quarta-feira, agosto 06, 2008

PARIS HILTON NA CASA BRANCA

Barack Obama em campanha: "sim, nós podemos!"


Vou falar sobre as eleições nos EUA, porque, sobre as daqui, realmente não dá. O pleito municipal deste ano, como quase toda eleição do tipo, pelo que se viu até agora, vai ser de dar engulhos. Então, falemos das eleições lá na terra do Jorgibúshi.
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Paris Hilton anunciou que está pensando em se candidatar nas próximas eleições americanas. Se você acaba de chegar de uma temporada de alguns anos em Marte e não sabe quem é Paris Hilton, eu digo quem é: Paris Hilton é aquela patricinha americana que ficou famosa no mundo inteiro porque... porque... por que mesmo? Ah lembrei: ela é uma super-hiper-ultra-mega celebridade porque é... porque é uma celebridade, ora. O que a levou a cogitar da hipótese de se lançar candidata ao cargo supremo da maior potência do planeta? Um vídeo - como sempre, mais um - lançado pela candidatura de John McCain, sobre Barack Obama. No vídeo, uma das coisas mais certeiras e bem-boladas dos últimos tempos, o candidato democrata e queridinho das esquerdas é mostrado como o que de fato é: uma figura messiânica, comparada a Moisés (o "escolhido"), aclamado por meio mundo e de quem se espera ser capaz de separar as águas do Mar Vermelho, e, no quesito celebridade, a Paris Hilton e Britney Spears. O vídeo coloca a questão: "ele é o escolhido, mas... está preparado para liderar?" Em outras palavras: qual a qualificação de Obama para querer ser presidente dos EUA a não ser o fato de ser... de ser... uma celebridade, ora? Daí porque Paris Hilton está pensando também em se lançar à política: se ele pode, por que não eu? Deve ter pensado, com seus Tico e Teco: "yes, I can!"
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Barack Obama é a Paris Hilton da política americana. Assim como a socialite loira de miolo mole, ele é conhecido não pelo que tem a dizer, por suas idéias - se é que as tem -, ou por qualquer coisa do gênero, mas unicamente porque... porque... porque é uma celebridade, ora! E celebridades não precisam ser nada além disso: celebridades. O rosto de Obama, com aquele sorriso de Caetano Veloso e aquele jeito de político-que-finge-não-ser-político, já conquistou as capas das principais revistas do mundo, como um pop star, um Michael Jackson antes da decadência. Não por acaso, Hollywood o adora, e muitos astros do cinema americano - a televisão deles - já entraram de cabeça no oba-oba obamista. Se um ET aterrissasse hoje no planeta, teria a nítida impressão de que ele, Obama, já é o presidente dos EUA, ou que está concorrendo à presidência sozinho. Como ocorre com todas as celebridades, seu nome e seu rosto estão sendo constantemente promovidos pela imprensa, que não cessa de lhe cobrir de epítetos grandiosos e favoráveis: o "Kennedy negro", o "presidente da esperança" - o Escolhido, enfim. Alguns dias atrás, Obama esteve na Europa, onde se encontrou com chefes de estado e fez um comício-monstro em Berlim para 200 mil pessoas, que o ovacionaram como um verdadeiro Messias. Mais uma vez, Obama não tinha muito o que falar: bastava ser ele mesmo, Obama. Bastou repetir, pela enésima vez, aquele papo chocho e os clichês sobre "mudança" e "sim, nós podemos", e as multidões foram ao delírio, provando que Obama é mesmo o futuro presidente da... Alemanha. Isso prova que Paris Hilton tem mais uma coisa em comum com Obama: afinal, ela também sabe usar a língua, como demonstra aquele video famoso dela na internet... Como não poderia deixar de ser, a febre obamista já cruzou o oceano - como diria o geógrafo Lula - e aportou por essas bandas, levando de roldão nossa intelligentsia, que, como sabemos, é mais do oba! que do epa! Outro dia, Arnaldo Jabor - que fala mal de Lula mas, para compensar o velho coração esquerdista, adora criticar o Bush - chegou a dizer que Obama é "sexy". Paris Hilton e Britney Spears também são.
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Agora que a imprensa - dos EUA, da Alemanha, do Brasil, das Ilhas Salomão - já elegeu Obama para a Casa Branca, o Oscar, o Prêmio Nobel e o Colégio dos Cardeais, acho que é hora de chamar a atenção para alguns fatos, que talvez sirvam para estragar a festa da turma do "já ganhou". Sei que é chato, mas ir ao dentista também é, e nem por isso deixa de ser algo necessário. Vamos lá. Ontem foi divulgado - discretamente, como convém - que Obama e McCain estão tecnicamente empatados. Nas semanas anteriores, a vantagem de Obama nas pesquisas era de 3%, o que significa também um empate técnico (mas, pela cobertura da imprensa, era como se fosse uns 30% ou mais). A candidatura Obama, ao que tudo indica, parece estar começando a fazer água, como a de John Kerry em 2004 e a de Al Gore em 2000. Por quê? Porque, ao que parece, os americanos estão atrás de eleger um novo presidente da República, alguém que vai comandar o país pelos próximos quatro - ou oito - anos, e não uma Paris Hilton ou uma Britney Spears.
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Ainda mais - e isso está começando a pesar nas pesquisas -, o candidato em questão traz em sua biografia uma série de lacunas, que tenta a todo custo esconder do público. Há alguns dias, uma revista, a New Yorker - aliás, de esquerda - estampou em sua capa uma gravura de Obama vestido de terrorista, com um turbante árabe, juntamente com sua esposa no Salão Oval da Casa Branca, com uma bandeira dos EUA alimentando a lareira ao fundo. Foi um deus-nos-acuda: muita gente - a patrulha "politicamente correta" que compõe a tropa de choque obamista - protestou, com a fúria de radicais islâmicos, contra o que considerou uma manifestação de "preconceito" contra o candidato negro (mulato, cá entre nós). O que ninguém lembrou de dizer é que a gravura era apenas uma representação do discurso e da imagem do candidato. De pai muçulmano, Obama jura de pés juntos que não segue a fé do Profeta. Nada demais: por mim, ele poderia ser umbandista, ou acreditar em duendes, e não iria fazer diferença. O problema é que ele também jurava de pés juntos e com a mão em cima da Bíblia - ou do Corão - que o pastor da igreja que freqüentou durante vinte anos - e que foi, aliás, seu mentor -, Jeremiah Wright - aquele que, nos seus sermões, amaldiçoava com todas as letras os EUA -, era um sujeito ponderado e equilibrado. Diante disso, fica fácil acreditar que Obama seja até mesmo - quem sabe? - um agente da Al-Qaeda infiltrado.
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A atual eleição americana é uma escolha entre o conhecido e uma incógnita, entre o certo e o duvidoso (e põe duvidoso nisso). Basta fazer uma rápida comparação entre os dois candidatos. John McCain pode não ter o mesmo glamour de Obama, nem sua juventude, nem os mesmos nomes do show business a apoiá-lo - nem o mesmo caixa abarrotado de campanha -, mas os americanos, pelo menos, sabem quem ele é e o que pensa. Seu passado, se para nós não quer dizer muita coisa, o credencia para candidatar-se, nos EUA, a qualquer posto que quiser: ex-piloto da Marinha, abatido sobre as selvas vietnamitas, prisioneiro de guerra no Vietnã por cinco anos - enfim, um verdadeiro herói de guerra, como Kennedy também foi - muito menos, aliás, do que McCain. Se lhe faltam quaisquer outras qualidades, sua lealdade ao país em que nasceu, pelo menos, está mais do que comprovada. Em época de guerra ao terrorismo - na verdade, ao terrorismo islamita -, convenhamos, isso faz alguma diferença. E Obama? Bem, Obama é uma celebridade. Então, tá.

Antes eu desconfiava que dizer que Obama é só um produto de marketing era só conversa mole de republicanos reacionários. Depois que vi o rosto dele, Obama, na capa da Rolling Stone (edição brasileira), não tive mais dúvidas. Entre Obama e Paris Hilton, pelo menos esta última parece ser mais sincera. Ou menos estrela.

terça-feira, agosto 05, 2008

CHIFRE EM CABEÇA DE... BOI (E TOURO, E BÚFALO, E CARNEIRO...)


Para parte da imprensa brasileira, o bicho aí em cima é um... cavalo
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Reinaldo Azevedo descascou em seu blog, frase por frase, artigo de Eliane Cantanhêde, publicado hoje na Folha de S. Paulo, sobre a relação governo Lula-FARC. Não sobrou linha sobre linha. Se quiserem dar uma espiadinha, cliquem aqui: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/.
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Vou fazer um resumo do artigo da Folha, que Eliane intitulou - vejam só - "Chifre em cabeça de cavalo". O texto é, com o perdão da metáfora zoológica, eqüino. O que diz Eliane? Primeiro, ela faz uma comparação entre o "refugiado político" Olivério Medina - o tal ex-padre, "embaixador" das FARC no Brasil -, com o ex-ditador do Paraguai Alfredo Stroessner, que se asilou no Brasil após ser derrubado do poder, em 1989, e morreu por essas plagas em 2006. "Isso não significa que o governo brasileiro financiasse o terror paraguaio, nem articulasse um golpe no país vizinho", diz Eliane. A comparação, qualquer pessoa com um mínimo de noção da realidade sabe, não faz qualquer sentido. Stroessner havia sido presidente do Paraguai, de onde foi chutado em um golpe de Estado, portanto tinha direito a asilo político, desde que, como está no Direito Internacional, se abstivesse de qualquer atividade política, coisa que, diga-se, ele cumpriu fielmente. Aliás, foi exatamente para isso que foi instituído o asilo político: para ex-presidentes e políticos que haviam se dado mal em suas terras.
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Já Olivério Medina é membro de uma organização narcotraficante e terrorista, e nada parece indicar que ele renunciou a suas atividades - pelo contrário: os e-mails descobertos no laptop de Raúl Reyes, o número dois das FARC morto em março pelo exércio colombiano, deixam claro que o "Cura Camilo" anda bem ativo e serelepe em sua "luta revolucionária". Além do mais, de que "terror paraguaio" Eliane fala? Das muambas contrabandeadas de Ciudad del Este, do uísque falsificado ou daquele craque gordinho, o Cabañas, da seleção guarani?.

Mas a coisa não pára por aí. Eliane diz não entender o porquê do "deus-nos-acuda" criado em torno de Medina e de sua esposa, contratada pelo Ministério da Pesca. Afinal, ela não tem também direito a trabalhar? Não é uma filha de Deus também? Que singelo... Só faltou responder por que ela tinha que arranjar uma peixada logo num Ministério do governo Lula, onde ganha para alfabetizar os milionários do Lago Sul de Brasília, e não, digamos, vendendo coco na praia... Pelo visto, para Eliane Cantanhêde, o serviço público é mesmo o destino lógico de qualquer parente de "refugiado político" das FARC no Brasil.
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O resto deixo vocês mesmo constatarem. Acho que o que está acima dá uma boa amostra do ponto (baixo) em que chegou parte da imprensa brasileira, que insiste em tapar o sol com a peneira para não queimar o filme da turma do Planalto. Basta dizer que Eliane repete em seu texto o mantra de que "não há qualquer prova" do envolvimento do governo Lula com as FARC, e que "as FARC mudaram, o PT mudou" etc. etc. A mesma ladainha de sempre.
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Já falei antes, neste blog, de Eliane Cantanhêde. Escrevi sobre um artigo dela, da mesma Folha de S. Paulo, sobre a "renúncia" de Fidel Castro, o tiranossauro do Caribe, em fevereiro. Naquela ocasião, ela criticou o que chamou de uma visão "maniqueísta" sobre a ditadura cubana, defendendo, em vez disso, uma postura "isenta" e "equilibrada" em relação ao tirano e a sua tirania. Agora, com seu texto, ela demonstra mais uma vez toda sua "isenção" e "equilíbrio" sobre Olivério Medina e as FARC.
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O governo Lula dá abrigo a terroristas e narcotraficantes. E gente como Eliane Cantanhede acha que isso é perfeitamente normal, não tem nada demais. É triste.
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Enfim, Eliane perdeu uma excelente oportunidade de ficar calada. E demonstrou que não adianta esconder o chifre na cabeça do boi para fingir que é cavalo (ou burro, o que é mais provável).
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Ah, se houvesse jornalismo investigativo no Brasil...

segunda-feira, agosto 04, 2008

OBITUÁRIO - ALEXANDER SOLZHENITSYN

Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)


Faleceu ontem, dia 3, Alexander Solzhenitsyn. Escritor laureado com o Nobel de Literatura em 1970, e mais conhecido dissidente da antiga União Soviética em seus anos finais, encarnava como poucos a luta de resistência contra o opressão de um Estado totalitário. Tinha 89 anos, barba farta e o rosto sofrido de quem conheceu - e viveu - o inferno e se insurgiu contra ele.
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Autor, entre outras obras, de Um Dia na Vida de Ivan Denisovich (1962) e de Arquipélago Gulag (1974) - a primeira denúncia pormenorizada e consistente dos campos de concentração stalinistas -, clássicos que foram proibidos durante anos na ex-URSS, foi, como sempre acontece com quem desafia o poder, um escritor maldito. A vida de Solzhenitsyn foi uma combinação perfeita de literatura e militância pela liberdade - o dever de todo verdadeiro intelectual.
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Frequentador assíduo das masmorras soviéticas, foi preso e deportado por dez anos para a Sibéria em 1945, em plena Segunda Guerra Mundial, quando era então oficial do Exército Vermelho, por causa de um comentário seu sobre Stálin. Como não poderia deixar de ser, ele foi, em vida, alvo freqüente das calúnias mais abjetas e das infâmias mais nojentas, atiradas contra ele pelos mascates da subliteratura de propaganda soviética - alguns deles, infelizmente, ganhadores do mesmo prêmio Nobel que o tornou famoso. Perseguido em seu país natal, onde sua obra só circulava em pequenas edições mimeografadas e contrabandeadas para o Ocidente - os samizdats -, depois do Nobel só lhe restou um caminho: o exílio. Só retornou à Rússia em 1994, três anos depois do fim da URSS.
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Solzhenitsyn se vai, mas o exemplo de dignidade intelectual de quem não se curvou às pressões do totalitarismo permanece. Que sua vida e sua luta sirvam de exemplo a todos que amam a liberdade - seja na Rússia de hoje, seja em Cuba ou no Brasil.
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Esta é minha pequena homenagem a quem foi, também, "do contra". A quem não teve medo de ser livre. De ser homem, e não gado.
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Alexander Isayevich Solzhenitsyn, descanse em paz.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Resposta ao leitor - sobre o PLC 122/06 (A LEI DA MORDAÇA GAY)

Escreve um leitor, que assina "Daniel", em comentário a meu texto "A intolerância dos intolerantes (ou: o direito de dizer besteira)", de 21/04:
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Será que se alguém considera negros inferiores e que a escravidão deveria voltar a existir ela deve ter sua opinião respeitada ou considerada racista e punida?
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Sugiro a leitura do projeto de lei 122/2006, no mesmo pode se ler que será caracterizado crime a discriminação contra a orientação sexual, sem especificá-la, logo, um heterossexual também poderia fazer uso da legislação para se defender em determinadas situaçãoes em que se considerasse discriminado pela sua orientação. O PLC 122/2006, assim, não se configura em um instrumento de garantia exclusiva dos homossexuais.
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Pelo visto, Daniel, que me recomenda ler o texto do PLC 122/06, não leu meu texto "Uma lei idiota", sobre o mesmo assunto. Pena. Tudo bem, eu respondo assim mesmo. Primeiro, à pergunta levantada por ele no primeiro parágrafo, respondo: SIM (com maiúsculas e em negrito, para que não fique dúvida). A pessoa deve ter sua opinião respeitada, seja qual for - inclusive se for racista, machista ou o que for. O motivo? Porque é uma OPINIÃO, e delitos de OPINIÃO não são punidos, pelo menos não numa democracia. Isso vale não somente para quem tem idéias racistas ou até mesmo escravagistas, mas para quem defende práticas como o homossexualismo. Aliás, isso já é assegurado pelas leis vigentes no País. E antes que me digam (é incrível, mas tem gente que realmente fala isso a sério): não, isso não significa que se deva voltar no tempo e implantar a escravidão, ou caçar e linchar os negros como era na África do Sul ou na Alemanha nazista. Até porque a Lei coibe esse tipo de comportamento. Mesma Lei, aliás, que GARANTE a LIBERDADE DE EXPRESSÃO e de PENSAMENTO contra qualquer tentativa de se implantar uma ditadura do politicamente correto, seja para beneficiar a minoria que for (gays, negros, indios, amarelos, botafoguenses etc.). O cidadão tem o direito a falar (e pensar) o que quiser, sobre qualquer assunto, sem correr o risco de ser preso ou processado por causa disso. O nome disso é DEMOCRACIA - coisa que muitos defendem mas que poucos, pouquíssimos, praticam.
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Outra coisa: discordar de uma opinião, considerando-a, por exemplo, racista (ou "homofóbica") não quer dizer puni-la. Do mesmo modo, respeitá-la - no sentido de respeitar o direito a quem PENSA diferente ter sua opinião, por mais estúpida que seja - não significa concordar com ela. Por não entenderem essa diferença (ou, ao contrário, por a entenderem muito bem), os militantes gays - ou gayzistas - acham o PLC 122/06 o máximo.
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Talvez sem querer, Daniel matou a charada sobre o tal PLC 122/06: se aprovada, essa lei irá PUNIR qualquer um que tiver uma OPINIÃO diferente ou contrária àquela defendida pelo movimento gay. E, quando se começa a punir pessoas - os evangélicos, por exemplo - por suas opiniões, o resultado é qualquer coisa, menos democracia.
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Quanto ao segundo parágrafo do comentário, já li sim, Daniel, o texto do PLC 122/06. Inclusive, dou-me ao trabalho de copiar aqui partes do texto, que pode ser encontrado facilmente na internet. Lá está escrito com todas as letras:
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Art. 1º Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, definindo os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.
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Art. 2º A ementa da lei passa vigorar com a seguinte redação:
“Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero (NR)”
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Art. 3º O artigo 1º, da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 1º Serão punidos, na forma desta lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero. (NR)”
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Art. 4º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 4º:
“Art. 4º Praticar o empregador ou seu preposto, atos de dispensa direta ou indireta.
Pena: reclusão de dois a cinco anos.”
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Art. 5º Os artigos 5º, 6º e 7º, da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passam a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 5º Impedir, recusar ou proibir o ingresso ou permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público; Pena — reclusão de um a três anos”
“Art. 6º Recusar, negar, impedir, preterir, prejudicar retardar ou excluir em qualquer sistema de seleção educacional, recrutamento ou promoção funcional ou profissional. Pena — reclusão de três a cinco anos”
“Art. 7º Sobretaxar, recusar, preterir ou impedira hospedagem em hotéis, motéis, pensões ou similares;Pena — reclusão de três a cinco anos”
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Art. 6º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 7º
‘Art. 7º Sobretaxar recusar, preterir ou impedir a locação, a compra, a aquisição, o arrendamento ou empréstimo de bens móveis ou imóveis de qualquer finalidade;Pena: reclusão de dois a cinco anos.”
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Art. 7° A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida dos seguintes art. 8º-A e 8º-B:
“Art. 8º-A. Impedir ou restringir a expressão e a manifestação de afetividade em locais públicos ou privados abertos ao público, em virtude das características previstas no artigo 1º;Pena: reclusão de dois a cinco anos.”
“Art. 8º-B. Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão HOMOSSEXUAL, BISSEXUAL ou TRANSGÊNERO, sendo estas expressões e manifestações permitidas ao demais cidadãos ou cidadãos.Pena: reclusão de dois a cinco anos.” (grifos meus - o Daniel disse que a PLC NÃO especificava a orientação sexual, "apenas punia a discriminação" etc.)
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Trocando em miúdos: de acordo com o PLC 122/06, se o cidadão, por qualquer motivo (crença religiosa, por exemplo) tiver um hotel ou restaurante e se recusar a hospedar um casal homossexual, será punido nos termos da lei com um a três anos ou de três a cinco anos de prisão (Artigos 3, 5 e 7). Se tiver um negócio e for, por exemplo, evangélico, e não desejar empregar ou resolver dispensar um empregado porque o encontrou se beijando com outro empregado do mesmo sexo no horário de trabalho, pagará com reclusão de dois a cinco anos (Artigos 3, 4 e 6). Se for, digamos, pastor de uma Igreja evangélica, ou mesmo diretor de um jardim-de-infância, e expulsar do local um casal que esteja se agarrando em público em pleno culto ou na frente das crianças, será igualmente apenado, com a reclusão de um a três anos ou de dois a cinco anos (Artigos 3, 5, 8-A e 8-B).
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Como se vê, o PLC 122/06 - que já está sendo chamado de "Lei da Mordaça Gay" - é realmente uma lei muito inteligente e necessária, um instrumento de tolerância e respeito à diversidade, uma verdadeira conquista da liberdade de expressão e da democracia...

ALGUMAS PERGUNTAS INCÔMODAS

Mal foi divulgado, em 31/07, pela revista colombiana Cambio, o conteúdo dos e-mails do terrorista das FARC Raúl Reyes, morto em março, envolvendo diretamente alguns figurões da alta cúpula lulista com os narcobandoleiros da Colômbia, e a operação-abafa começou a todo vapor. Ontem mesmo, alguns dos nomes envolvidos trataram de jurar de pés juntos que não têm, não tiveram nem nunca terão um dia nada a ver com as FARC, e começaram as insinuações de praxe contra o dono da revista, irmão do Ministro da Defesa da Colômbia, na milésima repetição da velha tática de atacar o mensageiro para que todos se esqueçam da mensagem.

A imprensa brasileira, até o momento, tratou o assunto como se fosse uma banalidade qualquer, preferindo falar das embaixadas de Ronaldinho e outras besteiras do tipo. Quando se deu ao trabalho de comentar o tema, como vi ontem no Jornal da Band, foi para tentar desqualificar as revelações, dizendo que "não há prova alguma" de que autoridades do governo lulista tenham qualquer envolvimento com as FARC...

Essa será a rotina dos próximos dias: os lulistas irão negar, até onde puderem, suas vinculações com as FARC, contrariando as evidências mais elementares; seus aliados na imprensa irão fazer-lhes coro, exigindo "provas", como fizeram no caso do dossiê - como se o crime, para ser crime, precisasse passar recibo -; e, depois de algum tempo, o assunto será esquecido e tudo voltará a ser como dantes no quartel de abrantes. Antes que consigam passar a borracha em mais esse escândalo - para mim, o maior de todos, até agora -, creio ser útil fazer algumas perguntinhas que não querem calar:

- Se é verdade que o governo Lula "não tem qualquer relação" com as FARC, o que faz o ex-padre Olivério Medina, "embaixador" das FARC no Brasil - apontado pelo jornal colombiano El Tiempo como responsável, no Brasil, pelo recrutamento de militantes e pela troca de cocaína por armas para as FARC -, onde se encontra há anos como "refugiado político"? Por que os "amigos daqui [do Brasil]", como escreveu Medina a Raúl Reyes, recusaram seu pedido de extradição feito pelo governo da Colômbia, onde correm vários processos contra ele, inclusive por terrorismo e homicídio?

- Por que, se o governo Lula e as FARC são água e óleo, a mulher de Olivério Medina, Angela Maria Slongo, é contratada do Ministério da Pesca, tendo sido transferida para Brasília, a pedido de Dilma Rousseff - fato que motivou um e-mail emocionado de Olivério Medina a Raúl Reyes, agradecendo ao governo brasileiro pela "mãozinha"?

- Por que o governo Lula não desmentiu de forma categórica, até agora, a denúncia da revista VEJA, feita em 2005, segundo a qual Olivério Medina foi o intermediário da doação de R$ 5 milhões das FARC à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002 (o máximo que se viu foram jornalistas a soldo da petralhada atacando a revista por fazer, vejam só, "mau jornalismo")?

- Se o governo Lula quer ver as FARC pelas costas, então por que se colocou incondicionalmente ao lado de Rafael Correa e de Hugo Chávez contra o presidente colombiano Álvaro Uribe, na crise entre os três países decorrente da morte, pelo exército da Colômbia, de Raúl Reyes, em março passado? Por que o governo brasileiro ignorou solenemente as revelações do laptop de Reyes, que provavam, por A mais B, que Correa e Chávez davam - e dão - apoio político e financeiro aos narcoterroristas das FARC?

- Se o governo Lula mantém distância das FARC como as beatas da tentação, como explicar que o partido do governo, o PT, seja PARCEIRO e ALIADO das FARC no Foro de São Paulo, organização criada por Lula e Fidel Castro em 1990, e que o PT inclusive já assinou um manifesto do dito Foro de APOIO ÀS FARC e condenando o governo da Colômbia por "terrorismo de Estado"?

- Se - apenas uma suposição - fosse descoberto um e-mail ligando, de alguma maneira, algum assessor do presidente Álvaro Uribe com os paramilitares colombianos de direita, será que a reação dos companheiros lulistas seria a mesma? Iriam, por acaso, exigir "provas irrefutáveis" para se darem por satisfeitos?
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- Se o governo Lula não quer ver as FARC nem pintadas de ouro, então por que não as reconhece como uma organização terrorista?
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- Finalmente, você já viu algum traficante ligado às FARC preso no Brasil?
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Se quiserem enviar as perguntas acima para o Palácio do Planalto, fiquem à vontade. Pensei em fazê-lo, mas já sei qual resposta eles darão.
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Lula e seus amigos tentaram usar o conflito na Colômbia para pressionar o governo Uribe e forçá-lo a reconhecer as FARC como uma força política legítima. Agora que estas estão na pior, tentam se distanciar delas. Quebraram a cara, e agora querem se safar. Típico.
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As perguntas estão feitas. Quem tiver neurônios para pensar, que tente respondê-las.
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Das duas uma: ou os lulistas acreditam nas próprias mentiras, ou as acham necessárias.

A MARCHA DOS REVANCHISTAS

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TARSO, CUIDADO COM O QUE VOCÊ DESEJA! HÁ O RISCO DE CONSEGUIR...
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É realmente uma magnífica coincidência que tenha vindo a público a reportagem da revista Cambio — exibindo quantos são os valentes do governo Lula e do petismo que buscaram, como direi?, entender o universo das Farc — no dia em que o Ministério da Justiça deu largada à tentativa de jogar no lixo a Lei de Anistia, de 1979, que abriu o caminho, no país, para o fim da ditadura.
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De saída, cumpre afirmar uma coisa de maneira clara, transparente e insofismável: como sabemos, aqueles que, no passado, se comprometeram com a ditadura, ainda que nos porões — e o torturador, de fato, está no último degrau da cadeia alimentar da civilização —, desistiram do horror. Já alguns esquerdistas que, no passado, aderiram à luta armada e ao terrorismo, bem..., estes continuam a namorar com o totalitarismo até hoje. Um grupo de anistiados acatou a democracia. O outro ainda não. E justamente os que não acataram querem, agora, se vingar. Faz sentido! Jamais quiseram democracia: nem antes nem depois de 1964, nem antes nem depois do fim do regime militar.
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A tese de Tarso Genro é só uma malandragem retórica. Segundo diz, esse revisionismo — de fato, é revanchismo — não alcançaria aqueles que cumpriram as leis de então, ainda que fossem de exceção e próprias de um regime autoritário. Mas, argumenta Tarso, elas não permitiam a tortura.
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Além de ser uma estupidez política e uma estupidez histórica, trata-se também de uma estupidez lógica. Ora, não podendo punir seus adversários segundo o estado que temos hoje, democrático e de direito, Tarso apela ao estado que tínhamos então, de direito também, mas ditatorial. O homem ressuscita, se preciso, a, digamos, metafísica do estado de exceção para promover o que me parece ser um tentativa de vingança.
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E o terrorismo?
A pergunta óbvia se impõe: e o terrorismo? Que estado o suporta? Não o abrigava aquele, como não o abriga este de agora. Depreende-se da fala do ministro que os que agiram em nome das leis de exceção estão anistiados, mas ficam fora do perdão os que não encontravam naquela legislação abrigo para seus desatinos. E quem seqüestrou, assaltou bancos e matou civis e soldados? Alguns dos criminosos de então estão hoje no poder. Que lei os anistiou? Não é a mesma que, segundo ele, exclui os “torturadores”? Com isso, ele pretende que declaremos a tortura inaceitável e imprescritível — como se alguém a aceitasse hoje em dia. Quer dizer que devemos supor que aquela mesma lei estava, sem que soubéssemos, sendo leniente com o terrorismo? O espírito da Lei de Anistia declarava a superoridade moral do terrorista sobre o torturador?
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Ademais, não custa lembrar: outro promotor da revanche é ninguém menos do que Paulo Vannuchi, secretário nacional de Direitos Humanos, um dos homens que aparecem na reportagem da revista Cambio como muito compreensivos com a luta dos terroristas das Farc. Ele é dos "direitos humanos", e as Farc mantêm campos de concentração.
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A lei retroage?
Leiam o que escreve um leitor deste blog de modo irreparável e irrespondível:
“A imbecilidade em torno da discussão sobre a reabertura de processos da época da ditadura está (também) no fato de que, naquele tempo, não existia juridicamente o crime de tortura, que só foi criado no Brasil por meio da Lei n.º 9.455/97. Alguém precisa lembrar que as leis penais que criam novos crimes no cenário jurídico não são retroativas?
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Os atos de tortura praticados antes da Lei n.º 9.455/97 podiam ser punidos a título de abuso de autoridade (Lei n.º 4.898/65) e, conforme os resultados físicos dos atos de agressão, também a título de lesões corporais (art. 129 do Código Penal) e/ou homicídio (art. 121 do Código Penal).
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Ocorre que a lei brasileira não prevê um prazo de prescrição maior do que 20 (vinte) anos (art. 109, inciso I, do Código Penal), seja o crime qual for. Assim, se alguns pretendem discutir a possibilidade de punição a atos criminosos ocorridos até o ano de 1979, estão discutindo a (im)possibilidade de aplicação de sanções a fatos já prescritos até, no máximo, o ano de 1999.
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A grande questão que se põe é a seguinte: o papo do governo é para rir, chorar ou dar sono?”
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Causa finita est
A menos que Tarso consiga criar a Lei de Exceção da democracia, essa conversa não vai dar em nada e seria, obviamente, bombardeada no Supremo. O que ele quer com isso? Eis uma boa questão. Alguns leitores estão aventando uma hipótese um tanto conspiratória, é verdade, mas que tem a sua graça. Parece que Tarso, que se quer pré-candidato à Presidência, está disposto a (re)encruar os chamados Anos de Chumbo, em que ex-torturadores e ex-terroristas teriam de emergir do passado com nome e sobrenome, os reais. A turma do porão hoje veste pijama. Os que aderiram ao terror, no entanto, estão no poder. Um de seus membros destacados é Dilma Rousseff, a companheira Estela, adversária interna de Tarso no PT.
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Já imaginaram? Trinta anos depois da Lei da Anistia, alguns militares iriam em cana graças a uma revisão unilateral da lei, e a ex-companheira Estela se prepararia para um campanha eleitoral, candidata a comandante-em-chefe das Forças Armadas. Acho que não vai funcionar...
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“Se os ministros citados quiserem insistir na revanche, sempre é de bom tom lembrar um pensamento que diz: “É bom ter cuidado com o que você deseja; afinal, você pode conseguir”. O trecho foi enviado pelo leitor Paulo Boccato. Serve como uma luva para encerrar o texto.

quinta-feira, julho 31, 2008

As FARC e o Brasil - Com a palavra, o TPI


Não custa nada lembrar o que disse o promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), Luís Moreno-Campo, e que reproduzi aqui num post de 21/07:

Aqueles que dão apoio financeiro às Farc compartilham da intenção de cometer os delitos praticados pelo grupo. Por isso, podem ser considerados participantes em crimes contra a humanidade. O apoio político a um grupo como as Farc igualmente pode ser considerado um delito e, dependendo das circunstâncias, passível de ser investigado pelo país ou pelo TPI. Estamos avaliando agora o caso de grupos ou pessoas de fora da Colômbia, tanto da América do Sul quanto da Europa, que aparentemente apóiam as Farc. Queremos saber se é o caso de iniciar um processo. Por enquanto, só o que eu posso dizer é que estamos coletando informações sobre esse tema.

Diante disso, só resta perguntar o seguinte:

E AGORA, JOSÉ?

(E Roberto, e Gilberto, e Erika, e Celso, e Marco Aurélio, e Perly, e Paulo, e Selvino...?)

As FARC e os lulistas, os lulistas e as FARC...

Notícia quentinha, saída do forno. Leiam e tirem suas próprias conclusões (revista Cambio, da Colômbia, número 787, "El Dossier Brasileño", matéria de capa):

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Sem querer dar uma de profeta, vou me permitir lembrar a mim mesmo:

http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2008/07/o-brasil-e-as-farc-ou-por-que-no.html

http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2008/07/nota-do-governo.html

http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2008/07/barbrie-terrorista-golpeada-na-colmbia.html
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Agora vejamos o que os petralhas terão a dizer sobre essa verdadeira "bomba". Será que vão afirmar, também desta vez, que "todos fazem igual"? Ou que é tudo uma "conspiração das elites e da mídia"? Ou o Apedeuta virá a público dizer-se "traído"? Ou, melhor, que "não sabe de nada, não viu nada"?...
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O mais triste de tudo é que muita gente, certamente, vai engolir - mais uma vez! - a lengalenga dos lulistas... Até quando?

segunda-feira, julho 28, 2008

ODEIO A POLÍTICA. POR ISSO ESCREVO SOBRE ELA


"Political language — and with variations this is true of all political parties, from Conservatives to Anarchists — is designed to make lies sound truthful and murder respectable, and to give an appearance of solidity to pure wind." - George Orwell, "Politics and the English Language" (1946)

Numa tradução meio literal, a frase acima quer dizer o seguinte: "A linguagem política - e com variações isso é verdade para todos os partidos políticos, dos conservadores aos anarquistas - destina-se a fazer mentiras soarem verdadeiras e o assassinato respeitável, e a dar uma aparência de solidez ao puro vento". Escolhi-a para iniciar este texto pois ela traduz, como poucas, o verdadeiro sentido da política, e serve para explicar uma questão que vez ou outra me fazem: por que, afinal de contas, com tanta coisa mais amena e interessante sobre a qual pensar, este blogueiro perde seu (pouco) tempo de ócio escrevendo sobre política e seus atores?

Quem quiser saber de verdade a resposta para a pergunta formulada acima deve ler O Príncipe, de Maquiavel. Toneladas de papel foram gastas para tentar explicar se o pequeno livro do sábio florentino era imoral ou não - a Igreja Católica, pelo menos, não teve dúvidas, e tratou de colocá-lo em um lugar de destaque em seu índice de livros proibidos, o Index Librorum Prohibitorum. Há quem admire sinceramente o autor, e há quem o abomine completamente. Basta dizer que, em inglês, o apelido "Old Nick" (velho Nick, diminutivo de "Nicolas") passou a designar, na linguagem cotidiana, o Diabo, o rabudo, o cramulhão, o coisa ruim. O termo "maquiavélico", também, passou ao vocabulário com o significado de mau, imoral, diabólico etc., enfim, de tudo que há de ruim e perverso na alma humana. Mas o fato é que, goste-se ou não de Maquiavel e de sua obra, é impossível ignorá-la. Ainda mais nos tempos em que vivemos. Ainda mais no governo Lula. Ainda mais em época de eleição.

Há pelo menos duas maneiras de interpretar o que diz Maquiavel em O Príncipe: uma, mais tradicional, é como um manual de maldades. Esse é o sentido que geralmente se dá ao livro, como se ele fosse nada mais do que uma coletânea de perversidades cometidas pelos governantes, e como se deve praticá-las sem correr o risco de ser desmascarado e pagar por isso. Coisas como democracia, liberdade, verdade, moral, segundo essa visão, não seriam mais do que palavras vazias, que deveriam ser usadas pelos governantes apenas como uma forma de enganar os trouxas e garantir o poder. De acordo com essa visão, o livro teria sido escrito para os governantes da época, na Florença do Século XVI, e desde então tornou-se um manual para os políticos ou para executivos gananciosos.

Outra maneira de ler o clássico de Maquiavel é enxergar o pequeno tratado de política não como um manual, mas como uma advertência. Essa é a minha leitura preferida. Segundo ela, o livro não foi escrito para os políticos, mas para o vulgo, o povo, os mortais comuns. Em outras palavras: para quem não suporta a política, nem os políticos. A descrição feita por Maquiavel das técnicas para tomar e manter o poder, do mau-caratismo dos governantes, seria, assim, uma forma de denúncia, uma maneira de tirar o véu da política, vista até então como uma atividade sagrada, revelando toda sua fétida e terrível humanidade. Com Maquiavel, a política, entendida pela primeira vez como uma atividade humana, perdeu o caráter sagrado que lhe dava a filosofia cristã medieval. Desde então, a imagem do político, do sujeito que dedica sua vida a conquistar poder e angariar cargos estatais, mudou completamente, e definitivamente, sofrendo um rebaixamento drástico e radical: do "rei iluminado" da Idade Média, passou aos espertalhões e vigaristas de hoje, aos zé dirceus e Lulas da vida.

É por isso que escrevo sobre política, e não sobre poesia ou literatura: porque, apesar de gostar dessas atividades, ao contrário da política, escrever sobre esta última é algo imperioso, um dever de consciência. É por isso também que pego tanto no pé das esquerdas: porque ninguém, na atualidade, se encaixa tão perfeitamente no modelo maquiaveliano do político quanto eles, os bambambãs, os gostosões, os companheiros donos da verdade e salvadores do mundo. Em sua capacidade de enganar e de mentir, os esquerdistas superam qualquer um, deixam os collors e os malufs no chinelo. Não somente por terem se atribuído um papel messiânico e convencido a muitos disso, mas principalmente por encarnarem aquilo que George Orwell tentou denunciar: juntamente com a inversão moral, com a desconstrução de todos os valores tradicionais como meras "convenções burguesas", o esquerdismo resultou na perversão da linguagem, de fato na invenção de uma nova língua (a "novilíngua" orwelliana), em que as palavras adquirem um sentido completamente diferente de seu significado do dicionário, de acordo com as conveniências políticas do momento. Daí o lema do partido no romance mais conhecido de Orwell, 1984: "liberdade é escravidão/guerra é paz/ignorância é força".

Vejam o uso que os petistas fazem das palavras, por exemplo. Em 2005, todos assistiram estarrecidos a um desfile interminável de acusações envolvendo o governo Lula. O que fizeram os petistas na hora de se explicarem? "Caixa dois", na boca dos petistas, virou "recursos não-contabilizados". "Mensalão" e "corrupção" tornou-se "complô da mídia e das elites". "Crime" virou "erros de alguns companheiros" e assim por diante. No auge do escândalo, o próprio Lula veio à TV dizer que "todos fazem igual" (antes, dizia-se diferente dos outros). Forçado a se explicar, o Apedeuta descobriu um novo uso para uma palavra da língua portuguesa, inventando a traição sem traidor, dizendo-se "traído" (por quem? até hoje não respondeu). Agora que querem revisar a Lei de Anistia para punir apenas um lado do conflito dos anos 60 e 70, essa novilíngua e esse duplipensar esquerdistas ficam ainda mais evidentes: terrorista é "guerrilheiro"; assalto a banco é "expropriação"; assassinato é "justiçamento", e por aí vai... (os que participaram ou colaboraram com a repressão, por sua vez, serão sempre criminosos e torturadores, não importa se isso for verdade ou não).

Este ano teremos eleições. Nessa época, a novilíngua aparece de forma redobrada. Podem apostar o quanto quiserem. Haverá uma enxurrada de candidatos, de todos os partidos, maltratando a lingua pátria. E não falo em termos puramente gramaticais, como o Molusco já se tornou useiro e vezeiro em fazer, mas nos termos da perversão lingüística denunciada por Orwell. Os candidatos, como sói acontecer, usarão e abusarão de frases feitas como "é preciso redistribuir renda", "mais saúde", "mais escolas", "mais educação","justiça social" etc. etc. Não se enganem: quando um esquerdista, ou qualquer outro político, fala esse tipo de coisa, quer dizer, na verdade, "vou aumentar os impostos", "quero me dar bem" ou "o poder, o poder". É claro que, por serem políticos, eles jamais vão admitir isso. Não podem fazê-lo, pois deixariam de ser políticos.

Pode não parecer, mas eu detesto a política. Detesto mais ainda os que se metem em política. Os que vivem para ela, ou melhor, para o poder. Aliás, detesto não é a palavra: eu os desprezo. Acho uma prova da maior canalhice usar as esperanças dos miseráveis e a incultura do povão para atingir o que se quer. Para mim, os políticos são todos - todos - uns pilantras e uns farsantes. Quem quiser perder minha amizade, que se candidate nas eleições. Acho a política uma coisa suja e porca, a mais degradante das atividades humanas. É exatamente por isso que eu a estudo.

Não conheço nenhuma obra política importante escrita por um deputado ou governador brasileiro, nem mesmo por um presidente da República (desnecessário dizer que o atual presidente, que jamais leu um livro na vida e que é louvado por muita gente por causa disso, não vai se dar, um dia, a esse trabalho). Para eles, que amam o "pudê", não convém confessar suas verdadeiras intenções; estão muito mais preocupados em fazer política do que em pensar sobre ela. Daí porque a frase de Orwell que abre este texto, assim como a referência a Maquiavel, ajusta-se perfeitamente ao que penso sobre política, e por que escrevo sobre política.

Os que gostam da política viram políticos. Os que a detestam, como eu, escrevem sobre ela.

terça-feira, julho 22, 2008

A PEDIDO - UM ARTIGO SOBRE A COMUNA DE PARIS

Barricadas em Paris, 1871: esquerda quer modificar a História, não interpretá-la.


Um leitor assíduo deste blog - sim, eu tenho leitores! -, o Augusto Araújo, me escreve pedindo que eu faça uma análise sobre a Comuna de Paris de 1871. O motivo para esse seu pedido me parece bastante lógico: assim como outros movimentos sociopolíticos do passado, este também é geralmente utilizado pelos esquerdopatas e comunofascistóides para distorcer a realidade dos fatos e tentar vender suas teses totalitárias. Sendo assim, e mesmo não sendo meu costume escrever algo sob encomenda, atendo ao pedido do Augusto com prazer.

O tema não me é totalmente estranho. Em minha época de porralouquice trotskista, cheguei inclusive a dar uma aula/comício sobre o tema, seguida de debate. Foi em 1996, quando o fato completava cento e vinte e cinco anos. A, digamos, platéia para a qual eu fiz minha palestra dispensa comentários: um camarada revolucionário, um servidor público e um punk. Primeiranista do curso de História da universidade federal, deitei falação durante uma hora e pouco sobre o levante dos comunards franceses, que se seguiu ao colapso do Segundo Império de Napoleão III após a derrota acachapante da França na Guerra com a Prússia, na batalha de Sedan - embrião do revanchismo francês, uma das causas, mais tarde, da Primeira Guerra Mundial. Como não poderia deixar de ser na época, eu, intoxicado de literatura marxista, usei como base para minha exposição o livro de Karl Marx, A Guerra Civil na França, numa versão empoeirada que eu acabara de comprar num sebo.

Basicamente, minha análise era a mesma de Marx, a quem considerava, então, a última palavra sobre esse ou qualquer outro assunto: os insurretos parisienses - operários, setores médios e também muitos membros do que Marx chamava de lumpen-proletariado (mendigos, prostitutas, cafetães, desocupados, punguistas etc.) - poderiam ter alcançado seus objetivos revolucionários e "assaltado o céu", desde que tivessem tido uma liderança política conseqüente, imbuída da concepção científica da História - em outras palavras: desde que houvesse o tal "partido revolucionário". Esta era a idéia central esboçada por Marx em seu livro, e que seria a base para a tese desenvolvida por Lênin, anos depois, em seu panfleto intitulado Que Fazer? (1902), segundo a qual a revolução socialista não poderia ser espontânea - pelo contrário: para que fosse vitoriosa, seria necessário o partido de militantes profissionais, que se encarregaria de injetar a "consciência revolucionária" nas massas, de fora para dentro. Caberia ao partido, segundo essa visão, conduzir a classe operária rumo ao caminho glorioso da tomada do poder e da construção do Estado socialista. Como, na Comuna de Paris, não havia essa agremiação de intelectuais iluminados, o movimento foi rapidamente e sangrentamente reprimido pelas forças francesas e prussianas. A Comuna teria servido, assim, como uma espécie de "ensaio" para o triunfo dos trabalhadores, mais ou menos como fora a Revolução de 1905 em relação à Revolução de 1917 na Rússia. Essa era a lição que nós, revolucionários marxistas, deveríamos tirar do episódio. Essa era, aliás, a lição que se deveria tirar de todos os fatos da História, que só existia, em nossas mentes, para comprovar a verdade insuperável da doutrina marxista.

É claro que, nessa época, eu não tinha ainda aberto os olhos para o que é óbvio, para o que está na cara, a ponto de me dar certa vergonha dizê-lo hoje: tudo aquilo que eu dizia, aquela patacoada toda sobre a necessidade do partido revolucionário e a luta de classes aplicada à Comuna de Paris, não passava de wishful thinking, um enorme exercício de masturbação intelectual. Mais que isso: era um exercício de mistificação histórica e de babaquice ideológica sem tamanho. A Comuna nada mais foi do que o resultado do vazio de poder surgido na França com a derrota na guerra e a queda do Império, o que levou ao surgimento, na ausência do Estado, de um embrião de "poder popular" que durou três meses, e que foi rapidamente destruído em função da repressão e de suas inconsistências internas. Marxistas, socialistas moderados e anarquistas - principalmente estes últimos, que tomaram a dianteira do movimento - não se entendiam entre si. O resultado foram dias de caos e baderna, semelhante a tantas outras mazorcas do tipo, e que terminaram num banho de sangue.

Pelo menos numa coisa Marx estava certo: não havia, entre os comunards, nada que pudesse ser chamado, sequer remotamente, de consciência política. Não se compararmos o que ocorreu em Paris em 1871 ao que teve lugar na mesma cidade em 1789 ou em 1848. Ao contrário dessas duas revoluções anteriores, os ideais dos insurretos, se vitoriosos, levariam não a um sistema político melhorado, a um regime democrático ou coisa que o valha, mas a um tipo de Estado totalitário. De fato, foi exatamente isso que aconteceu depois na Rússia, a partir de 1917, e em todos os países que tiveram o infortúnio de se transformarem em repúblicas socialistas. A Comuna de Paris, apesar das idéias libertárias de muitos de seus integrantes, apontava numa única direção: a destruição completa das liberdades individuais, em nome da "redenção da humanidade". Assim como todos os movimentos reverenciados pela esquerda, diga-se.

Mas qual a razão de lembrar esses fatos sobre um acontecimento pouco conhecido, de mais de um século atrás? A razão principal é que os "intelequituais" de esquerda, em seu afã de poder total, construíram um discurso eficiente, baseado na monopolização da interpretação de certos fatos históricos. Reunidos num conjunto mais ou menos coerente, esses fatos - a Comuna de Paris, a Revolução Russa de 1917, as revoluções chinesa e cubana etc. - formam uma espécie de calendário revolucionário, paralelo ao calendário oficial, mediante o qual as esquerdas buscam reverenciar seus mártires e heróis e manter viva a chama da revolução proletária, descambando para a apologia e o panegírico. É somente por esse motivo que os esquerdistas se interessam pela História. O uso que fazem dela é puramente instrumental, não tem outra finalidade senão reforçar suas crenças. Não é difícil perceber que a principal vítima disso é a própria verdade histórica, a honestidade intelectual. Afinal, essa gente não está interessada em pesquisar seriamente os fatos históricos, mas apenas em usá-los como um pretexto para fazer proselitismo político e propaganda revolucionária. Para tanto, eles distorcem e mistificam fatos a seu bel-prazer, fazendo analogias impossíveis e desafiando as leis mais elementares da lógica. Dou um exemplo: certa vez, quando eu estava lecionando na universidade, um grupo de grevistas invadiu minha sala de aula e tentou convencer os alunos a aderirem à greve. Na ocasião, falaram em revolução. Perguntei então ao grupo como eles pretendiam fazer uma revolução impedindo os alunos que o quisessem de assistir às aulas. Um dos militantes, aliás estudante universitário, mencionou então o levante dos marinheiros alemães em Kiel, em 1918... Por aí se vê.

Alguns anos depois daquela minha inesquecível palestra para três pessoas, li outro livro sobre a Comuna de Paris, História da Comuna de 1871, de Prosper-Olivier Lissagaray (Editora Ensaio, 1991). O livro é basicamente uma narrativa clássica e factual sobre a revolta. Dele retirei a epígrafe que utilizei em minha dissertação de final de curso, e que desde então passou a ser uma das minhas citações preferidas: "Aquele que conta ao povo falsas lendas revolucionárias, que o diverte com histórias sedutoras, é tão criminoso quanto o geógrafo que traça falsos mapas para os navegadores". Poucas frases descrevem tão acuradamente o que as esquerdas fazem com a História. Parafraseando Marx, o que querem não é interpretar a História, mas modificá-la.

E isso não somente em relação à Comuna, é bom que se diga. Em praticamente todos os personagens e movimentos sobre os quais a esquerda se debruça, percebe-se o peso da falsificação histórica. Quem, entre nossos "intelequituais", teria a ousadia de lembrar, por exemplo, que Marx era um renomado racista que desprezava os povos eslavos e outros como "raças inferiores"? Ou que Lênin, e não Stálin, foi o criador dos campos de concentração na Rússia? Ou que foi o governo comunista do Vietnã do Norte, e não os EUA, que começou o conflito no Sudeste Asiático? Ou que a luta armada no Brasil nos anos 60 e 70 não visava à restauração das liberdades democráticas, mas sim ao estabelecimento de um regime totalitário no País? Quem, das hostes esquerdistas, teria coragem de admitir esses fatos publicamente?
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Se nossos esquerdopatas e marxistas de galinheiro estudassem a sério, sem maniqueísmos idiotas, os fatos e personagens que costumam louvar, ao invés de simplesmente tentarem manipular a História para gritar slogans e defender o fim do capitalismo, ficariam certamente decepcionados. Cairiam em si e perceberiam o quão tontos são, ao quererem que os fatos se adaptem a suas idéias, e não o contrário. Tomei essa decisão - estudar a História, e não distorcê-la para atender a objetivos políticos - alguns anos atrás. Por isso deixei de ser de esquerda. Não sei se quem me pediu esse texto ficará satisfeito. Mas é o que eu tinha a dizer.

segunda-feira, julho 21, 2008

É PRECISO INDICIAR LULA

Julgamento de altos oficiais nazistas em Nuremberg: tarefa inacabada


Todos sabem que não sou fã de Lula. Não costumo poupar adjetivos, nem argumentos, quando me refiro a ele e aos lulistas. Nunca escondi minha antipatia pelo Apedeuta, nem pelos que o cercam e idolatram. Falo mal de Lula e de seu cordão de puxa-sacos há muito tempo, bem antes de que isso virasse moda, seguida hoje até por muita gente que antes batia palmas para os "companheiros". Muito do que escrevo, reconheço, são opiniões pessoais, e se quiserem podem descartá-las como simples observações impressionistas, até mesmo como pirraça ou obsessão de minha parte, ou como mera vontade de ser "do contra". Não me importo com isso. Mas o que vem a seguir está além de qualquer opinião ou juízo que eu poderia emitir. É algo realmente grave, que me faz pensar sobre o verdadeiro caráter - ou a falta de - dos que estão no governo no Brasil, e como estamos todos anestesiados e idiotizados por não percebermos a gravidade desses fatos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa ser preso e processado imediatamente. E não é somente por causa do mensalão ou de outro escândalo qualquer dos petistas, como o da venda da Varig ou dos cartões corporativos. Esses delitos já são sérios o bastante, e se houvesse oposição no Brasil já teriam sido motivo, pelo menos, de impeachment. O delito pelo qual o Apedeuta deve responder, porém, é bem mais grave. Lula deve ser indiciado por crime contra a humanidade.
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Isso mesmo. Lula e os lulistas precisam ser chamados à Justiça pelo pior dos delitos. Mais precisamente, por cumplicidade ou co-autoria com quem pratica esse tipo de crime. Não, não sou eu quem diz isso. Quem o diz, e com todas as letras, é o promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), o argentino Luís Moreno-Ocampo. Em entrevista à VEJA desta semana, ele afirmou o seguinte, ao se referir às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e a quem lhes dá apoio:

"Aqueles que dão apoio financeiro às Farc compartilham da intenção de cometer os delitos praticados pelo grupo. Por isso, podem ser considerados participantes em crimes contra a humanidade. O apoio político a um grupo como as Farc igualmente pode ser considerado um delito e, dependendo das circunstâncias, passível de ser investigado pelo país ou pelo TPI. Estamos avaliando agora o caso de grupos ou pessoas de fora da Colômbia, tanto da América do Sul quanto da Europa, que aparentemente apóiam as Farc. Queremos saber se é o caso de iniciar um processo. Por enquanto, só o que eu posso dizer é que estamos coletando informações sobre esse tema."

Para quem não sabe ou já se esqueceu, eu vou lembrar: as FARC contam com o apoio financeiro dos governos de Hugo Chávez da Venezuela e de Rafael Correa do Equador. Isso foi revelado de forma inegável pelos computadores do número dois da organização narcoterrorista, Raúl Reyes, morto em março pelo exército colombiano. De acordo com a afirmação do promotor-chefe do TPI, Chávez e Correa deveriam ser indiciados por participação em crimes contra a humanidade. As FARC contam, também, com a leniência do governo brasileiro, que se declara "neutro" e se recusa a considerá-las um grupo terrorista, tendo-se colocado inteiramente ao lado de Chávez e Correa contra a Colômbia, durante a crise entre os três países após a morte de Reyes em território do Equador. Mais que isso, o governo Lula mantém há anos sob sua proteção, como "refugiado político", o "representante" das FARC no Brasil, Olivério Medina, recusando-se a extraditá-lo para a Colômbia, onde responde a vários processos por terrorismo e homicídio. A esposa de Medina, inclusive, faz parte da folha de pagamento do governo brasileiro, como funcionária contratada do Ministério da Pesca.
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E não pára por aí. O partido de Lula, o PT, e as FARC são parceiros na mesma organização internaciomal, o Foro de São Paulo, criado em 1990 por Lula e o ditador de Cuba, Fidel Castro. A direção das FARC enviou, inclusive, uma carta de agradecimento a Lula, por haver, com o Foro, ajudado a salvar o comunismo da extinção na América Latina. Isso está documentado, e quem quiser que vasculhe a internet. Logo, não há como falar sequer em "neutralidade" do Brasil a respeito das FARC - o que já seria um absurdo -, mas em cumplicidade disfarçada, em apoio político. E o apoio político a quem comete crimes contra a humanidade, como seqüestros, narcotráfico e atentados a bomba, como bem apontou o promotor-chefe do TPI, pode ser considerado um delito. Para esconder isso do distinto público, os lulistas fazem verdadeiros prodígios de dissimulação: ontem mesmo Lula esteve na Colômbia, ao lado de Álvaro Uribe, para assinar uns acordos na área de segurança (?!). Participou também de uma cerimônia pela libertação dos 700 reféns que ainda são mantidos pelas FARC. Ora, se o governo brasileiro é "neutro", por que agora fala em libertação dos reféns? A quem querem enganar com isso?
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Não sei se, entre as pessoas investigadas pelo TPI por darem apoio às FARC, estão Lula e seus ministros. Sei apenas que a "neutralidade" do Brasil no conflito colombiano é uma cortina de fumaça para esconder o que, a essa altura, até as árvores da floresta amazônica já sabem: que Lula e as FARC são cúmplices e parceiros, assim como o são Chávez e Correa. A situação se torna mais grave ainda pelo fato de que o narcotráfico - prática em que as FARC se especializaram - é um crime internacional, e atinge em cheio a sociedade brasileira, na forma de milhares de mortos todos os anos. Para essa realidade, os membros do governo brasileiro fecham os olhos. Em qualquer lugar sério do mundo, isso daria um processo, no mínimo, por associação com o crime organizado.

Na semana passada, o TPI indiciou formalmente o ditador do Sudão, Omar al-Bashir, por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Al-Bashir é o responsável direto pela morte de mais de 300 mil pessoas na região de Darfur, no oeste do Sudão, em um conflito que já deixou cerca de 2,5 milhões de refugiados, sob as barbas - e o silêncio compassivo - da ONU. É um fato histórico. Pela primeira vez, um ditador está sendo processado por um tribunal internacional enquanto os crimes pelos quais é acusado estão acontecendo. Mal comparando, é como se Hitler estivesse sendo processado pelo Tribunal de Nuremberg em plena Segunda Guerra Mundial, ou se o mesmo estivesse acontecendo a Stálin durante os expurgos dos anos 30. Mas, como o acusado não é os EUA, ou algum aliado seu, o fato não teve a repercussão merecida. A nossa imprensa "isentista" gosta de lembrar que os EUA se recusaram a assinar o tratado que deu origem ao TPI, em 1998, e geralmente esquece que a Rússia e a China também se recusaram a assiná-lo. A China, aliás, é a maior aliada do governo islamita do Sudão, e na prática o avalista de suas atrocidades. Mas quem se importa?

Se fosse apenas pelas FARC, já haveria motivo de sobra para levar o governo Lula ao banco dos réus. Mas há outras fontes de indiciamento criminal. Assim como é leniente com terroristas e narcotraficantes, o governo Lula mostra-se bastante próximo de ditadores. O caso de Fidel Castro e de seu irmão Raúl em Cuba é o mais notório, mas não é o único. Em 2005, o Brasil votou contra a condenação do Sudão no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Em 2006, no mesmo Conselho, votou contra Israel.

Em 1998, no mesmo ano em que surgiu o TPI, um juiz espanhol causou furor ao conseguir indiciar e prender, por um tempo, o ex-ditador do Chile Augusto Pinochet. Na ocasião, multidões ululantes saíram às ruas para festejar o fato, considerado um marco na evolução do Direito Internacional. Ainda espero que o mesmo rigor jurídico seja um dia aplicado às FARC e a Fidel Castro, assim como a Lula e aos petistas.
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Só para lembrar: você já viu um petista preso e algemado? Pelo visto, dependemos do TPI para que essa cena ocorra. Quem sabe, um dia...

segunda-feira, julho 14, 2008

QUEM NOS PROTEGERÁ DO ESTADO POLICIALESCO?


- Vocês viram? Prenderam um figurão. Que beleza! Até que enfim um ricaço vai em cana! Aquele papo de que a justiça no Brasil é só para os 3 Ps - preto, pobre e prostituta - finalmente parece que está mudando. Ricos no xilindró! Bem-feito!

Certamente muita gente pensou assim na semana que passou, ao ver as cenas do banqueiro Daniel Dantas e de mais uns seis algemados após serem presos numa operação da Polícia Federal, batizada com o exótico nome de Satyagraha ("esse pessoal da PF escolhe uns nomes tão legais..."). O País está mudando para melhor, começou-se a ouvir. Daniel Dantas, uma sombra que percorre a política brasileira desde os tempos do governo FHC, um dos maiores corruptores do País, finalmente estaria encarando a Dona Justiça. Como nem tudo é perfeito, não poderia deixar de haver um juiz estraga-prazeres, que considerou a prisão abusiva e ordenou a soltura dos presos, resultando daí uma disputa com outro juiz e um prenda-e-solta que, para muitos, apenas comprovou aquilo que nos acostumamos a ouvir desde pequenininhos - que a Justiça, no Brasil, é só para os 3 Ps mesmo. Mas restou a satisfação de ver, pelo menos por alguns instantes, um bacana atrás das grades. Pobres e ressentidos, uni-vos! A Revolução pode não estar próxima, mas, enquanto isso, saboreemos essa doce vingança!

Não vou me debruçar aqui sobre o mérito da prisão de Daniel Dantas. Quem quiser saber os detalhes do caso, encontrará farto material à disposição na internet e nos jornais, e poderá fazer seu próprio juízo. Vou apenas me referir ao que me incomodou no assunto. E muita coisa me incomodou.

Incomodou-me, em primeiro lugar, que a operação da PF tenha sido montada como um verdadeiro circo midiático - no caso, um circo cuja principal atração era a prisão de um "tubarão do capitalismo financeiro". Desde o primeiro momento, desconfiei desse aparato todo, principalmente porque percebi, logo nas primeiras chamadas dos noticiários, um forte viés ideológico nessa história - "pegaram um rico, pegaram um rico". Quando li a respeito do inquérito policial montado pelo delegado da PF, de nome Protógenes (bom nome para um delegado da PF) - uma verdadeira peça de alucinação ideológica esquerdista, eivada de teorias conspiratórias e de uma visão delirantemente messiânica, cheia de impropérios contra os "ricos exploradores" e de um claro teor liberticida -, minhas desconfianças se confirmaram. Lembrei na hora daquele procurador do Ministério Público, o Luiz Francisco de Souza (lembram dele?), que fez muito barulho no governo FHC, posando de vingador dos fracos e oprimidos... Alguns anos atrás ele lançou um livro, um catatau de umas mil páginas, louvando o marxismo como uma "utopia cristã". Pois é... Sempre que se mistura Justiça e ideologia - no caso, um sentimento difuso de raiva e frustração, vingado pela captura de um "burguês" -, o que me vem à mente são os processos stalinistas dos anos 30.

Não que Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta sejam vítimas inocentes de um pesadelo kafkiano, nada disso. Dantas, aliás, é uma caixa-preta, uma bomba que pode explodir a qualquer momento, e, como Pedro Collor e Roberto Jefferson, abalar profundamente os alicerces da nossa República - muita gente graúda no governo lulista, com certeza, deve estar roendo as unhas de apreensão com a prisão do banqueiro... Mas a questão não é essa. Sendo Dantas culpado ou não, a operação da PF é mais um capítulo rumo ao Estado policialesco em que está se transformando o Brasil. Há indícios de que a PF, ou pelo menos parte dela, anda extrapolando de suas funções, e que inclusive vem lançando mão de grampos ilegais e outras arapongagens do tipo, no melhor - ou pior - estilo SNI dos tempos da ditadura militar. A diferença - aqui está o ponto - é que dessa vez a comunidade de informações está a serviço dos "pobres" contra os "ricos", dos "trabalhadores" contra os "patrões", do "proletariado" contra a "burguesia". Ah, bom.

Outra coisa que me incomodou foi que essa tentativa tosca de ideologização da Justiça tenha vindo acompanhada de uma maré de intervencionismo policialesco na vida do indivíduo. Poucos dias antes da operação, entrou em vigor mais uma lei criada para proteger-nos de nós mesmos, a tal "lei seca" que criminaliza a cervejinha ao volante, e que está fazendo a alegria dos taxistas. Os legisladores, que certamente deveriam estar bêbados, esperam que a lei venha diminuir o número de acidentes nas estradas provocadas por motoristas embriagados. À primeira vista, uma lei muito racional e, a julgar pelas estatísticas, eficiente. No entanto, ninguém parece ter lembrado que, pela mesma legislação, o sujeito pode estar completamente alucinado de maconha ou cocaína e nada vai lhe acontecer se for apanhado numa blitz. Aliás, é curioso como o cerco aos fumantes e aos apreciadores de uma cervejinha no fim de semana está vindo acompanhado de um movimento cada vez mais forte no sentido de descriminalizar a erva maldita. Em outras palavras: fumar e cheirar pode; beber, não. Também pudera: ao contrário daquele baseado, o cigarro e o álcool são uma "indústria", algo capitalista... Ah, bom.

Quando se mistura esquerdismo de galinheiro e intervenção justiceira, o resultado não é uma sociedade mais civilizada e justa, e sim mais infantilizada e, por isso mesmo, menos livre. Está-se criando uma situação em que ao Estado está sendo dada carta branca para, em nome do que quer que seja - a "justiça social", a "segurança nas estradas", até mesmo a saúde dos nossos pulmões -, decidir o que é melhor para os cidadãos, que são tratados como crianças ou débeis mentais, incapazes de decidir por sua própria conta. Li que em alguns lugares já estão até mesmo proibindo o cidadão de fumar em recintos fechados, como bares e restaurantes, mesmo se for - vejam só - numa ala de... fumantes! Se não se pode mais fumar num ambiente reservado especialmente a quem fuma, separado de quem não é fumante, onde mais se pode fazê-lo? Onde está a liberdade de opção?
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Paradoxalmente, ao invés da responsabilidade, o que se estimula com essa imposição do politicamente correto na vida privada dos cidadãos é a irresponsabilidade, o paternalismo estatal. Isso, aliás, é uma nota constante do governo lulista. Em 2005, uma enorme campanha de propaganda tentou convencer os brasileiros de que a solução para a violência seria o desarmamento do cidadão comum. Este ficaria impedido de escolher ter ou não um revólver 38 para se defender da bandidagem, enquanto os bandidos manteriam seus AR-15 e AK-47. Do mesmo modo, o governo investe cada vez mais contra a liberdade de expressão e de informação, na forma de um projeto de lei que condena manifestações "homofóbicas" ou de tentativas de ressuscitar a censura - não por acaso, o inquérito do delegado Protógenes sugere a prisão de uma jornalista por haver, segundo ele, vazado informações da operação...

Essas tentativas de regular a vida do indivíduo, travestidas de boas intenções, assim como armações ideológicas rastaqüeras baseadas numa visão eivada de marxismo vagabundo, na linha "luta de classes" aplicada ao Direito, não me comovem. Aprendi a valorizar acima de tudo a liberdade do indivíduo, e a desconfiar de qualquer tentativa, por mais bem-intencionada que seja, de diminuir essa liberdade em nome de algo maior do que o indivíduo - a "coletividade", que muitos identificam com o próprio Estado. Tenho medo de sair à rua e ser atropelado por um motorista bêbado (ou fumado e cheirado), mas temo muito mais o "Estado sábio", que supostamente sabe o que é melhor para mim. Assim como desconfio de papagaiadas ideológicas travestidas de operações justiceiras. Estamos acostumados a querer que o Estado nos vigie a todos. Na verdade, devemos vigiar o Estado.

A propósito, você já viu um petista preso e algemado?

sexta-feira, julho 11, 2008

VIETNÃ: RESGATANDO A VERDADE HISTÓRICA


Soldados norte-americanos em combate, Ofensiva do Tet, 1968: vitória militar, derrota política


Em visita oficial ao Vietnã, o presidente Lula, querendo fazer uma média com os anfitriões, disse que se identificava com os vietnamitas, pois, afinal, "sempre esteve do lado dos fracos e oprimidos". Foi mais além e, repetindo um chavão reafirmado ad nauseam nos últimos trinta e cinco anos, afirmou que "os vietnamitas venceram a guerra".
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A fala de Lula é uma excelente oportunidade para resgatar a verdade sobre a Guerra do Vietnã, colocando os pingos nos is. .

Até hoje, a percepção comum sobre o que foi o conflito no Sudeste Asiático é moldada mais pelos filmes de Hollywood, como Platoon, Apocalypse Now e Nascido para Matar, nos quais os soldados norte-americanos são mostrados quase sempre como bárbaros assassinos e os guerrilheiros vietnamitas e vietcongues, como vítimas e lutadores da liberdade, do que pelos fatos. Em muitos desses filmes, quase não se mostra o inimigo: até parece que os marines estavam lutando contra a população e a selva. Um espectador menos atento chegaria à conclusão de que, no Vietnã, os norte-americanos foram lutar contra o mato e os insetos e que, nas horas vagas, se divertiam metralhando velhos e criancinhas indefesas. Além disso, o Vietnã tornou-se, para as gerações seguintes, sinônimo de desastre e derrota militar. Não por acaso, vários analistas já se habituaram a chamar o Iraque atual de um "novo Vietnã". Tal percepção - de que a agressão foi unilateral e que os EUA saíram militarmente derrotados do Vietnã - está longe da verdade.
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A Guerra do Vietnã (1964-1975) foi um conflito muito mais complexo do que supõe a visão simplista que atribui aos norte-americanos o papel de agressor e aos vietnamitas, o de vítimas e/ou combatentes da liberdade. Vista em retrospectiva, há fortes razões para concluir que tal visão constitui, na verdade, mais um mito revolucionário criado pelas esquerdas na segunda metade do século XX, como foram os mitos comunista e anticolonialista.
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Em primeiro lugar, é preciso responder a pergunta: quem venceu a guerra? Do ponto de vista político, a vitória foi toda dos vietnamitas. Do ponto de vista militar, porém, a realidade foi bem diferente. O body count não deixa dúvidas: no total, 58 mil soldados norte-americanos morreram durante o conflito. Do lado vietnamita, as baixas são incontáveis - fala-se em algo como 2 milhões de mortos. Por qualquer ângulo que se olhe, os EUA não foram derrotados militarmente no Vietnã - foi uma derrota política. Mais precisamente, uma derrota no front interno, dentro de casa.
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De 1964, quando os EUA intervêm diretamente no Vietnã após o incidente do Golfo de Tonquim, até 1968, a situação militar das tropas norte-americanas era estável. Nesse ano, porém, a situação se modifica, com a Ofensiva do Tet lançada logo em janeiro no Sul pelos norte-vietnamitas e seus aliados, os guerrilheiros vietcongues. Militarmente, esta foi um fracasso total para o lado vietnamita - ao contrário do que era esperado pelos líderes comunistas de Hanói, a ofensiva não conseguiu deflagrar uma insurreição popular que derrubasse o regime do Vietnã do Sul, os soldados norte-americanos e sul-vietnamitas conseguiram rechaçar o ataque e a guerrilha vietcongue, devido às pesadas baixas sofridas, foi praticamente aniquilada. No entanto, foi a partir daí que se convencionou dizer que a guerra estava perdida para os EUA. .
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A resposta para esse paradoxo está numa característica peculiar do conflito vietnamita. Acima de tudo, o Vietnã foi uma guerra midiática, a primeira dos tempos modernos. Pelo menos, a primeira a ser televisada. Isso fez toda a diferença no desenrolar do conflito. Os comunistas sabiam que, dada a superioridade bélica e tecnológica das tropas dos EUA, não poderiam derrotá-las em combate. Suas ações, portanto, visavam não a alcançar uma vitória militar, aliás impossível, mas a abalar a determinação moral do governo norte-americano de manter-se na guerra, conseguindo assim um efeito psicológico importante. Tática que seria repetida pelos terroristas de todos os matizes nas décadas seguintes, da OLP a Al-Qaeda. De certo modo, há um paralelo entre a Ofensiva do Tet e os atentados de 11/9.
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Não foi qualquer derrota no campo de batalha, mas sim as pressões da opinião pública, decorrentes das cenas de soldados norte-americanos mortos e feridos, mostradas pela primeira vez na televisão, o que levou a população norte-americana a pressionar os governos Johnson e Nixon a retirar as tropas do Vietnã. As cenas da tomada, pelos guerrilheiros vietcongues, da embaixada dos EUA em Saigon - um alvo puramente simbólico, sem nenhum valor militar - tiveram um impacto político muito maior do que qualquer vitória. Pouco importa que todos os atacantes tenham sido mortos na ação - o importante era que a embaixada fora atacada.
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Graças ao poder avassalador da televisão, habilmente explorado pelos comunistas vietnamitas com a ajuda da New Left no Ocidente, a opinião pública norte-americana e mundial ficou conhecendo em todos os mórbidos detalhes as atrocidades cometidas pelos soldados norte-americanos, como o massacre de My Lai e os efeitos devastadores dos bombardeios ao Vietnã do Norte, mas permaneceu na ignorância total do que se passava do outro lado. Quando o exército dos EUA retomou, em 1968, a cidade de Huê, por exemplo, encontrou uma cova comum com cerca de 3 mil cadáveres de pessoas executadas pelos soldados do Vietnã do Norte, mas a opinião pública do mundo inteiro já estava ganha para a causa antiguerra e antiamericana. Gerações cresceram com a imagem na retina do policial sul-vietnamita estourando os miolos de um prisioneiro vietcongue com as mãos amarradas nas ruas de Saigon, ou da menina queimada correndo, nua, a pele se desprendendo por causa do napalm, após um ataque aéreo à sua aldeia. Mas quase ninguém se lembrou que, do lado dos vietcongues, também se matava e torturava. A derrota do governo dos EUA na batalha da propaganda impediu muita gente de perceber que houve atrocidades de ambos os lados.

Outra pergunta que se deve fazer é: qual o lado agressor? Pelas cenas dos bombardeios norte-americanos veiculadas nos noticiários de televisão, a resposta, desde então, passou a ser: os EUA, claro. Isso levou muitos a se esquecerem de por que os EUA estavam no Vietnã, em primeiro lugar. A primeira coisa a ter em mente é que o conflito no Sudeste Asiático não pode ser desvinculado da Guerra Fria. As tropas norte-americanas foram enviadas ao Vietnã a partir de 1964 - assessores militares estavam no país desde o governo Kennedy, em 1961 - não como uma força invasora, como foram os japoneses durante a Segunda Guerra ou os franceses até 1954, mas para auxiliar o governo do Vietnã do Sul, capitalista, que se encontrava acossado pelas guerrilhas do Vietcongue e pelas freqüentes incursões das tropas regulares do Vietnã do Norte, comunista, que contava com o apoio da União Soviética. A partir de 1960, intensificaram-se as ações terroristas do Vietcongue, com o apoio do Norte, contra o governo de Saigon, resultando na prática em uma sangrenta guerra civil, agravada após a queda em um golpe militar e o assassinato do corrupto e brutal presidente sul-vietnamita Ngo Dihn Diem, em 1963. A agressão comunista ao Vietnã do Sul era real. Não era uma fantasia de alguns "falcões" e cold warriors do Pentágono.

Tampouco a expansão do conflito para os vizinhos Camboja e Laos deveu-se unicamente às ações militares dos EUA, como se tornou comum dizer. Quando Nixon decide intervir nos dois países, em 1970 e em 1971 respectivamente, as forças norte-vietnamitas há muito utilizavam esses territórios como passagem e "santuários", através da Trilha Ho Chi Mihn, para lançar ataques ao Vietnã do Sul. O que ocorreu depois, principalmente no Camboja - a tomada do poder pelos guerrilheiros maoístas do Khmer Vermelho, que instituíram uma ditadura ensandecida que resultou em mais de 2 milhões de mortos, em cinco anos - foi o resultado, em grande medida, da retirada norte-americana do Vietnã, em 1973, completada com a fuga precipitada do país, em 1975.
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A partir de então, a história é mais ou menos conhecida. O Vietnã, sob controle dos comunistas do Norte, foi reunificado, tornando-se uma república socialista. Milhares de pessoas, sobretudo sul-vietnamitas, fugiram do país, resultando no fenômeno do boat people - semelhante aos balseros cubanos -, e, dos que ficaram, muitos foram executados ou enviados a "campos de reeducação". Obviamente, nada disso teve a mesma repercussão na mídia ocidental.
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É inegável que os EUA cometeram erros terríveis no Vietnã, o maior deles, certamente, a subestimação do caráter psicológico do conflito, inerente à guerra de guerrilhas. Cometeram, inclusive, crimes de guerra como My Lai e o bombardeio de civis. Mas daí a dizer que foram o lado agressor e que saíram derrotados militarmente, vai uma grande diferença. A Guerra do Vietnã é o maior exemplo de como o pacifismo, associado ao poder manipulativo da mídia e a táticas de desinformação, pode minar o moral e a determinação psicológica de uma nação em enfrentar uma ameaça externa, servindo, no caso, a interesses antidemocráticos. Não é à toa que a mesma tática esteja sendo repetida, hoje, pelos adversários das intervenções norte-americanas no Iraque e no Afeganistão. Mas, como hoje, com a internet, a difusão da informação é muito maior, é possível conhecer os crimes cometidos pelos regimes de Saddam Hussein e do Talibã - daí porque o pacifismo não tem a mesma força do passado.
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Hoje, o Vietnã é um país bem diferente. Desde a implementação das reformas econômicas, a partir de 1986, o país vem seguindo um caminho de abertura econômica sem abertura política, a exemplo da China. No campo das relações internacionais, o país se reconciliou com os EUA em 1995, e os norte-americanos, com os seus dólares, são muitíssimo bem-vindos ao Vietnã. Assim como os chineses em relação à Revolução Cultural dos anos 60, os vietnamitas parecem ter, porém, um certo pudor ao relembrar os anos de guerra. Talvez porque tenham seus próprios esqueletos no armário. Certamente, por causa do que também fizeram, e não somente do que sofreram, eles relutam em lembrar o passado recente. É uma pena que Lula não tenha tido esse pudor e tenha preferido, em vez disso, utilizar velhos mitos para dar vazão à demagogia antiamericana.

quinta-feira, julho 10, 2008

RECORDAR É VIVER

Do blog de Claudio Humberto:
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Terror das Farc explodiu nossa embaixada
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05/07/2008
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O presidente Lula e o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) se recusam a classificar de terroristas as “Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia”, que o PT chama de “movimento popular”, mas não têm esse direito: os narcoterroristas das Farc explodiram 200kg de dinamite na embaixada do Brasil em Bogotá, em 17 de abril de 1993, dia em que o governo brasileiro recebia em Brasília o chanceler colombiano.
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Carnificina
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O atentado terrorista das Farc matou 43 pessoas e feriu 350, oito delas diplomatas e funcionários da embaixada brasileira.
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Por um triz
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O embaixador Alberto da Costa e Silva só escapou porque acompanhava o chanceler colombiano na visita ao Brasil. Seu gabinete ficou destruído.
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Imagens do terror
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A cabeça de uma criança de dez anos foi encontrada no alto do prédio de oito andares, onde funcionava a embaixada do Brasil.
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Vexame
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Além de não condenar o terror das Farc, o presidente Lula se recusa a participar do esforço para resgatar os 700 reféns que restam. Vergonha.
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Não há muito o que comentar. Esta é a organização que o governo Lula deseja um dia venha a participar do jogo democrático na Colômbia...
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Só lembrando: Lula já disse que o conflito no país vizinho é um "problema da Colômbia". Como se o narcotráfico nas cidades brasileiras não tivesse nada a ver com as FARC.
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Diz-me quem não consideras terrorista e eu te direi quem és.