quinta-feira, setembro 04, 2008

JUSTIÇA - E MEMÓRIA - SELETIVA (OU: COMO DISTORCER A HISTÓRIA PARA QUE ELA DIGA SÓ O QUE NOS CONVÉM)

Republicanos espanhóis treinam pontaria em uma estátua de Cristo, década de 30: para as esquerdas, apenas seus mortos contam


Leio hoje na imprensa: o juiz espanhol Baltazar Garzón ordenou nesta semana que se comece a reunir informações sobre os desaparecidos durante a Guerra Civil na Espanha e a subseqüente ditadura, com o objetivo de - abre aspas - "montar uma lista confiável de vítimas dos conflitos".
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Para quem não conhece o personagem citado acima, vou apresentá-lo: Baltazar Garzón é aquele juiz que, em 1998, causou uma onda de furor mundial ao mandar prender e tentar extraditar para a Espanha o ex-ditador do Chile Augusto Pinochet, falecido dois anos atrás. Desde então, ele, Garzón, tornou-se conhecido mundialmente como um perseguidor implacável de ex-ditadores, sobretudo generais sul-americanos, e um herói dos direitos humanos para os esquerdistas.
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O que quer o meritíssimo juiz? Cito mais uma vez a imprensa, no caso o portal Terra de hoje, 4 de setembro: "Garzon emitiu um pedido para que líderes religiosos, prefeitos e outras autoridades coletem informações sobre as pessoas mortas pelos exércitos do general Franco após a ascensão dele ao poder, em 17 de julho de 1936". Aparentemente, algo muito justo. Mesmo sabendo-se que Franco morreu trinta e três anos atrás, em 1975, e que desde então a Espanha é uma democracia. Aparentemente. Porque, se o objetivo do juiz Garzón fosse mesmo fazer justiça, ele não se cingiria a um lado somente da contenda. Leiam de novo a notícia. Lá está escrito, por acaso, que Garzón mandou que se investigassem as mortes causadas pelos dois lados do conflito, ou simplesmente os mortos na Guerra Civil Espanhola? Nada disso. O que ele quer são informações sobre as pessoas mortas - vou repetir, mais uma vez entre aspas - "PELOS EXÉRCITOS DO GENERAL FRANCO após a ascensão dele ao poder" etc.
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Perceberam a manobra? Entenderam a impostura? Captaram a tapeação, a empulhação, a mentira?
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A iniciativa do juiz Garzón não tem por objetivo fazer justiça coisa nenhuma. É mais uma malandragem retórica, uma tentativa espertalhona de distorcer a História travestida de humanitarismo jurídico. No caso, a História da Guerra Civil Espanhola, um conflito que resultou em cerca de meio milhão de mortos entre 1936 e 1939. Aqui, repete-se com esse episódio o mesmo sofisma que se tornou lugar-comum para outros fatos históricos do século XX, como a Guerra do Vietnã e as ditaduras militares sul-americanas: as vítimas foram de um lado apenas. Até hoje, quando se fala na Guerra Civil Espanhola, a primeira coisa que vem à mente é o bombardeio da cidade de Guernica pela Legião Condor de Hitler a serviço dos franquistas - fato imortalizado no célebre quadro de Pablo Picasso, que pintava coisas a soldo do Partido Comunista -, e não o que os dois lados fizeram. É preciso lembrar. O meio milhão de mortes no conflito que ensanguentou a Espanha e que o juiz Garzón deseja ver investigadas não se deveram unicamente aos "exércitos de Franco", como ele diz (ou seja, à frente de setores nacionalistas, conservadores e monarquistas que se rebelaram contra a Segunda República espanhola, proclamada em 1931), mas também - e isso não convém lembrar -, às forças republicanas, integradas por liberais, socialistas e, principalmente, comunistas. Estes últimos, na luta contra os franquistas, cometeram igualmente inúmeras atrocidades, chegando ao ponto de fuzilar centenas de padres católicos e incendiar igrejas. Além disso, grande parte das vítimas do lado republicano caíram sob as balas não dos exércitos nacionalistas de Franco, mas dos agentes da NKVD (a polícia política soviética, antecessora do KGB) do ditador Josef Stálin, que foram despachados para a Espanha não para combater os fascistas e defender a democracia, mas para liquidar os adversários da URSS nas fileiras republicanas, como os trotskistas e os anarquistas. E cumpriram essa missão, vale dizer, com dedicação canina e métodos científicos, como um bala na nuca. Para quem quiser saber mais como ocorreu esse banho de sangue, um dos massacres auto-infligidos menos conhecidos do século XX, recomendo a leitura de Lutando na Espanha, de George Orwell, e de A Batalha pela Espanha, de Antony Beevor. Será que o juiz Garzón vai pedir que se investiguem essas mortes também?
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De fato, o senso de justiça do sr. Garzón parece ser bem seletivo. Implacável para com generais de pijama sul-americanos, a ponto de compará-los aos nazistas e de reivindicar, para si, jurisdição universal para caçá-los onde quer que estejam, Garzón costuma ser bem tolerante, para dizer o mínimo, quando se trata de outras ditaduras. A de Fidel Castro em Cuba, por exemplo. Certa vez, perguntado por que não se mostrava tão implacável e inquiridor com o tiranossauro do Caribe, ele saiu-se com a seguinte pérola de valentia: disse que não podia fazer nada contra chefes de Estado ainda no exercício de suas funções. Ou seja: era preciso esperar o ditador aposentar-se, ou morrer, para pensar em fazer alguma coisa. Pois bem. No começo deste ano, após 49 anos de ditadura ininterrupta, Fidel renunciou - pelo menos foi o que se disse na imprensa - aos cargos que ocupava no Estado cubano. Tecnicamente, portanto, o barbudo não é mais um chefe de Estado, e, segundo o argumento do juiz Garzón, pode ser processado por seus crimes. Até o momento em que escrevo estas linhas, porém, o excelentíssimo juiz ainda não tinha iniciado o processo do ditador cubano, responsável, entre outras coisas, por 17 mil fuzilamentos e mais 78 mil afogados tentando fugir da ilha-prisão de Cuba desde 1959. Como diria o Capitão Nascimento: um verdadeiro fanfarrão, esse juiz Garzón.
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Alguns dias atrás, Garzón esteve no Brasil, em plena polêmica da revisão, ou não, da Lei de Anistia. Na ocasião, em entrevista para a Carta Capital, Garzón endossou a tese de Tarso Genro e defendeu a punição para os torturadores da época do regime militar. Afirmou que tortura é crime imprescritível. Estranhamente - ou não -, não disse nada sobre o terrorismo das organizações armadas de esquerda que mataram várias pessoas inocentes no mesmo período. Será que o terrorismo deixou de ser, também, um crime imprescritível? Ou será que - o mais provável - os mortos, nesse caso, estavam do lado errado?
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"Ah mas então você não quer que se investiguem as mortes". Não, nada disso. Não estou dizendo que não se deve investigar, nem que o melhor é esquecer. Mais uma vez: Não! É justamente o contrário: quero que se investigue sim, o destino dos mortos e desaparecidos, e que a História - TODA a História, e não parte dela - seja lembrada e esclarecida. Quero, inclusive, que os torturadores paguem por seus crimes, e que, se for para revisar a Lei de Anistia de 1979, que assim seja. Mas quero que os que mataram, feriram e torturaram - sim, torturaram! ou vai dizer que seqüestro não é uma forma de tortura? - do "outro lado", ou seja, do lado que hoje pede "justiça" e a revisão da Lei, paguem também. É isso, aliás, o que me distingue do sr. Baltazar Garzón, assim como de seus amigos esquerdistas: eu quero que a História seja desvendada por inteiro; eles querem que seja pela metade - a metade que lhes convém, claro.
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A manipulação da História pela esquerda não é um fato novo. É uma tática sistematicamente empregada, há décadas, para fazer todos acreditarem que ela é sempre vítima, jamais o lado agressor. Fazem isso para incutir nos espiritos ingênuos ou mal-informados (ou seja: na maioria das pessoas) a idéia de que seus crimes são virtuosos e que qualquer um que os denuncie é um salafrário e um bandido, um "reacionário", até mesmo um "fascista". Para atingir esse objetivo, os esquerdistas não hesitam em esconder uma parte da verdade, ou em se basear nela para propagar mentiras, ou em recorrer à mentira pura e simples. Um exemplo histórico é a falsa acusação feita pela URSS no Tribunal de Nuremberg, em 1946, segundo a qual os nazistas teriam sido os responsáveis pelo massacre de milhares de oficiais militares poloneses na floresta de Katyn, em 1940. Sabendo que os nazistas estavam na berlinda, universalmente execrados como autores de crimes horrendos contra a humanidade, e que qualquer delito que lhes fosse imputado teria uma boa probabilidade de ser considerado, os comunistas tentaram atribuir aos nazistas mais esse crime. Com esse ardil, buscaram encobrir sua própria participação no episódio - foram os comunistas, e não os nazistas, os autores da chacina, revelou-se depois - e, de quebra, fazer todos esquecerem sua aliança com os próprios nazistas - quando ocorreu o massacre, Stálin e Hitler tinham acabado de dividir entre si a Polônia, após a assinatura do infame Pacto de "não-agressão" entre os dois ditadores, em agosto de 1939. Esse é apenas um exemplo, entre tantos, de como as esquerdas se habituaram a distorcer a História para atender a seus próprios interesses.
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Algum tempo atrás escrevi aqui que o clube mais numeroso que existe é o dos inimigos das ditaduras passadas e amigos das ditaduras presentes. Se essas são de esquerda, então, viram não amigos, mas militantes das mesmas. Este é exatamente o caso do juiz Baltazar Garzón.

segunda-feira, setembro 01, 2008

EU GOSTO DO BUSH


A única coisa que este blogueiro aprecia na imagem acima é o meio, não a mensagem


Sei que, depois deste texto, provavelmente vou precisar de proteção policial para ir comprar jornal na esquina. Ou, pelo menos, terei que olhar para os dois lados sempre que pôr os pés para fora de casa. Certamente, muita gente vai deixar de falar comigo, e vão até mudar de calçada se me virem. A quantidade de meus inimigos vai aumentar substancialmente, e muitos vão até se oferecer para me dar uma surra. Tudo bem. Já me conformei com isso. De certo modo, até me acostumei. É a vida, fazer o quê? Além do mais, alguém precisa ser o advogado do diabo.

Eu defendo o presidente George W. Bush. Mais: considero que o mundo lhe deve desculpas. Principalmente aqueles que gritaram, nos últimos sete anos, slogans anti-Bush, queimaram seu rosto em efígie e lhe brindaram com os piores epítetos. Estes, deveriam estar ajoelhados em cima do milho, implorando perdão e arrancando tiras da pele das costas com um chicote de couro de rabo de tatu.
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Antes de se indignarem e se reunirem para me calar a boca e me quebrar todos os ossos, enfiando óleo de rícino minha goela abaixo, deixem-me pelo menos dizer as minhas razões. Depois, se quiserem, podem baixar o sarrafo, e até me colocarem no paredón.
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Primeiro, vejamos o que dizem os inúmeros críticos e inimigos de Bush Júnior. De acordo com a visão religiosamente repetida todos os dias e propagandeada por grandes filósofos como Arnaldo Jabor e Michael Moore, os últimos sete anos foram uma verdadeira catástrofe, tanto nos EUA como no resto do mundo, promovida pela administração bushista. Graças a Bush e a sua desastrosa política externa, dizem, o mundo teria se tornado um lugar pior para viver. A começar pela "guerra ao terror", promovida por ele e pelos "neocons" e falcões do Pentágono, os EUA teriam destruído países por razões "ilusórias" e violado sistematicamente os direitos humanos em masmorras como Abu Ghraib e Guantánamo, criando, com isso, legiões de fanáticos terroristas muçulmanos. Nessa visão, Bush seria o representante da "América profunda", racista, militarista, consumista e xenófoba, que se isola perante o mundo e ergue muros contra os imigrantes ilegais. Bush, um religioso fervoroso, representante da direita cristã e careta, seria um misto do que foram Reagan e Thatcher nos anos 80, um inimigo figadal das causas mais progressistas da humanidade, como o aborto, as pesquisas com células-tronco e o casamento gay. Não por acaso, ele é atualmente a figura mais odiada do planeta - há mihares de comunidades no Orkut com o título "I hate Bush" ou "Fuck Bush", para citar apenas as mais comuns. A arrogância e a prepotência de Bush teria sido responsável até mesmo por tragédias como a do furacão Katrina, em Nova Orleães, em 2005. Se bobear, são capazes de culpar o Bush pelo aumento da poluição ambiental e até pelo aquecimento global, com as emissões de carbono na atmosfera pela indústria do petróleo. Uma verdadeira ameaça, o inimigo público número um da humanidade, o Bush.

Esses são os argumentos geralmente colocados pelos inimigos de Bush. Agora permitam-me apresentar os meus. Tentem rebatê-los, se puderem.

Quanto à guerra ao terrorismo islamita, deflagrada em 11 de setembro de 2001, é difícil enxergar as razões que levaram Bush a mandar bala em países como o Afeganistão e o Iraque como "ilusórias". No caso do primeiro, as vinculações da tirania Talibã com Bin Laden e a Al-Qaeda são notórias, e não há o que discutir. No caso do Iraque, aparentemente mais controverso, já disse aqui e repito: tratava-se de derrubar uma ditadura sanguinária e que há anos patrocinava o terrorismo (como comprovam vários grupos palestinos patrocinados por Bagdá desde os anos 70). Era uma ameaça, assim como o Talibã.
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"E as armas de destruição em massa, que Bush disse que existiam, e que não foram encontradas?". Respondo: foram utilizadas nos anos 80, pelo regime de Saddam, contra os curdos e iranianos, e nada garantia que não poderiam ser utilizadas novamente. O temor de sua existência foi empregado por Saddam para enganar a ONU e tentar dissuadir os EUA de o atacarem. A única maneira de saber se ele tinha ou não as tais armas era invadindo o país e derrubando-o. Saddam era uma ameaça real. Isso, para mim, justificou sua queda. Hoje, o Afeganistão e o Iraque estão em uma situação muito melhor do que há sete anos - e quem discordar disso que prove que a ditadura do Saddam era melhor.
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"E Abu Ghraib? E Guantánamo?". Aqui faço minhas as palavras de Christopher Hitchens - autor, aliás, que não tem nada de direita -: até as tropas norte-americanas entrarem em Bagdá, Abu Ghraib era um açougue humano, onde prisioneiros políticos eram torturados e chacinados a machadadas. Com os americanos, tornou-se um centro de torturas, que foi fechado após um escândalo internacional em que os soldados foram flagrados em fotos e filmes abusando dos prisioneiros. Não se pode negar que houve um progresso. Quanto a Guantánamo, é freqüentemente lembrado que se trata de uma prisão ilegal, onde ocorrem inclusive maus-tratos contra prisioneiros. A esse respeito, lembro que Guantánamo está localizada em território de Cuba, país onde existem umas duzentos Guantánamos, em condições certamente muito piores do que a base americana - e ninguém diz nada. É que o comandante de Cuba não se chama George W. Bush...
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Alega-se que a política linha-dura de Bush contra o terrorismo islamita tem ajudado a multiplicar os terroristas - a cada ação militar norte-americana, como as invasões do Afeganistão e do Iraque, surgiriam centenas de novos candidatos a mártires, prontos a se explodirem - e aos infiéis ocidentais - em nome de Alá. É outra balela, que serve apenas para tentar justificar o imobilismo, principal combustível dos atentados. O terrorismo islamita não é o resultado de nenhuma ação norte-americana - basta ver o Afeganistão, celeiro de terroristas da Al-Qaeda, e onde os americanos não tinham colocado os pés antes de 2001 -, mas do ódio doentio de fanáticos dementes ao Ocidente e às idéias de democracia e direitos humanos. A maneira mais adequada de combater essa ameaça - aliás, a única maneira possível - não é cometer suicídio em nome da expiação de supostas culpas passadas, mas ajudar a estabelecer a democracia onde ela nunca existiu. Até agora, o principai argumento contra essa estratégia é que a democracia seria um valor "ocidental", que não poderia ser "exportado". Curiosamente, os mesmos que defendem esse ponto de vista são os que criticam o "isolacionismo" de Bush e o acusam de reacionário e contrário às liberdades individuais, ao mesmo tempo em que se colocam ao lado dos extremistas islâmicos. Já vi, como disse, muitos sites "I hate Bush", mas quase nenhum "I hate Saddam" ou "I hate Fidel Castro"...

Acusa-se Bush, ainda, de negligência no caso dos ataques de 11/09. De todas as acusações contra Bush, esta me parece a mais consistente, a única com alguma base real. A CIA e os demais órgãos de inteligência norte-americanos certamente erraram, e erraram feio, ao desprezar o perigo do terrorismo islamista antes dos ataques de Nova York e Washington. Mas, nesse caso também, se é para atacar o Bush, que não ataquem a ele somente. A negligência em relação ao terrorismo, vamos lembrar, caracterizou os oito anos anteriores de Clinton, mais às voltas com suas aventuras com charutos e estagiárias do que com uma estratégia de defesa nacional. Durante o reinado Clinton, a resposta dos EUA a atentados como os das embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia e ao USS Cole era disparar alguns mísseis no deserto. Mesmo isso, porém, causou ondas de protesto por parte dos militantes esquerdistas e antiamericanos de plantão - os mesmos, aliás, que condenam a ação enérgica de Bush contra o terrorismo islamita, e ainda por cima o criticam por negligenciar a ameaça terrorista... Vai entender.

É óbvio que, como presidente, Bush tem muitos defeitos. No entanto, não há como negar que ele é o melhor comandante militar que os americanos já tiveram em muito tempo. Para constatar isso, basta prestar atenção para um detalhe: há sete anos, não há um atentado terrorista em território dos EUA. Também está claro que a maior parte das críticas que lhe são dirigidas é feita por gente que está cantando e andando para a paz e os direitos humanos.

Tudo o que está aí em cima prova, mais uma vez, aquilo que venho dizendo aqui neste blog e em conversas com amigos e conhecidos desde 2003: que os ataques a Bush, Rice e cia., mesmo os que parecem justificados, não passam de um pretexto para que se destile o mais vulgar antiamericanismo. Isso é verificado no seguinte fato: falar mal do Bush virou uma espécie de senha para que os esquerdistas de sempre - gente que adora criticar os EUA mas baba por um Fidel Castro - demonstrem todo seu ódio aos EUA e, por antonomásia, à globalização e ao capitalismo. Para isso, não hesitam em repetir velhos chavões da época da Guerra Fria, quando tinham na finada URSS uma "alternativa" ao "imperialismo ianque", atacando, por exemplo, a construção de um muro na fronteira com o México para conter o fluxo de imigrantes ilegais como um exemplo da "xenofobia" e do "isolacionismo" da era Bush. Os mais afoitos fazem mesmo comparações com o Muro de Berlim. Não parecem muito preocupados com o fato de que o muro, assim como barreira semelhante erguida por Israel na Faixa de Gaza, tem por finalidade impedir a ENTRADA de pessoas no país, ao contrário do Muro de Berlim, que se destinava a impedir a SAÍDA ds alemães orientais para o lado ocidental. Ou seja: critica-se o muro por ser um obstáculo não à liberdade de quem porventura queira sair do país, mas à entrada de millhares de pessoas que desejam desfrutar do American dream... Para eles, inimigos dos EUA, Bush, com seu jeitão simplório e suas políticas controversas, é o bode expiatório perfeito. A economia americana vai mal? As bolsas de valores despencaram? Estourou uma guerra no Caúcaso entre a Rússia e a Geórgia? Basta dizer que a culpa é do "Jorjibúxi", e pronto!

A Bushofobia - na verdade, americanofobia - de nossa intelligentsia esquerdóide só não é maior do que sua capacidade de inventar novos ídolos e novos mitos para compensar os que a História tratou de despachar para o lixo. O mito do momento é Barack Obama, que já foi eleito pelas elites chiques e bem-pensantes do mundo inteiro como o novo presidente dos EUA. Obama, a esperança das esquerdas, é um verdadeiro rockstar. O sujeito não tem eleitores: tem devotos. Tudo que ele diz, mesmo antes de dizer, já é "histórico". A que ele realmente veio, ninguém sabe, nem parece se importar muito em saber. O importante é que ele tem carisma, e muita lábia. Além disso, ele promete "mudança". Ninguém sabe exatamente que mudança seria essa, mas isso é o que menos importa. Afinal, atrás dele está uma multidão de artistas, intelectuais de esquerda, formadores de opinião, a beautiful people, gente linda e maravilhosa, enfim. Pois é... Já vimos esse filme. Elegemos e reelegemos Lula presidente. Com que direito falamos mal de Bush?

E então, ainda querem me dar uma surra?

segunda-feira, agosto 25, 2008

POR QUE O OCIDENTE É SUPERIOR


Caricatura de Maomé em jornal dinamarquês: em nome do "multiculturalismo", muitos "defensores da tolerância" optaram pela censura - a serviço do fanatismo


Não sei quanto a quem lê estas linhas, mas eu me lembro exatamente onde eu estava na manhã de 11 de setembro de 2001, quando os aviões atingiram as Torres Gêmeas em Nova York: na Universidade, assistindo a uma palestra. O palestrante era um conhecido professor, um medalhão da intelligentsia nacional, obviamente de esquerda e bastante crítico do capitalismo e dos EUA. O tema, se não me engano, era globalização. Fazia uma hora mais ou menos que o catedrático discorria sobre o fenômeno, em seus vários aspectos - econômico, político, cultural -, sempre com um viés negativo (adorava falar sobre "os males da globalização", como sinônimo - claro - do imperialismo norte-americano, inimigo da soberania dos povos e das culturas nacionais...). Foi então que, subitamente, uma assistente do professor pediu o microfone e avisou a todos, em tom bastante grave, que algo muito sério acabara de acontecer nos EUA. "Notícias da globalização", foi como ela anunciou o que hoje todos sabemos que aconteceu...

Lembro também das especulações que surgiram nos dias seguintes. Pelo menos na Universidade, a tese preferida de muitas pessoas - ouso dizer, da maioria -, naqueles dias, era de que o ataque não fora obra de nenhum grupo radical islâmico, como a Al-Qaeda, mas dos serviços secretos norte-americanos, a CIA, ou mesmo o Mossad israelense. Um dos maiores luminares da esquerda nacional, o economista Celso Furtado, escreveu, pouco antes de morrer, um artigo defendendo explicitamente essa tese. Um de meus professores do mestrado também acreditava piamente nessa teoria conspiratória e passou uma tarde tentando me convencer que o atentado fora engendrado não em algum rincão esquecido do Oriente Médio, mas nos porões da Casa Branca. Culpa da globalização, enfim. Foi preciso algum tempo até que os autores dos ataques fossem conhecidos. Mas, mesmo assim, o Blame America first continuou seu trabalho. Em artigo inesquecível, o ex-frei Leonardo Boff demonstrou toda sua piedade cristã e visão humanista, ao escrever que esperava que não dois, mas vinte e cinco (!) aviões atingissem as Torres Gêmeas... Afinal, era tudo culpa da globalização, lembram-se?

Posso dizer que, desde então, muitas das teses que eu acalentei durante anos foram por água abaixo. De fato, para mim, o 11 de setembro foi um verdadeiro turning point. Em especial o antiamericanismo, que eu já começara a questionar, embora timidamente, esvaiu-se por completo, juntamente com as dezenas de e-mails de júbilo pela morte de quase 3 mil pessoas, e que entupiram minha caixa de correio eletrônico após os ataques. Mais que isso, à medida que eu analisava os argumentos utilizados pelos críticos dos EUA para justificar os atentados - os americanos "estavam colhendo o que plantaram", o terrorismo de Bin Laden era um caso de "criatura se voltando contra o criador" etc. -, eu me convenci cada vez mais da fragilidade, para dizer o mínimo, do antiamericanismo. Descobri, então, que por trás de um discurso sistematicamente incubado por décadas, escondia-se uma terrível realidade, baseada na propaganda do genocídio e no ódio sem tréguas à própria idéia de civilização. Um discurso que, hoje, infelizmente, é mais forte do que nunca.

Fui tomando consciência disso à medida que via a reação do mundo à resposta de Bush ao terrorismo islamita. Bush, claro, foi alvo de virulentas críticas por parte da frente ampla de inimigos da globalização, esquerdistas, simpatizantes de Bin Laden e pacifistas, para os quais os EUA são sempre o lado agressor, jamais a vítima. Estes se opuseram, com todas as forças, à ação militar contra o Talibã no Afeganistão e, mais tarde, contra o regime de Saddam Hussein no Iraque. Nas duas ocasiões, ao lado das imprecações a favor do multilateralismo e contra o imperialismo ianque e do apelo ao pacifismo - infelizmente, unilateral, pois não se dirigia a Bin Laden ou a Saddam -, ergueu-se a bandeira do "respeito às diferenças culturais" para se opor ao objetivo declarado da Casa Branca de depor as duas ditaduras e levar a democracia ao Oriente Médio.

Mais que isso: muitas vozes se ergueram contra a interpretação literal da obra de Samuel Huntington, O Choque de Civilizações - segundo a qual o mundo estaria imerso, desde o fim da Guerra Fria, num conflito de bases civilizacionais e religiosas -, pois consideravam essa tese preconceituosa contra o Islã. Apenas vozes isoladas, como a da jornalista italiana Oriana Fallaci - autora de um libelo apaixonado e explosivo - saíram em defesa aberta dos valores da civilização ocidental contra a barbárie islamita, pagando um alto preço por tamanha ousadia. Tentou-se, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, retirar do conflito que se iniciava - e se prolonga nos dias atuais - qualquer conteúdo e significado civilizacional e religioso. Até mesmo Bush fez uma concessão ao pensamento politicamente correto, visitando uma mesquita na semana dos ataques em Nova York e Washington e batizando a luta que começava com a expressão neutra "guerra ao terror" - a qual, na prática, não quer dizer absolutamente nada, tendo o mesmo significado de "guerra à guerra".

Qual o denominador comum a todas as manifestações contrárias às intervenções norte-americanas em países como Afeganistão e Iraque? É a idéia de que a democracia, por ser um valor "ocidental", não pode ser "exportada" para esses países. Coisas como liberdade de expressão e direitos humanos, por conseguinte, não seriam objetivos comuns à humanidade, mas uma característica cultural do Ocidente, assim como o hip-hop e a Coca-Cola. Em nome da preservação da "diversidade cultural", portanto, seria necessário tolerar, e até aceitar, práticas que, aos olhos ocidentais, seriam reprováveis ou repulsivas, mas que fazem parte da paisagem local. Diante disso, a democracia seria um valor relativo, não universal. A esse discurso culturalmente relativista, muito caro a alguns antropólogos, e que se tornou uma espécie de dogma a partir dos anos 90, batizaram de multiculturalismo.

A idéia por trás da visão multiculturalista, segundo a qual o respeito à diversidade exige a relativização da democracia e dos direitos humanos, é uma falácia. Democracia e direitos humanos não são um simples dado cultural, como um prato típico ou uma vestimenta - são um princípio da civilização. Inversamente, a teocracia ou o totalitarismo não são alternativas à democracia e aos direitos humanos - são sua negação completa e radical.

Há tempos os multiculturalistas já ultrapassaram a linha tênue existente entre o respeito à diversidade e a justificação de práticas bárbaras e criminosas. O fascínio pelo "outro", defendido primeiramente por Montaigne e Rousseau, já degenerou há muito em justificação da barbárie. É isso o que demonstra a atitude relativista em relação ao terrorismo e às violações aos direitos humanos em países da Ásia e da África. Práticas como a mutilação genital de meninas e o infanticídio - ainda praticado em algumas tribos indígenas brasileiras, e tolerado e até defendido por alguns antropólogos tarados -, assim como o incesto e o canibalismo, são inaceitáveis, no mundo em que vivemos, não porque sejam algo estranho aos olhos ocidentais, eurocêntricos ou cristãos, mas porque seu banimento é um imperativo do respeito à dignidade humana e um alicerce da vida civilizada. Sem isso, recairíamos na barbárie mais completa, regressaríamos aos tempos das cavernas, deixaríamos a posição ereta e comeríamos carne crua. No limite, o discurso relativista pode ser utilizado - como de fato é - para justificar os atentados com homens-bomba de organizações terroristas islamitas como a Al-Qaeda e o Hizbollah, pois, afinal, faz parte do Islã acreditar na jihad - a guerra santa - e que a recompensa do martírio serão 72 virgens no Paraíso... Isso não tem nada a ver com respeito à diversidade, mas com fanatismo e demência.

O terrorismo islamita é o maior inimigo atual da humanidade, assim como o totalitarismo comunista ou fascista o foram no passado. E isso não porque Bush ou Rice disseram, mas porque a realidade trata de mostrar, todos os dias, que a democracia é superior a qualquer ideologia obscurantista e totalitária. Nenhum outro sistema político garante a liberdade humana. Há algumas semanas, uma manifestante interrompeu um discurso de Bush para chamá-lo de criminoso de guerra, enquanto outro fazia gestos obscenos e o mandava se foder. Alguém consegue vislumbrar cena parecida no Irã ou em Cuba?

O Ocidente é superior ao Oriente não porque o cristianismo seja uma religião melhor do que o Islã ou o budismo, ou porque a moral judaico-cristã seja intrinsecamente mais perfeita do que a moral muçulmana, hindu ou confucionista. Não. O Ocidente é superior porque foi nessa parte do Planeta que as idéias de liberdade e tolerância - inclusive, a liberdade religiosa - surgiram e se consolidaram, tornando-se, em alguns países, um dado da própria cultura. A democracia não é superior à tirania porque é ocidental, mas porque é uma conquista da civilização. Inclusive, foram essas idéias de liberdade e tolerância que estiveram na origem do salto técnico dado pela humanidade nos últimos quinhentos anos, proporcionado pela Reforma religiosa, pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial (e do qual os terroristas se utilizam, importando do Ocidente armas sofisticadas). De certo modo, há uma relação entre os ideais democráticos e a superioridade científica e tecnológica.

A guerra que se trava atualmente entre os EUA e seus inimigos não é uma "guerra ao terror", mas contra o terrorismo islamita e seus aliados. Tampouco é uma guerra entre civilizações, mas entre a civilização e a barbárie, entre a liberdade e a tirania, entre as luzes e o fanatismo, a democracia e a opressão. Essa luta hoje se verifica entre o Ocidente democrático e o terrorismo islamita, mas já foi travada, durante séculos, DENTRO da própria civilização ocidental, na forma da luta contra a Inquisição, o Absolutismo monárquico e, mais recentemente, os totalitarismos do século XX. E, de certa forma, continua sendo travada ainda hoje, na luta pela preservação das liberdades individuais contra qualquer tentativa de tutela ou censura governamental.

Enquanto a guerra ao terrorismo islamita for encarada em termos de "guerra ao terror", e não de defesa dos valores democráticos, e enquanto se colocar a questão em termos de choque civilizacional ou entre religiões, o combate aos inimigos da humanidade será uma disputa infrutífera. A questão não é civilizacional ou religiosa, mas de defesa das conquistas da civilização contra a barbárie, venha de onde vier.

É claro que, nessa luta, não se pode ignorar as óbvias diferenças entre a civilização ocidental, laica, democrática e tolerante, e a islâmica, predominantemente religiosa, autocrática e intolerante. Autores como Bernard Lewis já chamaram a atenção para esse fato, ao apontar que, em toda sua História, o Islã, ao contrário do cristianismo, jamais passou por algo parecido com a Reforma religiosa do século XVI ou com o Renascimento. Obviamente, isso não quer dizer que a cruz é superior ao crescente, ou que a Bíblia, e não o Corão, é a verdadeira Palavra de Deus. Deixo esse debate para os teólogos e religiosos. A verdadeira questão, aqui, é que em uma parte do planeta se estabeleceram as bases para a tolerância religiosa, e em outra, não. E que um Estado laico e secular é infinitamente superior a um Estado teocrático e religioso, seja ele muçulmano, católico ou protestante.

Daí porque a vitória sobre os terroristas islamitas é indissociável da necessidade de reforma no mundo islâmico - reforma democrática, e não "cristianização" ou "ocidentalização", como às vezes se coloca. Uma reforma que teve de ser imposta, nos casos do Afeganistão e do Iraque, na marra, e que não se completará até que o último país árabe ou muçulmano chegue, enfim, ao século XXI. Chamem a isso de imperialismo ou eurocentrismo, rotulem como uma reedição do colonialismo de séculos passados: não faz diferença. O que importa é que, como estão demonstrando aqueles dois países, a democracia, mesmo caótica e frágil, é mil vezes superior a qualquer tirania.

Além disso, a noção de que a democracia e os direitos humanos seriam estranhos à cultura local de povos exóticos encerra, contraditoriamente, uma visão preconceituosa, pois considera os povos árabes e muçulmanos, por exemplo, infensos à liberdade. Esta não é, ao contrário do mantra repetido nos últimos tempos, um valor do "Ocidente", pura e simplesmente, portanto sem aplicação universal. Pelo menos, não é o que demonstram os milhões de imigrantes asiáticos ou africanos que vivem hoje no Ocidente, fugindo da miséria a da falta de liberdade em seus países - e que, inclusive, no caso dos muçulmanos, costumam se segregar em comunidades fechadas, à margem da lei dos países que os acolhem, com o apoio dos arautos da "tolerância" e do "respeito à diversidade".
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Essa não é a única contradição dos chamados multiculturalistas. O duplo padrão adotado no discurso anti-EUA e anti-Ocidente de autores como Tariq Ali e Edward Said é revelado facilmente por alguns fatos prosaicos. Esses senhores, em primeiro lugar, apresentam-se como os campeões da democracia e da liberdade de expressão, sem falar da separação entre a religião e o Estado, insurgindo-se contra qualquer sinal de repressão aos direitos individuais e das minorias nos países que escolheram para morar (EUA, Inglaterra etc.). Mas estão dispostos a tolerar, e até justificar, isso tudo em outros países. Paradoxalmente, os defensores da tolerância no Ocidente saíram em defesa do fundamentalismo islâmico, quando um jornal dinamarquês publicou recentemente algumas caricaturas consideradas ofensivas a Maomé. Não vi nenhum Noam Chomsky ou Tariq Ali postar-se ao lado da democracia e da liberdade de expressão contra essa manifestação explícita de intolerância e fanatismo religioso. Ou seja: defender a tolerância em Nova York ou Londres é fácil. Quero ver fazerem isso em Teerã ou em Damasco.

Esse tipo de atitude não pode ser creditado apenas a uma opção política. É uma questão, também, moral - ou melhor: amoral. Figuras como as acima citadas desfrutam das facilidades e conveniências da democracia em países como os EUA ao mesmo tempo em que as negam para outros povos de culturas e religiões diferentes. Usam, inclusive, o argumento da soberania - um conceito, curiosamente, ocidental - para defender o imobilismo em casos como o do genocídio em Darfur. A pergunta que fica é: trocariam a Big Apple ou Londres por Cabul ou Teerã?

O mesmo discurso esquerdista que anunciou os atentados de 11 de setembro de 2001 naquela palestra sete anos atrás - antiglobalização, antiamericano, antidemocracia e anti-direitos humanos - persiste hoje, na forma de justificação da barbárie terrorista e obscurantista sob o rótulo de "respeito à diversidade". Não se leva em conta que a democracia não é a antítese da diversidade, mas sua garante. É por ter consolidado em suas instituições esse princípio, que o Ocidente é superior.

O filósofo alemão Immanuel Kant definiu como um imperativo categórico moral o seguinte axioma: o que se deseja para si mesmo deve ser o que se deseja para todos, e vice-versa. Querer ser livre mas não desejar o mesmo para a sociedade - ou outros povos - não é apenas uma contradição lógica: é um defeito moral. É isso o que se esconde - ou se mostra - por trás do discurso relativista aplicado ao terrorismo e às ditaduras: cumplicidade com o terror e a barbárie, travestida de respeito ao "diferente". A justificação do fanatismo, em nome da tolerância. Um perfeito contra-senso.

quinta-feira, agosto 21, 2008

PENSANDO "REVOLUCIONARIAMENTE" (OU: COMO SE TRANSFORMAR NUM ZUMBI AMESTRADO)

Tenho o costume, nas horas vagas, de vasculhar a internet em busca de conhecidos e amigos. Numa dessas buscas, esbarrei num texto de um conhecido meu, com quem aliás já troquei correspondência aqui (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/11/dilogo-entre-um-revolucionrio-de.html). Ele, inclusive, para minha frustração, pediu-me que eu não o escrevesse mais... Mas, fazer o quê?, não consigo resistir à tentação. Atualmente, ele exerce a função de professor universitário, do curso de Ciências Sociais de uma universidade regional na mesma província onde travamos contato por algum tempo, lá se vão uns bons quinze anos. E desde então tomamos rumos diferentes, tanto profissionalmente quanto, sobretudo, ideologicamente. Enfim, como se vê por sua recusa em debater comigo, um cara democraticamente aberto ao monólogo, esse meu ex-camarada.

O texto foi postado por ele em um fórum de discussões que mantém com alguns colegas e estudantes. É de 21 de fevereiro deste ano, e o título é "Cuba não é socialista". Dei-me ao trabalho de ler até o final. O estilo é obtuso e as idéias... bem, as idéias dispensam comentários, como vocês poderão ver. Mas eu comento assim mesmo, pois, apesar de tudo, eu insisto em tentar dialogar com esse pessoal. Nessas horas, tenho que me esforçar para ficar sério e conter um pouco meu espírito, digamos, galhofeiro. Vamos ao texto, uma pérola de lógica e erudição política.

Logo após fazer a afirmação retumbante, em letras garrafais, que dá título ao texto, a primeira coisa que o autor diz é que "A renúncia de Fidel Castro e sua sucessão por Raul Castro, seu irmão, significa [sic] que a burocracia castrista continua no poder". Quanto a isso, estou de acordo. Mas prestem atenção no que ele diz em seguida: "Significa ainda que ela [a burocracia castrista] dará prosseguimento ao sufocamento das conquistas da Revolução de 1959 e o retorno ao capitalismo". E isso por quê? Ora, porque "o proletariado cubano não conseguiu construir um partido revolucionário que conquistasse a maioria da população trabalhadora cubana para a realização da Revolução Política". Captaram a mensagem?

Calma, tem mais. Segundo nosso amigo, a que se destinaria essa "revolução política", necessária para construir um "partido revolucionário" que derrubasse a "burocracia castrista" e revertesse o processo de "retorno do capitalismo" na ilha de Cuba? Simples, muito simples. Ele mesmo explica: "A Revolução Política manteria as conquistas econômicas da Revolução de 1959", diz. E de quais conquistas ele está falando? Vamos a elas: "fim da grande propriedade privada dos meios de produção, a propriedade capitalista e, conseqüentemente da burguesia". Mais ainda: "o monopólio do comércio exterior pelo Estado; e a planificação da economia". Claro que todas essas "conquistas", e isso o texto não diz, se fizeram graças aos confiscos de Fidel Castro, ao empobrecimento geral da população, à dependência econômica do país da defunta URSS e - ah, claro, como eu poderia esquecer esse detalhe? - alguns milhares de burgueses contra-revolucionários executados no paredón... Aliás, este último também uma das "conquistas" da revolução, como ele diz, assim como devem ter sido a guilhotina e o Gulag. O fim da burguesia, o extermínio de uma classe social inteira, no melhor estilo leninista. Adiante.

Nosso amigo continua cantando as maravilhas da propalada "revolução política": "Além disso, traria a democracia política permitindo a liberdade de organização, reunião e manifestação política para os trabalhadores que respeitassem as conquistas econômicas da Revolução de 59, mas que divergissem sobre os caminhos políticos a traçar em Cuba". Viram que bonitinho? A "revolução" traria a "democracia política", que legal... Mas - vejam bem - não se trata da democracia de fachada capitalista não, essa do voto livre e do estado de direito! Afinal, essas coisas, como sabemos, não passam de ilusões burguesas dos veadinhos liberais, não é mesmo? Nada disso. Seria uma democracia dos e para os trabalhadores, e somente para aqueles que respeitem as "conquistas econômicas da Revolução de 59", como ele diz. Ou seja: somente para aqueles que disserem amém para o que Fidel e Raúl fizeram na ilha há quase 50 anos, e de que eu falei agora há pouco. E quanto àqueles que não se conformassem a essa situação, que insistissem em não seguir a coletividade e em, digamos, tocar uma birosca ou um carrinho de cachorro-quente na esquina? Para esses, infelizmente, só haveria duas saídas: uma bala na nuca, ou o exílio. A democracia de que fala nosso camarada, a "verdadeira" democracia, é a democracia dos trabalhadores, um "governo operário e camponês". Ou, para falar com todas as letras: a ditadura do proletariado. Adiante.

"A Revolução Política vitoriosa poria um fim ao retorno ao capitalismo implementado pela burocracia castrista em Cuba. A instalação da democracia, [em] que tanto tem esperança a burguesia com a renúncia de Fidel Castro e que tanto alardeia [sic] seus meios de comunicação refere-se à liberdade para a acumulação de capital pela propriedade privada capitalista e o direito à liberdadede organização política da burguesia para defender abertamente o retorno ao capitalismo. A burguesia refere-se a democracia como sinônimo de capitalismo: liberdade de comércio (economia) e liberdade política (disputa pelo controle do governo do Estado)".

Viram que graça? "Que mané democracia o quê! Isso não passa de um truque da burguesia para continuar lucrando e tal", é o que diz nosso oráculo. Ou, melhor dizendo, um "sinônimo de capitalismo"... No que eu quase concordo com nosso amigo. Sim, porque, como sabemos, coisas como liberdade de expressão - inclusive para pregar o fim da democracia -, de associação e de reunião são realmente incompatíveis com qualquer outro sistema econômico que não seja o capitalismo. Pelo menos, não parecem combinar muito com o tipo de sistema que os bolcheviques implantaram na Rússia em 1917, ou que os comunistas impuseram na China em 1949, ou em Cuba dez anos depois. Aliás, já escrevi em outro lugar que nem sempre pode haver capitalismo com democracia, como no caso do Chile dos tempos do Pinochet, mas nunca - nunca mesmo - houve um caso de democracia SEM capitalismo, sem economia de mercado e livre iniciativa. Pois é. O capitalismo pode até não ser sinônimo de democracia, mas não estou muito seguro de que a recíproca é verdadeira...

O resto do texto, como vocês já devem ter percebido, é uma ladainha só, vou poupá-los de transcrevê-lo aqui. Vai uma pequena amostra da cantilena que segue: "Cuba não é e nunca foi socialista", porque, afinal, "O socialismo, primeira fase do comunismo, é um modo de produção superior ao capitalismo", e "nenhum país consegue alcançar o socialismo (primeira fase do comunismo, fase inferior) sozinho", "O socialismo em um só país é impossível" etc. Há outros textos dele no fórum, sempre na mesma linha. Alguns, criticando a direção da UNE (leia-se: PCdoB), por não ser suficientemente revolucionária... Um delírio só.

Agora que vocês já foram apresentados a esse pensamento superior, creio que cabem algumas observações. Para nosso amigo, não existe qualquer contradição em dizer que Cuba não é socialista e falar, logo depois, na necessidade de impedir a "volta do capitalismo" na ilha, que estaria sendo realizada pela "burocracia castrista". Mas, se Cuba não é socialista, o que seria então? Ele não especifica, mas, como eu já o conheço de outros carnavais, e inclusive já batemos altos papos sobre o assunto, eu posso dizer: Cuba é um "Estado operário burocraticamente degenerado", como foram todos os outros Estados que se intitulavam repúblicas socialistas ou populares. Quem criou essa tese? Leon Trotsky, um dos pais fundadores da finada URSS. O autor do texto é trotskista. Os trotskistas, como já afirmei aqui, são os sebastianistas da esquerda. Ao contrário de seus rivais stalinistas e reformistas, não reconhecem a antiga URSS, ou Cuba, como países socialistas. Desse modo, mantêm viva a chama da ilusão marxista, esperando o dia em que, finalmente, virá a tão sonhada revolução... Uma posição muito cômoda, certamente. É como se dissessem para si mesmos, todos os dias: "Vamos tomar o poder, fuzilar uns quantos, destruir a oposição e planificar tudo. Se não der certo, se o resultado for não o reino da liberdade e da felicidade humana, mas uma distopia de 100 milhões de mortos, a gente diz que não era socialismo, e pronto. Aí começamos tudo de novo". E assim indefinidamente, ad infinitum, até que a realidade acabe com essa sua mania irritante de contrariar nossos sonhos e resolva se curvar à superioridade de nossas idéias...

Algo muito honesto, como se vê. O comunismo, no século XX, deixou "apenas" cem milhões de mortos. Mas, para eles, os trotskistas, isso não importa muito. O que realmente importa não foram os mortos em si - Trotsky foi responsável por alguns massacres, antes de ter sido, ele mesmo, vítima da máquina totalitária que ajudou a criar -, mas o fato de que os regimes que produziram essas pilhas de cadáveres não teriam sido, segundo os seguidores de Trotsky, genuinamente socialistas. Mais pragmáticos, os stalinistas, com a ajuda de seus aliados reformistas, sonham em voltar no tempo e restabelecer o que foi implantado na Rússia sob Lênin e Stálin. Os trotskistas, mais idealistas, querem fazer o mesmo, só que para estabelecer não o que foi, mas o que poderia ter sido... Alguém aí está disposto a comprar essa idéia maravilhosa?

Claro está que quem escreveu o texto que eu reproduzi acima não está dando a mínima para o que ocorre na ilha de Fidel e Raúl, nem para a História de Cuba e da Revolução Cubana. Desconfio até que seu conhecimento sobre Cuba não vai além de saber o nome da capital do país - e olhe lá. Para ele, o regime castrista e a Revolução Cubana são apenas uma desculpa para fazer proselitismo revolucionário e tentar angariar alguns recrutas para a sagrada causa da revolução proletária. Os fatos, bem, os fatos que se danem!... Adiantaria lembrar, por exemplo, que Cuba tinha o 3. nível de vida das Américas antes da gloriosa revolução de 1959, e que hoje ostenta o 29. lugar nesse quesito, estando atrás apenas do Haiti? Ou que Fidel enganou a todos, inclusive os EUA, dizendo-se um democrata e anticomunista apenas para entregar o país de bandeja nas mãos da antiga URSS e consolidar seu poder pessoal, usando, para isso, os comunistas da ilha como tropa de choque? Valeria a pena dizer que o "proletariado cubano", seja lá o que isso significa, já fez e faz, há tempos, sua "revolução política", VOTANDO COM OS PÉS, ou seja, fugindo na primeira oportunidade da ilha-prisão? Claro que não. O importante para nosso aprendiz de Trotsky tupiniquim não é analisar a realidade do país em questão, mas - única e tão-somente - adaptar a realidade da ilha a um esquema ideológico pré-montado. Um esquema muito bonitinho, muito certinho, aplicável a qualquer país, em qualquer época e lugar.

É isso que me chamou mais a atenção no texto. Não há nada que mereça ser chamado ali, mesmo remotamente, de análise. Trata-se de uma visão esquematizada, que pode ser resumida em alguns chavões ou idéias-feitas. Troque Cuba, por exemplo, por China ou Coréia do Norte e o texto será, sem tirar nem pôr, exatamente o mesmo. Substitua "Revolução de 59" por "Revolução de 17" (no caso da Rússia) ou "Revolução de 49" (no caso da China) e não fará qualquer diferença. Mude burocracia "castrista" por "stalinista" ou "maoísta" e dará tudo no mesmo. O resto é só encaixar, como naqueles jogos infantis de montar: coloque um "revolução política" aqui, um "impedir a restauração do capitalismo" acolá, e - voilá! - está pronto um autêntico texto revolucionário socialista. Um modelo, em outras palavras, que se aplica a qualquer situação - um socialismo, se preferirem, multiuso, prét-à-porter.

Aliás, não se pode dizer sequer que o texto é de autoria dele, de meu conhecido. Mas se for, não me surpreenderia nem um pouco. Uma das características do que se convencionou chamar de "pensamento" esquerdista - e agora me refiro tanto aos trotskistas quanto aos demais - é a aplicação de modelos esquematizados como o descrito acima, sem a necessidade de raciocínios mais elaborados. O resultado disso é um processo psicológico de perda da personalidade e da individualidade, aquilo que Gilberto Freyre chamou certa vez de "ditadura do slogan": livres da obrigação de pensar por si mesmos, com suas próprias cabeças, os militantes de esquerda, assim como seus primos totalitários nazistas e fascistas, passam a se comportar como verdadeiros robôs ou zumbis, substituindo o debate pela repetição mecânica de palavras de ordem decoradas de algum manual ou cartilha. Esse processo de idiotização voluntária culmina no fenômeno dos manifestos e outros textos coletivos, nos quais os esquerdistas procuram compensar, pela força do número, a fragilidade de suas idéias. O importante, para eles, não é o exercício do livre pensamento, o qual só pode realizar-se na esfera privada, individual, até porque já renunciaram a isso faz tempo, em nome do fetiche do "coletivo". De certa forma, trata-se de uma regressão mental, da substituição da mentalidade racional pelo pensamento mágico. Assim como os antigos alquimistas, que acreditavam poder transformar chumbo em ouro pela simples enunciação de fórmulas e palavras secretas, os nossos revolucionários socialistas de hoje pensam ser capazes de mudar o mundo com a simples repetição de esquemas e slogans marxistas. Afinal, se o marxismo é mesmo a Verdade Revelada, se Marx e Lênin já resolveram todos os problemas, bastando apenas retornar à pureza dessa fonte original, para que perder tempo com outras leituras? Para que pensar?

Essa perda da individualidade está na base do protótipo ideal do revolucionário, o "homem do futuro". Sua característica principal é a anulação do "eu", a total despersonalização do indivíduo, em nome da "revolução". Isso se reflete nos textos saídos dos cérebros esquerdistas. Lembro que, quando eu militava num desses grupúsculos trotskistas, ao lado, aliás, do autor do texto comentado acima, tinha uma grande dificuldade em usar a primeira pessoa do singular. Imbuído dos velhos preconceitos marxistas, rotulava os textos escritos com o pronome pessoal como subjetivistas, e achava que eles não tinham nenhum valor por causa disso. Soube depois que muitos escritores que militaram em partidos comunistas, como Graciliano Ramos, tinham essa mesma dificuldade. O uso do "eu" estava proibido, o Partido o desencorajava. Só valia o que tivesse a chancela da objetividade revolucionária, que se confundia com o "coletivo". Antes, eu desconfiava de qualquer texto que visse escrito na primeira pessoa do singular. Hoje, só dou valor aos que têm a marca do autor, e não se escondem atrás de pretensas objetividades pseudocientíficas.

Sei que tudo isso que escrevi pode parecer bobagem para muita gente. Afinal, os trotskistas, no Brasil, não encheriam metade de uma Kombi. Tanto que tentam fazer propaganda política até por e-mail. Numa fauna já por si exótica, eles são os mais exóticos de todos, os mais intrigantes e esquisitos, folclóricos até. Sei disso, até porque já fui um deles. Mas a questão não é essa. Irrelevantes que sejam os militantes desse credo obsoleto, o fenômeno que descrevi aí em cima é algo grave - uma verdadeira doença mental. A recusa voluntária a pensar, o ato de escrever mecanicamente segundo um esquema pré-estabelecido, sem qualquer esforço intelectual digno do nome, é algo que demonstra até que ponto a ideologia esquerdista conduz a uma espécie de entorpecimento cerebral, à anulação completa de qualquer possibilidade de pensamento crítico e racional. Sem falar na perversão da linguagem para fins políticos, como denunciou George Orwell. Um caso clínico, para dizer o mínimo.
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Certa vez li uma definição de esquerdista que achei ótima. É assim: um esquerdista é um sujeito que, quando adolescente, pensa e se comporta como um velho e que, quando velho, pensa e se comporta como um adolescente. Um adolescente completamente robotizado e idiotizado. Um verdadeiro zumbi amestrado. É de dar pena.

quarta-feira, agosto 20, 2008

FORMANDO AS FUTURAS GERAÇÕES


A VEJA desta semana trouxe matéria de capa em que mostra as mazelas da educação brasileira. Eu recomendo que dêem uma olhada. O texto se baseia em pesquisa recentemente divulgada da CNT/Sensus, que revela onde está o verdadeiro nó da questão. O problema não está, como a maioria esmagadora dos professores gosta de se lamuriar, na suposta falta de verbas do governo, ou nos baixos salários dos professores, mas no conteúdo das aulas. Segundo a pesquisa, para a maioria dos professores de escolas públicas e privadas, o importante não é ensinar as matérias ou preparar profissionalmente o aluno, mas "formar cidadãos", "conscientizar política e socialmente" etc.

Cada vez entendo mais por que a esquerda brasileira elegeu a VEJA como sua maior inimiga, e porque tantos esquerdóides, esquerdopatas e esquerdiotas estufam o peito e dizem orgulhar-se de não a lerem - preferem, certamente, jóias da honestidade intelectual e da imparcialidade jornalística como a Caros Amigos e a Carta Capital. A repulsa deles pela revista dos Civita só não é maior do que sua recusa em refutar, com argumentos e não grunhidos, o conteúdo de suas matérias. Na extensa reportagem, VEJA demonstra como as escolas brasileiras viraram verdadeiras madraçais do pensamento único esquerdista, nas quais professores desqualificados para a vida dedicam-se não a ensinar História ou Geografia, mas à doutrinação ideológica e ao proselitismo mais primário, baseados no marxismo mais pedestre e vagabundo. Os valentes inculcam em crianças de 14 anos, entre outras preciosidades, o ódio ao capitalismo e às máquinas - coisa que nem mesmo Marx defendia -, apresentando, em contrapartida, os regimes comunistas de Cuba e da ex-URSS como paradigmas de "igualdade" e "justiça". Quando muito, os mestres se limitam a tentar ser "isentos" em relação ao capitalismo e ao socialismo, mostrando os lados "positivos" e "negativos" de cada sistema. Como se defender ou não a democracia - algo incompatível com o comunismo, sob qualquer de suas formas - dissesse respeito não a uma conquista da humanidade e da civilização, mas fosse um simples ponto de vista, uma questão de gosto pessoal. E chamam a isso de "formar cidadãos" e de instilar nos alunos uma "consciência crítica" da realidade...

Não admira que, na pesquisa em que se baseia a revista, a maioria dos estudantes tenha se declarado simpática a figuras como Lula e Hugo Chávez, e nenhum - zero por cento! - tenha colocado qualquer objeção a Che Guevara. Para a quase totalidade dos estudantes de ensino médio no Brasil - e nem falo aqui dos universitários -, o guerrilheiro argentino-cubano, que adorava fuzilar prisioneiros indefesos, foi um homem admirável, assim como o Apedeuta e o bufão venezuelano. A revista apresenta uma relação com absurdos retirados de livros didáticos, a maioria de História, e sua análise crítica por especialistas. A conclusão é unânime: em todos os textos analisados, ensina-se não História, mas ideologia - anticapitalista, antiglobalização, anti-propriedade privada, antidemocracia. Algo digno da Universidade Mao Tsé-tung do MST. O pior de tudo é que a maioria dos pais de alunos acha isso tudo perfeitamente normal, não vê nenhuma gravidade em seus filhos serem doutrinados e molestados dessa maneira. Também, pudera: eles já estiveram onde seus filhos estão hoje, tendo sido, também, vítimas dessa lavagem cerebral em seus tempos de estudante. Não conhecem outra forma de "educação".

Nada disso me surpreendeu. Como já escrevi aqui, já fui professor, e nunca vi nada nas aulas de História ou Geografia que não fosse pura propaganda, às vezes explícita, às vezes disfarçada, das teses marxistas. De fato, o que tem havido nas escolas brasileiras, há décadas, nada mais é do que uma gigantesca lavagem cerebral, um entorpecimento em massa de cérebros em nome da ideologia. O mais grave: de mentes ainda incapazes de pensar por si próprias sobre o mínimo que seja. Uma vez, ensinando em uma escola - era parte do currículo universitário passar uma temporada lecionando na rede pública de ensino -, fiz uma pequena preleção aos alunos sobre a importância da leitura. Terminei minha aula com um velho bordão, que julgava neutro: "conhecimento é poder". Foi então que uma das alunas presentes, que passara o tempo todo penteando os cabelos, arregalou os olhos e saiu-se com a seguinte pérola: "professor, o senhor é petista!"... Quando, já na universidade, eu tentei romper com essa camisa-de-força ideológica, induzindo os alunos a pensarem por si próprios e não a engolir slogans como se fossem verdades reveladas, minha decepção não foi maior. Por pouco, não fui agredido fisicamente. Como não tenho vocação para mártir, mesmo que de uma causa justa, pus minha viola no saco e procurei outra profissão.

Outro dia fiquei sabendo que o MEC quer reintroduzir, no currículo escolar, as matérias de filosofia e sociologia. O atual titular do MEC é Fernando Haddad, um especialista em marxismo. É claro que isso será mais um passo no caminho da ideologização, e não da melhoria da qualidade, do ensino. O que se chama, vulgarmente, de "filosofia" e "sociologia", nas universidades brasileiras, nada mais é do que uma vulgata de conceitos marxistas, mastigados e reduzidos a slogans e idéias feitas facilmente assimiláveis. Imaginem o estrago que isso vai causar em cabecinhas que mal saíram das fraudas. Entre uma partida e outra no playstation, aprenderão os conceitos elementares da luta de classes e as virtudes redentoras do socialismo. Vai ser um prato cheio para os molestadores juvenis travestidos de professores que pululam por aí, como o famoso Carlão, aquele que, num vídeo que virou hit na internet, fez até coreografia "em homenagem" às vítimas do 11 de setembro... Os alunos sairão do ensino médio craques em Marx e em Che Guevara, mas sem a menor noção, ou mesmo o mais mínimo conhecimento, do pensamento de Aristóteles ou S. Tomás de Aquino, ou das teorias de Weber e Durkheim. Muitos deles, certamente inspirados no exemplo edificante de nosso querido presidente, para quem ler é algo tão chato quanto andar de esteira, vão sair dos bancos escolares sem saber sequer as regras mais elementares da Gramática. Perfeitos militantes para o PT ou o PCdoB, preparadíssimos para o século XIX.

Já nos acostumamos, até por força do hábito, a nos queixarmos da falta de recursos financeiros e a exigir maiores salários para os professores, como se essa fosse a solução para os problemas da educação no Brasil. Mas ninguém se importa com o que está sendo ensinado nas salas de aula. Não admira que, com essa, digamos, proposta pedagógica, o Brasil esteja sempre entre os últimos lugares do mundo no quesito qualidade da educação. Depois reclamam que só levamos bomba.

SOCIALISMO E DEGRADAÇÃO


Segue texto do blog "Generación Y", de Yoani Sánchez. Impecável. Para quem ainda tem ilusões na socialismo cubano - ou norte-coreano, ou chinês - ou acredita na possibilidade de "isenção" entre o fuzil e o peito, a corda e o pescoço. Um retrato de como o totalitarismo leva ao cinismo e à degradação humana.

A CORRUPÇÃO DA SOBREVIVÊNCIA

Tem 28 anos e trabalha na piscina de um hotel, porque seu padrasto lhe comprou um emprego no turismo. Seu domínio do inglês é sofrível, mas com os dois mil pesos conversíveis que pagou ao administrador, não foi necessário fazer a prova de idiomas. Mais da metade das garrafas de rum e coca-cola que vende no snackbar ele mesmo comprou a preço de mercado minorista. Os colegas o ensinaram a priorizar a venda de sua "mercadoria" por cima do que o Estado destina aos turistas. Graças a esse truque, embolsa em cada turno de trabalho o que ganharia um neurocirurgião em um mês.

Seu ritmo de gastos se apóia nos lucros ilegais, então trata de cumprir e não desentoar no plano da "incondicionalidade ideológica". É um dos primeiros que chega quando convocam a uma marcha ou ao desfile do primeiro de maio. Entre suas roupas guarda, para quando faça falta, um pulóver alusivo aos cinco heróis, outro com o rosto de Che Guevara e um, intensamente vermelho, que diz "Batalha de Idéias". Se seu chefe tenta surpreendê-lo no desvio de recursos, veste uma dessas camisetas e a pressão diminui.

Com seus poucos anos, já compreendeu que não importa quantas vezes cruzas a linha da ilegalidade, sempre que te mantenhas aplaudindo. Umas consignas gritadas em um ato político, ou aquela vez que denunciou um "grupúsculo" contra-revolucionário, lhe ajudaram a conservar tão lucrativo emprego. Suas mãos, que hoje roubam, enganam os clientes e desviam mercadorias estatais, assinaram - há quase seis anos - uma emenda constitucional para que o sistema fosse "irreversível". Para ele, se lhe deixam continuar enchendo os bolsos, o socialismo bem poderia ser eterno.
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(Tradução livre do espanhol pelo autor do blog)

segunda-feira, agosto 18, 2008

BESTEIROL OLÍMPICO


Os Jogos Olímpicos de Pequim passarão à História não tanto pelos recordes quebrados, pelas medalhas de Michael Phelps ou por qualquer outra façanha esportiva, mas pelo ambiente geral de farsa que tomou conta de tudo e de todos. Desde a cerimônia de abertura - um show de pirotecnia que teve até cantora-mirim dublada por outra criança, mais feinha, e que, em matéria de genuinidade, foi algo realmente "made in China", não tendo deixado nada a dever aos antigos shows rebolados das mulatas de Sargentelli -, o que se tem visto em Pequim é um festival de charlatanice nacionalista. Para nós, brazucas, o evento servirá para que mostremos ao mundo, junto com as (poucas) medalhas conquistadas, todo nosso ufanismo, todo nosso espírito patrioteiro, nosso provincianismo incurável e nossa alegre caipirice. Nesses quesitos, somos recordistas. Dá-lhe Brasil!

Mal começou a contagem de medalhas, a turma do "eu te amo meu Brasil, eu te amo" e do "ninguém segura este País" - ou seja, dez entre dez brasileiros, nestes dias - tratou logo de implicar com a forma como as emissoras de TV dos EUA estão transmitindo o quadro de classificação dos países por medalhas nos Jogos, a qual adota como critério não o número de medalhas de ouro, mas o total conquistado. Pela quantidade de medalhas de ouro que o país obteve - critério da organização dos Jogos e do Comitê Olímpico Internacional -, a China está vencendo de lavada. Pelo número total de medalhas, incluindo aí as de prata e bronze, os EUA estão ganhando. Foi o suficiente para que comentaristas brasileiros, que não perdem a chance de falar mal dos EUA não importa por que motivo for, denunciassem mais essa manobra dos gringos imperialistas. Arnaldo Jabor, por exemplo, chegou a comparar o critério adotado pelas emissoras americanas com a eleição de Bush em 2000, aquela que dizem que foi roubada. Do mesmo modo como os bocós esquerdistas torciam antigamente para a ex-URSS, ele chegou a torcer, inclusive, para que em breve o PIB da China supere o dos EUA, pois assim, quem sabe, esses ianques arrogantes vão conhecer o seu lugar... Para atacar o Jorjibúshi, vale tudo, até lembrar o resultado de uma eleição de oito anos atrás (reafirmado, aliás, quatro anos depois). Que malandros esses gringos, e que patrioteiros!, foi o que se ouviu dizer nesses últimos dias.

Quase ninguém viu, ou melhor, quase ninguém se importou, com o fato de que, na "nossa" contagem, a manipulação dos números - ou, pelo menos, da imagem televisiva - falou bem mais alto. A cobertura dos Jogos pela imprensa brasileira, até o momento, tem-se limitado a mostrar os três ou quatro primeiros colocados em número de medalhas, seguidos, imediatamente, do Brasil. Um telespectador menos informado, ou mais distraído - a quase totalidade dos telespectadores -, ao ver de relance o quadro de medalhas mostrado na TV pelos repórteres da Globo ou da Band, teria a nítida impressão de que o Brasil está na elite das potências esportivas, e não, como de fato ocorre, na rabeira, atrás de países como Zimbábue e Jamaica. Chegaria à conclusão de que o Brasil não estaria na trigésima oitava colocação na classificação geral de medalhas - segundo a contagem mais atualizada -, mas sim em quarto ou quinto lugar. Não sendo possível competir com China e EUA, nem tendo medalhas suficientes para manipular o quadro geral, o Brasil foi elevado, por essa malandragem estatístico-televisiva, à condição de quase-potência olímpica. Tudo pela auto-estima nacional.

As Olimpíadas, em termos de patriotada, só perdem, entre nós, para a Copa do Mundo. Isso é demonstrado, de forma literalmente lacrimosa, pelas lágrimas de nossos atletas. Brasileiro adora chorar. Chora na derrota, como choraram o ginasta Diego Hipólito e o judoca que por pouco perdeu o bronze. Chora na vitória, como o nadador César Cielo ao ouvir o hino nacional. Chora ao ouvir o Galvão Bueno se esgoelando e agredindo nossos tímpanos com suas transmissões ufanistas. Tudo em nome do oba-oba. Brasileiro chora, desconfio, até se ganhar medalha em campeonato de origami ou de futebol de botão. Assim como chora, de tristeza, por não ter correspondido à expectativa geral. É muita emoção, como diz o Galvão Bueno, com os atletas ganhadores agradecendo o apoio "do País" e de suas famílias, e os perdedores se desculpando, envergonhados, por terem decepcionado a todos. Também pudera: ali estão os atletas, os "representantes da nação".

Aí é que está. Não há nada do que se envergonhar, nem do que se orgulhar, "perante a nação", por ter perdido ou ganho uma medalha olímpica. Isso porque os atletas, medalhistas ou não, não são "representantes da nação" coisa nenhuma. Ninguém os elegeu. Eles são, isso sim, representantes de si mesmos, no máximo de seus clubes, se têm algum. Suas conquistas, por conseguinte, não são "da nação", como não é "da nação", mas da humanidade, um, digamos, Prêmio Nobel. São conquistas deles, individuais. No máximo, conquistas da equipe, no caso de esportes coletivos. É esse o verdadeiro espírito olímpico, aliás. As Olimpíadas, vamos lembrar, surgiram na Grécia antiga para celebrar o "mais rápido, mais alto, mais forte", para enaltecer o corpo humano e o indivíduo, sua capacidade de superar os limites físicos, e não para servir de pretexto ao ufanismo de qualquer nação. Quem deve ser celebrado e louvado não são os povos, nem muito menos os governos: são os atletas, que se esforçam e dedicam suas vidas ao esporte. É a eles, e a mais ninguém, que pertence a glória olímpica.

Esse fato tão evidente, tão elementar, é constantemente esquecido ou negado pelos comentaristas esportivos brasileiros, que, por serem brasileiros, adoram um oba-oba, vestindo a camisa da "coletividade". Outro dia, vendo uma dessas invenções tipicamente nacionais que é a mesa-redonda, ouvi um dos comentaristas reclamar, pela milionésima vez, da falta de apoio das autoridades aos atletas brasileiros como a causa do fraco desempenho do Brasil nas Olimpíadas. No Brasil, o esporte é tratado como uma questão de Estado, como se fôssemos uma Coréia do Norte ou uma ex-Alemanha Oriental. Existe, inclusive, um Ministério dos Esportes, não por acaso ocupado por um militante do PCdoB. O que quase ninguém diz é que Michael Phelps, por exemplo, não é o supercampeão que é por causa de nenhum "apoio das autoridades" dos EUA. Não vi Phelps, aliás, derramando nenhuma lágrima em nenhuma das oito vezes que conquistou a medalha de ouro, nem agradecendo à sua "mãe-que-lhe-deu-tudo" etc. Estava, sim, irradiando felicidade por essa conquista pessoal e de sua equipe, como lhe é de direito. Sem demagogias nacionalisteiras e choradeiras patrióticas. Afinal, ele é um atleta, não um "representante da nação". Além do mais, se dependesse de apoio oficial, o cinema brasileiro, por exemplo, seria o melhor do mundo.

Na realidade, as Olimpíadas são uma oportunidade para que extravasemos nosso velho recalque de país-que-quase-chegou-lá. Nelson Rodrigues escreveu que, ao vencer a Copa do Mundo de Futebol em 1958, o Brasil estava exorcizando seu "complexo de vira-latas". Hoje, o Brasil é uma potência futebolística, mas não olímpica. No quesito Olimpíadas, vigora o "complexo de quase-potência", ou, para usar uma figura de linguagem praticamente literal, um "complexo da medalha de bronze". É uma metáfora do Brasil, um país que geralmente passa para as semifinais, mas quase sempre deixa escapar os primeiros lugares. E chora, e chora...

A frustração só não é maior do que a manipulação política do esporte. Já escrevi antes que não acredito em separação entre esporte e política. As vitórias nas Copas do Mundo, o culto quase religioso a um Ayrton Senna - em um esporte popularíssimo como a Fórmula 1... - e, agora, as Olimpíadas de Pequim demonstram de forma clara que tal separação não passa de uma mentira com a qual todos concordamos em acreditar, assim como a lorota de que "o que vale é competir" e "só em estar aqui já é uma vitória". Bobagem, bobagem. Esporte tem tudo a ver com política. Por isso acho as Olimpíadas uma chatice. Por isso estou fugindo da TV nestes dias. Por isso os Jogos de Pequim são uma farsa. Desde a abertura, com criancinha dublada e show pirotécnico gerado por computador.

quarta-feira, agosto 13, 2008

OS "HERÓIS" DE LULA E A MISTIFICAÇÃO DA HISTÓRIA


Leiam a notícia. Comento a seguir.
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Para Lula, mortos são heróis, e não vítimas

por Fabiana Cimieri e Felipe Werneck
de O Estado de S.Paulo - 13 de agosto de 2008

Sem citar diretamente a polêmica sobre tortura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que estudantes e operários mortos no regime militar devem ser tratados como heróis, e não como vítimas. “Toda vez que falamos dos estudantes e operários que morreram, falamos xingando alguém que os matou. Esse martírio nunca vai acabar se a gente não aprender a transformar os nossos mortos em heróis, não em vítimas”, discursou Lula, em ato durante o qual assinou mensagem encaminhando ao Congresso projeto de lei reconhecendo a responsabilidade do Estado pela destruição da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) e propondo uma indenização à entidade.

Para Lula, o Brasil não tem heróis. “A gente só lembra de Tiradentes. O Brasil tem muitas lutas importantes, mas nós não os cultuamos para dar valor ao que essas pessoas fizeram”, disse. “Imagina se a Frente Sandinista (de Libertação Nacional) ficasse lamentando todos os que (Anastasio) Somoza matou? Imagina se o Fidel Castro ficasse lamentando todos os que o (Fulgencio) Batista matou?”, questionou o presidente.

O terreno na Praia do Flamengo, em que passou a funcionar um estacionamento, foi retomado pela UNE em 2007. A nova sede tem projeto de Oscar Niemeyer. “É importante que a UNE e a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) articulem um projeto de convencimento dos deputados e dos senadores. O dinheiro está no Ministério da Justiça. A gente não pode dar porque senão vão vir muitos processos contra nós”, disse o presidente.

Tembém presente no local, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), foi vaiado por centenas de estudantes e reagiu em seguida, sorridente, ao iniciar seu discurso: “Calma, calma: 2010 ainda está longe”, declarou.

Serra era presidente da UNE em 1.º de abril de 1964, quando a sede da entidade foi incendiada, à noite, depois de ter sido atacada, após o golpe militar. Segundo ele, o prédio foi o principal foco de violência no dia do golpe por causa do “papel que os estudantes tinham na mobilização democrática”.

“A principal característica política da UNE era a defesa da democracia, contra rupturas do processo democrático, viessem de onde vissem, ou golpe de esquerda, ou golpe de direita. A gente vivia em outro País”, disse Serra. Na época, havia cerca de 140 mil estudantes universitários, e hoje o número é no mínimo 40 vezes maior, calculou o governador.

O tucano elogiou o “significado simbólico” do ato assinado ontem. “O prédio foi vítima de um duplo ataque. O segundo foi mais abominável. O primeiro, do incêndio, fez parte da briga do dia do golpe. Não dá para justificar, mas dá para explicar o enfrentamento. Mas o segundo, em 1979, quando a UNE foi demolida, foi uma coisa puramente ranheta e raivosa, porque não havia motivo para se fazer isso.”

Antes do discurso, em entrevista, Serra disse considerar que o momento não é “adequado” para a discussão sobre tortura e anistia. “Em todo caso, tem o Judiciário, ele é que deve interpretar a lei”, disse.

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Comento
Não sei se Lula é um grande cínico que menospreza a inteligência alheia ou se realmente acredita nas besteiras que diz. Sei apenas que distorcer a História para dela se apropriar é um de seus passatempos prediletos. Ele já se comparou - vamos lembrar - a Tiradentes e a Jesus Cristo. Agora deu de criar heróis por decreto, como Deus dando nome às coisas que criava no Gênese. Sei também que ele é esperto, muito esperto. Tão esperto - melhor dizendo: espertalhão - que deixou malandramente seus cães de fila Tarso Genro e Paulo Vanucchi defenderem por semanas a revogação da Lei da Anistia para punir os torturadores da época da ditadura militar - mas não os terroristas de esquerda -, pois, afinal, "tortura não é crime político" (terrorismo, pelo visto, deve ser algum tipo de esporte). Agora, dá a questão por encerrada, pedindo a todos, bem a seu estilo conciliador aprendido nos tempos de sindicato no ABC paulista, que se dêem as mãos e esqueçam essa quizília toda. Ou seja: deixou Tarso e Vanucchi falarem durante meses para ver no que ia dar. Agora que viu que não ia dar certo, deixa-os falando sozinhos. E se sai com uma solução realmente lulista: os mortos pela repressão não foram vítimas, mas "heróis", e pronto. Então tá.

Lula, bem fiel a seu estilo, não dá nome a seus "heróis". Diz apenas que foram "estudantes e operários". É... É bem mais fácil cultuar heróis anônimos do que seres de carne e osso. Bem mais cômodo, certamente, é reverenciar categorias sociais - estudantes, operários, torcedores do Flamengo - do que pessoas com rosto e nome. Gente, por exemplo, como o ex-capitão Carlos Lamarca, a maior figura da luta armada no Brasil nos anos 60 e 70, e que, em seu caminho glorioso rumo ao Panteão da Pátria, ia fuzilando perigosíssimos vigias de banco e estraçalhando a cabeça a coronhadas de ultra-reacionários tenentes da PM capturados e amarrados... Lamarca, aliás, já foi homenageado postumamente com a promoção a general do Exército. Não duvido que dêem, um dia, seu nome a uma rua próxima ao novo prédio da UNE.

Mas, mesmo sem citar nomes, Lula também dá umas dicas de quem são seus heróis. Sua referência aos sandinistas e a Fidel Castro não deixa dúvidas sobre quem eles seriam. Ele menciona os companheiros nicaragüenses e o Coma Andante cubano como exemplos do que fazer com os torturadores - ou com qualquer um que ouse se opor à nova ordem revolucionária. Para Lula, não adianta ficar lamentando os mortos. É preciso, segundo ele, fazer como os sandinistas e Fidel. Os sandinistas, como Daniel Ortega, e o tiranossauro do Caribe realmente não ficaram lamentando seus mortos. Trataram logo de mandar seus adversários, e inclusive ex-aliados, para o paredão. Uns 17 mil, no caso de Cuba, sem contar os que morreram afogados ou devorados por tubarões tentando fugir da ilha. Ortega, aliás, foi quem fez o elogio fúnebre de Manuel Marulanda, o "Tirofijo", chefão das FARC morto alguns meses atrás. São esses os heróis dessa gente.

Eu ficaria calado e não daria a menor pelota para as palavras do Apedeuta e da molecada porralouca da UNE se fosse apenas mais uma demonstração de demagogia e oportunismo lulista numa manifestação de uma entidade insignificante cooptada e presidida por pelegos. Mas simplesmente não consigo compactuar com a mistificação e a falsificação histórica. É algo que, como direi?, está no meu sangue, é um vício de formação - no caso, pode-se dizer, de formação acadêmica, intelectual. A idéia que Lula e seus bajuladores querem transmitir é que os que lutaram contra a ditadura militar, com ou sem armas na mão, eram todos, indistintamente, lutadores pela liberdade e pela democracia. Mais que isso: a própria democracia que temos hoje, segundo essa visão, só teria sido possível porque esses "heróis", os heróis de Lula - como Carlos Lamarca -, pegaram em armas para restaurar as liberdades democráticas no Brasil. Com isso, criam dois mitos poderosos, que até hoje norteiam (ou desnorteiam) muitas cabecinhas esquerdistas pelo Brasil afora: que a luta armada foi, no fundo, uma luta democrática e que eles, os lulistas e seus aliados, são os "pais" da democracia "neste país".

Ambas as idéias são falsas, como já escrevi aqui. Não vou me estender muito sobre isso desta vez. Basta lembrar o que eles não dizem: que a luta armada precede em muito o AI-5, em 1968, e mesmo o próprio ano de 1964, tendo sido, portanto, não uma luta pela democracia, mas pelo estabelecimento, nestas terras, de uma ditadura totalitária, provavelmente socialista, como a Cuba de Fidel Castro. E que, nessa luta, os terroristas ("guerrilheiros", segundo a novilíngua esquerdista e politicamente correta) lançaram mão da violência, inclusive contra pessoas inocentes. E isso tanto depois quanto antes de 1964.
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"Mas os que foram perseguidos pela repressão já foram punidos; os torturadores, não", li outro dia num artigo de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo. Sim, e daí? Nem todos os que foram perseguidos, e inclusive praticaram assaltos e atentados, foram punidos. E, mesmo que tivessem sido, que tipo de punição deve receber quem assalta bancos, seqüestra e explode bombas, em qualquer regime político? Além disso, só porque os que os caçaram não sofreram punição, isso é motivo suficiente para querer mudar a Lei?

E Serra, heim? Muita gente estranhou a presença dele no convescote lulista-estudantil. Não admira, visto que a UNE hoje nada mais é do que um aparelho do PCdoB e uma caixa de ressonância do governo lulista, logo uma claque anti-tucana. Bom, não sou tucano, assim como não sou lulista, então posso falar dos dois. Serra, para quem não sabe, era quem presidia a UNE quando do contragolpe de 1964. Daí sua afirmação louvando o "papel dos estudantes na mobilização democrática" do período.
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Novamente, uma falsidade histórica. A UNE - uma inutilidade que, hoje em dia, serve apenas para desviar dinheiro de carteiras de estudante e aplaudir o Lula -, era, no Brasil pré-64, uma das entidades, como o CGT e o PUA, que puxavam o coro da revolução social, usando como pretexto as tais "reformas de base" do governo João Goulart. Já está sobejamente demonstrado, mas quase ninguém parece dar importância, que a idéia de que os militares deram o golpe em 64 para acabar com um governo democrático é uma balela. Jango pretendia, com o apoio dos sindicatos, dos militares subalternos e dos estudantes, desfechar um golpe para afastar a oposição e manter-se no poder, instituindo uma espécie de República sindicalista. Não foi por outro motivo que ele tentou, sem sucesso, impor o estado de sítio no país, em outubro de 1963. Se havia alguém que defendia a democracia, não era o governo, nem os militares. Quando estes finalmente derrubaram Jango e tomaram o poder, não havia ninguém que defendesse a democracia, ela já estava morta: faltava somente enterrá-la. A disputa, até então, não foi entre um governo democrático e conspiradores contra a democracia, mas entre golpistas de esquerda e golpistas de direita. Ganharam os de direita. Os de esquerda, inconformados, passaram a se dizer democratas.

O governo Lula e os esquerdistas em geral se apropriaram, há anos, das palavras de ordem democráticas para justificar suas práticas e objetivos antidemocráticos. Agora tentam se apropriar da História. Não há um único documento de nenhuma organização clandestina de esquerda no Brasil dos anos 60 e 70 que defenda, mesmo de forma remota, a democracia como um objetivo a ser alcançado. Mesmo assim, a versão praticamente oficial dos "anos de chumbo" é que o terrorismo não era terrorismo, e que foi inclusive moralmente superior à tortura. Mais: a luta armada, segundo essa visão, era uma luta democrática e a favor dos direitos humanos! Em um vídeo institucional que está sendo veiculado na TV em comemoração pelos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, aparecem imagens de protestos estudantis nos anos 60 e de Oscar Niemeyer, o arquiteto comunista admirador e amigo de Fidel Castro. Não me espanta que seja ele o autor do projeto do novo prédio da UNE. Aliás, não me admira que ele apareça numa propaganda do governo Lula sobre direitos humanos.

Lula disse que infelizmente o Brasil não tem heróis. Agora ele quer criá-los por decreto. A vítima, como sempre, é a História.

terça-feira, agosto 12, 2008

ABAIXO O IMPERIALISMO... DA RÚSSIA!

Tanques soviéticos entram em Praga, Tchecoslováquia, agosto de 1968: exemplo de "bom imperialismo", segundo muitos


Lembram de todos os discursos contra a guerra e pela paz, dos slogans pacifistas, como "não em meu nome" e "dêem uma chance à paz", das marchas e passeatas, das camisetas e caricaturas, das faixas e artigos indignados na imprensa em defesa da soberania dos países fracos e contra o imperialismo? Pois é. Podem esquecer. Podem jogar no lixo. Era - é - tudo conversa fiada, papo furado, lengalenga, mentira, balela, tapeação.

No último dia 8, enquanto o mundo inteiro assistia embevecido à apoteose olímpica em Pequim, a Rússia invadiu a Geórgia, com cujo governo mantém uma disputa antiga pela região da Ossétia do Sul. O.k., você certamente nunca tinha ouvido falar na Ossétia do Sul, nem na Abkházia, nem em Dimitri Medvedev, nem em Mikhail Saakachvili. A maioria das pessoas tem dificuldade até em pronunciar esses nomes, ou em identificar onde fica a Geórgia no mapa, quanto mais em entender as causas desse conflito, que parece tão distante quanto os nomes envolvidos. Apenas à guisa de introdução, basta dizer que as tropas russas invadiram a Geórgia, terra natal de Stálin, supostamente para defender a população da região da Ossétia do Sul, que é majoritariamente russa, de supostas violências por parte do governo da Geórgia. Mas isso é o que menos importa aqui. O que realmente me chamou a atenção, o que de fato merece análise na questão, na opinião deste escrevinhador, é que a guerra na Geórgia revelou, para quem quiser ver e ouvir, aquilo que venho denunciando neste blog há tempos: a hipocrisia, o duplo padrão - político e moral - do pacifismo e do antiimperialismo.

Basta comparar a reação - ou melhor: a falta de reação - da chamada opinião pública mundial quanto à invasão da Geórgia pela Rússia em 2008 com a gritaria geral que correu o mundo todo por causa da invasão do Iraque pelos EUA e pelo Reino Unido cinco anos atrás, em 2003. Desde que os tanques russos entraram na pequena Geórgia, tenho procurado na imprensa algum artigo indignado, alguma denúncia, alguma crítica feroz, de autor brasileiro ou estrangeiro, contra essa inaceitável - e não só porque foi o Bush que disse - agressão imperialista da Rússia no Cáucaso. Em vão. Não vi até agora nenhum artigo indignado, apenas análises das raízes geopolíticas do conflito. Algumas muito boas, aliás. Mas denúncia da ação unilateral e imperialista da Rússia que é bom, nada. Também esperei, até agora, alguma manifestação de massa, algum protesto multitudinário contra essa violação flagrante da soberania de um Estado por uma potência nuclear. Novamente, debalde. Até o momento em que escrevo estas linhas, tudo que se viu foi meia dúzia de gatos pingados (em geral, georgianos ou parentes) protestando, com algumas faixas e cartazes, em frente a alguma embaixada russa nos EUA ou na Europa. Onde estão as marchas gigantescas, as manifestações de protesto no mundo todo, os textos inflamados de Noam Chomsky e Tariq Ali, os discursos de Michael Moore ("shame on you, shame on you"...), os apelos por um boicote a produtos russos etc.? Onde está a defesa do - para lembrarmos uma palavra agora convenientemente esquecida - multipolarismo contra o unilateralismo (russo, não americano)?

É impressionante o contraste entre o tratamento dado, na imprensa, ao imperialismo norte-americano, de Bush e Rice, e ao imperialismo russo, de Putin e Medvedev. Ontem mesmo li um editorial da Folha, datado de 11/08, que aproveitou o gancho para tirar uma lasca não dos dirigentes russos, mas de... Bush! "Bush não tem moral para falar em soberania no caso da Geórgia", lê-se no glorioso jornal paulista, que se orgulha de sua visão "isenta" e "equilibrada"... Sobre os russos, pouca coisa. Nada que se compare, em ênfase e indignação, ao que se disse e se escreveu sobre a invasão do Iraque. Acabo de ler também artigo do tiranossauro Fidel Castro, falando mal - adivinhem! - de Bush e dos EUA, que teriam "estimulado" o governo da Geórgia contra os russos... Desnecessário dizer que Fidel, o antiimperialista, diz amém para o imperialismo da Mãe-Rússia. Muita gente - podem apostar - vai repetir nos próximos dias o que está no editorial da Folha, sem falar nas diatribes do Coma Andante. Afinal, a Geórgia é aliada dos EUA. Mandou, inclusive, soldados para o Afeganistão e o Iraque... Ah, bom.

O pacifismo - e o discurso antiimperialista - não passa de uma desculpa para atacar os EUA. É apenas um pretexto para justificar o antiamericanismo mais tosco e demagógico. É isso o que está demonstrando, de forma eloqüente, a guerra na Geórgia. O conflito poderia ser uma excelente oportunidade de os críticos de Bush e do neoconservadorismo mostrarem que são mesmo a favor da paz e contra o imperialismo, condenando, de forma inequívoca, a ação da Rússia na Geórgia. Mas, em vez disso, o que fazem? Vão às ruas, gritam slogans, queimam a bandeira da Rússia? Nada disso. Silenciam, ou então acenam com a cabeça. Para o imperialismo dos EUA e seus aliados, condenação raivosa. Para o, digamos, imperialismo alheio, indiferença e até apoio explícito.

No conflito da Geórgia, estão presentes todos os elementos que os inimigos de Bush e dos EUA alegaram em 2003 para condenar a invasão anglo-americana e a derrubada de Saddam Hussein: uma guerra desigual e assimétrica (como gosta de dizer o bufão Hugo Chávez - aliás, outro que está, certamente, aplaudindo a ação militar russa) entre uma potência militar, a Rússia, e um país pequeno, a Geórgia; a violação unilateral e ilegal da soberania de outro país etc. Há, também, petróleo - dez em cada dez análises do conflito apontam a disputa pelo óleo e pelo gás do Cáucaso como uma das causas da guerra. E, no entanto, não se vê ninguém falando nisso para condenar a agressão da Rússia! E olhem que Bush tentou, antes da invasão do Iraque, conquistar o apoio da ONU - ainda está fresca na memória a imagem do então Secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, balançando aquele vidrinho na reunião do Conselho de Segurança. Pelo menos, deu-se ao trabalho de organizar uma coalizão. A Rússia, nem isso. Simplesmente mandou os tanques invadirem, e pronto. Sem avisar nem buscar o apoio ou a anuência da comunidade internacional.

As diferenças não páram por aí. Os russos falam que o governo da Geórgia estaria promovendo uma "limpeza étnica" na Ossétia, no que, talvez, tenham até uma dose de razão - o presidente georgiano, Saakachvili, ao que parece, também não é lá flor que se cheire. Mas não é essa a questão. A Rússia ameaça retaliar quem criticou a invasão da Geórgia, como a Polônia - conseguem imaginar o Bush ameaçando quem criticou a invasão do Iraque? Saakachvili, por sua vez, pediu uma trégua, que a Rússia tratou logo de não acatar. Saddam, por sua vez, fez marola até o último instante, contando com a cumplicidade dos pacifistas antiamericanos e com o jogo de gato-e-rato com os inspetores da ONU para tentar dissuadir Bush de invadir. Tudo isso é o suficiente para provocar uma onda mundial de condenação a Moscou. E, no entanto... nada. O que prova que aquela discurseira toda sobre multilateralismo era mesmo conversa para boi dormir.

Sei que alguns dirão que estou tentando, com essas observações, ressuscitar o clima da Guerra Fria, ou coisa do gênero. E talvez tenham razão. Afinal, durante os tempos da URSS o discurso "paz e amor" e "contra o imperialismo" também foi usado e abusado pelos inimigos dos EUA e do Ocidente para justificar o que se passava do outro lado da Cortina de Ferro. Foi assim em 1968, ano que, até hoje, é lembrado mais pela Ofensiva do Tet no Vietnã e pelas passeatas estudantis no Brasil ou na França do que pelo que os soviéticos - os russos de hoje - fizeram na Tchecoslováquia. Foi assim também em 1984, quando a mesma URSS, cheia de indignação pela "invasão imperialista" norte-americana da ilha de Granada, no Caribe, puxou o coro do boicote aos Jogos Olímpicos de Los Angeles, levando muita gente a se esquecer do motivo pelo qual muitos países, encabeçados pelos EUA, boicotoram as Olimpíadas de Moscou, em 1980 - a invasão do Afeganistão pelo Exército Vermelho e a repressão comunista na Polônia.

Apoiei a operação anglo-americana no Iraque que levou à queda de Saddam, assim como apoiei a derrubada do Talibã no Afeganistão. E não me arrependo. Pelo contrário: acho que Bush e seus aliados fizeram muito bem. Hoje, o Iraque está muito melhor do que há cinco anos. Se tivesse triunfado o ponto de vista dos pacifistas e multilateralistas, Saddam Hussein ainda estaria vivo e mandando as cartas - ainda estaria, provavelmente, no Kuwait. O mundo ficou bem melhor sem ele. Pelas mesmas razões, só posso me opor à invasão da Geórgia pelas tropas russas: esta não é uma operação para derrubar um tirano genocida e patrocinador do terrorismo, inimigo da paz e da humanidade, mas um simples exercício de poder imperial por parte de um regime que está se lixando para a democracia e os direitos humanos. Não por acaso, a Rússia foi um dos países que se opuseram, ao lado de outro gigante do antiimperialismo, a China, à intervenção no Iraque em 2003. Agora mostra, na Geórgia, toda sua coerência, sua aversão ao imperialismo e seu amor pela paz. Com o apoio dos pacifistas e antiimperialistas.