quarta-feira, março 12, 2008

Resposta a um leitor "viajante"- III

Nos últimos dias um leitor muito engraçado resolveu encasquetar comigo e com meu blog. Tudo começou quando eu tive a ousadia de retrucar um comentário dele, no qual o dito-cujo defende a ditadura de Fidel Castro em Cuba com argumentos, digamos, "acadêmicos" (eu ia escrever simiescos, mas eles falam por si mesmos). Não é que o sujeito parece que não quer desistir de ser desmoralizado? Como sou uma pessoa de coração mole, satisfaço mais uma vez sua vontade e sua carência de atenção, que talvez tenha um laivo masoquista.

Vamos lá. Ele vai em vermelho. Meus comentários em seguida:

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Sr. Bezerra,

O Senhor está no Céu.

A cada dia que passa o senhor se torna mais hilário! Colocar um macaco falando ao telefone (HA!HA!HA!) que engraçado!!! Presumo que o macaco seja eu. Que legal! Muito bom argumento! Excelentíssimo argumento!

A foto do macaco ao telefone (cujo nome, por sinal, é Bobo) não é argumento. É uma foto de um macaco ao telefone. Tem gente que não sabe a diferença. Vestiu a carapuça. Hehehe.
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A propósito, desta vez coloquei uma foto de um burro num retrato da Mona Lisa. Talvez o sujeito se reconheça nele também.
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Não preciso concordar com o Chico Buarque para discordar da posição do senhor Azevedo de usar xingamento como argumento. Não preciso xingar meu adversário para discordar da posição dele. Prefiro utilizar-me do dialogo do que a agressão verbal ou visual. Este método de Schopenhauer para mim já está mais do que ultrapassado...

Idiota moral não é xingamento. É constatação. Conhece outra expressão melhor para definir quem morre de amores por um ditador? Ou deveríamos nos render aqui à moda "politicamente correta" ("chamar o defensor de um tirano de idiota moral: ai, que horror...")? Assim como Reinaldo Azevedo, tenho aversão a essa filosofia de socialites. Prefiro ser sincero e chamar as coisas - e as pessoas - pelo nome.

Para mim, matar inocentes é matar inocentes, não existe outro termo. Esta história de morte acidental e morte intencional é conversa pra boi dormir. Se um país bombardeia o outro é óbvio que inocentes vão morrer e tais mortes são intencionais sim, apesar de que muitas vezes são escondidas pelos líderes bombardeiros.

Nesse caso, devemos acabar com qualquer distinção, em Direito Penal, entre dolo (com intenção) e culpa (sem intenção). Se é "conversa para boi dormir", então não deve haver qualquer distinção entre o Hamas e Israel, ou entre Bin Laden e "Jorgibúshi". Ou seja, entre o serial killer que mata indiscrimidamente pessoas inocentes e o policial que, na tentativa de detê-lo, mata acidentalmente um refém. Dizer que "é tudo a mesma coisa" (ou seja: que há equivalência moral entre um e outro) é uma das maiores provas de degeneração moral a que alguém pode chegar. Não é à toa que o nosso amigo cita, como luminares, os delinqüentes políticos contumazes Noam Chomsky e Tariq Ali. Que senso de justiça!

Ah, e para mim, apoiar ditadores é apoiar ditadores, viu? Com ou sem Platão.

Não concordo com as matanças do regime de Fidel Castro. Nunca disse isto, como se pode comprovar em todas as linhas que escrevi. Dizer que eu concordo com as mortes que aconteceram no regime de Fidel é pura interpretação da tua cabeça o que demonstra uma maneira esperta de deturpar as palavras que digo. Meus parabéns!

Tem certeza? Deixe-me refrescar sua memória.

Às 19h45 do dia 29/02/2008, nosso amigo escreveu o seguinte:

"O que pude perceber é que na defesa da liberdade, tal jornalista [Diogo Schelp, da Veja] peca por não permitir a liberdade de escolha de um país seguir um outro regime que não seja o capitalismo. Que liberdade é esta que tanto fala? Ora, dizer que o regime castrista matou pessoas é uma verdade, outra é não permitir que os cubanos sejam socialistas".

No mesmo post, à mesma hora e dia, ele escreveu também:

"Apesar dos problemas do presidente Lula, com uma frase dele eu devo concordar: “Esse negócio de a gente ficar aqui do Brasil dizendo que bom é assim ou assado, vamos deixar que os cubanos cuidem do que eles querem para a política e vamos cuidar do que queremos para o Brasil. O que complica é quando cada um começa a dar palpite nas coisas dos outros. Aí pode dar conflito. Os cubanos têm maturidade para resolver todos os problemas, sem precisar de ingerência brasileira ou americana” (Caderno especial do jornal O Globo: “O Comandante Sai de Cena” de 20 de fevereiro de 2008, p.5). Lula está certo: os cubanos têm maturidade para decidirem seu próprio caminho. [...] Quem disse que o melhor caminho para Cuba é a democracia e a economia de mercado? [...] Não quero aqui implantar o governo de Platão em Cuba, mas defendo que se Cuba assim o quiser deverá continuar sendo Socialista."

Traduzindo: o sujeito apóia e defende a ditadura castrista em Cuba, e inclusive cita o Apedeuta em pessoa para justificar essa sua posição, afirmando que a continuidade da tirania é assunto exclusivo dos cubanos, que têm a "liberdade de escolha" de serem ou não súditos de um regime totalitário. Regime este, é bom lembrar, que produziu uma pilha de 95 mil cadáveres em 49 anos de existência, com todas as liberdades abolidas. Uma pérola de lógica, certamente. É o mesmo que dizer que outras ditaduras igualmente totalitárias, como a de Hitler na Alemanha e a do Khmer Vermelho no Camboja, deveriam ser deixadas em paz, pois, afinal, era a "vontade do povo" ser escravizado e trucidado... E o sujeito ainda diz que "não concorda com as matanças de Fidel Castro"? (!). É esquecimento ou cara-de-pau mesmo?

Minha discussão é sobre Estado. É claro que os governantes se utilizam da força para governar. Qualquer líder necessita da força para governar. Como você bem lembrou Maquiavel disse isto. E antes dele Platão já havia feito. Mas a questão não é se os governantes se utilizam ou não da força, mas de que maneira. A Força, bem lembra Maquiavel deve ser utilizada com parcimônia, pois aqueles que abusam da força acabam derrubados por seus próprios súditos. Como exemplo disso ele demonstra no capítulo XIX vários Imperadores romanos que foram mortos por abusar do uso da força. O argumento certo de Maquiavel é que o governante se apóia em seu povo. Tal argumento foi posteriormente incorporado pelos liberais e modificado para “todo poder emana do povo”, como você disse. Não creio que Maquiavel fosse um liberal, portanto, não vejo problema em utilizá-lo para justificar um regime totalitário. Mesmo assim, NÃO foi isto que fiz ao citar Maquiavel. O que quis dizer (e você se esforçou para não entender) é que a um governante só pode se manter no poder se tiver o apoio do seu povo, pois não há como se manter no poder se for odiado pelo povo que governa. E o povo é representado pela sua maioria numérica e não pela minoria (2 é menor do que 11).

E a minha discussão é sobre a tirania de Fidel Castro. Não é sobre o Estado como um ente abstrato, como um ideal platônico ou mesmo maquiavélico. Já que o que você quis dizer é que um governante só pode se manter no poder se tiver o apoio de seu povo, então a dedução lógica é que Fidel Castro só está no poder desde 1959 porque o povo cubano o ama. Nesse caso, ainda espero uma resposta para a pergunta que eu fiz no post anterior: já ouviu falar nos CDRs, nas UMAPs, na G2 etc.?...

Você diz ter falado de Platão no texto anterior. Sim, eu verifiquei que você apenas citou-o junto de Stalin e Mao Tsé-Tung. Isso só reforça o teu desconhecimento do nome de Platão. Que tal discutirmos a proposta de Platão para o regime da polis que não seja a democracia? Não é porque ele não era a favor da democracia que ele era contra a liberdade. Isso é uma demonstração imatura sobre o assunto. Ou porque não discutimos a questão da areté no âmbito da polis e suas implicâncias sobre os cidadão que moram nesta. Ou podemos falar da autarquia e o kairós de cada cidadão de assumir seu lugar na polis. Ou ainda a diferença entre Estado de Justiça e Estado de Força. Ou da importância da dikaiosyne para a boa ordem da polis. Tudo isto está em Platão. Que tal falarmos sobre isto? (Acho que você não vai querer, né? Discutir Estado pra valer, utilizando seus principais teóricos e não apenas a opinião pessoal não é muito a tua praia).

Pois é, admito meu desconhecimento sobre Platão. É difícil entender um autor de mais de 2 mil anos atrás quando ele é utilizado dessa maneira para justificar uma tirania totalitária, inclusive com o argumento da "liberdade de escolha" dos indivíduos optarem por não terem nenhuma liberdade... É algo dificil de compreender, é preciso admitir. Também nunca fui muito bom em grego. Como sou ignorante nessas coisas, me contento em saber a diferença entre democracia e ditadura, ou entre um pato e um cachorro. Coisa que, pelo visto, muita gente ainda não conhece ou finge desconhecer. É esta a minha praia.

Quanto a existência ou não do teu (Peraí! Sou "senhor", "você" ou "tu"? Deixa pra lá...) blog, ela não é questionável dentro dos padrões virtuais. Meu questionamento é sua existência no mundo real. Aqui você e eu também somos apenas personagens e não agentes. Nada (e eu enfatizo no nada) do que escrevemos aqui fará alguma diferença no mundo real. A discussão do meio virtual como veículo do Real é uma discussão presente da Comunicação Social. Quanto a contestação do nome do teu blog é uma analise que faço perante a linguagem que você utiliza aqui. Ou você tem medo da semiologia? Considero o meio virtual fraco para qualquer tipo de argumento. Tudo que faço é me divertir com os seus “argumentos” e a tentativa de fazer uma gozação com a minha cara. Isso não passa de um jogo que você faz com a platéia para me desmoralizar. Uma atitude baixa, mas válida. Eu encaro!

Muito interessante... De fato, morro de medo da semiologia. Principalmente quando é utilizada por Ignorantes Soberbos e leitores metidos a bobinhos (auto-proclamados) para justificar, com um palavrório pernóstico recheado de helenismos, o injustificável. Prefiro ficar com minha baixeza mesmo, recusando-me a ver virtude numa ditadura que só produziu sofrimento e miséria. Tem gente que acha isso meio cafona e pouco sofisticado. Fazer o quê? Paciência.

Enfim, eis um resumo das opiniões de nosso sapientíssimo amigo leitor de orelhas de Platão e Maquiavel:

- A ditadura cubana é o produto da "liberdade de escolha" dos cubanos, que optaram por não terem mais nenhuma liberdade de escolha sob Fidel Castro;

- Como, segundo Maquiavel, a fonte última do poder é a vontade do povo, a conclusão lógica é que ditaduras como a de Fidel (e a de Hitler, e a de Stálin, e a de Mao Tsé-Tung) só existem ou existiram porque o povo as ama e deseja;

- Ao serem impedidos de manifestar livremente suas opiniões, e inclusive de saírem do país, ao serem presos, torturados e fuzilados, os cubanos - assim como os alemães sob o nazismo e os russos sob o stalinismo - estão exercendo sua "liberdade de escolha";

- Pelos motivos acima, devemos concordar com as palavras sábias do Apedeuta, que, em mais uma aula de amor à democracia, defendeu o "direito" de Cuba ser uma ditadura;

- Também por tudo isso, e pelo fato de o fulano ter lido Platão e Maquiavel e ser um especialista em semiologia, esse blog não tem qualquer influência sobre o Mundo Real;

- Logo, este blog é só um mundinho de fantasia e deveria deixar de existir.

É mole ou querem mais?

terça-feira, março 11, 2008

Resposta a um leitor "viajante" - II


Escreve um leitor metido a bobinho que assina como Luiz Maurício, em tréplica a meu texto "Resposta a um leitor 'viajante'". Ele vai em vermelho. Eu vou em preto.

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Gustavo,

Demorei a responder, mas é porque não tenho muito tempo de visitar o teu blog. Afazeres do mundo real me impedem de me conectar ao mundo virtual. Antes de tudo quero deixar bem claro para o Stefano que não sou de esquerda. Portanto, o comentário desagradável que ele fez sobre mim, não se encaixa. Depois eu não sabia que você tinha um mascote. Só falta ele abanar o rabo, concordando com tudo que você fala (ou será que ele já abana?). Agora indo direto a resposta da resposta:

Se não é de esquerda, compra as teses esquerdistas com muita facilidade. Defender a tirania do serial killer do Caribe com o argumento de que é o desejo do povo ser escravizado é um exemplo disso. O leitor a que você se refere o chamou de petralha e Ignorante Soberbo. Não sei se você é um petralha. Já Ignorante Soberbo, tenho minhas dúvidas. Não tenho mascotes. Tenho leitores. Poucos, é verdade. Mas prefiro a qualidade à quantidade.
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Por falar em mascotes... não, vou deixar pra falar do Chico Buarque mais adiante. Prossigamos.

Eu já esperava que tua resposta fosse dessa maneira. Cheia de retórica, se aproveitou do meu texto para armar uma grande cena. Começou por recortar o meu texto, sendo desta forma mais fácil desconstruir as minhas idéias levadas pela separação das mesmas. Depois, construiu o teu texto em cima do meu, criando um texto único e só teu. Aproveitou para jogar com a platéia tentando dizer o que eu não disse, ou ridicularizando coisas que eu disse como se fossem absurdas. Aproveitou para pular coisas relevantes que eu disse, talvez por um desconhecimento do assunto ou simplesmente porque não vinha ao caso dizer. Um texto esperto, muito esperto.

Cheia de retórica e, principalmente, de argumentos, faltou dizer. Aliás, não vi até agora você refutar nenhum deles. Não é preciso muito retórica para "se aproveitar de seu texto" e "armar uma grande cena", como você diz (Por que "armar uma grande cena"? Pensei que estava apenas refutando o que você escreveu, ponto por ponto). Basta um pouco de honestidade intelectual e bom senso. Não separei suas idéias, separei suas frases. Recortei seu texto por uma questão prática, mas poderia transcrevê-lo inteiro de uma vez e refutá-lo do mesmo jeito, daria na mesma. O texto resultante só poderia ser único e só meu, isso é o óbvio ululante, como gostam de dizer os idiotas da objetividade. Onde eu "aproveitei para jogar para a platéia tentando dizer o que você não disse"? Aponte onde eu fiz isso. Por acaso, foi quando eu comentei sua posição sobre a ditadura cubana, em que você defende que os cubanos "vivem" sob uma tirania há 49 anos porque... escolheram? (!) Que "coisas relevantes" que você disse eu "pulei"? (Só pra lembrar: transcrevi seu texto na íntegra, o que faço novamente agora, embora não ache que mereça). Não é esperteza não, Luiz Maurício. É bom senso.

Digo que o motivo para eu não concordar com a mensagem do senhor Schelp foi explicado em todo o meu argumento e não preciso fazê-lo novamente. Quanto ao Chico Buarque, Oscar Niemeyer e Frei Betto, digo que não sou fã ou seguidor de nenhum deles, mas não vejo de bom tom uma revista atacar diretamente uma pessoa com xingamentos explícitos como o senhor Azevedo fez ao utilizar o termo “idiota moral” para se referir a Chico Buarque.

Não explicou a posição sobre o Schelp, não. Tudo o que você fez foi dizer que não gosta dele e ponto final, o que não passa de argumentação ad hominem (ou seja: contra o mensageiro, não a mensagem). Ainda me deve uma explicação sobre isso. Ah, não achou de "bom tom" uma revista ter chamado um idiota moral como Chico Buarque, que apóia a ditadura castrista, de idiota moral? Então, só posso deduzir que você concorda com esse tipo de idiotice moral. Logo, só pode ser mais um exemplar dessa fauna.

Minha posição é ser contra o terrorismo, e também contra qualquer tipo de guerra. E assim como não concordo com atitudes como “homens-bomba”, também não concordo com ataques americanos a outros países. Sobre o lema de combate ao terror, muitos inocentes são mortos e isso é inegável. Portanto, pessoas como Noam Chomsky, que você inclui entre os delinqüentes políticos, possuem atitude para acusar o terrorismo de Estado, exercido pelos E.U.A. e por Israel.

Também sou contra o terrorismo (ao contrário de Tariq Ali, por exemplo, que insiste em justificar o terrorismo palestino contra Israel). Mas não sou "contra qualquer tipo de guerra". Não sou pacifista. Sempre achei essa postura sentimentalóide ("ai, gente, a guerra é tão feia...") uma das maiores auxiliares do terrorismo e de regimes tirânicos. A guerra é sempre um inferno, mas isso não significa que não haja guerras que precisem ser feitas. A guerra contra o Eixo nazi-fascista, por exemplo. Ou a guerra para derrubar Saddam Hussein no Iraque. Em ambos os casos, os EUA atacaram outros países. "Ah, mas morrem inocentes no combate ao terrorismo"... Sim, e é uma pena. Mas muito pior é deixar que os perpetradores dos crimes terroristas, como Bin Laden e outros, continuem livres, leves e soltos para matar inocentes. No primeiro caso, pode-se dizer que as mortes são acidentais; no outro, são intencionais. Pode-se, portanto, falar em equivalência moral entre as mortes provocadas pelo terrorismo e pelos que o combatem, como os EUA e Israel? É isso que delinqüentes políticos e pervertidos morais como Noam Chomsky não entendem - ou entendem muito bem, mas não dão a mínima.

É certa ingenuidade, Gustavo, pensar que o povo não escolhe aquele que os governa. O poder do povo é muito maior do que o de apenas um. Hitler foi eleito, repito ELEITO. Foi escolhido pela maioria da população alemã. A maioria representa o povo. Talvez você deva ler “O Príncipe” de Maquiavel se ainda não o leu, ou relê-lo se já o fez, pois Maquiavel demonstra claramente que não há governante sem o apoio do povo. Disse ele: “[...] um príncipe deve ter em pouca conta as conspirações enquanto o povo lhe for favorável, mas, quando este se tornar seu inimigo ou lhe tiver ódio, deverá temer todas as coisas e todo mundo”. Demonstra claramente que a minoria não tem vez perante o poder da maioria. Achar que a falta de liberdade dos cidadãos de Cuba impede que eles demonstrem a sua insatisfação, ou achar que a população alemã não queria o nazismo é pura inocência. O povo sabe o que quer e sabe lutar pelo que quer. A liberdade pode ser suprimida pelo poder, mas o poder sempre estará com o povo e não o contrário. Se há uma parcela de insatisfeitos (como há em qualquer lugar), esta parcela não representa o povo em sua maioria. Você pode ler “O Contrato Social” de Rousseau para comprovar isto. Quanto ao desconhecimento sobre a proposta de Platão para algo que não seja a democracia, pude logo perceber, já que não houve uma única manifestação para o nome de Platão.

Em outras palavras, o que você diz é o seguinte: como é o povo que "escolhe", em última instância, quem o governa, então ditaduras totalitárias, como a de Hitler na Alemanha e a de Fidel Castro em Cuba, são regimes legítimos, porque o povo "escolheu" esses regimes... É uma idéia muito interessante, SE - e somente SE - o povo, nesses dois casos, fosse LIVRE para escolher - ou seja: tivesse de fato liberdade de escolha. Isso, porém, seria um paradoxo em si, pois a primeira coisa que os regimes totalitários fazem é exatamente extinguir a LIBERDADE DE ESCOLHA dos cidadãos, impondo a uniformidade de pensamento (é justamente para isso que existe partido único, censura à imprensa, polícia secreta etc.). Você simplesmente aproveita um lema LIBERAL - "todo poder emana do povo" - para tentar justificar o oposto do liberalismo - o TOTALITARISMO. Sim, Hitler foi eleito democraticamente - o que demonstra que a democracia não se encerra no ato de pôr um voto na urna -, mas isso não significa que seu regime tenha sido democrático, muito pelo contrário (aliás, é curioso observar: Hitler foi eleito; Fidel, nem isso...). Você se esquece - quero crer que é esquecimento - que Maquiavel escreveu que um governante (príncipe) deve governar pelo consentimento dos governados, mas também pela força - a argamassa do poder. E é justamente isso que fazem as ditaduras, mediante a polícia secreta, a censura, os fuzilamentos etc. Daí porque a citação de Maquiavel está totalmente fora de contexto (sem falar em Rousseau e em Platão). Dizer que é "pura inocência" afirmar que a falta de liberdade do povo cubano o impede de manifestar seu descontentamento é ignorar a realidade elementar de 2 milhões de refugiados que escolheram votar com os remos a continuar "vivendo" na ilha-prisão e exercitar sua "liberdade de escolha" batendo palmas para o Coma Andante, sob pena de represália se não o fizerem. Em Cuba, essa "liberdade de escolha" de que você tanto fala já foi para as cucuias há tempos, inclusive a liberdade de escolher ficar ou não no país... A propósito, já ouviu falar dos CDRs, das UMAPs, da G2, de Boniato, Kilo 7, Combinado del Este e outros nomes que certamente simbolizam essa "liberdade de escolha" do povo cubano ser detido, preso e fuzilado caso discorde do regime? Outra coisa: falei sim de Platão, basta ler minha primeira resposta a você. Ele está lá, ao lado de outros conhecidos defensores da "liberdade de escolha" que você acha que existia na Alemanha nazista e que existe na Cuba dos irmãos Castro, como Stálin e Mao Tsé-Tung.

Me diverti muito conhecendo a sua “Terra do Nunca” (ou seria Terra do contra?). Nada mais é do que um mundinho divertido, onde você escreve o que quer, mas em nada afeta o mundo real. Você aqui não existe, eu não existo. Somos todos frutos de uma realidade virtual, que em nada nada afeta o mundo real. Estamos brincando num mundo de faz-de-conta. Eu estou me divertindo muito! E quanto a resposta que você tanto queria para a minha frase: "A Polêmica gerada por uma pessoa que se auto-denomina polêmico é no mínimo duvidosa". Eu não sabia que deveria explicar o obvio ululante, mas se assim devo fazê-lo, eu faço. Se alguém se auto denomina algo, não necessariamente este algo é verdadeiro. Se eu digo: “Eu sou forte”, não é pelo que eu disse que será comprovada a veracidade de minha força. Se você diz ser polêmico, o mero uso da palavra para afirmar isto não indica que você realmente seja polêmico. Portanto, a polêmica gerada por alguém que se auto-denomina polêmico é duvidosa sim. Assim como este blog e todos os outros que se encontram num meio virtual são duvidosos pela sua correspondência falha com o Real.

Pois é, Luiz Maurício, aqui na Terra do Nunca a gente pode brincar e se divertir pra valer. Desmascarando, por exemplo, Ignorantes Soberbos que, por terem lido a orelha de um livro sobre Platão ou Maquiavel, acreditam saber a diferença entre Bem e Mal, a ponto de justificarem, com argumentos aparentemente "racionais", regimes tirânicos e totalitários. Não posso negar que é algo muito divertido. Não me importo com o fato de que isso pouco afeta o mundo real - já abandonei há muito tempo qualquer pretensão de ser reformador do mundo -; contento-me com a possibilidade de contar com um espaço livre em que possa expor e debater idéias e fatos relevantes, mesmo que do outro lado da telinha esteja um energúmeno que procure justificar uma tirania anacrônica como a do Coma Andante apelando para a "liberdade" de o povo cubano escolher não ter nenhuma liberdade... (Francamente, não tem argumento melhor? Poderia apelar para o velho chavão histórico de que a ditadura comunista na ilha-cárcere foi culpa das pressões dos EUA, por exemplo. Seria desonesto do mesmo jeito, mas não seria tão cretino). Enfim, meu caro, não sou polêmico porque me afirmo como polêmico, mas porque sou reconhecido como tal pelas pessoas com quem costumo debater, estando elas de boa ou má-fé - como acredito que seja o seu caso, do contrário não usaria sofismas em vez de argumentos, querendo até mesmo pôr em questão a existência do blog.

É isso, Luiz Maurício. Da próxima vez, espero que venha com algo melhor do que querer contestar a própria existência ou o nome do blog, e justificar uma tirania que aboliu a liberdade de o povo escolher sobre seu destino com o argumento de que o povo "escolheu" não ter mais essa liberdade... Para alguém que se diz leitor de Platão e Maquiavel, convenhamos, espera-se algo mais que isso. Dá até vontade de concordar com você, quando diz que o virtual não corresponde ao real...

segunda-feira, março 10, 2008

URIBE, O VENCEDOR


A semana que passou começou com o rufar dos tambores de guerra na América Latina e terminou com um aperto de mão meio acabrunhado e um tapinha nas costas entre o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, e seu homólogo do Equador, Rafael Correa. Resumidamente, o que houve entre um momento e outro foi o seguinte:

- O Exército da Colômbia atacou uma base das FARC, a narcoguerrilha colombiana, estabelecida em território do Equador, matando o número dois da organização, Raúl Reyes;

- O governo do Equador protestou energicamente contra essa "violação de sua soberania" e exigiu uma retratação de Bogotá;

- O governo da Venezuela juntou-se imediatamente ao do Equador, deslocando tropas para a fronteira com a Colômbia e elevando o risco de guerra na região;

- Na operação militar que resultou na morte de Reyes, foram apreendidos vários laptops com informações que comprometem diretamente os governos do Equador e da Venezuela, comprovando que estes dão refúgio e apoio às FARC;

- Após muito bate-boca e guerra verbal, o Equador finalmente aceita o pedido de desculpas da Colômbia e a crise é encerrada.

A crise teve um vencedor? Teve, sim senhor. Chama-se Álvaro Uribe. O presidente da Colômbia escancarou para quem quiser ver aquilo que os governos dos companheiros Correa, Chávez e Lula querem a todo custo esconder: a cumplicidade desses governos esquerdistas com as FARC. Não liguem para o pedido de desculpas. Nem para as arengas demagógicas de Correa e Chávez. Nem para a sonsice de Lula. Se a crise demonstrou algo de forma cristalina, foi a parceria e cumplicidade entre esses três e os narcoterroristas das FARC. Depois disso, ninguém poderá negar que Chávez e Correa são aliados do grupo terrorista mais antigo em atividade na América Latina, contra um governo democraticamente eleito. Nessa condição, dão guarida e até dinheiro aos narcobandoleiros colombianos, o que é uma clara violação de pelo menos três resoluções da ONU que condenam quem abriga terroristas. Quem violou a soberania de quem?

A santa aliança esquerdista contra Uribe não surpreende. Correa, Chávez e Lula, como todos sabem, jogam no mesmo time. O brasileiro até finge - e como finge! - ser "moderado", convencendo muita gente que é uma alternativa a seus colegas mais radicais (a Veja desta semana, por exemplo, embora fale no Foro de São Paulo, parece ter caído nessa esparrela). Mas aos poucos esse véu de ambigüidade vai caindo por terra, revelando a verdadeira face do lulo-petismo. Essa verdadeira face está presente não nos salões atapetados das recepções e encontros diplomáticos oficiais, mas nas reuniões do Foro de São Paulo, em que os três - Correa, Chávez e Lula, mais o índio de araque Evo Morales da Bolívia e o tiranossauro Fidel Castro de Cuba - são parceiros e aliados, juntamente com as FARC. Álvaro Uribe não pertence ao clube. Ao contrário: jurou lutar até o fim contra a praga das FARC, que está conseguindo derrotar militarmente - há alguns dias, o número 3 da organização foi assassinado pelos próprios companheiros de guerrilha, enquanto o número 1, Manuel Marulanda, o "Tiro fijo", ao que tudo indica, está escondido em algum lugar na Venezuela. Nessa tarefa, conta com o apoio da esmagadora maioria da população de seu país, cansada de tantos anos de morte e terror. Isso - a guerra de Uribe contra as FARC, sua recusa em compactuar com o terrorismo - os companheiros não podem perdoar.

Nesse meio tempo, a posição do governo do Brasil consistiu em condenar a "violação da soberania" do Equador e exigir mais desculpas do governo da Colômbia - o pedido inicial de desculpas de Bogotá foi considerado insuficiente -, colocando-se, assim, inteiramente ao lado de Equador e Venezuela. Enquanto isso, o assessor especial do presidente Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, defendia em entrevista a um jornal francês a neutralidade do Brasil em relação às FARC ("nem grupo terrorista, nem força beligerante"). Da posição do Brasil na crise, resultam as seguintes conclusões:

- Abrigar e proteger terroristas, pode; caçá-los onde quer que estejam, não;

- Dar refúgio a terroristas que cometem atentados contra um país vizinho não é violação da soberania - nem do país que os abriga, nem do que atacam;

- Terrorismo é só o que é praticado pela direita. Como as FARC são de esquerda, não é considerada uma organização terrorista.

Ao desferir um ataque ao coração das FARC, Álvaro Uribe desmascarou a aliança secreta dos narcoterroristas com governos da região. Revelou a cumplicidade e a hipocrisia destes com o terrorismo. Mostrou, de forma inequívoca, que há governos que dão abrigo e ajuda a seqüestradores e assassinos. Enquanto isso, o Brasil prefere fechar os olhos, insistindo numa falsa neutralidade que serve apenas para disfarçar sua parceria com criminosos. Alguém tem dúvida sobre quem venceu e quem perdeu no episódio?

quinta-feira, março 06, 2008

O BRASIL E AS F.A.R.C.: A FALSA NEUTRALIDADE PETISTA

Eu lhes lembro que o Brasil tem uma posição neutra sobre as Farc: nós não as qualificamos nem de grupo terrorista nem de força beligerante”.
(Marco Aurélio Garcia, assessor especial para assuntos internacionais do Presidente Lula)
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Não sei mais o que dizer sobre a crise entre Colômbia e seus vizinhos Equador e Venezuela, com o Brasil servindo de fiador desses últimos. Sei apenas que o caso todo é uma enxurrada de mentiras, que parece não ter fim. Quando parece que todos os absurdos já foram ditos pelos governos dos companheiros e na OEA, condenando-se a "violação da soberania" do Equador pela Colômbia, que caçava terroristas das FARC abrigados no país vizinho (cujo governo, pelo visto, não se importa muito com o fato de os bandoleiros usarem seu território para violarem a soberania da Colômbia), vem alguém e consegue superar os demais em quantidade de mentiras e cinismo.

O troféu peroba vai para Marco Aurélio "Top, Top, Top" Garcia, o ghost-chancellor do Brasil. Sim, vocês sabem de quem eu estou falando. Trata-se do mesmo senhor que coordenou, até alguns anos atrás, o Foro de São Paulo, aquela organização de movimentos de esquerda e de extrema-esquerda (inclusive as FARC) que durante anos muitos insistiram em dizer que era uma fantasia de meia dúzia de direitistas paranóicos. Pois agora o Marco Aurélio dá uma entrevista ao jornal francês Le Figaro, em que reafirma que o Brasil é neutro em relação às FARC, não as considerando "nem grupo terrorista, nem força beligerante".
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Em que consistiria essa tão alardeada "neutralidade" do Brasil, em relação às FARC? No seguinte: as FARC mantêm mais de 700 pessoas como reféns, algumas há anos, em campos de concentração na floresta? Não é terrorismo. Torturam e assassinam quem se recusa a pagar o "imposto revolucionário" que elas extorquem de comerciantes e agricultores? Não é terrorismo. Praticam atentados à bomba em que matam e mutilam civis inocentes? Não é terrorismo. Usam o território dos países vizinhos, como Equador e Venezuela (e inclusive do Brasil) como base e refúgio para lançar esses ataques contra o governo constitucional da Colômbia? Não é terrorismo. Sem falar que é difícil crer que um governo possa ser neutro em relação às FARC, quando participa ao lado delas do mesmo Foro (ou Desaforo). Não é preciso muito esforço mental para perceber que a "neutralidade", aqui, é apenas outro nome para cumplicidade.
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Já falei neste blog de como a visão esquerdista distorce a realidade, a ponto de classificar de forma diferente o mesmo fenômeno, de acordo com suas conveniências políticas. Trata-se de uma perversão da linguagem, já denunciada por George Orwell em seus livros e ensaios. Se um governo ou um grupo usa da violência, a questão, para as esquerdas, não é a violência em si, não é a tortura, o assassinato, nada disso. É a que fim ela se destina. Se a violência tem uma finalidade, digamos, de direita, como os paramilitares colombianos das AUC, então é algo extremamente grave, que deve ser condenado com veemência. Se o objetivo da luta armada é, sei lá, a "igualdade", o "socialismo", a luta contra o "imperialismo" (ou seja: os EUA), então a violência, por pior que seja, é algo necessário e louvável.

Para as esquerdas, um grupo só é terrorista se é de direita. É isso que o governo Lula, por meio de seu ghost-chancellor, está dizendo. Como as FARC proclamam-se marxistas, e lutam contra um Estado "burguês" e o "imperialismo", todas as suas ações - seqüestros, assassinatos, torturas, tráfico de drogas - são justificadas. Não sendo capaz de fazer como Hugo Chávez, que perfilou-se abertamente do lado dos narcoterroristas colombianos, o governo dos petralhas tenta dourar a pílula, afirmando-se "neutro" em relação às FARC. É o mesmo que se dizer "neutro" diante do estupro e do assassinato. Marco Aurélio Garcia diz que não adianta nada chamar as FARC de terroristas (ou seja, chamá-las pelo nome), pois isso "não ajudaria em nada nas negociações para a libertação dos reféns". Poucas vezes vi lorota maior do que essa. Significa curvar-se ante a chantagem terrorista, como se a vida dos reféns estivesse ameaçada não pelos seqüestradores, mas pelo governo. Além disso, tal postura corresponde a reconhecer as FARC, na prática, como um ator político respeitável, e não como o bando de criminosos que é. Sem falar que, do ponto de vista da realpolitik, a afirmação também não faz nenhum sentido, pois tudo que as FARC querem, nas negociações, não é depor as armas e libertar os reféns, mas conquistar mais espaço de manobra para continuar seqüestrando, matando, torturando e traficando. Para usar uma analogia histórica: alguém se recusaria a chamar os nazistas de assassinos esperando que eles, sei lá, libertassem os presos dos campos de concentração? A posição "neutra" do Brasil, como já disse antes, significa apenas uma forma disfarçada de compactuar com o crime e a mentira.

O mesmo no caso de ditaduras. Se é de esquerda, como a de Fidel Castro, então devemos apoiá-la. Ou, então, ser "neutros". Se a ditadura é de direita, como era a de Pinochet, então sua condenação é uma obrigação moral. Se é a do Coma Andante e serial killer do Caribe, então é "extremismo de direita". Vai entender...

A atual crise político-diplomática na América do Sul é uma excelente ocasião para perceber o duplo padrão moral adotado pelas esquerdas. É uma aula de cinismo e manipulação por parte dos companheiros esquerdistas. E ainda querem nos convencer de que o Brasil pode exercer um "papel moderador" na questão. Uma ova!

quarta-feira, março 05, 2008

ENTRE A COLÔMBIA E O TERRORISMO, O BRASIL ESCOLHEU O SEGUNDO

Correa e Lula: aliados de Chávez contra Uribe - e a favor das FARC
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Rafael Correa, o filhote de Hugo Chávez que ora ocupa a presidência do Equador, está no Brasil. Veio para agradecer o apoio do seu companheiro Lula da Silva, que condenou a "violação da soberania" do território equatoriano pela Colômbia, que lá matou há alguns dias o número dois das FARC, o facínora Raúl Reyes. Nada poderia demonstrar de forma mais eloqüente qual lado o governo do Brasil escolheu na atual crise político-diplomática na América do Sul: entre a Colômbia e o terrorismo das FARC, os petralhas escolheram o último. Em vez de apoiar uma democracia que se defende, optou por cerrar fileiras ao lado dos terroristas que a atacam e dos governos que os apóiam e protegem.

Correa, já está sobejamente demonstrado, é parceiro e cúmplice das FARC. Foi o que os militares colombianos revelaram ao mundo ao abrir a caixa-preta dos laptops de Raúl Reyes. O mesmo no caso de Chávez. A narcoguerrilha colombiana, que o governo brasileiro se recusa a chamar de organização terrorista - terrorismo, pelo visto, para os companheiros petistas, é só o de direita -, usam há anos o território do Equador e da Venezuela como refúgio e base para atacar o território colombiano. Correa e Chávez sabem disso, e fazem vistas grossas - quando não, apóiam abertamente, inclusive com dinheiro, os narcobandoleiros, como demontram os documentos apreendidos de Raúl Reyes. Ao fazer isso, cometem uma clara violação do direito internacional, inclusive de várias resoluções da ONU, que condenam quem dá abrigo a terroristas. Mas, para o governo Lula, a soberania violada foi a do Equador, não a da Colômbia. É o mesmo que dizer que, após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, a intervenção norte-americana no Afeganistão, cujo governo dava refúgio a Al Qaeda, foi um "atentado à soberania" dos Talibãs...
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A posição do governo Lula em relação à atual crise entre os três países é uma das páginas mais vergonhosas, senão a mais vergonhosa, da história da diplomacia brasileira. O que diria o Barão do Rio Branco ao ver o conceito de soberania nacional, princípio basilar das relações internacionais, prostituído de maneira tão covarde e leviana? O que diria ele ao presenciar o triste espetáculo de o Chanceler brasileiro se perfilando ao lado de um governo, o de Correa, que dá guarida a narcoterroristas, contra outro, o de Uribe, que há anos luta para se defender dos ataques contra ele lançados pelas FARC a partir das fronteiras? Tenho certeza de que o Barão deve estar se revirando no túmulo com tamanha degradação de seu legado.
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Nem tudo parece estar perdido, porém. Diante de tão grotesca pantomima dos companheiros Correa, Chávez e das FARC, parte da imprensa brasileira, ainda não cooptada pela propaganda e verbas oficiais, pelo visto parece acordar para o que está acontecendo. Em editorial, O Estado de S. Paulo de hoje, 5/03, resume, de forme didática, a atual crise, afirmando que o apoio de governos a grupos terroristas como as FARC é algo tão ou mais grave do que a invasão do território equatoriano. Recorda a cumplicidade de Correa e Chávez com os narcoterroristas colombianos, e que tal aliança é parte fundamental da estratégia "bolivariana" do caudilho de Caracas. Lembra, inclusive, que o Equador já extraditou membros das FARC para a Colômbia em outro governo. Refere-se, até mesmo, embora de forma um tanto acanhada, ao Foro de São Paulo, verdadeiro instrumento de "articulação estratégica" dos grupos esquerdistas da América Latina - inclusive as FARC -, criado por Lula e Fidel Castro em 1990. É pouco, mas já é alguma coisa. Se tivéssemos o costume de ligar os pontos, perceberíamos sem dificuldade por que o atual governo do Brasil não perde a oportunidade de se colocar ao lado dos populistas Chávez e Correa - e das FARC - contra Uribe.

"Presenciar um crime em silêncio é cometê-lo", dizia o poeta e patriota cubano José Martí (hoje transformado em ícone prostituído de uma ditadura fracassada, a de Fidel Castro). No caso da crise entre Colômbia, Equador e Venezuela, o Brasil nem sequer se recolheu ao silêncio envergonhado. Anunciou, abertamente, seu apoio a quem protege e ajuda terroristas, contra um governo que tenta há anos extirpar essa chaga da América do Sul. Colocou-se, enfim, do lado do mal, confundindo, propositadamente ou não, defesa da soberania com abrigo a terroristas. Diante do crime, nem sequer se cala: apóia abertamente o criminoso. Nunca pensei que o Brasil desceria tão baixo.

terça-feira, março 04, 2008

Resposta ao leitor

Escreve-me um simpático leitor, o Rodolfo Mello, em 3/03, às 18h55, sobre meu texto Resposta a um leitor "viajante":
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Boa resposta, Gustavo! Mas há uma pequena contradição nela. Quando você diz: “É o mesmo que esperar que os próprios alemães se livrassem do nazismo”. Afinal, o nazismo teve forte apoio da população alemã. Era escolha unicamente dela seguir o nazismo ou não segui-lo, e eles preferiram seguir o regime nazista e apoiar Hitler. Os alemãs poderiam se livrar do Nazismo, mas não quiseram.
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Comento:
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Caro Rodolfo, obrigado por seu comentário. Sua observação é muito interessante, mas devo discordar de algo que você falou. Sim, você tem razão quando diz que o nazismo teve forte apoio da população alemã. Mas isso não constitui nenhuma contradição com o que eu disse em meu post. Nem significa que os alemães, sob a ditadura nazista, fossem livres para seguí-la. Vou pedir licença para citar a mim mesmo, se não se importa. No post citado, escrevi o seguinte, quando respondi ao Luiz Maurício, que acha que a continuidade da "castradura" cubana é uma questão da simples vontade dos cubanos (em azul a citação):
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Que beleza... O sujeito cita o Apedeuta para justificar a continuidade de uma ditadura que não dá o menor direito de escolha aos cubanos, pois afirma que isso deve ser algo decidido pelos próprios cubanos, enfim... Uma pérola de lógica, que só poderia ter saído mesmo da boca do Grande Molusco. É o mesmo que esperar que os próprios alemães se livrassem do nazismo, ou que a tarefa de se livrar da tirania de Saddam Hussein fosse dos próprios iraquianos, como se na Alemanha de Hitler ou no Iraque de Saddam - e na Cuba de Fidel e de seu irmão Raúl - o povo fosse realmente livre para decidir alguma coisa sobre seu futuro.
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Coloquei a última frase em itálico e em negrito de propósito. Você deve saber por quê. Ela explica meu ponto de vista. A questão não é se os alemães amavam ou não Hitler - e nem todos o amavam, como demonstram as várias conspirações para matá-lo -, mas se, sob o nazismo (como sob qualquer outro tipo de regime totalitário), a população tem a liberdade de escolher sobre seu próprio destino. Como está lá na minha resposta ao cidadão que quis me dar lição de moral sobre o nome do meu blog, demonstro que isso é impossível. Aliás, esta é justamente a primeira liberdade que os totalitarismos abolem. Foi assim na Alemanha de Hitler e na Rússia de Stálin, assim como é hoje na Cuba do Coma Andante. Com a diferença de que, na Alemanha nazista, pode-se dizer que a maioria da população, hipnotizada pela propaganda, apoiava sinceramente o regime. No caso de Cuba, porém, não se pode dizer o mesmo - a menos que se considere a realização de comícios-monstro com milhares de pessoas em Havana, ali tangidas não por vontade própria, mas por medo de sofrerem represálias se não comparecerem, sem falar nos cerca de 2 milhões de exilados, como sinais de "apoio popular" ao regime...
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É isso. Mais uma vez, obrigado por seu comentário. Mas é sempre bom ler mais de uma vez. Como diz um conhecido meu, keep on the beat!

O BRASIL PRECISA PARAR DE FAZER CORPO MOLE PARA TERRORISTAS E NARCOTRAFICANTES

Do blog de Reinaldo Azevedo, comentário postado ontem. Há um outro, sobre o mesmo assunto, de hoje. Escolhi o mais light (em azul, meus comentários em seguida):
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O governo brasileiro já tem uma posição: de joelhos para o terror

(...)

A reação do ministro Celso Amorim, que traz a posição oficial do governo brasileiro — e a posição oficial do governo brasileiro é de joelhos para o terrorismo — é qual? Censura à Colômbia. Isto mesmo: o Equador abriga terroristas; há evidências de que um acordo estava em curso, mas Amorim quer falar da invasão de fronteira.

Um governo que dá guarida a terroristas reconhece fronteiras? Dizer o quê? O Itamaraty, nesse caso, repete aquela que tem sido a sua política constante: apoio a delinqüentes.

Segundo Amorim, o tema principal a ser debatido pela OEA não é a proteção ao terror garantida pelo Equador ou a ameaça de guerra de Chávez. Não, não. O tema principal é a invasão da fronteira equatoriana. Ele também disse que o Brasil quer uma solução para a crise. Não se disse uma miserável palavra de censura às Farc. Nada!Rafael Correa abriga terroristas, mas Amorim quer que a Colômbia peça desculpas sem condicionantes.

Querem saber de uma coisa? O comportamento do governo brasileiro consegue ser mais asqueroso do que o do Beiçola de Caracas.

A diplomacia brasileira nunca desceu tão baixo.

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Sei que corro um risco danado ao dizer o que se segue, pois afinal o personagem citado aí acima é ninguém menos do que meu patrão. Mas não é pelo fato de eu ser funcionário de carreira do Itamaraty - concursado, portanto - que eu vou deixar de ter opinião. Não estava escrito em nenhum lugar quando eu prestei o concurso para o MRE, em 2002, que uma das condições da profissão seria deixar de pensar por conta própria. Além disso, sempre achei que opinião que não se expõe fica encalavrada na garganta e pode gerar úlcera. Vamos lá, tentarei ser diplomático.

Vi a entrevista de nosso Chanceler na TV. Foi uma coisa, como direi?, difícil de engolir. Os motivos estão citados acima. Ele praticamente responsabilizou a Colômbia - e não as FARC - pela atual crise política na região, dizendo que Uribe deve desculpar-se mais uma vez junto ao Equador por ter matado um terrorista que se escondia atrás de suas fronteiras. Não houve nenhuma menção ao apoio de Chávez e de Correa aos narcoterroristas colombianos. Aliás, não houve nenhuma menção às FARC. Nada. Celso Amorim pareceu mesmo descer ao nível vocabular de seu chefe, o Apedeuta, usando as mesmas metáforas vulgares, coisa lamentável num diplomata tão gabaritado. "Imaginem se seu vizinho entrasse em sua casa sem pedir licença" etc., disse ao se referir à incursão das forças colombianas contra as FARC no Equador. E se o vizinho em questão abrigasse bandidos que começassem a seqüestrar meus parentes e atirar bombas em direção à minha casa, o que eu deveria fazer?, poderia perguntar, usando o mesmo tipo de linguagem.
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A fala de Amorim foi ainda mais revoltante pelo fato de que o governo do Brasil, sob Lula da Silva, é há anos parceiro das FARC no Foro de São Paulo, que durante muitos anos a imprensa brasileira se ocupou em esconder do público. Já falei do tal foro aqui. É algo que está longe de ser uma associação inofensiva, um clube de senhoras bebedoras de chá ou de filatelistas. Seu coordenador até 2001 foi ninguém mais, ninguém menos do que Marco Aurélio Garcia, atual ghost-chancellor do Brasil. Pergunto: um governo, que se diz democrático, perfilar-se ao lado de uma organização criminosa como as FARC, comprova ou não a existência de uma associação criminosa? Deixo que vocês mesmos dêem a resposta.
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Os jornais de hoje informam que os laptops de Raúl Reyes apreendidos pelo exército colombiano revelam a conexão entre as FARC e os governos de Correa e de Hugo Chávez. Este último teria fornecido US$ 300 mil a seus companheiros narcoguerrilheiros. Deve ser por isso que Chávez anda tão esquentadinho. Deve estar com medo de que as autoridades da Colômbia revelem todo seu esquema com as FARC. Será que agora o princípio da não-intervenção, algo tão caro à nossa diplomacia, será finalmente aplicado pelo governo Lula para condenar o que Chávez e Correa vem fazendo na Colômbia? Será que os atuais ocupantes do governo brasileiro terão coragem de denunciar seus próprios companheiros por esse atentado à soberania de um país democrático (a Colômbia, não o Equador)?
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O Brasil está de joelhos para o terror. Aliás, de joelhos não. Em outra posição, bastante conhecida, de submissão. E não é de hoje.

"A COLÔMBIA É O ISRAEL DA AMÉRICA LATINA", DIZ CHÁVEZ. E A VENEZUELA É O IRÃ


Frase do fanfarrão venezuelano Hugo Chávez dita ontem, quando estourou a crise político-diplomática com a Colômbia por causa da morte de um facínora das FARC: "A Colômbia é o Israel da América Latina".

Pela primeira vez vou concordar com algo dito pelo palhaço de Miraflores. Sem querer, ele fez uma analogia correta. A Colômbia pode mesmo ser comparada a Israel. Afinal, ambos os países estão há décadas sitiados por movimentos terroristas que agem dentro de suas fronteiras e por governos hostis, que lhes dão apoio. E ambos são constantemente atacados por exercerem o direito elementar de se defenderem, tendo muitas vezes de realizar incursões nos países vizinhos para caçar terroristas que lá buscam - e conseguem - refúgio. Sim, a Colômbia pode ser comparada a Israel. E os narcoterroristas das FARC são o Hamas, o Hizbollah. A Venezuela de Hugo Chávez é o Irã. E o Equador de seu pupilo Rafael Correa é a Síria.

Hugo Chávez não dá ponto sem nó. O Napoleão de circo sabe que grande parte da opinião pública latino-americana já está adestrada ideologicamente a se colocar de forma automática contra os EUA e Israel, e ao lado dos terroristas palestinos. Nisso ele conta com décadas, senão séculos, de propaganda anti-semita. Sabe que muita gente, inclusive gente que se considera ilustrada e progressista, que fica indignadíssima quando o exército israelense responde a algum atentado terrorista palestino, como está ocorrendo agora mesmo na Faixa de Gaza, não se importaria se os assassinos do Hamas ou do Hizbollah cumprissem o que juraram fazer há anos, promovendo um novo Holocausto e atirando os judeus ao mar. Preferem protestar contra uma declaração infeliz do vice-ministro da Defesa israelense, que ameaçou os facínoras do Hamas com duras represálias caso continuem atacando Israel, a condenar de forma clara e sem ambigüidades o terrorismo anti-Israel. O mesmo faz agora o governo "moderado" e "progressista" do Brasil, que prefere pedir que a Colômbia se desculpe ante o Equador por uma "violação de soberania", enquanto se recusa a condenar as FARC e até mesmo a chamá-las de terroristas. Coloca-se, assim, ao lado das FARC/Hamas contra a Colômbia/Israel.

Ao comparar Colômbia e Israel, enquanto fornece apoio e dinheiro aos narcoterroristas das FARC, Chávez se iguala a seu companheiro Mahmud Ahmadinejad, do Irã. O coronel venezuelano está se esforçando para transformar a América Latina num novo Oriente Médio. Com o apoio de seus aliados equatorianos e brasileiros, está conseguindo.

segunda-feira, março 03, 2008

A COMÉDIA DE CHÁVEZ, CORREA E DAS F.A.R.C: A GUERRA DOS "COMPAÑEROS"


Aconteceu. Hugo Chávez conseguiu o que queria. Finalmente o Napoleão de circo venezuelano deflagrou uma crise política e diplomática séria com a Colômbia, que pode vir a degenerar em guerra aberta. Espera, com isso, igualar-se a seu ídolo, Bolívar, realizando seus sonhos de grandeza. Não contente em arruinar a economia de seu país, apesar da abundância do petróleo, ele agora quer arrastar toda a região para o abismo. Está a um passo de fazer isso. Certamente fará, se não for detido.

O mais curioso, ou nem tanto assim, em se tratando de Chávez, foi o estopim da atual crise entre Venezuela e Colômbia: um ataque do exército colombiano, em território do Equador. No ataque, foram mortos 17 guerrilheiros das FARC, os narcoterroristas que Chávez quer ver elevados à categoria de "força beligerante", inclusive seu porta-voz e número dois, Raúl Reyes. O governo do Equador, presidido por um pupilo de Chávez, o enfant terrible Rafael Correa, protestou pelo que considerou uma invasão de seu território e mandou retirar seu embaixador em Bogotá. Chávez, cujas relações com o presidente colombiano Álvaro Uribe já andavam estremecidas por seu apoio velado às FARC e sua insistência em "intermediar" as negociações entre os narcoterroristas colombianos e o governo de Bogotá, fez o mesmo, rompendo relações com a Colômbia e enviando tanques e aviões para a fronteira entre os dois países. Enquanto isso, o governo colombiano apresenta documentos que provam que o Equador dava refúgio aos guerrilheiros. Falta pouco para estourar uma guerra na região.

Por que Chávez está tão bravo? A resposta é simples: o governo da Colômbia assestou um duro golpe contra um seu importante aliado. Como todos sabem, Chávez é parceiro e cúmplice das FARC, assim como Correa. Isso ficou claro como o mar do Caribe quando do caso dos reféns seqüestrados pelos bandidos colombianos, que Chávez tentou transformar num circo midiático para se promover internacionalmente, ao mesmo tempo em que interferia abertamente na política interna colombiana, reconhecendo as FARC como "força beligerante". A morte de Raúl Reyes, portanto, significa a perda de mais um compañero. Não por acaso, Chávez chegou mesmo a prantear o narcoterrorista morto com um minuto de silêncio na televisão, enquanto chamava a eliminação do facínora de "assassinato" - pelo visto o que as FARC fazem há quarenta anos, segundo ele, deve ser filantropia -, num gesto equivalente a Lula decretar luto oficial pela morte de um chefe do narcotráfico numa favela carioca... Quanto a Correa do Equador, deveria estar grato à Colômbia por ter livrado a humanidade de mais um criminoso, traficante e assassino, mas, em vez disso, vocifera contra Bogotá. Explica-se: assim como Chávez, ele é parceiro das FARC.

Há tempos venho denunciando, aqui neste blog, as artimanhas do sargentão Hugo Chávez e seus aliados. Nem ele, nem Correa, estão interessados numa solução pacífica para o conflito colombiano, ou qualquer coisa que o valha. Pelo contrário. Chávez não se conforma com o fato de que a Colômbia seja governada por um homem que transformou a eliminação das FARC numa questão de honra para si mesmo e para seu país. O que ele, Chávez, deseja é explorar ao máximo o conflito, tanto por motivos políticos como narcisísticos. Isso ficou demonstrado claramente no caso dos reféns colombianos. Chávez cultiva a lógica do confronto, do enfrentamento, buscando aparecer como o campeão da "luta contra o imperialismo" (ou seja: contra os EUA) na América Latina, assim como já fez seu ídolo e mentor Fidel Castro, que ainda tem admiradores devotos. Desse modo, ele espera projetar-se na arena internacional, ao mesmo tempo em que consolida seu poder interno, armando suas milícias e sufocando a oposição. O governo de Álvaro Uribe na Colômbia é uma pedra no sapato dessa sua estratégia. Daí a corrida armamentista que ele vem implantando nos últimos anos (para "enfrentar uma invasão imperialista", diz), com a aquisição de milhares de fuzis russos Kalashnikov - o mesmo tipo utilizado pelas FARC - e modernos caças SU-30. Ele quer ser, enfim, o novo Napoleão das Américas. Só precisa de uma guerra.

Não é a primeira vez que a oportunidade para tanto se apresenta ao fanfarrão venezuelano. No final de 2004 e começo de 2005, outra grave crise estourou entre a Venezuela e a Colômbia, quando policiais venezuelanos capturaram e entregaram às autoridades colombianas, em troca de uma recompensa, o "chanceler" das FARC, Rodrigo Granda. Granda, que tinha dupla nacionalidade, se encontrava em Caracas, como representante das FARC, num congresso patrocinado e realizado sob os auspícios do governo da Venezuela. Chávez acusou então a Colômbia, como Correa o está fazendo agora, de "violar a soberania" do país, transformando em patriotada o que era, na verdade, um caso escandaloso de um governo dando guarida e refúgio a um procurado terrorista. A história, agora, parece repetir-se, com um ingrediante explosivo de alta intensidade.

E o Brasil, como fica nisso tudo? Como não poderia deixar de ser, o governo Lula da Silva já deu sinais de sua notória pusilanimidade, tentando esconder o que até cego já viu: sua cumplicidade com Chávez e Correa. O ghost-chancellor Marco Aurélio "Top, Top, Top" Garcia já foi à imprensa para dizer que o Brasil está disposto a "usar toda a força da diplomacia brasileira para ajudar na solução da crise" etc. e tal. Balela, pura balela. Nessa crise, o governo dos petralhas já escolheu de que lado está. E não é o da paz e da democracia. Pelo contrário: Lula e Marco Aurélio Garcia também devem estar bastante tristes, pois afinal Raúl Reyes, o número dois das FARC morto pelos soldados colombianos, era seu companheiro no Foro de S. Paulo, do qual já falei aqui várias vezes. Por isso tenho fortes razões para crer que, caso irrompa uma guerra declarada entre Bogotá e Caracas, a frase do camarada Garcia - "usar toda a força da diplomacia brasileira" - não deixará dúvida alguma sobre seu real significado. O governo Lula já entregou dois atletas cubanos que queriam escapar para o exílio de volta à ditadura comunista cubana, metendo-os às pressas, na calada da noite, num jatinho fretado pelo governo venezuelano, agindo assim como capitão-do-mato a serviço de Fidel Castro. Alguém duvida de que lado se colocarão os companheiros petistas numa eventual guerra entre Uribe e o compañero Hugo Chávez?

Claro, não faltarão idiotas que darão ouvidos às arengas demagógicas de Chávez, acreditando, por exemplo, que o culpado pela crise é o governo do "americanófilo" Uribe, que, ao fechar o cerco sobre as FARC, estaria "colocando em risco a vida dos reféns", vejam só... Já começou a aparecer quem afirma essa absurdo. Ora, se alguém ameaça a vida dos reféns das FARC, não é o governo colombiano, que está cumprindo sua função, mas os narcoterroristas que os mantêm acorrentados a árvores e ameaçam fuzilá-los em caso de ataque do governo. Também haverá almas piedosas que lamentarão a morte de Raúl Reyes e seus capangas, e afirmarão que a ofensiva militar do governo Uribe contra as FARC é um passo atrás nas negociações etre governo e guerrilha... Como se o que as FARC realmente quisessem, nessas negociações, fosse a paz, e não estabelecer um "território independente" dentro da selva colombiana, de onde continuariam a realizar suas operações terroristas, matando, extorquindo, traficando e seqüestrando. A situação na Colômbia pode ser resumida da seguinte maneira: de um lado, um governo democraticamente eleito, que luta para fazer valer o império da lei e neutralizar uma guerrilha que há mais de 40 anos ensangüenta o país. De outro, um movimento armado terrorista, um subproduto da Guerra Fria, sustentado pelo narcotráfico e pelos seqüestros de quase 800 pessoas, que luta para instaurar no país uma ditadura comunista, e que conta com o apoio dos governos mais autoritários e retrógrados do continente. A Colômbia é, hoje, um país duplamente sitiado: internamente, pelas guerrilhas narcoterroristas das FARC e do ELN; externamente, pelos governos irresponsáveis e populistas de Chávez e Correa. Mesmo assim, tem gente que acha difícil discernir entre o bem e o mal nesse caso, assim como acham maniqueísmo simplista dizer que a ditadura de Fidel Castro é uma ditadura.

Em outro texto, afirmei que, com figuras como Chávez e Correa, a fascistização da América Latina está apenas começando. Eu me enganei. Este processo já vai bem adiantado. Chávez está prestes a cruzar o Rubicão.

domingo, março 02, 2008

Resposta a um leitor "viajante"...

Confesso que alguns comentários sobre meus textos neste blog me deixam meio desnorteado. Não pelos insultos e ofensas pessoais, às vezes recheados de cabeludíssimos palavrões, que vez ou outra são vomitados contra este que escreve estas linhas pelos militantes da Al Qaeda eletrônica. Nem pelo nível em geral pedestre dos argumentos contrários que alguns apresentam - exceção que faço ao Pablo Capistrano, com quem venho mantendo um debate estimulante nos últimos dias sobre a questão de Cuba, com argumentos racionais e alto nível intelectual -, mas pela lógica, digamos, pouco ortodoxa de seus autores. É o caso de um comentário - longuíssimo, aliás - que recebi no dia 29/02, às 19h45, de alguém que assina Luiz Maurício, a propósito de meu texto "Fidel, o discurso isentista e a filosofia dos eunucos morais" (o post, que transcrevo aqui na íntegra, está em vermelho a seguir).

Já na primeira frase, Luiz Maurício me surpreende com uma afirmação peremptória: "A Polêmica gerada por uma pessoa que se auto-denomina polêmico é no mínimo duvidosa". Por que seria? Luiz Maurício não explica. Aliás, essa é uma constante em todo o seu post: ele faz uma afirmação definitiva, mas não a justifica, não com argumentos. Quando ele se refere à minha discussão com outro leitor, que se apresentava como João, sobre o mesmo assunto (ver meu post "Resposta ao leitor"), ele diz:

Tanto o autor deste blog quanto o senhor João são pessoas afetadas. Um por defender a direita Veja e o outro por defender a esquerda Carta Capital. Ambas as revistas (e eu repito ambas) possuem um jornalismo fraco e irregular. Para estar por dentro do assunto que discutem, resolvi ler a matéria sobre Fidel Castro das duas revistas. A Veja defende uma direita neoliberal e a Carta Capital uma esquerda de centro, mas acabam por convergir num jornalismo precário, de matérias fracas e pouco elucidativo. O capitalismo sempre aparece transvestido (sic) de “liberdade” e o socialismo sempre aparece transvestido (sic) de “igualdade”, mas pecam por serem ilusões oferecidas a sociedade. Não gosto do Mino Carta, Diretor de Redação da Carta Capital, assim como não gosto do Roberto Civita, Presidente e Editor da Veja. Considero-os tendenciosos e de opiniões por demais inconseqüentes. Não comento a revista Época, primeiro porque não a li e depois por não me interessar a sua neutralidade. Feito a presente introdução vamos as análises pertinentes de cada revista:

Trocando em miúdos: ele me chama de afetado por elogiar a Veja, fala das revistas, mas não justifica nenhuma de suas afirmações. Não explicou por que acha que elas possuiriam um "jornalismo fraco e irregular". Critica a Veja por ser "de direita" e a Carta Capital por ser "de esquerda", mas não explica por que afirma que estas praticariam "um jornalismo precário, de matérias fracas e pouco elucidativo" (no caso da Carta Capital, aliás, estou de total acordo). Enfim, usa e abusa de adjetivos para não dizer absolutamente nada.

Mas deixemos que ele fale:

A Veja utiliza cada página que pode da revista para agradecer o fim do regime do Fidel, algo que considero altamente desnecessário.

Primeiro, o regime de Fidel Castro não chegou ao fim (o que é uma pena). Fidel renunciou a cargos formais que tinha, como a presidência, mas mantém o de secretário-geral do Partido Comunista (ou seja: continua mandando as cartas na ilha). Segundo, por que o fim dessa ditadura seria algo desnecessário? Nosso amigo parece desinformado sobre o que aconteceu na ilha, o que não me surpreende. E, mais uma vez, fica nos devendo uma explicação.

Quando realmente chega a matéria principal, [a revista] peca pela escolha do jornalista Diogo Schelp, que confunde a defesa de um ponto de vista da revista com o direito de falar qualquer besteira que ele quer. Pouco me interessa se ele pensa que o Fidel é um farsante, tirano e assassino.

Velho método de atacar o mensageiro, e não a mensagem. O que me importa se o fulano não gosta do autor da matéria na revista? Que refute seus pontos de vista, se não concorda com eles. Se não o faz, então tudo o que diz é argumento ad hominem, ou seja, não passa de uma impressão subjetiva, na linha "não gosto de fulano", e ponto final. Mas em vez disso o sujeito prefere dizer que pouco lhe interessa o que o autor do artigo pensa sobre o farsante, tirano e assassino Fidel Castro, apenas para comentar o texto em seguida, o que é no mínimo uma contradição.

Utilizar termos como subversão e dizer que Fidel “vive como um cônsul romano” (p.70) são puras alegorias da cabeça dele.

Mais uma vez, uma afirmação sem justificação. Por que seria uma alegoria? De fato, concordo com a afirmação de que o tirano cubano não vive como um cônsul romano. Os cônsules romanos eram agentes do Império. Funcionários subalternos, portanto. Ao contrário de Fidel, que há 49 anos manda e desmanda em sua ilha particular como bem quer. É mais apropriado dizer que ele governa sua ilha-prisão como um imperador romano, ou como um faraó egípcio. Em outras palavras, um verdadeiro deus - inclusive com sacerdotes e devotos, entre nós.

Fora que a História (essa com H maiúscula) não é escolha deste jornalista, e se Fidel será ou não absolvido pela História não cabe a ele decidir.

De fato, não cabe a esse ou aquele jornalista dizer se Fidel será ou não absolvido pela História - com H maiúsculo. Esta já o condenou faz tempo, na forma dos milhões de refugiados e da calamidade que ele impôs a Cuba.

Por acaso o termo “céu dos comunistas” (p. 71) é alguma piada? Na minha opinião uma total falta de profissionalismo. Que entende ele [Diogo Schelp] de comunismo? Que sabe ele sobre Marx? Já por acaso tocou num livro deste autor? Pelas coisas que disse tal jornalista, eu duvido...

Pelo visto, o rapaz é um especialista em marxismo. Nesse caso, seria interessante que ele desse uma olhada no meu texto "Conhecendo o Velho", neste blog. Tenho certeza de que ele vai se divertir bastante com as afirmações de Marx sobre os "povos inferiores"...

Respondam-me aqueles que entendem do assunto: o que interessa o termo PIB e renda per capita num país socialista? Se a economia é planificada, pra que salários altos? Toda esta crítica feita pelo senhor Schelp não tem o menor cabimento em Cuba.

Que maravilha! Acabamos de aprender que coisas como PIB, renda per capita e salários altos não valem nada em economias planificadas como a cubana, que certamente se guia por outros indicadores - o nível de pobreza generalizada da população ou a falta da liberdades, quem sabe. Trata-se de uma revelação, sem dúvida. Significa que toda a torrente de estatísticas que os regimes marxistas sempre adoraram despejar para "provar" que suas economias eram superiores às dos países capitalistas não valem um tostão furado, como realmente não valiam.

O que pude perceber é que na defesa da liberdade, tal jornalista peca por não permitir a liberdade de escolha de um país seguir um outro regime que não seja o capitalismo. Que liberdade é esta que tanto fala? Ora, dizer que o regime castrista matou pessoas é uma verdade, outra é não permitir que os cubanos sejam socialistas.

Não é uma graça? O que o sujeito está dizendo é o seguinte: o fato de Cuba ser uma ditadura totalitária há 49 anos, com partido único, sem eleições livres e centenas de presos políticos, decorre única e exclusivamente da própria vontade do povo cubano! Sim, isso mesmo, vocês leram certo: se o país é hoje uma ruína miserável, sem liberdade de expressão nem qualquer outra liberdade, se não é permitido ao povo dizer o que pensa e manifestar-se livremente, e inclusive sair do país se o desejar, isso é porque os cubanos querem! É porque eles gostam de "viver" assim! É preciso, segundo esse raciocínio, resguardar a "liberdade de escolha" de um país em que há quase meio século se aboliu a liberdade de escolha para seu povo (!). Do mesmo modo, poder-se-ia dizer que seria preciso defender o "direito" de os alemães viverem sob o nazismo ou de os cambojanos serem trucidados pelo regime do Khmer Vermelho. Enfim, os cubanos, de acordo com nosso amigo, devem ser masoquistas, no mínimo. Não é uma beleza?

Mas a maior baixeza não veio de Schelp, mas sim do artigo inserido na matéria e assinado por Reinaldo Azevedo. Uma total falta de respeito do senhor Azevedo com Chico Buarque, Oscar Niemeyer e Frei Betto. Chamar o Chico de “um talentoso idiota moral” (p.78) foi a gota d’ água. O grande ponto alto da revista Veja foi a conversa com o cubano Héctor Palacios Ruiz, que soube falar de forma franca e respeitosa sobre um regime que não concorda.

Ai, ai. Esses tocadores de tuba de Chico Buarque, Oscar Niemeyer e Frei Betto... Eles me dão vontade de chorar de rir. O sujeito se morde de indignação pela "falta de respeito" do Reinaldo Azevedo com a sagrada trindade da idiotice esquerdóide nacional, vejam só. Quanto à múmia paralítica Oscar Niemeyer e ao padreco de passeata "Frei" Betto, não vou nem falar, já tratei deles antes aqui neste blog, mais até do que eles merecem. Já quanto ao bardo Chico Buarque, vou dizer apenas que gosto de suas músicas, principalmente de "Apesar de Você", cuja letra até reproduzi em outro post meu aqui, pois se aplica à perfeição à realidade de um certo país do Caribe, dominado há quase cinco décadas por um tirano homicida e mentiroso que ele sempre idolatrou... É preciso ter em mente que talento artístico - sem falar na capacidade de seduzir moçoilas e destruir casamentos no Leblon - não é um álibi para justificar posições favoráveis ao totalitarismo. Toda vez que defende Fidel Castro, nosso Chico justifica plenamente a alcunha de talentoso idiota moral. Mas sempre vai aparecer algum bocó para defender o ídolo, assim como ocorre com o "gênio" oficial Oscar Niemeyer, que acredita que sua idade avançada lhe dá o direito de repetir velhos chavões cretinos comunistas e defender o indefensável. Reinaldo Azevedo escreveu no blog dele que falar mal de Deus, no Brasil, pode, mas de Chico, não. Deve ser uma questão de hierarquia, disse.

A Carta Capital, apesar das acusações do autor deste blog, fez o mesmo tipo de jornalismo da Veja, mas evitou os ataques e opiniões pessoais do jornalista encarregado da matéria. Não perdeu com isto o ponto de vista da revista que é a defesa do regime cubano. A revista foi um pouco relevante quanto as mortes do regime, mas teve como ponto alto a conversa com Tariq Ali, que demonstra os pontos altos e baixos do regime cubano.

Dizer que o "ponto alto" de uma publicação é uma entrevista com o perfeito idiota paquistanês Tariq Ali só pode ser algum tipo de piada de mau gosto. Ali não é apenas um dos, vá lá, "intelectuais" mais desonestos da atualidade, é um militante de causas antiamericanas e totalitárias, um delinqüente político da mesma estirpe de um Noam Chomsky ou de um Ignácio Ramonet. Para se ter uma idéia do nível do sujeito, ele acabou de escrever um livro, Piratas do Caribe, em que defende que o Coma Andante Fidel e seus cupinchas Chávez, Morales e Corrêa formam um "eixo da esperança" (!) na América Latina contra o "imperialismo ianque", é de lascar... Na entrevista citada, ele não diz outra coisa senão defender que "os exilados de Miami" não voltem a seu país, o que corresponde ao mesmo que alguém se opor, nos anos 70, à volta dos exilados brasileiros - aliás, essa foi também a posição defendida por Lula um dia desses. Como se vê, mais uma vez se confirma o adágio romano, Asinus Asinum Fricat - um jumento se esfrega em outro jumento.

Apesar dos problemas do presidente Lula, com uma frase dele eu devo concordar: “Esse negócio de a gente ficar aqui do Brasil dizendo que bom é assim ou assado, vamos deixar que os cubanos cuidem do que eles querem para a política e vamos cuidar do que queremos para o Brasil. O que complica é quando cada um começa a dar palpite nas coisas dos outros. Aí pode dar conflito. Os cubanos têm maturidade para resolver todos os problemas, sem precisar de ingerência brasileira ou americana” (Caderno especial do jornal O Globo: “O Comandante Sai de Cena” de 20 de fevereiro de 2008, p.5). Lula está certo: os cubanos têm maturidade para decidirem seu próprio caminho. Assim como também diz o escritor Pio E. Serrano, exilado cubano desde 1974: “Reconduzir o país não é direito dos exilados”, “Esse papel quem deve desenvolver são os cubanos que se mantiveram em Cuba. Os exilados não têm esse direito”. (mesmo Caderno citado acima, p.8). Quem disse que o melhor caminho para Cuba é a democracia e a economia de mercado? Platão, o grande filósofo grego do século IV a.C., desconfiava abertamente da democracia como sendo o melhor regime. Ele tinha duras críticas à democracia e defendia um governo de filósofos. Não quero aqui implantar o governo de Platão em Cuba, mas defendo que se Cuba assim o quiser deverá continuar sendo Socialista.

Que beleza... O sujeito cita o Apedeuta para justificar a continuidade de uma ditadura que não dá o menor direito de escolha aos cubanos, pois afirma que isso deve ser algo decidido pelos próprios cubanos, enfim... Uma pérola de lógica, que só poderia ter saído mesmo da boca do Grande Molusco. É o mesmo que esperar que os próprios alemães se livrassem do nazismo, ou que a tarefa de se livrar da tirania de Saddam Hussein fosse dos próprios iraquianos, como se na Alemanha de Hitler ou no Iraque de Saddam - e na Cuba de Fidel e de seu irmão Raúl - o povo fosse realmente livre para decidir alguma coisa sobre seu futuro. Ora, foi justamente isso - a liberdade de escolha - que foi arrancado dos cubanos há 49 anos pela ditadura de Fidel Castro! A mesma ditadura que o companheiro Lula da Silva acha que devemos manter sossegada, pois afinal não devemos "dar pitaco no governo dos outros"... Há um jeito muito simples de saber se os cubanos querem ou não permanecer sob uma ditadura socialista: basta Fidel, ou a direção do Partido-Estado, convocar um plebiscito, como é há anos pedido pela oposição, para decidir se o país deve ou não ter partidos livres para disputar as eleições. Ah, mas eu me esqueci: nosso amigo aí em cima acredita que a democracia e a economia de mercado não são necessariamente os melhores caminhos para Cuba. Deve crer que ausência de liberdade de pensamento e fuzilamentos de opositores não é problema da humanidade, afinal...

Fidel tinha um ideal de um mundo melhor. Não se pode dizer que sua ideologia deu totalmente certo, mas devemos louvar o ideal de um mundo melhor, por que não? Platão foi um dos maiores idealistas e acreditava no Bem como a idéia de maior valor. Em sua obra A República criou aquela que seria a polis ideal, pensando numa revitalização de seus cidadãos de uma Atenas em plena decadência política.

Que bonito, deu até vontade de chorar... Fidel, o idealista. Fidel, o revolucionário romântico. É incrível como ainda há gente que acredita piamente nessa balela. Pena que, como nosso amigo diz, esse seu ideal não "deu totalmente certo", né? Imagine se tivesse dado. Ora, ora, só porque o Coma Andante transformou um país que era um dos mais prósperos na América Latina numa ditadura cujo nível de vida só ganha hoje, na região, para o Haiti? Só porque seu regime, em nome da, sei lá, igualdade, ou do que quer que seja, produziu uma tirania totalitária em que uma pequena casta burocrática privilegiada desfruta das delícias do poder, enquanto o povo vive na penúria total e sem qualquer perspectiva de uma vida melhor, buscando no mar a liberdade e esperança perdidas? Ah, esses críticos de Fidel, que malvados... Deveriam olhar para Platão, ou, quem sabe, um outro defensor da igualdade entre os homens, em que Fidel certamente se inspirou para impor seu regime, como Stálin ou Mao Tsé-tung...

Ser “do contra” não é só dizer não acreditar em Deus, dizer ter opiniões fortes ou se auto-denominar polêmico (termo este que vem do grego polemikos – que quer dizer hostil, disposto à guerra, bélico). Ser “do contra” já se auto admite como a favor de algo. Ser “do contra” como se diz o autor deste blog com todo orgulho é ser totalmente a favor de um outro lado que ele considera obviamente melhor. Ouçamos, portanto, a voz da verdade deste cidadão. Verdade unicamente dele que ele pensa ser a melhor para todos nós, sem dar direito de escolha para os demais. Pois na defesa que ele faz da liberdade ele esquece de permitir que outros tenham o direito de ter outros pensamentos e escolhas políticas e ideológicas diferentes.
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Eu até poderia responder ao cidadão acima por que escolhi esse nome, "Do Contra", para o blog, mas, francamente, depois do que ele disse, e inclusive dessa "aula de etimologia grega" que ele nos brindou, acho que não vale a pena. Não vale a pena comentar uma opinião de quem acredita saber até se o nome do blog é ou não apropriado. Vou me concentrar apenas numa outra afirmação injustificada que ele faz, quando diz que eu penso que a verdade que eu aqui defendo "é a melhor para todos nós, sem dar o direito de escolha para os demais". Primeiro, não penso que os princípios que eu defendo neste blog - a liberdade de pensamento, a democracia, a recusa a qualquer ideologia totalitária - interesse a todo mundo. Ao cidadão que me escreveu, certamente não interessa, como visto por seus elogios à ditadura de Fidel Castro. Segundo, e principalmente, esses mesmos princípios que eu defendo e que ele despreza me impedem de querer impedir, como ele afirma, outras pessoas "de ter outros pensamentos e escolhas políticas e ideológicas diferentes". É essa mesma liberdade de pensamento e de divergir ideologicamente que defendo para Cuba, na forma de eleições livres e fim da censura, para começar. Ou seja: exatamente o oposto do que nosso amigo chama de "direito de escolha" dos cubanos de viverem sob a tirania mais antiga do mundo.

São textos "viajantes" e descabelados como o do cidadão acima que me convencem a continuar denunciando a tirania de Fidel Castro e seus defensores e simpatizantes. Não apenas porque estes costumam agredir a verdade mais elementar e a História - afirmando, por exemplo, que o povo cubano é livre para escolher continuar sob a ditadura castrista - para tentar impingir-nos seus pontos de vista. Mas também porque cometem verdadeiros atentados contra a lógica. Comprovam, assim, que a defesa de tiranias e o bom senso, definitivamente, não combinam.

É PRECISO ENTERRAR O MITO CASTRISTA - III


Faz uma semana que estou travando neste blog um interessante debate com meu conterrâneo, o filósofo Pablo Capistrano, sobre o tema "Fidel Castro". Nossas divergências podem ser sintetizadas no seguinte ponto: Pablo acha possível ter uma posição "neutra" ou "equilibrada" a respeito da ditadura castrista. Acredita, quero crer que sinceramente, numa solução de compromisso, num juste milieu, em relação ao ditador cubano. Eu, não.

Agora Pablo escreveu em seu website (http://www.pablocaspitrano.com.br/) um texto sobre o assunto, no qual me cita nominalmente, pelo que de antemão agradeço (ao contrário de muita gente, não tenho nenhum problema com isso, e acho mesmo que quem está na chuva, como dizia Mestre Vicente, é para se queimar). Vou pedir licença para mais uma vez transcrever aqui os principais trechos do texto dele, Pablo, em vermelho. Quando digo "principais trechos" me refiro, obviamente, às partes com as quais ainda temos divergências. Como sempre, meus comentários vêm em seguida:

Gustavo estranhou que eu buscasse uma atitude "equilibrada" em relação a Fidel. Segundo o que deixou explicito no Blog, isso significa que a única atitude possível em relação a figura de Fidel é a do desequilíbrio?

Respondendo: não, Pablo, o desequilíbrio não é "única atitude possível" em relação às tiranias. Não disse isso. Como você facilmente perceberá se reler meus textos sobre o assunto, aponto várias atitudes possíveis em relação à ditadura cubana. Uma delas é a apologia pura e simples, que eu condeno. Outra, é a crítica racional e baseada em argumentos, com a qual tento me perfilar. Outra, ainda, é a posição "imparcial" ou "isenta" (que eu prefiro chamar de "isentista", ou "nenhumladista"), que é a posição que eu critico, pelos motivos já apontados. Trata-se, portanto, de uma opção: apoiar a tirania, combatê-la ou manter-se "neutro" - o que, a meu ver, significa compactuar com o regime totalitário, pois é só disso que ele precisa para sobreviver: a "neutralidade" do mundo em relação a seus desmandos. Claro, também se pode simplesmente não dar a mínima para esse assunto e ir cuidar da própria vida - o que tem o mesmo efeito, a meu ver, da última opção.

Você está me perguntando se tomar uma posição claramente contrária à ditadura de Fidel Castro é uma atitude desequilibrada? Respondo: sim, claro que é uma atitude desequilibrada. Não escondo isso, nem vejo por que fazê-lo. Afinal, trata-se de uma opção - contra ou a favor da tirania castrista - clara e sem ambigüidades. Do mesmo modo, era um desequilíbrio perfilar-se contra os regimes totalitários nazista e comunista (do qual o de Fidel é uma variante). Um desequilíbrio louvável e necessário, bem diferente da omissão ou da neutralidade envergonhada, contra a opressão e a favor da democracia e da liberdade - a favor, enfim, da humanidade.

Não sei, acho que os desequilíbrios tanto para a direita quanto para a esquerda, são particularmente os mesmos.

Em termos. Se você considera a mesma e única coisa colocar-se radicalmente contra as ditaduras de Fidel e de Pinochet - como eu me coloco -, então, sim, você pode dizer que essa atitude é igualmente desequilibrada. Mas não é isso que se verifica nas análises ditas "neutras" da tirania castrista. Se você diz que os desequilíbrios tanto para a direita quanto para a esquerda são particularmente os mesmos, então o mínimo que se deve esperar é que os equilíbrios também sejam, não é mesmo? Para ser mais claro, vou dar um exemplo, que já mencionei em meu último texto: a atitude hoje considerada a única racional e moral em relação ao nazismo ou às ditaduras militares latino-americanas é uma so: condenação total, sem contemporizações (no que, aliás, estou de pleno acordo). Ninguém, pelo menos ninguém que não queira passar por condescendente com a barbárie, dar-se-ia ao luxo de uma postura "neutra" quanto aos crimes desses regimes. Creio que nisso estamos de pleno acordo. Mas por que, quando se trata da ditadura cubana, mesmo sabendo-se que esta constitui uma tirania muito mais feroz (pois, entre outras coisas, matou muito mais gente do que a ditadura Médici ou Pinochet), deve-se ter uma atitude diferente, "equilibrada"? Por que condenar veementemente a ditadura nazista ou a de Pinochet é um dever moral, e fazer o mesmo com a de Fidel Castro é um "desequilíbrio"? De acordo com esse raciocínio - "é preciso ter uma atitude equilibrada" etc. -, alguém poderia perfeitamente defender uma postura "imparcial" em relação à ditadura chilena, por exemplo. Você consegue ver alguém fazendo isso, hoje em dia, sem ser linchado pelas patrulhas esquerdistas? Isso não seria uma forma clara de double standard? Você ainda me deve uma resposta.

Minha impressão, no que diz respeito a Fidel, é que exigem que você participe de uma das torcidas organizadas (os pró ou os contra) como se toda a discussão política da contemporaneidade fosse em se posicionar a favor do capitalismo liberal de mercado ou a favor do comunismo radical de estado. Parece que há uma síndrome da guerra fria, certo espectro de 1964 pairando pelo ar. Quando vejo gente discutindo com tanto fervor sobre comunismo, capitalismo, esquerda, direita, URSS e EUA, chego a pensar:

Será o Benidito, ou o "Reis do Yê Yê Yê" vai voltar ao cartaz no moviecom?.

Essa é uma questão interessante. De fato, a Guerra Fria já passou faz tempo, mas algumas questões - como a de Cuba - permanecem atreladas à lógica daqueles tempos. Mais especificamente, há uma forte tendência, inclusive entre os "isentistas", de enxergar a questão cubana com as lentes do antiamericanismo. Você mesmo, Pablo, que afirma defender uma atitude "equilibrada" em relação à Fidel, parece ter caído nessa armadilha, quando, ao se referir em seu primeiro texto à questão dos direitos humanos em Cuba, preferiu apontar a sua munição para o que os marines americanos fazem com os prisioneiros árabes ou afegãos em Guantánamo, reproduzindo, assim, a propaganda castrista (enquanto isso, há umas duas centenas de Guantánamos em Cuba, mas ninguém parece dar a menor pelota pra isso). É curioso como, sempre que alguém critica o regime de Havana pela falta de liberdade e pelas violações aos direitos humanos, aponta-se o dedo para a Casa Branca. Por que não se vê ninguém defendendo um tratamento igualmente "equilibrado" quando se fala dos EUA? Fidel Castro, esperto como só ele, sabe muito bem disso, e utiliza esse tipo de argumentação diversionista há décadas. Sim, há uma síndrome da Guerra Fria, e podemos identificá-la em algo que persiste entre nós: o antiamericanismo, que nos faz procurar pêlo em ovo na hiperpotência e impede de ver o óbvio, ou seja, que o regime castrista é um anacronismo, tal como o iê-iê-iê ou a brilhantina. Por isso mesmo, deve ser denunciado, e não tratado com simpatia ou condescendência disfarçada de "neutralidade" ou "equilíbrio".

Para mim uma discussão polarizada e radical desse tipo, que separa os absolutamente destros com os absolutamente canhotos é redutora, anacrônica, típica do século XX. Esconde o fato de que o mundo não se divide mais em duas opções políticas dicotomizadas como na época da guerra fria e que a complexidade das relações internacionais exigem análises mais sutis e equilibradas porque as coisas não são mais simples como na série Guerra nas Estrelas. Hoje é difícil saber aonde está o lado negro da força e quando a gente não encontra com exatidão o lado negro, também não tem muita certeza aonde é que fica o lado branco.

Concordo com a primeira parte desse seu parágrafo, mas não com a última frase. Sim, uma discussão sobre uma tirania comandada há 49 anos por um ditador homicida e mentiroso não pode ser outra coisa que não redutora e anacrônica. Pelo motivo extremamente simples de que tal regime é um anacronismo, que precisa ser erradicado num mundo que se pretende globalizado, em nome de algo que, ao contrário desse regime, está longe de ser anacrônico: a liberdade. Daí porque, em minha opinião, pedir "equilíbrio" ou "sutileza" quando se trata de um regime desse tipo, na linha "bom legado/mal legado", ou "para uns, um ditador; para outros, um benfeitor", não passa de uma forma de preservar o anacronismo, como já está sobejamente demonstrado. Por mais complexo que seja o mundo - e ele sempre foi, e sempre será -, e por mais difícil que seja adotar em algumas questões uma posição maniqueísta, algumas coisas mantêm uma certa simplicidade. A diferença entre democracia e ditadura é uma delas. A meu ver, é exatamente essa a questão que está em jogo em Cuba hoje. E é por isso que "equilíbrio", aqui, não é sinônimo de não tomar posição a favor de nenhum lado, mas, sim, de beneficiar o lado do poder, o lado da tirania, o lado de Fidel.

Há uma lógica clássica no discurso de "sim" e "não" sobre Fidel. Um resquício de um modelo de pensamento redutor, dicotomizado, longe, muito longe das complexidades do pensamento e dos fenômenos humanos. Esse tipo de postura traz algumas armadilhas: primeiro enxergar só duas possibilidades contraditórias (URSS ? EUA / Stalin ? Kennedy) exclui das possibilidades do pensamento qualquer outro modelo que não se alinhe diretamente com as duas correntes iluministas que nascem do século XVIII (liberalismo ? socialismo).

È como se só isso existisse e se as experiências chinesas (mercado capitalista de Estado e política comunista) ou suecas (proteção social e política liberal) não fossem possíveis. Segundo: satanizar Fidel é uma forma tão eficaz de manter vivo o mito da revolução cubana, quando exaltá-lo.

Aqui temos um problema. Você se refere às experiências chinesa e sueca como alternativas possíveis à uma visão dicotômica e polarizada sobre Cuba. Se seu objetivo foi mostrar que é possível uma "terceira via" entre o modelo comunista cubano e o capitalismo liberal, pode ser que sua afirmação tenha algum sentido. Mas se você se referiu, com esses dois exemplos, à possibilidade de uma opção intermediária entre DEMOCRACIA e DITADURA, aí Pablo, infelizmente, sou obrigado a discordar mais uma vez de você. Para mim, essa é justamente a questão que se coloca para Cuba na atualidade. A China, mesmo adotando um modelo econômico híbrido, continua a ser um regime político totalitário, de partido único, assim como Cuba. A Suécia, com seu welfare state, é um país democrático. Logo, podemos utilizar esses mesmos exemplos para ilustrar a necessidade de uma escolha política no caso de Cuba (contra ou a favor da ditadura). Se o regime cubano adotar o "modelo chinês" - o que, para mim, é pouco provável -, ainda assim continuará a ser uma ditadura brutal e sanguinária, e não haverá motivo algum, a meu ver, para adotar outra atitude que não seja sua condenação.

Quanto a satanizar Fidel, creio que já respondi a essa questão. Mas vou lembrar um pouco o que já escrevi: é impossível satanizar o que a própria realidade se encarrega de denunciar todos os dias, na forma de 2 milhões de refugiados, por exemplo.

Achar que Cuba é um inferno na terra é tão mitológico quando pensar que lá é o paraíso perdido. Neste sentido a única forma de desconstruir o mito de Fidel é se afastando da visão exaltada do militante político, do romantismo do poeta, da obrigatoriedade profissional do jornalista e tentar flertar um pouco mais com essa frieza sem sal do filósofo.

Não sei como deve ser o inferno - aliás, nem em inferno acredito, assim como não acredito em paraíso, anjos, demônios, boitatá e mãe d'água -, mas sei uma coisa: viver (se é esse o termo adequado) num país que já foi próspero e que hoje tem uma renda per capita no continente somente superior a do Haiti; centenas de presos políticos; fuzilamentos; sem eleições livres; com partido único; imprensa totalmente censurada; libreta de racionamento; carência de praticamente tudo (menos para a corja no poder)... se isso não é inferno, deve aproximar-se bastante. Eu, particularmente, não gostaria de viver num lugar assim (aliás, deve ser por isso que tantos apologistas da tirania castrista, como Frei Betto, Chico Buarque e Oscar Niemeyer, preferem admirar Cuba de longe, no conforto de suas casas, a ter de enfrentar a rotina revolucionária da ilha...). Também não sei se teria uma visão tão "equilibrada" se acontecesse no Brasil o mesmo que houve em Cuba sob o Coma Andante... Em minha opinião, a única forma de desconstruir o mito castrista não é apelando para uma visão supostamente "neutra" ou "equilibrada" do tirano, na forma de uma pretensa "frieza" filosófica, o que serve apenas para diferenciar Fidel e colocá-lo num nível mais elevado do que outros tiranos da mesma laia. Pelo contrário, o único jeito de a humanidade se livrar de uma vez por todas desse Mussolini barbudo é adotando uma atitude honesta e radical em defesa da democracia, denunciando a maior farsa já ocorrida na história da América Latina.

É em horas como essa, em que o tiranossauro do Caribe dá sinais de que em breve vai bater as botas, que eu lamento não ter religião e não acreditar em inferno. Pelo menos eu saberia o que está reservado ao Coma Andante no além-túmulo. Lá, ele certamente ficaria desapontado, pois o "comandante" é outro.
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Afirmo e repito: não acredito ser possível manter uma atitude "neutra" e "equilibrada" em relação à tirania de Fidel Castro sem beneficiá-lo. Do mesmo modo que não creio na possibilidade de ser "neutro" e "equilibrado" em relação às tiranias de Hitler, Stálin, Pinochet ou Mao Tsé-tung. Buscar o "equilíbrio", aqui, é apenas fazer o jogo desses ditadores. Não se pode ser "neutro" em relação a eles sem compactuar com o crime e a mentira.

Porque a razão quando aparece de vez em quando nos prega peças, mas quando ela some, com certeza só cria monstros.

Exatamente. No caso de Cuba, o sono da razão produziu monstros, como na famosa gravura de Goya. O maior deles chama-se Fidel Castro. É graças ao sumiço da razão, que impede as pessoas de diferenciarem a verdade da mentira, o bem do mal, que até hoje ele se mantém no poder, aproveitando-se da ingenuidade - e do "equilíbrio" - de tantos incautos. Ao contrário destes, prefiro acreditar que um pato é um pato, e um cachorro é um cachorro.
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Adiós, Fidel. Que a terra lhe seja pesada.