quinta-feira, junho 26, 2008

ELES QUEREM REVANCHE, NÃO JUSTIÇA


Atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, Recife, 25/07/1966: violência não foi só da ditadura

Os "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil já renderam uma vasta literatura bastante desigual, vários filmes (alguns assistíveis, a maioria nem isso) e uma infinidade de mitos. Alguns deles já analisei aqui. A moda agora é defender a revisão da Lei de Anistia de 1979, que perdoou os crimes praticados tanto pela esquerda quanto pela repressão político-militar. O Secretário Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, já defendeu publicamente a idéia, colocando-se a favor da punição dos agentes da repressão que cometeram torturas e outras barbaridades. Que ponham as barbas de molho, advertiu.

Alguns órgãos da imprensa colocaram-se a serviço dessa causa. Um deles, a revista Carta Capital, publicou nesta semana reportagem de capa sobre o assunto. Talvez alguém se surpreenda ao me ver comentando matéria da Carta Capital, uma publicação chapa-branca, a qual já reservei aqui alguns comentários. Mas às vezes é preciso, como disse aquele ator da Globo que quis justificar o mensalão, meter a mão na merda. Antes eu tinha algumas dúvidas sobre as reais motivações da esquerda em querer reabrir algumas feridas do passado. Ao final da leitura da reportagem, não as tinha mais (a reportagem completa está aqui: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=1207).

Em resumo: a reportagem da Carta Capital informa que dois promotores do Ministério Publico Federal (MPF) encaminharam ação à Justiça Federal para responsabilizar civilmente torturadores e autoridades da época da ditadura militar no Brasil por crimes cometidos no DOI-Codi paulista, entre 1970 e 1976. A Procuradoria-Geral da República de São Paulo avalia que agentes públicos, “notadamente da União Federal”, praticaram abusos e atos criminosos contra opositores ao regime, e que as ilegalidades ocorridas naquela instituição militar, como as prisões ilegais, torturas, homicídios e desaparecimentos forçados, são consideradas pelo Ministério Público como crimes de “lesa-humanidade”. A ação lembra que o Comitê de Direitos Humanos da ONU recomendou ao governo brasileiro que torne públicos os documentos sobre violações aos direitos humanos no País e responsabilize os autores de todos esses crimes.

O.k. A tortura é mesmo horrível, um crime de lesa-humanidade. Quanto a isso creio que ninguém que regule bem das idéias pode discordar. Mas e o terrorismo, não é? Pendurar alguém no pau-de-arara, aplicar-lhe choques elétricos, espancar prisioneiros, é algo repulsivo e contrário à dignidade humana. Merece, pois, toda condenação. Explodir bombas em locais apinhados de gente como um aeroporto, executar friamente um militar aprisionado, colocar em risco a vida de civis inocentes em assaltos a bancos, também. Por que então o MP está exigindo a responsabilização penal de um lado apenas? A ONU, inclusive, já aprovou diversas declarações e resoluções condenando o terrorismo, assim como a tortura. Duplo padrão, viés ideológico, está claro. Adiante.

A política de repressão e perseguição ampla “mediante violência” partiu, naquele momento da história do País, da Presidência da República e do Ministério do Exército, avalia o procurador regional Marlon Alberto Weichert, autor da ação juntamente com a colega Eugênia Gonzaga Fávero. Assim, se os responsáveis pelas torturas não tiverem seus nomes execrados publicamente, por não estarem vivos, espera-se, pelo menos, que não continuem dando nomes a escolas, pontes e viadutos pelo País afora. Um dos mais sanguinários policiais do País, o delegado Sergio Paranhos Fleury, do antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), por exemplo, é nome de rua hoje na cidade de São Carlos (SP). O general Milton Tavares também foi agraciado com um viaduto acima do rio Tietê, em São Paulo. Seu nome está lá estampado.

Entendi. A idéia é expor os torturadores e seus mandantes. Ou, pelo menos, caso não estejam mais vivos, não permitir que seus nomes batizem ruas e outros locais públicos. Acho justo. Não gostaria nem um pouco de morar numa rua chamada Sérgio Paranhos Fleury, ou Milton Tavares, ou Emílio Garrastazu Médici (sei que existe uma cidade chamada Presidente Médici, se não me engano no Amazonas). Mas ficaria também muito incomodado se meu endereço fosse Rua Carlos Mariguella, ou avenida Carlos Lamarca... Afinal, esses não atuaram também, "mediante violência" como diz a denúncia do MP, no período? Mariguella, por sinal, não chegou mesmo a proclamar em vários documentos o orgulho de ser terrorista? E o terrorismo não é condenado pela ONU? Querem execrar todos os que fizeram uso da violência durante a ditadura militar, tudo bem, acho ótimo, não tenho nada a opor. E retirar seus nomes de ruas, escolas, pontes e outros locais públicos? Perfeito. Então, que se retirem os nomes de Carlos Mariguella e Carlos Lamarca das placas também. Lamarca, aliás, foi promovido postumamente a general, e sua família recebeu uma indenização do governo. Não me consta que o mesmo tenha acontecido aos parentes de Fleury ou de qualquer outro torturador. Por que execrar uns e louvar outros?

A ação de Weichert e Eugênia tem o objetivo de impedir que os abusos praticados no passado voltem a se repetir. Subscrita por outros quatro procuradores, ela foi encaminhada e aceita pela Justiça Federal no fim de maio. A Procuradoria pede a devolução para a União de todos os valores pagos em indenizações a 64 familiares de mortos e desaparecidos políticos. São presos mortos no DOI-Codi, reconhecidos oficialmente pelo governo brasileiro no documento Direito à Memória e à Verdade, produzido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. O total a ser devolvido aos cofres do governo, conforme a ação, ultrapassa 9 milhões de reais.

Estou entendendo cada vez mais. Não se trata apenas de expor os nomes dos torturadores à execração pública - coisa, aliás, que vem sendo feita há bastante tempo, e que a própria Carta Capital faz em sua capa desta semana, mostrando, com foto e legenda, o rosto de um policial do interior de SP acusado de ter sido torturador no DOI-CODI nos anos 70. A questão vai um pouco mais além. Trata-se, também, de exigir que os responsáveis pelas mortes e desaparecimentos de presos políticos desembolsem a quantidade gasta pela União com as indenizações. Que foram concedidas prodigamente, diga-se de passagem, às famílias de muitos que pegaram em armas contra o regime militar, e que em suas ações deixaram mortos e feridos. Mais uma vez: acho justíssimo. Só não consigo entender por que não propor que os remanescentes da luta armada façam o mesmo em relação aos familiares das pessoas que eles assassinaram, feriram e seqüestraram. Aliás, não entendi por que os familiares das pessoas que foram mortas pelas organizações armadas de esquerda, ao contrário das vítimas da repressão, ainda não receberam nenhuma indenização. O caso do cidadão que perdeu uma perna em um atentado à bomba em 1968 em São Paulo e que hoje vive com uma magra pensão de aposentadoria por invalidez, enquanto o autor do crime foi indenizado regiamente por ter sido preso e torturado, é emblemático disso. Isso é justiça?

"O Brasil não teve uma comissão de verdade para identificar os torturadores e afastá-los do exercício de funções públicas. O Exército sonega informações à sociedade brasileira”, observa Weichert. Ele diz ainda: "Manter hoje acusados de tortura em cargos públicos é um risco para a sociedade", assegura Weichert. “É preciso reconhecer que a tortura funciona. Uma pessoa que pratica tortura, que se acostumou com isso e exerce a função de delegado, traz um risco para a sociedade".

Mais uma vez, estou de pleno acordo com o procurador. É preciso identificar e afastar das funções públicas todos aqueles que participaram em torturas e outros crimes da repressão. Mantê-los em cargos públicos é um risco para a sociedade. Assim como é manter todos aqueles que tiveram algum envolvimento com grupos de luta armada e em atos de terrorismo e que foram, igualmente, beneficiados pela Anistia. Concordo, aliás, que não existe ex-torturador, assim como não existe ex-espião e ex-terrorista. Portanto, figuras como Dilma Rousseff (VAR-Palmares), Franklin Martins (MR-8), Carlos Minc (VAR-Palmares), José Dirceu (ALN, Molipo), José Genoíno (PCdoB - guerrilha do Araguaia), Marco Aurélio Garcia (POC) e Paulo Vanucchi (ALN) devem ser imediatamente expurgados do serviço público, e impedidos para sempre de ocupar qualquer cargo no Estado brasileiro. Aguardo o dia em que esse ato seja publicado no Diário Oficial da União.

Os nomes citados aí acima são de ministros do atual governo, deputados, políticos. O rosto deles está na mídia todos os dias. São algumas das personalidades mais respeitadas e influentes do Brasil na atualidade. E os ex-agentes da repressão, que influência exercem sobre a vida política do País? Resposta: ZERO. Nada mesmo.

Para Weichert, incutiu-se no imaginário nacional a idéia de que a Lei de Anistia implica o esquecimento integral de toda a violência ocorrida no País. “Isso não se sustenta nem judicialmente nem sociologicamente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos diz que não se faz reconciliação com esquecimento. Isso pressupõe verdade, transparência e justiça”, acredita o procurador.´

Corretíssimo. Também concordo que Anistia não quer dizer esquecimento. É preciso lembrar, por mais doloroso que seja, até para que nunca mais ocorra de novo. Daí porque não consigo entender o critério adotado pelo MP, de lembrar apenas uma parte da História. Aprendi que lembrar pela metade é esquecer pela metade. Que os crimes da repressão sejam lembrados e execrados. Que os crimes da esquerda também. Somente assim se vai alcançar alguma reconciliação com o passado.

O jurista Dalmo Dallari, professor aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), aponta como uma “contradição gritante” da Lei de Anistia a ampliação do indulto a todos aqueles que estavam a serviço do Estado. “Esses acusados não eram políticos, eram agentes públicos envolvidos em torturas. É uma legislação feita em causa própria, durante um governo ditatorial”, pontua.

Assim como os que praticaram torturas e outras atrocidades não eram políticos, os que praticaram ações armadas contra o regime também não o eram. E os delitos que eles cometeram, assim como a tortura, não foram crimes políticos, mas comuns. A menos que se considere assaltar bancos, seqüestrar diplomatas e explodir bombas crimes políticos. É verdade que a Anistia foi uma legislação em causa própria, pois beneficiou os agentes do próprio regime. Mas é verdade que perdoou também os que queriam derrubar o regime, e substituí-lo por uma ditadura comunista. A Lei de Anistia certamente não é perfeita, mas a situação por ela criada só permite duas soluções: ou se perdoa a todos ou não se perdoa ninguém. Nesse caso, não somente os torturadores, mas os terroristas, deveriam estar na cadeia.

É verdade que outros países seguiram pelo mesmo caminho durante um tempo. Era necessário evitar o conflito. Mas a Argentina e o Chile estão punindo seus repressores. Nós, 20 anos após a redemocratização, nem sequer abrimos os arquivos da ditadura. O brasileiro tem uma tradição de conciliação absolutamente exagerada.

Na Argentina, a ditadura caiu depois da desastrosa aventura das Malvinas. No Chile, alguns militares foram punidos por crimes cometidos fora de suas fronteiras, como o assassinato do ex-Chanceler de Allende nos EUA, em 1976. No Brasil, não houve nada disso. Além do mais, em ambos os países não foram apenas os militares, mas também integrantes de organizações armadas de esquerda, como os Montoneros e o MIR, que foram punidos após a redemocratização. Logo, não há analogia possível. Mas concordo que o brasileiro é exageradamente conciliador e evita os conflitos. Tanto que a ditadura militar aceitou perdoar, junto com seus agentes, aqueles que quiseram derrubá-la, inclusive pela violência. Alguém consegue imaginar o mesmo acontecendo em Cuba, por exemplo?

No Brasil, a situação está muito aquém dos exemplos dos vizinhos do Cone Sul. Até agora nem sequer conseguimos responsabilizar na área cível um único agente de repressão. Que dirá colocá-los na cadeia. A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, por exemplo, insiste há anos na abertura dos arquivos da ditadura. “Não precisa abrir tudo. Há documentos que podem comprometer a soberania nacional ou provocar incidentes diplomáticos. Como também existem pessoas que não estão dispostas a ver a vida de familiares devassada”, pondera o advogado Marco Antônio Barbosa, presidente da comissão. “Mas é necessário criar um critério justo e claro para revelar alguns documentos e avançar nesse trabalho de resgate da memória”, completa.
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Hummm... Não precisa abrir tudo, é? Por que será? Acho estranha essa seletividade. Como estudante da História nacional, e como cidadão brasileiro, gostaria que fossem abertos todos os arquivos, não somente uns. Quem vai definir os critérios? Será que vão fazer um comitê para estabelecer que documentos podem ser divulgados, e quais não podem, porque podem "comprometer a soberania nacional", "provocar incidentes diplomáticos" ou porque - meu argumento preferido - "existem pessoas que não estão dispostas a ver a vida de familiares devassadas"? Mas os torturadores, não têm sua vida devassada o tempo todo? Afinal, do que têm medo que venha a público? Será que é o destino dos dólares que Cuba deu a Brizola? Ou o nome de algum traidor? Os arquivos ainda nem foram abertos, e já desconfio que, se forem um dia, será mais para esconder do que para revelar...

Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da USP, não poupa argumentos para defender a punição exemplar a todos os que atuaram na repressão política. Autor da representação que levou o MPF a ajuizar a ação civil pública contra os antigos comandantes do DOI-Codi, ele atuou em outros três casos contra a União movidos por familiares de vítimas. Para Comparato, o recente processo “pode abrir caminho para punir tanto os executores como os mandantes dos crimes."

Embora considere difícil identificar todos os que ajudaram no aparato da repressão, até porque muitos documentos da época continuam sob sigilo de Estado, o advogado acredita ser possível, inclusive, estender esses processos aos colaboradores civis da ditadura. “Os empresários que ajudaram a financiar a repressão também devem ser punidos. É o princípio da co-autoria. E tem muita gente viva gozando dessa impunidade. Os filhos e netos deles têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: vocês foram responsáveis por mortes e torturas?”

Novamente: uma iniciativa justa, justíssima. Os colaboradores civis da repressão são co-autores dos crimes da ditadura. Devem portanto, ser responsabilizados por isso. Mas não só eles. O que dizer dos colaboradores civis, os "simpatizantes", das organizações armadas de esquerda? Muita gente, inclusive gente do meio artístico e empresarial, deu guarida e ajuda aos guerrilheiros. De acordo com o mesmo raciocínio, deveriam ser penalizados também. Seus filhos e netos, portanto, têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: papai, vovô, você foi responsável por mortes e assaltos a banco?

A reportagem inteira, como se vê, é, da primeira à última linha, pura peça de propaganda ideológica, proselitismo político disfarçado de jornalismo. A essa altura, quem chegou até aqui já deve ter percebido, e nem é preciso lembrar, mas eu vou dizer assim mesmo: com a exceção de um pequeno trecho em que se fala, de passagem, das torturas sofridas na OBAN por dois guerrilheiros, pai e filho, presos sob a acusação de terem executado um empresário em SP, NÃO HÁ QUALQUER MENÇÃO AO TERRORISMO DA ESQUERDA.

Certamente, punir quem torturou e assassinou friamente prisioneiros indefesos é uma mais que justa reivindicação, um ato de justiça. O problema é quando essa condenação vem acompanhada de uma manipulação muito peculiar e seletiva da memória histórica, como se apenas um dos lados tivesse feito uso da violência. Como se só houvesse algozes, de um lado, e vítimas, de outro.

A violência da esquerda não apenas precedeu a fase mais dura da repressão, e ajudou a desencadeá-la - sendo, portanto, co-responsável pelos piores crimes da ditadura -, como foi, em termos relativos, mais intensa do que a violência dos militares. Em números absolutos, estes mataram mais - no Brasil, 376 pessoas foram mortas pelo aparato da repressão durante a ditadura militar, de 1964 a 1985 -, mas, em números relativos, as guerrilhas foram mais mortíferas. Cerca de uma centena de pessoas, pelo menos, foi morta pelos grupos da esquerda armada entre 1965 e 1974. Um número que adquire especial importância, visto que tais grupos, ao contrário da ditadura, agiam sempre no limite da precariedade: dispunham para suas ações de algumas dezenas de militantes e, quando muito, um número um pouco maior de simpatizantes, algumas metralhadoras e, como arma padrão, um revólver ou uma pistola. E mesmo assim mataram mais de 100 brasileiros e alguns cidadãos estrangeiros, durante nove anos. A repressão, com toda a máquina do Estado - as três Forças Armadas, o SNI, os serviços militares de inteligência, a Polícia Federal, as polícias estaduais militares e civis -, fez 376 cadáveres em vinte e um anos. Basta fazer uma conta matemática rápida para saber quem foi mais letal. Os defensores da luta armada argumentam que os guerrilheiros não torturaram. Pergunto: por acaso manter alguém em cativeiro após seqüestro ou apontar uma arma para simples transeuntes apanhados na fila do banco durante um assalto não pode também ser considerado uma forma de tortura?

E não se trata apenas de uma questão numérica. Mesmo no momento mais duro da repressão, os grupos de esquerda achavam tempo para se matarem uns aos outros. Jacob Gorender, em seu livro Combate nas Trevas, fala em pelo menos quatro "justiçamentos" - o nome que os terroristas davam aos assassinatos de seus próprios companheiros -, todos por meras suspeitas de traição. Um outro caso bastante exemplar é de um guerrilheiro do Araguaia, assassinado a tiros por ter se envolvido amorosamente com a esposa de um companheitro - um crime passível da pena capital, pelos critérios bastante peculiares do "tribunal revolucionário" do PCdoB. Os nomes dessas vítimas da esquerda, que podem ser encontrados na internet, não constam de nenhuma lista e de nenhum livro sobre os mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, inclusive do que o governo lançou no ano passado, com pompa e circunstância. É como se essas pessoas nunca tivessem existido.

Não dou a mínima para os torturadores: os crimes que cometeram foram bárbaros, e acho mesmo que eles devem ter seus nomes execrados e ser punidos por isso. Mas nem por isso concordo que se deve fechar os olhos para um dos lados da violência, a ponto de negá-la completamente. Por que punir um dos lados somente? Isso não é justiça. É outra coisa. A palavra é feia, ninguém gosta, lembra discurso de milico. Mas é preciso dizê-la com todas as letras: é revanchismo.

Millôr Fernandes escreveu que a luta armada dos anos 60 e 70 era um investimento para o futuro. Depois do Bolsa-Terrorismo, a esquerda quer revisar a Lei de Anistia. O terrorismo compensa.

quarta-feira, junho 25, 2008

Resultado da enquete

Terminou há algumas horas a segunda enquete do blog. A pergunta era : "O Ministério da Pesca contratou, a pedido de Dilma Rousseff, a esposa do 'embaixador' das FARC no Brasil, Olivério Medina. Quem mais você acha que o governo deveria contratar?"
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- Para 22% dos internautas que votaram, Osama Bin Laden deveria ser o novo contratado pelo Ministério da Defesa, e a Mulher Melancia pela Secretaria de Políticas para as Mulheres.
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- 33% acham que a Presidência do Banco Central deveria ser entregue a Paulo Maluf, e que o palhaço Tiririca deveria ocupar uma sala no Ministério da Cultura.
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- 44% votaram em Fernandinho Beira-Mar para um cargo comissionado no Ministério da Justiça.
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- O vencedor, com 66% dos votos, para assumir uma cadeira na Secretaria Especial da Presidência da República para Direitos Humanos, foi o Coma Andante de Cuba, Fidel Castro.
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O resultado não me surpreendeu. Depois das declarações do atual titular da Pasta dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, a favor da revisão da Lei de Anistia, para punir os torturadores - mas não os terroristas que queriam transformar o Brasil numa nova Cuba ou Coréia do Norte -, a contratação do eterno ditador cubano para aquela Secretaria seria mais do que esperada. Fidel certamente se sentiria à vontade ao lado de Lula e dos companheiros Paulo Vanucchi, Dilma Rousseff, Franklin Martins, Carlos Minc e Marco Aurélio Garcia. Ah claro, tem o Zé Dirceu também - como pude esquecer? Nenhum lugar mais apropriado para um tiranossauro gagá do que junto a velhos camaradas de luta que sonharam, um dia, em fazer de Havana a capital do Brasil.
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Mais uma vez agradeço a todos que participaram. Em breve, mais uma enquete.

UM ARTIGO PRIMOROSO DE JOÃO UBALDO RIBEIRO


Segue artigo de João Ubaldo Ribeiro, publicado no Estado de S. Paulo em 22/06. Volto depois.

Pode ser que ele esteja maluco

(João Ubaldo Ribeiro , no Estadão , 22 de junho de 2008)

Sei que, para os lulistas religiosos, a ressalva preliminar que vou fazer não adiantará nada. Pode ser até tida na conta de insulto ou deboche, entre as inúmeras blasfêmias que eles acham que eu cometo, sempre que exponho alguma restrição ao presidente da República. Mas tenho que fazê-la, por ser necessária, além de categoricamente sincera. Ao sugerir, como logo adiante, que ele não está regulando bem do juízo, ajo com todo o respeito. Dizer que alguém está maluco, principalmente alguém tido como sagrado, pode ser visto até como insulto, difamação ou blasfêmia mesmo. Mas não é este o caso aqui. Pelo menos não é minha intenção. É que às vezes me acomete com tal força a percepção de que ele está, como se diz na minha terra, perturbado da idéia que não posso deixar de veiculá-la. É apenas, digamos assim, uma espécie de diagnóstico leigo, a que todo mundo, especialmente pessoas de vida pública, está sujeito.

Além disso, creio que não sou o único a pensar assim. É freqüente que ouça a mesma opinião, veiculada nas áreas mais diversas, por pessoas também diversas. O que mais ocorre é ter-se uma certa dúvida sobre a vinculação dele com a realidade. Muitas vezes - quase sempre até -, parece que, quando ele fala "neste país", está se referindo a outro, que só existe na cabeça dele. Há alguns dias mesmo, se não me engano e, se me engano, peço desculpas, ele insinuou ou disse claramente que o Brasil está, é ou está se tornando um paraíso. Fez também a nunca assaz lembrada observação de que nosso sistema de saúde já atingiu, ou atingirá em breve, a perfeição, até porque está ao alcance de qualquer cidadão, pela primeira vez na História deste país, ter absolutamente o mesmo tratamento médico que o presidente da República.

Tal é a natureza espantosa das declarações dele que sua fama de mentiroso e cínico, corrente entre muitos concidadãos, se revela infundada e maldosa. Ele não seria nem mentiroso nem cínico, pois não é rigorosamente mentiroso quem julga estar dizendo a mais cristalina verdade, nem é cínico quem tem o que outros julgam cara-de-pau, mas só faz agir de acordo com sua boa consciência. Vamos dar-lhe o benefício da dúvida e aceitar piamente que ele acredita estar dizendo a absoluta verdade.

Talvez haja sinais, como dizem ser comum entre malucos, de uma certa insegurança quanto a tal convicção, porque ele parece procurar evitar ocasiões em que ela seria desmentida. Quando houve o tristemente célebre acidente aéreo em Congonhas, a sensação que se teve foi a de que não tínhamos presidente, pois os presidentes e chefes de governo em todo o mundo, diante de catástrofes como aquela, costumam cumprir o seu dever moral e, mesmo correndo o risco de manifestações hostis, procuram pessoalmente as vítimas ou as pessoas ligadas a elas, para mostrar a solidariedade do país. Reis e rainhas fazem isso, presidentes fazem isso, primeiras-damas fazem isso, premiers fazem isso. Ele não. Talvez tenha preferido beliscar-se para ver ser não estava tendo um pesadelo. Mandou um assessor dizer umas palavrinhas de consolo e somente três dias depois se pronunciou a distância sobre o problema. O Nordeste foi flagelado por inundações trágicas, o Sul assolado por seca sem precedentes, o Rio acometido por uma epidemia de dengue, ele também não deu as caras. E recentemente, segundo li nos jornais, confidenciou a alguém que não compareceria a um evento público do qual agora esqueci, por temer receber as mesmas vaias que marcaram sua presença no Maracanã.

Portanto, como disse Polônio, personagem de Shakespeare, a respeito do príncipe Hamlet, há método em sua loucura. Não é daquelas populares, em que o padecente queima dinheiro (somente o nosso, mas aí não vale) e comete outros atos que só um verdadeiro maluco cometeria. Ele construiu (enfatizo que é apenas uma hipótese, não uma afirmação, porque não sou psiquiatra e longe de mim recomendar a ele que procure um) um universo que não pode ser afetado por cutucadas impertinentes da realidade. Notícia ruim não é com ele, que já tornou célebre sua inabalável agnosia ("não sei de nada, não ouvi nada, não tive participação nenhuma") quanto a fatos negativos. Tudo de bom tem a ver com ele, nada de ruim partilha da mesma condição.

Agora ele anuncia que, antes de deixar o mandato, vai registrar em cartório todas as suas realizações, para que se comprove no futuro que ele foi o maior presidente que já tivemos ou podemos esperar ter. Claro que se elegeu, não revolucionariamente, mas dentro dos limites da ordem (?) jurídica vigente, com base numa série estonteante de promessas mentirosas e bravatas de todos os tipos. Não cumpriu as promessas, virou a casaca, alisou o cabelo, beijou a mão de quem antes julgava merecedor de cadeia e hoje é o presidente favorito dos americanos, chegando mesmo, como já contou, a acordar meio aborrecido e dar um esbregue em Bush. Cadê as famosas reformas, de que ouvimos falar desde que nascemos? Cadê o partido que ia mudar nossos hábitos e práticas políticas para sempre? O que se vê é o que vemos e testemunhamos, não o que ele vê. Mas ele acredita o contrário.

Acredita, inclusive, nas pesquisas que antigamente desdenhava, pois os resultados o desagradavam. Agora não, agora bota fé - e certamente tem razão - depois que comprou, de novo com o nosso dinheiro, uma massa extraordinária de votos. Não creio que ele se julgue Deus ainda, mas já deve ter como inevitável a canonização e possivelmente não se surpreenderá, se lhe contarem que, no interior do Nordeste, há imagens de São Lula Presidente e que, para seguir velha tradição, uma delas já foi vista chorando. Milagre, milagre, principalmente porque ninguém vai ver o crocodilo por trás da imagem.

Voltei

João Ubaldo, quando não está no bar, escreve coisas bem interessantes. O texto acima é primoroso. Poucos escritores brasileiros conseguem expor com tanta verve e eficiência essa monstruosa impostura histórica que se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Serve como um antídoto às babações-de-ovo de um Luís Fernando Veríssimo ou de um Frei Betto.

Há algum tempo João Ubaldo começou a botar suas impressões sobre Lula no papel. Entre outras coisas, ele foi um dos primeiros a perceber aquilo que é mais que óbvio, mas que para muita gente ainda é um tabu: que Lula é não só um ignorante, mas o responsável por um verdadeiro culto da ignorância, que ele habilmente maneja e estimula, com a ajuda, paradoxalmente, de intelectuais apaixonados pelo líder operário. Foi por isso chamado, claro, de preconceituoso. Nunca entendi como apontar uma falha evidente na formação de alguém - a falta de educação formal - pode ser visto como preconceito. Já escrevi aqui que Lula teve tempo suficiente para preencher essa lacuna e até cursar uma faculdade. Se não o fez, foi porque não quis. Claro que também fui chamado de preconceituoso e elitista por causa disso. É a vida.

De fato, Lula e os lulistas vivem numa espécie de universo paralelo. No mundo encantado do lulo-petismo, Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve ou terá um dia, o Bolsa-Família não é uma forma de reprodução clientelística da pobreza e da dependência estatal, a corrupção é exclusiva da direita, as FARC não são um grupo terrorista, Fidel Castro e Hugo Chávez são líderes democratas e Cuba é um paraíso da igualdade e dos direitos humanos. Para eles, lulistas, assim como para o Cândido de Voltaire, o Brasil é o melhor dos mundos, devendo todos os seus problemas às intrigas da oposição. Todas as notícias boas, por sua vez, são mérito deles, os lulistas, e de seu Guia Genial, Lula. Também pudera: quem foi durante trinta anos incensado todos os dias como um Messias que iria redimir a nação e conduzi-la em direção à Terra Prometida só pode mesmo perder contato com a realidade e virar um alienado, no sentido que se dava antigamente ao termo.
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Certamente, como diz o escritor baiano, há método nessa loucura toda. A falta de contato com a realidade é uma característica de todo líder político messiânico. Muitos ditadores eram assim. Acostumados a ser bajulados, cercados de uma corte de capachos, eles se crêem indispensáveis e insubstituíveis. E, de certo modo, dado o movimento que eles encarnam, caudilhesco e personalista, eles são mesmo. O cinismo e a hipocrisia ficam por conta de seus cortesãos, de seus ministros, de seus intelectuais orgânicos. Quem pode dizer que Hitler não acreditava naquele papo-furado de raça superior, ou que Stálin não era um crente ardoroso no radiante futuro comunista da humanidade? Malucos, sem dúvida, mas com método.

Faço apenas uma pequena ressalva ao texto do escritor baiano: pode ser que ele esteja maluco não, João Ubaldo. Ele está. E nós também, que elegemos e reelegemos esse farsante.

Grande João Ubaldo. Pobre Brasil.

terça-feira, junho 24, 2008

ENFIM, VIDA INTELIGENTE NA UNIVERSIDADE BRASILEIRA


Andei trocando correspondência com o professor Marco Antonio Villa. Seguem os e-mails, que ele gentilmente permitiu que eu transcrevesse aqui:

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Parabéns e artigo‏
De: Gustavo Henrique Marques Bezerra (ghmb_2003@hotmail.com)
Enviada: sexta-feira, 20 de junho de 2008 21:12:05
Para:
marcovilla@uol.com.brCaro

Professor Marco Antonio Villa,

Antes de tudo, quero dar-lhe os parabéns por seu trabalho, em especial por sua coragem e competência em demolir velhos mitos históricos inventados pela esquerda. O senhor está demonstrando que é possível escrever sobre História no Brasil com honestidade, sem recair em velhos chavões ideológicos.

Sou formado em História, diplomata de carreira e, antes de ingressar no Itamaraty, lecionei durante alguns anos. Li seu livro "Jango, um Perfil" assim que foi lançado, e recomendo-o a todos que me pedem um estudo realmente sério e honesto sobre o período pré-64. No momento estou terminando um livro sobre as relações Brasil-Cuba, baseado em minha dissertação de mestrado.

Quero parabenizá-lo também por seu excelente artigo "Falácias sobre a luta armada na ditadura", publicado na "Folha de S. Paulo" em 19/05. Transcrevi seu artigo, assim como sua entrevista à VEJA (também excelente), na íntegra, em meu blog . Escrevi um texto refutando o texto do Aloysio Castelo de Carvalho e do Lizst Vieira ("Luta armada a favor ou contra a ditadura?"), que pretende ser uma resposta ao seu artigo de 19/05. Além deste, há um texto meu que procura dialogar com seu artigo da Folha, no qual analiso os fatores que conduziram ao fim do regime militar.

Muito agradeceria receber seus comentários sobre minhas observações. Eu ficaria muito lisonjeado.

Cordialmente,

Gustavo Bezerra

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Date: Sun, 22 Jun 2008 17:47:24 -0300
Subject: Re: Parabéns e artigo

Prezado Gustavo.

Obrigado pelo comentário. Li os seuss (inclusive a sobre a China). No caso da ditadura, os livros do Elio Gaspari dão uma boa visão. O final dela deve-se a um conjunto de razões e as "internas", que você apontou, também são relevantes.Faltam estudos sobre os últimos governos militares, especialmente o de Figueiredo. Mas estudos históricos, mais cuidados, trabalhando com diversas fontes. De análises generalizantes estamos cheios. Também a análise mais cuidadosa da transição, recuperando alguns fatos e personagens hoje esquecidos, seria muito importante. Pode ser que o papel tão louvado de Tancredo Neves caia por terra. O tipo de transição construído por Tancredo acabou criando uma paralisia de uma década ao país. Volto outra vez à história: a pesquisa mais rigorosa poderia obter bons resultados. Eu até gostaria de tentar fazer este trabalho mas agora tenho de fechar alguns projetos sobre história de SP.

Um abraço.

Villa.

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RE: Parabéns e artigo‏
De:
Gustavo Henrique Marques Bezerra (ghmb_2003@hotmail.com)
Enviada:
segunda-feira, 23 de junho de 2008 15:14:39
Para:
Marco Villa (marcovilla@uol.com.br)Gustavo Henrique Marques Bezerra escreveu:

Prezado Professor,

Muito obrigado por sua resposta. Eu ficaria muito feliz de saber sua opinião, inclusive suas críticas, sobre qualquer de meus textos. Para mim, o senhor é uma referência. Além dos dois que escrevi sobre a questão da luta armada, há outros em que eu comento sua entrevista à VEJA. Concordo em quase 100% com sua análise sobre a onda atual de populismo na América Latina e a atual política externa brasileira.

Li os livros de Elio Gaspari, e achei-os excelentes. Claro que a esquerda não gostou, acusando o autor de ter, entre outras coisas, se concentrado nos movimentos de bastidores e "desprezado os movimentos sociais"... Creio, aliás, que esse é o principal mérito do Gaspari, pois com isso ele se afastou da velha cantilena ideológica marxista que ainda domina o ambiente universitário, em especial os estudos históricos.

Resolvi escrever sobre seu artigo na "Folha de S. Paulo" pelo seguinte motivo: assim como sobre a luta armada, ainda há muita mistificação sobre o período da "abertura" política. Muitos políticos remanescentes da esquerda e do MDB, por razões óbvias, costumam exagerar a importância própria, assim como dos movimentos sociais. Como eu escrevi, estes foram sem dúvida importantes, mas não se deve superestimar o papel desses movimentos. O caso das diretas-já, por exemplo, é emblemático: teria sido possível a campanha se o regime, que começa a dar sinais de fraqueza a partir de 1974, não tivesse criado as próprias condições para o retorno das liberdades democráticas? De fato, faltam estudos mais acurados sobre o período, em especial sobre o governo Figueiredo. Nesse sentido, concordo inteiramente que o papel de figuras como Tancredo Neves deve ser reavaliado. Assim como Tiradentes, ele é mais um mito político da História nacional, instrumentalizado, até hoje, mais como um "símbolo" do que como uma figura real. Sempre que se opta pela idealização, a vítima é a verdade histórica.

Gostaria de pedir sua permissão para transcrever nossa comunicação em meu blog. Caso não tenha nada a opor, eu ficaria honrado.

Abraços,

Gustavo

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Re: Parabéns e artigo‏
De:Marco Villa (marcovilla@uol.com.br)
Enviada:
segunda-feira, 23 de junho de 2008 22:41:11
Para: Gustavo Henrique Marques Bezerra (
ghmb_2003@hotmail.com)

Prezado Gustavo,

Claro que pode transcrever no blog a nossa comunicação.Gostei dos artigos sobre a China. A descrição do céu como uma eterna noite é de apavorar qualquer um.No Brasil a democracia tem muitos adversários, algumas vezes funcionam como verdadeiros inimigos. A direita sempre teve enorma dificuldade de conviver com a democracia e a esquerda desejou durante décadas "assaltar o céu". 1964 é um triste momento deste embate. Mas vamos aprendendo. Claro que seria bom que fosse em ritmo mais rápido. Porém, 2010 será a sexta eleição consecutiva presidencial, um recorde. Sabemos que o eleitorado não é um maravilha, mas qual eleitorado no mundo é formado por 100% de cidadãos conscientes, informados?Devemos continuar a batalha das idéias e remando contra a corrente quando necessário. Afinal, as maiorias são momentâneas. O que mais importa é mantermos a consciência tranquila.

Um abraço.

Villa.

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Voltei

Vocês sabem que não sou de rasgar seda. Mas nesse caso vou abrir uma exceção. O professor Marco Antonio Villa é um dos melhores historiadores, se não o melhor, do Brasil na atualidade. Um dos mais honestos, certamente. Desde pelo menos que publicou, em 2004, uma biografia de João Goulart ("Jango, um Perfil"), lembrando vários fatos incômodos da vida do ex-presidente incensado até hoje pelas esquerdas - por exemplo, o papel da esquerda na destruição da democracia em 1964 -, ele é reconhecido como um dos maiores demolidores de mitos históricos do País. Poucas pessoas têm-se dedicado a denunciar, com tanta lucidez e competência, as falácias e mentiras produzidas em série pelas esquerdas nas últimas décadas. Não surpreende que ele já tenha feito tantos detratores. Ele é um autêntico "myth buster" da História pátria, um verdadeiro alento, um sopro de honestidade e de vida inteligente em meio à tanta impostura intelectual e propaganda ideológica travestidas de estudos acadêmicos, um antídoto aos Emir Sader e Moniz Bandeira da vida.

O professor Marco Antonio Villa, para minha grata surpresa, também parece ser uma pessoa bastante acessível. Tanto que se deu ao trabalho de responder a este obscuro blogueiro e permitir que eu transcrevesse nossa comunicação aqui. Muito diferente de tantas mediocridades coroadas que existem por aí, aboletadas nos departamentos de História e Ciências Sociais das universidades brasileiras, e que, empanturradas de empáfia e de marxismo vagabundo, arrotam autoridade por todos os poros. Com ele pode-se discutir de forma aberta, e inclusive discordar - como discordo em alguns pontos, vide meu texto sobre o fim da ditadura militar -, sem medo do politicamente correto. Ele é a prova de que o historiador não deve ter outro compromisso senão com a verdade dos fatos e com sua própria consciência. Deveria ser um modelo para os intelectuais brasileiros, a maioria dos quais já abandonou há muito tempo o compromisso com a verdade, substituída por conveniências ideológicas e pela bajulação aos donos do poder de plantão. Mas, como isso aqui é o Brasil lulista, pessoas como ele só podem estar em minoria.

Durante um tempo, pensei em seguir carreira acadêmica. Mas esbarrei numa muralha de proselitismo político e de desnonestidade intelectual que, devo confessar, me desestimulou. Em vez de pesquisa séria, o que encontrei foi muita politicagem, muita safadeza ideológica. Se você não fosse de esquerda, e se não fosse um inimigo do "neoliberalismo" e da "globalização", você estava fora. Lá, não havia espaço para o pensamento crítico, para o debate de idéias: apenas para a militância. Contra tudo e contra todos, eu insistia em estudar e em dar aulas, e não em repetir slogans. Até mesmo muitos alunos meus, na época, estranhavam essa minha atitude. Após algum tempo, desisti de ser uma voz solitária e mudei de profissão. Somente para constatar que a onda esquerdóide já se alastrou por todos os poros da sociedade.

A leitura dos textos do professor Marco Antonio Villa restaurou em mim a esperança nos estudos de História produzidos no Brasil. Enfim, um sinal de vida inteligente na universidade brasileira.

sexta-feira, junho 20, 2008

"IMPARCIALIDADE", O NOVO NOME DO PATRULHAMENTO IDEOLÓGICO


Já escrevi aqui antes (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2008/02/ideologia-dos-sem-ideologia.html e http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/10/da-necessidade-de-tomar-partido.html) que imparcialidade não é comigo. Aliás, já deixei claro que não acredito na dita-cuja. Pelo menos, não quando se trata de analisar o governo de Lula e do PT. Para estes, reservo minha parcialidade mais estreita, minha ausência de neutralidade mais furiosa. Se eu estiver num debate e o mediador ou quem quer que seja me pedir para ser neutro em relação a eles, eu nem penso duas vezes: levanto da cadeira e vou para casa, pois saberei que estarei diante de mais uma farsa.

A "neutralidade", no tocante aos petralhas, não tem nada a ver com honestidade; pelo contrário: é cumplicidade com o crime e a mentira. Por isso sempre desconfiei de análises ditas "neutras", presentes no discurso "isentista" ou "nenhumladista". É possível ser "neutro" em relação às ditaduras de Hitler e Stálin? Do mesmo modo, não acredito ser possível ser neutro diante de tiranias totalitárias como a dos irmãos Castro em Cuba, ou de seus clones Hugo Chávez e Evo Morales. Assumo inteiramente minha parcialidade, minha posição contrária a tudo isso, em favor da vergonha na cara.

Atualmente, o discurso "isentista" é brandido como um álibi, um pretexto para toda sorte de malandragem, desde que praticada pelos companheiros no poder. "E o escândalo do PSDB no RS, não vai falar nada?". É o que mais se ouve atualmente quando se critica os petistas. Não, não vou falar do caso gaúcho, assim como não vou falar de nenhum caso que sirva para desviar a atenção, por exemplo, do escândalo da venda da Varig. Por um motivo muito simples: os mesmos que tentam a todo custo abafar o caso em Brasília enchem-se de indignação contra a governadora gaúcha. Acreditam que os desvios dos outros justificam e enaltecem os próprios. Mais: fazem com que todos se esqueçam deles. Danem-se os tucanos e os democratas, ex-pefelistas. Os escândalos deles serão apurados, e o dia deles chegará, com certeza. Por ora, o que interessa é desmascarar os petralhas. Não me importo de ser chamado de parcial por causa disso. A mim eles não pautam.

Eis como agem os petistas. Os aliados do governo foram pegos com a mão na massa pilhando o BNDES? Alguém lembra de um caso envolvendo o DEM ou o PSDB. O compadre do presidente age como um PC Farias, mandando e desmandando na venda de uma companhia aérea? É preciso investigar a corrupção do governo paulista com uma empresa francesa, dizem. Os ministros se refestelam com cartões corporativos, pagos com dinheiro público? Que se faça a devassa nas contas do governo anterior, inclusive na forma de dossiês, um instrumento de chantagem. Descobriram que o governo anda fazendo dossiês, uma prática criminosa? Prenda-se quem vazou para a imprensa, não quem o fez (ou mandou fazer). E assim por diante. Antes, faziam questão de se mostrar diferentes, e faziam alarde disso. Agora, esforçam-se para dizer que são iguais a todos. E ai de quem diga que não são! É capaz de ser tachado de "reacionário" e outros títulos do gênero.

O mesmo nos temas de relações internacionais. Há alguns dias, o ditador perpétuo de Cuba, o Coma Andante Fidel Castro, veio da tumba para bater boca publicamente com Caetano Veloso, que teria pedido desculpas aos EUA por causa de uma música sua, "Baía de Guantánamo", em que critica - como se fosse necessário - as violações aos direitos humanos dos prisioneiros. Fidel atacou Caetano por sua suposta concessão ao "imperialismo ianque", porque Caetano, entre outras coisas, reconheceu o óbvio: que, entre a Suprema Corte americana e a castradura cubana, fica com a primeira em matéria de direitos humanos. Para Fidel, só valeria se o baiano mantivesse o que está na letra da música - uma cretinice, aliás, como quase tudo que faz o Goethe de Santo Amaro da Badalação. Enquanto isso, ninguém fala das mais de duzentas Guantánamos existentes em Cuba. Fidel, o imparcial, não aceita que critiquem as violações dos direitos humanos na ilha-prisão. Só em Guantánamo ou em Abu Ghraib.

É esse tipo de patrulhamento ideológico que se esconde - ou nem isso - por trás do discurso da "isenção" ou da "imparcialidade". Existe nisso uma mudança de paradigma. Antes, as patrulhas ideológicas exigiam que não se falasse mal da esquerda. Agora, zelam para que se fale mal também de seus adversários. Isso é sintomático da desmoralização da esquerda nos últimos anos, com a sucessão de escândalos no governo Lula. Se antes eles posavam de santos, clamando contra a podridão moral dos políticos de sempre, agora, desmascarados em sua hipocrisia, não têm outra saída senão apelar para a mediocridade generalizada do "todos são iguais". E parte da imprensa brasileira, obcecada pela busca da tal objetividade, acaba bancando a Suiça e caindo na armadilha.

O que está por trás dessa tal "imparcialidade"? Uma coisa só: salvar a cara dos esquerdistas. Nada mais que isso. A imparcialidade, como já afirmei, é uma espécie de tábua de salvação para os larápios, sempre que eles são apanhados com a mão na massa. Do que eles mais necessitam não é a conversão das pessoas; a imparcialidade destas é suficiente.

Estranha imparcialidade essa, a exigida pelos esquerdistas... É curioso como eles a cobram de órgãos como a Veja e O Estado de S. Paulo, enquanto não parecem muito incomodados com a postura parcial e panfletária - no pior sentido - de revistas como a Carta Capital, a Fórum e a Caros Amigos. Que vivem de subvenções estatais, diga-se de passagem. É que estas, ao contrário da Veja e do Estadão, falam bem do governo, logo podem ser parciais à vontade... Em nome dessa abordagem supostamente imparcial, já tentaram empurrar goela abaixo de todos um tal Conselho Federal de Jornalismo e ressuscitar a censura, para impor sua visão "imparcial" à sociedade...

O mais esquisito é que esse pessoal da esquerda se acostumou a falar mal da "mídia" e de todos aqueles que não batem palmas para eles como se fossem inimigos do povo, verdadeiros ogros contra a humanidade, e durante anos isso passou a ser visto como um dogma. Falar mal da Veja ou da Globo, para muita gente ainda hoje, é uma espécie de prova de fidelidade ideológica, um sinônimo de inteligência, de senso crítico e até de bom gosto. Eu mesmo, quando mais novo, vez ou outra me via vociferando contra a revista dos Civita ou contra a Rede Globo, assim como contra a "imprensa burguesa" em geral, e isso já bastava para ser considerado alguém "crítico". Outro dia vi, num desses canais estatais de TV - me recuso a usar o termo "pública" aplicado a esses tevês, pois de públicas elas têm muito pouco - uma menina, filiada ao PCdoB e presidente da UNE, criticando, tatuagem no braço e piercing no nariz, o "monopólio da informação" nas mãos dos "grandes veículos de imprensa" e advogando em defesa da "democratização" dos meios de comunicação no País. Quando um esquerdista fala em "democratização" dos meios de comunicação, pode ter certeza: o que ele ou ela quer é o controle da imprensa pelo Estado. Em outras palavras: estão advogando em causa própria, contra a liberdade de imprensa. Imprensa boa, para esse pessoal, é imprensa a favor (deles, claro). O que é o mesmo que imprensa nenhuma. Para eles, não vale a frase de Tocqueville: "A solução para os males da liberdade de imprensa é mais liberdade de imprensa".

Sempre que vejo alguém cobrando "imparcialidade" em relação ao atual governo, coisa que o próprio Lula e os esquerdistas sempre negaram em relação aos demais governos, lembro de outra frase muito boa, do Millôr Fernandes: "imprensa que se preza tem que ser do contra. O resto é armazém de secos e molhados". Imparcialidade, para os petistas, só se for a favor.

quinta-feira, junho 19, 2008

COMO ACABOU A DITADURA


Ernesto Geisel, Sylvio Frota e João Figueiredo: ditadura acabou por suas contradições internas


Comentei aqui, alguns posts atrás, um artigo de dois professores universitários sobre a luta armada nos "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil. O artigo, só para lembrar, era uma réplica chinfrim e rastaqüera a um outro artigo, do historiador Marco Antonio Villa, publicado na Folha de S. Paulo em 19/05. No artigo em questão, Villa desmonta eficientemente, e de maneira brilhante, um dos maiores mitos criados pela esquerda sobre o período: o de que a luta armada dos anos 60 e 70 teria contribuído, de certo modo, para "enfraquecer" o regime de 64.

Já refutei essa balela, que serve apenas para tentar incutir nas mentes incautas a falsa idéia de que a democracia brasileira é filha da esquerda armada - e de que todos nós, portanto, devemos prestar-lhe reverência. Agora vou me concentrar mais no artigo de Marco Antonio Villa.

O texto de Villa é, como já afirmei, excelente. Isso não me impede, porém, de fazer algumas observações ou reparações a ele. Não vou me referir à sua análise sobre a luta armada, que é perfeita. O que me chamou a atenção e, a meu ver, merece um tratamento mais crítico são os dois parágrafos que aqui transcrevo. Neles, ao refutar a tese esquerdista de que a luta armada ajudou a enfraquecer a ditadura, ele afirma:

[...] A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.

Tenho algumas ressalvas a fazer ao que está dito acima. Embora eu concorde com a opinião de Villa exposta em seu artigo, de que a luta armada não teve qualquer importância na restauração da democracia, creio ser um erro atribuir o mérito por isso aos movimentos ditos "legais" de oposição ao regime militar. Isso porque, se há um fator que não deve ser superestimado para explicar o fim da ditadura, são as pressões da chamada "sociedade civil organizada". Explico-me.

A ditadura militar não chegou ao fim por causa de nenhuma mobilização popular, mas devido às contradições do próprio regime dos generais. Seu término não ocorreu como resultado de nenhuma sublevação das massas, mesmo que de forma ordeira e pacífica, contra o arbítrio: foi, isto sim, o produto da própria evolução do regime, dividido, desde o primeiro dia do golpe, em "duros" e "moderados". Foram os primeiros, a "linha-dura", representados sobretudo nos governos Costa e Silva (1967-1969) e Emílio Médici (1969-1974), os principais responsáveis - com a ajuda da esquerda armada - pelo prolongamento da ditadura por mais de vinte anos. Por sua vez, foram os "moderados", organizados em torno da Escola Superior de Guerra (ESG) e nos governos Castello Branco (1964-1967) e Ernesto Geisel (1974-1979), os principais responsáveis pela abertura política.

A idéia de devolver o poder aos civis e restabelecer a normalidade constitucional estava presente já no próprio movimento que derrubou o governo esquerdista e populista de João Goulart, em 1964. Naquele momento, é bom lembrar, a totalidade da direita brasileira apoiou o golpe, inclusive a Igreja, a grande imprensa e a classe média. Tratava-se de afastar um governo subversivo e corrupto, que arrastava o País rumo a alguma forma de regime ditatorial de esquerda, e depois retomar a vida. O presidente Castello Branco assumiu prometendo eleições presidenciais em 1965 e deixar o governo em 31 de janeiro de 1966. Após o AI-2, porém, que extinguiu os partidos políticos e anulou as eleições, prorrogando o mandato de Castello, a situação mudou. Em 1967, com a subida ao poder de Costa e Silva, a linha-dura se instala no poder, obrigando-o a decretar, em 1968, o AI-5, que inaugura o período mais sombrio da repressão político-militar. Foi preciso esperar até o aniquilamento da luta armada de esquerda e a ascensão de Ernesto Geisel, em 1974, para que o regime, combalido pela crise do "milagre" econômico que lhe dava sustentação, começasse a dar sinais de esgotamento.

Foi a partir daí que teve início, de fato, a chamada abertura política "lenta, gradual e segura", controlada e levada adiante, desde o primeiro momento, pelo governo. De forma negociada, institucional, planejada, sem qualquer participação popular. É assim que ocorrem os principais avanços democráticos do período: fim da censura (1976), revogação do AI-5 (1978), Anistia (1979), reforma eleitoral (1979), eleições diretas para governadores de estados (1982), até culminar, em 1984-85, na campanha das diretas-já e na eleição - indireta - de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral.

Todos esses avanços, todas essas manifestações, só foram possíveis porque os militares as permitiram, em primeiro lugar. Se quisessem, poderiam ter mantido a censura e a repressão, assim como as eleições indiretas. Se não o fizeram, não foi porque estivessem acuados por nenhuma revolta popular generalizada, mas porque a redemocratização era um projeto há muito adiado, que já estava presente no próprio movimento de 64.

Quem contribuiu mais para o fim da ditadura no Brasil: os deputados Marcos Freire, Alencar Furtado e Lisâneas Maciel ou o general Ernesto Geisel, que em 1977 peitou e demitiu no ato o então Ministro do Exército, general Sylvio Frota, que queria manter a repressão e estava articulando um golpe? Quem teve um papel mais relevante: Ulysses Guimarães ou o general Golbery do Couto e Silva?

A resistência de muitos setores em admitir isso se deve, em parte, ao fato de que a transição política, no Brasil, obedeceu a um paradoxo: foi o governo do presidente pessoalmente mais autoritário e centralizador do ciclo militar, o general Geisel, que enquadrou a linha-dura e deu início ao processo de abertura democrática. E isso não foi feito por meio de consulta popular, de forma democrática: foi com murro na mesa mesmo. O AI-5, por exemplo, passou a ser usado contra os próprios militares contrários à distensão política. Não foi o culto ecumênico na Praça da Sé pela morte de Vladimir Herzog, em 1975, mas o gesto autoritário do general Geisel, que levou à queda do comandante do II Exército e ao enquadramento da extrema direita militar. Por trás desse gesto, não estavam quaisquer considerações humanitárias por parte do general-presidente, mas única e simplesmente a defesa intransigente da hierarquia e da disciplina contra a anarquia militar. Ninguém quer admitir isso hoje em dia, pois seria reconhecer que a transição política, no Brasil, deveu-se mais a um conchavo de generais do que às "grandes manifestações populares", das quais todos se dizem os guias e mentores. Todos querem tirar uma casquinha da redemocratização.

Quando Geisel sai de cena e começa o governo do último presidente militar, o do general João Figueiredo (1979-1985), todas as condições estavam dadas para a redemocratização do País. Tanto que o governo Figueiredo, às voltas com a crise econômica, foi um anticlímax de desmoralização, terminando melancolicamente, pela porta dos fundos.

Mais importante ainda: o fim da ditadura militar no Brasil deve-se ao próprio caráter político do regime. Sendo um regime autoritário, que manteve pelo menos uma aparência de legalidade e de alternância política, não tendo criado nenhum partido político (pelo contrário: extinguiu todos, instituindo em seu lugar o bipartidarismo), o regime de 1964 pôde evoluir, embora de forma atabalhoada e não sem obstáculos, rumo à democracia parlamentar. Assim como evoluíram, de uma maneira ou de outra, todas as ditaduras militares sul-americanas. Em um regime totalitário, baseado no domínio do partido único e na repressão absoluta sobre todos os aspectos da sociedade, como o de Cuba ou o da ex-URSS, ao contrário, não existe essa possibilidade: ou ele desaparece, ou se perpetua. Os militares brasileiros, chilenos e uruguaios concordaram em sair de cena e em devolver o poder à sociedade. E Fidel e Raúl Castro, quando farão isso?

As denúncias de tortura, os discursos dos parlamentares da ala autêntica do MDB, as publicações da imprensa de oposição e as manifestações populares tiveram certamente um papel, e um papel importante, no processo de distensão política, e nada disso deve ser desprezado. Mas tudo isso está longe de ter sido o principal fator responsável pela restauração das liberdades democráticas. Mais determinante do que todos esses fatores foi, sem dúvida, o jogo político verificado no interior do próprio sistema repressivo criado a partir de 1964, com a cisão entre "duros" e "moderados". Mais ainda, foi o próprio caráter do regime militar - autoritário, e não totalitário - que trouxe consigo o germe de sua própria dissolução.

Repetindo, caso não tenha ficado claro: as manifestações da oposição legal foram importantes. Algumas delas, heróicas até. Mas não foram o fator decisivo. Não teria havido Anistia, nem diretas-já, nem qualquer outra manifestação de protesto, não tivesse sido o fim da censura e a revogação do AI-5. E isso só ocorreu devido à própria evolução do regime, de cima para baixo, e não de baixo para cima.

Certamente, não é muito edificante, nem algo muito positivo para a auto-estima de muitos políticos brasileiros, admitir o que está escrito acima. Mas é preciso dizê-lo, para o bem da honestidade intelectual e da verdade histórica. Nem o MDB, nem o movimento estudantil, nem os sindicatos, nem os intelectuais, nem a Igreja dita "progressista", nem o PT, nem, muito menos, a luta armada foram responsáveis pela redemocratização do Brasil. A democracia brasileira não tem pai nem dono. A História também não.

Errata

Na pergunta que constitui a nova enquete do blog - "O Ministério da Pesca contratou, a pedido de Dilma Rousseff, a esposa do 'chanceler' das FARC no Brasil...", cometi um pequeno erro. Onde se lê "chanceler", leia-se "embaixador" ou "representante".
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Como alguém já votou, não posso editar a enquete e corrigir o erro. Deve ter sido alguma alusão inconsciente a nosso Chanceler, Celso Amorim. Como diz o Molusco, talvez Freud explique. Espero que me perdoem esse pequeno ato falho.

quarta-feira, junho 18, 2008

Nova enquete

Já está no blog a nova enquete. Encerra dia 25.

terça-feira, junho 17, 2008

ELES TÊM MINHA COMPAIXÃO, NÃO MEU RESPEITO

Lembrei-me agora do bocó e Ignorante Soberbo que escreveu, alguns posts atrás, que era preciso enxergar a ditadura castrista de Cuba à luz do pensamento de Platão e de Maquiavel, pois "nenhum governo se sustenta se não for amado pelo povo"... O idiota argumentava que a ditadura dos irmãos Castro só existe há tanto tempo porque o povo cubano os adora. Ou seja: adora não ter eleições livres, nem liberdade de expressão, nem de ir e vir etc. É... A fuga de Erislandy Lara para a Alemanha é mais uma prova - há mais 2 milhões delas - de que os 11 milhões de cubanos forçados a viver (?) na ilha-presídio realmente são apaixonados por Fidel e Raúl.
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O cretino que defendeu a teoria exposta aí em cima ficou chateado porque achou minha linguagem desrespeitosa. Fez beiçinho e resolveu deixar de comentar no blog porque, segundo ele, não acredita em ofensas pessoais. Tudo porque eu tive a audácia de chamar conhecidos defensores brasileiros da ditadura cubana, como Oscar Niemeyer, "Frei" Betto e Chico Buarque, daquilo que são: idiotas morais. Foi logo criticando minha "baixeza" por causa disso, dizendo que não concorda com "esse método de Schopenhauer" etc.
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Esses esquerdistas são esquisitos. Sempre usaram e abusaram do insulto e da calúnia para desqualificar seus críticos, substituindo qualquer argumentação racional pela argumentação ad hominem, e agora querem posar de bons-moços, e inclusive de professores de boas maneiras. É mais uma armadilha da ditadura do "politicamente correto", que substituiu o debate franco por um linguajar de dondocas. Mas somente quando o debate for sobre algum tema embaraçoso para a esquerda, que fique bem entendido. Pois, quando se trata de criticar a "zelite" ou o que o valha, esse pessoal costuma ser bem desbocado. Assim como se crêem os donos exclusivos da moral e da ética, eles acreditam que têm o monopólio do insulto.
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Querem saber por que esses senhores não merecem meu respeito? Aí vão apenas alguns motivos:
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- Babam por uma tirania que arruinou um país antes próspero e já deixou 95 mil mortos;
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- Tentam a todo custo justificar uma ideologia genocida que deixou um saldo de 100 milhões de cadáveres no século XX;
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- Enchem-se de indignação farisaica quando se trata de criticar os supostos ou reais abusos cometidos pelos EUA em Guantánamo, enquanto fecham os olhos para os crimes cometidos em Cuba, onde há umas duzentas Guantánamo;
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- Consideram o crime e a mentira uma questão de ponto de vista ("os fins justificam os meios"), e não penal;
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- Tentam de todos os modos pautar seus críticos, exigindo-lhes "imparcialidade" ("E o escândalo do PSDB? Não vai falar nada?"); assim, tentam atirar lama para todos os lados e livrar a própria cara, inventando a "imparcialidade a favor";
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- Cobrem de insultos e ofensas pessoais todo aquele que ousar discordar deles, mas exigem respeito para eles próprios.
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Entenderam por que não posso me referir de outro modo a essa gente? Eles só podem merecer meu desprezo. É uma questão de honestidade. Mas, como sou um sujeito de coração mole, ofereço-lhes minha compaixão, como se oferece a alguém com graves distúrbios mentais. Chamá-los pelo nome, nesse caso, pode servir como uma espécie de remédio amargo, mas necessário. Talvez, quem sabe, um dia algum deles acorde do torpor cerebral em que mergulhou, despertando para a realidade. Ainda não perdi a esperança de impedir que mais alguém enverede pelo mesmo caminho de estupidez que eu quase segui quando tinha 15 anos de idade. E, quanto maior a idiotice, mais forte o tratamento de choque. É um erro acreditar que se pode debater civilizadamente com um esquerdista. O que eles querem não é debater, não é pôr à prova suas idéias: é conversão a elas, nada menos que isso. Eles podem ter minha compaixão. Não meu respeito.
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Querem saber? Vão todos lamber sabão, seus idiotas morais, amantes de tiranos!

TARSO GENRO, O CAPITÃO DO MATO


Flagrante do momento em que um dos boxeadores cubanos "praticamente implorava" para voltar a Cuba, segundo Tarso Genro


Em agosto passado, dois boxeadores cubanos que participavam dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro desertaram de sua delegação. Tentavam fugir de Cuba e alcançar a Europa.

Imediatamente, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva acionou a Polícia Federal para encontrar os dois fugitivos, localizados no litoral do RJ.
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Atendendo a um pedido pessoal de Fidel Castro, o governo Lula deportou os dois atletas de volta a Cuba, em tempo recorde, longe das câmeras da imprensa. Para isso, usou um avião fretado especialmente para a ocasião por Hugo Chávez.
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Setores de oposição e organizações de defesa dos direitos humanos criticaram a rapidez inédita do processo de expulsão - entre outras coisas, os dois atletas não tiveram direito a manter contato com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.

Respondendo às críticas, o Ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que os dois boxeadores haviam se arrependido, recusaram oferta de refúgio, estavam com saudades de casa e "praticamente imploraram para retornar a Cuba".
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Disse, ainda, que a decisão de deportar os cubanos era perfeitamente legal e que o governo não iria "seqüestrar os dois para criar um fato político", como desejariam setores da oposição.
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Na tribuna do Senado, o Senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que, como todo bom petista, só defende boas causas, fez coro a Tarso Genro, defendendo a atitude do governo na questão. Afirmou confiar, inclusive, que os dois pugilistas teriam os direitos plenamente garantidos quando retornassem a Cuba.

Após terem sido entregues pelo governo brasileiro às autoridades cubanas, os dois pugilistas foram proibidos, pelo regime cubano, de competir no exterior para todo o sempre. Com a ajuda de Eduardo Suplicy.
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Há alguns dias, um dos boxeadores, Erislandy Lara, que "praticamente implorou" para voltar a Cuba, segundo Tarso Genro, fugiu para a Alemanha, onde pediu asilo.

Teria mudado de idéia? Ou, o que parece mais factível, teria sido seqüestrado pelas autoridades alemãs?

Tarso Genro, que, como todos os petistas, é um defensor dos direitos humanos, deve estar preocupadíssimo com essa gravíssima violação do direito de ir e vir do pugilista cubano pelo governo da Alemanha. Deve estar pensando, inclusive, em levar o caso ao Conselho de Direitos Humanos da ONU...
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Com a fuga de Erislandy Lara para a Alemanha, toda a pantomima oficial criada pelo governo Lula sobre o caso caiu por terra. Tarso Genro está desmascarado como o arquiteto de uma gigantesca farsa.

O caso é gravíssimo.

Arrisco-me a dizer que é mais grave do que a morte dos três adolescentes entregues pelo Exército a um bando de narcotraficantes rival no Rio de Janeiro.

Nesse caso, os militares agiram como cúmplices de assassinato, cometido por traficantes cariocas. Agiram como bandidos, e não como membros da instituição, e deverão responder criminalmente por isso.

No caso dos dois pugilistas cubanos, porém, foi o governo do Brasil, o Ministério da Justiça, que atuou conscientemente, usando toda a sua máquina burocrática, para devolver a uma ditadura dois refugiados.

No Rio, os militares envolvidos - e não a instituição das Forças Armadas - são cúmplices de um crime de assassinato.

No caso da deportação-relâmpago dos dois cubanos, o governo é culpado de seqüestro e de cumplicidade com uma tirania.
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Em 9 de agosto de 2007, escrevi o seguinte:

"O erro dos pugilistas cubanos foi terem acreditado que, ao decidirem não retornar à ilha-prisão, permaneceriam num país livre e democrático. Num país cujo governo coloca os direitos humanos e a democracia acima das simpatias ideológicas por uma ditadura falida e brutal. Erraram de país. No Brasil lulista, as autoridades não se contentam em justificar as peripécias de um Evo Morales ou de um Hugo Chávez: agora se prestam também a servir de capitão do mato de um tirano senil e assassino."

Tarso Genro mentiu.

Lula mentiu.

Tarso Genro, o capitão do mato.

Lula, o feitor de escravos.

Esse é um governo que realmente defende e respeita os direitos humanos.

segunda-feira, junho 16, 2008

LUTA ARMADA - VELHAS E NOVAS FALÁCIAS



Capitão Charles Chandler, metralhado por um comando da ALN e da VPR em 12/10/1968: morto em nome da luta pela democracia, segundo a esquerda


No meu último post, reproduzi um artigo de Marco Antonio Villa publicado em 19/05 na Folha de S. Paulo sobre as falácias da esquerda a respeito da luta armada dos anos 60 e 70 no Brasil. O artigo é excelente. Com algumas exceções pontuais, que pretendo discutir em outro post, o texto de Villa é impecável.
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Agora, a mesma Folha publica um artigo assinado por dois professores, Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Benjamin Vieira, contestando as afirmações de Villa. Não por acaso, seus autores são ex-militantes de organizações armadas de esquerda (POLOP e VPR, respectivamente). No texto, que trascrevo a seguir em vermelho, os autores se esforçam para rechaçar a conclusão óbvia de que os terroristas queriam derrubar a ditadura para instaurar outra, comunista. Querem manter viva a lenda dourada criada em torno dos heróicos guerrilheiros que sacrificaram tudo altruisticamente em nome da... democracia (?!). O texto deles vai na íntegra. Meus comentários estão em azul. Os grifos também são meus.
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Luta armada a favor ou contra a ditadura?
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Artigo - Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Vieira
Folha de S. Paulo
16/6/2008


Superestimar critérios documentais tem levado alguns historiadores a dizer que a esquerda não lutou por uma causa democrática
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NO ARTIGO publicado nesta Folha em 19/05 ("Falácias sobre a luta armada na ditadura", "Tendências/Debates"), Marco Villa rediscute a ditadura, atribuindo responsabilidades pela emergência do autoritarismo em 1964 tanto à direita quanto à esquerda. A abordagem dissocia as esquerdas das conquistas democráticas.

Perceberam o tom de crítica ao autor que ousou "dissociar as esquerdas das conquistas democráticas"? Pois é. Esse pessoal da esquerda acha que democracia é só com eles, somente eles a defendem. Mais que isso: foram eles que a pariram. Isso fica claro no texto. Adiante.

A superestimação dos critérios documentais, em detrimento de conseqüências políticas democráticas que não constituíam proposta predominante no discurso da esquerda armada, tem levado alguns historiadores a afirmar que a esquerda lutou contra a ditadura, mas não por uma causa democrática. Ou seja, a direita e a esquerda eram antidemocráticas. A primeira defendia a ditadura militar, e a segunda, a do proletariado.

Antes de iniciar a crítica ao artigo propriamente dita, é bom apontar um lapso (?) no texto: nem toda a "direita" - no sentido que lhe dão os autores - defendia a ditadura militar. A menos que se considere alguém como o jurista Sobral Pinto, por exemplo, um radical esquerdista, o que está longe de ser verdade. Em 1964, a totalidade da direita - inclusive a imprensa - apoiou, sim, a derrubada do governo Goulart. Mas logo se desencantou com o regime, passando para a oposição. Um setor considerável, em especial a UDN, esperava que os militares devolvessem o poder rapidamente aos civis e restabelecessem a normalidade constitucional. Por se opor ao governo Castello Branco, o maior direitista brasileiro do período, Carlos Lacerda, foi cassado pelo regime, tendo de amargar o exílio. Logo, uma afirmação claramente falsa, logo no início. Continuemos.

A tese ignora que uma ação política pode gerar resultados não intencionais de grande repercussão. Assim, a luta armada contribuiu para o enfraquecimento da ditadura e o retorno da democracia, em que pese as intenções iniciais de seus agentes.

Esse pessoal não perde tempo. Diante de provas irrefutáveis, apresentadas pela própria esquerda armada, trata de refutar o que a História diz com todas as letras. Não sendo mais capazes de sustentar, com fontes e documentos, a mitologia criada em torno das esquerdas no período - derrubada pela simples leitura dos documentos das organizações armadas de esquerda, reunidos por Daniel Aarão Reis e Jair Ferreira de Sá em Imagens da Revolução, dos quais nenhum (nenhum!) fala sequer remotamente em restaurar a democracia -, os órfãos da ilusão marxista tentam tapar o sol com a peneira. Agora falam em "superestimação de fontes documentais" (?) - como se as fontes documentais não fossem a base de qualquer estudo histórico sério. Mais: apelam para os supostos "resultados não-intencionais" da luta armada no Brasil.
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Trocando em miúdos, a tese dos autores é a seguinte: os guerrilheiros não eram democratas, não queriam a democracia; eram autoritários, queriam a ditadura. Mas as suas ações, a luta armada em si, teve efeitos democráticos de longo prazo. É isso mesmo que você leu: não queriam saber de democracia, desprezavam-na, mas sua luta, apesar disso e deles próprios, teria contribuído para a volta da liberdade; era, portanto, uma luta democrática... É a velha teoria vanguardista, dos guerrilheiros como a "vanguarda da sociedade contra o arbítrio". Pura balela.

Assim como não era objetivo dos terroristas restaurar a democracia, e sim instaurar outra, comunista, em seu lugar, a conseqüência prática de suas ações não foi o enfraquecimento, mas o fortalecimento, da ditadura militar. Ou, usando um linguajar jurídico, inexiste liame causal entre uma coisa (a luta armada) e outra (a redemocratização).

Basta ver as datas. A luta armada ocorreu entre 1965 e 1974, quando então foi totalmente aniquilada. É justamente nesse período que o regime dos generais se consolida e, sobretudo após 1968, com o AI-5, atinge seu ponto culminante. É somente após a destruição dos grupos guerrilheiros, em 1974, que o regime começa a dar sinais de fraqueza, e começa o processo de abertura política. Esta não teve nada a ver com a luta armada, até porque esta já havia deixado de existir.

Muitos grupos de esquerda simpáticos à luta armada antes de 1968 não desprezavam a luta política e somente após o AI-5 escolheram o caminho militarista. A barbárie repressiva não foi uma resposta à luta armada, embora esta tenha sido utilizada como justificativa para o recrudescimento da política repressiva, que foi ampliada desde 1964 de acordo com a resistência da sociedade, da qual fizeram parte os grupos de esquerda.

Mentira. Nada disso inviabiliza a tese de Villa. O fato de haver grupos que optavam pela via política e não pelo caminho armado, como o PCB e a AP, não retira da luta desses o caráter totalitário. Podiam diferir dos grupos armados nos métodos, mas não no objetivo final, que era um regime comunista ou socialista, logo não-democrático. É verdade que as ações armadas se intensificaram depois de 1968, mas é uma mentira afirmar que foi somente após o AI-5 que a esquerda armada fez sua opção pelo caminho militarista: é no período 1964-1968 que surgem as principais dissidências armadas de esquerda, como a ALN (surgida em 1967), a VPR e o PCBR (ambos em 1968). Já em 1966, a AP realiza a primeira ação terrorista do período, o atentado à bomba contra o general Costa e Silva no aeroporto do Recife, em 25 de julho, que deixou dois mortos e dezenas de feridos. Além disso, como deixam claro autores inclusive ligados à esquerda, como Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg, o projeto guerrilheiro é anterior ao próprio golpe de 64: já em 1961 - em pleno regime democrático, portanto -, as Ligas Camponesas de Francisco Julião mantinham vários acampamentos de guerrilha espalhados pelo País, e muitos de seus integrantes iam regularmente fazer treinamento guerrilheiro em Cuba. Isso aconteceu - é bom lembrar - três anos antes do golpe de 64.

Aliás, é bom que se diga: a luta armada jamais esteve fora dos planos da esquerda, mesmo da mais moderada. O PCB de Luiz Carlos Prestes, por exemplo, mesmo duramente criticado como "reformista" e "pacifista" pelos que se lançaram à aventura da guerrilha, sempre deixou claro, em seus documentos e resoluções, que se opunha ao foquismo castro-guevarista por razões táticas, e não porque era contra, por princípio, a luta armada. Nunca é demais recordar que foi justamente ele, o partido de Prestes, que desencadeou a primeira tentativa de revolução armada comunista no Brasil, em 1935. Nos anos 50, em pleno governo constitucional, o partido estimulou uma guerrilha camponesa na região de Trombas e Formoso (GO). Sobretudo após 1958, com a perspectiva de assalto pacífico ao poder, o PCB adota uma linha cada vez mais legalista. Mas, a exemplo do que ocorre até hoje com partidos como o PT, a guerrilha jamais esteve fora de seus cálculos para a tomada do poder.
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Sobre a afirmação de que a repressão não veio como resposta à luta armada,mais uma mentira. Após a "limpeza" de 1964, a repressão política só atingiu seu ponto culminante a partir de 1968, justamente como reação aos atentados da esquerda. Pode-se discutir se o AI-5 foi ou não conseqüência direta da luta armada, mas é inegável que, não fosse essa, ele dificilmente teria ocorrido. Não é por acaso que os "anos de chumbo" do terrorismo, 1968-1974, coincidem perfeitamente com os de maior repressão política. A luta armada serviu tanto aos interesses da linha-dura militar, como fato ou como pretexto, que, mesmo quando o terror de esquerda já havia sido dominado, sempre que os milicos queriam justificar o endurecimento do regime, apelavam para o fantasma da guerrilha (leiam as memórias do ex-presidente Geisel, nas quais ele afirma claramente que foi o espectro da luta armada que alimentou a linha-dura e ajudou a prolongar a ditadura). Mesmo tendo desaparecido, o terrorismo de esquerda continuou colaborando para justificar a repressão sobre a sociedade - e não para abrir o regime.
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A ampliação do autoritarismo após 1968 foi antecedida por instabilidades políticas e crises nas Forças Armadas. O ambiente de contestação se expressou na Frente Ampla e na derrota do governo no caso Moreira Alves, nas greves operárias em Osasco (SP) e Contagem (MG) e nas passeatas estudantis e protestos da classe média liderados pela esquerda.

A violência sempre foi cultivada pelos dirigentes militares, situando-se no centro da estratégia para consolidar o autoritarismo, cujo propósito era desmobilizar e despolitizar a sociedade e impor um modelo econômico que privilegiasse a rápida acumulação capitalista naquele contexto de Guerra Fria.

Típica bobagem retórica esquerdóide para fazer a cabeça de alunos de oitava série. Passemos adiante.

A escolha da força para obter obediência levou os órgãos de segurança a uma posição de destaque. Os órgãos da polícia política eram um dos núcleos centrais do poder. Destacava-se o SNI, comandado por generais do Exército, entre eles Golbery, o seu criador em 1964 e idealizador da distensão posteriormente executada por Geisel, chefe da Casa Militar de Castelo Branco, que negou a existência de abusos cometidos pelo regime e primeiro presidente a admitir, após deixar o cargo, a tortura como meio necessário para obter confissões.

Os dirigentes buscaram ampliar as bases do regime com a liberalização, pois, além da eficácia econômica dos anos 70, emergia o problema da legitimidade. A distensão/abertura estava condicionada à institucionalização de um regime pós-autoritário com restrições democráticas. A retirada das Forças Armadas implicava sua substituição por um esquema civil de confiança baseado no partido do governo, de modo a preservar os interesses institucionais dos militares.

Idem. Prossigamos.

Um bom exemplo é a Lei da Anistia, aprovada em 1979, que não permitiu a revisão das ações do aparelho militar, protegeu sua autonomia e reforçou o sentimento de impunidade das Forças Armadas. A sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão, a instituição militar não foi colocada em debate sobre os papéis que vinha desempenhando na política e a opinião pública não discutiu os valores necessários à construção de uma democracia.

Independentemente da discussão sobre a justeza ou não da Lei de Anistia, o fato é que ela perdoou os crimes cometidos pelos dois lados, tanto da repressão como da luta armada. A impunidade, portanto, não foi unilateral. Não sei de onde os autores retiraram a afirmação de que "a sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão" - a quantidade de livros, artigos e depoimentos que citam os torturadores nominalmente, e os métodos da repressão política, são suficientes para, enfileirados, dar uma volta completa na Terra. Os nomes dos torturadores, e seus métodos, até mesmo pela hegemonização da História do período militar pela esquerda acadêmica, são de todos conhecidos. Ao contrário de muitas ações da esquerda armada no período, como os chamados "justiçamentos" - o assassinato a sangue-frio de militantes por seus próprios companheiros de luta armada, por simples suspeita de traição -, sobre os quais, até o momento, a esquerda prefere manter um silêncio de pedra. Do mesmo modo, a instituição militar, por causa dessa propaganda, jamais foi tão denegrida e vilipendiada. Concordo apenas com a última frase: de fato, a sociedade não discutiu os valores necessários à construção da democracia. Isso porque esse debate vem sendo monopolizado, há uns trinta anos, pela esquerda, que de democrática tem muito pouco, como a luta armada.

Todas as formas de luta contra a ditadura devem ser vistas como um direito legítimo contra a opressão política. Até Locke, o mais liberal dos liberais e um dos inspiradores das revoluções americana e francesa, sustenta que o povo tem o direito à resistência quando o Estado usa a força sem direito e sem justiça.

Todas as formas? Têm certeza? Inclusive o terrorismo? Inclusive fazer em pedaços o corpo de um recruta de 19 anos na explosão de um carro-bomba? Inclusive esfacelar a coronhadas o crânio de um tenente da PM capturado após render-se? Inclusive exterminar, a queima-roupa, um militar norte-americano pelo único crime de ele ser militar e norte-americano? Que vínculo existe entre esses atos de terror ensandecido e a volta das liberdades democráticas no Brasil?

Uma das teses preferidas da intelligentsia esquerdista é que a luta armada serviu para demonstrar a insatisfação da sociedade com a ditadura. A tese é furada, em primeiro lugar, porque a sociedade, pelo menos até o fim do "milagre" econômico, em meados dos anos 70, não estava descontente com o regime coisa nenhuma. Pelo contrário: embalada pelos altos índices de desenvolvimento econômico, ela, sobretudo a classe média, aplaudia a ditadura. O presidente Médici, por exemplo, era extremamente popular. Por isso que a luta armada não passou de uma luta isolada, sem apoio da população. Foi por isso, também, que a sociedade buscou outras formas de resistência ao arbítrio dos militares, todas legais, como bem explica Marco Antonio Villa. Desde quando explodir bombas e seqüestrar diplomatas estrangeiros era a única forma de expressar essa insatisfação, aliás inexistente? A luta armada não se fez sob a égide de Locke ou de qualquer outro pensador liberal. Seus referenciais eram outros: eram Lênin, Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro.

Alegar que a redemocratização teria alguma relação com a luta armada já é de uma desonestidade sem tamanho. Tentar usar Locke para justificar uma luta que era pela implantação, nestas terras, de uma ditadura totalitária, é simplesmente demais. Não tem nem como qualificar isso. É cascata da grossa. Pura safadeza.

As regras não eram legítimas, como hoje são as da democracia, reconquistada após os projetos dos militares serem derrotados no campo institucional, a partir da pressão de uma ampla mobilização de oposição que se formou entre 1974 e 1985 e da qual participaram os grupos de esquerda.

O fato de as regras políticas não serem legítimas em um regime autoritário não diz nada a favor dos que quiseram substituí-lo não pela democracia, mas por uma ditadura totalitária. Os próprios autores se contradizem, ao reconhecerem que a derrota da ditadura ocorreu no campo institucional, e não por qualquer outra via. Admitem que a mobilização da oposição que teria posto fim à ditadura ocorreu entre 1974 e 1985, o que é inegável. Justamente no período em que a luta armada já havia sido dizimada, não tendo, portanto, capacidade alguma de influir no processo político. Como, então, dizer que a luta armada teve, como uma de suas "consequências não-intencionais", o fim da ditadura?
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Esse é o método dos esquerdistas: baseiam-se em verdades para propagar mentiras. Baseiam-se no fato de que o Brasil vivia um regime autoritário (verdade) para dizer que todos que se opunham aos militares eram democratas (mentira). Daí, defendem que a luta armada, por ser contra a ditadura militar (verdade), era, no fundo, democrática (mentira). Com isso pretendem aparecer como os campeões da liberdade e da democracia, tolhendo o debate e rotulando qualquer um que denuncie suas imposturas, como Marco Antonio Villa, como um defensor da ditadura e do autoritarismo. Não conheço nada mais desonesto do que isso.

Se a esquerda reconhece os equívocos da luta armada após 1968, a ela não devem ser atribuídas certas responsabilidades políticas cujo objetivo primeiro é enfraquecê-la moralmente como aliada do atual governo.

Falso. O próprio texto é uma demonstração de que a esquerda - pelo menos a fração da esquerda nostálgica da guerrilha - não reconhece os equívocos do passado ("só" equívocos? não seriam crimes?). Pelo contrário: os enaltece e os reivindica.
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Restabelecer a verdade dos fatos, e não reforçar velhos mitos revolucionários, é uma questão de honestidade intelectual, e não de enfraquecer moralmente os aliados do atual governo. Até porque, convenhamos, este mesmo trata de criar, diariamente, farto material para se desmoralizar a si próprio.
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E, para isso, não precisa da ajuda de nenhum historiador.

Falácias sobre os "anos de chumbo" no Brasil

O texto a seguir, de autoria do historiador Marco Antonio Villa, foi publicado em 19/05/2008 na Folha de S. Paulo. Transcrevo-o na íntegra. No próximo post, vocês vão entender por quê.

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MARCO ANTONIO VILLA
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Militantes de grupos de luta armada criaram um discurso eficaz. Quem questiona "vira" adepto da ditadura. Assim, evitam o debate
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A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
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Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
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O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva. Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.
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Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
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Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
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Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
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Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
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Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo. O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
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O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão. Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
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MARCO ANTONIO VILLA, 51, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor, entre outros livros, de "Jango, um perfil".

Resultado da enquete do Blog

A primeira enquete do blog encerrou-se na sexta-feira, dia 13. A pergunta era: "O que leva alguém a ser de esquerda?" O resultado: para 42% dos que votaram, é a imaturidade. Para 28%, é o tédio ou a moda. 14% responderam que é a ignorância ou a vontade de fazer novas Cubas ou Coréias do Norte.
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Agradeço a todos que participaram. Em breve, mais uma enquete será postada no blog.