quinta-feira, junho 19, 2008

COMO ACABOU A DITADURA


Ernesto Geisel, Sylvio Frota e João Figueiredo: ditadura acabou por suas contradições internas


Comentei aqui, alguns posts atrás, um artigo de dois professores universitários sobre a luta armada nos "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil. O artigo, só para lembrar, era uma réplica chinfrim e rastaqüera a um outro artigo, do historiador Marco Antonio Villa, publicado na Folha de S. Paulo em 19/05. No artigo em questão, Villa desmonta eficientemente, e de maneira brilhante, um dos maiores mitos criados pela esquerda sobre o período: o de que a luta armada dos anos 60 e 70 teria contribuído, de certo modo, para "enfraquecer" o regime de 64.

Já refutei essa balela, que serve apenas para tentar incutir nas mentes incautas a falsa idéia de que a democracia brasileira é filha da esquerda armada - e de que todos nós, portanto, devemos prestar-lhe reverência. Agora vou me concentrar mais no artigo de Marco Antonio Villa.

O texto de Villa é, como já afirmei, excelente. Isso não me impede, porém, de fazer algumas observações ou reparações a ele. Não vou me referir à sua análise sobre a luta armada, que é perfeita. O que me chamou a atenção e, a meu ver, merece um tratamento mais crítico são os dois parágrafos que aqui transcrevo. Neles, ao refutar a tese esquerdista de que a luta armada ajudou a enfraquecer a ditadura, ele afirma:

[...] A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.

Tenho algumas ressalvas a fazer ao que está dito acima. Embora eu concorde com a opinião de Villa exposta em seu artigo, de que a luta armada não teve qualquer importância na restauração da democracia, creio ser um erro atribuir o mérito por isso aos movimentos ditos "legais" de oposição ao regime militar. Isso porque, se há um fator que não deve ser superestimado para explicar o fim da ditadura, são as pressões da chamada "sociedade civil organizada". Explico-me.

A ditadura militar não chegou ao fim por causa de nenhuma mobilização popular, mas devido às contradições do próprio regime dos generais. Seu término não ocorreu como resultado de nenhuma sublevação das massas, mesmo que de forma ordeira e pacífica, contra o arbítrio: foi, isto sim, o produto da própria evolução do regime, dividido, desde o primeiro dia do golpe, em "duros" e "moderados". Foram os primeiros, a "linha-dura", representados sobretudo nos governos Costa e Silva (1967-1969) e Emílio Médici (1969-1974), os principais responsáveis - com a ajuda da esquerda armada - pelo prolongamento da ditadura por mais de vinte anos. Por sua vez, foram os "moderados", organizados em torno da Escola Superior de Guerra (ESG) e nos governos Castello Branco (1964-1967) e Ernesto Geisel (1974-1979), os principais responsáveis pela abertura política.

A idéia de devolver o poder aos civis e restabelecer a normalidade constitucional estava presente já no próprio movimento que derrubou o governo esquerdista e populista de João Goulart, em 1964. Naquele momento, é bom lembrar, a totalidade da direita brasileira apoiou o golpe, inclusive a Igreja, a grande imprensa e a classe média. Tratava-se de afastar um governo subversivo e corrupto, que arrastava o País rumo a alguma forma de regime ditatorial de esquerda, e depois retomar a vida. O presidente Castello Branco assumiu prometendo eleições presidenciais em 1965 e deixar o governo em 31 de janeiro de 1966. Após o AI-2, porém, que extinguiu os partidos políticos e anulou as eleições, prorrogando o mandato de Castello, a situação mudou. Em 1967, com a subida ao poder de Costa e Silva, a linha-dura se instala no poder, obrigando-o a decretar, em 1968, o AI-5, que inaugura o período mais sombrio da repressão político-militar. Foi preciso esperar até o aniquilamento da luta armada de esquerda e a ascensão de Ernesto Geisel, em 1974, para que o regime, combalido pela crise do "milagre" econômico que lhe dava sustentação, começasse a dar sinais de esgotamento.

Foi a partir daí que teve início, de fato, a chamada abertura política "lenta, gradual e segura", controlada e levada adiante, desde o primeiro momento, pelo governo. De forma negociada, institucional, planejada, sem qualquer participação popular. É assim que ocorrem os principais avanços democráticos do período: fim da censura (1976), revogação do AI-5 (1978), Anistia (1979), reforma eleitoral (1979), eleições diretas para governadores de estados (1982), até culminar, em 1984-85, na campanha das diretas-já e na eleição - indireta - de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral.

Todos esses avanços, todas essas manifestações, só foram possíveis porque os militares as permitiram, em primeiro lugar. Se quisessem, poderiam ter mantido a censura e a repressão, assim como as eleições indiretas. Se não o fizeram, não foi porque estivessem acuados por nenhuma revolta popular generalizada, mas porque a redemocratização era um projeto há muito adiado, que já estava presente no próprio movimento de 64.

Quem contribuiu mais para o fim da ditadura no Brasil: os deputados Marcos Freire, Alencar Furtado e Lisâneas Maciel ou o general Ernesto Geisel, que em 1977 peitou e demitiu no ato o então Ministro do Exército, general Sylvio Frota, que queria manter a repressão e estava articulando um golpe? Quem teve um papel mais relevante: Ulysses Guimarães ou o general Golbery do Couto e Silva?

A resistência de muitos setores em admitir isso se deve, em parte, ao fato de que a transição política, no Brasil, obedeceu a um paradoxo: foi o governo do presidente pessoalmente mais autoritário e centralizador do ciclo militar, o general Geisel, que enquadrou a linha-dura e deu início ao processo de abertura democrática. E isso não foi feito por meio de consulta popular, de forma democrática: foi com murro na mesa mesmo. O AI-5, por exemplo, passou a ser usado contra os próprios militares contrários à distensão política. Não foi o culto ecumênico na Praça da Sé pela morte de Vladimir Herzog, em 1975, mas o gesto autoritário do general Geisel, que levou à queda do comandante do II Exército e ao enquadramento da extrema direita militar. Por trás desse gesto, não estavam quaisquer considerações humanitárias por parte do general-presidente, mas única e simplesmente a defesa intransigente da hierarquia e da disciplina contra a anarquia militar. Ninguém quer admitir isso hoje em dia, pois seria reconhecer que a transição política, no Brasil, deveu-se mais a um conchavo de generais do que às "grandes manifestações populares", das quais todos se dizem os guias e mentores. Todos querem tirar uma casquinha da redemocratização.

Quando Geisel sai de cena e começa o governo do último presidente militar, o do general João Figueiredo (1979-1985), todas as condições estavam dadas para a redemocratização do País. Tanto que o governo Figueiredo, às voltas com a crise econômica, foi um anticlímax de desmoralização, terminando melancolicamente, pela porta dos fundos.

Mais importante ainda: o fim da ditadura militar no Brasil deve-se ao próprio caráter político do regime. Sendo um regime autoritário, que manteve pelo menos uma aparência de legalidade e de alternância política, não tendo criado nenhum partido político (pelo contrário: extinguiu todos, instituindo em seu lugar o bipartidarismo), o regime de 1964 pôde evoluir, embora de forma atabalhoada e não sem obstáculos, rumo à democracia parlamentar. Assim como evoluíram, de uma maneira ou de outra, todas as ditaduras militares sul-americanas. Em um regime totalitário, baseado no domínio do partido único e na repressão absoluta sobre todos os aspectos da sociedade, como o de Cuba ou o da ex-URSS, ao contrário, não existe essa possibilidade: ou ele desaparece, ou se perpetua. Os militares brasileiros, chilenos e uruguaios concordaram em sair de cena e em devolver o poder à sociedade. E Fidel e Raúl Castro, quando farão isso?

As denúncias de tortura, os discursos dos parlamentares da ala autêntica do MDB, as publicações da imprensa de oposição e as manifestações populares tiveram certamente um papel, e um papel importante, no processo de distensão política, e nada disso deve ser desprezado. Mas tudo isso está longe de ter sido o principal fator responsável pela restauração das liberdades democráticas. Mais determinante do que todos esses fatores foi, sem dúvida, o jogo político verificado no interior do próprio sistema repressivo criado a partir de 1964, com a cisão entre "duros" e "moderados". Mais ainda, foi o próprio caráter do regime militar - autoritário, e não totalitário - que trouxe consigo o germe de sua própria dissolução.

Repetindo, caso não tenha ficado claro: as manifestações da oposição legal foram importantes. Algumas delas, heróicas até. Mas não foram o fator decisivo. Não teria havido Anistia, nem diretas-já, nem qualquer outra manifestação de protesto, não tivesse sido o fim da censura e a revogação do AI-5. E isso só ocorreu devido à própria evolução do regime, de cima para baixo, e não de baixo para cima.

Certamente, não é muito edificante, nem algo muito positivo para a auto-estima de muitos políticos brasileiros, admitir o que está escrito acima. Mas é preciso dizê-lo, para o bem da honestidade intelectual e da verdade histórica. Nem o MDB, nem o movimento estudantil, nem os sindicatos, nem os intelectuais, nem a Igreja dita "progressista", nem o PT, nem, muito menos, a luta armada foram responsáveis pela redemocratização do Brasil. A democracia brasileira não tem pai nem dono. A História também não.

Errata

Na pergunta que constitui a nova enquete do blog - "O Ministério da Pesca contratou, a pedido de Dilma Rousseff, a esposa do 'chanceler' das FARC no Brasil...", cometi um pequeno erro. Onde se lê "chanceler", leia-se "embaixador" ou "representante".
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Como alguém já votou, não posso editar a enquete e corrigir o erro. Deve ter sido alguma alusão inconsciente a nosso Chanceler, Celso Amorim. Como diz o Molusco, talvez Freud explique. Espero que me perdoem esse pequeno ato falho.

quarta-feira, junho 18, 2008

Nova enquete

Já está no blog a nova enquete. Encerra dia 25.

terça-feira, junho 17, 2008

ELES TÊM MINHA COMPAIXÃO, NÃO MEU RESPEITO

Lembrei-me agora do bocó e Ignorante Soberbo que escreveu, alguns posts atrás, que era preciso enxergar a ditadura castrista de Cuba à luz do pensamento de Platão e de Maquiavel, pois "nenhum governo se sustenta se não for amado pelo povo"... O idiota argumentava que a ditadura dos irmãos Castro só existe há tanto tempo porque o povo cubano os adora. Ou seja: adora não ter eleições livres, nem liberdade de expressão, nem de ir e vir etc. É... A fuga de Erislandy Lara para a Alemanha é mais uma prova - há mais 2 milhões delas - de que os 11 milhões de cubanos forçados a viver (?) na ilha-presídio realmente são apaixonados por Fidel e Raúl.
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O cretino que defendeu a teoria exposta aí em cima ficou chateado porque achou minha linguagem desrespeitosa. Fez beiçinho e resolveu deixar de comentar no blog porque, segundo ele, não acredita em ofensas pessoais. Tudo porque eu tive a audácia de chamar conhecidos defensores brasileiros da ditadura cubana, como Oscar Niemeyer, "Frei" Betto e Chico Buarque, daquilo que são: idiotas morais. Foi logo criticando minha "baixeza" por causa disso, dizendo que não concorda com "esse método de Schopenhauer" etc.
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Esses esquerdistas são esquisitos. Sempre usaram e abusaram do insulto e da calúnia para desqualificar seus críticos, substituindo qualquer argumentação racional pela argumentação ad hominem, e agora querem posar de bons-moços, e inclusive de professores de boas maneiras. É mais uma armadilha da ditadura do "politicamente correto", que substituiu o debate franco por um linguajar de dondocas. Mas somente quando o debate for sobre algum tema embaraçoso para a esquerda, que fique bem entendido. Pois, quando se trata de criticar a "zelite" ou o que o valha, esse pessoal costuma ser bem desbocado. Assim como se crêem os donos exclusivos da moral e da ética, eles acreditam que têm o monopólio do insulto.
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Querem saber por que esses senhores não merecem meu respeito? Aí vão apenas alguns motivos:
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- Babam por uma tirania que arruinou um país antes próspero e já deixou 95 mil mortos;
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- Tentam a todo custo justificar uma ideologia genocida que deixou um saldo de 100 milhões de cadáveres no século XX;
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- Enchem-se de indignação farisaica quando se trata de criticar os supostos ou reais abusos cometidos pelos EUA em Guantánamo, enquanto fecham os olhos para os crimes cometidos em Cuba, onde há umas duzentas Guantánamo;
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- Consideram o crime e a mentira uma questão de ponto de vista ("os fins justificam os meios"), e não penal;
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- Tentam de todos os modos pautar seus críticos, exigindo-lhes "imparcialidade" ("E o escândalo do PSDB? Não vai falar nada?"); assim, tentam atirar lama para todos os lados e livrar a própria cara, inventando a "imparcialidade a favor";
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- Cobrem de insultos e ofensas pessoais todo aquele que ousar discordar deles, mas exigem respeito para eles próprios.
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Entenderam por que não posso me referir de outro modo a essa gente? Eles só podem merecer meu desprezo. É uma questão de honestidade. Mas, como sou um sujeito de coração mole, ofereço-lhes minha compaixão, como se oferece a alguém com graves distúrbios mentais. Chamá-los pelo nome, nesse caso, pode servir como uma espécie de remédio amargo, mas necessário. Talvez, quem sabe, um dia algum deles acorde do torpor cerebral em que mergulhou, despertando para a realidade. Ainda não perdi a esperança de impedir que mais alguém enverede pelo mesmo caminho de estupidez que eu quase segui quando tinha 15 anos de idade. E, quanto maior a idiotice, mais forte o tratamento de choque. É um erro acreditar que se pode debater civilizadamente com um esquerdista. O que eles querem não é debater, não é pôr à prova suas idéias: é conversão a elas, nada menos que isso. Eles podem ter minha compaixão. Não meu respeito.
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Querem saber? Vão todos lamber sabão, seus idiotas morais, amantes de tiranos!

TARSO GENRO, O CAPITÃO DO MATO


Flagrante do momento em que um dos boxeadores cubanos "praticamente implorava" para voltar a Cuba, segundo Tarso Genro


Em agosto passado, dois boxeadores cubanos que participavam dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro desertaram de sua delegação. Tentavam fugir de Cuba e alcançar a Europa.

Imediatamente, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva acionou a Polícia Federal para encontrar os dois fugitivos, localizados no litoral do RJ.
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Atendendo a um pedido pessoal de Fidel Castro, o governo Lula deportou os dois atletas de volta a Cuba, em tempo recorde, longe das câmeras da imprensa. Para isso, usou um avião fretado especialmente para a ocasião por Hugo Chávez.
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Setores de oposição e organizações de defesa dos direitos humanos criticaram a rapidez inédita do processo de expulsão - entre outras coisas, os dois atletas não tiveram direito a manter contato com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.

Respondendo às críticas, o Ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que os dois boxeadores haviam se arrependido, recusaram oferta de refúgio, estavam com saudades de casa e "praticamente imploraram para retornar a Cuba".
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Disse, ainda, que a decisão de deportar os cubanos era perfeitamente legal e que o governo não iria "seqüestrar os dois para criar um fato político", como desejariam setores da oposição.
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Na tribuna do Senado, o Senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que, como todo bom petista, só defende boas causas, fez coro a Tarso Genro, defendendo a atitude do governo na questão. Afirmou confiar, inclusive, que os dois pugilistas teriam os direitos plenamente garantidos quando retornassem a Cuba.

Após terem sido entregues pelo governo brasileiro às autoridades cubanas, os dois pugilistas foram proibidos, pelo regime cubano, de competir no exterior para todo o sempre. Com a ajuda de Eduardo Suplicy.
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Há alguns dias, um dos boxeadores, Erislandy Lara, que "praticamente implorou" para voltar a Cuba, segundo Tarso Genro, fugiu para a Alemanha, onde pediu asilo.

Teria mudado de idéia? Ou, o que parece mais factível, teria sido seqüestrado pelas autoridades alemãs?

Tarso Genro, que, como todos os petistas, é um defensor dos direitos humanos, deve estar preocupadíssimo com essa gravíssima violação do direito de ir e vir do pugilista cubano pelo governo da Alemanha. Deve estar pensando, inclusive, em levar o caso ao Conselho de Direitos Humanos da ONU...
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Com a fuga de Erislandy Lara para a Alemanha, toda a pantomima oficial criada pelo governo Lula sobre o caso caiu por terra. Tarso Genro está desmascarado como o arquiteto de uma gigantesca farsa.

O caso é gravíssimo.

Arrisco-me a dizer que é mais grave do que a morte dos três adolescentes entregues pelo Exército a um bando de narcotraficantes rival no Rio de Janeiro.

Nesse caso, os militares agiram como cúmplices de assassinato, cometido por traficantes cariocas. Agiram como bandidos, e não como membros da instituição, e deverão responder criminalmente por isso.

No caso dos dois pugilistas cubanos, porém, foi o governo do Brasil, o Ministério da Justiça, que atuou conscientemente, usando toda a sua máquina burocrática, para devolver a uma ditadura dois refugiados.

No Rio, os militares envolvidos - e não a instituição das Forças Armadas - são cúmplices de um crime de assassinato.

No caso da deportação-relâmpago dos dois cubanos, o governo é culpado de seqüestro e de cumplicidade com uma tirania.
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Em 9 de agosto de 2007, escrevi o seguinte:

"O erro dos pugilistas cubanos foi terem acreditado que, ao decidirem não retornar à ilha-prisão, permaneceriam num país livre e democrático. Num país cujo governo coloca os direitos humanos e a democracia acima das simpatias ideológicas por uma ditadura falida e brutal. Erraram de país. No Brasil lulista, as autoridades não se contentam em justificar as peripécias de um Evo Morales ou de um Hugo Chávez: agora se prestam também a servir de capitão do mato de um tirano senil e assassino."

Tarso Genro mentiu.

Lula mentiu.

Tarso Genro, o capitão do mato.

Lula, o feitor de escravos.

Esse é um governo que realmente defende e respeita os direitos humanos.

segunda-feira, junho 16, 2008

LUTA ARMADA - VELHAS E NOVAS FALÁCIAS



Capitão Charles Chandler, metralhado por um comando da ALN e da VPR em 12/10/1968: morto em nome da luta pela democracia, segundo a esquerda


No meu último post, reproduzi um artigo de Marco Antonio Villa publicado em 19/05 na Folha de S. Paulo sobre as falácias da esquerda a respeito da luta armada dos anos 60 e 70 no Brasil. O artigo é excelente. Com algumas exceções pontuais, que pretendo discutir em outro post, o texto de Villa é impecável.
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Agora, a mesma Folha publica um artigo assinado por dois professores, Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Benjamin Vieira, contestando as afirmações de Villa. Não por acaso, seus autores são ex-militantes de organizações armadas de esquerda (POLOP e VPR, respectivamente). No texto, que trascrevo a seguir em vermelho, os autores se esforçam para rechaçar a conclusão óbvia de que os terroristas queriam derrubar a ditadura para instaurar outra, comunista. Querem manter viva a lenda dourada criada em torno dos heróicos guerrilheiros que sacrificaram tudo altruisticamente em nome da... democracia (?!). O texto deles vai na íntegra. Meus comentários estão em azul. Os grifos também são meus.
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Luta armada a favor ou contra a ditadura?
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Artigo - Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Vieira
Folha de S. Paulo
16/6/2008


Superestimar critérios documentais tem levado alguns historiadores a dizer que a esquerda não lutou por uma causa democrática
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NO ARTIGO publicado nesta Folha em 19/05 ("Falácias sobre a luta armada na ditadura", "Tendências/Debates"), Marco Villa rediscute a ditadura, atribuindo responsabilidades pela emergência do autoritarismo em 1964 tanto à direita quanto à esquerda. A abordagem dissocia as esquerdas das conquistas democráticas.

Perceberam o tom de crítica ao autor que ousou "dissociar as esquerdas das conquistas democráticas"? Pois é. Esse pessoal da esquerda acha que democracia é só com eles, somente eles a defendem. Mais que isso: foram eles que a pariram. Isso fica claro no texto. Adiante.

A superestimação dos critérios documentais, em detrimento de conseqüências políticas democráticas que não constituíam proposta predominante no discurso da esquerda armada, tem levado alguns historiadores a afirmar que a esquerda lutou contra a ditadura, mas não por uma causa democrática. Ou seja, a direita e a esquerda eram antidemocráticas. A primeira defendia a ditadura militar, e a segunda, a do proletariado.

Antes de iniciar a crítica ao artigo propriamente dita, é bom apontar um lapso (?) no texto: nem toda a "direita" - no sentido que lhe dão os autores - defendia a ditadura militar. A menos que se considere alguém como o jurista Sobral Pinto, por exemplo, um radical esquerdista, o que está longe de ser verdade. Em 1964, a totalidade da direita - inclusive a imprensa - apoiou, sim, a derrubada do governo Goulart. Mas logo se desencantou com o regime, passando para a oposição. Um setor considerável, em especial a UDN, esperava que os militares devolvessem o poder rapidamente aos civis e restabelecessem a normalidade constitucional. Por se opor ao governo Castello Branco, o maior direitista brasileiro do período, Carlos Lacerda, foi cassado pelo regime, tendo de amargar o exílio. Logo, uma afirmação claramente falsa, logo no início. Continuemos.

A tese ignora que uma ação política pode gerar resultados não intencionais de grande repercussão. Assim, a luta armada contribuiu para o enfraquecimento da ditadura e o retorno da democracia, em que pese as intenções iniciais de seus agentes.

Esse pessoal não perde tempo. Diante de provas irrefutáveis, apresentadas pela própria esquerda armada, trata de refutar o que a História diz com todas as letras. Não sendo mais capazes de sustentar, com fontes e documentos, a mitologia criada em torno das esquerdas no período - derrubada pela simples leitura dos documentos das organizações armadas de esquerda, reunidos por Daniel Aarão Reis e Jair Ferreira de Sá em Imagens da Revolução, dos quais nenhum (nenhum!) fala sequer remotamente em restaurar a democracia -, os órfãos da ilusão marxista tentam tapar o sol com a peneira. Agora falam em "superestimação de fontes documentais" (?) - como se as fontes documentais não fossem a base de qualquer estudo histórico sério. Mais: apelam para os supostos "resultados não-intencionais" da luta armada no Brasil.
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Trocando em miúdos, a tese dos autores é a seguinte: os guerrilheiros não eram democratas, não queriam a democracia; eram autoritários, queriam a ditadura. Mas as suas ações, a luta armada em si, teve efeitos democráticos de longo prazo. É isso mesmo que você leu: não queriam saber de democracia, desprezavam-na, mas sua luta, apesar disso e deles próprios, teria contribuído para a volta da liberdade; era, portanto, uma luta democrática... É a velha teoria vanguardista, dos guerrilheiros como a "vanguarda da sociedade contra o arbítrio". Pura balela.

Assim como não era objetivo dos terroristas restaurar a democracia, e sim instaurar outra, comunista, em seu lugar, a conseqüência prática de suas ações não foi o enfraquecimento, mas o fortalecimento, da ditadura militar. Ou, usando um linguajar jurídico, inexiste liame causal entre uma coisa (a luta armada) e outra (a redemocratização).

Basta ver as datas. A luta armada ocorreu entre 1965 e 1974, quando então foi totalmente aniquilada. É justamente nesse período que o regime dos generais se consolida e, sobretudo após 1968, com o AI-5, atinge seu ponto culminante. É somente após a destruição dos grupos guerrilheiros, em 1974, que o regime começa a dar sinais de fraqueza, e começa o processo de abertura política. Esta não teve nada a ver com a luta armada, até porque esta já havia deixado de existir.

Muitos grupos de esquerda simpáticos à luta armada antes de 1968 não desprezavam a luta política e somente após o AI-5 escolheram o caminho militarista. A barbárie repressiva não foi uma resposta à luta armada, embora esta tenha sido utilizada como justificativa para o recrudescimento da política repressiva, que foi ampliada desde 1964 de acordo com a resistência da sociedade, da qual fizeram parte os grupos de esquerda.

Mentira. Nada disso inviabiliza a tese de Villa. O fato de haver grupos que optavam pela via política e não pelo caminho armado, como o PCB e a AP, não retira da luta desses o caráter totalitário. Podiam diferir dos grupos armados nos métodos, mas não no objetivo final, que era um regime comunista ou socialista, logo não-democrático. É verdade que as ações armadas se intensificaram depois de 1968, mas é uma mentira afirmar que foi somente após o AI-5 que a esquerda armada fez sua opção pelo caminho militarista: é no período 1964-1968 que surgem as principais dissidências armadas de esquerda, como a ALN (surgida em 1967), a VPR e o PCBR (ambos em 1968). Já em 1966, a AP realiza a primeira ação terrorista do período, o atentado à bomba contra o general Costa e Silva no aeroporto do Recife, em 25 de julho, que deixou dois mortos e dezenas de feridos. Além disso, como deixam claro autores inclusive ligados à esquerda, como Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg, o projeto guerrilheiro é anterior ao próprio golpe de 64: já em 1961 - em pleno regime democrático, portanto -, as Ligas Camponesas de Francisco Julião mantinham vários acampamentos de guerrilha espalhados pelo País, e muitos de seus integrantes iam regularmente fazer treinamento guerrilheiro em Cuba. Isso aconteceu - é bom lembrar - três anos antes do golpe de 64.

Aliás, é bom que se diga: a luta armada jamais esteve fora dos planos da esquerda, mesmo da mais moderada. O PCB de Luiz Carlos Prestes, por exemplo, mesmo duramente criticado como "reformista" e "pacifista" pelos que se lançaram à aventura da guerrilha, sempre deixou claro, em seus documentos e resoluções, que se opunha ao foquismo castro-guevarista por razões táticas, e não porque era contra, por princípio, a luta armada. Nunca é demais recordar que foi justamente ele, o partido de Prestes, que desencadeou a primeira tentativa de revolução armada comunista no Brasil, em 1935. Nos anos 50, em pleno governo constitucional, o partido estimulou uma guerrilha camponesa na região de Trombas e Formoso (GO). Sobretudo após 1958, com a perspectiva de assalto pacífico ao poder, o PCB adota uma linha cada vez mais legalista. Mas, a exemplo do que ocorre até hoje com partidos como o PT, a guerrilha jamais esteve fora de seus cálculos para a tomada do poder.
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Sobre a afirmação de que a repressão não veio como resposta à luta armada,mais uma mentira. Após a "limpeza" de 1964, a repressão política só atingiu seu ponto culminante a partir de 1968, justamente como reação aos atentados da esquerda. Pode-se discutir se o AI-5 foi ou não conseqüência direta da luta armada, mas é inegável que, não fosse essa, ele dificilmente teria ocorrido. Não é por acaso que os "anos de chumbo" do terrorismo, 1968-1974, coincidem perfeitamente com os de maior repressão política. A luta armada serviu tanto aos interesses da linha-dura militar, como fato ou como pretexto, que, mesmo quando o terror de esquerda já havia sido dominado, sempre que os milicos queriam justificar o endurecimento do regime, apelavam para o fantasma da guerrilha (leiam as memórias do ex-presidente Geisel, nas quais ele afirma claramente que foi o espectro da luta armada que alimentou a linha-dura e ajudou a prolongar a ditadura). Mesmo tendo desaparecido, o terrorismo de esquerda continuou colaborando para justificar a repressão sobre a sociedade - e não para abrir o regime.
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A ampliação do autoritarismo após 1968 foi antecedida por instabilidades políticas e crises nas Forças Armadas. O ambiente de contestação se expressou na Frente Ampla e na derrota do governo no caso Moreira Alves, nas greves operárias em Osasco (SP) e Contagem (MG) e nas passeatas estudantis e protestos da classe média liderados pela esquerda.

A violência sempre foi cultivada pelos dirigentes militares, situando-se no centro da estratégia para consolidar o autoritarismo, cujo propósito era desmobilizar e despolitizar a sociedade e impor um modelo econômico que privilegiasse a rápida acumulação capitalista naquele contexto de Guerra Fria.

Típica bobagem retórica esquerdóide para fazer a cabeça de alunos de oitava série. Passemos adiante.

A escolha da força para obter obediência levou os órgãos de segurança a uma posição de destaque. Os órgãos da polícia política eram um dos núcleos centrais do poder. Destacava-se o SNI, comandado por generais do Exército, entre eles Golbery, o seu criador em 1964 e idealizador da distensão posteriormente executada por Geisel, chefe da Casa Militar de Castelo Branco, que negou a existência de abusos cometidos pelo regime e primeiro presidente a admitir, após deixar o cargo, a tortura como meio necessário para obter confissões.

Os dirigentes buscaram ampliar as bases do regime com a liberalização, pois, além da eficácia econômica dos anos 70, emergia o problema da legitimidade. A distensão/abertura estava condicionada à institucionalização de um regime pós-autoritário com restrições democráticas. A retirada das Forças Armadas implicava sua substituição por um esquema civil de confiança baseado no partido do governo, de modo a preservar os interesses institucionais dos militares.

Idem. Prossigamos.

Um bom exemplo é a Lei da Anistia, aprovada em 1979, que não permitiu a revisão das ações do aparelho militar, protegeu sua autonomia e reforçou o sentimento de impunidade das Forças Armadas. A sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão, a instituição militar não foi colocada em debate sobre os papéis que vinha desempenhando na política e a opinião pública não discutiu os valores necessários à construção de uma democracia.

Independentemente da discussão sobre a justeza ou não da Lei de Anistia, o fato é que ela perdoou os crimes cometidos pelos dois lados, tanto da repressão como da luta armada. A impunidade, portanto, não foi unilateral. Não sei de onde os autores retiraram a afirmação de que "a sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão" - a quantidade de livros, artigos e depoimentos que citam os torturadores nominalmente, e os métodos da repressão política, são suficientes para, enfileirados, dar uma volta completa na Terra. Os nomes dos torturadores, e seus métodos, até mesmo pela hegemonização da História do período militar pela esquerda acadêmica, são de todos conhecidos. Ao contrário de muitas ações da esquerda armada no período, como os chamados "justiçamentos" - o assassinato a sangue-frio de militantes por seus próprios companheiros de luta armada, por simples suspeita de traição -, sobre os quais, até o momento, a esquerda prefere manter um silêncio de pedra. Do mesmo modo, a instituição militar, por causa dessa propaganda, jamais foi tão denegrida e vilipendiada. Concordo apenas com a última frase: de fato, a sociedade não discutiu os valores necessários à construção da democracia. Isso porque esse debate vem sendo monopolizado, há uns trinta anos, pela esquerda, que de democrática tem muito pouco, como a luta armada.

Todas as formas de luta contra a ditadura devem ser vistas como um direito legítimo contra a opressão política. Até Locke, o mais liberal dos liberais e um dos inspiradores das revoluções americana e francesa, sustenta que o povo tem o direito à resistência quando o Estado usa a força sem direito e sem justiça.

Todas as formas? Têm certeza? Inclusive o terrorismo? Inclusive fazer em pedaços o corpo de um recruta de 19 anos na explosão de um carro-bomba? Inclusive esfacelar a coronhadas o crânio de um tenente da PM capturado após render-se? Inclusive exterminar, a queima-roupa, um militar norte-americano pelo único crime de ele ser militar e norte-americano? Que vínculo existe entre esses atos de terror ensandecido e a volta das liberdades democráticas no Brasil?

Uma das teses preferidas da intelligentsia esquerdista é que a luta armada serviu para demonstrar a insatisfação da sociedade com a ditadura. A tese é furada, em primeiro lugar, porque a sociedade, pelo menos até o fim do "milagre" econômico, em meados dos anos 70, não estava descontente com o regime coisa nenhuma. Pelo contrário: embalada pelos altos índices de desenvolvimento econômico, ela, sobretudo a classe média, aplaudia a ditadura. O presidente Médici, por exemplo, era extremamente popular. Por isso que a luta armada não passou de uma luta isolada, sem apoio da população. Foi por isso, também, que a sociedade buscou outras formas de resistência ao arbítrio dos militares, todas legais, como bem explica Marco Antonio Villa. Desde quando explodir bombas e seqüestrar diplomatas estrangeiros era a única forma de expressar essa insatisfação, aliás inexistente? A luta armada não se fez sob a égide de Locke ou de qualquer outro pensador liberal. Seus referenciais eram outros: eram Lênin, Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro.

Alegar que a redemocratização teria alguma relação com a luta armada já é de uma desonestidade sem tamanho. Tentar usar Locke para justificar uma luta que era pela implantação, nestas terras, de uma ditadura totalitária, é simplesmente demais. Não tem nem como qualificar isso. É cascata da grossa. Pura safadeza.

As regras não eram legítimas, como hoje são as da democracia, reconquistada após os projetos dos militares serem derrotados no campo institucional, a partir da pressão de uma ampla mobilização de oposição que se formou entre 1974 e 1985 e da qual participaram os grupos de esquerda.

O fato de as regras políticas não serem legítimas em um regime autoritário não diz nada a favor dos que quiseram substituí-lo não pela democracia, mas por uma ditadura totalitária. Os próprios autores se contradizem, ao reconhecerem que a derrota da ditadura ocorreu no campo institucional, e não por qualquer outra via. Admitem que a mobilização da oposição que teria posto fim à ditadura ocorreu entre 1974 e 1985, o que é inegável. Justamente no período em que a luta armada já havia sido dizimada, não tendo, portanto, capacidade alguma de influir no processo político. Como, então, dizer que a luta armada teve, como uma de suas "consequências não-intencionais", o fim da ditadura?
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Esse é o método dos esquerdistas: baseiam-se em verdades para propagar mentiras. Baseiam-se no fato de que o Brasil vivia um regime autoritário (verdade) para dizer que todos que se opunham aos militares eram democratas (mentira). Daí, defendem que a luta armada, por ser contra a ditadura militar (verdade), era, no fundo, democrática (mentira). Com isso pretendem aparecer como os campeões da liberdade e da democracia, tolhendo o debate e rotulando qualquer um que denuncie suas imposturas, como Marco Antonio Villa, como um defensor da ditadura e do autoritarismo. Não conheço nada mais desonesto do que isso.

Se a esquerda reconhece os equívocos da luta armada após 1968, a ela não devem ser atribuídas certas responsabilidades políticas cujo objetivo primeiro é enfraquecê-la moralmente como aliada do atual governo.

Falso. O próprio texto é uma demonstração de que a esquerda - pelo menos a fração da esquerda nostálgica da guerrilha - não reconhece os equívocos do passado ("só" equívocos? não seriam crimes?). Pelo contrário: os enaltece e os reivindica.
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Restabelecer a verdade dos fatos, e não reforçar velhos mitos revolucionários, é uma questão de honestidade intelectual, e não de enfraquecer moralmente os aliados do atual governo. Até porque, convenhamos, este mesmo trata de criar, diariamente, farto material para se desmoralizar a si próprio.
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E, para isso, não precisa da ajuda de nenhum historiador.

Falácias sobre os "anos de chumbo" no Brasil

O texto a seguir, de autoria do historiador Marco Antonio Villa, foi publicado em 19/05/2008 na Folha de S. Paulo. Transcrevo-o na íntegra. No próximo post, vocês vão entender por quê.

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MARCO ANTONIO VILLA
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Militantes de grupos de luta armada criaram um discurso eficaz. Quem questiona "vira" adepto da ditadura. Assim, evitam o debate
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A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
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Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
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O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva. Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.
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Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
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Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
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Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
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Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
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Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo. O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
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O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão. Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
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MARCO ANTONIO VILLA, 51, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor, entre outros livros, de "Jango, um perfil".

Resultado da enquete do Blog

A primeira enquete do blog encerrou-se na sexta-feira, dia 13. A pergunta era: "O que leva alguém a ser de esquerda?" O resultado: para 42% dos que votaram, é a imaturidade. Para 28%, é o tédio ou a moda. 14% responderam que é a ignorância ou a vontade de fazer novas Cubas ou Coréias do Norte.
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Agradeço a todos que participaram. Em breve, mais uma enquete será postada no blog.

quinta-feira, junho 12, 2008

CHINA - IMPRESSÕES DE VIAGEM


Publiquei um monte de textos desde que voltei e ainda não escrevi nada sobre minha viagem à China, algumas semanas atrás...

Tenho uma boa desculpa para isso. Além do fato de haver muita coisa que eu gostaria de escrever e dispor de pouco tempo livre para o blog, não sou muito fã de relatos de viagem, assim como não gosto muito de textos memorialísticos. Esse gênero de literatura, com algumas exceções, sempre esteve longe de ser o meu preferido. Além disso, a veracidade de um relato desse tipo, por seu caráter subjetivo, é bastante duvidosa - tomemos o exemplo da obra clássica de Marco Pólo, referência durante séculos para viajantes e historiadores sobre a China, e que no entanto não faz qualquer menção à Grande Muralha... As impressões de viagem, a exemplo das memórias, sempre sofrerão de um excesso de subjetivismo, de uma superficialidade inevitável, que o pouco tempo em que geralmente se passa num país - no meu caso, duas semanas - só faz exacerbar. Mas vamos lá.

Fui à China para participar de um curso para jovens diplomatas latino-americanos, oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores chinês. Como convidado do governo, portanto. O curso dividiu-se numa parte basicamente acadêmica, composta de palestras sobre os mais diversos temas referentes à China (civilização, estrutura política, economia, relações exteriores, etnias etc.) e em outra, digamos, cultural, que incluiu visitas a alguns dos principais pontos turísticos nacionais, como a Grande Muralha e a Cidade Proibida. No final, ainda houve uma viagem de cinco dias à província de Guangxi, no sul do país, onde visitamos as cidades de Nanning e Guilin.

A primeira coisa que se nota na China, depois de um vôo de mais de 15 horas pela rota Brasília-Rio de Janeiro-Paris-Pequim, é o céu. Ou melhor: a ausência de céu. Tirando um dia em que visitamos a Cidade Proibida, o céu de Pequim - e, logo descobri, de quase todas as cidades do país - é coberto por uma densa nuvem de poeira, um smog, produto da poluição. De dia, isso impede de se ver o sol - sabe-se que ele está lá, pelo calor que ele emana, mas não adianta tentar visualizá-lo: ele não passa de uma mancha no céu cinzento. À noite, não é diferente: olha-se para o céu, a lua aparece timidamente, mas as estrelas simplesmente desaparecem. Somente num lugar eu tinha visto algo parecido antes - em São Paulo -, e mesmo assim, como soube depois, esse fenômeno só ocorre em alguns dias ao ano, e não em toda a cidade. Em Pequim - ou Beijing, como preferem os chineses -, é em todo lugar, o tempo todo.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de prédios em construção na capital chinesa. Símbolos da prosperidade galopante do país, que cresce há anos a taxas de cerca de 10% anuais, as edificações se multiplicam em Pequim como cogumelos brotando do chão. Para onde quer que se vá, há operários trabalhando. Até durante a noite, em uma zona de restaurantes e boates, aonde os turistas vão para se divertir, vi tratores funcionando a pleno vapor. O país, de fato, está passando por um momento de desenvolvimento acelerado. O que não é o suficiente para mudar certos hábitos fortemente arraigados entre a população, como pude perceber. Por exemplo: os chineses - homens e mulheres, jovens e velhos - têm o péssimo costume de escarrar em qualquer lugar, para espanto dos visitantes estrangeiros...
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Mas o que mais me atraiu na viagem, o verdadeiro motivo que me levou a aceitar o convite para fazer o tal curso, foi a possibilidade de conhecer, pela primeira vez, um país comunista.

Sim, a China é um país comunista. Mesmo que tenha adotado, há exatos trinta anos, uma política econômica na prática capitalista; mesmo que já estejam longe os tempos da Revolução Cultural maoísta; mesmo que se veja sinais de economia de mercado em toda parte; mesmo que os chineses sejam doidos por dinheiro e extremamente consumistas - os jovens chineses, por exemplo, estão se lixando (com toda razão, aliás) para o comunismo: querem mais é curtir a vida e as delícias do capitalismo -; mesmo que o país seja hoje um dos principais parceiros comerciais do Brasil e dos EUA; mesmo que os retratos de Mao Tsé-Tung e de Marx e Lênin sejam cada vez mais raros, sendo substituídos por outdoors gigantescos de marcas de grife ocidentais, e mesmo que os próprios comunistas chineses sejam os primeiros que aparentem não levar a ideologia marxista a sério, a China continua a ser comunista. Voltei de lá com essa convicção reforçada, assim como mais forte ficou minha conclusão de que o comunismo, seja que forma vier a assumir, é um sistema político nefasto e desumano, incompatível com a dignidade humana.

À primeira vista, um sistema político comunista e um sistema econômico capitalista seriam uma contradição em si. Mas não é bem assim. Desde o colapso dos regimes marxistas do Leste Europeu e o fim da URSS, em 1991, o que se entende por comunismo nada mais é do que a concentração de poder nas mãos de uma minoria de burocratas. Pouco importa se o sistema econômico for, na prática, capitalista (os chineses preferem dizer "socialismo de mercado" ou "à chinesa"...); o importante é que propicie a continuidade do poder da nomenklatura. Nisso, o regime chinês parece ter achado um ponto ideal. Depois de anos de desastres econômicos, como o Grande Salto Adiante do começo dos anos 60 (mais de 30 milhões de mortos) e a calamidade da Grande Revolução Cultural Proletária (1966-1976), a liderança do Partido Comunista Chinês descobriu o óbvio e resolveu se livrar de vez dos delírios e imposturas marxistas na economia, mantendo intacto o regime político. "Não importa a cor do gato, desde que ele pegue o rato", é a famosa frase de Deng Xiao-Ping, o principal arquiteto das reformas econômicas na China a partir de 1978. Desse modo, o país se encaminhou para uma economia capitalista, trocando os ensinamentos do camarada Mao por toda sorte de bugigangas. De uma ditadura brutal maoísta, com isolamento político e economia totalmente planificada, a China passou a uma ditadura brutal colegiada, com abertura econômica para o mundo. Não por acaso, uma das características da cultura chinesa é "salvar a face" - pelo que eu entendi, uma forma bastante cínica e hipócrita de manter as aparências.

Claro que essa transição não se deu sem conflitos. O principal desafio dos burocratas do Partido Comunista era livrar-se do legado maoísta. Foi preciso esperar a morte do Grande Timoneiro, em 1976, e a prisão, logo depois, da "Gangue dos Quatro" - que incluía a viúva de Mao, que se suicidou na prisão -, para que as reformas começassem a ser implementadas. Ainda assim, era necessário manter o mito. Os símbolos do regime foram mantidos, e a memória de Mao permanece discretamente cultuada pelo Partido. Um enorme retrato seu continua enfeitando a Praça Tianamen, no centro de Pequim, embora os chineses cada vez mais ressaltem seus "erros" (os mais de 70 milhões de mortos pelo comunismo na China não são vistos como crimes...). No centro de Pequim, em meio às quinquilharias que costumam empurrar para os turistas, ambulantes vendem souvenires como o Pequeno Livro Vermelho e camisetas com a estampa de Mao (vi até mesmo um sujeito vendendo "relógios de Mao"). Em outras palavras: o regime se beneficia do mito criado em torno do falecido ditador, mas mantém uma prudente distância do mesmo. E ainda aproveita para faturar em cima.

Esse distanciamento gradativo da figura e do "pensamento do presidente Mao" veio acompanhado de um retorno às origens culturais da China. Mais especificamente, a tradição confuciana, que os Guardas Vermelhos tentaram destruir durante a Revolução Cultural, passou a ser retomada, e hoje constitui, ao lado do marxismo, a base filosófica do regime. De certa forma, Confúcio assumiu o lugar de Mao e de Marx, sem os ter substituído por completo. Não é por menos: afinal, o confucionismo valoriza sobretudo a hierarquia, a disciplina e a autoridade - dos pais, dos mais velhos, dos governantes (principalmente dos governantes). Cai como uma luva, portanto, para justificar a ditadura comunista. Esta, aliás, também encontrou um jeito bem malandro de se legitimar: em uma das palestras, foi-nos explicado que existem oito partidos políticos com representação no Parlamento chinês - "sob a direção do Partido Comunista". Ah, bom.

Todas essas tentativas, algumas bem-sucedidas, de "salvar a face" do regime, e que incluem uma rígida censura governamental aos meios de comunicação, não são suficientes, porém, para camuflar a realidade. Por mais que se queira escondê-la, esta sempre dá um jeito de se esgueirar pelos cantos, achando uma fresta por onde possa aparecer. Na China, como sabemos, certos assuntos são tabus. Direitos humanos e Tibete, por exemplo. Mas aqui também os chineses encontraram uma fórmula interessante. Durante uma das palestras, um dos ouvintes levantou a questão dos direitos humanos, e inclusive citou o caso do Tibete. O palestrante, aliás um professor universitário que padecera cinco anos de prisão na época da Revolução Cultural, foi taxativo em sua afirmação de que na China os direitos políticos e civis eram plenamente respeitados. E quanto aos militantes pelos direitos humanos e os defensores da independência do Tibete? "Estes são dissidentes", respondeu na bucha o professor... Não surpreende, assim, que em sua política externa a China seja a principal aliada de algumas das piores ditaduras do mundo, como a do Sudão, de Mianmar e da Coréia do Norte.

Assim como não causa surpresa que a censura seja algo tão presente na vida dos chineses. Censura e consumo desenfreado, aliás, não estão em contradição. Fui a uma livraria em Pequim, pelo que me disseram uma das maiores da cidade. Na seção de línguas estrangeiras, num canto acanhado do segundo andar do prédio enorme, ao lado de uma pilha de livros técnicos e dicionários, alguns poucos titulos em inglês: Dickens, Melville, Bronté, H.G. Wells... E só. O primeiro andar, por sua vez, estava cheio de livros em chinês. Mesmo sem entender nada da língua, pude perceber do que a maioria deles tratava: alguns poucos livros históricos e centenas de manuais de negócios na linha "fique rico logo". Após ter comprado, como lembrança, uma edição bilíngüe inglês-chinês dos Analectos, de Confúcio, saí de lá decepcionado.

O poder da censura e da manipulação da informação em um país como a China é algo realmente impressionante. Dias antes de minha viagem, o país estava nas manchetes por causa da repressão às manifestações pela independência do Tibete e, conseqüência direta desta, dos protestos contra o governo chinês durante a passagem da tocha olímpica em várias cidades ao redor do mundo. Chegou-se mesmo a se falar de boicote às Olimpíadas de Pequim, em agosto. Foi então que um terremoto arrasou a província de Sichuan, no sudoeste do país, e deixou mais de 60 mil mortos. Subitamente, tudo mudou. A televisão chinesa, que antes censurava os noticiários da CNN e da BBC sempre que o locutor falava em Tibete e violações dos direitos humanos, passou a transmitir, o dia inteiro, imagens da tragédia. Programas de televisão com atores e cantores entrevistavam sobreviventes do terremoto e enalteciam as virtudes das principais autoridades do país e do glorioso Exército Popular de Libertação, que acudiu prontamente ao local da tragédia. Num deles, a platéia inteira chorava e chorava, enquanto uma garotinha, também chorando, desfiava seu calvário. A qualquer hora do dia ou da noite, durante dias, esse foi o único - e quando eu digo que foi o único, não estou exagerando - assunto veiculado pela imprensa local.

Jamais eu tinha visto mudança tão repentina. Literalmente da noite para o dia, não se viu mais ninguém tocar na questão do Tibete, e defender o boicote às Olimpíadas e protestar contra o regime chinês passou a ser visto, inclusive fora da China, como um escárnio e uma ofensa gravíssima à memória dos mortos e feridos, um verdadeiro sacrilégio. Graças à essa tragédia providencial, tive a oportunidade de presenciar uma aula de manipulação política por parte de uma ditadura totalitária, que se apropriou da dor de milhares de pessoas para sair ainda mais fortalecida e justificar-se perante o mundo.

Para muita gente na esquerda, o regime chinês seria uma prova de que o comunismo pode dar certo. Eu acho justamente o contrário. Não dá para negar que a população chinesa vive hoje em muito melhores condições do que durante a ditadura de Mao - até porque nada poderia ser pior do que a ditadura de Mao -, inclusive em termos políticos. Mas isso não se deve ao comunismo. É, sim, mérito do capitalismo, que, mesmo em sua forma "socialista" ou "à chinesa", traz em si o germe de importantes avanços, tanto econômicos como sociais. Ainda há alguma pobreza, principalmente no interior, e cheguei a ver mendigos nas ruas. Mas, graças à política de abertura e às reformas, cada vez mais o passado de pobreza dos chineses vai sendo deixado para trás. Nas últimas três décadas, 300 milhões de chineses saíram da miséria. No dia em que 1,3 bilhão de chineses puderem expressar suas opiniões e escolher livremente seus governantes, muito mais gente será beneficiada, com certeza.

A China está na moda. Todo mundo está falando no país. Muitos enxergam nele a potência do futuro, que em breve será capaz de desbancar os EUA, cujo poder estaria (pela milionésima vez) declinante. Duvido muito que isso venha a acontecer nos próximos anos, assim como discordo fortemente da idéia de que o "modelo chinês", por sua eficiência econômica, poderia servir de exemplo para outros países. A menos que se considere esse modelo uma tábua de salvação para ditaduras fracassadas, como a dos irmãos Castro em Cuba, a idéia de copiar o sistema chinês me parece um retrocesso. Um passo atrás rumo a uma época em que democracia e direitos humanos, por exemplo, eram apenas um sonho.

quarta-feira, junho 11, 2008

OBAMA, O LULA AMERICANO


Pergunta: um Obama branco e loiro teria o mesmo sex-appeal?
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Se eu fosse norte-americano, eu não votaria em Barack Obama. Os motivos são os seguintes:

Demagogia racial - Embora se apresente como um candidato multirracial, buscando a todo custo evitar o discurso militante, Obama, o primeiro político negro - para os padrões dos EUA, entenda-se, porque por estas bandas ele está mais para mulato - a concorrer por um grande partido à presidência dos EUA, deve suas chances de chegar à Casa Branca, pelo menos até o momento, principalmente àquilo que ele pede que não notem nele - a cor da pele. Nos EUA, o fato de ser negro ou pertencer a alguma minoria étnica ou racial é tão importante para um político quanto é a origem social no Brasil. Em termos puramente de propostas políticas, Obama não se distingue muito (com algumas exceções importantes em política externa, como veremos) do candidato rival, o republicano John McCain. O que o diferencia é o tom de sua epiderme. Assim como o que distinguia Lula de José Serra ou de Geraldo Alckmin não eram as idéias (até porque estas sempre faltaram ao Molusco), mas sobretudo o fato de Lula vir de berço pobre e de uma infância sofrida. Foi isso, além de uma visão messiânica e paternalista, o que garantiu as duas eleições de Lula à presidência da República. Se fosse branco, será que Obama teria as mesmas chances de chegar à presidência?

Nos EUA, ao contrário do sexo (Hillary Clinton) e da raça (Obama), a origem social dos candidatos conta muito pouco para a construção da imagem do político. Lembrem-se do embate entre Richard Nixon e John Kennedy, o primeiro a ser televisado, em 1960. Ao contrário de Kennedy, filho de um miliardário que fez fortuna com negócios com a Máfia durante a Grande Depressão, e que jamais precisou trabalhar um dia sequer na vida, Nixon vinha de família modesta (seu pai era dono de um posto de gasolina na Califórnia), estudou numa universidade obscura e teve de ralar muito - e mentir muito - para ascender na política. Apesar dessa discrepância social, os americanos preferiram e preferem até hoje o filhinho-de-papai ao self-made-man. Em grande parte, o motivo era o próprio Nixon, um sujeito sem o menor charme, bem diferente do bonitão Kennedy. Mas isso revela bastante sobre como funciona a mente do eleitor americano. No debate de 1960, Nixon foi triturado. Não porque não tivesse as melhores propostas, mas porque tinha uma imagem ruim no vídeo. Assim como Serra em comparação a Lula, por exemplo. Não por acaso, Obama já está sendo apresentado como o "Kennedy negro".

Falta de clareza - Assim como utiliza a cor da pele como trunfo eleitoral, o candidato democrata usa e abusa de outra vantagem em relação a McCain - o gogó. Convenhamos, o sujeito é um mestre da oratória. Nisso ele também se aproxima do atual presidente brasileiro. O que lhe sobra em carisma - dado pela raça, é bom que se diga - e em talento oratório lhe falta, porém, em clareza. Seu lema de campanha se resume a uma só palavra - change ("mudança") - e suas idéias, num conjunto de frases de efeito e lugares-comuns ("if you're ready for change..."). O que significa exatamente essa tal "mudança" prometida permanece uma incógnita. Obama se esforça para transmitir uma imagem de político equilibrado, de bom-moço comprometido com as boas causas da humanidade, crítico ao legado dos anos Bush etc. Mas sem agredir ninguém, sem ofender ninguém, na linha "Obaminha paz e amor" (lembram?). Nessa linha, ele já rompeu publicamente com o pastor da igreja que freqüentou durante mais de vinte anos, Jeremiah Wright, por este ter feito declarações racistas (contra os brancos). Que ele só o tenha feito agora, quando as declarações arrepiantes foram amplamente divulgadas, é algo que dá o que pensar sobre a honestidade de suas palavras... Além disso, suas propostas para a política externa norte-americana são, digamos, pouco convencionais. Por exemplo, Obama já anunciou que sentaria para negociar com os irmãos Castro, e que toparia conversar até com Ahmadinejad, o maluco que manda no Irã dos aiatolás e já jurou varrer Israel do mapa. Diante das críticas negativas, voltou atrás em suas declarações. Para quem se diz um moderado extremo, ou um extremista da moderação, convenhamos, é algo muito estranho, além de não transmitir muita confiança.

Inexperiência - Outro ponto que aproxima Obama de Lula, antes de este último ser eleito para seu primeiro mandato presidencial, em 2002. No Brasil, isso não costuma contar muito, pois nos acostumamos a valorizar outros quesitos - a "juventude", por exemplo, vista como sinônimo de "renovação" -, enquanto a experiência é geralmente associada à corrupção e ao fisiologismo. Os americanos, porém, sempre pragmáticos, valorizam a experiência. Pois bem. McCain é um político experiente, e tem uma história de vida que, para nós pode ser um anátema, mas pelo menos para os americanos, é bem impressionante - já era prisioneiro de guerra no Vietnã quando Obama mal saíra das fraldas. E quanto a Obama, que experiência ele tem? Que outra credencial ele possui para querer governar a maior potência do planeta? Resposta: a cor da pele.

Pelos motivos elencados acima, toda essa onda com a candidatura Obama - "o primeiro negro com chances reais de chegar à presidência dos EUA" etc. etc. - não me comove. Sei que não estou sozinho nessas ponderações. Muita gente no Brasil, e inclusive no Itamaraty, deseja secretamente que McCain ganhe - os republicanos são tradicionalmente menos protecionistas em assuntos de comércio exterior -, mas, por alguma razão insondável, não ousam externar essa opinião. Mais uma vez, agradeço aos céus por eu não ser político.

Sempre tive uma desconfiança quase instintiva em relação a políticos que usam a raça ou a origem social como um trampolim para suas ambições eleitorais, e que abusam do bom-mocismo para parecerem confiáveis. Confesso que torci para que o indicado pelo Partido Democrata não fosse Hillary Clinton, pois não agüento aquele sorriso forçado, sem falar na discurseira feminista politicamente correta (ainda por cima nos EUA? Deus me livre!). Mas nem por isso vou me deixar levar pela obamamania. Tem toda a pinta de ser mais uma tapeação, como foi, nos anos 90, Bill Clinton e seu charuto erótico. Caetano Veloso disse em entrevista ao Estado de S. Paulo que acha Obama "charmoso, bonito e bacana". Como deve achar Lula e Mangabeira Unger, para quem já fez campanha.
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Por tudo isso, eu não votaria em Obama, assim como jamais votarei num candidato do PT. Obama não me engana. É o Lula americano.

terça-feira, junho 10, 2008

Chávez e as FARC, as FARC e Chávez...


No domingo passado, o bufão que ora atende como presidente da Venezuela, coronel Hugo Chávez, conclamou as FARC a libertar todos os reféns que mantêm em seu poder e em abandonar a luta armada. A declaração surpreendeu a muitos, que, tomados de uma onda irreprimível de otimismo e wishful thinking, acreditaram piamente que o ditador caraquenho, que sempre apoiou os narcoterroristas colombianos, estaria sinceramente interessado no bem-estar dos reféns e no fim do conflito na Colômbia. Mais: que ele, Chávez, poderia ser o mediador que ajudaria a pôr um ponto final em mais de quarenta anos de guerra civil no país vizinho.

Certamente, é assim que Chávez gostaria de ser visto, e é com esse objetivo em mente que ele fez sua declaração. Mas não se deixem enganar. É mais um truque do fanfarrão de Caracas, pelo qual ele espera, mais uma vez, ludibriar os incautos.

O recuo estratégico de Chávez não se deve a nenhum gesto de boa vontade de sua parte, nem a qualquer atitude de bom senso - o que seria, aliás, algo inusitado em se tratando de alguém como ele, que já mandou a democracia às favas na Venezuela. Deve-se, isto sim, ao reconhecimento de que um aliado seu, os narcobandoleiros das FARC, estão em maus lençóis. O responsável por isso não é outro senão Álvaro Uribe, o Presidente colombiano que não tem medo nem compactua com traficantes e terroristas, nem com os demagogos que lhes dão apoio. Nos últimos meses, as FARC sofreram os mais duros golpes em sua história criminosa, tendo perdido, em questão de dias, seus mais importantes chefes, inclusive o chefão, Manuel Marulanda, que foi fazer guerrilha ao lado do capeta. Desde que o exército da Colômbia despachou o número dois das FARC, Raúl Reyes, e divulgou o conteúdo das mensagens de seu laptop, os laços entre Chávez e seu pupilo Rafael Correa do Equador com os narcoterroristas colombianos tornaram-se inegáveis. Diante disso, normal que Chávez esteja preocupado e queira mudar o discurso, tentando distanciar-se - ao menos retoricamente - dos atentados e seqüestros.

Eu falei mudar o discurso? De jeito nenhum. Chávez não está mudando o discurso sobre as FARC coisa nenhuma. Para ele, elas continuam a ser uma "força beligerante", e não o bando de criminosos que de fato são. Para Chávez, as FARC são um importante aliado, e vice-versa, ambos fazem parte do mesmo "projeto bolivariano". Ele gostaria de ver as FARC elevadas a partido político. Não tendo mais o poder de fogo para ameaçar a democracia colombiana e tomar o poder pela força, as FARC deveriam, segundo Chávez, depor as armas e lançar-se às eleições. Como uma organização política legítima, vejam bem. Isso quer dizer que, se as FARC estivessem em plena ofensiva e o governo de Álvaro Uribe estivesse de joelhos, Chávez estaria aplaudindo a guerrilha e torcendo para a queda do governo constitucional colombiano. Como não pode fazê-lo, pois as FARC andam mal das pernas, não lhe resta outra saída senão pedir que deixem de lado as armas. Afinal de contas, guerrilha para quê, se se pode tomar o poder pelas urnas, como ele e outros, como Lula, fizeram? Mais interessante é usar os próprios instrumentos da democracia para miná-la por dentro, em vez de simplesmente querer detoná-la na marra. Para tanto, os companheiros dispõem de um aparato gigantesco de propaganda a seu serviço, que inclui jornalistas comprados e, claro, o Foro de São Paulo. É nesse sentido que devem ser interpretadas suas palavras.
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Por coincidência (?), no mesmo dia da exortação de Chávez a seus companheiros bolivarianos das FARC, dois militares venezuelanos foram presos na Colômbia tentando negociar a venda de armas às FARC. É mais uma prova do apoio material de Caracas aos narcoterroristas colombianos. Terá sido mesmo coincidência que Chávez tenha feito sua declaração aparentemente apaziguadora neste exato momento?

Não se enganem com Chávez. Como ex(?)-golpista e militar, ele sabe que a tática de guerrilha pressupõe uma boa dose de engano e dissimulação. Nisso, ele é um mestre. Assim como seus companheiros petistas.

segunda-feira, junho 09, 2008

Novidades no Blog

Já está aberta, desde a última sexta-feira, a enquete do Blog. O assunto da primeira é "O que leva alguém a ser de esquerda?". Opinem sobre o tema. A votação encerra dia 13.
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Também nos últimos dias, acrescentei mais um link na sessão "sites interessantes": o "Generación Y", de Yoani Sánchez. Yoani é uma cubana pioneira de 31 anos que, corajosamente, resolveu criar um blog pessoal, desafiando a censura governamental no país dos hermanos Castro. Apesar de todo tipo de pressão por parte das "otoridades" da ilha, o blog de Yoani tornou-se um dos mais acessados da internet e ela foi eleita recentemente, pela revista Time, uma das 100 pessoas mais influentes do planeta. É uma excelente oportunidade de conhecer um pouco do cotidiano na ilha, bem diferente da visão cor-de-rosa e deformada que costuma chegar até nós por intermédio dos apologistas esquerdistas da castradura cubana. Eu recomendo.

sexta-feira, junho 06, 2008

Dilma e as FARC, as FARC e Dilma...


Apenas para terminar a semana. Nada a acrescentar.

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Dilma e as Farc

por Diogo Mainardi,

Veja 05 Jun

Em minha última coluna, informei que a mulher de Olivério Medina, o representante das Farc no Brasil, foi contratada pelo governo Lula. Isso aconteceu em dezembro de 2006, quando o marido dela ainda estava preso em Brasília, à espera do julgamento no STF. Uma reportagem do jornal Gazeta do Povo mostrou que a mulher de Olivério Medina foi cedida pelo governo do Paraná a pedido de Dilma Rousseff. Epa, epa, epa! Pode repetir? Posso sim. Com prazer. De acordo com um documento reproduzido pela Gazeta do Povo, e que pode ser acessado aqui, Dilma Rousseff requisitou pessoalmente ao governador do Paraná a transferência da mulher do preso das Farc. Uma dúvida: a ministra da Casa Civil demonstra esse mesmo interesse por todos os servidores de terceiro escalão?

O deputado Rodrigo Maia pediu esclarecimentos sobre o caso. O senador Arthur Virgílio, por sua vez, encaminhou um requerimento ao Ministério da Pesca. Até agora, o governo Lula só emitiu uma nota sobre o assunto, prometendo me processar. É a escala de valores dessa gente: Olivério Medina - "el Pancho" - solto, e Diogo Mainardi - "o Pança" - condenado. Em sua nota, a assessoria de imprensa do Ministério da Pesca confirmou todos os dados relatados em minha coluna. Negou apenas que pudesse haver um elo entre o governo e as Farc. Eu ficaria muito surpreso se alguém admitisse o contrário.

O Brasil tem 50.000 assassinatos por ano. Isso é o que importa quando se trata das Farc. Ignore a retórica esquerdista. Ignore a mística guerrilheira. Concentre-se no essencial. E o essencial é o tráfico de drogas. O Brasil é um grande mercado consumidor das drogas produzidas nos territórios dominados pelas Farc. O Brasil é também um grande entreposto para o seu comércio internacional. O lulismo tenta passar a idéia de que as Farc dizem respeito apenas à Colômbia. E, marginalmente, à Venezuela e ao Equador. Mentira. O Brasil entra na guerra com sua monumental cota de assassinatos relacionados com o consumo e com o tráfico de drogas, e com todos os crimes que podem ser associados a eles: assaltos, contrabando de armas, jogo ilegal, lavagem de dinheiro. Cada um de nós, indiretamente, já foi assaltado pelas Farc. Cada um de nós conhece alguém que foi assassinado pelas Farc.

Minha pergunta é a seguinte: um governo que contrata a mulher de um membro das Farc, com a ajuda direta da ministra da Casa Civil, em documento assinado por ela, demonstra estar solidamente empenhado no combate ao tráfico de drogas? Aguardo a resposta. O crime organizado contamina a política. Há uma série de sinais nesse sentido, do caso do ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro, que acaba de ser preso, aos atentados do PCC na última campanha presidencial, que afundaram a candidatura de Geraldo Alckmin; dos inquéritos sobre os perueiros, na campanha à prefeitura paulistana, ao pedido de propina de Waldomiro Diniz ao dono de um bingo. O governo Lula considera perfeitamente legítimo contratar, para um cargo de confiança, a mulher de um criminoso internacional preso por pertencer a um grupo que pratica o terrorismo e o tráfico de drogas. Eu respondo lembrando os 50.000 assassinatos por ano. Sabe como é: na guerra entre os traficantes de drogas e a lei, os mortos escolheram o lado errado.

quinta-feira, junho 05, 2008

TODOS IGUAIS UMA OVA!


E lá vamos nós de novo...

Outro escândalo de corrupção envolvendo gente graúda do governo petralha (qual seria? o centésimo? o milésimo? já até perdi a conta...) estourou esta semana. Desta vez, a mutreta diz respeito à venda da Varig, que, segundo a ex-diretora da ANAC, a charuteira (lembram dela?), teve o dedo da Casa Civil da Presidência da República, chefiada pela companheira Dilma Rousseff, para beneficiar um grupo estrangeiro (norte-americano, o que prova que, na hora da maracutaia, os companheiros petistas não têm nenhum preconceito ideológico). O tal grupo, com uma mãozinha de Dona Dilma, arrematou a falida por 24 milhões para revendê-la por - apenas - 320 milhões... O imbróglio envolve ainda um advogado amigão do peito dele, claro, a ratazana-mor, Lulla. A história toda, que é sórdida como todos os demais casos envolvendo a petralhada, foi revelada ontem pelo Estado de S. Paulo, e pode ser lida aqui: (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080604/not_imp183508,0.php)

Sim, e daí?, muita gente deve estar se perguntando. Afinal, é só mais um, entre tantos casos de roubalheira semelhantes, como o caso Waldomiro Diniz, o mensalão, o valerioduto, os dólares na cueca, os sanguessugas, Celso Daniel, Lulinha, Palocci, os aloprados, a farra dos cartões corporativos... e um longo etcétera, que desde 2003 vêm se sucedendo com regularidade quase monótona. Todos esses casos foram plenamente denunciados, divulgados, debatidos, documentados e esquecidos. Outros virão, com certeza. E todos eles, deram em quê?, é a pergunta que muitos se fazem. Nesse caso, também, vai acontecer alguma coisa? Alguém irá para a cadeia? O Grande Molusco vai ser finalmente desmascarado e expulso da vida pública? Os petralhas pagarão por mais esse delito contra os cofres públicos? E a oposição, vai sair de seu estado letárgico e finalmente assumir-se como oposição e exigir a cabeça do grande responsável? Claro que não. Todos sabem como essa novela vai acabar: de forma melancólica, com mais uma CPI que vai dar em pizza, como a dos cartões corporativos, que a petralhada esforçou-se para - e conseguiu - enterrar há alguns dias. Afinal, como disse o Molusco em pessoa naquela entrevista em Paris em 2005: são todos iguais, não são?

Não são, não! Aí é que está. Não dêem ouvidos a mais essa lorota. Os petralhas não são iguais aos outros. São piores. Muito piores.

Durante mais de duas décadas, os petistas e seus aliados se esforçaram para convencer a todos que eram diferentes. Que, em meio à corrupção e ao cinismo gerais, eram puros, imaculados, santelmos, angelicais. Pegos com a boca na botija, tratam de dizer que são iguais aos outros. Nisso, são coerentes com os métodos tradicionais da esquerda. Uma das formas encontradas pelos esquerdistas de desmoralizar seus adversários é acusá-los pelo que eles mesmos fazem, chamá-los do que eles próprios são. Desse modo, procuram passar-se por diferentes. É assim que os esquerdistas agem quando estão na oposição, e foi assim que os petistas agiram durante quase um quarto de século, quando o poder parecia longe. Outra forma é apelar para o discurso exatamente oposto, admitindo que "todos fazem igual" e que eles, os esquerdistas, não se diferenciam em nada, portanto, dos demais políticos. É assim que os esquerdistas fazem: quando na oposição, buscam ideologizar a corrupção, mostrando-a como " de direita"; no poder, tentam desideologizá-la. Se são pedra, mostram-se como diferentes e são implacáveis com a corrupção alheia. Se são vidraça, são iguais e pedem condescendência com suas falcatruas...

A corrupção de esquerda não é igual à corrupção de direita. Atrevo-me a dizer que é pior, muito pior. Assim como as ditaduras de esquerda são piores do que as de direita, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto, sem o risco de ser chamado por isso de vendido ou traidor, a corrupção de esquerda é muito mais funesta, muito mais canalha. Uma coisa é uma prostituta tarimbada e conhecida, de quem não se espera nada virtuoso, apenas grossas sacanagens. Outra, muito diferente, é uma puta velha que passou a vida inteira arrotando virtude e fingindo-se de vestal, afetando uma falsa pureza de carmelita descalça. Nunca vi um corrupto do DEM ou do PP usando seu passado de ex-preso político e torturado pelo regime militar, por exemplo, como um álibi para justificar a feitura de dossiês e outras maracutaias semelhantes. Esses gatunos, quando pegos em flagrante, tentam sair-se com desculpas bem mais convencionais, como "não há provas", ou claramente estapafúrdias, como "Deus me ajudou e eu fiquei rico". As desculpas dos larápios de esquerda, por sua vez, são, por assim dizer, mais sofisticadas: "é uma conspiração das elites e da mídia", ou então "não vi nada, não sei de nada". Esgotadas as desculpas esfarrapadas, sempre poderão salpicar um "todos fazem igual", e muita gente cairá na esparrela... Os esquerdistas sempre terão mais desculpas, pois sabem que sempre haverá mais parvos dispostos a acreditar em suas mentiras do que nas dos outros.

Há outra forte razão para dizer que a corrupção dos petralhas é pior. Parafraseando o Grande Molusco, "nunca na história deste país" um governo sustentou-se tanto no saque do suado dinheiro público. Que o governo Lulla é o governo do mensalão, disso todos já sabem, já virou um lugar-comum. Mas não apenas do mensalão dos deputados, aquele dos 30 mil reais por mês, mas, sobretudo, dos mensalões, no plural. Esse esquema não se restringiu à Câmara dos Deputados. Há um mensalão para cada setor da sociedade, para todos os gostos e até para todos os bolsos. Assim como houve o mensalão dos deputados, há o PAC, o mensalão dos empresários (vide Gautama). Há também a indústria das indenizações milionárias a terroristas e outros supostos ou reais perseguidos pela ditadura militar, um verdadeiro mensalão da História ou Bolsa-Terrorismo. E há o Bolsa-Família, o mensalão dos pobres. Estes, agradecidos ao papai Lulla e à mamãe Dilma, não se importam em vender seus votos, contentes em serem reduzidos a clientes do lulo-petismo e estadodependentes. O mensalão, é bom lembrar, foi elaborado nos porões do Palácio do Planalto como um bom "cala-boca" da oposição, uma forma de comprar o apoio, ou pelo menos o silêncio, dos parlamentares. Pois bem. Os bilhões do PAC e os 172 reais do Bolsa-Família, assim como os milhões das indenizações, são o "cala-boca" que Lulla e os companheiros bolaram para garantir o apoio e a cumplicidade de uma nação bestificada e anestesiada pela safadeza e pela sem-vergonhice institucionalizadas. Dar dinheiro tornou-se o veículo principal de poder dos petistas. Os petistas passaram anos pregando a necessidade de distribuir renda. O mensalão é a forma por excelência de distribuição de renda dos petistas.

O discurso lulista sobre o caso das pressões do Planalto na venda da Varig já está pronto. Já posso até vislumbrar o que vem daqui para a frente. Primeiro, vão tentar desqualificar a denunciante, não a denúncia, como já fizeram outras vezes (lembram do caseiro do Palocci?). Assim, já começaram a dizer que ela só resolveu botar a boca no trombone por estar "ressentida" - a própria Dona Dilma já deu entrevista dizendo estranhar a atitude da ex-companheira, por quem, disse naquele seu estilo caracteristicamente sinistro, nutria uma "razoável consideração"... Como se Pedro Collor e Roberto Jefferson também não estivessem ressentidos (é preciso que alguém de dentro abra a boca e chute o balde para que toda a podridão dos companheiros venha à tona). Em seguida, vão mover mundos e fundos - principalmente, fundos - para tentar "blindar" a proclamada mãe do PAC, inventando algum funcionário obscuro de terceiro ou quarto escalão que, por um "erro" - petralhas jamais cometem crimes, apenas "erros" -, deixou vazar a informação para a imprensa (o "verdadeiro" delito, como ficou claro no caso do dossiê). Paralelamente, vão acionar a imprensa comprada, que vai tratar de reproduzir a ladainha de que é tudo conspiração da "zelite" etc., e de jogar poeira no rosto do público, "descobrindo" algum escândalo de corrupção envolvendo algum político do PSDB... Enquanto isso, mobilizam a tropa de choque no Congresso, com uma ajudinha, talvez involuntária, dos deputados e senadores acovardados de "oposição" que, de olhos nas próximas eleições e nas pesquisas, vão tentar salvar a pele do comandante... Principalmente, vão fazer tudo para blindar o chefe da quadrilha, aquele mesmo que disse que caixa dois é normal, pois todo mundo faz... E assim, igualados todos na mesma sujeira, indistinguíveis em meio à lama da corrupção generalizada, os petralhas vão livrar a cara de seus chefes mais uma vez. Pelo menos, até que alguém perceba que, por trás da roubalheira, está uma ideologia. Iguais, uma ova!

Já afirmei que Lulla é um farsante e um mito político que só se elegeu e reelegeu graças à permanência de uma mentalidade messiânica e paternalista entre a população, que remonta ao que há de mais atrasado e retrógrado em nossa formação histórica defeituosa. Afirmaram que eu estava errado, e não me deram crédito. Já escrevi que Lulla é pior que Collor, ou qualquer outro picareta do gênero que já ocupou a cadeira de presidente da República no Brasil. Fui tido como louco. Já apontei que o crime e a mentira são inerentes aos métodos e aos objetivos da esquerda. Não me deram ouvidos. Agora digo que os corruPTos de esquerda são os piores de todos.