segunda-feira, junho 16, 2008

Falácias sobre os "anos de chumbo" no Brasil

O texto a seguir, de autoria do historiador Marco Antonio Villa, foi publicado em 19/05/2008 na Folha de S. Paulo. Transcrevo-o na íntegra. No próximo post, vocês vão entender por quê.

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MARCO ANTONIO VILLA
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Militantes de grupos de luta armada criaram um discurso eficaz. Quem questiona "vira" adepto da ditadura. Assim, evitam o debate
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A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
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Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
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O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva. Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.
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Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
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Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
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Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
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Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
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Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo. O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
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O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão. Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
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MARCO ANTONIO VILLA, 51, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor, entre outros livros, de "Jango, um perfil".

Resultado da enquete do Blog

A primeira enquete do blog encerrou-se na sexta-feira, dia 13. A pergunta era: "O que leva alguém a ser de esquerda?" O resultado: para 42% dos que votaram, é a imaturidade. Para 28%, é o tédio ou a moda. 14% responderam que é a ignorância ou a vontade de fazer novas Cubas ou Coréias do Norte.
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Agradeço a todos que participaram. Em breve, mais uma enquete será postada no blog.

quinta-feira, junho 12, 2008

CHINA - IMPRESSÕES DE VIAGEM


Publiquei um monte de textos desde que voltei e ainda não escrevi nada sobre minha viagem à China, algumas semanas atrás...

Tenho uma boa desculpa para isso. Além do fato de haver muita coisa que eu gostaria de escrever e dispor de pouco tempo livre para o blog, não sou muito fã de relatos de viagem, assim como não gosto muito de textos memorialísticos. Esse gênero de literatura, com algumas exceções, sempre esteve longe de ser o meu preferido. Além disso, a veracidade de um relato desse tipo, por seu caráter subjetivo, é bastante duvidosa - tomemos o exemplo da obra clássica de Marco Pólo, referência durante séculos para viajantes e historiadores sobre a China, e que no entanto não faz qualquer menção à Grande Muralha... As impressões de viagem, a exemplo das memórias, sempre sofrerão de um excesso de subjetivismo, de uma superficialidade inevitável, que o pouco tempo em que geralmente se passa num país - no meu caso, duas semanas - só faz exacerbar. Mas vamos lá.

Fui à China para participar de um curso para jovens diplomatas latino-americanos, oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores chinês. Como convidado do governo, portanto. O curso dividiu-se numa parte basicamente acadêmica, composta de palestras sobre os mais diversos temas referentes à China (civilização, estrutura política, economia, relações exteriores, etnias etc.) e em outra, digamos, cultural, que incluiu visitas a alguns dos principais pontos turísticos nacionais, como a Grande Muralha e a Cidade Proibida. No final, ainda houve uma viagem de cinco dias à província de Guangxi, no sul do país, onde visitamos as cidades de Nanning e Guilin.

A primeira coisa que se nota na China, depois de um vôo de mais de 15 horas pela rota Brasília-Rio de Janeiro-Paris-Pequim, é o céu. Ou melhor: a ausência de céu. Tirando um dia em que visitamos a Cidade Proibida, o céu de Pequim - e, logo descobri, de quase todas as cidades do país - é coberto por uma densa nuvem de poeira, um smog, produto da poluição. De dia, isso impede de se ver o sol - sabe-se que ele está lá, pelo calor que ele emana, mas não adianta tentar visualizá-lo: ele não passa de uma mancha no céu cinzento. À noite, não é diferente: olha-se para o céu, a lua aparece timidamente, mas as estrelas simplesmente desaparecem. Somente num lugar eu tinha visto algo parecido antes - em São Paulo -, e mesmo assim, como soube depois, esse fenômeno só ocorre em alguns dias ao ano, e não em toda a cidade. Em Pequim - ou Beijing, como preferem os chineses -, é em todo lugar, o tempo todo.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de prédios em construção na capital chinesa. Símbolos da prosperidade galopante do país, que cresce há anos a taxas de cerca de 10% anuais, as edificações se multiplicam em Pequim como cogumelos brotando do chão. Para onde quer que se vá, há operários trabalhando. Até durante a noite, em uma zona de restaurantes e boates, aonde os turistas vão para se divertir, vi tratores funcionando a pleno vapor. O país, de fato, está passando por um momento de desenvolvimento acelerado. O que não é o suficiente para mudar certos hábitos fortemente arraigados entre a população, como pude perceber. Por exemplo: os chineses - homens e mulheres, jovens e velhos - têm o péssimo costume de escarrar em qualquer lugar, para espanto dos visitantes estrangeiros...
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Mas o que mais me atraiu na viagem, o verdadeiro motivo que me levou a aceitar o convite para fazer o tal curso, foi a possibilidade de conhecer, pela primeira vez, um país comunista.

Sim, a China é um país comunista. Mesmo que tenha adotado, há exatos trinta anos, uma política econômica na prática capitalista; mesmo que já estejam longe os tempos da Revolução Cultural maoísta; mesmo que se veja sinais de economia de mercado em toda parte; mesmo que os chineses sejam doidos por dinheiro e extremamente consumistas - os jovens chineses, por exemplo, estão se lixando (com toda razão, aliás) para o comunismo: querem mais é curtir a vida e as delícias do capitalismo -; mesmo que o país seja hoje um dos principais parceiros comerciais do Brasil e dos EUA; mesmo que os retratos de Mao Tsé-Tung e de Marx e Lênin sejam cada vez mais raros, sendo substituídos por outdoors gigantescos de marcas de grife ocidentais, e mesmo que os próprios comunistas chineses sejam os primeiros que aparentem não levar a ideologia marxista a sério, a China continua a ser comunista. Voltei de lá com essa convicção reforçada, assim como mais forte ficou minha conclusão de que o comunismo, seja que forma vier a assumir, é um sistema político nefasto e desumano, incompatível com a dignidade humana.

À primeira vista, um sistema político comunista e um sistema econômico capitalista seriam uma contradição em si. Mas não é bem assim. Desde o colapso dos regimes marxistas do Leste Europeu e o fim da URSS, em 1991, o que se entende por comunismo nada mais é do que a concentração de poder nas mãos de uma minoria de burocratas. Pouco importa se o sistema econômico for, na prática, capitalista (os chineses preferem dizer "socialismo de mercado" ou "à chinesa"...); o importante é que propicie a continuidade do poder da nomenklatura. Nisso, o regime chinês parece ter achado um ponto ideal. Depois de anos de desastres econômicos, como o Grande Salto Adiante do começo dos anos 60 (mais de 30 milhões de mortos) e a calamidade da Grande Revolução Cultural Proletária (1966-1976), a liderança do Partido Comunista Chinês descobriu o óbvio e resolveu se livrar de vez dos delírios e imposturas marxistas na economia, mantendo intacto o regime político. "Não importa a cor do gato, desde que ele pegue o rato", é a famosa frase de Deng Xiao-Ping, o principal arquiteto das reformas econômicas na China a partir de 1978. Desse modo, o país se encaminhou para uma economia capitalista, trocando os ensinamentos do camarada Mao por toda sorte de bugigangas. De uma ditadura brutal maoísta, com isolamento político e economia totalmente planificada, a China passou a uma ditadura brutal colegiada, com abertura econômica para o mundo. Não por acaso, uma das características da cultura chinesa é "salvar a face" - pelo que eu entendi, uma forma bastante cínica e hipócrita de manter as aparências.

Claro que essa transição não se deu sem conflitos. O principal desafio dos burocratas do Partido Comunista era livrar-se do legado maoísta. Foi preciso esperar a morte do Grande Timoneiro, em 1976, e a prisão, logo depois, da "Gangue dos Quatro" - que incluía a viúva de Mao, que se suicidou na prisão -, para que as reformas começassem a ser implementadas. Ainda assim, era necessário manter o mito. Os símbolos do regime foram mantidos, e a memória de Mao permanece discretamente cultuada pelo Partido. Um enorme retrato seu continua enfeitando a Praça Tianamen, no centro de Pequim, embora os chineses cada vez mais ressaltem seus "erros" (os mais de 70 milhões de mortos pelo comunismo na China não são vistos como crimes...). No centro de Pequim, em meio às quinquilharias que costumam empurrar para os turistas, ambulantes vendem souvenires como o Pequeno Livro Vermelho e camisetas com a estampa de Mao (vi até mesmo um sujeito vendendo "relógios de Mao"). Em outras palavras: o regime se beneficia do mito criado em torno do falecido ditador, mas mantém uma prudente distância do mesmo. E ainda aproveita para faturar em cima.

Esse distanciamento gradativo da figura e do "pensamento do presidente Mao" veio acompanhado de um retorno às origens culturais da China. Mais especificamente, a tradição confuciana, que os Guardas Vermelhos tentaram destruir durante a Revolução Cultural, passou a ser retomada, e hoje constitui, ao lado do marxismo, a base filosófica do regime. De certa forma, Confúcio assumiu o lugar de Mao e de Marx, sem os ter substituído por completo. Não é por menos: afinal, o confucionismo valoriza sobretudo a hierarquia, a disciplina e a autoridade - dos pais, dos mais velhos, dos governantes (principalmente dos governantes). Cai como uma luva, portanto, para justificar a ditadura comunista. Esta, aliás, também encontrou um jeito bem malandro de se legitimar: em uma das palestras, foi-nos explicado que existem oito partidos políticos com representação no Parlamento chinês - "sob a direção do Partido Comunista". Ah, bom.

Todas essas tentativas, algumas bem-sucedidas, de "salvar a face" do regime, e que incluem uma rígida censura governamental aos meios de comunicação, não são suficientes, porém, para camuflar a realidade. Por mais que se queira escondê-la, esta sempre dá um jeito de se esgueirar pelos cantos, achando uma fresta por onde possa aparecer. Na China, como sabemos, certos assuntos são tabus. Direitos humanos e Tibete, por exemplo. Mas aqui também os chineses encontraram uma fórmula interessante. Durante uma das palestras, um dos ouvintes levantou a questão dos direitos humanos, e inclusive citou o caso do Tibete. O palestrante, aliás um professor universitário que padecera cinco anos de prisão na época da Revolução Cultural, foi taxativo em sua afirmação de que na China os direitos políticos e civis eram plenamente respeitados. E quanto aos militantes pelos direitos humanos e os defensores da independência do Tibete? "Estes são dissidentes", respondeu na bucha o professor... Não surpreende, assim, que em sua política externa a China seja a principal aliada de algumas das piores ditaduras do mundo, como a do Sudão, de Mianmar e da Coréia do Norte.

Assim como não causa surpresa que a censura seja algo tão presente na vida dos chineses. Censura e consumo desenfreado, aliás, não estão em contradição. Fui a uma livraria em Pequim, pelo que me disseram uma das maiores da cidade. Na seção de línguas estrangeiras, num canto acanhado do segundo andar do prédio enorme, ao lado de uma pilha de livros técnicos e dicionários, alguns poucos titulos em inglês: Dickens, Melville, Bronté, H.G. Wells... E só. O primeiro andar, por sua vez, estava cheio de livros em chinês. Mesmo sem entender nada da língua, pude perceber do que a maioria deles tratava: alguns poucos livros históricos e centenas de manuais de negócios na linha "fique rico logo". Após ter comprado, como lembrança, uma edição bilíngüe inglês-chinês dos Analectos, de Confúcio, saí de lá decepcionado.

O poder da censura e da manipulação da informação em um país como a China é algo realmente impressionante. Dias antes de minha viagem, o país estava nas manchetes por causa da repressão às manifestações pela independência do Tibete e, conseqüência direta desta, dos protestos contra o governo chinês durante a passagem da tocha olímpica em várias cidades ao redor do mundo. Chegou-se mesmo a se falar de boicote às Olimpíadas de Pequim, em agosto. Foi então que um terremoto arrasou a província de Sichuan, no sudoeste do país, e deixou mais de 60 mil mortos. Subitamente, tudo mudou. A televisão chinesa, que antes censurava os noticiários da CNN e da BBC sempre que o locutor falava em Tibete e violações dos direitos humanos, passou a transmitir, o dia inteiro, imagens da tragédia. Programas de televisão com atores e cantores entrevistavam sobreviventes do terremoto e enalteciam as virtudes das principais autoridades do país e do glorioso Exército Popular de Libertação, que acudiu prontamente ao local da tragédia. Num deles, a platéia inteira chorava e chorava, enquanto uma garotinha, também chorando, desfiava seu calvário. A qualquer hora do dia ou da noite, durante dias, esse foi o único - e quando eu digo que foi o único, não estou exagerando - assunto veiculado pela imprensa local.

Jamais eu tinha visto mudança tão repentina. Literalmente da noite para o dia, não se viu mais ninguém tocar na questão do Tibete, e defender o boicote às Olimpíadas e protestar contra o regime chinês passou a ser visto, inclusive fora da China, como um escárnio e uma ofensa gravíssima à memória dos mortos e feridos, um verdadeiro sacrilégio. Graças à essa tragédia providencial, tive a oportunidade de presenciar uma aula de manipulação política por parte de uma ditadura totalitária, que se apropriou da dor de milhares de pessoas para sair ainda mais fortalecida e justificar-se perante o mundo.

Para muita gente na esquerda, o regime chinês seria uma prova de que o comunismo pode dar certo. Eu acho justamente o contrário. Não dá para negar que a população chinesa vive hoje em muito melhores condições do que durante a ditadura de Mao - até porque nada poderia ser pior do que a ditadura de Mao -, inclusive em termos políticos. Mas isso não se deve ao comunismo. É, sim, mérito do capitalismo, que, mesmo em sua forma "socialista" ou "à chinesa", traz em si o germe de importantes avanços, tanto econômicos como sociais. Ainda há alguma pobreza, principalmente no interior, e cheguei a ver mendigos nas ruas. Mas, graças à política de abertura e às reformas, cada vez mais o passado de pobreza dos chineses vai sendo deixado para trás. Nas últimas três décadas, 300 milhões de chineses saíram da miséria. No dia em que 1,3 bilhão de chineses puderem expressar suas opiniões e escolher livremente seus governantes, muito mais gente será beneficiada, com certeza.

A China está na moda. Todo mundo está falando no país. Muitos enxergam nele a potência do futuro, que em breve será capaz de desbancar os EUA, cujo poder estaria (pela milionésima vez) declinante. Duvido muito que isso venha a acontecer nos próximos anos, assim como discordo fortemente da idéia de que o "modelo chinês", por sua eficiência econômica, poderia servir de exemplo para outros países. A menos que se considere esse modelo uma tábua de salvação para ditaduras fracassadas, como a dos irmãos Castro em Cuba, a idéia de copiar o sistema chinês me parece um retrocesso. Um passo atrás rumo a uma época em que democracia e direitos humanos, por exemplo, eram apenas um sonho.

quarta-feira, junho 11, 2008

OBAMA, O LULA AMERICANO


Pergunta: um Obama branco e loiro teria o mesmo sex-appeal?
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Se eu fosse norte-americano, eu não votaria em Barack Obama. Os motivos são os seguintes:

Demagogia racial - Embora se apresente como um candidato multirracial, buscando a todo custo evitar o discurso militante, Obama, o primeiro político negro - para os padrões dos EUA, entenda-se, porque por estas bandas ele está mais para mulato - a concorrer por um grande partido à presidência dos EUA, deve suas chances de chegar à Casa Branca, pelo menos até o momento, principalmente àquilo que ele pede que não notem nele - a cor da pele. Nos EUA, o fato de ser negro ou pertencer a alguma minoria étnica ou racial é tão importante para um político quanto é a origem social no Brasil. Em termos puramente de propostas políticas, Obama não se distingue muito (com algumas exceções importantes em política externa, como veremos) do candidato rival, o republicano John McCain. O que o diferencia é o tom de sua epiderme. Assim como o que distinguia Lula de José Serra ou de Geraldo Alckmin não eram as idéias (até porque estas sempre faltaram ao Molusco), mas sobretudo o fato de Lula vir de berço pobre e de uma infância sofrida. Foi isso, além de uma visão messiânica e paternalista, o que garantiu as duas eleições de Lula à presidência da República. Se fosse branco, será que Obama teria as mesmas chances de chegar à presidência?

Nos EUA, ao contrário do sexo (Hillary Clinton) e da raça (Obama), a origem social dos candidatos conta muito pouco para a construção da imagem do político. Lembrem-se do embate entre Richard Nixon e John Kennedy, o primeiro a ser televisado, em 1960. Ao contrário de Kennedy, filho de um miliardário que fez fortuna com negócios com a Máfia durante a Grande Depressão, e que jamais precisou trabalhar um dia sequer na vida, Nixon vinha de família modesta (seu pai era dono de um posto de gasolina na Califórnia), estudou numa universidade obscura e teve de ralar muito - e mentir muito - para ascender na política. Apesar dessa discrepância social, os americanos preferiram e preferem até hoje o filhinho-de-papai ao self-made-man. Em grande parte, o motivo era o próprio Nixon, um sujeito sem o menor charme, bem diferente do bonitão Kennedy. Mas isso revela bastante sobre como funciona a mente do eleitor americano. No debate de 1960, Nixon foi triturado. Não porque não tivesse as melhores propostas, mas porque tinha uma imagem ruim no vídeo. Assim como Serra em comparação a Lula, por exemplo. Não por acaso, Obama já está sendo apresentado como o "Kennedy negro".

Falta de clareza - Assim como utiliza a cor da pele como trunfo eleitoral, o candidato democrata usa e abusa de outra vantagem em relação a McCain - o gogó. Convenhamos, o sujeito é um mestre da oratória. Nisso ele também se aproxima do atual presidente brasileiro. O que lhe sobra em carisma - dado pela raça, é bom que se diga - e em talento oratório lhe falta, porém, em clareza. Seu lema de campanha se resume a uma só palavra - change ("mudança") - e suas idéias, num conjunto de frases de efeito e lugares-comuns ("if you're ready for change..."). O que significa exatamente essa tal "mudança" prometida permanece uma incógnita. Obama se esforça para transmitir uma imagem de político equilibrado, de bom-moço comprometido com as boas causas da humanidade, crítico ao legado dos anos Bush etc. Mas sem agredir ninguém, sem ofender ninguém, na linha "Obaminha paz e amor" (lembram?). Nessa linha, ele já rompeu publicamente com o pastor da igreja que freqüentou durante mais de vinte anos, Jeremiah Wright, por este ter feito declarações racistas (contra os brancos). Que ele só o tenha feito agora, quando as declarações arrepiantes foram amplamente divulgadas, é algo que dá o que pensar sobre a honestidade de suas palavras... Além disso, suas propostas para a política externa norte-americana são, digamos, pouco convencionais. Por exemplo, Obama já anunciou que sentaria para negociar com os irmãos Castro, e que toparia conversar até com Ahmadinejad, o maluco que manda no Irã dos aiatolás e já jurou varrer Israel do mapa. Diante das críticas negativas, voltou atrás em suas declarações. Para quem se diz um moderado extremo, ou um extremista da moderação, convenhamos, é algo muito estranho, além de não transmitir muita confiança.

Inexperiência - Outro ponto que aproxima Obama de Lula, antes de este último ser eleito para seu primeiro mandato presidencial, em 2002. No Brasil, isso não costuma contar muito, pois nos acostumamos a valorizar outros quesitos - a "juventude", por exemplo, vista como sinônimo de "renovação" -, enquanto a experiência é geralmente associada à corrupção e ao fisiologismo. Os americanos, porém, sempre pragmáticos, valorizam a experiência. Pois bem. McCain é um político experiente, e tem uma história de vida que, para nós pode ser um anátema, mas pelo menos para os americanos, é bem impressionante - já era prisioneiro de guerra no Vietnã quando Obama mal saíra das fraldas. E quanto a Obama, que experiência ele tem? Que outra credencial ele possui para querer governar a maior potência do planeta? Resposta: a cor da pele.

Pelos motivos elencados acima, toda essa onda com a candidatura Obama - "o primeiro negro com chances reais de chegar à presidência dos EUA" etc. etc. - não me comove. Sei que não estou sozinho nessas ponderações. Muita gente no Brasil, e inclusive no Itamaraty, deseja secretamente que McCain ganhe - os republicanos são tradicionalmente menos protecionistas em assuntos de comércio exterior -, mas, por alguma razão insondável, não ousam externar essa opinião. Mais uma vez, agradeço aos céus por eu não ser político.

Sempre tive uma desconfiança quase instintiva em relação a políticos que usam a raça ou a origem social como um trampolim para suas ambições eleitorais, e que abusam do bom-mocismo para parecerem confiáveis. Confesso que torci para que o indicado pelo Partido Democrata não fosse Hillary Clinton, pois não agüento aquele sorriso forçado, sem falar na discurseira feminista politicamente correta (ainda por cima nos EUA? Deus me livre!). Mas nem por isso vou me deixar levar pela obamamania. Tem toda a pinta de ser mais uma tapeação, como foi, nos anos 90, Bill Clinton e seu charuto erótico. Caetano Veloso disse em entrevista ao Estado de S. Paulo que acha Obama "charmoso, bonito e bacana". Como deve achar Lula e Mangabeira Unger, para quem já fez campanha.
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Por tudo isso, eu não votaria em Obama, assim como jamais votarei num candidato do PT. Obama não me engana. É o Lula americano.

terça-feira, junho 10, 2008

Chávez e as FARC, as FARC e Chávez...


No domingo passado, o bufão que ora atende como presidente da Venezuela, coronel Hugo Chávez, conclamou as FARC a libertar todos os reféns que mantêm em seu poder e em abandonar a luta armada. A declaração surpreendeu a muitos, que, tomados de uma onda irreprimível de otimismo e wishful thinking, acreditaram piamente que o ditador caraquenho, que sempre apoiou os narcoterroristas colombianos, estaria sinceramente interessado no bem-estar dos reféns e no fim do conflito na Colômbia. Mais: que ele, Chávez, poderia ser o mediador que ajudaria a pôr um ponto final em mais de quarenta anos de guerra civil no país vizinho.

Certamente, é assim que Chávez gostaria de ser visto, e é com esse objetivo em mente que ele fez sua declaração. Mas não se deixem enganar. É mais um truque do fanfarrão de Caracas, pelo qual ele espera, mais uma vez, ludibriar os incautos.

O recuo estratégico de Chávez não se deve a nenhum gesto de boa vontade de sua parte, nem a qualquer atitude de bom senso - o que seria, aliás, algo inusitado em se tratando de alguém como ele, que já mandou a democracia às favas na Venezuela. Deve-se, isto sim, ao reconhecimento de que um aliado seu, os narcobandoleiros das FARC, estão em maus lençóis. O responsável por isso não é outro senão Álvaro Uribe, o Presidente colombiano que não tem medo nem compactua com traficantes e terroristas, nem com os demagogos que lhes dão apoio. Nos últimos meses, as FARC sofreram os mais duros golpes em sua história criminosa, tendo perdido, em questão de dias, seus mais importantes chefes, inclusive o chefão, Manuel Marulanda, que foi fazer guerrilha ao lado do capeta. Desde que o exército da Colômbia despachou o número dois das FARC, Raúl Reyes, e divulgou o conteúdo das mensagens de seu laptop, os laços entre Chávez e seu pupilo Rafael Correa do Equador com os narcoterroristas colombianos tornaram-se inegáveis. Diante disso, normal que Chávez esteja preocupado e queira mudar o discurso, tentando distanciar-se - ao menos retoricamente - dos atentados e seqüestros.

Eu falei mudar o discurso? De jeito nenhum. Chávez não está mudando o discurso sobre as FARC coisa nenhuma. Para ele, elas continuam a ser uma "força beligerante", e não o bando de criminosos que de fato são. Para Chávez, as FARC são um importante aliado, e vice-versa, ambos fazem parte do mesmo "projeto bolivariano". Ele gostaria de ver as FARC elevadas a partido político. Não tendo mais o poder de fogo para ameaçar a democracia colombiana e tomar o poder pela força, as FARC deveriam, segundo Chávez, depor as armas e lançar-se às eleições. Como uma organização política legítima, vejam bem. Isso quer dizer que, se as FARC estivessem em plena ofensiva e o governo de Álvaro Uribe estivesse de joelhos, Chávez estaria aplaudindo a guerrilha e torcendo para a queda do governo constitucional colombiano. Como não pode fazê-lo, pois as FARC andam mal das pernas, não lhe resta outra saída senão pedir que deixem de lado as armas. Afinal de contas, guerrilha para quê, se se pode tomar o poder pelas urnas, como ele e outros, como Lula, fizeram? Mais interessante é usar os próprios instrumentos da democracia para miná-la por dentro, em vez de simplesmente querer detoná-la na marra. Para tanto, os companheiros dispõem de um aparato gigantesco de propaganda a seu serviço, que inclui jornalistas comprados e, claro, o Foro de São Paulo. É nesse sentido que devem ser interpretadas suas palavras.
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Por coincidência (?), no mesmo dia da exortação de Chávez a seus companheiros bolivarianos das FARC, dois militares venezuelanos foram presos na Colômbia tentando negociar a venda de armas às FARC. É mais uma prova do apoio material de Caracas aos narcoterroristas colombianos. Terá sido mesmo coincidência que Chávez tenha feito sua declaração aparentemente apaziguadora neste exato momento?

Não se enganem com Chávez. Como ex(?)-golpista e militar, ele sabe que a tática de guerrilha pressupõe uma boa dose de engano e dissimulação. Nisso, ele é um mestre. Assim como seus companheiros petistas.

segunda-feira, junho 09, 2008

Novidades no Blog

Já está aberta, desde a última sexta-feira, a enquete do Blog. O assunto da primeira é "O que leva alguém a ser de esquerda?". Opinem sobre o tema. A votação encerra dia 13.
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Também nos últimos dias, acrescentei mais um link na sessão "sites interessantes": o "Generación Y", de Yoani Sánchez. Yoani é uma cubana pioneira de 31 anos que, corajosamente, resolveu criar um blog pessoal, desafiando a censura governamental no país dos hermanos Castro. Apesar de todo tipo de pressão por parte das "otoridades" da ilha, o blog de Yoani tornou-se um dos mais acessados da internet e ela foi eleita recentemente, pela revista Time, uma das 100 pessoas mais influentes do planeta. É uma excelente oportunidade de conhecer um pouco do cotidiano na ilha, bem diferente da visão cor-de-rosa e deformada que costuma chegar até nós por intermédio dos apologistas esquerdistas da castradura cubana. Eu recomendo.

sexta-feira, junho 06, 2008

Dilma e as FARC, as FARC e Dilma...


Apenas para terminar a semana. Nada a acrescentar.

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Dilma e as Farc

por Diogo Mainardi,

Veja 05 Jun

Em minha última coluna, informei que a mulher de Olivério Medina, o representante das Farc no Brasil, foi contratada pelo governo Lula. Isso aconteceu em dezembro de 2006, quando o marido dela ainda estava preso em Brasília, à espera do julgamento no STF. Uma reportagem do jornal Gazeta do Povo mostrou que a mulher de Olivério Medina foi cedida pelo governo do Paraná a pedido de Dilma Rousseff. Epa, epa, epa! Pode repetir? Posso sim. Com prazer. De acordo com um documento reproduzido pela Gazeta do Povo, e que pode ser acessado aqui, Dilma Rousseff requisitou pessoalmente ao governador do Paraná a transferência da mulher do preso das Farc. Uma dúvida: a ministra da Casa Civil demonstra esse mesmo interesse por todos os servidores de terceiro escalão?

O deputado Rodrigo Maia pediu esclarecimentos sobre o caso. O senador Arthur Virgílio, por sua vez, encaminhou um requerimento ao Ministério da Pesca. Até agora, o governo Lula só emitiu uma nota sobre o assunto, prometendo me processar. É a escala de valores dessa gente: Olivério Medina - "el Pancho" - solto, e Diogo Mainardi - "o Pança" - condenado. Em sua nota, a assessoria de imprensa do Ministério da Pesca confirmou todos os dados relatados em minha coluna. Negou apenas que pudesse haver um elo entre o governo e as Farc. Eu ficaria muito surpreso se alguém admitisse o contrário.

O Brasil tem 50.000 assassinatos por ano. Isso é o que importa quando se trata das Farc. Ignore a retórica esquerdista. Ignore a mística guerrilheira. Concentre-se no essencial. E o essencial é o tráfico de drogas. O Brasil é um grande mercado consumidor das drogas produzidas nos territórios dominados pelas Farc. O Brasil é também um grande entreposto para o seu comércio internacional. O lulismo tenta passar a idéia de que as Farc dizem respeito apenas à Colômbia. E, marginalmente, à Venezuela e ao Equador. Mentira. O Brasil entra na guerra com sua monumental cota de assassinatos relacionados com o consumo e com o tráfico de drogas, e com todos os crimes que podem ser associados a eles: assaltos, contrabando de armas, jogo ilegal, lavagem de dinheiro. Cada um de nós, indiretamente, já foi assaltado pelas Farc. Cada um de nós conhece alguém que foi assassinado pelas Farc.

Minha pergunta é a seguinte: um governo que contrata a mulher de um membro das Farc, com a ajuda direta da ministra da Casa Civil, em documento assinado por ela, demonstra estar solidamente empenhado no combate ao tráfico de drogas? Aguardo a resposta. O crime organizado contamina a política. Há uma série de sinais nesse sentido, do caso do ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro, que acaba de ser preso, aos atentados do PCC na última campanha presidencial, que afundaram a candidatura de Geraldo Alckmin; dos inquéritos sobre os perueiros, na campanha à prefeitura paulistana, ao pedido de propina de Waldomiro Diniz ao dono de um bingo. O governo Lula considera perfeitamente legítimo contratar, para um cargo de confiança, a mulher de um criminoso internacional preso por pertencer a um grupo que pratica o terrorismo e o tráfico de drogas. Eu respondo lembrando os 50.000 assassinatos por ano. Sabe como é: na guerra entre os traficantes de drogas e a lei, os mortos escolheram o lado errado.

quinta-feira, junho 05, 2008

TODOS IGUAIS UMA OVA!


E lá vamos nós de novo...

Outro escândalo de corrupção envolvendo gente graúda do governo petralha (qual seria? o centésimo? o milésimo? já até perdi a conta...) estourou esta semana. Desta vez, a mutreta diz respeito à venda da Varig, que, segundo a ex-diretora da ANAC, a charuteira (lembram dela?), teve o dedo da Casa Civil da Presidência da República, chefiada pela companheira Dilma Rousseff, para beneficiar um grupo estrangeiro (norte-americano, o que prova que, na hora da maracutaia, os companheiros petistas não têm nenhum preconceito ideológico). O tal grupo, com uma mãozinha de Dona Dilma, arrematou a falida por 24 milhões para revendê-la por - apenas - 320 milhões... O imbróglio envolve ainda um advogado amigão do peito dele, claro, a ratazana-mor, Lulla. A história toda, que é sórdida como todos os demais casos envolvendo a petralhada, foi revelada ontem pelo Estado de S. Paulo, e pode ser lida aqui: (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080604/not_imp183508,0.php)

Sim, e daí?, muita gente deve estar se perguntando. Afinal, é só mais um, entre tantos casos de roubalheira semelhantes, como o caso Waldomiro Diniz, o mensalão, o valerioduto, os dólares na cueca, os sanguessugas, Celso Daniel, Lulinha, Palocci, os aloprados, a farra dos cartões corporativos... e um longo etcétera, que desde 2003 vêm se sucedendo com regularidade quase monótona. Todos esses casos foram plenamente denunciados, divulgados, debatidos, documentados e esquecidos. Outros virão, com certeza. E todos eles, deram em quê?, é a pergunta que muitos se fazem. Nesse caso, também, vai acontecer alguma coisa? Alguém irá para a cadeia? O Grande Molusco vai ser finalmente desmascarado e expulso da vida pública? Os petralhas pagarão por mais esse delito contra os cofres públicos? E a oposição, vai sair de seu estado letárgico e finalmente assumir-se como oposição e exigir a cabeça do grande responsável? Claro que não. Todos sabem como essa novela vai acabar: de forma melancólica, com mais uma CPI que vai dar em pizza, como a dos cartões corporativos, que a petralhada esforçou-se para - e conseguiu - enterrar há alguns dias. Afinal, como disse o Molusco em pessoa naquela entrevista em Paris em 2005: são todos iguais, não são?

Não são, não! Aí é que está. Não dêem ouvidos a mais essa lorota. Os petralhas não são iguais aos outros. São piores. Muito piores.

Durante mais de duas décadas, os petistas e seus aliados se esforçaram para convencer a todos que eram diferentes. Que, em meio à corrupção e ao cinismo gerais, eram puros, imaculados, santelmos, angelicais. Pegos com a boca na botija, tratam de dizer que são iguais aos outros. Nisso, são coerentes com os métodos tradicionais da esquerda. Uma das formas encontradas pelos esquerdistas de desmoralizar seus adversários é acusá-los pelo que eles mesmos fazem, chamá-los do que eles próprios são. Desse modo, procuram passar-se por diferentes. É assim que os esquerdistas agem quando estão na oposição, e foi assim que os petistas agiram durante quase um quarto de século, quando o poder parecia longe. Outra forma é apelar para o discurso exatamente oposto, admitindo que "todos fazem igual" e que eles, os esquerdistas, não se diferenciam em nada, portanto, dos demais políticos. É assim que os esquerdistas fazem: quando na oposição, buscam ideologizar a corrupção, mostrando-a como " de direita"; no poder, tentam desideologizá-la. Se são pedra, mostram-se como diferentes e são implacáveis com a corrupção alheia. Se são vidraça, são iguais e pedem condescendência com suas falcatruas...

A corrupção de esquerda não é igual à corrupção de direita. Atrevo-me a dizer que é pior, muito pior. Assim como as ditaduras de esquerda são piores do que as de direita, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto, sem o risco de ser chamado por isso de vendido ou traidor, a corrupção de esquerda é muito mais funesta, muito mais canalha. Uma coisa é uma prostituta tarimbada e conhecida, de quem não se espera nada virtuoso, apenas grossas sacanagens. Outra, muito diferente, é uma puta velha que passou a vida inteira arrotando virtude e fingindo-se de vestal, afetando uma falsa pureza de carmelita descalça. Nunca vi um corrupto do DEM ou do PP usando seu passado de ex-preso político e torturado pelo regime militar, por exemplo, como um álibi para justificar a feitura de dossiês e outras maracutaias semelhantes. Esses gatunos, quando pegos em flagrante, tentam sair-se com desculpas bem mais convencionais, como "não há provas", ou claramente estapafúrdias, como "Deus me ajudou e eu fiquei rico". As desculpas dos larápios de esquerda, por sua vez, são, por assim dizer, mais sofisticadas: "é uma conspiração das elites e da mídia", ou então "não vi nada, não sei de nada". Esgotadas as desculpas esfarrapadas, sempre poderão salpicar um "todos fazem igual", e muita gente cairá na esparrela... Os esquerdistas sempre terão mais desculpas, pois sabem que sempre haverá mais parvos dispostos a acreditar em suas mentiras do que nas dos outros.

Há outra forte razão para dizer que a corrupção dos petralhas é pior. Parafraseando o Grande Molusco, "nunca na história deste país" um governo sustentou-se tanto no saque do suado dinheiro público. Que o governo Lulla é o governo do mensalão, disso todos já sabem, já virou um lugar-comum. Mas não apenas do mensalão dos deputados, aquele dos 30 mil reais por mês, mas, sobretudo, dos mensalões, no plural. Esse esquema não se restringiu à Câmara dos Deputados. Há um mensalão para cada setor da sociedade, para todos os gostos e até para todos os bolsos. Assim como houve o mensalão dos deputados, há o PAC, o mensalão dos empresários (vide Gautama). Há também a indústria das indenizações milionárias a terroristas e outros supostos ou reais perseguidos pela ditadura militar, um verdadeiro mensalão da História ou Bolsa-Terrorismo. E há o Bolsa-Família, o mensalão dos pobres. Estes, agradecidos ao papai Lulla e à mamãe Dilma, não se importam em vender seus votos, contentes em serem reduzidos a clientes do lulo-petismo e estadodependentes. O mensalão, é bom lembrar, foi elaborado nos porões do Palácio do Planalto como um bom "cala-boca" da oposição, uma forma de comprar o apoio, ou pelo menos o silêncio, dos parlamentares. Pois bem. Os bilhões do PAC e os 172 reais do Bolsa-Família, assim como os milhões das indenizações, são o "cala-boca" que Lulla e os companheiros bolaram para garantir o apoio e a cumplicidade de uma nação bestificada e anestesiada pela safadeza e pela sem-vergonhice institucionalizadas. Dar dinheiro tornou-se o veículo principal de poder dos petistas. Os petistas passaram anos pregando a necessidade de distribuir renda. O mensalão é a forma por excelência de distribuição de renda dos petistas.

O discurso lulista sobre o caso das pressões do Planalto na venda da Varig já está pronto. Já posso até vislumbrar o que vem daqui para a frente. Primeiro, vão tentar desqualificar a denunciante, não a denúncia, como já fizeram outras vezes (lembram do caseiro do Palocci?). Assim, já começaram a dizer que ela só resolveu botar a boca no trombone por estar "ressentida" - a própria Dona Dilma já deu entrevista dizendo estranhar a atitude da ex-companheira, por quem, disse naquele seu estilo caracteristicamente sinistro, nutria uma "razoável consideração"... Como se Pedro Collor e Roberto Jefferson também não estivessem ressentidos (é preciso que alguém de dentro abra a boca e chute o balde para que toda a podridão dos companheiros venha à tona). Em seguida, vão mover mundos e fundos - principalmente, fundos - para tentar "blindar" a proclamada mãe do PAC, inventando algum funcionário obscuro de terceiro ou quarto escalão que, por um "erro" - petralhas jamais cometem crimes, apenas "erros" -, deixou vazar a informação para a imprensa (o "verdadeiro" delito, como ficou claro no caso do dossiê). Paralelamente, vão acionar a imprensa comprada, que vai tratar de reproduzir a ladainha de que é tudo conspiração da "zelite" etc., e de jogar poeira no rosto do público, "descobrindo" algum escândalo de corrupção envolvendo algum político do PSDB... Enquanto isso, mobilizam a tropa de choque no Congresso, com uma ajudinha, talvez involuntária, dos deputados e senadores acovardados de "oposição" que, de olhos nas próximas eleições e nas pesquisas, vão tentar salvar a pele do comandante... Principalmente, vão fazer tudo para blindar o chefe da quadrilha, aquele mesmo que disse que caixa dois é normal, pois todo mundo faz... E assim, igualados todos na mesma sujeira, indistinguíveis em meio à lama da corrupção generalizada, os petralhas vão livrar a cara de seus chefes mais uma vez. Pelo menos, até que alguém perceba que, por trás da roubalheira, está uma ideologia. Iguais, uma ova!

Já afirmei que Lulla é um farsante e um mito político que só se elegeu e reelegeu graças à permanência de uma mentalidade messiânica e paternalista entre a população, que remonta ao que há de mais atrasado e retrógrado em nossa formação histórica defeituosa. Afirmaram que eu estava errado, e não me deram crédito. Já escrevi que Lulla é pior que Collor, ou qualquer outro picareta do gênero que já ocupou a cadeira de presidente da República no Brasil. Fui tido como louco. Já apontei que o crime e a mentira são inerentes aos métodos e aos objetivos da esquerda. Não me deram ouvidos. Agora digo que os corruPTos de esquerda são os piores de todos.

terça-feira, junho 03, 2008

1989, O ANO QUE NÃO COMEÇOU


De repente me deu uma vontade danada de escrever sobre meus 15 anos...

Não que eu seja um nostálgico. Já escrevi que textos confessionais não são meu forte, e sobre minhas reservas em relação a esse gênero literário. Mas, diante de certos fatos transcedentais que se confundem com minha própria biografia, fica difícil, quase impossível, não falar na primeira pessoa. Particularmente, não acho que minha vida pessoal interesse a alguém, a não ser que traga em si uma lição importante. Se me perguntarem se me orgulho ou me envergonho de alguma coisa que vivi, responderei que não tenho orgulho, nem vergonha, de meu passado. Tenho-o apenas, e isso me basta. Não o relembro por vaidade, nem por saudosismo, mas porque acredito ser possível extrair dele alguns ensinamentos para a vida.

Num artigo intitulado "Como me tornei um reacionário" (22/06/2007), relembrei um momento particularmente marcante de minha adolescência e começo de juventude, quando me envolvi com um grupelho sectário ultra-esquerdista. Isso foi nos meus 18, 19 anos. Mandei o texto por e-mail a um dos "revolucionários" de minha convivência, nesse período. A resposta dele, e meus comentários à sua resposta, estão aqui: (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/11/dilogo-entre-um-revolucionrio-de.html).

O que mais me chamou a atenção no texto do meu ex-camarada, hoje professor universitário, foi que ele pediu que eu... não o escrevesse mais (!). Algo lamentável, a meu ver, pois nos priva da possibilidade de um diálogo frutífero, no qual ele teria a oportunidade de tentar me convencer da verdade incontestável de suas teses revolucionárias, as quais, ao que parece, ele continua fiel. Disponho-me, inclusive, a abrir meu blog para suas ponderações sobre o tema. Mas, pelo visto, ele deve estar tão convicto de que alcançou a Verdade Revelada que prefere guardá-la para si...

Desde o artigo e a resposta (ou não-resposta) de meu interlocutor, fui voltando cada vez mais no tempo, puxando o fio de minha memória, num processo quase proustiano de regressão. Retornei ao começo de minha adolescência, quando ainda estava no secundário. Mais especificamente, ao ano de 1989.

Eu tinha, então, 15 anos de idade. Foi quando comecei a me interessar pelas teses de esquerda, e, em especial, pelo marxismo. Exatamente. Em 1989. No mesmo ano em que os regimes marxistas do Leste Europeu caíram por terra, um a um, num processo iniciado anos antes na ex-URSS, que viria ela mesma também a desaparecer, em 1991. Por mais incrível que possa parecer, minha conversão às idéias marxistas e revolucionárias ocorreu justamente no ano em que o Muro de Berlim se transformou em ruínas e as ditaduras comunistas viraram sorvete.

Contradição? Incongruência? Nem tanto. Eu era trotskista. Um de meus livros de cabeceira, nesse período, era A Revolução Traída, de Trotsky. O trotskismo é o sebastianismo das esquerdas. Ele mantém acesa a esperança na vitória da revolução socialista - que, aliás, tem que ser internacional e permanente -, ao mesmo tempo em que se distancia do "socialismo real" implantado na ex-URSS e em países como a China e em Cuba. Estes são "Estados operários burocraticamente degenerados", na definição de Trotsky quando se referia à ex-URSS sob Stálin, seu pior inimigo. Trotsky era diferente. Era revolucionário e comunista, mas também crítico da URSS. Além disso, era um mártir: fora assassinado a mando de Stálin no México, em 1940, com um golpe de picareta na testa, por estar incomodando a nomenklatura soviética (por alguma razão inconsciente, os mártires estão sempre certos, são sempre lutadores da liberdade...). O colapso dos regimes comunistas ("stalinistas", segundo pensávamos) do Leste Europeu era, na verdade, um fato positivo, uma "revolução de fevereiro". Faltava apenas uma liderança revolucionária sincera e conseqüente, pensávamos, para a vitória da "segunda revolução", a de outubro (quando os sovietes tomaram o poder na Rússia). Não surpreende, pois, que os fatos de 1989 no Leste Europeu parecessem confirmar, em minha mente, a justeza das teses trotskistas, que eu abracei com paixão. Para tristeza de meus pais e espanto de todos que me conheciam, eu me tornei um revolucionário marxista.

Para um jovem como eu, parecia que eu tinha achado a fórmula ideal. Bastaria permanecer fiel às idéias de Trotsky - e, por extensão, de Lênin, Marx e Engels - que, eu acreditava, tudo se esclareceria. Bastaria explicar às pessoas, de forma paciente, serena, firme e persistente - e como éramos persistentes! - que a Revolução Russa fora traída e corrompida, que a URSS jamais fora socialista, e todos compreenderiam, a verdade viria à tona, tudo ficaria claro como água. Todos perceberiam que a "restauração do capitalismo" no Leste Europeu há muito fora profetizada por Trotsky, e que tudo não passava de uma "nova fase da luta revolucionária mundial dos trabalhadores" que culminaria, claro, no triunfo mundial do "verdadeiro socialismo", o socialismo de Marx, Lênin e Trotsky, supostamente prostituído por Stálin e seus acólitos. Em 1993 ou 1994 conheci um grupo de estudantes que se declaravam marxistas e gastavam suas tardes de sábado discutindo a literatura socialista. Diziam-se revolucionários e adeptos das teorias de Marx e de Trotsky. Aí estão os que vão fazer a revolução comigo, pensei.

Lancei-me então, juntamente com meus novos camaradas, numa vertiginosa rotina de reuniões e discussões que duravam dias inteiros, geralmente em locais como o sindicato dos professores da cidade, ou no campus da universidade - por alguma razão que até hoje desconheço, os professores e estudantes eram tidos como os futuros revolucionários e coveiros do capitalismo... Lembro bem. Minha disposição para o proselitismo em nome da Revolução não tinha limites. Certa vez, entrei eu e meu camarada numa sala de aula - o curso era Direito - para tentar convencer os estudantes a se juntarem a nós no glorioso caminho da revolução proletária. Tentei explicar, didaticamente - eu tinha acabado de ler "O Estado e a Revolução", de Lênin -, que o objetivo final dos comunistas era a abolição do Estado, após um período necessário de transição, a ditadura do proletariado, que levaria à extinção das classes sociais e da própria luta de classes, na sociedade comunista perfeita... Fui recebido com olhares de espanto. Extinguir o Estado? Ditadura do proletariado? O que esses caras estão falando? "Vocês não leram Marx", foi a minha resposta...

Achávamos que a História estava de nosso lado. A ignorância da maioria das pessoas sobre o que fora a Revolução Russa e seus principais personagens, como Trotsky e Stálin, era algo que, além de irritante, parecia confirmar nossas crenças. Ao mesmo tempo, investíamos contra o "reformismo" do PT e afins, denunciando sistematicamente o oportunismo eleitoreiro e o "centrismo" dos partidos de esquerda tradicionais, que considerávamos contra-revolucionários e mancomunados com o governo "neoliberal" de FHC... Mais ou menos como fazem o PSTU e o PSOL hoje em dia, só que de forma muito mais radical (os outros partidos de ultra-esquerda, aliás, também eram alvo constante de nossa metralhadora giratória, pois jamais os considerávamos, por um motivo ou outro, suficientemente de esquerda...). Já naquela época eu achava os petistas, e Lula em particular, um bando de farsantes, mas pelos motivos errados. O fato de eu ter conhecido, nessa época, o "ideólogo" principal daquele grupo extremista e ultra-sectário, um professor da USP (ou da PUC, não lembro exatamente) de barbas brancas e fundador do PT - do qual se desligou depois -, foi algo que me encheu de vaidade e reforçou minha convicção de que eu estava no caminho da revolução. Afinal, ali estava, diante de mim, o Lênin brasileiro...

Não é preciso muito esforço mental para perceber que estávamos imbuídos de uma fé religiosa e messiânica, uma crença fanática em nossa "missão histórica" de "conscientizar as massas" e constituir a "vanguarda política da luta pela libertação do proletariado"... Mas, na época, eu não pensava desse jeito. Acreditava, ao contrário, que o marxismo era uma espécie de panacéia, uma fórmula mágica que bastava evocarmos para exorcizarmos todas as forças contrárias e alcançar o tão sonhado pote de ouro... De acordo com essa nossa leitura, o materialismo histórico e o materialismo dialético eram capazes de responder a todas - repito: todas - as questões da humanidade, da vida e da morte, do céu e da terra.

As relações internacionais, por exemplo, eram muito fáceis de ser explicadas. Havia nações exploradoras, de um lado, e nações exploradas (ou "semicoloniais"), de outro. Pronto! As nações exploradoras (EUA, Japão, Israel etc.) eram ricas e poderosas porque sugavam o sangue das nações exploradas, como o Brasil. Mas isso não queria dizer que fôssemos nacionalistas. Pelo contrário: nosso norte era a Revolução Russa, que considerávamos o modelo de todas as revoluções. A burguesia nacionalista dos países atrasados, acreditávamos, era incapaz de levar adiante a luta contra o imperialismo, assim como a burguesia russa fora incapaz de levar adiante a luta contra o czarismo em 1917.

Tive a oportunidade de comprovar a aplicação desse esquema, quando os EUA (a nação exploradora) intervieram militarmente no Haiti (a nação explorada), em 1994, em mais uma das crises humanitárias que já viraram rotina naquele infeliz país do Caribe. Na ocasião, meus camaradas não titubearam nem um minuto: era preciso defender a "nação explorada" e opor-se à "invasão imperialista", mesmo que isso significasse perfilar-se ao lado do ditador haitiano de plantão. "O importante são os fins", foi-me explicado. Nessa época, eu já começava a alimentar algumas dúvidas em relação àquele palavreado ultra-radical. Mas também para isso havia remédio: minhas dúvidas eram um resquício de minha "formação pequeno-burguesa". Ah, bom. Então respirava aliviado.
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Quando se tratava de "avaliação de conjuntura" (outra expressão comum nessa época), a análise não era menos sofisticada. Começava sempre com a mesma frase: "O capitalismo, em sua fase final de decomposição...". Pois é. Uma das melhores definições de esquerdista que já li é a seguinte: um sujeito para quem, se os fatos contrariam suas idéias, pior para os fatos. Eu era exatamente assim.
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Durante muito tempo acreditei nesse conto-de-fadas. Após perder contato com aquele grupo, passaram-se uns dez anos até que eu percebesse o óbvio: que aquilo era uma roubada, uma bad trip, a maior em que alguém pode embarcar. Por causa dessa bobagem, fiquei imune ao que se passava no mundo na época. Demorou algum tempo ainda para que me rendesse a constatações simples, mas que se tornam difíceis de ser assimiladas num cérebro intoxicado de literatura marxista. A questão da democracia, por exemplo. Custou-me muito admitir que esta constitui um fim em si, e não apenas uma técnica para tomar e manter-se no poder. Foi necessário certo esforço intelectual de minha parte para perceber que todas as críticas e denúncias de meus ex-camaradas contra o stalinismo não se baseavam em nenhum amor pela democracia ("uma formalidade burguesa"), mas simplesmente no ressentimento de quem se viu derrotado numa disputa política. Assim como foi necessária alguma honestidade para reconhecer que o comunismo, em todas as suas vertentes, é inseparável da montanha de 100 milhões de cadáveres que produziu no século XX. Como escreveu Arthur Koestler: "O problema dos trotskistas é que eles são anti-stalinistas, mas não são antitotalitários" ("democratismo pequeno-burguês", diriam meus ex-camaradas).

Tenho, pelo menos, uma boa desculpa, além de minha juventude e inexperiência, para essa minha falta de sintonia, na época, com o mundo em minha volta: assim como meu pensamento tomou um rumo diametralmente oposto às grandes transformações ocorridas a partir de 1989, no Brasil tampouco conheceu-se processo semelhante. Pelo contrário: o ano de 1989, no Brasil, simplesmente ainda não começou. Por aqui, ainda se cultuam os velhos mitos e chavões da geração 68, a do flerte com o totalitarismo. Nos anos 90, de forma atabalhoada com Collor e depois tímida, quase pedindo desculpas, com o "neoliberal" FHC, tentou-se levar adiante algumas reformas estruturais, mas estas esbarraram sempre na visão anacrônica que considera "privatização" um anátema e "abertura" um palavrão. Infelizmente, a Constituição de 1988 permanece eivada de um fortíssimo ranço ideológico populista e antiliberal, que impede o avanço do País em áreas cruciais, como as relações trabalhistas, por exemplo. Se ela tivesse sido adotada alguns meses depois, talvez não vivêssemos ainda sob a sombra do estadossauro.

Hoje, como vocês sabem, não acredito em marxismo, nem em qualquer outro "ismo" que se proponha a mudar o mundo e a natureza humana. Em vez de revolução e ditadura do proletariado, acredito em coisas como democracia, liberdade de expressão e direitos humanos. Artigos que - e como me custou perceber isso! - só podem existir numa sociedade de mercado e livre concorrência. Ou seja: no capitalismo. Claro, para meus ex-camaradas de utopia, isso faz de mim um reacionário, um troglodita fascista, um burguês maldito, um verme desprezível. Meu lugar, portanto, só pode ser a masmorra, o gulag, o paredón. O Brasil parou em 1988. Meus ex-camaradas, por sua vez, pararam um pouco antes. Em 1917, para ser mais exato.

Sempre que me perguntam, em tom de brincadeira, o que eu faria se descobrisse que um filho meu se transformou num militante esquerdóide, desses de babar gritando slogans em alguma manifestação da UNE contra Bush e o "neoliberalismo", eu respondo: não faria absolutamente nada. Aliás, para ser franco, acharia até interessante, um passo necessário em seu amadurecimento pessoal. Digo sempre que as idéias esquerdistas são como um sarampo, uma catapora: é preciso ter sido acometido dessas enfermidades infantis para se ver imunizado delas para o resto da vida. Se o meu filho(a) persistir nessa doença cerebral por um tempo excessivamente longo, digamos após os 25 anos, aí sim terei motivos para ficar preocupado...

Minha experiência - felizmente, breve - com o marxismo coincidiu com o início da demolição, em nível mundial, das fantasias socialistas. De lá para cá, o mundo mudou (pelo menos nesse aspecto) para melhor, assim como eu, que felizmente me livrei das viseiras ideológicas do passado e comecei a pensar com minha própria cabeça. Infelizmente, porém, o mesmo não ocorreu com o Brasil. Por essas plagas, 1989 ainda não começou. É uma pena.

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P.S.: Devo o título deste artigo ao Augusto Araújo, um leitor perspicaz. Comentando meu texto "1968, o ano que precisa acabar", Augusto lembrou que, ao contrário de 1968, 1989 sequer começou entre nós. Corretíssimo.

segunda-feira, junho 02, 2008

NÃO ACREDITEM EM MIM


Os que acompanham este blog sabem de minha predileção por alguns temas, como a corrupção dos petralhas, a ditadura disfarçada de Hugo Chávez na Venezuela, a ditadura escancarada de Fidel Castro em Cuba, as patetices dos esquerdóides, o Foro de São Paulo etc. Sei que são assuntos áridos. Também sei que nada que eu disser a respeito fará qualquer diferença: Lula não será enxotado do Palácio do Planalto, nem Chávez cairá, nem os petralhas irão para a cadeia, por nenhum artigo que eu tenha escrito ou que vier a escrever, ainda que venha recheado de argumentos irrefutáveis. Tenho plena consciência que muitos que lêem este blog saem com a impressão de que sou movido por simples fixação ou paranóia, ou pela mais pura obsessão.

Por isso, resolvi tomar uma decisão. Vou pedir a quem ler estas linhas que não acredite em mim. Não levem em consideração o que eu disser. Isso mesmo. Esqueçam tudo que eu escrevi até agora. Joguem no lixo todas as minhas opiniões. Afinal, são apenas opiniões. Nada que se compare aos fatos:

- Na semana passada, realizou-se em Brasília a reunião inaugural da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL). O Presidente Lula propõs a criação, dentro da UNASUL, de um Conselho de Defesa Sul-Americano, para atuar como uma espécie de OTAN da região. Dos 12 países-membros do novo organismo, apenas um, a Colômbia, foi contra. O motivo: os países que compõem a UNASUL se recusam a condenar abertamente as FARC como uma organização terrorista. A Colômbia está em guerra com as FARC. As FARC são apoiadas por alguns governos da região, como o de Hugo Chávez da Venezuela. Chávez é um dos maiores entusiastas da UNASUL. Lula também. No discurso de abertura, o Presidente Lula afirmou que a UNASUL irá "mudar o tabuleiro do poder mundial". Certamente.

- Em 1o de março passado, o Exército colombiano matou, na fronteira com o Equador, o líder terrorista Raúl Reyes, número dois das FARC. Na ocasião, foi apreendido o laptop de Reyes. Abertos os arquivos do computador do chefe guerrilheiro, descobriu-se que os governos da Venezuela (Hugo Chávez) e Rafael Correa (Equador) dão apoio material sistemático às FARC, permitindo que elas utilizem o território desses países para lançar ataques à Colômbia. Chávez forneceu 300 mil dólares aos narcoterroristas colombianos, e o Ministro da Defesa de Correa mantinha contatos regulares com os mesmos. Há alguns dias, a INTERPOL confirmou que os dados do PC de Raúl Reyes divulgados pelo governo da Colômbia (Álvaro Uribe) são autênticos. Na crise entre Equador, Colômbia e Venezuela deflagrada após a morte de Reyes, o governo do Brasil (Luiz Inácio Lula da Silva) recebeu Rafael Correa. Na ocasião, colocou-se inteiramente do lado deste e de Chávez contra a Colômbia.

- Também no laptop de Raúl Reyes, foi descoberto um e-mail, datado de 29 de julho de 2005, do ex-padre Francisco Antonio Cadena Collazos, mais conhecido como Olivério Medina (ou Padre Medina, ou Camilo López, ou El Cura Camilo), endereçado a Reyes. Olivério Medina é o representante das FARC no Brasil. No e-mail, Medina demonstra estar informado do pedido de captura encaminhado pela Procuradoria da Colômbia à Interpol (polícia internacional) contra ele:"Os amigos daqui [do Brasil] me advertiram que deveria ficar atento, pois há uma comissão da Procuradoria que tem uma ordem de captura", escreveu. Ele acrescentou que, segundo os mesmos amigos, não deveria se preocupar, pois "a cúpula do governo com apoio de Celso Amorim estavam a par. Eles não apoiariam uma captura por crimes políticos".

De acordo com o jornal colombiano El Tiempo, o papel de Olivério Medina no Brasil era "trocar cocaína por armas e fazer o recrutamento de simpatizantes".

- Em tempo: o mesmo Olivério Medina, segundo relatório da ABIN, a agência brasileira de inteligência, datado de 2005, foi o intermediário da entrega de 5 milhões de dólares das FARC à campanha, em 2002, do então candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. A denúncia foi feita pela revista Veja, que foi acusada, na epoca, de fazer "mau jornalismo".

- "Em 29 de dezembro de 2006, Angela Maria Slongo foi nomeada pelo ministro da Pesca, Altemir Gregolin, para o cargo de oficial de gabinete II, com um salário de DAS 102.2. Angela Maria Slongo é mulher de Francisco Antonio Cadena Collazos, também conhecido como Olivério Medina, ou Padre Medina, ou Camilo López, ou El Cura Camilo.

[...]

Angela Maria Slongo até hoje continua aparelhada no Ministério da Pesca, recebendo seu salário de apaniguada, que acumula com o salário pago pelo governo do Paraná."

A informação acima está na coluna de Diogo Mainardi, na revista Veja desta semana (http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/040608/mainardi.shtml). Aguarda-se manifestação do Palácio do Planalto a respeito.

- Em outra mensagem eletrônica, Olivério Medina referiu-se a um certo "Acácio", identificado como o Negro Acácio, chefe das FARC morto pelo Exército colombiano em 2007. Em 2001, o traficante brasileiro Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, foi capturado na Colômbia, num acampamento das FARC. Negro Acácio era sócio de Fernandinho Beira-Mar no narcotráfico.

- Na mesma semana da reunião da UNASUL em Brasília, ocorria, em Montevidéu, Uruguai, o 14o. encontro do Foro de São Paulo. Representou o Brasil o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia. Na reunião do Foro, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, assim se referiu à morte recente do número um das FARC, Manual Marulanda, vulgo "Tiro Fijo":

“Eu quero expressar minhas condolências e minha solidariedade para com as Farc e para com a família do comandante Marulanda. Um lutador extraordinário que vem batalhando desde muitos anos.

Um guerrilheiro com a luta, agora interrompida, mais longa da história da América Latina e do Caribe. Uma luta que tem suas origens, suas raízes, nas profundas desigualdades que vive o povo irmão colombiano.

[...] Era um homem humilde, o Marulanda, que falava com humildade. E me sinto honrado de ter-lhe dado, em nome de nosso povo, a ordem “Sandino”. Manuel Marulanda Vélez, um valente, um lutador."

Afirma o noticiário sobre o evento (http://209.85.215.104/search?q=cache:C_9IArujlK4J:www.laspecula.com/index.php%3Foption%3Dcom_content%26task%3Dview%26id%3D1245%26Itemid%3D1+Foro+de+S%C3%A3o+Paulo+Daniel+Ortega+Manuel+Marulanda&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br): "A platéia aplaudiu constantemente e com ânimo os elogios feitos pelo nicaragüense ao chefe terrorista, cuja morte foi anunciada no sábado pelo governo colombiano. As declarações do presidente sandinista e a reação dos participantes do evento não deixaram dúvidas de que as Farc, ainda que desta vez não estiveram presentes, seguem tendo amplo apoio dentro do Foro de São Paulo".

- Frase de Marco Aurélio Garcia, assessor especial do presidente Lula para relações internacionais, em entrevista ao jornal francês Le Figaro (4 de março de 2008): "Eu lhes lembro que o Brasil tem uma posição neutra sobre as FARC: nós não as qualificamos nem de grupo terrorista nem de força beligerante."

Estes são os fatos. Não acreditem em mim. Acreditem em Daniel Ortega. Acreditem em Marco Aurélio Garcia.
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P.S..: Em sua declaração final, a 14a reunião do Foro de São Paulo recomenda "aumentar os esforços para conseguir uma saída negociada para o conflito armado" na Colômbia. Pelo visto, os discursos dos companheiros do Foro (FARC incluídas) e de alguns governos da região estão mesmo bem sintonizados...

AGRADECIMENTO

Para provar que este blog não vive só de jogar pedra, deixo aqui meu obrigado ao Augusto Araújo, por seus elogios a meu texto sobre 1968, o ano que precisa acabar.
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Augusto chamou a atenção, em seu blog (http://augustoaraujo.blogspot.com/), para um fato muito importante, que eu esqueci de mencionar em meu texto:
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"... não concordo com Gustavo quando ele diz que 1989 não terminou. Pelo menos no Brasil nem começou."
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Você está coberto de razão, Augusto. De fato, 1989 ainda não começou entre nós. Aqui, o Muro de Berlim mental que se estabeleceu nos cérebros de nossa intelligentsia (melhor seria dizer "burritsia") esquerdóide ainda está de pé. Quando escrevi que 1989 é o verdadeiro ano que não terminou eu não estava, obviamente, me referindo ao Brasil. Por aqui ainda se vive como se a URSS ainda existisse, como comprova o atual governo dos companheiros. Nisso também estamos/somos a retaguarda do mundo.

Quanto ao Nelson Rodrigues, há algumas crônicas excelentes dele sobre a passeata dos cem mil (que, aliás, nem 100 mil tinha...), nos livros O Reacionário e em A Cabra Vadia, recentemente reeditados. Eu recomendo. Nelson Rodrigues é sem dúvida o melhor cronista dessa época, um oásis de lucidez em meio à loucura e à estupidez galopante daqueles tempos - que infelizmente insistem em não acabar...

sexta-feira, maio 30, 2008

MUDANÇA DE FONTE

Estou atendendo à sugestão de um atento leitor e mudando a fonte do blog para Verdana. Creio que assim fica mais fácil ler os textos. Agradeço a quem me deu a sugestão.
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Para o Augusto Araújo, que me pediu para transcrever meu texto anterior no blog dele: pode ficar à vontade, Augusto. Se tem uma coisa que nunca vou cobrar, é copyright. Aliás, sempre que posso dou uma olhada em seu blog também. Ótimos textos. Continue assim.

quinta-feira, maio 29, 2008

1968: O ANO QUE PRECISA ACABAR


Algum tempo atrás, em um comício, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, exortou os franceses a "liquidar a herança de Maio de 1968".
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Sarkozy tem muitos defeitos - seu estilo está mais para Berlusconi, por exemplo, do que para De Gaulle -, mas, aparentemente, o deslumbramento e a reverência beata em relação ao que foi o "ano que não acabou" não é um deles. Ele não padece do mal bastante comum entre muitos de sua geração, e principalmente entre os mais jovens, que insistem em ver os acontecimentos de 1968 com devoção supersticiosa, como se tivessem sido uma espécie de catarse libertária coletiva, de revolta geral contra o autoritarismo dos mais velhos e pela libertação individual. A lucidez de sua exortação só é comparável a seu bom gosto para as mulheres e talento para a autopromoção. Palmas para ele.

Este ano, 1968 completa quatro décadas. Como ocorreu dez anos atrás, a efeméride está sendo lembrada com uma nova enxurrada de livros, filmes e entrevistas, entremeada por um clima irritante de nostalgia, em que senhores e senhoras grisalhos relembram aquele período áureo de sua juventude, em que sonhavam mudar o mundo (para melhor? duvido muito). Via de regra, os mais jovens só ouviram falar de 1968 e dos anos 60 em geral por intermédio dessas lembranças, bastante seletivas, de velhos intelectuais "meia-oito" ou soixante-huitards. Natural que sua visão sobre as barricadas de maio de 68 em Paris e os protestos estudantis ao redor do mundo, assim como sobre a flower generation e os hippies, seja tão fiel à realidade dos fatos quanto a série O Senhor dos Anéis...

Nos países ocidentais, o ano de 1968 já adquiriu o status de mito, um divisor de águas da segunda metade do século XX. E, como ocorre com todos os mitos, sua base fundamental não é a dura e feia realidade, mas o desejo, a vontade de que as coisas se encaixem em nossos sonhos. A lenda mais persistente sobre aquele período é que este teria sido um momento de explosão libertária. Trata-se de um equívoco, fruto da ignorância e da manipulação. De libertário, 1968 não teve nada, ou muito pouco. Basta ver os slogans dos estudantes rebelados em Paris: ao lado de bordões anarquistas como "É proibido proibir", ou românticos como "Sejamos realistas: exijamos o impossível", encontravam-se platitudes marxistóides como "Abaixo o imperialismo norte-americano no Vietnã", "Viva Che Guevara", ou "Deus: te suponho um intelectual de esquerda" (este último, um lema da então nascente teologia da libertação, de famigerada memória).

O caráter muito pouco libertário de 1968 pode ser atestado pelo seguinte fato: aquele foi o ano da retomada mundial das esquerdas, desgastadas após décadas de stalinismo e burocratismo dos antigos partidos comunistas, vistos com cada vez mais desconfiança pelos mais jovens. Foi o momento em que a geração nascida durante ou após a Segunda Guerra Mundial - a geração de meus pais - se insurgiu não apenas contra o "velho", tudo que era antigo e cheirava à autoridade, mas também contra o que, até os dias de hoje, é novo - os valores da democracia liberal, como a tolerância e a liberdade de pensamento, algo ainda tão estranho a nós, deste subdesenvolvido Brasil. De certo modo, o conjunto de revoltas estudantis ocorridas quase simultaneamente naquele ano - em Paris, Roma, Berlim, Tóquio, Rio de Janeiro - foi uma revolta não contra as velhas práticas e objetivos da esquerda, mas a favor delas. Buscava-se então recuperar aquilo que as esquerdas ocidentais haviam perdido durante os anos sombrios do pós-guerra na Europa - não por acaso, a palavra mais repetida em 1968 não foi "liberdade", mas "revolução". Daí o surgimento, nesse período, da "esquerda festiva" e da New Left, capitaneada por figuras como Noam Chomsky e Tariq Ali, campeões do antiamericanismo e do populismo terceiromundista mais vagabundos, recobertos com uma embalagem "pop-chique". Estes fizeram muito barulho protestando contra as atrocidades norte-americanas no Vietnã, onde trataram de transformar uma vitória militar numa derrota política, demonstrando assim os incríveis poderes de manipulação da televisão. Mas quase não se ouviu a voz deles quando se tratava de condenar os crimes do Vietcong... (é que estes, ao contrário das cenas de combate envolvendo os marines estadunidenses, não apareciam no noticiário da noite).

Que o libertarianismo associado aos anos 60 e às esquerdas seja uma farsa, não é algo muito difícil de constatar. Basta recordar que muitos dos estudantes franceses que ocuparam a Sorbonne ou seus colegas brasileiros que atiravam pedras na polícia tinham como modelos a China de Mao Tsé-Tung e a Cuba de Fidel Castro. Na China, na mesma época, o Grande Timoneiro, que já contava mais de setenta anos de idade, arregimentava a juventude fanatizada por seu Pequeno Livro Vermelho contra a "velha geração", na chamada "Revolução Cultural" (na verdade, anticultural). Milhares de adolescentes chineses, gritando slogans e usando o uniforme dos Guardas Vermelhos, dedicavam-se a espancar e a humilhar seus professores, em nome do presidente Mao. O resultado foi uma multidão de mortos, num dos períodos mais sombrios de um dos regimes mais sanguinários de todos os tempos. Em Cuba, o ditador Fidel Castro, visto como exemplo de revolucionário pelos jovens contestadores de então, mobilizava a polícia política para cortar à força os cabelos compridos dos jovens cubanos, enviando os homossexuais para "campos de reeducação" e tendo proibido, inclusive, o rock (em mais um exemplo de oportunismo ideológico, e percebendo o sex-appeal da cultura de 68, o tirano barbudo inaugurou em Havana, há alguns anos, uma estátua de John Lennon - um "antiimperialista", segundo ele...). O mesmo Fidel Castro, que na mesma época recolhia os dividendos do mito recém-criado em torno da morte de Che Guevara na Bolívia, justificou, num discurso vergonhoso, a invasão da Tchecoslováquia pelas tropas soviéticas, em agosto daquele mesmo ano. O que demonstra que toda a "onda jovem" geralmente associada aos anos 60 teve, na verdade, um forte componente de mentira e manipulação.
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No Brasil, o ano de 1968 também foi agitado, como sabemos. Aquele foi o ano das grandes demonstrações de protesto estudantil contra os militares no poder, como a Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro ("não vi um negro", escreveu Nelson Rodrigues, certamente o melhor cronista daqueles tempos). Ao mesmo tempo, cozinhava-se na caldeira dos protestos o que seria o plat du jour daqueles tempos de chumbo: o terrorismo. No Rio de Janeiro, em julho, um comando terrorista de esquerda assassinou a tiros um major do Exército da Alemanha ocidental, tomando-o pelo militar boliviano que prendera, no ano anterior, Che Guevara... Em São Paulo, alguns meses depois, outro grupo metralhou na frente de sua família um capitão do Exército norte-americano, julgando-o, sem provas, agente da CIA e torturador. No final do ano, um discurso idiota e infantil de um deputado oposicionista serviu de pretexto para o fechamento do Congresso e a decretação do AI-5, o famigerado Ato Institucional Número 5. Nos anos seguintes, os atentados terroristas da esquerda se multiplicaram, assim como a tortura, resultando no mito de que os militantes da esquerda armada eram lutadores contra o "autoritarismo" e a favor da democracia. Até hoje os sobreviventes da luta armada do período apresentam-se como tais, não raro apelando para suas credenciais de ex-torturados e supostos ex-combatentes da liberdade para justificar mensalões e dossiês.

Também na área da mudança comportamental, os efeitos de 68 trazem um inconfundível sabor de farsa. A apologia do "amor-livre", graças à popularização da pílula anticoncepcional, assim como das drogas como a maconha e o LSD, longe de constituírem uma celebração da liberdade, parecem, hoje em dia, simples manifestação de tendências autodestrutivas, uma espécie de tentativa de suicídio coletivo. Hoje, a liberdade sexual deu lugar ao flagelo da AIDS, e a "expansão da mente" por meio de alucinógenos pregada por Timothy Leary resultou não em liberdade e autoconhecimento, mas nas batalhas entre narcotraficantes e polícia nas favelas cariocas. Outros movimentos fortes na época, como o feminismo e a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, ensejaram não a tolerância, mas cretinices como o sistema de cotas e a moda totalitária do politicamente correto, com sua novilíngua.
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No campo das idéias, a década de 60 também deixou um rastro de destruição em seu caminho. Assistiu-se, desde então, ao triunfo do relativismo, mediante a onda "desconstrucionista" e "pós-moderna", embalada pelas teorias de Marcuse e da Escola de Frankfurt, que buscavam injetar vida nova no velho marxismo. A conseqüência desse gigantesco exercício de desconstrução mental foi a produção de uma vasta literatura desbancando as certezas da moral e da ética - tidas como meros "preconceitos burgueses" - e a implantação, em lugar destas, de uma visão de mundo relativista, que rapidamente descambou para o niilismo. Em um mundo onde não se poderia mais ter certeza sobre nenhum assunto, a "desconstrução" tornou-se a nova palavra de ordem. Daí para a justificação de fenômenos como o terrorismo ("uma manifestação legítima de resistência contra a opressão colonial e capitalista") foi um pulo. De certo modo, pode-se traçar uma linha entre 1968 e Bin Laden.

Mas, acima de tudo, 68 foi o ano do surgimento, ou pelo menos da entronização no insconsciente coletivo, do "jovem". Este tornou-se, desde então, uma figura verdadeiramente totêmica, objeto de culto e de veneração respeitosa, acima do bem e do mal. Como reposítório das "idéias novas" de então, tudo passou a ser-lhe permitido. Nunca, em toda a História, a imaturidade foi tão louvada e reverenciada. "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", tornou-se moda dizer. O resultado foi o surgimento de uma geração de adultos imaturos e despreparados, eternos adolescentes, mimados e narcisistas, incapazes de encarar a vida de forma serena e minimamente responsável. Seus filhos e netos, atingidos de irrestível nostalgia por aquilo que não viveram, se encarregaram de manter acesa a chama da religião meia-oito.

Enfim, 1968 passará à História não como o ano da liberdade, mas do flerte com o totalitarismo. Não o ano do surgimento de uma nova geração, mais consciente e politizada, mas de uma multidão de palermas e zumbis ideológicos. Muito mais importante, do ponto de vista político, foi 1989, a meu ver este sim o ano que não terminou. Não apenas porque, tendo nascido em 1974, pude presenciar, ao vivo e a cores, os acontecimentos desta última data, ao contrário daquela, que só existe para mim em livros e documentários em preto-e-branco. Mas principalmente porque, ao contrário de 1968, 1989 foi uma data verdadeiramente libertária, em que os ventos da mudança realmente sopraram em vários países, levando consigo o regime totalitário mais odioso da História. Infelizmente, esse processo ainda não se completou, abortado em nosso continente pelos remanescentes de 1968, que insistem em restabelecer, na América Latina, o que se perdeu no Leste Europeu. O ano de 1989 ainda não terminou. O de 1968 precisa acabar.
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P.S.: Para mim, o legado de 1968 é como o Fusquinha da foto (aliás, ano 68): até simpático, mas caindo pelas tabelas, e dificilmente vai te levar muito longe...

quarta-feira, maio 28, 2008

Resposta a um leitor muito caridoso


Comentário a meu texto "O Bolsa-Família precisa acabar. Para o bem dos pobres", de 18 de março (o autor assina como "anônimo"):

"bem percebesse q o seu forte naum eh compreender a necessidade do carente

fala lah pro pai de familia q tah na seca ,tem 5 filhos pequenos pra criar e naum consegue emprego e q recebe a bolsa familia q ele tah sendo comprado o bolsa- familia tem q acabare q apatir de agora ele vai ter q si virar pois ele naum vai mais recebr o unico auxilo q ele tinha de sustntar a sua familia

acho tambem q vc naum compreendeu q o bolsa familia exige q as crianças estejam na escola e tenham acompanhamento medico. O bolsa familia eh uma das unicas esperanças q esses miseraveis tem de mudar a sua condiçao de pobrezacriaça na escola eh o primeiro passo para um brasil melhor vc naum acha?

e o bolsa familia eh um programa q naum visa a manuntençao da pobreza e sim uma escapatoria

revise as sua fontes de pesqisapara um professor de historia o seu ponto de vista eh bem estaguinado

Sexta-feira, 23 de Maio de 2008 22h50min00s BRT"

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Para quem, assim como eu, teve dificuldades em compreender em que língua foi escrito o comentário acima, faço um favor e o traduzo para o idioma de Camões:
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"Bem, percebe-se que o seu forte não é compreender a necessidade do carente. Fala lá para o pai de família que está na seca, tem 5 filhos pequenos para criar e não consegue emprego e que recebe a Bolsa-Família que ele está sendo comprado, que o Bolsa-Família tem que acabar e que a partir de agora ele vai ter que se virar, pois ele não vai mais receber o único auxílio que ele tinha para sustentar a sua família!

Acho também que você não compreendeu que o Bolsa-Família exige que as crianças estejam na escola e tenham acompanhamento médico. O Bolsa-Família é uma das únicas esperanças que esses miseráveis têm de mudar a sua condição de pobreza. Criança na escola é o primeiro passo para um Brasil melhor, você não acha?

E o Bolsa-Família é um programa que não visa à manutenção da pobreza, e sim uma escapatória. Revise as suas fontes de pesquisa. Para um professor de História, o seu ponto de vista é bem estagnado".

Traduzido o texto para a língua de Eça de Queiroz e Machado de Assis, vamos à minha resposta:

Esses petistas são mesmo estranhos. Durante mais de duas décadas eles vociferaram contra o assistencialismo, afirmando que este não passava de um instrumento da "zelite" e do capitalismo para manter o povão anestesiado e impedir a tão sonhada mudança social (a "revolução", diziam). Agora que estão no poder, mudaram completamente o discurso em relação a isso também. E usando os mesmos "argumentos" das elites que diziam combater, arrogando-se em porta-vozes das "necessidades dos carentes"...

Fico intrigado: mudaram os petistas ou mudou a realidade? Ou será que mudaram ambos? Ou, o que é mais provável, não mudou nem uma coisa nem outra - pelo contrário, tudo continua exatamente como sempre foi, apenas o Estado é que mudou de mãos?...

Concordo plenamente que criança na escola é o primeiro passo para mudar o País para melhor. Mas isso não tem nada a ver com o Bolsa-Família, assim como não tem nada a ver com os petistas. Países que alcançaram um alto nível de desenvolvimento na educação, como a Coréia do Sul, atingiram essa meta sem precisar de nenhum programa assistencialista do tipo. O Bolsa-Família não passa de um instrumento paternalista e eleitoreiro de reprodução da pobreza, a serviço dos interesses partidários dos "companheiros". Além do mais, se o governo do presidente Lula estivesse realmente interessado em melhorar a educação, poderia começar por ele próprio, voltando aos bancos escolares. Seria um primeiro passo muito importante, sem dúvida. Sem falar que, pelo visto, o autor do comentário, pela excelência do Português em que este foi escrito, deve ter sido um dos beneficiados pelo Bolsa-Família...

Fico aqui pensando... Que governo - e ainda mais um governo do PT, com seu apego ao populismo e à demagogia mais rasteiros - renunciaria voluntariamente à oportunidade de continuar manipulando uma ampla clientela de miseráveis estadodependentes, atrelados a ele por um programa assistencialista e paternalista, agindo assim contra seus próprios interesses? Quê? Voto de cabresto? Imagina...
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O mecanismo político por trás do Bolsa-Família e outras Bolsas semelhantes é bastante conhecido. Passei um tempo na Venezuela. Lá, o companheiro Hugo Chávez também está implementando uma série de programas assistencais, chamados "missões". Depois de alguns anos, constatou-se que a desigualdade, em vez de diminuir, aumentou. A dependência política da população em relação ao Estado, porém, aumentou consideravelmente, ao mesmo tempo em que o clientelismo e a corrupção. Hoje, as "missões" são um dos principais instrumentos de manutenção do poder do caudilho Hugo Chávez. Alguma coincidência com um certo país e um certo presidente de língua presa?

Pois é. Como se vê, preciso revisar minhas fontes de pesquisa. Afinal, como diz o leitor caridoso que escreveu o comentário, estou mesmo "estaguinado"...