaram contra o pacote de emergência para injetar US$ 700 bilhões na economia e salvar o sistema financeiro, só voltando atrás depois de um monte de emendas. Ainda que a crise fosse o canto do cisne do capitalismo - o que está longe de ser verdade -, seria preciso encontrar outro culpado. Tenta outra, Sarney!
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Ele, que era o grande conservador capitalista, matou-o não com um beijo, como Oscar Wilde na ‘Balada do Cárcere de Reading’, mas com a espada da crueldade, cujo único triunfo foi a cabeça de Saddam. Ela valeria isso? Agora vão querer consertar, mas o estrago e as conseqüências já estão aí.
Que bonito... Sarney, como bom beletrista, não perde a chance de enxertar uma referência literária aqui e ali para embelezar seu texto. Nada contra. Só acho que usar Oscar Wilde para dizer que "o capitalismo morreu" e que foi morto, ainda por cima, "com a espada da crueldade", me parece assim algo meio, como direi?, forçado, além de um pouco afetado. Além do mais, "o único triunfo" a cabeça de Saddam?! Ainda se fosse, não seria pouca coisa, convenhamos. Mas há um país, o Iraque, e outro, o Afeganistão, que, pelo menos em minha opinião, valem "isso". Ou, como diria Churchill: a democracia - e, eu acrescentaria, a economia de mercado - continua sendo o pior dos regimes, excetuando todos os outros.
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É impressionante como as turbulências no mercado financeiro dos EUA se tornaram um pretexto para que os arautos do intervencionismo e inimigos da democracia viessem a público anunciar o fim do mundo e clamar por menos mercado e mais Estado. Como já escrevi antes, isso não passa de um engano ou auto-engano de quem insiste em viver num mundo à parte. Um mundo em que o capitalismo é o inferno na Terra e o socialismo, em qualquer de suas formas, é uma promessa de justiça e de solidariedade. Uma promessa feita de cem milhões de cadáveres. Ou vão dizer que a culpa disso é também dos "neoliberais"?

quinta-feira, outubro 02, 2008

Ainda o tal acordo ortográfico (ou apedêutico) - uma mensagem d'além-mar

Ora, pá! Quem diria, este blog cruzou o Atlântico. Recebo uma mensagem muito simpática (desta vez, sem ironia) do blogueiro "Maioria Silenciosa", que em sua página "Causa Vossa" reproduziu, lá na terrinha, os parágrafos finais de meu último post, como vocês podem ver aqui: http://causavossa.blogspot.com/2008/10/sobre-o-acordo-ortogrfico.html.
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No post, só para lembrar, eu menciono o culto da ignorância de nosso presidente Apedeuta e critico, como bom "do contra", o recente acordo ortográfico assinado alguns dias atrás, uma peça de inutilidade demagógica sem tamanho. O blogueiro parece concordar com minha opinião sobre o assunto - pelo visto, também em Portugal, há quem se oponha a essa empulhação. Também afirma, corretamente, que a principal vítima de tal acordo será a própria língua portuguesa, que tem na diversidade dos falares e da escrita sua maior riqueza. Ele está coberto de razão, quando diz que um brasileiro letrado - o que não é o caso de nosso presidente - não teria nenhuma dificuldade em compreender o português lisboeta ou angolano. Prova disso é que estou aqui comentando (ou "a comentar", como gostam nossos patrícios) uma mensagem sua.
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Faço apenas uma pequena ressalva: ao contrário do que se subentende do texto do referido blog, não sou parte da "intelligentsia" (que melhor seria chamar "burritsia") brasileira. Nem quero sê-lo. A "burritsia" brazuca, pelo menos a sua parte mais visível, já está completamente cooptada e atrelada aos companheiros esquerdistas no poder, tendo-se convertido em porta-voz do analfabetismo tornado virtude e da vigarice intelectual, como pode constarar qualquer um que leia os artigos diários na imprensa ou que vá a uma universidade brasileira.
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De minha parte, permaneço aqui, nesta trincheira de idéias, exército de um homem só, sem nenhum vínculo político-partidário a não ser com a liberdade, e sem nenhum compromisso senão com minha própria consciência. E vou continuar a escrever "assembléia", com acento, e a usar o trema em "tranqüilo" e "liqüidação", assim como grafar "vôo" e não "voo", não importa o que digam os nossos "unificadores por decreto" da Última Flor do Lácio. Antes de quererem forçar-nos todos a escrever do mesmo jeito, o que esses senhores querem, na verdade, é nos obrigar a parar de pensar. Ou a falar "menas", como diz quem botou sua assinatura nessa bobagem.

terça-feira, setembro 30, 2008

MACHADO, O ANTI-LULA

Vou deixar um pouco de lado a crise financeira nos EUA e a nova humilhação da política externa brasileira na América do Sul para me concentrar em algo bem mais prosaico. Refiro-me ao centenário da morte de Machado de Assis, nosso maior escritor, comemorado ontem. A data coincidiu, certamente não por acaso, com a assinatura do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que pretende unificar o idioma falado hoje por cerca de 200 milhões de pessoas em quatro continentes.
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Sobre o acordo ortográfico, falarei depois. Por ora, o que me interessa aqui é analisar um pouco mais de perto essa figura ímpar que foi Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). E traçar um paralelo entre ele e nosso supremo mandatário da nação.

Machado foi o anti-Lula. O que quero dizer com isso? O que qualquer pessoa que conheça razoavelmente bem a biografia do fundador da Academia Brasileira de Letras sabe perfeitamente, mas que quase ninguém, com medo de ofender os cânones politicamente corretos, tem coragem de dizer abertamente: que, nascido num subúrbio carioca, de pai e mãe paupérrimos - ele, pintor de paredes e descendente de escravos; ela, lavadeira e costureira, ambos analfabetos -, e além de tudo mulato, míope, gago e epilético, Machado encarna tudo aquilo que Lula não é, nunca foi e jamais será um dia - um exemplo de superação individual.

Tendo praticamente todas as circunstâncias conspirando contra si, desde a origem humilíssima até a cor da pele - num país em que, é bom lembrar, ainda reinava a mancha da escravidão, e que via na brancura da cútis um atestado de superioridade física e mental -, Machado jamais se conformou ao determinismo social de sua época e ao vitimismo fácil que sempre caracterizou certa visão esquerdista. Também, ao contrário do que muitos gostariam hoje, nunca sujeitou sua literatura a um papel racial demagógico - nunca foi, em suma, um "escritor negro". Foi um escritor, pura e simplesmente. O maior da literatura brasileira e um dos maiores da literatura universal, ao lado de Dante, Camões e Cervantes.

E Lula? Bom, acho que não vou precisar lembrar aqui sua origem social. Ela é conhecida de todos, que já ouviram e reouviram, ad nauseam, a história de sua vinda para São Paulo num caminhão pau-de-arara, sua infância pobre e sua mãe "que nasceu analfabeta". Ele, aliás, faz questão de dizer isso sempre que pode, em discursos geralmente recheados de sentimentalismo e erros de português, que não raro levam às lágrimas muitos intelectuais de esquerda. Luiz Inácio, o menino de Garanhuns, interior de Pernambuco, que veio para São Paulo fazer a vida, virou metalúrgico, perdeu um dedo, tornou-se líder sindical, entrou para a política e foi eleito e reeleito Presidente da República... Comovente, não?

Seria, certamente, se não fosse por um detalhe, que geralmente passa despercebido pela legião de admiradores de D. Lula, Primeiro e Único. Ao contrário do autor de Dom Casmurro e de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Lula não prosseguiu nos estudos, parando na 4a série primária. Para todos os efeitos, é um semi-letrado, um semi-analfabeto. E, igualmente ao contrário de Machado, ele não o fez não porque não tivesse condições financeiras de correr atrás do tempo perdido e superar essa deficiência, mas por um motivo muito mais simples e inconfessável: porque não quis. Pelo menos desde que largou o macacão de operário e entrou para a política, no final dos anos 70, ele teve tempo e oportunidades de sobra para cursar até uma faculdade, se quisesse. Em vez disso, preferiu a política. E virou presidente da República.

Tamanha é a hegemonia da cantilena politicamente correta nessa e em outras questões que mesmo alguns críticos de Lula e do PT hesitam em tocar nesse assunto, para não passarem por "elitistas" e "preconceituosos". Para eles, como para a maioria, Lula pode até ser um bandido e um enrolador, mas sua ignorância seria um pecado menor. Não vêem nada de mais em que as principais atividades intelectuais de Lula sejam os churrascos com os amigos ou os jogos do Corinthians. Ou que Machado apreciasse Beethoven, enquanto Lula gosta de Zezé Di Camargo e Luciano.

As diferenças não páram por aí. A negligência do atual mandatário brasileiro com a própria educação decorre de algo bem mais íntimo e pessoal do que qualquer condição social pregressa: Lula detesta ler. Sua aversão à leitura é notória. Para ele, como confessou certa vez em um evento - em que ironicamente tentava estimular as crianças ao hábito da... leitura! -, ler um livro é algo tão penoso quanto andar de esteira. Seria apenas mais uma curiosidade inofensiva, ou mais uma gafe, se não fosse outro detalhe: não somente ele foge dos livros como o diabo da cruz, como propagandeia e orgulha-se de sua própria ignorância. Na verdade, esta é uma arma que ele utiliza sempre que é conveniente, para rebater qualquer um que critique suas poucas luzes. Basta alguém lembrar esse detalhe que ele, ou algum de seus milhares de assessores gritará, indignado: "é preconsseitú!". Com Lula, a infância pobre e humilde tornou-se um álibi para a ignorância. Esta, por sua vez, foi elevada à condição de verdadeiro objeto de culto.
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De acordo com essa visão dos petistas, Machado de Assis, certamente, seria um preconceituoso. Pior: ele era parte da "elite branca" (mesmo não sendo da elite, nem branco) que torce o nariz para o presidente-operário por seus erros de português e sua origem nordestina. Sim, porque Machado, diferentemente de Lula, gostava de ler. Mais que isso: ao contrário de nosso presidente, ele procurou contornar as dificuldades da vida, tornando-se um autodidata. E isso sem cotas, nem nada do gênero. Enfim, ele tinha tudo para ser um ignorante, ou, se vivesse hoje, um petista. Mas não cedeu ao apedeutismo. Mesmo não sendo político - ou talvez por isso mesmo -, não sucumbiu à preguiça intelectual, nem jamais usou o argumento do preconceito da "Zelite" para justificar a própria ignorância. Ao contrário: dominando também o francês e o inglês, tornou-se um fino e sofisticado ourives da língua portuguesa. Se vivo fosse, Machado seria tachado pelos companheiros petistas como um esnobe e um traidor da causa "afro-descendente".

Poderiam argumentar que nenhuma comparação entre Machado e Lula se sustenta, pois afinal Machado era um gênio, talvez o maior que tivemos, enquanto Lula é um político. Eu digo que essa comparação apenas torna maior o fosso entre os dois personagens, sem dela retirar seu conteúdo pedagógico. Gênio ou não, Machado veio do nada, tendo nascido e se criado em condições - e numa época - muito mais difíceis do que as que Lula enfrentou. Sua trajetória de superação não é uma simples história do menino-pobre-que-venceu-na-vida-contra-tudo-e-contra-todos. É uma história de caráter. A de Lula, por sua vez, não pode ser resumida em simples gosto, ou falta de gosto, pelas letras. Não que, para ser presidente, seja preciso ser um gênio literário, ou um acadêmico. Mas o sujeito que chega ao cargo mais alto da nação gabando-se de nunca ter lido um livro na vida, num país de analfabetos, não revela apenas despreparo e preguiça intelectual, além de dar um mau exemplo, mas também, e sobretudo, falta de caráter. Apontar esse fato não é preconceito. É vergonha na cara.
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Passemos ao acordo ortográfico. Já seria piada o fato de seu signatário ter sido Lula - logo ele, que certamente não deve saber soletrar "ortográfico" - e que o evento tenha ocorrido, ainda por cima, na Academia Brasileira de Letras. Isso, por si só, já seria suficiente para demonstrar o caráter absolutamente inútil e demagógico dessa reforma. Mas o problema vai mais além. De acordo com as mudanças introduzidas, a diversidade, riqueza principal da língua portuguesa, sairá terrivelmente prejudicada em favor de uma decisão governamental.

A ordem do dia por trás da reforma é "unificar" o português escrito no Brasil, em Portugal, na África e na Ásia, retirando-se, por exemplo, os acentos agudos em palavras como "jóia" e "idéia", além de aposentar o trema, o que transforma a grafia de palavras como "tranqüilo" semelhante a do espanhol. E isso tudo de uma penada, como quis fazer aquele deputado comunista que queria banir, por decreto, expressões estrangeiras da língua falada e escrita no Brasil (deveria começar pelo nome de seu partido, "comunista" - um evidente galicismo). Em vez de separados pela mesma língua, como disse certa vez George Bernard Shaw ao referir-se ao inglês falado nos dois lados do Atlântico, estaremos, a partir de agora, unidos compulsoriamente pela vontade de nossos governantes.

Que Lula tenha sido o firmante de semelhante aborto é algo bastante simbólico. O acordo ortográfico assinado ontem pelo Apedeuta, desconfio, seria rechaçado por Machado de Assis. Assim como a trajetória do ex-metalúrgico. Provavelmente, ao invés de sugerir a Lula apor sua assinatura trêmula no texto do acordo, o velho Machado lhe recomendaria ler um livro. De preferência, de Gramática. Ou um tratado sobre Ética.

A VERDADEIRA CRISE É MENTAL

Como já escrevi aqui, não sou especialista em economia. Inclusive, e isso admito até com certo pudor, não gosto muito do assunto. Mas a quantidade de besteira que li nos últimos dias sobre a crise do mercado financeiro nos EUA, que ontem atingiu em cheio a Bolsa de São Paulo, agravada pela decisão do Congresso dos EUA de não aprovar o pacote de 700 bilhões de dólares de Bush para ajudar o sistema, por parte de especialistas e simples militantes de esquerda travestidos de analistas sérios, me obriga a tocar nesse tema, que sempre considerei bastante árido e enfadonho.

A primeira frase que ouvi, mal iniciada a quebradeira nos bancos nos EUA, e que desde então tem sido repetida insistentemente, foi o "fim do neoliberalismo". Isso virou um verdadeiro mantra dos adeptos da visão esquerdista, ou simplesmente antiliberais - há um antiliberalismo de direita, senhores! vide a ditadura militar brasileira, por exemplo. "E agora, liberais?", é o título de um artigo de um professor da UNICAMP que leio hoje na Folha de S. Paulo. Em suma, fica parecendo que a culpa da crise foi deles, dos "liberais", os defensores da "mão invisível" e da desregulamentação do mercado, e que a crise seria o resultado, como diz o autor do artigo, de uma gigantesca "operação ideológica", e não dos mecanismos próprios ao sistema capitalista, que convive com crises cíclicas e periódicas. Tudo isso para defender uma idéia só: o "neoliberalismo" morreu e Keynes - ou Marx - estavam certos.
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Será mesmo? Será que é verdade que a crise atual, a primeira da era do capitalismo global, é a prova da ineficiência do livre mercado e da necessidade da mão visível do Estado? Como não poderia deixar de ser, os advogados da tese intervencionista, muitos deles lamentando até hoje a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, começaram a botar o pescoço para fora, e do alto de suas cátedras universitárias - onde muitos não precisam nem trabalhar para viver -, já defendem uma maior regulamentação do mercado, inclusive no Brasil, país em que capitalismo sempre foi sinônimo de dirigismo e protecionismo estatal, não de livre empresa. Para isso, utilizam os mais intrincados argumentos. Para posar de analistas imparciais, lembram que Nicolas Sarkozy, o presidente da França que não tem nada de esquerdista, defendeu a maior regulamentação estatal dos bancos. Como se o dirigismo fosse característica unicamente da esquerda. Um filósofo conhecido meu escreveu um texto fazendo uma comparação meio literária entre a bancarrota dos bancos e a obra-prima de Goethe, que narra um pacto entre Fausto e o diabo - no caso, os cidadãos comuns que foram lesados pela crise teriam sido enganados e jogados na rua da amargura pelos gatos gordos do mercado financeiro, os "especuladores" tão condenados por Lula, assim como o personagem de Goethe foi enganado pelo tinhoso. Teria sido o Mefistófeles liberal, com suas promessas sedutoras de enriquecimento rápido e de delícias sem fim, o grande responsável pela ruína econômica de milhões de pessoas na terra do "deus-mercado"...
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Não é preciso ser economista ou expert em mercados financeiros para perceber a falácia desse tipo de argumentação. A crise, na verdade, é uma oportunidade de ouro para os inimigos do capitalismo e da própria democracia - e olhem que as duas coisas não são sinônimos - propagandearem suas teses. A pretexto de criticar as reais ou supostas falhas do liberalismo econômico, trata-se na verdade de atacar o próprio capitalismo e a própria noção de liberdade individual que lhe é inerente. Esse tipo de satanização do capitalismo já é um dado cultural, um elemento de nossa própria cultura. Somos ensinados, desde criancinhas, a valorizar não a iniciativa individual, mas a "solidariedade" supostamente encontrada nos regimes socialistas, e a considerar o individualismo e o lucro um pecado, e a "distribuição de renda", mesmo que não haja nada a se distribuir, o valor supremo. Isso, de certo modo, já se tornou um lugar-comum, invadindo até mesmo as novelas de TV (alguém já viu um vilão de novela que não seja um empresário, por exemplo?). Daí não surpreende que muitos insistam em enxergar no capitalismo nada mais do que cupidez e avareza, e no "socialismo", seja ele "real" ou não, um antídoto para todos os males do universo. Mesmo que seja um antídoto muito pior do que a doença, pois deixou um saldo de uns 100 milhões de cadáveres no século XX...

É essa visão demonizadora do capitalismo, de base religiosa e cultural, e não qualquer análise estrutural e científica da economia e da presente crise, sem falar na safadeza ideológica pura e simples, o que está por trás dos anúncios do "fim do neoliberalismo". De acordo com essa concepção, a culpa - outro forte elemento religioso - seria do próprio sistema, visto sempre como um ente diabólico e meio sobrenatural, dirigido por corporações sinistras e indivíduos gananciosos e sem escrúpulos, e que, deixado por si mesmo (ou seja: sem a direção do braço estatal), despertaria o pior nos seres humanos, transformando-os em monstros de ganância e de egoísmo, interessados somente em seus ganhos pessoais e sem o menor compromisso com a "coletividade"... A antítese desse inferno seria, obviamente, o "paraíso" socialista. É essa a conclusão a que nos induzem os críticos esquerdistas do "neoliberalismo". Fica claro que estamos diante de mais uma tentativa ideológica de torcer os fatos para que estes se adaptem à cosmovisão marxista.

Não sou liberal. Pelo menos, não em economia. Não acho que a riqueza e o dinheiro, mas sim a liberdade, seja o fim de qualquer associação política. Para os liberais econômicos, adeptos da religião do livre mercado, este é a solução de todos os problemas - para eles, a China, por exemplo, com seu sistema político comunista e sua economia capitalista, é o melhor dos mundos. Creio que esse é um dos maiores erros que se poderia cometer, e que acaba dando munição aos inimigos da sociedade aberta. Para mim, ao contrário, a liberdade de comércio é apenas uma faceta da democracia, embora indispensável. Não que o capitalismo seja inseparável da democracia - o capitalismo pode conviver com regimes ditatoriais, como na China -, mas, certamente, não há democracia sem capitalismo. Pelo menos até o momento não surgiu nenhum regime democrático que não fosse, ao mesmo tempo, capitalista. Nem surgirá um dia, atrevo-me a dizer.

É isso, em minha opinião, o que torna o capitalismo um sistema superior a qualquer coisa até agora engendrada pelo engenho humano: além da sua capacidade de sair revigorado após cada crise, o fato de que a democracia só pode existir - e isso a história do século XX mostrou à exaustão - em um sistema de livre mercado e livre iniciativa. E é por isso, também, que qualquer defesa do dirigismo estatal cheira a autoritarismo. É isso, e não porque eu queira um dia chegar a ser o CEO de alguma multinacional e ter uma frota de BMWs na garagem, o que me leva a defender o sistema capitalista.

Enfim, sinto dizer, senhores esquerdistas, mas o mundo não vai acabar. A crise que ora assola os mercados norte-americanos e ameaça provocar um colapso certamente passará, como passaram todas as outras. A crise mental que tomou conta de milhões de pessoas, entorpecidas por um antiliberalismo tosco e um antiamericanismo primitivo e idiota, porém, nos acompanhará por muitos anos ainda. Pelo menos enquanto houver quem sonhe com a volta do Muro.

quarta-feira, setembro 24, 2008

MAIS UMA HUMILHAÇÃO

Enquanto Sua Santidade D. Lula Primeiro e Único era louvado na ONU como o redentor dos fracos e oprimidos do mundo, e dava-se até mesmo ao luxo de passar um pito nos americanos pela recente crise financeira dos EUA, criticando o "nacionalismo populista" dos países ricos e a "falta de ética" (pois é...) dos especuladores pela crise, aqui perto, no Equador, um filhote de Hugo Chávez e candidato a ditador latino-americano dava um pé na bunda da construtora Odebrechet, seqüestrava suas obras, mandava o exército ocupá-las e proibia os funcionários da dita empreiteira de sair do país (dois deles, que não puderam fugir a tempo, se refugiaram na residência do embaixador brasileiro, como se asilados políticos fossem). Tudo isso ao arrepio da lei, tanto internacional quanto equatoriana. De quebra, o dito bufão, Rafael Correa, ameaça dar um calote numa dívida de 240 milhões de reais que o governo do Equador tem com o BNDES, por um serviço que, diz ele, não presta.

Desde que outro clone de Chávez, Evo Morales, mandou as tropas tomarem à força as refinarias da PETROBRAS na Bolívia, dois anos atrás, não se via uma agressão mais ultrajante aos interesses brasileiros no exterior. E desde então não se via tamanha demonstração oficial de cumplicidade com a própria humilhação.

Ao saber da ação de Correa, o Chanceler Celso Amorim agiu como um verdadeiro Ministro das Relações Exteriores... do Equador! Em Nova York, onde estava acompanhando Lula na Assembléia-Geral da ONU, ele disse, sobre a tomada das propriedades da Odebrecht e de seus funcionários como reféns por Correa, que a ação do Equador foi "preventiva". Mais um pouco e ele certamente justificaria a ação, como uma demonstração de amizade e amor de Correa pelo Brasil e pela democracia... Lula, por sua vez, disse que o rompante de Correa era só por causa do referendo de domingo, 28/09, sobre a nova "Constituição Socialista" que Correa quer impor ao país, no estilo chavista. É, pode ser. O problema é que, segundo o Apedeuta, isso é algo perfeitamente normal. Como se fosse normal um governante usar os tanques e expulsar trabalhadores estrangeiros para atingir seus objetivos populistas e autoritários. Às vezes, ao justificar as maluquices dos outros, os moluscos, como os peixes, morrem pela boca e deixam entrever suas próprias intenções antidemocráticas. Só faltou Lula ou Amorim virem a público agradecer por mais essa demonstração de amizade de Correa et caterva. E na (própria) bundinha, não vai nada?

Não que o Brasil devesse cortar relações com o Equador e invadir aquele país, o que, até pela dificuldade geográfica, seria dificíl. Nada disso. Não acho que esse fosse também o caso da Bolívia, embora motivos para tanto, inclusive à luz do Direito Internacional, não faltassem. Mas um pouquinho de dignidade, assim como canja de galinha, não faz mal a ninguém.

Até o momento em que escrevo, o governo Lula da Silva não emitiu nenhuma manifestação de desagrado, nenhuma nota de protesto, pela ação intempestiva do governo do Equador. Nem um simples "ui". Nadinha de nada. Pelo contrário: a cada pancada recebida de seus companheiros bolivarianos, o governo brasileiro baixa a cabeça e, tal qual mulher de malandro, parece pedir mais e mais... O Equador pode até não saber por que está batendo, mas o Brasil certamente sabe por que está apanhando. E, quando alguém na oposição (se é que merece ser chamado de oposição o clube de senhoras que assim se chama no Brasil) protesta, clamando por uma reação mais enérgica contra essas arbitrariedades, alguém no governo vem sempre com a resposta pronta: isso vai passar, é preciso agir diplomaticamente e assimilar as perdas, em nome da integração regional etc.... Suponhamos que, em vez de Correa ou Morales, fosse Bush quem resolvesse expulsar uma empresa brasileira, confiscar todos os seus bens e impedir a saída de seus trabalhadores dos EUA. Conseguem vislumbrar o escândalo? Melhor: conseguem ver alguém no governo Lula querendo pôr panos quentes, pois afinal é preciso preservar a amizade e a integração com os americanos? Alguém falou em soberania?

Correa não é o primeiro, nem será o último, a se beneficiar da condescendência dos companheiros petistas no poder em Brasília. O atual presidente do Paraguai, Fernando Lugo, um padre católico adepto da Teologia da Libertação - que melhor seria chamada de Escatologia da Libertação -, já anunciou que irá rever o contrato de construção da usina de Itaipu, pela qual o Paraguai não deu um centavo, obrigando o Brasil a pagar pelo que hoje recebe de graça. Quem quer apostar que o governo Lula vai engolir mais essa, em nome, mais uma vez, da "integração regional"? Nunca a "integração regional" serviu tanto de desculpa para que um país se rebaixasse desse jeito.

Não vou entrar aqui na discussão de se a Odebrecht fez um serviço porco ou não. Pode ser até que tenha feito, e que Rafael Correa tenha alguma razão em mandar os urutus embargar as obras. Mas a questão, obviamente, não é essa. O que merece atenção, nesse imbróglio todo, não é a patacoada populista do fanfarrão Correa, seu nacionalismo desbotado de meia pataca, mas a falta de ação do governo Lula, cuja política externa é tida como "lúcida" e "um sucesso" pela maioria da imprensa brazuca. Os vizinhos populistas do Brasil, como Correa no Equador e Chávez na Venezuela, além de Morales na Bolívia, o casal Kirchner na Argentina e agora Lugo no Paraguai, se especializaram em bater no gigante adormecido, até como uma forma de desviar a atenção de suas trapalhadas internas. Enquanto isso, o governo brasileiro diz amém, aceitando isso tudo como normal, como disse Lula, para quem caixa dois também é algo normal. E por quê?

A resposta para essa pergunta está ao alcance de qualquer um que tiver um mínimo de massa encefálica e que não tenha se transformado ainda num robô apatetado e repetidor de slogans. Trata-se de um assunto que a imprensa brasileira ignorou solenemente por dezoito anos, e que ainda hoje é tratado com um descaso só inferior ao cinismo com que tentaram negar até sua existência: o Foro de São Paulo. Já falei aqui desse convescote de revolucionários e narcoterroristas, fundado por Lula e por Fidel Castro em 1990 para "restaurar na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu". Pois bem. O que isso tem a ver com o jeito palerma com que o Brasil tentou justificar a tunga de Correa? Tem a ver que Correa, assim como Chávez e Morales, e assim como Lula, é membro do dito Foro. Tem a ver que, nessa e em outras questões, os dois governos são comandados não por estadistas, mas por companheiros.

Não é preciso fazer nenhum exercício mirabolante de teoria conspiratória para perceber algo tão evidente. Lembremos apenas da crise ocorrida em março deste ano, por causa da morte de um chefão das FARC, os narcoterroristas colombianos, em território do Equador. O laptop do dito chefe terrorista, Raúl Reyes, revelou para quem quiser ver que Correa homiziava os bandoleiros das FARC em seu território, um crime internacional, condenado explicitamente por resolução da ONU. Mesmo antes da divulgação do conteúdo das mensagens achadas no laptop, aliás, os vínculos de Correa com as FARC eram claros e nítidos. Qual foi, então, a atitude do governo Lula? Ficou totalmente do lado de Correa e das FARC, contra a Colômbia. Agora, vem o melhor: tanto as FARC quanto Lula e Correa fazem parte do Foro de São Paulo. Deu para entender ou será que eu vou ter que desenhar?

Com isso em mente, creio que não fica muito difícil entender a razão da falta de ação do governo Lula diante dos arroubos nacionalisteiros de nossos vizinhos problemáticos. Nunca na história da diplomacia brasileira o Brasil foi tão humilhado. E nunca aceitamos isso tão passivamente, de maneira tão cúmplice e covarde.

Bolsa-Família, a volta do voto de cabresto


Título de reportagem da Folha de S. Paulo de hoje, 24/09: "Bolsa Família sustenta voto de cabresto no Nordeste".

É... Não foi por falta de aviso, certamente. Há tempos venho chamando a atenção, juntamente com alguns gatos-pingados na internet, para o fato de que o assistencialismo estatal lulista não passa de uma forma de atrelar as massas de miseráveis aos donos do poder. Estes já descobriram, há tempos, que o melhor jeito de garantir seus currais eleitorais entre o povão é brutalizando-o, a começar pela barriga. Já denunciei mais essa farsa da era Lula, como vocês podem constatar aqui: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2008/03/o-bolsa-famlia-preciso-acabar-para-o.html.

Esse é o governo Lula. Com ele, avançamos céleres rumo ao século XX...

Uma perguntinha para os desarmamentistas


Uma das vantagens - ou desvantagens, dependendo do ponto de vista - de não rezar pela cartilha esquerdista e politicamente correta é saber de antemão o que essas boas almas irão dizer sobre tal ou qual assunto. Ontem, um tarado e débil mental fuzilou dez pessoas numa escola na Finlândia. Quando soube da notícia, pensei imediatamente: "pronto! agora os arautos do 'desarmamento' vão tentar, como já fizeram outras vezes, tirar proveito do fato, compensando a derrota no plebiscito em 2005 e convencendo mais alguns incautos de que a raiz do mal está na posse de armas e que é preciso proibir a posse das mesmas etc."

Dito e feito. Em quase todos os jornais a que assisti, a começar pelo Jornal Nacional, a tônica era a mesma: a culpa é das armas, é preciso desarmar a população etc. etc. Concluí na hora: esse pessoal não desiste. Devem estar até hoje remoendo a derrota de três anos atrás, inconformados por não terem conseguido convencer todo mundo a renunciar ao direito de escolher ter ou não uma garrucha em troca da proteção de José Mayer e Felipe Dylon. Agora botam de novo as manguinhas de fora.

Para não aborrecer muito esse pessoal "do bem", essa gente maravilhosa que, como sabemos, só quer a nossa segurança e já encontrou a fórmula da felicidade humana sobre a Terra, não vou aqui repetir o que já disse extensivamente em outro post. Não vou lembrar, por exemplo, o caso de países como a Suiça, onde cada cidadão tem um fuzil debaixo da cama. Ou da Jamaica, onde as armas são proibidas. Assim como do Japão, onde a proibição também é total, o que não impediu que há alguns meses um maluco tenha trucidado várias pessoas no meio da rua com uma peixeira. Vou me limitar a fazer uma simples pergunta, que espero que alguém do Viva Rio ou do Sou da Paz, com toda sua sapiência, um dia me responda:

- Por que assassinos como o da Finlândia (e de Columbine) sempre escolhem, para abrir fogo, lugares como escolas ou escritórios, e não, por exemplo, uma feira de armas ou um clube de tiro?

Aguardo resposta. Qualquer resposta. Tenho certeza que os desarmamentistas vão me dar uma luz sobre esse assunto. Afinal, eles só querem o nosso bem, não é mesmo?

segunda-feira, setembro 22, 2008

De libertários e ditadores - um artigo excelente

Segue artigo de hoje do colunista Alex Medeiros, do Jornal de Hoje, de Natal-RN. É um sopro de esperança em meio à mediocridade geral, que só se reforçou nos últimos cinco anos. Quando parece que toda a chamada "grande imprensa" do centro-sul, do Globo à Folha de S. Paulo, já engoliu a pílula do lulo-petismo, convertendo-se em porta-voz oficial ou oficiosa das fantasias da cleptocracia esquerdista no poder, eis que vem um jornalista lá da província e repõe, com um texto demolidor, as coisas em seu devido lugar. Renovou minhas esperanças na possibilidade de vida inteligente no país dos botocudos.
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Simplesmente excelente.

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O libertário de ontem é o ditador de hoje
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Millor Fernandes disse há trocentos anos que o perigo maior dos comunistas é quando eles aprendem a contar dinheiro. Vide a fortuna de Fidel Castro, as apropriações dos líderes europeus do Leste, as narco-finanças das Farc e os mensalões e cuecões do PT no Brasil.
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Meu amigo paraibano Bráulio Tavares concluiu anos depois do decano filósofo do humor que "a direita nunca me enganou. A esquerda, já". E lá por volta dos anos 1980, meu lado cazuzo-publicitário ainda vivo compôs o adesivo "Ideologia, eu quero uma pra vender".
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Longe do conhecimento de nosotros brasileiros e ignorada pela imprensa tupiniquim preocupada em pregar a queda do império americano e a falência do capitalismo, a pobre Nicarágua virou uma aldeia abandonada ao deusdará, uma sesmaria ideológica onde a família Ortega constrói fortuna e destrói a democracia.
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O senhor Daniel Ortega, o ex-guerrilheiro que comandou a reação ao ditador Anastácio Somoza nos anos 1970, conseguiu em várias administrações provocar no pequeno país uma hecatombe maior do que o grande terremoto que davastou Manágua em 1972 e levou 10 mil vidas em apenas 30 segundos.
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Quando Ortega e seus guerrilheiros combateram a dinastia Somoza, com ataques a la vietcongs e foram acusados pelo governo de violentos, saiu em defesa deles um senhor grisalho, cinquentão, querido pelo povo por sua importância religiosa e cultural: o então arcebispo Ernesto Cardenal.
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O religioso foi o responsável por um conceito que tirava da luta armada qualquer culpa no campo divino: "não deporemos Somoza com orações, mas com balas". Uma versão brasileira foi composta pelo bispo Pedro Casaldáliga: "Erradicar a fonte da violência não é violência".
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Ao justificar a ação guerrilheira do movimento sandinista, Cardenal estava pondo em prática as pregações do bispo colombiano Camilo Torres, um ícone católico da esquerda latina naquela época. Torres dizia que "o dever de todo cristão é ser revolucionário e o dever de todo revolucionário é fazer a revolução". Mais automático que a escrita de Breton.
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A Nicarágua de hoje é mais um retrato da farsa marxista pregada pela esquerdopatia mundial. Uma nação destroçada, empobrecida, violentada nos mínimos direitos de cidadania, governada por um ex-guerrilheiro com todos os componentes de chefe de quadrilha, um corrupto, um carrasco sanguinário e sem escrúpulos.
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Me assusta quando vejo um radical sentar a bunda no poder. Sua primeira ação é quase sempre passar uma borracha na própria condição pregressa. O Luiz Inácio que hoje ameaça nas ruas um líder que faz oposição no Parlamento, é aquele mesmo que fez oposição radical e até votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal.
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Quando liderou a oposição no tempo dos governos Sarney, Itamar, Collor e FHC, o senhor Luiz Inácio foi respeitado como manda o protocolo de uma democracia. Com exceção dos arroubos do alagoano, nenhum chefe de Estado subiu em palanques ou nas tamancas para desancar a outra banda da sociedade.
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Voltemos à Nicarágua. Entre os muitos perseguidos pelo sacripanta Daniel Ortega está um senhor octogenário, cansado de tanta esperança, teimoso na sua fé de uma nação para o povo. Seu sofrimento diante da ditadura atual é o mais frio e cruel retrato do espírito amoral das esquerdas. O corsário comunista persegue Ernesto Cardenal. (AM)

O CAPITALISMO MORREU! (Pela milionésima vigésima vez...)


Confesso que não ligo muito para economia. As notícias sobre o assunto, mesmo quando se trata de uma crise séria e de possível alcance mundial como a que atualmente aflige os EUA, não costumam me despertar maior interesse. Meu conhecimento sobre o tema, já escrevi aqui, não vai muito além de algumas noções básicas sobre macroeconomia e teoria econômica, além de história da economia, aprendidas meio que à força, por obrigação. Acho qualquer assunto que tenha a ver com dinheiro, números, cálculos etc., extremamente entediante. Sempre que o jornal anuncia os números da inflação ou do crescimento do semestre, sou tentado a mudar de canal, como tenho vontade de fazer sempre que William Bonner e Fátima Bernardes anunciam o último treino da seleção brasileira de futebol e a próxima entrevista de Ronaldinho Gaúcho. Nesses momentos, busco em outra emissora alguma informação atualizada sobre a guerra na Geórgia ou sobre a crise na Bolívia. É um defeito imperdoável de minha parte, admito. Mesmo assim, não resisto a escrever alguma coisa sobre algo de que julgo entender um pouco - a manipulação das notícias pela esquerda jurássica e oportunista, que se revela na cobertura de muitos jornais sobre a quebradeira no país de Jorjibúxi.

A falência do banco Lehman Brothers e a intervenção salvadora do governo Bush nos mercados deram o mote perfeito para que os dinossauros colocassem a cabeça para fora da toca e praticassem seu esporte preferido - desancar o capitalismo. Sentindo-se cheios de razão, muitos colunistas, subitamente convertidos em analistas econômicos, como Emir Sader e Luiz Fernando Veríssimo, não perderam essa oportunidade de apontar aquilo que consideram uma contradição gritante do sistema neoliberal norte-americano, que teria, segundo essas mentes privilegiadas de defensores do cleptopetismo estatal e do socialismo cocaleiro-bolivariano, deixado as coisas saírem do controle em nome do "deus-mercado", apenas para apelar para o guarda-chuva do intervencionismo estatal. "É o fim do neoliberalismo", logo se começou a ouvir, com a esquerda, exultante, repetindo Francis Fukuyama - o "último homem", nesse caso, seria o "homem novo" socialista, como um dia quis criar em Cuba o fedorento Che Guevara.

É sempre assim. Ocorre uma crise em Wall Street, as bolsas despencam, os corretores arrancam os cabelos, o governo se vê obrigado a injetar dinheiro para salvar o sistema, e os inimigos do mercado e da sociedade aberta têm verdadeiros orgasmos, anunciando o tão esperado - e, para eles, sonhado - apocalipse. "O capitalismo morreu, o capitalismo morreu!", é o que repetem para si mesmos, nesses momentos, como um mantra. É. Eles têm razão. O capitalismo morreu. Mais uma vez. Sua primeira morte foi em 1929, com o crash da Bolsa de Valores de Nova York e o início da Grande Depressão dos anos 30. Depois, morreu novamente, no começo dos anos 60, quando o então chefão da falecida União Soviética, Nikita Krushev, anunciou em tom solene que eles, os comunistas, iam enterrar os capitalistas. Finalmente, sua missa de sétimo dia ocorreu em meados dos anos 70, quando os mercados entraram em parafuso por causa da crise do petróleo. E foi morrendo e ressuscitando, morrendo e ressuscitando... O capitalismo, em sua encarnação atual de "neoliberalismo", morreu. E vai ressuscitar de novo. E de novo, e de novo. Para consternação dos Veríssimos e Sáderes, que continuarão proclamando, com ares professorais, sua morte iminente e inexorável, como previra o inefável Marx.

Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que os esquerdistas, nesse caso como em todos os outros, confundem a realidade com a própria vontade, o que é típico de mentes psicopatas. Acreditam que os 700 bilhões injetados por Bush na economia são o prenúncio do fim do capitalismo (ou do "neoliberalismo", como gostam de dizer) e o início de uma era de ouro de intervencionismo e dirigismo estatal porque assim o desejam. Está sendo assim agora, como o foi antes, e o será depois. Não contentes com essa manifestação de voluntarismo triunfalista travestido de análise econômica, os companheiros também adoram posar de moralistas, acusando o governo Bush - além de tudo, é o governo Bush! - de usar o dinheiro do contribuinte para salvar banqueiros e empresas da falência, como FHC teria feito com o PROER no caso dos bancos. Aqui, seja por auto-ilusão, seja por desonestidade intelectual, seja pelas duas coisas, confundem salvação do sistema com maracutaias - única forma pela qual eles conseguem engatar um raciocínio.

Uma coisa é socorrer empresa falida, como se tornou comum no nosso "capitalismo" de compadres, baseado no uso e abuso do dinheiro público para compensar a incompetência e os desmandos de empresários que vivem de mamar nas tetas da vaca sagrada estatal - algo de que os petralhas entendem bastante. Outra coisa, muito diferente, é manter os fundamentos e a estabilidade do sistema econômico, impedindo uma reação em cadeia que pode degenerar em colapso para todos. É para isso, a propósito, que existe o Estado. Ou, como diz Reinaldo Azevedo em seu blog: "É evidente que o estado não deve socorrer empresa quebrada. Que quebre! É do jogo. Mas é preciso distinguir esse tipo de intervenção, muito comum em Banânia, da chamada crise sistêmica, da quebradeira geral — que não puniria apenas as empresas incompetentes e os especuladores. Também o dinheirinho no banco do homem comum, que é o verdadeiro dono da grande massa do meio circulante do sistema, iria para a cucuia."

Já relatei aqui a época em que eu militava numa seita de extrema-esquerda, que defendia a derrubada do capitalismo e a revolução proletária mundial, no começo dos anos 90. Naqueles tempos de porralouquice, lembro bem, começávamos qualquer análise de conjuntura com o seguinte mantra: "o capitalismo, em sua fase final de crise (ou desintegração)..." Era a plena época, vejam bem, de euforia econômica do início da globalização. Mesmo assim, tínhamos como certa e verdadeira a noção de que o capitalismo entraria em crise, mais cedo ou mais tarde, e que seu colapso era inevitável. Isso, para nós, era um dogma, um fato da natureza, assim como o nascer e o pôr do sol. Pois é. Certas coisas não mudam mesmo. O capitalismo vive de crises cíclicas e periódicas, renovando-se e fortalecendo-se após cada uma delas. O socialismo, ao contrário, é perfeito, como demonstrou o século XX.

Até a próxima crise. E até a próxima morte e ressurreição do capitalismo.

sexta-feira, setembro 19, 2008

A CORAGEM DE TER MEDO

Eis alguém realmente sem medo... (Buster Keaton)

Um amigo meu enviou-me a seguinte notícia por e-mail: de acordo com pesquisa recente, cientistas norte-americanos comprovaram que as opções políticas têm uma base biológica. Quem se identifica mais com as posições de direita, por exemplo, é movido principalmente pelo medo. Isso ajudaria a explicar muitas das escolhas políticas da direita norte-americana, que seria mais desconfiada e mais precavida contra ameaças como o terrorismo. Em outras palavras: direitistas seriam mais medrosos. Como sou um reaça e um troglodita fascista, do tipo que vê comunistas até embaixo da cama, meu amigo conclui no e-mail, em tom de brincadeira, que eu sou um "amarelão".

Sou tentado a concordar com o resultado da pesquisa, mas por um motivo, digamos, diferente. Concordo que o medo, pelo menos nos EUA, é um fator de diferenciação da direita norte-americana dos que seriam os representantes da esquerda (lá eles são chamados de "liberais"), os apoiadores de Obama e do Partido Democrata. Mas estou longe de considerar isso algo negativo. Pelo contrário.

O medo é um instinto altamente salutar e progressista. É uma condição da sobrevivência. Sem ele, não há civilização. É o medo que tem garantido, até o momento, a existência da própria humanidade. Foi o medo dos predadores e das intempéries que levou o homem a desenvolver a técnica e dominar a natureza. O medo, em suma, é um elemento indispensável a uma visão realista do mundo, de seus riscos e perigos, e à preservação da espécie.

Ao contrário, a ausência de medo, o destemor absoluto, cheira a imprudência e a namoro com o perigo. Pior: beira a ingenuidade. O sujeito que não tem medo, em política, vira um bobalhão, um leso, sendo facilmente enganado pelo primeiro malandro e espertalhão que aparecer. Em outras palavras, aquilo que, em outros tempos nem tão distantes, se chamava de "inocente útil" (prefiro o termo em inglês: useful idiot, literalmente, "idiota útil"). É o medo, a prevenção contra seus inimigos, o que garante a democracia. Ao contrário, a falta de medo, a confiança excessiva, costumam preceder seu fim. Foram políticos demasiadamente confiantes e sem medo que fecharam os olhos para o expansionismo hitlerista nos anos 30, que resultou na Segunda Guerra Mundial. Foram homens destemidos que permitiram várias vitórias dos comunistas durante a Guerra Fria, como na China, em Cuba e no Vietnã. E são valentes democratas, sem um pingo de medo do terrorismo islamita da Al-Qaeda, que atacam sem tréguas a política de Bush no Iraque, acusando os republicanos, como McCain e Sarah Palin, de terem uma visão por demais hobbesiana do mundo.

Por outro lado, é preciso muita coragem para ser de direita no Brasil. Aqui, como se sabe, alguém se dizer de direita equivale a tirar um passaporte para o ostracismo, um verdadeiro atestado de óbito social. O sujeito é tachado com os piores adjetivos, e imediatamente se torna um pária, um excluído. Não por acaso, nenhum intelectual ou professor universitário se atreve a fazê-lo, por receio de ter as portas fechadas para ele. Nas escolas, universidades, redações de jornal, até na mesa de bar, quem quer que se diga abertamente de direita terá de enfrentar uma muralha de unanimismo esquerdista construída por décadas de doutrinação ideológica, segundo a qual "capitalismo" é a encarnação do mal, e "socialismo", o bem absoluto. Vigora no Brasil um espírito de manada, pelo qual destoar da maioria e pensar com a própria cabeça é a pior das heresias. Muita gente, diante disso, acaba desistindo de expor suas opiniões e termina acompanhando a multidão, temendo ferir suscetibilidades e criar desafetos. Entre ter uma opinião e ser boas pessoas, ficam com a segunda opção. De certo modo, o Brasil é uma república soviética.

Aliás, por estas bandas, é preciso coragem até para ter medo. Que o diga a atriz Regina Duarte, que foi quase crucificada e ridicularizada em 2002. Vocês se lembram. Naquele ano, durante as eleições presidenciais, ela ousou ir à TV confessar que tinha medo do Apedeuta. Os fatos que se seguiram, principalmente em 2005, o Ano do Mensalão, deram-lhe razão. Regina Duarte certamente não sabia o que viria a seguir, nem quais eram as verdadeiras intenções de Lula e dos petralhas, principalmente em economia; por isso, disse que tinha medo. Era o desconhecimento que alimentava seu temor. Muita gente ainda acha que ela estava exagerando, pois afinal a política econômica adotada pelo governo Lula mostrou-se correta. Para mim, este é mais um motivo para ter um pé atrás com os lulistas: quem se converte repentinamente ao que sempre condenou com todas as forças apenas porque chegou ao poder, sem nenhuma confissão nem arrependimento, não revela lucidez nem bom senso, mas apenas desonestidade.

Quando confessou seu medo na TV, Regina Duarte não sabia nada, e continua não sabendo, sobre o Foro de São Paulo, as articulações de Lula e cia. com os protoditadores Hugo Chávez e Evo Morales, as ligações dos petistas com os narcoterroristas das FARC, os objetivos antidemocráticos e pró-totalitários da turma do PT e seus aliados, as tentativas de calar a imprensa, a devoção quase religiosa de Lula por Fidel Castro etc. Nem tampouco sobre a gigantesca lavagem cerebral gramsciana a que a população brasileira está sendo submetida, sem se dar conta, há pelo menos trinta anos, e para a qual somente um punhado de medrosos e amarelões direitistas, paranóicos e conspiracionistas, prestam atenção e denunciam. Diante disso, é de se perguntar: é para ter medo ou não é?

Até mesmo para ter medo e denunciar os lulistas é preciso ter coragem no Brasil. A que ponto chegamos.