terça-feira, junho 17, 2008

TARSO GENRO, O CAPITÃO DO MATO


Flagrante do momento em que um dos boxeadores cubanos "praticamente implorava" para voltar a Cuba, segundo Tarso Genro


Em agosto passado, dois boxeadores cubanos que participavam dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro desertaram de sua delegação. Tentavam fugir de Cuba e alcançar a Europa.

Imediatamente, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva acionou a Polícia Federal para encontrar os dois fugitivos, localizados no litoral do RJ.
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Atendendo a um pedido pessoal de Fidel Castro, o governo Lula deportou os dois atletas de volta a Cuba, em tempo recorde, longe das câmeras da imprensa. Para isso, usou um avião fretado especialmente para a ocasião por Hugo Chávez.
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Setores de oposição e organizações de defesa dos direitos humanos criticaram a rapidez inédita do processo de expulsão - entre outras coisas, os dois atletas não tiveram direito a manter contato com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.

Respondendo às críticas, o Ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que os dois boxeadores haviam se arrependido, recusaram oferta de refúgio, estavam com saudades de casa e "praticamente imploraram para retornar a Cuba".
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Disse, ainda, que a decisão de deportar os cubanos era perfeitamente legal e que o governo não iria "seqüestrar os dois para criar um fato político", como desejariam setores da oposição.
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Na tribuna do Senado, o Senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que, como todo bom petista, só defende boas causas, fez coro a Tarso Genro, defendendo a atitude do governo na questão. Afirmou confiar, inclusive, que os dois pugilistas teriam os direitos plenamente garantidos quando retornassem a Cuba.

Após terem sido entregues pelo governo brasileiro às autoridades cubanas, os dois pugilistas foram proibidos, pelo regime cubano, de competir no exterior para todo o sempre. Com a ajuda de Eduardo Suplicy.
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Há alguns dias, um dos boxeadores, Erislandy Lara, que "praticamente implorou" para voltar a Cuba, segundo Tarso Genro, fugiu para a Alemanha, onde pediu asilo.

Teria mudado de idéia? Ou, o que parece mais factível, teria sido seqüestrado pelas autoridades alemãs?

Tarso Genro, que, como todos os petistas, é um defensor dos direitos humanos, deve estar preocupadíssimo com essa gravíssima violação do direito de ir e vir do pugilista cubano pelo governo da Alemanha. Deve estar pensando, inclusive, em levar o caso ao Conselho de Direitos Humanos da ONU...
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Com a fuga de Erislandy Lara para a Alemanha, toda a pantomima oficial criada pelo governo Lula sobre o caso caiu por terra. Tarso Genro está desmascarado como o arquiteto de uma gigantesca farsa.

O caso é gravíssimo.

Arrisco-me a dizer que é mais grave do que a morte dos três adolescentes entregues pelo Exército a um bando de narcotraficantes rival no Rio de Janeiro.

Nesse caso, os militares agiram como cúmplices de assassinato, cometido por traficantes cariocas. Agiram como bandidos, e não como membros da instituição, e deverão responder criminalmente por isso.

No caso dos dois pugilistas cubanos, porém, foi o governo do Brasil, o Ministério da Justiça, que atuou conscientemente, usando toda a sua máquina burocrática, para devolver a uma ditadura dois refugiados.

No Rio, os militares envolvidos - e não a instituição das Forças Armadas - são cúmplices de um crime de assassinato.

No caso da deportação-relâmpago dos dois cubanos, o governo é culpado de seqüestro e de cumplicidade com uma tirania.
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Em 9 de agosto de 2007, escrevi o seguinte:

"O erro dos pugilistas cubanos foi terem acreditado que, ao decidirem não retornar à ilha-prisão, permaneceriam num país livre e democrático. Num país cujo governo coloca os direitos humanos e a democracia acima das simpatias ideológicas por uma ditadura falida e brutal. Erraram de país. No Brasil lulista, as autoridades não se contentam em justificar as peripécias de um Evo Morales ou de um Hugo Chávez: agora se prestam também a servir de capitão do mato de um tirano senil e assassino."

Tarso Genro mentiu.

Lula mentiu.

Tarso Genro, o capitão do mato.

Lula, o feitor de escravos.

Esse é um governo que realmente defende e respeita os direitos humanos.

segunda-feira, junho 16, 2008

LUTA ARMADA - VELHAS E NOVAS FALÁCIAS



Capitão Charles Chandler, metralhado por um comando da ALN e da VPR em 12/10/1968: morto em nome da luta pela democracia, segundo a esquerda


No meu último post, reproduzi um artigo de Marco Antonio Villa publicado em 19/05 na Folha de S. Paulo sobre as falácias da esquerda a respeito da luta armada dos anos 60 e 70 no Brasil. O artigo é excelente. Com algumas exceções pontuais, que pretendo discutir em outro post, o texto de Villa é impecável.
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Agora, a mesma Folha publica um artigo assinado por dois professores, Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Benjamin Vieira, contestando as afirmações de Villa. Não por acaso, seus autores são ex-militantes de organizações armadas de esquerda (POLOP e VPR, respectivamente). No texto, que trascrevo a seguir em vermelho, os autores se esforçam para rechaçar a conclusão óbvia de que os terroristas queriam derrubar a ditadura para instaurar outra, comunista. Querem manter viva a lenda dourada criada em torno dos heróicos guerrilheiros que sacrificaram tudo altruisticamente em nome da... democracia (?!). O texto deles vai na íntegra. Meus comentários estão em azul. Os grifos também são meus.
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Luta armada a favor ou contra a ditadura?
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Artigo - Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Vieira
Folha de S. Paulo
16/6/2008


Superestimar critérios documentais tem levado alguns historiadores a dizer que a esquerda não lutou por uma causa democrática
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NO ARTIGO publicado nesta Folha em 19/05 ("Falácias sobre a luta armada na ditadura", "Tendências/Debates"), Marco Villa rediscute a ditadura, atribuindo responsabilidades pela emergência do autoritarismo em 1964 tanto à direita quanto à esquerda. A abordagem dissocia as esquerdas das conquistas democráticas.

Perceberam o tom de crítica ao autor que ousou "dissociar as esquerdas das conquistas democráticas"? Pois é. Esse pessoal da esquerda acha que democracia é só com eles, somente eles a defendem. Mais que isso: foram eles que a pariram. Isso fica claro no texto. Adiante.

A superestimação dos critérios documentais, em detrimento de conseqüências políticas democráticas que não constituíam proposta predominante no discurso da esquerda armada, tem levado alguns historiadores a afirmar que a esquerda lutou contra a ditadura, mas não por uma causa democrática. Ou seja, a direita e a esquerda eram antidemocráticas. A primeira defendia a ditadura militar, e a segunda, a do proletariado.

Antes de iniciar a crítica ao artigo propriamente dita, é bom apontar um lapso (?) no texto: nem toda a "direita" - no sentido que lhe dão os autores - defendia a ditadura militar. A menos que se considere alguém como o jurista Sobral Pinto, por exemplo, um radical esquerdista, o que está longe de ser verdade. Em 1964, a totalidade da direita - inclusive a imprensa - apoiou, sim, a derrubada do governo Goulart. Mas logo se desencantou com o regime, passando para a oposição. Um setor considerável, em especial a UDN, esperava que os militares devolvessem o poder rapidamente aos civis e restabelecessem a normalidade constitucional. Por se opor ao governo Castello Branco, o maior direitista brasileiro do período, Carlos Lacerda, foi cassado pelo regime, tendo de amargar o exílio. Logo, uma afirmação claramente falsa, logo no início. Continuemos.

A tese ignora que uma ação política pode gerar resultados não intencionais de grande repercussão. Assim, a luta armada contribuiu para o enfraquecimento da ditadura e o retorno da democracia, em que pese as intenções iniciais de seus agentes.

Esse pessoal não perde tempo. Diante de provas irrefutáveis, apresentadas pela própria esquerda armada, trata de refutar o que a História diz com todas as letras. Não sendo mais capazes de sustentar, com fontes e documentos, a mitologia criada em torno das esquerdas no período - derrubada pela simples leitura dos documentos das organizações armadas de esquerda, reunidos por Daniel Aarão Reis e Jair Ferreira de Sá em Imagens da Revolução, dos quais nenhum (nenhum!) fala sequer remotamente em restaurar a democracia -, os órfãos da ilusão marxista tentam tapar o sol com a peneira. Agora falam em "superestimação de fontes documentais" (?) - como se as fontes documentais não fossem a base de qualquer estudo histórico sério. Mais: apelam para os supostos "resultados não-intencionais" da luta armada no Brasil.
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Trocando em miúdos, a tese dos autores é a seguinte: os guerrilheiros não eram democratas, não queriam a democracia; eram autoritários, queriam a ditadura. Mas as suas ações, a luta armada em si, teve efeitos democráticos de longo prazo. É isso mesmo que você leu: não queriam saber de democracia, desprezavam-na, mas sua luta, apesar disso e deles próprios, teria contribuído para a volta da liberdade; era, portanto, uma luta democrática... É a velha teoria vanguardista, dos guerrilheiros como a "vanguarda da sociedade contra o arbítrio". Pura balela.

Assim como não era objetivo dos terroristas restaurar a democracia, e sim instaurar outra, comunista, em seu lugar, a conseqüência prática de suas ações não foi o enfraquecimento, mas o fortalecimento, da ditadura militar. Ou, usando um linguajar jurídico, inexiste liame causal entre uma coisa (a luta armada) e outra (a redemocratização).

Basta ver as datas. A luta armada ocorreu entre 1965 e 1974, quando então foi totalmente aniquilada. É justamente nesse período que o regime dos generais se consolida e, sobretudo após 1968, com o AI-5, atinge seu ponto culminante. É somente após a destruição dos grupos guerrilheiros, em 1974, que o regime começa a dar sinais de fraqueza, e começa o processo de abertura política. Esta não teve nada a ver com a luta armada, até porque esta já havia deixado de existir.

Muitos grupos de esquerda simpáticos à luta armada antes de 1968 não desprezavam a luta política e somente após o AI-5 escolheram o caminho militarista. A barbárie repressiva não foi uma resposta à luta armada, embora esta tenha sido utilizada como justificativa para o recrudescimento da política repressiva, que foi ampliada desde 1964 de acordo com a resistência da sociedade, da qual fizeram parte os grupos de esquerda.

Mentira. Nada disso inviabiliza a tese de Villa. O fato de haver grupos que optavam pela via política e não pelo caminho armado, como o PCB e a AP, não retira da luta desses o caráter totalitário. Podiam diferir dos grupos armados nos métodos, mas não no objetivo final, que era um regime comunista ou socialista, logo não-democrático. É verdade que as ações armadas se intensificaram depois de 1968, mas é uma mentira afirmar que foi somente após o AI-5 que a esquerda armada fez sua opção pelo caminho militarista: é no período 1964-1968 que surgem as principais dissidências armadas de esquerda, como a ALN (surgida em 1967), a VPR e o PCBR (ambos em 1968). Já em 1966, a AP realiza a primeira ação terrorista do período, o atentado à bomba contra o general Costa e Silva no aeroporto do Recife, em 25 de julho, que deixou dois mortos e dezenas de feridos. Além disso, como deixam claro autores inclusive ligados à esquerda, como Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg, o projeto guerrilheiro é anterior ao próprio golpe de 64: já em 1961 - em pleno regime democrático, portanto -, as Ligas Camponesas de Francisco Julião mantinham vários acampamentos de guerrilha espalhados pelo País, e muitos de seus integrantes iam regularmente fazer treinamento guerrilheiro em Cuba. Isso aconteceu - é bom lembrar - três anos antes do golpe de 64.

Aliás, é bom que se diga: a luta armada jamais esteve fora dos planos da esquerda, mesmo da mais moderada. O PCB de Luiz Carlos Prestes, por exemplo, mesmo duramente criticado como "reformista" e "pacifista" pelos que se lançaram à aventura da guerrilha, sempre deixou claro, em seus documentos e resoluções, que se opunha ao foquismo castro-guevarista por razões táticas, e não porque era contra, por princípio, a luta armada. Nunca é demais recordar que foi justamente ele, o partido de Prestes, que desencadeou a primeira tentativa de revolução armada comunista no Brasil, em 1935. Nos anos 50, em pleno governo constitucional, o partido estimulou uma guerrilha camponesa na região de Trombas e Formoso (GO). Sobretudo após 1958, com a perspectiva de assalto pacífico ao poder, o PCB adota uma linha cada vez mais legalista. Mas, a exemplo do que ocorre até hoje com partidos como o PT, a guerrilha jamais esteve fora de seus cálculos para a tomada do poder.
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Sobre a afirmação de que a repressão não veio como resposta à luta armada,mais uma mentira. Após a "limpeza" de 1964, a repressão política só atingiu seu ponto culminante a partir de 1968, justamente como reação aos atentados da esquerda. Pode-se discutir se o AI-5 foi ou não conseqüência direta da luta armada, mas é inegável que, não fosse essa, ele dificilmente teria ocorrido. Não é por acaso que os "anos de chumbo" do terrorismo, 1968-1974, coincidem perfeitamente com os de maior repressão política. A luta armada serviu tanto aos interesses da linha-dura militar, como fato ou como pretexto, que, mesmo quando o terror de esquerda já havia sido dominado, sempre que os milicos queriam justificar o endurecimento do regime, apelavam para o fantasma da guerrilha (leiam as memórias do ex-presidente Geisel, nas quais ele afirma claramente que foi o espectro da luta armada que alimentou a linha-dura e ajudou a prolongar a ditadura). Mesmo tendo desaparecido, o terrorismo de esquerda continuou colaborando para justificar a repressão sobre a sociedade - e não para abrir o regime.
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A ampliação do autoritarismo após 1968 foi antecedida por instabilidades políticas e crises nas Forças Armadas. O ambiente de contestação se expressou na Frente Ampla e na derrota do governo no caso Moreira Alves, nas greves operárias em Osasco (SP) e Contagem (MG) e nas passeatas estudantis e protestos da classe média liderados pela esquerda.

A violência sempre foi cultivada pelos dirigentes militares, situando-se no centro da estratégia para consolidar o autoritarismo, cujo propósito era desmobilizar e despolitizar a sociedade e impor um modelo econômico que privilegiasse a rápida acumulação capitalista naquele contexto de Guerra Fria.

Típica bobagem retórica esquerdóide para fazer a cabeça de alunos de oitava série. Passemos adiante.

A escolha da força para obter obediência levou os órgãos de segurança a uma posição de destaque. Os órgãos da polícia política eram um dos núcleos centrais do poder. Destacava-se o SNI, comandado por generais do Exército, entre eles Golbery, o seu criador em 1964 e idealizador da distensão posteriormente executada por Geisel, chefe da Casa Militar de Castelo Branco, que negou a existência de abusos cometidos pelo regime e primeiro presidente a admitir, após deixar o cargo, a tortura como meio necessário para obter confissões.

Os dirigentes buscaram ampliar as bases do regime com a liberalização, pois, além da eficácia econômica dos anos 70, emergia o problema da legitimidade. A distensão/abertura estava condicionada à institucionalização de um regime pós-autoritário com restrições democráticas. A retirada das Forças Armadas implicava sua substituição por um esquema civil de confiança baseado no partido do governo, de modo a preservar os interesses institucionais dos militares.

Idem. Prossigamos.

Um bom exemplo é a Lei da Anistia, aprovada em 1979, que não permitiu a revisão das ações do aparelho militar, protegeu sua autonomia e reforçou o sentimento de impunidade das Forças Armadas. A sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão, a instituição militar não foi colocada em debate sobre os papéis que vinha desempenhando na política e a opinião pública não discutiu os valores necessários à construção de uma democracia.

Independentemente da discussão sobre a justeza ou não da Lei de Anistia, o fato é que ela perdoou os crimes cometidos pelos dois lados, tanto da repressão como da luta armada. A impunidade, portanto, não foi unilateral. Não sei de onde os autores retiraram a afirmação de que "a sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão" - a quantidade de livros, artigos e depoimentos que citam os torturadores nominalmente, e os métodos da repressão política, são suficientes para, enfileirados, dar uma volta completa na Terra. Os nomes dos torturadores, e seus métodos, até mesmo pela hegemonização da História do período militar pela esquerda acadêmica, são de todos conhecidos. Ao contrário de muitas ações da esquerda armada no período, como os chamados "justiçamentos" - o assassinato a sangue-frio de militantes por seus próprios companheiros de luta armada, por simples suspeita de traição -, sobre os quais, até o momento, a esquerda prefere manter um silêncio de pedra. Do mesmo modo, a instituição militar, por causa dessa propaganda, jamais foi tão denegrida e vilipendiada. Concordo apenas com a última frase: de fato, a sociedade não discutiu os valores necessários à construção da democracia. Isso porque esse debate vem sendo monopolizado, há uns trinta anos, pela esquerda, que de democrática tem muito pouco, como a luta armada.

Todas as formas de luta contra a ditadura devem ser vistas como um direito legítimo contra a opressão política. Até Locke, o mais liberal dos liberais e um dos inspiradores das revoluções americana e francesa, sustenta que o povo tem o direito à resistência quando o Estado usa a força sem direito e sem justiça.

Todas as formas? Têm certeza? Inclusive o terrorismo? Inclusive fazer em pedaços o corpo de um recruta de 19 anos na explosão de um carro-bomba? Inclusive esfacelar a coronhadas o crânio de um tenente da PM capturado após render-se? Inclusive exterminar, a queima-roupa, um militar norte-americano pelo único crime de ele ser militar e norte-americano? Que vínculo existe entre esses atos de terror ensandecido e a volta das liberdades democráticas no Brasil?

Uma das teses preferidas da intelligentsia esquerdista é que a luta armada serviu para demonstrar a insatisfação da sociedade com a ditadura. A tese é furada, em primeiro lugar, porque a sociedade, pelo menos até o fim do "milagre" econômico, em meados dos anos 70, não estava descontente com o regime coisa nenhuma. Pelo contrário: embalada pelos altos índices de desenvolvimento econômico, ela, sobretudo a classe média, aplaudia a ditadura. O presidente Médici, por exemplo, era extremamente popular. Por isso que a luta armada não passou de uma luta isolada, sem apoio da população. Foi por isso, também, que a sociedade buscou outras formas de resistência ao arbítrio dos militares, todas legais, como bem explica Marco Antonio Villa. Desde quando explodir bombas e seqüestrar diplomatas estrangeiros era a única forma de expressar essa insatisfação, aliás inexistente? A luta armada não se fez sob a égide de Locke ou de qualquer outro pensador liberal. Seus referenciais eram outros: eram Lênin, Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro.

Alegar que a redemocratização teria alguma relação com a luta armada já é de uma desonestidade sem tamanho. Tentar usar Locke para justificar uma luta que era pela implantação, nestas terras, de uma ditadura totalitária, é simplesmente demais. Não tem nem como qualificar isso. É cascata da grossa. Pura safadeza.

As regras não eram legítimas, como hoje são as da democracia, reconquistada após os projetos dos militares serem derrotados no campo institucional, a partir da pressão de uma ampla mobilização de oposição que se formou entre 1974 e 1985 e da qual participaram os grupos de esquerda.

O fato de as regras políticas não serem legítimas em um regime autoritário não diz nada a favor dos que quiseram substituí-lo não pela democracia, mas por uma ditadura totalitária. Os próprios autores se contradizem, ao reconhecerem que a derrota da ditadura ocorreu no campo institucional, e não por qualquer outra via. Admitem que a mobilização da oposição que teria posto fim à ditadura ocorreu entre 1974 e 1985, o que é inegável. Justamente no período em que a luta armada já havia sido dizimada, não tendo, portanto, capacidade alguma de influir no processo político. Como, então, dizer que a luta armada teve, como uma de suas "consequências não-intencionais", o fim da ditadura?
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Esse é o método dos esquerdistas: baseiam-se em verdades para propagar mentiras. Baseiam-se no fato de que o Brasil vivia um regime autoritário (verdade) para dizer que todos que se opunham aos militares eram democratas (mentira). Daí, defendem que a luta armada, por ser contra a ditadura militar (verdade), era, no fundo, democrática (mentira). Com isso pretendem aparecer como os campeões da liberdade e da democracia, tolhendo o debate e rotulando qualquer um que denuncie suas imposturas, como Marco Antonio Villa, como um defensor da ditadura e do autoritarismo. Não conheço nada mais desonesto do que isso.

Se a esquerda reconhece os equívocos da luta armada após 1968, a ela não devem ser atribuídas certas responsabilidades políticas cujo objetivo primeiro é enfraquecê-la moralmente como aliada do atual governo.

Falso. O próprio texto é uma demonstração de que a esquerda - pelo menos a fração da esquerda nostálgica da guerrilha - não reconhece os equívocos do passado ("só" equívocos? não seriam crimes?). Pelo contrário: os enaltece e os reivindica.
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Restabelecer a verdade dos fatos, e não reforçar velhos mitos revolucionários, é uma questão de honestidade intelectual, e não de enfraquecer moralmente os aliados do atual governo. Até porque, convenhamos, este mesmo trata de criar, diariamente, farto material para se desmoralizar a si próprio.
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E, para isso, não precisa da ajuda de nenhum historiador.

Falácias sobre os "anos de chumbo" no Brasil

O texto a seguir, de autoria do historiador Marco Antonio Villa, foi publicado em 19/05/2008 na Folha de S. Paulo. Transcrevo-o na íntegra. No próximo post, vocês vão entender por quê.

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MARCO ANTONIO VILLA
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Militantes de grupos de luta armada criaram um discurso eficaz. Quem questiona "vira" adepto da ditadura. Assim, evitam o debate
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A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
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Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
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O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva. Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.
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Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
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Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
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Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
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Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
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Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo. O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
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O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão. Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
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MARCO ANTONIO VILLA, 51, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor, entre outros livros, de "Jango, um perfil".

Resultado da enquete do Blog

A primeira enquete do blog encerrou-se na sexta-feira, dia 13. A pergunta era: "O que leva alguém a ser de esquerda?" O resultado: para 42% dos que votaram, é a imaturidade. Para 28%, é o tédio ou a moda. 14% responderam que é a ignorância ou a vontade de fazer novas Cubas ou Coréias do Norte.
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Agradeço a todos que participaram. Em breve, mais uma enquete será postada no blog.

quinta-feira, junho 12, 2008

CHINA - IMPRESSÕES DE VIAGEM


Publiquei um monte de textos desde que voltei e ainda não escrevi nada sobre minha viagem à China, algumas semanas atrás...

Tenho uma boa desculpa para isso. Além do fato de haver muita coisa que eu gostaria de escrever e dispor de pouco tempo livre para o blog, não sou muito fã de relatos de viagem, assim como não gosto muito de textos memorialísticos. Esse gênero de literatura, com algumas exceções, sempre esteve longe de ser o meu preferido. Além disso, a veracidade de um relato desse tipo, por seu caráter subjetivo, é bastante duvidosa - tomemos o exemplo da obra clássica de Marco Pólo, referência durante séculos para viajantes e historiadores sobre a China, e que no entanto não faz qualquer menção à Grande Muralha... As impressões de viagem, a exemplo das memórias, sempre sofrerão de um excesso de subjetivismo, de uma superficialidade inevitável, que o pouco tempo em que geralmente se passa num país - no meu caso, duas semanas - só faz exacerbar. Mas vamos lá.

Fui à China para participar de um curso para jovens diplomatas latino-americanos, oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores chinês. Como convidado do governo, portanto. O curso dividiu-se numa parte basicamente acadêmica, composta de palestras sobre os mais diversos temas referentes à China (civilização, estrutura política, economia, relações exteriores, etnias etc.) e em outra, digamos, cultural, que incluiu visitas a alguns dos principais pontos turísticos nacionais, como a Grande Muralha e a Cidade Proibida. No final, ainda houve uma viagem de cinco dias à província de Guangxi, no sul do país, onde visitamos as cidades de Nanning e Guilin.

A primeira coisa que se nota na China, depois de um vôo de mais de 15 horas pela rota Brasília-Rio de Janeiro-Paris-Pequim, é o céu. Ou melhor: a ausência de céu. Tirando um dia em que visitamos a Cidade Proibida, o céu de Pequim - e, logo descobri, de quase todas as cidades do país - é coberto por uma densa nuvem de poeira, um smog, produto da poluição. De dia, isso impede de se ver o sol - sabe-se que ele está lá, pelo calor que ele emana, mas não adianta tentar visualizá-lo: ele não passa de uma mancha no céu cinzento. À noite, não é diferente: olha-se para o céu, a lua aparece timidamente, mas as estrelas simplesmente desaparecem. Somente num lugar eu tinha visto algo parecido antes - em São Paulo -, e mesmo assim, como soube depois, esse fenômeno só ocorre em alguns dias ao ano, e não em toda a cidade. Em Pequim - ou Beijing, como preferem os chineses -, é em todo lugar, o tempo todo.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de prédios em construção na capital chinesa. Símbolos da prosperidade galopante do país, que cresce há anos a taxas de cerca de 10% anuais, as edificações se multiplicam em Pequim como cogumelos brotando do chão. Para onde quer que se vá, há operários trabalhando. Até durante a noite, em uma zona de restaurantes e boates, aonde os turistas vão para se divertir, vi tratores funcionando a pleno vapor. O país, de fato, está passando por um momento de desenvolvimento acelerado. O que não é o suficiente para mudar certos hábitos fortemente arraigados entre a população, como pude perceber. Por exemplo: os chineses - homens e mulheres, jovens e velhos - têm o péssimo costume de escarrar em qualquer lugar, para espanto dos visitantes estrangeiros...
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Mas o que mais me atraiu na viagem, o verdadeiro motivo que me levou a aceitar o convite para fazer o tal curso, foi a possibilidade de conhecer, pela primeira vez, um país comunista.

Sim, a China é um país comunista. Mesmo que tenha adotado, há exatos trinta anos, uma política econômica na prática capitalista; mesmo que já estejam longe os tempos da Revolução Cultural maoísta; mesmo que se veja sinais de economia de mercado em toda parte; mesmo que os chineses sejam doidos por dinheiro e extremamente consumistas - os jovens chineses, por exemplo, estão se lixando (com toda razão, aliás) para o comunismo: querem mais é curtir a vida e as delícias do capitalismo -; mesmo que o país seja hoje um dos principais parceiros comerciais do Brasil e dos EUA; mesmo que os retratos de Mao Tsé-Tung e de Marx e Lênin sejam cada vez mais raros, sendo substituídos por outdoors gigantescos de marcas de grife ocidentais, e mesmo que os próprios comunistas chineses sejam os primeiros que aparentem não levar a ideologia marxista a sério, a China continua a ser comunista. Voltei de lá com essa convicção reforçada, assim como mais forte ficou minha conclusão de que o comunismo, seja que forma vier a assumir, é um sistema político nefasto e desumano, incompatível com a dignidade humana.

À primeira vista, um sistema político comunista e um sistema econômico capitalista seriam uma contradição em si. Mas não é bem assim. Desde o colapso dos regimes marxistas do Leste Europeu e o fim da URSS, em 1991, o que se entende por comunismo nada mais é do que a concentração de poder nas mãos de uma minoria de burocratas. Pouco importa se o sistema econômico for, na prática, capitalista (os chineses preferem dizer "socialismo de mercado" ou "à chinesa"...); o importante é que propicie a continuidade do poder da nomenklatura. Nisso, o regime chinês parece ter achado um ponto ideal. Depois de anos de desastres econômicos, como o Grande Salto Adiante do começo dos anos 60 (mais de 30 milhões de mortos) e a calamidade da Grande Revolução Cultural Proletária (1966-1976), a liderança do Partido Comunista Chinês descobriu o óbvio e resolveu se livrar de vez dos delírios e imposturas marxistas na economia, mantendo intacto o regime político. "Não importa a cor do gato, desde que ele pegue o rato", é a famosa frase de Deng Xiao-Ping, o principal arquiteto das reformas econômicas na China a partir de 1978. Desse modo, o país se encaminhou para uma economia capitalista, trocando os ensinamentos do camarada Mao por toda sorte de bugigangas. De uma ditadura brutal maoísta, com isolamento político e economia totalmente planificada, a China passou a uma ditadura brutal colegiada, com abertura econômica para o mundo. Não por acaso, uma das características da cultura chinesa é "salvar a face" - pelo que eu entendi, uma forma bastante cínica e hipócrita de manter as aparências.

Claro que essa transição não se deu sem conflitos. O principal desafio dos burocratas do Partido Comunista era livrar-se do legado maoísta. Foi preciso esperar a morte do Grande Timoneiro, em 1976, e a prisão, logo depois, da "Gangue dos Quatro" - que incluía a viúva de Mao, que se suicidou na prisão -, para que as reformas começassem a ser implementadas. Ainda assim, era necessário manter o mito. Os símbolos do regime foram mantidos, e a memória de Mao permanece discretamente cultuada pelo Partido. Um enorme retrato seu continua enfeitando a Praça Tianamen, no centro de Pequim, embora os chineses cada vez mais ressaltem seus "erros" (os mais de 70 milhões de mortos pelo comunismo na China não são vistos como crimes...). No centro de Pequim, em meio às quinquilharias que costumam empurrar para os turistas, ambulantes vendem souvenires como o Pequeno Livro Vermelho e camisetas com a estampa de Mao (vi até mesmo um sujeito vendendo "relógios de Mao"). Em outras palavras: o regime se beneficia do mito criado em torno do falecido ditador, mas mantém uma prudente distância do mesmo. E ainda aproveita para faturar em cima.

Esse distanciamento gradativo da figura e do "pensamento do presidente Mao" veio acompanhado de um retorno às origens culturais da China. Mais especificamente, a tradição confuciana, que os Guardas Vermelhos tentaram destruir durante a Revolução Cultural, passou a ser retomada, e hoje constitui, ao lado do marxismo, a base filosófica do regime. De certa forma, Confúcio assumiu o lugar de Mao e de Marx, sem os ter substituído por completo. Não é por menos: afinal, o confucionismo valoriza sobretudo a hierarquia, a disciplina e a autoridade - dos pais, dos mais velhos, dos governantes (principalmente dos governantes). Cai como uma luva, portanto, para justificar a ditadura comunista. Esta, aliás, também encontrou um jeito bem malandro de se legitimar: em uma das palestras, foi-nos explicado que existem oito partidos políticos com representação no Parlamento chinês - "sob a direção do Partido Comunista". Ah, bom.

Todas essas tentativas, algumas bem-sucedidas, de "salvar a face" do regime, e que incluem uma rígida censura governamental aos meios de comunicação, não são suficientes, porém, para camuflar a realidade. Por mais que se queira escondê-la, esta sempre dá um jeito de se esgueirar pelos cantos, achando uma fresta por onde possa aparecer. Na China, como sabemos, certos assuntos são tabus. Direitos humanos e Tibete, por exemplo. Mas aqui também os chineses encontraram uma fórmula interessante. Durante uma das palestras, um dos ouvintes levantou a questão dos direitos humanos, e inclusive citou o caso do Tibete. O palestrante, aliás um professor universitário que padecera cinco anos de prisão na época da Revolução Cultural, foi taxativo em sua afirmação de que na China os direitos políticos e civis eram plenamente respeitados. E quanto aos militantes pelos direitos humanos e os defensores da independência do Tibete? "Estes são dissidentes", respondeu na bucha o professor... Não surpreende, assim, que em sua política externa a China seja a principal aliada de algumas das piores ditaduras do mundo, como a do Sudão, de Mianmar e da Coréia do Norte.

Assim como não causa surpresa que a censura seja algo tão presente na vida dos chineses. Censura e consumo desenfreado, aliás, não estão em contradição. Fui a uma livraria em Pequim, pelo que me disseram uma das maiores da cidade. Na seção de línguas estrangeiras, num canto acanhado do segundo andar do prédio enorme, ao lado de uma pilha de livros técnicos e dicionários, alguns poucos titulos em inglês: Dickens, Melville, Bronté, H.G. Wells... E só. O primeiro andar, por sua vez, estava cheio de livros em chinês. Mesmo sem entender nada da língua, pude perceber do que a maioria deles tratava: alguns poucos livros históricos e centenas de manuais de negócios na linha "fique rico logo". Após ter comprado, como lembrança, uma edição bilíngüe inglês-chinês dos Analectos, de Confúcio, saí de lá decepcionado.

O poder da censura e da manipulação da informação em um país como a China é algo realmente impressionante. Dias antes de minha viagem, o país estava nas manchetes por causa da repressão às manifestações pela independência do Tibete e, conseqüência direta desta, dos protestos contra o governo chinês durante a passagem da tocha olímpica em várias cidades ao redor do mundo. Chegou-se mesmo a se falar de boicote às Olimpíadas de Pequim, em agosto. Foi então que um terremoto arrasou a província de Sichuan, no sudoeste do país, e deixou mais de 60 mil mortos. Subitamente, tudo mudou. A televisão chinesa, que antes censurava os noticiários da CNN e da BBC sempre que o locutor falava em Tibete e violações dos direitos humanos, passou a transmitir, o dia inteiro, imagens da tragédia. Programas de televisão com atores e cantores entrevistavam sobreviventes do terremoto e enalteciam as virtudes das principais autoridades do país e do glorioso Exército Popular de Libertação, que acudiu prontamente ao local da tragédia. Num deles, a platéia inteira chorava e chorava, enquanto uma garotinha, também chorando, desfiava seu calvário. A qualquer hora do dia ou da noite, durante dias, esse foi o único - e quando eu digo que foi o único, não estou exagerando - assunto veiculado pela imprensa local.

Jamais eu tinha visto mudança tão repentina. Literalmente da noite para o dia, não se viu mais ninguém tocar na questão do Tibete, e defender o boicote às Olimpíadas e protestar contra o regime chinês passou a ser visto, inclusive fora da China, como um escárnio e uma ofensa gravíssima à memória dos mortos e feridos, um verdadeiro sacrilégio. Graças à essa tragédia providencial, tive a oportunidade de presenciar uma aula de manipulação política por parte de uma ditadura totalitária, que se apropriou da dor de milhares de pessoas para sair ainda mais fortalecida e justificar-se perante o mundo.

Para muita gente na esquerda, o regime chinês seria uma prova de que o comunismo pode dar certo. Eu acho justamente o contrário. Não dá para negar que a população chinesa vive hoje em muito melhores condições do que durante a ditadura de Mao - até porque nada poderia ser pior do que a ditadura de Mao -, inclusive em termos políticos. Mas isso não se deve ao comunismo. É, sim, mérito do capitalismo, que, mesmo em sua forma "socialista" ou "à chinesa", traz em si o germe de importantes avanços, tanto econômicos como sociais. Ainda há alguma pobreza, principalmente no interior, e cheguei a ver mendigos nas ruas. Mas, graças à política de abertura e às reformas, cada vez mais o passado de pobreza dos chineses vai sendo deixado para trás. Nas últimas três décadas, 300 milhões de chineses saíram da miséria. No dia em que 1,3 bilhão de chineses puderem expressar suas opiniões e escolher livremente seus governantes, muito mais gente será beneficiada, com certeza.

A China está na moda. Todo mundo está falando no país. Muitos enxergam nele a potência do futuro, que em breve será capaz de desbancar os EUA, cujo poder estaria (pela milionésima vez) declinante. Duvido muito que isso venha a acontecer nos próximos anos, assim como discordo fortemente da idéia de que o "modelo chinês", por sua eficiência econômica, poderia servir de exemplo para outros países. A menos que se considere esse modelo uma tábua de salvação para ditaduras fracassadas, como a dos irmãos Castro em Cuba, a idéia de copiar o sistema chinês me parece um retrocesso. Um passo atrás rumo a uma época em que democracia e direitos humanos, por exemplo, eram apenas um sonho.

quarta-feira, junho 11, 2008

OBAMA, O LULA AMERICANO


Pergunta: um Obama branco e loiro teria o mesmo sex-appeal?
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Se eu fosse norte-americano, eu não votaria em Barack Obama. Os motivos são os seguintes:

Demagogia racial - Embora se apresente como um candidato multirracial, buscando a todo custo evitar o discurso militante, Obama, o primeiro político negro - para os padrões dos EUA, entenda-se, porque por estas bandas ele está mais para mulato - a concorrer por um grande partido à presidência dos EUA, deve suas chances de chegar à Casa Branca, pelo menos até o momento, principalmente àquilo que ele pede que não notem nele - a cor da pele. Nos EUA, o fato de ser negro ou pertencer a alguma minoria étnica ou racial é tão importante para um político quanto é a origem social no Brasil. Em termos puramente de propostas políticas, Obama não se distingue muito (com algumas exceções importantes em política externa, como veremos) do candidato rival, o republicano John McCain. O que o diferencia é o tom de sua epiderme. Assim como o que distinguia Lula de José Serra ou de Geraldo Alckmin não eram as idéias (até porque estas sempre faltaram ao Molusco), mas sobretudo o fato de Lula vir de berço pobre e de uma infância sofrida. Foi isso, além de uma visão messiânica e paternalista, o que garantiu as duas eleições de Lula à presidência da República. Se fosse branco, será que Obama teria as mesmas chances de chegar à presidência?

Nos EUA, ao contrário do sexo (Hillary Clinton) e da raça (Obama), a origem social dos candidatos conta muito pouco para a construção da imagem do político. Lembrem-se do embate entre Richard Nixon e John Kennedy, o primeiro a ser televisado, em 1960. Ao contrário de Kennedy, filho de um miliardário que fez fortuna com negócios com a Máfia durante a Grande Depressão, e que jamais precisou trabalhar um dia sequer na vida, Nixon vinha de família modesta (seu pai era dono de um posto de gasolina na Califórnia), estudou numa universidade obscura e teve de ralar muito - e mentir muito - para ascender na política. Apesar dessa discrepância social, os americanos preferiram e preferem até hoje o filhinho-de-papai ao self-made-man. Em grande parte, o motivo era o próprio Nixon, um sujeito sem o menor charme, bem diferente do bonitão Kennedy. Mas isso revela bastante sobre como funciona a mente do eleitor americano. No debate de 1960, Nixon foi triturado. Não porque não tivesse as melhores propostas, mas porque tinha uma imagem ruim no vídeo. Assim como Serra em comparação a Lula, por exemplo. Não por acaso, Obama já está sendo apresentado como o "Kennedy negro".

Falta de clareza - Assim como utiliza a cor da pele como trunfo eleitoral, o candidato democrata usa e abusa de outra vantagem em relação a McCain - o gogó. Convenhamos, o sujeito é um mestre da oratória. Nisso ele também se aproxima do atual presidente brasileiro. O que lhe sobra em carisma - dado pela raça, é bom que se diga - e em talento oratório lhe falta, porém, em clareza. Seu lema de campanha se resume a uma só palavra - change ("mudança") - e suas idéias, num conjunto de frases de efeito e lugares-comuns ("if you're ready for change..."). O que significa exatamente essa tal "mudança" prometida permanece uma incógnita. Obama se esforça para transmitir uma imagem de político equilibrado, de bom-moço comprometido com as boas causas da humanidade, crítico ao legado dos anos Bush etc. Mas sem agredir ninguém, sem ofender ninguém, na linha "Obaminha paz e amor" (lembram?). Nessa linha, ele já rompeu publicamente com o pastor da igreja que freqüentou durante mais de vinte anos, Jeremiah Wright, por este ter feito declarações racistas (contra os brancos). Que ele só o tenha feito agora, quando as declarações arrepiantes foram amplamente divulgadas, é algo que dá o que pensar sobre a honestidade de suas palavras... Além disso, suas propostas para a política externa norte-americana são, digamos, pouco convencionais. Por exemplo, Obama já anunciou que sentaria para negociar com os irmãos Castro, e que toparia conversar até com Ahmadinejad, o maluco que manda no Irã dos aiatolás e já jurou varrer Israel do mapa. Diante das críticas negativas, voltou atrás em suas declarações. Para quem se diz um moderado extremo, ou um extremista da moderação, convenhamos, é algo muito estranho, além de não transmitir muita confiança.

Inexperiência - Outro ponto que aproxima Obama de Lula, antes de este último ser eleito para seu primeiro mandato presidencial, em 2002. No Brasil, isso não costuma contar muito, pois nos acostumamos a valorizar outros quesitos - a "juventude", por exemplo, vista como sinônimo de "renovação" -, enquanto a experiência é geralmente associada à corrupção e ao fisiologismo. Os americanos, porém, sempre pragmáticos, valorizam a experiência. Pois bem. McCain é um político experiente, e tem uma história de vida que, para nós pode ser um anátema, mas pelo menos para os americanos, é bem impressionante - já era prisioneiro de guerra no Vietnã quando Obama mal saíra das fraldas. E quanto a Obama, que experiência ele tem? Que outra credencial ele possui para querer governar a maior potência do planeta? Resposta: a cor da pele.

Pelos motivos elencados acima, toda essa onda com a candidatura Obama - "o primeiro negro com chances reais de chegar à presidência dos EUA" etc. etc. - não me comove. Sei que não estou sozinho nessas ponderações. Muita gente no Brasil, e inclusive no Itamaraty, deseja secretamente que McCain ganhe - os republicanos são tradicionalmente menos protecionistas em assuntos de comércio exterior -, mas, por alguma razão insondável, não ousam externar essa opinião. Mais uma vez, agradeço aos céus por eu não ser político.

Sempre tive uma desconfiança quase instintiva em relação a políticos que usam a raça ou a origem social como um trampolim para suas ambições eleitorais, e que abusam do bom-mocismo para parecerem confiáveis. Confesso que torci para que o indicado pelo Partido Democrata não fosse Hillary Clinton, pois não agüento aquele sorriso forçado, sem falar na discurseira feminista politicamente correta (ainda por cima nos EUA? Deus me livre!). Mas nem por isso vou me deixar levar pela obamamania. Tem toda a pinta de ser mais uma tapeação, como foi, nos anos 90, Bill Clinton e seu charuto erótico. Caetano Veloso disse em entrevista ao Estado de S. Paulo que acha Obama "charmoso, bonito e bacana". Como deve achar Lula e Mangabeira Unger, para quem já fez campanha.
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Por tudo isso, eu não votaria em Obama, assim como jamais votarei num candidato do PT. Obama não me engana. É o Lula americano.

terça-feira, junho 10, 2008

Chávez e as FARC, as FARC e Chávez...


No domingo passado, o bufão que ora atende como presidente da Venezuela, coronel Hugo Chávez, conclamou as FARC a libertar todos os reféns que mantêm em seu poder e em abandonar a luta armada. A declaração surpreendeu a muitos, que, tomados de uma onda irreprimível de otimismo e wishful thinking, acreditaram piamente que o ditador caraquenho, que sempre apoiou os narcoterroristas colombianos, estaria sinceramente interessado no bem-estar dos reféns e no fim do conflito na Colômbia. Mais: que ele, Chávez, poderia ser o mediador que ajudaria a pôr um ponto final em mais de quarenta anos de guerra civil no país vizinho.

Certamente, é assim que Chávez gostaria de ser visto, e é com esse objetivo em mente que ele fez sua declaração. Mas não se deixem enganar. É mais um truque do fanfarrão de Caracas, pelo qual ele espera, mais uma vez, ludibriar os incautos.

O recuo estratégico de Chávez não se deve a nenhum gesto de boa vontade de sua parte, nem a qualquer atitude de bom senso - o que seria, aliás, algo inusitado em se tratando de alguém como ele, que já mandou a democracia às favas na Venezuela. Deve-se, isto sim, ao reconhecimento de que um aliado seu, os narcobandoleiros das FARC, estão em maus lençóis. O responsável por isso não é outro senão Álvaro Uribe, o Presidente colombiano que não tem medo nem compactua com traficantes e terroristas, nem com os demagogos que lhes dão apoio. Nos últimos meses, as FARC sofreram os mais duros golpes em sua história criminosa, tendo perdido, em questão de dias, seus mais importantes chefes, inclusive o chefão, Manuel Marulanda, que foi fazer guerrilha ao lado do capeta. Desde que o exército da Colômbia despachou o número dois das FARC, Raúl Reyes, e divulgou o conteúdo das mensagens de seu laptop, os laços entre Chávez e seu pupilo Rafael Correa do Equador com os narcoterroristas colombianos tornaram-se inegáveis. Diante disso, normal que Chávez esteja preocupado e queira mudar o discurso, tentando distanciar-se - ao menos retoricamente - dos atentados e seqüestros.

Eu falei mudar o discurso? De jeito nenhum. Chávez não está mudando o discurso sobre as FARC coisa nenhuma. Para ele, elas continuam a ser uma "força beligerante", e não o bando de criminosos que de fato são. Para Chávez, as FARC são um importante aliado, e vice-versa, ambos fazem parte do mesmo "projeto bolivariano". Ele gostaria de ver as FARC elevadas a partido político. Não tendo mais o poder de fogo para ameaçar a democracia colombiana e tomar o poder pela força, as FARC deveriam, segundo Chávez, depor as armas e lançar-se às eleições. Como uma organização política legítima, vejam bem. Isso quer dizer que, se as FARC estivessem em plena ofensiva e o governo de Álvaro Uribe estivesse de joelhos, Chávez estaria aplaudindo a guerrilha e torcendo para a queda do governo constitucional colombiano. Como não pode fazê-lo, pois as FARC andam mal das pernas, não lhe resta outra saída senão pedir que deixem de lado as armas. Afinal de contas, guerrilha para quê, se se pode tomar o poder pelas urnas, como ele e outros, como Lula, fizeram? Mais interessante é usar os próprios instrumentos da democracia para miná-la por dentro, em vez de simplesmente querer detoná-la na marra. Para tanto, os companheiros dispõem de um aparato gigantesco de propaganda a seu serviço, que inclui jornalistas comprados e, claro, o Foro de São Paulo. É nesse sentido que devem ser interpretadas suas palavras.
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Por coincidência (?), no mesmo dia da exortação de Chávez a seus companheiros bolivarianos das FARC, dois militares venezuelanos foram presos na Colômbia tentando negociar a venda de armas às FARC. É mais uma prova do apoio material de Caracas aos narcoterroristas colombianos. Terá sido mesmo coincidência que Chávez tenha feito sua declaração aparentemente apaziguadora neste exato momento?

Não se enganem com Chávez. Como ex(?)-golpista e militar, ele sabe que a tática de guerrilha pressupõe uma boa dose de engano e dissimulação. Nisso, ele é um mestre. Assim como seus companheiros petistas.

segunda-feira, junho 09, 2008

Novidades no Blog

Já está aberta, desde a última sexta-feira, a enquete do Blog. O assunto da primeira é "O que leva alguém a ser de esquerda?". Opinem sobre o tema. A votação encerra dia 13.
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Também nos últimos dias, acrescentei mais um link na sessão "sites interessantes": o "Generación Y", de Yoani Sánchez. Yoani é uma cubana pioneira de 31 anos que, corajosamente, resolveu criar um blog pessoal, desafiando a censura governamental no país dos hermanos Castro. Apesar de todo tipo de pressão por parte das "otoridades" da ilha, o blog de Yoani tornou-se um dos mais acessados da internet e ela foi eleita recentemente, pela revista Time, uma das 100 pessoas mais influentes do planeta. É uma excelente oportunidade de conhecer um pouco do cotidiano na ilha, bem diferente da visão cor-de-rosa e deformada que costuma chegar até nós por intermédio dos apologistas esquerdistas da castradura cubana. Eu recomendo.

sexta-feira, junho 06, 2008

Dilma e as FARC, as FARC e Dilma...


Apenas para terminar a semana. Nada a acrescentar.

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Dilma e as Farc

por Diogo Mainardi,

Veja 05 Jun

Em minha última coluna, informei que a mulher de Olivério Medina, o representante das Farc no Brasil, foi contratada pelo governo Lula. Isso aconteceu em dezembro de 2006, quando o marido dela ainda estava preso em Brasília, à espera do julgamento no STF. Uma reportagem do jornal Gazeta do Povo mostrou que a mulher de Olivério Medina foi cedida pelo governo do Paraná a pedido de Dilma Rousseff. Epa, epa, epa! Pode repetir? Posso sim. Com prazer. De acordo com um documento reproduzido pela Gazeta do Povo, e que pode ser acessado aqui, Dilma Rousseff requisitou pessoalmente ao governador do Paraná a transferência da mulher do preso das Farc. Uma dúvida: a ministra da Casa Civil demonstra esse mesmo interesse por todos os servidores de terceiro escalão?

O deputado Rodrigo Maia pediu esclarecimentos sobre o caso. O senador Arthur Virgílio, por sua vez, encaminhou um requerimento ao Ministério da Pesca. Até agora, o governo Lula só emitiu uma nota sobre o assunto, prometendo me processar. É a escala de valores dessa gente: Olivério Medina - "el Pancho" - solto, e Diogo Mainardi - "o Pança" - condenado. Em sua nota, a assessoria de imprensa do Ministério da Pesca confirmou todos os dados relatados em minha coluna. Negou apenas que pudesse haver um elo entre o governo e as Farc. Eu ficaria muito surpreso se alguém admitisse o contrário.

O Brasil tem 50.000 assassinatos por ano. Isso é o que importa quando se trata das Farc. Ignore a retórica esquerdista. Ignore a mística guerrilheira. Concentre-se no essencial. E o essencial é o tráfico de drogas. O Brasil é um grande mercado consumidor das drogas produzidas nos territórios dominados pelas Farc. O Brasil é também um grande entreposto para o seu comércio internacional. O lulismo tenta passar a idéia de que as Farc dizem respeito apenas à Colômbia. E, marginalmente, à Venezuela e ao Equador. Mentira. O Brasil entra na guerra com sua monumental cota de assassinatos relacionados com o consumo e com o tráfico de drogas, e com todos os crimes que podem ser associados a eles: assaltos, contrabando de armas, jogo ilegal, lavagem de dinheiro. Cada um de nós, indiretamente, já foi assaltado pelas Farc. Cada um de nós conhece alguém que foi assassinado pelas Farc.

Minha pergunta é a seguinte: um governo que contrata a mulher de um membro das Farc, com a ajuda direta da ministra da Casa Civil, em documento assinado por ela, demonstra estar solidamente empenhado no combate ao tráfico de drogas? Aguardo a resposta. O crime organizado contamina a política. Há uma série de sinais nesse sentido, do caso do ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro, que acaba de ser preso, aos atentados do PCC na última campanha presidencial, que afundaram a candidatura de Geraldo Alckmin; dos inquéritos sobre os perueiros, na campanha à prefeitura paulistana, ao pedido de propina de Waldomiro Diniz ao dono de um bingo. O governo Lula considera perfeitamente legítimo contratar, para um cargo de confiança, a mulher de um criminoso internacional preso por pertencer a um grupo que pratica o terrorismo e o tráfico de drogas. Eu respondo lembrando os 50.000 assassinatos por ano. Sabe como é: na guerra entre os traficantes de drogas e a lei, os mortos escolheram o lado errado.

quinta-feira, junho 05, 2008

TODOS IGUAIS UMA OVA!


E lá vamos nós de novo...

Outro escândalo de corrupção envolvendo gente graúda do governo petralha (qual seria? o centésimo? o milésimo? já até perdi a conta...) estourou esta semana. Desta vez, a mutreta diz respeito à venda da Varig, que, segundo a ex-diretora da ANAC, a charuteira (lembram dela?), teve o dedo da Casa Civil da Presidência da República, chefiada pela companheira Dilma Rousseff, para beneficiar um grupo estrangeiro (norte-americano, o que prova que, na hora da maracutaia, os companheiros petistas não têm nenhum preconceito ideológico). O tal grupo, com uma mãozinha de Dona Dilma, arrematou a falida por 24 milhões para revendê-la por - apenas - 320 milhões... O imbróglio envolve ainda um advogado amigão do peito dele, claro, a ratazana-mor, Lulla. A história toda, que é sórdida como todos os demais casos envolvendo a petralhada, foi revelada ontem pelo Estado de S. Paulo, e pode ser lida aqui: (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080604/not_imp183508,0.php)

Sim, e daí?, muita gente deve estar se perguntando. Afinal, é só mais um, entre tantos casos de roubalheira semelhantes, como o caso Waldomiro Diniz, o mensalão, o valerioduto, os dólares na cueca, os sanguessugas, Celso Daniel, Lulinha, Palocci, os aloprados, a farra dos cartões corporativos... e um longo etcétera, que desde 2003 vêm se sucedendo com regularidade quase monótona. Todos esses casos foram plenamente denunciados, divulgados, debatidos, documentados e esquecidos. Outros virão, com certeza. E todos eles, deram em quê?, é a pergunta que muitos se fazem. Nesse caso, também, vai acontecer alguma coisa? Alguém irá para a cadeia? O Grande Molusco vai ser finalmente desmascarado e expulso da vida pública? Os petralhas pagarão por mais esse delito contra os cofres públicos? E a oposição, vai sair de seu estado letárgico e finalmente assumir-se como oposição e exigir a cabeça do grande responsável? Claro que não. Todos sabem como essa novela vai acabar: de forma melancólica, com mais uma CPI que vai dar em pizza, como a dos cartões corporativos, que a petralhada esforçou-se para - e conseguiu - enterrar há alguns dias. Afinal, como disse o Molusco em pessoa naquela entrevista em Paris em 2005: são todos iguais, não são?

Não são, não! Aí é que está. Não dêem ouvidos a mais essa lorota. Os petralhas não são iguais aos outros. São piores. Muito piores.

Durante mais de duas décadas, os petistas e seus aliados se esforçaram para convencer a todos que eram diferentes. Que, em meio à corrupção e ao cinismo gerais, eram puros, imaculados, santelmos, angelicais. Pegos com a boca na botija, tratam de dizer que são iguais aos outros. Nisso, são coerentes com os métodos tradicionais da esquerda. Uma das formas encontradas pelos esquerdistas de desmoralizar seus adversários é acusá-los pelo que eles mesmos fazem, chamá-los do que eles próprios são. Desse modo, procuram passar-se por diferentes. É assim que os esquerdistas agem quando estão na oposição, e foi assim que os petistas agiram durante quase um quarto de século, quando o poder parecia longe. Outra forma é apelar para o discurso exatamente oposto, admitindo que "todos fazem igual" e que eles, os esquerdistas, não se diferenciam em nada, portanto, dos demais políticos. É assim que os esquerdistas fazem: quando na oposição, buscam ideologizar a corrupção, mostrando-a como " de direita"; no poder, tentam desideologizá-la. Se são pedra, mostram-se como diferentes e são implacáveis com a corrupção alheia. Se são vidraça, são iguais e pedem condescendência com suas falcatruas...

A corrupção de esquerda não é igual à corrupção de direita. Atrevo-me a dizer que é pior, muito pior. Assim como as ditaduras de esquerda são piores do que as de direita, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto, sem o risco de ser chamado por isso de vendido ou traidor, a corrupção de esquerda é muito mais funesta, muito mais canalha. Uma coisa é uma prostituta tarimbada e conhecida, de quem não se espera nada virtuoso, apenas grossas sacanagens. Outra, muito diferente, é uma puta velha que passou a vida inteira arrotando virtude e fingindo-se de vestal, afetando uma falsa pureza de carmelita descalça. Nunca vi um corrupto do DEM ou do PP usando seu passado de ex-preso político e torturado pelo regime militar, por exemplo, como um álibi para justificar a feitura de dossiês e outras maracutaias semelhantes. Esses gatunos, quando pegos em flagrante, tentam sair-se com desculpas bem mais convencionais, como "não há provas", ou claramente estapafúrdias, como "Deus me ajudou e eu fiquei rico". As desculpas dos larápios de esquerda, por sua vez, são, por assim dizer, mais sofisticadas: "é uma conspiração das elites e da mídia", ou então "não vi nada, não sei de nada". Esgotadas as desculpas esfarrapadas, sempre poderão salpicar um "todos fazem igual", e muita gente cairá na esparrela... Os esquerdistas sempre terão mais desculpas, pois sabem que sempre haverá mais parvos dispostos a acreditar em suas mentiras do que nas dos outros.

Há outra forte razão para dizer que a corrupção dos petralhas é pior. Parafraseando o Grande Molusco, "nunca na história deste país" um governo sustentou-se tanto no saque do suado dinheiro público. Que o governo Lulla é o governo do mensalão, disso todos já sabem, já virou um lugar-comum. Mas não apenas do mensalão dos deputados, aquele dos 30 mil reais por mês, mas, sobretudo, dos mensalões, no plural. Esse esquema não se restringiu à Câmara dos Deputados. Há um mensalão para cada setor da sociedade, para todos os gostos e até para todos os bolsos. Assim como houve o mensalão dos deputados, há o PAC, o mensalão dos empresários (vide Gautama). Há também a indústria das indenizações milionárias a terroristas e outros supostos ou reais perseguidos pela ditadura militar, um verdadeiro mensalão da História ou Bolsa-Terrorismo. E há o Bolsa-Família, o mensalão dos pobres. Estes, agradecidos ao papai Lulla e à mamãe Dilma, não se importam em vender seus votos, contentes em serem reduzidos a clientes do lulo-petismo e estadodependentes. O mensalão, é bom lembrar, foi elaborado nos porões do Palácio do Planalto como um bom "cala-boca" da oposição, uma forma de comprar o apoio, ou pelo menos o silêncio, dos parlamentares. Pois bem. Os bilhões do PAC e os 172 reais do Bolsa-Família, assim como os milhões das indenizações, são o "cala-boca" que Lulla e os companheiros bolaram para garantir o apoio e a cumplicidade de uma nação bestificada e anestesiada pela safadeza e pela sem-vergonhice institucionalizadas. Dar dinheiro tornou-se o veículo principal de poder dos petistas. Os petistas passaram anos pregando a necessidade de distribuir renda. O mensalão é a forma por excelência de distribuição de renda dos petistas.

O discurso lulista sobre o caso das pressões do Planalto na venda da Varig já está pronto. Já posso até vislumbrar o que vem daqui para a frente. Primeiro, vão tentar desqualificar a denunciante, não a denúncia, como já fizeram outras vezes (lembram do caseiro do Palocci?). Assim, já começaram a dizer que ela só resolveu botar a boca no trombone por estar "ressentida" - a própria Dona Dilma já deu entrevista dizendo estranhar a atitude da ex-companheira, por quem, disse naquele seu estilo caracteristicamente sinistro, nutria uma "razoável consideração"... Como se Pedro Collor e Roberto Jefferson também não estivessem ressentidos (é preciso que alguém de dentro abra a boca e chute o balde para que toda a podridão dos companheiros venha à tona). Em seguida, vão mover mundos e fundos - principalmente, fundos - para tentar "blindar" a proclamada mãe do PAC, inventando algum funcionário obscuro de terceiro ou quarto escalão que, por um "erro" - petralhas jamais cometem crimes, apenas "erros" -, deixou vazar a informação para a imprensa (o "verdadeiro" delito, como ficou claro no caso do dossiê). Paralelamente, vão acionar a imprensa comprada, que vai tratar de reproduzir a ladainha de que é tudo conspiração da "zelite" etc., e de jogar poeira no rosto do público, "descobrindo" algum escândalo de corrupção envolvendo algum político do PSDB... Enquanto isso, mobilizam a tropa de choque no Congresso, com uma ajudinha, talvez involuntária, dos deputados e senadores acovardados de "oposição" que, de olhos nas próximas eleições e nas pesquisas, vão tentar salvar a pele do comandante... Principalmente, vão fazer tudo para blindar o chefe da quadrilha, aquele mesmo que disse que caixa dois é normal, pois todo mundo faz... E assim, igualados todos na mesma sujeira, indistinguíveis em meio à lama da corrupção generalizada, os petralhas vão livrar a cara de seus chefes mais uma vez. Pelo menos, até que alguém perceba que, por trás da roubalheira, está uma ideologia. Iguais, uma ova!

Já afirmei que Lulla é um farsante e um mito político que só se elegeu e reelegeu graças à permanência de uma mentalidade messiânica e paternalista entre a população, que remonta ao que há de mais atrasado e retrógrado em nossa formação histórica defeituosa. Afirmaram que eu estava errado, e não me deram crédito. Já escrevi que Lulla é pior que Collor, ou qualquer outro picareta do gênero que já ocupou a cadeira de presidente da República no Brasil. Fui tido como louco. Já apontei que o crime e a mentira são inerentes aos métodos e aos objetivos da esquerda. Não me deram ouvidos. Agora digo que os corruPTos de esquerda são os piores de todos.

terça-feira, junho 03, 2008

1989, O ANO QUE NÃO COMEÇOU


De repente me deu uma vontade danada de escrever sobre meus 15 anos...

Não que eu seja um nostálgico. Já escrevi que textos confessionais não são meu forte, e sobre minhas reservas em relação a esse gênero literário. Mas, diante de certos fatos transcedentais que se confundem com minha própria biografia, fica difícil, quase impossível, não falar na primeira pessoa. Particularmente, não acho que minha vida pessoal interesse a alguém, a não ser que traga em si uma lição importante. Se me perguntarem se me orgulho ou me envergonho de alguma coisa que vivi, responderei que não tenho orgulho, nem vergonha, de meu passado. Tenho-o apenas, e isso me basta. Não o relembro por vaidade, nem por saudosismo, mas porque acredito ser possível extrair dele alguns ensinamentos para a vida.

Num artigo intitulado "Como me tornei um reacionário" (22/06/2007), relembrei um momento particularmente marcante de minha adolescência e começo de juventude, quando me envolvi com um grupelho sectário ultra-esquerdista. Isso foi nos meus 18, 19 anos. Mandei o texto por e-mail a um dos "revolucionários" de minha convivência, nesse período. A resposta dele, e meus comentários à sua resposta, estão aqui: (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/11/dilogo-entre-um-revolucionrio-de.html).

O que mais me chamou a atenção no texto do meu ex-camarada, hoje professor universitário, foi que ele pediu que eu... não o escrevesse mais (!). Algo lamentável, a meu ver, pois nos priva da possibilidade de um diálogo frutífero, no qual ele teria a oportunidade de tentar me convencer da verdade incontestável de suas teses revolucionárias, as quais, ao que parece, ele continua fiel. Disponho-me, inclusive, a abrir meu blog para suas ponderações sobre o tema. Mas, pelo visto, ele deve estar tão convicto de que alcançou a Verdade Revelada que prefere guardá-la para si...

Desde o artigo e a resposta (ou não-resposta) de meu interlocutor, fui voltando cada vez mais no tempo, puxando o fio de minha memória, num processo quase proustiano de regressão. Retornei ao começo de minha adolescência, quando ainda estava no secundário. Mais especificamente, ao ano de 1989.

Eu tinha, então, 15 anos de idade. Foi quando comecei a me interessar pelas teses de esquerda, e, em especial, pelo marxismo. Exatamente. Em 1989. No mesmo ano em que os regimes marxistas do Leste Europeu caíram por terra, um a um, num processo iniciado anos antes na ex-URSS, que viria ela mesma também a desaparecer, em 1991. Por mais incrível que possa parecer, minha conversão às idéias marxistas e revolucionárias ocorreu justamente no ano em que o Muro de Berlim se transformou em ruínas e as ditaduras comunistas viraram sorvete.

Contradição? Incongruência? Nem tanto. Eu era trotskista. Um de meus livros de cabeceira, nesse período, era A Revolução Traída, de Trotsky. O trotskismo é o sebastianismo das esquerdas. Ele mantém acesa a esperança na vitória da revolução socialista - que, aliás, tem que ser internacional e permanente -, ao mesmo tempo em que se distancia do "socialismo real" implantado na ex-URSS e em países como a China e em Cuba. Estes são "Estados operários burocraticamente degenerados", na definição de Trotsky quando se referia à ex-URSS sob Stálin, seu pior inimigo. Trotsky era diferente. Era revolucionário e comunista, mas também crítico da URSS. Além disso, era um mártir: fora assassinado a mando de Stálin no México, em 1940, com um golpe de picareta na testa, por estar incomodando a nomenklatura soviética (por alguma razão inconsciente, os mártires estão sempre certos, são sempre lutadores da liberdade...). O colapso dos regimes comunistas ("stalinistas", segundo pensávamos) do Leste Europeu era, na verdade, um fato positivo, uma "revolução de fevereiro". Faltava apenas uma liderança revolucionária sincera e conseqüente, pensávamos, para a vitória da "segunda revolução", a de outubro (quando os sovietes tomaram o poder na Rússia). Não surpreende, pois, que os fatos de 1989 no Leste Europeu parecessem confirmar, em minha mente, a justeza das teses trotskistas, que eu abracei com paixão. Para tristeza de meus pais e espanto de todos que me conheciam, eu me tornei um revolucionário marxista.

Para um jovem como eu, parecia que eu tinha achado a fórmula ideal. Bastaria permanecer fiel às idéias de Trotsky - e, por extensão, de Lênin, Marx e Engels - que, eu acreditava, tudo se esclareceria. Bastaria explicar às pessoas, de forma paciente, serena, firme e persistente - e como éramos persistentes! - que a Revolução Russa fora traída e corrompida, que a URSS jamais fora socialista, e todos compreenderiam, a verdade viria à tona, tudo ficaria claro como água. Todos perceberiam que a "restauração do capitalismo" no Leste Europeu há muito fora profetizada por Trotsky, e que tudo não passava de uma "nova fase da luta revolucionária mundial dos trabalhadores" que culminaria, claro, no triunfo mundial do "verdadeiro socialismo", o socialismo de Marx, Lênin e Trotsky, supostamente prostituído por Stálin e seus acólitos. Em 1993 ou 1994 conheci um grupo de estudantes que se declaravam marxistas e gastavam suas tardes de sábado discutindo a literatura socialista. Diziam-se revolucionários e adeptos das teorias de Marx e de Trotsky. Aí estão os que vão fazer a revolução comigo, pensei.

Lancei-me então, juntamente com meus novos camaradas, numa vertiginosa rotina de reuniões e discussões que duravam dias inteiros, geralmente em locais como o sindicato dos professores da cidade, ou no campus da universidade - por alguma razão que até hoje desconheço, os professores e estudantes eram tidos como os futuros revolucionários e coveiros do capitalismo... Lembro bem. Minha disposição para o proselitismo em nome da Revolução não tinha limites. Certa vez, entrei eu e meu camarada numa sala de aula - o curso era Direito - para tentar convencer os estudantes a se juntarem a nós no glorioso caminho da revolução proletária. Tentei explicar, didaticamente - eu tinha acabado de ler "O Estado e a Revolução", de Lênin -, que o objetivo final dos comunistas era a abolição do Estado, após um período necessário de transição, a ditadura do proletariado, que levaria à extinção das classes sociais e da própria luta de classes, na sociedade comunista perfeita... Fui recebido com olhares de espanto. Extinguir o Estado? Ditadura do proletariado? O que esses caras estão falando? "Vocês não leram Marx", foi a minha resposta...

Achávamos que a História estava de nosso lado. A ignorância da maioria das pessoas sobre o que fora a Revolução Russa e seus principais personagens, como Trotsky e Stálin, era algo que, além de irritante, parecia confirmar nossas crenças. Ao mesmo tempo, investíamos contra o "reformismo" do PT e afins, denunciando sistematicamente o oportunismo eleitoreiro e o "centrismo" dos partidos de esquerda tradicionais, que considerávamos contra-revolucionários e mancomunados com o governo "neoliberal" de FHC... Mais ou menos como fazem o PSTU e o PSOL hoje em dia, só que de forma muito mais radical (os outros partidos de ultra-esquerda, aliás, também eram alvo constante de nossa metralhadora giratória, pois jamais os considerávamos, por um motivo ou outro, suficientemente de esquerda...). Já naquela época eu achava os petistas, e Lula em particular, um bando de farsantes, mas pelos motivos errados. O fato de eu ter conhecido, nessa época, o "ideólogo" principal daquele grupo extremista e ultra-sectário, um professor da USP (ou da PUC, não lembro exatamente) de barbas brancas e fundador do PT - do qual se desligou depois -, foi algo que me encheu de vaidade e reforçou minha convicção de que eu estava no caminho da revolução. Afinal, ali estava, diante de mim, o Lênin brasileiro...

Não é preciso muito esforço mental para perceber que estávamos imbuídos de uma fé religiosa e messiânica, uma crença fanática em nossa "missão histórica" de "conscientizar as massas" e constituir a "vanguarda política da luta pela libertação do proletariado"... Mas, na época, eu não pensava desse jeito. Acreditava, ao contrário, que o marxismo era uma espécie de panacéia, uma fórmula mágica que bastava evocarmos para exorcizarmos todas as forças contrárias e alcançar o tão sonhado pote de ouro... De acordo com essa nossa leitura, o materialismo histórico e o materialismo dialético eram capazes de responder a todas - repito: todas - as questões da humanidade, da vida e da morte, do céu e da terra.

As relações internacionais, por exemplo, eram muito fáceis de ser explicadas. Havia nações exploradoras, de um lado, e nações exploradas (ou "semicoloniais"), de outro. Pronto! As nações exploradoras (EUA, Japão, Israel etc.) eram ricas e poderosas porque sugavam o sangue das nações exploradas, como o Brasil. Mas isso não queria dizer que fôssemos nacionalistas. Pelo contrário: nosso norte era a Revolução Russa, que considerávamos o modelo de todas as revoluções. A burguesia nacionalista dos países atrasados, acreditávamos, era incapaz de levar adiante a luta contra o imperialismo, assim como a burguesia russa fora incapaz de levar adiante a luta contra o czarismo em 1917.

Tive a oportunidade de comprovar a aplicação desse esquema, quando os EUA (a nação exploradora) intervieram militarmente no Haiti (a nação explorada), em 1994, em mais uma das crises humanitárias que já viraram rotina naquele infeliz país do Caribe. Na ocasião, meus camaradas não titubearam nem um minuto: era preciso defender a "nação explorada" e opor-se à "invasão imperialista", mesmo que isso significasse perfilar-se ao lado do ditador haitiano de plantão. "O importante são os fins", foi-me explicado. Nessa época, eu já começava a alimentar algumas dúvidas em relação àquele palavreado ultra-radical. Mas também para isso havia remédio: minhas dúvidas eram um resquício de minha "formação pequeno-burguesa". Ah, bom. Então respirava aliviado.
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Quando se tratava de "avaliação de conjuntura" (outra expressão comum nessa época), a análise não era menos sofisticada. Começava sempre com a mesma frase: "O capitalismo, em sua fase final de decomposição...". Pois é. Uma das melhores definições de esquerdista que já li é a seguinte: um sujeito para quem, se os fatos contrariam suas idéias, pior para os fatos. Eu era exatamente assim.
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Durante muito tempo acreditei nesse conto-de-fadas. Após perder contato com aquele grupo, passaram-se uns dez anos até que eu percebesse o óbvio: que aquilo era uma roubada, uma bad trip, a maior em que alguém pode embarcar. Por causa dessa bobagem, fiquei imune ao que se passava no mundo na época. Demorou algum tempo ainda para que me rendesse a constatações simples, mas que se tornam difíceis de ser assimiladas num cérebro intoxicado de literatura marxista. A questão da democracia, por exemplo. Custou-me muito admitir que esta constitui um fim em si, e não apenas uma técnica para tomar e manter-se no poder. Foi necessário certo esforço intelectual de minha parte para perceber que todas as críticas e denúncias de meus ex-camaradas contra o stalinismo não se baseavam em nenhum amor pela democracia ("uma formalidade burguesa"), mas simplesmente no ressentimento de quem se viu derrotado numa disputa política. Assim como foi necessária alguma honestidade para reconhecer que o comunismo, em todas as suas vertentes, é inseparável da montanha de 100 milhões de cadáveres que produziu no século XX. Como escreveu Arthur Koestler: "O problema dos trotskistas é que eles são anti-stalinistas, mas não são antitotalitários" ("democratismo pequeno-burguês", diriam meus ex-camaradas).

Tenho, pelo menos, uma boa desculpa, além de minha juventude e inexperiência, para essa minha falta de sintonia, na época, com o mundo em minha volta: assim como meu pensamento tomou um rumo diametralmente oposto às grandes transformações ocorridas a partir de 1989, no Brasil tampouco conheceu-se processo semelhante. Pelo contrário: o ano de 1989, no Brasil, simplesmente ainda não começou. Por aqui, ainda se cultuam os velhos mitos e chavões da geração 68, a do flerte com o totalitarismo. Nos anos 90, de forma atabalhoada com Collor e depois tímida, quase pedindo desculpas, com o "neoliberal" FHC, tentou-se levar adiante algumas reformas estruturais, mas estas esbarraram sempre na visão anacrônica que considera "privatização" um anátema e "abertura" um palavrão. Infelizmente, a Constituição de 1988 permanece eivada de um fortíssimo ranço ideológico populista e antiliberal, que impede o avanço do País em áreas cruciais, como as relações trabalhistas, por exemplo. Se ela tivesse sido adotada alguns meses depois, talvez não vivêssemos ainda sob a sombra do estadossauro.

Hoje, como vocês sabem, não acredito em marxismo, nem em qualquer outro "ismo" que se proponha a mudar o mundo e a natureza humana. Em vez de revolução e ditadura do proletariado, acredito em coisas como democracia, liberdade de expressão e direitos humanos. Artigos que - e como me custou perceber isso! - só podem existir numa sociedade de mercado e livre concorrência. Ou seja: no capitalismo. Claro, para meus ex-camaradas de utopia, isso faz de mim um reacionário, um troglodita fascista, um burguês maldito, um verme desprezível. Meu lugar, portanto, só pode ser a masmorra, o gulag, o paredón. O Brasil parou em 1988. Meus ex-camaradas, por sua vez, pararam um pouco antes. Em 1917, para ser mais exato.

Sempre que me perguntam, em tom de brincadeira, o que eu faria se descobrisse que um filho meu se transformou num militante esquerdóide, desses de babar gritando slogans em alguma manifestação da UNE contra Bush e o "neoliberalismo", eu respondo: não faria absolutamente nada. Aliás, para ser franco, acharia até interessante, um passo necessário em seu amadurecimento pessoal. Digo sempre que as idéias esquerdistas são como um sarampo, uma catapora: é preciso ter sido acometido dessas enfermidades infantis para se ver imunizado delas para o resto da vida. Se o meu filho(a) persistir nessa doença cerebral por um tempo excessivamente longo, digamos após os 25 anos, aí sim terei motivos para ficar preocupado...

Minha experiência - felizmente, breve - com o marxismo coincidiu com o início da demolição, em nível mundial, das fantasias socialistas. De lá para cá, o mundo mudou (pelo menos nesse aspecto) para melhor, assim como eu, que felizmente me livrei das viseiras ideológicas do passado e comecei a pensar com minha própria cabeça. Infelizmente, porém, o mesmo não ocorreu com o Brasil. Por essas plagas, 1989 ainda não começou. É uma pena.

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P.S.: Devo o título deste artigo ao Augusto Araújo, um leitor perspicaz. Comentando meu texto "1968, o ano que precisa acabar", Augusto lembrou que, ao contrário de 1968, 1989 sequer começou entre nós. Corretíssimo.