
Em agosto passado, dois boxeadores cubanos que participavam dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro desertaram de sua delegação. Tentavam fugir de Cuba e alcançar a Europa.
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Este é um blog assumidamente do contra. Contra a burrice, a acomodação, o conformismo, o infantilismo, a ingenuidade, a abobalhação e a estupidez que ameaçam tomar conta do País e do Mundo. Seja livre. Seja do contra. - "A ingenuidade é uma forma de insanidade" (Graham Greene)


Antes de iniciar a crítica ao artigo propriamente dita, é bom apontar um lapso (?) no texto: nem toda a "direita" - no sentido que lhe dão os autores - defendia a ditadura militar. A menos que se considere alguém como o jurista Sobral Pinto, por exemplo, um radical esquerdista, o que está longe de ser verdade. Em 1964, a totalidade da direita - inclusive a imprensa - apoiou, sim, a derrubada do governo Goulart. Mas logo se desencantou com o regime, passando para a oposição. Um setor considerável, em especial a UDN, esperava que os militares devolvessem o poder rapidamente aos civis e restabelecessem a normalidade constitucional. Por se opor ao governo Castello Branco, o maior direitista brasileiro do período, Carlos Lacerda, foi cassado pelo regime, tendo de amargar o exílio. Logo, uma afirmação claramente falsa, logo no início. Continuemos.
A tese ignora que uma ação política pode gerar resultados não intencionais de grande repercussão. Assim, a luta armada contribuiu para o enfraquecimento da ditadura e o retorno da democracia, em que pese as intenções iniciais de seus agentes.
Assim como não era objetivo dos terroristas restaurar a democracia, e sim instaurar outra, comunista, em seu lugar, a conseqüência prática de suas ações não foi o enfraquecimento, mas o fortalecimento, da ditadura militar. Ou, usando um linguajar jurídico, inexiste liame causal entre uma coisa (a luta armada) e outra (a redemocratização).
Basta ver as datas. A luta armada ocorreu entre 1965 e 1974, quando então foi totalmente aniquilada. É justamente nesse período que o regime dos generais se consolida e, sobretudo após 1968, com o AI-5, atinge seu ponto culminante. É somente após a destruição dos grupos guerrilheiros, em 1974, que o regime começa a dar sinais de fraqueza, e começa o processo de abertura política. Esta não teve nada a ver com a luta armada, até porque esta já havia deixado de existir.
Uma das teses preferidas da intelligentsia esquerdista é que a luta armada serviu para demonstrar a insatisfação da sociedade com a ditadura. A tese é furada, em primeiro lugar, porque a sociedade, pelo menos até o fim do "milagre" econômico, em meados dos anos 70, não estava descontente com o regime coisa nenhuma. Pelo contrário: embalada pelos altos índices de desenvolvimento econômico, ela, sobretudo a classe média, aplaudia a ditadura. O presidente Médici, por exemplo, era extremamente popular. Por isso que a luta armada não passou de uma luta isolada, sem apoio da população. Foi por isso, também, que a sociedade buscou outras formas de resistência ao arbítrio dos militares, todas legais, como bem explica Marco Antonio Villa. Desde quando explodir bombas e seqüestrar diplomatas estrangeiros era a única forma de expressar essa insatisfação, aliás inexistente? A luta armada não se fez sob a égide de Locke ou de qualquer outro pensador liberal. Seus referenciais eram outros: eram Lênin, Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro.

O poder da censura e da manipulação da informação em um país como a China é algo realmente impressionante. Dias antes de minha viagem, o país estava nas manchetes por causa da repressão às manifestações pela independência do Tibete e, conseqüência direta desta, dos protestos contra o governo chinês durante a passagem da tocha olímpica em várias cidades ao redor do mundo. Chegou-se mesmo a se falar de boicote às Olimpíadas de Pequim, em agosto. Foi então que um terremoto arrasou a província de Sichuan, no sudoeste do país, e deixou mais de 60 mil mortos. Subitamente, tudo mudou. A televisão chinesa, que antes censurava os noticiários da CNN e da BBC sempre que o locutor falava em Tibete e violações dos direitos humanos, passou a transmitir, o dia inteiro, imagens da tragédia. Programas de televisão com atores e cantores entrevistavam sobreviventes do terremoto e enalteciam as virtudes das principais autoridades do país e do glorioso Exército Popular de Libertação, que acudiu prontamente ao local da tragédia. Num deles, a platéia inteira chorava e chorava, enquanto uma garotinha, também chorando, desfiava seu calvário. A qualquer hora do dia ou da noite, durante dias, esse foi o único - e quando eu digo que foi o único, não estou exagerando - assunto veiculado pela imprensa local.
Jamais eu tinha visto mudança tão repentina. Literalmente da noite para o dia, não se viu mais ninguém tocar na questão do Tibete, e defender o boicote às Olimpíadas e protestar contra o regime chinês passou a ser visto, inclusive fora da China, como um escárnio e uma ofensa gravíssima à memória dos mortos e feridos, um verdadeiro sacrilégio. Graças à essa tragédia providencial, tive a oportunidade de presenciar uma aula de manipulação política por parte de uma ditadura totalitária, que se apropriou da dor de milhares de pessoas para sair ainda mais fortalecida e justificar-se perante o mundo.
Para muita gente na esquerda, o regime chinês seria uma prova de que o comunismo pode dar certo. Eu acho justamente o contrário. Não dá para negar que a população chinesa vive hoje em muito melhores condições do que durante a ditadura de Mao - até porque nada poderia ser pior do que a ditadura de Mao -, inclusive em termos políticos. Mas isso não se deve ao comunismo. É, sim, mérito do capitalismo, que, mesmo em sua forma "socialista" ou "à chinesa", traz em si o germe de importantes avanços, tanto econômicos como sociais. Ainda há alguma pobreza, principalmente no interior, e cheguei a ver mendigos nas ruas. Mas, graças à política de abertura e às reformas, cada vez mais o passado de pobreza dos chineses vai sendo deixado para trás. Nas últimas três décadas, 300 milhões de chineses saíram da miséria. No dia em que 1,3 bilhão de chineses puderem expressar suas opiniões e escolher livremente seus governantes, muito mais gente será beneficiada, com certeza.
A China está na moda. Todo mundo está falando no país. Muitos enxergam nele a potência do futuro, que em breve será capaz de desbancar os EUA, cujo poder estaria (pela milionésima vez) declinante. Duvido muito que isso venha a acontecer nos próximos anos, assim como discordo fortemente da idéia de que o "modelo chinês", por sua eficiência econômica, poderia servir de exemplo para outros países. A menos que se considere esse modelo uma tábua de salvação para ditaduras fracassadas, como a dos irmãos Castro em Cuba, a idéia de copiar o sistema chinês me parece um retrocesso. Um passo atrás rumo a uma época em que democracia e direitos humanos, por exemplo, eram apenas um sonho.




Num artigo intitulado "Como me tornei um reacionário" (22/06/2007), relembrei um momento particularmente marcante de minha adolescência e começo de juventude, quando me envolvi com um grupelho sectário ultra-esquerdista. Isso foi nos meus 18, 19 anos. Mandei o texto por e-mail a um dos "revolucionários" de minha convivência, nesse período. A resposta dele, e meus comentários à sua resposta, estão aqui: (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/11/dilogo-entre-um-revolucionrio-de.html).
O que mais me chamou a atenção no texto do meu ex-camarada, hoje professor universitário, foi que ele pediu que eu... não o escrevesse mais (!). Algo lamentável, a meu ver, pois nos priva da possibilidade de um diálogo frutífero, no qual ele teria a oportunidade de tentar me convencer da verdade incontestável de suas teses revolucionárias, as quais, ao que parece, ele continua fiel. Disponho-me, inclusive, a abrir meu blog para suas ponderações sobre o tema. Mas, pelo visto, ele deve estar tão convicto de que alcançou a Verdade Revelada que prefere guardá-la para si...
Minha experiência - felizmente, breve - com o marxismo coincidiu com o início da demolição, em nível mundial, das fantasias socialistas. De lá para cá, o mundo mudou (pelo menos nesse aspecto) para melhor, assim como eu, que felizmente me livrei das viseiras ideológicas do passado e comecei a pensar com minha própria cabeça. Infelizmente, porém, o mesmo não ocorreu com o Brasil. Por essas plagas, 1989 ainda não começou. É uma pena.
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