Republicanos espanhóis treinam pontaria em uma estátua de Cristo, década de 30: para as esquerdas, apenas seus mortos contam Este é um blog assumidamente do contra. Contra a burrice, a acomodação, o conformismo, o infantilismo, a ingenuidade, a abobalhação e a estupidez que ameaçam tomar conta do País e do Mundo. Seja livre. Seja do contra. - "A ingenuidade é uma forma de insanidade" (Graham Greene)
quinta-feira, setembro 04, 2008
JUSTIÇA - E MEMÓRIA - SELETIVA (OU: COMO DISTORCER A HISTÓRIA PARA QUE ELA DIGA SÓ O QUE NOS CONVÉM)
Republicanos espanhóis treinam pontaria em uma estátua de Cristo, década de 30: para as esquerdas, apenas seus mortos contam segunda-feira, setembro 01, 2008
EU GOSTO DO BUSH

segunda-feira, agosto 25, 2008
POR QUE O OCIDENTE É SUPERIOR

Lembro também das especulações que surgiram nos dias seguintes. Pelo menos na Universidade, a tese preferida de muitas pessoas - ouso dizer, da maioria -, naqueles dias, era de que o ataque não fora obra de nenhum grupo radical islâmico, como a Al-Qaeda, mas dos serviços secretos norte-americanos, a CIA, ou mesmo o Mossad israelense. Um dos maiores luminares da esquerda nacional, o economista Celso Furtado, escreveu, pouco antes de morrer, um artigo defendendo explicitamente essa tese. Um de meus professores do mestrado também acreditava piamente nessa teoria conspiratória e passou uma tarde tentando me convencer que o atentado fora engendrado não em algum rincão esquecido do Oriente Médio, mas nos porões da Casa Branca. Culpa da globalização, enfim. Foi preciso algum tempo até que os autores dos ataques fossem conhecidos. Mas, mesmo assim, o Blame America first continuou seu trabalho. Em artigo inesquecível, o ex-frei Leonardo Boff demonstrou toda sua piedade cristã e visão humanista, ao escrever que esperava que não dois, mas vinte e cinco (!) aviões atingissem as Torres Gêmeas... Afinal, era tudo culpa da globalização, lembram-se?
Posso dizer que, desde então, muitas das teses que eu acalentei durante anos foram por água abaixo. De fato, para mim, o 11 de setembro foi um verdadeiro turning point. Em especial o antiamericanismo, que eu já começara a questionar, embora timidamente, esvaiu-se por completo, juntamente com as dezenas de e-mails de júbilo pela morte de quase 3 mil pessoas, e que entupiram minha caixa de correio eletrônico após os ataques. Mais que isso, à medida que eu analisava os argumentos utilizados pelos críticos dos EUA para justificar os atentados - os americanos "estavam colhendo o que plantaram", o terrorismo de Bin Laden era um caso de "criatura se voltando contra o criador" etc. -, eu me convenci cada vez mais da fragilidade, para dizer o mínimo, do antiamericanismo. Descobri, então, que por trás de um discurso sistematicamente incubado por décadas, escondia-se uma terrível realidade, baseada na propaganda do genocídio e no ódio sem tréguas à própria idéia de civilização. Um discurso que, hoje, infelizmente, é mais forte do que nunca.
Qual o denominador comum a todas as manifestações contrárias às intervenções norte-americanas em países como Afeganistão e Iraque? É a idéia de que a democracia, por ser um valor "ocidental", não pode ser "exportada" para esses países. Coisas como liberdade de expressão e direitos humanos, por conseguinte, não seriam objetivos comuns à humanidade, mas uma característica cultural do Ocidente, assim como o hip-hop e a Coca-Cola. Em nome da preservação da "diversidade cultural", portanto, seria necessário tolerar, e até aceitar, práticas que, aos olhos ocidentais, seriam reprováveis ou repulsivas, mas que fazem parte da paisagem local. Diante disso, a democracia seria um valor relativo, não universal. A esse discurso culturalmente relativista, muito caro a alguns antropólogos, e que se tornou uma espécie de dogma a partir dos anos 90, batizaram de multiculturalismo.
Há tempos os multiculturalistas já ultrapassaram a linha tênue existente entre o respeito à diversidade e a justificação de práticas bárbaras e criminosas. O fascínio pelo "outro", defendido primeiramente por Montaigne e Rousseau, já degenerou há muito em justificação da barbárie. É isso o que demonstra a atitude relativista em relação ao terrorismo e às violações aos direitos humanos em países da Ásia e da África. Práticas como a mutilação genital de meninas e o infanticídio - ainda praticado em algumas tribos indígenas brasileiras, e tolerado e até defendido por alguns antropólogos tarados -, assim como o incesto e o canibalismo, são inaceitáveis, no mundo em que vivemos, não porque sejam algo estranho aos olhos ocidentais, eurocêntricos ou cristãos, mas porque seu banimento é um imperativo do respeito à dignidade humana e um alicerce da vida civilizada. Sem isso, recairíamos na barbárie mais completa, regressaríamos aos tempos das cavernas, deixaríamos a posição ereta e comeríamos carne crua. No limite, o discurso relativista pode ser utilizado - como de fato é - para justificar os atentados com homens-bomba de organizações terroristas islamitas como a Al-Qaeda e o Hizbollah, pois, afinal, faz parte do Islã acreditar na jihad - a guerra santa - e que a recompensa do martírio serão 72 virgens no Paraíso... Isso não tem nada a ver com respeito à diversidade, mas com fanatismo e demência.
O terrorismo islamita é o maior inimigo atual da humanidade, assim como o totalitarismo comunista ou fascista o foram no passado. E isso não porque Bush ou Rice disseram, mas porque a realidade trata de mostrar, todos os dias, que a democracia é superior a qualquer ideologia obscurantista e totalitária. Nenhum outro sistema político garante a liberdade humana. Há algumas semanas, uma manifestante interrompeu um discurso de Bush para chamá-lo de criminoso de guerra, enquanto outro fazia gestos obscenos e o mandava se foder. Alguém consegue vislumbrar cena parecida no Irã ou em Cuba?
O Ocidente é superior ao Oriente não porque o cristianismo seja uma religião melhor do que o Islã ou o budismo, ou porque a moral judaico-cristã seja intrinsecamente mais perfeita do que a moral muçulmana, hindu ou confucionista. Não. O Ocidente é superior porque foi nessa parte do Planeta que as idéias de liberdade e tolerância - inclusive, a liberdade religiosa - surgiram e se consolidaram, tornando-se, em alguns países, um dado da própria cultura. A democracia não é superior à tirania porque é ocidental, mas porque é uma conquista da civilização. Inclusive, foram essas idéias de liberdade e tolerância que estiveram na origem do salto técnico dado pela humanidade nos últimos quinhentos anos, proporcionado pela Reforma religiosa, pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial (e do qual os terroristas se utilizam, importando do Ocidente armas sofisticadas). De certo modo, há uma relação entre os ideais democráticos e a superioridade científica e tecnológica.
É claro que, nessa luta, não se pode ignorar as óbvias diferenças entre a civilização ocidental, laica, democrática e tolerante, e a islâmica, predominantemente religiosa, autocrática e intolerante. Autores como Bernard Lewis já chamaram a atenção para esse fato, ao apontar que, em toda sua História, o Islã, ao contrário do cristianismo, jamais passou por algo parecido com a Reforma religiosa do século XVI ou com o Renascimento. Obviamente, isso não quer dizer que a cruz é superior ao crescente, ou que a Bíblia, e não o Corão, é a verdadeira Palavra de Deus. Deixo esse debate para os teólogos e religiosos. A verdadeira questão, aqui, é que em uma parte do planeta se estabeleceram as bases para a tolerância religiosa, e em outra, não. E que um Estado laico e secular é infinitamente superior a um Estado teocrático e religioso, seja ele muçulmano, católico ou protestante.
Esse tipo de atitude não pode ser creditado apenas a uma opção política. É uma questão, também, moral - ou melhor: amoral. Figuras como as acima citadas desfrutam das facilidades e conveniências da democracia em países como os EUA ao mesmo tempo em que as negam para outros povos de culturas e religiões diferentes. Usam, inclusive, o argumento da soberania - um conceito, curiosamente, ocidental - para defender o imobilismo em casos como o do genocídio em Darfur. A pergunta que fica é: trocariam a Big Apple ou Londres por Cabul ou Teerã?
O mesmo discurso esquerdista que anunciou os atentados de 11 de setembro de 2001 naquela palestra sete anos atrás - antiglobalização, antiamericano, antidemocracia e anti-direitos humanos - persiste hoje, na forma de justificação da barbárie terrorista e obscurantista sob o rótulo de "respeito à diversidade". Não se leva em conta que a democracia não é a antítese da diversidade, mas sua garante. É por ter consolidado em suas instituições esse princípio, que o Ocidente é superior.
quinta-feira, agosto 21, 2008
PENSANDO "REVOLUCIONARIAMENTE" (OU: COMO SE TRANSFORMAR NUM ZUMBI AMESTRADO)
Tenho o costume, nas horas vagas, de vasculhar a internet em busca de conhecidos e amigos. Numa dessas buscas, esbarrei num texto de um conhecido meu, com quem aliás já troquei correspondência aqui (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/11/dilogo-entre-um-revolucionrio-de.html). Ele, inclusive, para minha frustração, pediu-me que eu não o escrevesse mais... Mas, fazer o quê?, não consigo resistir à tentação. Atualmente, ele exerce a função de professor universitário, do curso de Ciências Sociais de uma universidade regional na mesma província onde travamos contato por algum tempo, lá se vão uns bons quinze anos. E desde então tomamos rumos diferentes, tanto profissionalmente quanto, sobretudo, ideologicamente. Enfim, como se vê por sua recusa em debater comigo, um cara democraticamente aberto ao monólogo, esse meu ex-camarada. quarta-feira, agosto 20, 2008
FORMANDO AS FUTURAS GERAÇÕES

SOCIALISMO E DEGRADAÇÃO

Com seus poucos anos, já compreendeu que não importa quantas vezes cruzas a linha da ilegalidade, sempre que te mantenhas aplaudindo. Umas consignas gritadas em um ato político, ou aquela vez que denunciou um "grupúsculo" contra-revolucionário, lhe ajudaram a conservar tão lucrativo emprego. Suas mãos, que hoje roubam, enganam os clientes e desviam mercadorias estatais, assinaram - há quase seis anos - uma emenda constitucional para que o sistema fosse "irreversível". Para ele, se lhe deixam continuar enchendo os bolsos, o socialismo bem poderia ser eterno.
segunda-feira, agosto 18, 2008
BESTEIROL OLÍMPICO

As Olimpíadas, em termos de patriotada, só perdem, entre nós, para a Copa do Mundo. Isso é demonstrado, de forma literalmente lacrimosa, pelas lágrimas de nossos atletas. Brasileiro adora chorar. Chora na derrota, como choraram o ginasta Diego Hipólito e o judoca que por pouco perdeu o bronze. Chora na vitória, como o nadador César Cielo ao ouvir o hino nacional. Chora ao ouvir o Galvão Bueno se esgoelando e agredindo nossos tímpanos com suas transmissões ufanistas. Tudo em nome do oba-oba. Brasileiro chora, desconfio, até se ganhar medalha em campeonato de origami ou de futebol de botão. Assim como chora, de tristeza, por não ter correspondido à expectativa geral. É muita emoção, como diz o Galvão Bueno, com os atletas ganhadores agradecendo o apoio "do País" e de suas famílias, e os perdedores se desculpando, envergonhados, por terem decepcionado a todos. Também pudera: ali estão os atletas, os "representantes da nação".
Esse fato tão evidente, tão elementar, é constantemente esquecido ou negado pelos comentaristas esportivos brasileiros, que, por serem brasileiros, adoram um oba-oba, vestindo a camisa da "coletividade". Outro dia, vendo uma dessas invenções tipicamente nacionais que é a mesa-redonda, ouvi um dos comentaristas reclamar, pela milionésima vez, da falta de apoio das autoridades aos atletas brasileiros como a causa do fraco desempenho do Brasil nas Olimpíadas. No Brasil, o esporte é tratado como uma questão de Estado, como se fôssemos uma Coréia do Norte ou uma ex-Alemanha Oriental. Existe, inclusive, um Ministério dos Esportes, não por acaso ocupado por um militante do PCdoB. O que quase ninguém diz é que Michael Phelps, por exemplo, não é o supercampeão que é por causa de nenhum "apoio das autoridades" dos EUA. Não vi Phelps, aliás, derramando nenhuma lágrima em nenhuma das oito vezes que conquistou a medalha de ouro, nem agradecendo à sua "mãe-que-lhe-deu-tudo" etc. Estava, sim, irradiando felicidade por essa conquista pessoal e de sua equipe, como lhe é de direito. Sem demagogias nacionalisteiras e choradeiras patrióticas. Afinal, ele é um atleta, não um "representante da nação". Além do mais, se dependesse de apoio oficial, o cinema brasileiro, por exemplo, seria o melhor do mundo.
Na realidade, as Olimpíadas são uma oportunidade para que extravasemos nosso velho recalque de país-que-quase-chegou-lá. Nelson Rodrigues escreveu que, ao vencer a Copa do Mundo de Futebol em 1958, o Brasil estava exorcizando seu "complexo de vira-latas". Hoje, o Brasil é uma potência futebolística, mas não olímpica. No quesito Olimpíadas, vigora o "complexo de quase-potência", ou, para usar uma figura de linguagem praticamente literal, um "complexo da medalha de bronze". É uma metáfora do Brasil, um país que geralmente passa para as semifinais, mas quase sempre deixa escapar os primeiros lugares. E chora, e chora...
A frustração só não é maior do que a manipulação política do esporte. Já escrevi antes que não acredito em separação entre esporte e política. As vitórias nas Copas do Mundo, o culto quase religioso a um Ayrton Senna - em um esporte popularíssimo como a Fórmula 1... - e, agora, as Olimpíadas de Pequim demonstram de forma clara que tal separação não passa de uma mentira com a qual todos concordamos em acreditar, assim como a lorota de que "o que vale é competir" e "só em estar aqui já é uma vitória". Bobagem, bobagem. Esporte tem tudo a ver com política. Por isso acho as Olimpíadas uma chatice. Por isso estou fugindo da TV nestes dias. Por isso os Jogos de Pequim são uma farsa. Desde a abertura, com criancinha dublada e show pirotécnico gerado por computador.
quarta-feira, agosto 13, 2008
OS "HERÓIS" DE LULA E A MISTIFICAÇÃO DA HISTÓRIA

por Fabiana Cimieri e Felipe Werneck
de O Estado de S.Paulo - 13 de agosto de 2008
Sem citar diretamente a polêmica sobre tortura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que estudantes e operários mortos no regime militar devem ser tratados como heróis, e não como vítimas. “Toda vez que falamos dos estudantes e operários que morreram, falamos xingando alguém que os matou. Esse martírio nunca vai acabar se a gente não aprender a transformar os nossos mortos em heróis, não em vítimas”, discursou Lula, em ato durante o qual assinou mensagem encaminhando ao Congresso projeto de lei reconhecendo a responsabilidade do Estado pela destruição da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) e propondo uma indenização à entidade.
Para Lula, o Brasil não tem heróis. “A gente só lembra de Tiradentes. O Brasil tem muitas lutas importantes, mas nós não os cultuamos para dar valor ao que essas pessoas fizeram”, disse. “Imagina se a Frente Sandinista (de Libertação Nacional) ficasse lamentando todos os que (Anastasio) Somoza matou? Imagina se o Fidel Castro ficasse lamentando todos os que o (Fulgencio) Batista matou?”, questionou o presidente.
O terreno na Praia do Flamengo, em que passou a funcionar um estacionamento, foi retomado pela UNE em 2007. A nova sede tem projeto de Oscar Niemeyer. “É importante que a UNE e a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) articulem um projeto de convencimento dos deputados e dos senadores. O dinheiro está no Ministério da Justiça. A gente não pode dar porque senão vão vir muitos processos contra nós”, disse o presidente.
Tembém presente no local, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), foi vaiado por centenas de estudantes e reagiu em seguida, sorridente, ao iniciar seu discurso: “Calma, calma: 2010 ainda está longe”, declarou.
Serra era presidente da UNE em 1.º de abril de 1964, quando a sede da entidade foi incendiada, à noite, depois de ter sido atacada, após o golpe militar. Segundo ele, o prédio foi o principal foco de violência no dia do golpe por causa do “papel que os estudantes tinham na mobilização democrática”.
“A principal característica política da UNE era a defesa da democracia, contra rupturas do processo democrático, viessem de onde vissem, ou golpe de esquerda, ou golpe de direita. A gente vivia em outro País”, disse Serra. Na época, havia cerca de 140 mil estudantes universitários, e hoje o número é no mínimo 40 vezes maior, calculou o governador.
O tucano elogiou o “significado simbólico” do ato assinado ontem. “O prédio foi vítima de um duplo ataque. O segundo foi mais abominável. O primeiro, do incêndio, fez parte da briga do dia do golpe. Não dá para justificar, mas dá para explicar o enfrentamento. Mas o segundo, em 1979, quando a UNE foi demolida, foi uma coisa puramente ranheta e raivosa, porque não havia motivo para se fazer isso.”
Antes do discurso, em entrevista, Serra disse considerar que o momento não é “adequado” para a discussão sobre tortura e anistia. “Em todo caso, tem o Judiciário, ele é que deve interpretar a lei”, disse.
terça-feira, agosto 12, 2008
ABAIXO O IMPERIALISMO... DA RÚSSIA!
Tanques soviéticos entram em Praga, Tchecoslováquia, agosto de 1968: exemplo de "bom imperialismo", segundo muitos No último dia 8, enquanto o mundo inteiro assistia embevecido à apoteose olímpica em Pequim, a Rússia invadiu a Geórgia, com cujo governo mantém uma disputa antiga pela região da Ossétia do Sul. O.k., você certamente nunca tinha ouvido falar na Ossétia do Sul, nem na Abkházia, nem em Dimitri Medvedev, nem em Mikhail Saakachvili. A maioria das pessoas tem dificuldade até em pronunciar esses nomes, ou em identificar onde fica a Geórgia no mapa, quanto mais em entender as causas desse conflito, que parece tão distante quanto os nomes envolvidos. Apenas à guisa de introdução, basta dizer que as tropas russas invadiram a Geórgia, terra natal de Stálin, supostamente para defender a população da região da Ossétia do Sul, que é majoritariamente russa, de supostas violências por parte do governo da Geórgia. Mas isso é o que menos importa aqui. O que realmente me chamou a atenção, o que de fato merece análise na questão, na opinião deste escrevinhador, é que a guerra na Geórgia revelou, para quem quiser ver e ouvir, aquilo que venho denunciando neste blog há tempos: a hipocrisia, o duplo padrão - político e moral - do pacifismo e do antiimperialismo.
Basta comparar a reação - ou melhor: a falta de reação - da chamada opinião pública mundial quanto à invasão da Geórgia pela Rússia em 2008 com a gritaria geral que correu o mundo todo por causa da invasão do Iraque pelos EUA e pelo Reino Unido cinco anos atrás, em 2003. Desde que os tanques russos entraram na pequena Geórgia, tenho procurado na imprensa algum artigo indignado, alguma denúncia, alguma crítica feroz, de autor brasileiro ou estrangeiro, contra essa inaceitável - e não só porque foi o Bush que disse - agressão imperialista da Rússia no Cáucaso. Em vão. Não vi até agora nenhum artigo indignado, apenas análises das raízes geopolíticas do conflito. Algumas muito boas, aliás. Mas denúncia da ação unilateral e imperialista da Rússia que é bom, nada. Também esperei, até agora, alguma manifestação de massa, algum protesto multitudinário contra essa violação flagrante da soberania de um Estado por uma potência nuclear. Novamente, debalde. Até o momento em que escrevo estas linhas, tudo que se viu foi meia dúzia de gatos pingados (em geral, georgianos ou parentes) protestando, com algumas faixas e cartazes, em frente a alguma embaixada russa nos EUA ou na Europa. Onde estão as marchas gigantescas, as manifestações de protesto no mundo todo, os textos inflamados de Noam Chomsky e Tariq Ali, os discursos de Michael Moore ("shame on you, shame on you"...), os apelos por um boicote a produtos russos etc.? Onde está a defesa do - para lembrarmos uma palavra agora convenientemente esquecida - multipolarismo contra o unilateralismo (russo, não americano)?
É impressionante o contraste entre o tratamento dado, na imprensa, ao imperialismo norte-americano, de Bush e Rice, e ao imperialismo russo, de Putin e Medvedev. Ontem mesmo li um editorial da Folha, datado de 11/08, que aproveitou o gancho para tirar uma lasca não dos dirigentes russos, mas de... Bush! "Bush não tem moral para falar em soberania no caso da Geórgia", lê-se no glorioso jornal paulista, que se orgulha de sua visão "isenta" e "equilibrada"... Sobre os russos, pouca coisa. Nada que se compare, em ênfase e indignação, ao que se disse e se escreveu sobre a invasão do Iraque. Acabo de ler também artigo do tiranossauro Fidel Castro, falando mal - adivinhem! - de Bush e dos EUA, que teriam "estimulado" o governo da Geórgia contra os russos... Desnecessário dizer que Fidel, o antiimperialista, diz amém para o imperialismo da Mãe-Rússia. Muita gente - podem apostar - vai repetir nos próximos dias o que está no editorial da Folha, sem falar nas diatribes do Coma Andante. Afinal, a Geórgia é aliada dos EUA. Mandou, inclusive, soldados para o Afeganistão e o Iraque... Ah, bom.
No conflito da Geórgia, estão presentes todos os elementos que os inimigos de Bush e dos EUA alegaram em 2003 para condenar a invasão anglo-americana e a derrubada de Saddam Hussein: uma guerra desigual e assimétrica (como gosta de dizer o bufão Hugo Chávez - aliás, outro que está, certamente, aplaudindo a ação militar russa) entre uma potência militar, a Rússia, e um país pequeno, a Geórgia; a violação unilateral e ilegal da soberania de outro país etc. Há, também, petróleo - dez em cada dez análises do conflito apontam a disputa pelo óleo e pelo gás do Cáucaso como uma das causas da guerra. E, no entanto, não se vê ninguém falando nisso para condenar a agressão da Rússia! E olhem que Bush tentou, antes da invasão do Iraque, conquistar o apoio da ONU - ainda está fresca na memória a imagem do então Secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, balançando aquele vidrinho na reunião do Conselho de Segurança. Pelo menos, deu-se ao trabalho de organizar uma coalizão. A Rússia, nem isso. Simplesmente mandou os tanques invadirem, e pronto. Sem avisar nem buscar o apoio ou a anuência da comunidade internacional.
Sei que alguns dirão que estou tentando, com essas observações, ressuscitar o clima da Guerra Fria, ou coisa do gênero. E talvez tenham razão. Afinal, durante os tempos da URSS o discurso "paz e amor" e "contra o imperialismo" também foi usado e abusado pelos inimigos dos EUA e do Ocidente para justificar o que se passava do outro lado da Cortina de Ferro. Foi assim em 1968, ano que, até hoje, é lembrado mais pela Ofensiva do Tet no Vietnã e pelas passeatas estudantis no Brasil ou na França do que pelo que os soviéticos - os russos de hoje - fizeram na Tchecoslováquia. Foi assim também em 1984, quando a mesma URSS, cheia de indignação pela "invasão imperialista" norte-americana da ilha de Granada, no Caribe, puxou o coro do boicote aos Jogos Olímpicos de Los Angeles, levando muita gente a se esquecer do motivo pelo qual muitos países, encabeçados pelos EUA, boicotoram as Olimpíadas de Moscou, em 1980 - a invasão do Afeganistão pelo Exército Vermelho e a repressão comunista na Polônia.
Apoiei a operação anglo-americana no Iraque que levou à queda de Saddam, assim como apoiei a derrubada do Talibã no Afeganistão. E não me arrependo. Pelo contrário: acho que Bush e seus aliados fizeram muito bem. Hoje, o Iraque está muito melhor do que há cinco anos. Se tivesse triunfado o ponto de vista dos pacifistas e multilateralistas, Saddam Hussein ainda estaria vivo e mandando as cartas - ainda estaria, provavelmente, no Kuwait. O mundo ficou bem melhor sem ele. Pelas mesmas razões, só posso me opor à invasão da Geórgia pelas tropas russas: esta não é uma operação para derrubar um tirano genocida e patrocinador do terrorismo, inimigo da paz e da humanidade, mas um simples exercício de poder imperial por parte de um regime que está se lixando para a democracia e os direitos humanos. Não por acaso, a Rússia foi um dos países que se opuseram, ao lado de outro gigante do antiimperialismo, a China, à intervenção no Iraque em 2003. Agora mostra, na Geórgia, toda sua coerência, sua aversão ao imperialismo e seu amor pela paz. Com o apoio dos pacifistas e antiimperialistas.