segunda-feira, junho 02, 2008

NÃO ACREDITEM EM MIM


Os que acompanham este blog sabem de minha predileção por alguns temas, como a corrupção dos petralhas, a ditadura disfarçada de Hugo Chávez na Venezuela, a ditadura escancarada de Fidel Castro em Cuba, as patetices dos esquerdóides, o Foro de São Paulo etc. Sei que são assuntos áridos. Também sei que nada que eu disser a respeito fará qualquer diferença: Lula não será enxotado do Palácio do Planalto, nem Chávez cairá, nem os petralhas irão para a cadeia, por nenhum artigo que eu tenha escrito ou que vier a escrever, ainda que venha recheado de argumentos irrefutáveis. Tenho plena consciência que muitos que lêem este blog saem com a impressão de que sou movido por simples fixação ou paranóia, ou pela mais pura obsessão.

Por isso, resolvi tomar uma decisão. Vou pedir a quem ler estas linhas que não acredite em mim. Não levem em consideração o que eu disser. Isso mesmo. Esqueçam tudo que eu escrevi até agora. Joguem no lixo todas as minhas opiniões. Afinal, são apenas opiniões. Nada que se compare aos fatos:

- Na semana passada, realizou-se em Brasília a reunião inaugural da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL). O Presidente Lula propõs a criação, dentro da UNASUL, de um Conselho de Defesa Sul-Americano, para atuar como uma espécie de OTAN da região. Dos 12 países-membros do novo organismo, apenas um, a Colômbia, foi contra. O motivo: os países que compõem a UNASUL se recusam a condenar abertamente as FARC como uma organização terrorista. A Colômbia está em guerra com as FARC. As FARC são apoiadas por alguns governos da região, como o de Hugo Chávez da Venezuela. Chávez é um dos maiores entusiastas da UNASUL. Lula também. No discurso de abertura, o Presidente Lula afirmou que a UNASUL irá "mudar o tabuleiro do poder mundial". Certamente.

- Em 1o de março passado, o Exército colombiano matou, na fronteira com o Equador, o líder terrorista Raúl Reyes, número dois das FARC. Na ocasião, foi apreendido o laptop de Reyes. Abertos os arquivos do computador do chefe guerrilheiro, descobriu-se que os governos da Venezuela (Hugo Chávez) e Rafael Correa (Equador) dão apoio material sistemático às FARC, permitindo que elas utilizem o território desses países para lançar ataques à Colômbia. Chávez forneceu 300 mil dólares aos narcoterroristas colombianos, e o Ministro da Defesa de Correa mantinha contatos regulares com os mesmos. Há alguns dias, a INTERPOL confirmou que os dados do PC de Raúl Reyes divulgados pelo governo da Colômbia (Álvaro Uribe) são autênticos. Na crise entre Equador, Colômbia e Venezuela deflagrada após a morte de Reyes, o governo do Brasil (Luiz Inácio Lula da Silva) recebeu Rafael Correa. Na ocasião, colocou-se inteiramente do lado deste e de Chávez contra a Colômbia.

- Também no laptop de Raúl Reyes, foi descoberto um e-mail, datado de 29 de julho de 2005, do ex-padre Francisco Antonio Cadena Collazos, mais conhecido como Olivério Medina (ou Padre Medina, ou Camilo López, ou El Cura Camilo), endereçado a Reyes. Olivério Medina é o representante das FARC no Brasil. No e-mail, Medina demonstra estar informado do pedido de captura encaminhado pela Procuradoria da Colômbia à Interpol (polícia internacional) contra ele:"Os amigos daqui [do Brasil] me advertiram que deveria ficar atento, pois há uma comissão da Procuradoria que tem uma ordem de captura", escreveu. Ele acrescentou que, segundo os mesmos amigos, não deveria se preocupar, pois "a cúpula do governo com apoio de Celso Amorim estavam a par. Eles não apoiariam uma captura por crimes políticos".

De acordo com o jornal colombiano El Tiempo, o papel de Olivério Medina no Brasil era "trocar cocaína por armas e fazer o recrutamento de simpatizantes".

- Em tempo: o mesmo Olivério Medina, segundo relatório da ABIN, a agência brasileira de inteligência, datado de 2005, foi o intermediário da entrega de 5 milhões de dólares das FARC à campanha, em 2002, do então candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. A denúncia foi feita pela revista Veja, que foi acusada, na epoca, de fazer "mau jornalismo".

- "Em 29 de dezembro de 2006, Angela Maria Slongo foi nomeada pelo ministro da Pesca, Altemir Gregolin, para o cargo de oficial de gabinete II, com um salário de DAS 102.2. Angela Maria Slongo é mulher de Francisco Antonio Cadena Collazos, também conhecido como Olivério Medina, ou Padre Medina, ou Camilo López, ou El Cura Camilo.

[...]

Angela Maria Slongo até hoje continua aparelhada no Ministério da Pesca, recebendo seu salário de apaniguada, que acumula com o salário pago pelo governo do Paraná."

A informação acima está na coluna de Diogo Mainardi, na revista Veja desta semana (http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/040608/mainardi.shtml). Aguarda-se manifestação do Palácio do Planalto a respeito.

- Em outra mensagem eletrônica, Olivério Medina referiu-se a um certo "Acácio", identificado como o Negro Acácio, chefe das FARC morto pelo Exército colombiano em 2007. Em 2001, o traficante brasileiro Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, foi capturado na Colômbia, num acampamento das FARC. Negro Acácio era sócio de Fernandinho Beira-Mar no narcotráfico.

- Na mesma semana da reunião da UNASUL em Brasília, ocorria, em Montevidéu, Uruguai, o 14o. encontro do Foro de São Paulo. Representou o Brasil o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia. Na reunião do Foro, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, assim se referiu à morte recente do número um das FARC, Manual Marulanda, vulgo "Tiro Fijo":

“Eu quero expressar minhas condolências e minha solidariedade para com as Farc e para com a família do comandante Marulanda. Um lutador extraordinário que vem batalhando desde muitos anos.

Um guerrilheiro com a luta, agora interrompida, mais longa da história da América Latina e do Caribe. Uma luta que tem suas origens, suas raízes, nas profundas desigualdades que vive o povo irmão colombiano.

[...] Era um homem humilde, o Marulanda, que falava com humildade. E me sinto honrado de ter-lhe dado, em nome de nosso povo, a ordem “Sandino”. Manuel Marulanda Vélez, um valente, um lutador."

Afirma o noticiário sobre o evento (http://209.85.215.104/search?q=cache:C_9IArujlK4J:www.laspecula.com/index.php%3Foption%3Dcom_content%26task%3Dview%26id%3D1245%26Itemid%3D1+Foro+de+S%C3%A3o+Paulo+Daniel+Ortega+Manuel+Marulanda&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br): "A platéia aplaudiu constantemente e com ânimo os elogios feitos pelo nicaragüense ao chefe terrorista, cuja morte foi anunciada no sábado pelo governo colombiano. As declarações do presidente sandinista e a reação dos participantes do evento não deixaram dúvidas de que as Farc, ainda que desta vez não estiveram presentes, seguem tendo amplo apoio dentro do Foro de São Paulo".

- Frase de Marco Aurélio Garcia, assessor especial do presidente Lula para relações internacionais, em entrevista ao jornal francês Le Figaro (4 de março de 2008): "Eu lhes lembro que o Brasil tem uma posição neutra sobre as FARC: nós não as qualificamos nem de grupo terrorista nem de força beligerante."

Estes são os fatos. Não acreditem em mim. Acreditem em Daniel Ortega. Acreditem em Marco Aurélio Garcia.
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P.S..: Em sua declaração final, a 14a reunião do Foro de São Paulo recomenda "aumentar os esforços para conseguir uma saída negociada para o conflito armado" na Colômbia. Pelo visto, os discursos dos companheiros do Foro (FARC incluídas) e de alguns governos da região estão mesmo bem sintonizados...

AGRADECIMENTO

Para provar que este blog não vive só de jogar pedra, deixo aqui meu obrigado ao Augusto Araújo, por seus elogios a meu texto sobre 1968, o ano que precisa acabar.
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Augusto chamou a atenção, em seu blog (http://augustoaraujo.blogspot.com/), para um fato muito importante, que eu esqueci de mencionar em meu texto:
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"... não concordo com Gustavo quando ele diz que 1989 não terminou. Pelo menos no Brasil nem começou."
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Você está coberto de razão, Augusto. De fato, 1989 ainda não começou entre nós. Aqui, o Muro de Berlim mental que se estabeleceu nos cérebros de nossa intelligentsia (melhor seria dizer "burritsia") esquerdóide ainda está de pé. Quando escrevi que 1989 é o verdadeiro ano que não terminou eu não estava, obviamente, me referindo ao Brasil. Por aqui ainda se vive como se a URSS ainda existisse, como comprova o atual governo dos companheiros. Nisso também estamos/somos a retaguarda do mundo.

Quanto ao Nelson Rodrigues, há algumas crônicas excelentes dele sobre a passeata dos cem mil (que, aliás, nem 100 mil tinha...), nos livros O Reacionário e em A Cabra Vadia, recentemente reeditados. Eu recomendo. Nelson Rodrigues é sem dúvida o melhor cronista dessa época, um oásis de lucidez em meio à loucura e à estupidez galopante daqueles tempos - que infelizmente insistem em não acabar...

sexta-feira, maio 30, 2008

MUDANÇA DE FONTE

Estou atendendo à sugestão de um atento leitor e mudando a fonte do blog para Verdana. Creio que assim fica mais fácil ler os textos. Agradeço a quem me deu a sugestão.
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Para o Augusto Araújo, que me pediu para transcrever meu texto anterior no blog dele: pode ficar à vontade, Augusto. Se tem uma coisa que nunca vou cobrar, é copyright. Aliás, sempre que posso dou uma olhada em seu blog também. Ótimos textos. Continue assim.

quinta-feira, maio 29, 2008

1968: O ANO QUE PRECISA ACABAR


Algum tempo atrás, em um comício, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, exortou os franceses a "liquidar a herança de Maio de 1968".
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Sarkozy tem muitos defeitos - seu estilo está mais para Berlusconi, por exemplo, do que para De Gaulle -, mas, aparentemente, o deslumbramento e a reverência beata em relação ao que foi o "ano que não acabou" não é um deles. Ele não padece do mal bastante comum entre muitos de sua geração, e principalmente entre os mais jovens, que insistem em ver os acontecimentos de 1968 com devoção supersticiosa, como se tivessem sido uma espécie de catarse libertária coletiva, de revolta geral contra o autoritarismo dos mais velhos e pela libertação individual. A lucidez de sua exortação só é comparável a seu bom gosto para as mulheres e talento para a autopromoção. Palmas para ele.

Este ano, 1968 completa quatro décadas. Como ocorreu dez anos atrás, a efeméride está sendo lembrada com uma nova enxurrada de livros, filmes e entrevistas, entremeada por um clima irritante de nostalgia, em que senhores e senhoras grisalhos relembram aquele período áureo de sua juventude, em que sonhavam mudar o mundo (para melhor? duvido muito). Via de regra, os mais jovens só ouviram falar de 1968 e dos anos 60 em geral por intermédio dessas lembranças, bastante seletivas, de velhos intelectuais "meia-oito" ou soixante-huitards. Natural que sua visão sobre as barricadas de maio de 68 em Paris e os protestos estudantis ao redor do mundo, assim como sobre a flower generation e os hippies, seja tão fiel à realidade dos fatos quanto a série O Senhor dos Anéis...

Nos países ocidentais, o ano de 1968 já adquiriu o status de mito, um divisor de águas da segunda metade do século XX. E, como ocorre com todos os mitos, sua base fundamental não é a dura e feia realidade, mas o desejo, a vontade de que as coisas se encaixem em nossos sonhos. A lenda mais persistente sobre aquele período é que este teria sido um momento de explosão libertária. Trata-se de um equívoco, fruto da ignorância e da manipulação. De libertário, 1968 não teve nada, ou muito pouco. Basta ver os slogans dos estudantes rebelados em Paris: ao lado de bordões anarquistas como "É proibido proibir", ou românticos como "Sejamos realistas: exijamos o impossível", encontravam-se platitudes marxistóides como "Abaixo o imperialismo norte-americano no Vietnã", "Viva Che Guevara", ou "Deus: te suponho um intelectual de esquerda" (este último, um lema da então nascente teologia da libertação, de famigerada memória).

O caráter muito pouco libertário de 1968 pode ser atestado pelo seguinte fato: aquele foi o ano da retomada mundial das esquerdas, desgastadas após décadas de stalinismo e burocratismo dos antigos partidos comunistas, vistos com cada vez mais desconfiança pelos mais jovens. Foi o momento em que a geração nascida durante ou após a Segunda Guerra Mundial - a geração de meus pais - se insurgiu não apenas contra o "velho", tudo que era antigo e cheirava à autoridade, mas também contra o que, até os dias de hoje, é novo - os valores da democracia liberal, como a tolerância e a liberdade de pensamento, algo ainda tão estranho a nós, deste subdesenvolvido Brasil. De certo modo, o conjunto de revoltas estudantis ocorridas quase simultaneamente naquele ano - em Paris, Roma, Berlim, Tóquio, Rio de Janeiro - foi uma revolta não contra as velhas práticas e objetivos da esquerda, mas a favor delas. Buscava-se então recuperar aquilo que as esquerdas ocidentais haviam perdido durante os anos sombrios do pós-guerra na Europa - não por acaso, a palavra mais repetida em 1968 não foi "liberdade", mas "revolução". Daí o surgimento, nesse período, da "esquerda festiva" e da New Left, capitaneada por figuras como Noam Chomsky e Tariq Ali, campeões do antiamericanismo e do populismo terceiromundista mais vagabundos, recobertos com uma embalagem "pop-chique". Estes fizeram muito barulho protestando contra as atrocidades norte-americanas no Vietnã, onde trataram de transformar uma vitória militar numa derrota política, demonstrando assim os incríveis poderes de manipulação da televisão. Mas quase não se ouviu a voz deles quando se tratava de condenar os crimes do Vietcong... (é que estes, ao contrário das cenas de combate envolvendo os marines estadunidenses, não apareciam no noticiário da noite).

Que o libertarianismo associado aos anos 60 e às esquerdas seja uma farsa, não é algo muito difícil de constatar. Basta recordar que muitos dos estudantes franceses que ocuparam a Sorbonne ou seus colegas brasileiros que atiravam pedras na polícia tinham como modelos a China de Mao Tsé-Tung e a Cuba de Fidel Castro. Na China, na mesma época, o Grande Timoneiro, que já contava mais de setenta anos de idade, arregimentava a juventude fanatizada por seu Pequeno Livro Vermelho contra a "velha geração", na chamada "Revolução Cultural" (na verdade, anticultural). Milhares de adolescentes chineses, gritando slogans e usando o uniforme dos Guardas Vermelhos, dedicavam-se a espancar e a humilhar seus professores, em nome do presidente Mao. O resultado foi uma multidão de mortos, num dos períodos mais sombrios de um dos regimes mais sanguinários de todos os tempos. Em Cuba, o ditador Fidel Castro, visto como exemplo de revolucionário pelos jovens contestadores de então, mobilizava a polícia política para cortar à força os cabelos compridos dos jovens cubanos, enviando os homossexuais para "campos de reeducação" e tendo proibido, inclusive, o rock (em mais um exemplo de oportunismo ideológico, e percebendo o sex-appeal da cultura de 68, o tirano barbudo inaugurou em Havana, há alguns anos, uma estátua de John Lennon - um "antiimperialista", segundo ele...). O mesmo Fidel Castro, que na mesma época recolhia os dividendos do mito recém-criado em torno da morte de Che Guevara na Bolívia, justificou, num discurso vergonhoso, a invasão da Tchecoslováquia pelas tropas soviéticas, em agosto daquele mesmo ano. O que demonstra que toda a "onda jovem" geralmente associada aos anos 60 teve, na verdade, um forte componente de mentira e manipulação.
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No Brasil, o ano de 1968 também foi agitado, como sabemos. Aquele foi o ano das grandes demonstrações de protesto estudantil contra os militares no poder, como a Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro ("não vi um negro", escreveu Nelson Rodrigues, certamente o melhor cronista daqueles tempos). Ao mesmo tempo, cozinhava-se na caldeira dos protestos o que seria o plat du jour daqueles tempos de chumbo: o terrorismo. No Rio de Janeiro, em julho, um comando terrorista de esquerda assassinou a tiros um major do Exército da Alemanha ocidental, tomando-o pelo militar boliviano que prendera, no ano anterior, Che Guevara... Em São Paulo, alguns meses depois, outro grupo metralhou na frente de sua família um capitão do Exército norte-americano, julgando-o, sem provas, agente da CIA e torturador. No final do ano, um discurso idiota e infantil de um deputado oposicionista serviu de pretexto para o fechamento do Congresso e a decretação do AI-5, o famigerado Ato Institucional Número 5. Nos anos seguintes, os atentados terroristas da esquerda se multiplicaram, assim como a tortura, resultando no mito de que os militantes da esquerda armada eram lutadores contra o "autoritarismo" e a favor da democracia. Até hoje os sobreviventes da luta armada do período apresentam-se como tais, não raro apelando para suas credenciais de ex-torturados e supostos ex-combatentes da liberdade para justificar mensalões e dossiês.

Também na área da mudança comportamental, os efeitos de 68 trazem um inconfundível sabor de farsa. A apologia do "amor-livre", graças à popularização da pílula anticoncepcional, assim como das drogas como a maconha e o LSD, longe de constituírem uma celebração da liberdade, parecem, hoje em dia, simples manifestação de tendências autodestrutivas, uma espécie de tentativa de suicídio coletivo. Hoje, a liberdade sexual deu lugar ao flagelo da AIDS, e a "expansão da mente" por meio de alucinógenos pregada por Timothy Leary resultou não em liberdade e autoconhecimento, mas nas batalhas entre narcotraficantes e polícia nas favelas cariocas. Outros movimentos fortes na época, como o feminismo e a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, ensejaram não a tolerância, mas cretinices como o sistema de cotas e a moda totalitária do politicamente correto, com sua novilíngua.
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No campo das idéias, a década de 60 também deixou um rastro de destruição em seu caminho. Assistiu-se, desde então, ao triunfo do relativismo, mediante a onda "desconstrucionista" e "pós-moderna", embalada pelas teorias de Marcuse e da Escola de Frankfurt, que buscavam injetar vida nova no velho marxismo. A conseqüência desse gigantesco exercício de desconstrução mental foi a produção de uma vasta literatura desbancando as certezas da moral e da ética - tidas como meros "preconceitos burgueses" - e a implantação, em lugar destas, de uma visão de mundo relativista, que rapidamente descambou para o niilismo. Em um mundo onde não se poderia mais ter certeza sobre nenhum assunto, a "desconstrução" tornou-se a nova palavra de ordem. Daí para a justificação de fenômenos como o terrorismo ("uma manifestação legítima de resistência contra a opressão colonial e capitalista") foi um pulo. De certo modo, pode-se traçar uma linha entre 1968 e Bin Laden.

Mas, acima de tudo, 68 foi o ano do surgimento, ou pelo menos da entronização no insconsciente coletivo, do "jovem". Este tornou-se, desde então, uma figura verdadeiramente totêmica, objeto de culto e de veneração respeitosa, acima do bem e do mal. Como reposítório das "idéias novas" de então, tudo passou a ser-lhe permitido. Nunca, em toda a História, a imaturidade foi tão louvada e reverenciada. "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", tornou-se moda dizer. O resultado foi o surgimento de uma geração de adultos imaturos e despreparados, eternos adolescentes, mimados e narcisistas, incapazes de encarar a vida de forma serena e minimamente responsável. Seus filhos e netos, atingidos de irrestível nostalgia por aquilo que não viveram, se encarregaram de manter acesa a chama da religião meia-oito.

Enfim, 1968 passará à História não como o ano da liberdade, mas do flerte com o totalitarismo. Não o ano do surgimento de uma nova geração, mais consciente e politizada, mas de uma multidão de palermas e zumbis ideológicos. Muito mais importante, do ponto de vista político, foi 1989, a meu ver este sim o ano que não terminou. Não apenas porque, tendo nascido em 1974, pude presenciar, ao vivo e a cores, os acontecimentos desta última data, ao contrário daquela, que só existe para mim em livros e documentários em preto-e-branco. Mas principalmente porque, ao contrário de 1968, 1989 foi uma data verdadeiramente libertária, em que os ventos da mudança realmente sopraram em vários países, levando consigo o regime totalitário mais odioso da História. Infelizmente, esse processo ainda não se completou, abortado em nosso continente pelos remanescentes de 1968, que insistem em restabelecer, na América Latina, o que se perdeu no Leste Europeu. O ano de 1989 ainda não terminou. O de 1968 precisa acabar.
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P.S.: Para mim, o legado de 1968 é como o Fusquinha da foto (aliás, ano 68): até simpático, mas caindo pelas tabelas, e dificilmente vai te levar muito longe...

quarta-feira, maio 28, 2008

Resposta a um leitor muito caridoso


Comentário a meu texto "O Bolsa-Família precisa acabar. Para o bem dos pobres", de 18 de março (o autor assina como "anônimo"):

"bem percebesse q o seu forte naum eh compreender a necessidade do carente

fala lah pro pai de familia q tah na seca ,tem 5 filhos pequenos pra criar e naum consegue emprego e q recebe a bolsa familia q ele tah sendo comprado o bolsa- familia tem q acabare q apatir de agora ele vai ter q si virar pois ele naum vai mais recebr o unico auxilo q ele tinha de sustntar a sua familia

acho tambem q vc naum compreendeu q o bolsa familia exige q as crianças estejam na escola e tenham acompanhamento medico. O bolsa familia eh uma das unicas esperanças q esses miseraveis tem de mudar a sua condiçao de pobrezacriaça na escola eh o primeiro passo para um brasil melhor vc naum acha?

e o bolsa familia eh um programa q naum visa a manuntençao da pobreza e sim uma escapatoria

revise as sua fontes de pesqisapara um professor de historia o seu ponto de vista eh bem estaguinado

Sexta-feira, 23 de Maio de 2008 22h50min00s BRT"

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Para quem, assim como eu, teve dificuldades em compreender em que língua foi escrito o comentário acima, faço um favor e o traduzo para o idioma de Camões:
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"Bem, percebe-se que o seu forte não é compreender a necessidade do carente. Fala lá para o pai de família que está na seca, tem 5 filhos pequenos para criar e não consegue emprego e que recebe a Bolsa-Família que ele está sendo comprado, que o Bolsa-Família tem que acabar e que a partir de agora ele vai ter que se virar, pois ele não vai mais receber o único auxílio que ele tinha para sustentar a sua família!

Acho também que você não compreendeu que o Bolsa-Família exige que as crianças estejam na escola e tenham acompanhamento médico. O Bolsa-Família é uma das únicas esperanças que esses miseráveis têm de mudar a sua condição de pobreza. Criança na escola é o primeiro passo para um Brasil melhor, você não acha?

E o Bolsa-Família é um programa que não visa à manutenção da pobreza, e sim uma escapatória. Revise as suas fontes de pesquisa. Para um professor de História, o seu ponto de vista é bem estagnado".

Traduzido o texto para a língua de Eça de Queiroz e Machado de Assis, vamos à minha resposta:

Esses petistas são mesmo estranhos. Durante mais de duas décadas eles vociferaram contra o assistencialismo, afirmando que este não passava de um instrumento da "zelite" e do capitalismo para manter o povão anestesiado e impedir a tão sonhada mudança social (a "revolução", diziam). Agora que estão no poder, mudaram completamente o discurso em relação a isso também. E usando os mesmos "argumentos" das elites que diziam combater, arrogando-se em porta-vozes das "necessidades dos carentes"...

Fico intrigado: mudaram os petistas ou mudou a realidade? Ou será que mudaram ambos? Ou, o que é mais provável, não mudou nem uma coisa nem outra - pelo contrário, tudo continua exatamente como sempre foi, apenas o Estado é que mudou de mãos?...

Concordo plenamente que criança na escola é o primeiro passo para mudar o País para melhor. Mas isso não tem nada a ver com o Bolsa-Família, assim como não tem nada a ver com os petistas. Países que alcançaram um alto nível de desenvolvimento na educação, como a Coréia do Sul, atingiram essa meta sem precisar de nenhum programa assistencialista do tipo. O Bolsa-Família não passa de um instrumento paternalista e eleitoreiro de reprodução da pobreza, a serviço dos interesses partidários dos "companheiros". Além do mais, se o governo do presidente Lula estivesse realmente interessado em melhorar a educação, poderia começar por ele próprio, voltando aos bancos escolares. Seria um primeiro passo muito importante, sem dúvida. Sem falar que, pelo visto, o autor do comentário, pela excelência do Português em que este foi escrito, deve ter sido um dos beneficiados pelo Bolsa-Família...

Fico aqui pensando... Que governo - e ainda mais um governo do PT, com seu apego ao populismo e à demagogia mais rasteiros - renunciaria voluntariamente à oportunidade de continuar manipulando uma ampla clientela de miseráveis estadodependentes, atrelados a ele por um programa assistencialista e paternalista, agindo assim contra seus próprios interesses? Quê? Voto de cabresto? Imagina...
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O mecanismo político por trás do Bolsa-Família e outras Bolsas semelhantes é bastante conhecido. Passei um tempo na Venezuela. Lá, o companheiro Hugo Chávez também está implementando uma série de programas assistencais, chamados "missões". Depois de alguns anos, constatou-se que a desigualdade, em vez de diminuir, aumentou. A dependência política da população em relação ao Estado, porém, aumentou consideravelmente, ao mesmo tempo em que o clientelismo e a corrupção. Hoje, as "missões" são um dos principais instrumentos de manutenção do poder do caudilho Hugo Chávez. Alguma coincidência com um certo país e um certo presidente de língua presa?

Pois é. Como se vê, preciso revisar minhas fontes de pesquisa. Afinal, como diz o leitor caridoso que escreveu o comentário, estou mesmo "estaguinado"...

terça-feira, maio 27, 2008

De volta ao blog - e aos comentários dos leitores

Duas semanas atrás viajei à China para fazer um curso, por isso fiquei um tempo sem publicar nada no blog. Tenho alguns textos novos que vou colocar aqui nos próximos dias, à medida que o tempo livre me permitir. Enquanto isso, vou respondendo aos comentários de alguns leitores. Um deles, o Cássius Bertoni, me mandou o seguinte e-mail, que respondo em seguida:
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"Caro gustavo:
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Há umas duas semanas descobri seu blog e comecei a ler seus artigos. Até agora tenho concordado com vários dos seus pontos de vista (principalmente no tocante aos duplos padrões da esquerda), mas tem algumas coisas em tuas idéias que ainda me causam duvida, alem de outras nas quais tenho divergências, o que pretendo discutir depois. Eis aqui algumas de minhas questões (tenho outras mas não quero sobrecarrega-lo:

1-Você diz que a ditadura cubana é personalista, mas até onde sei não me parece haver grande enfase no culto a fidel (digo, não ha cartazes e estatuas espalhafatosos dele pela ilha, como por exemplo no Turcomenistão de niyazov). Mas talvez você tenha alguma informação que desconheça, neste caso agradeceria se a mostrasse.
Ps.:Isto não é uma tentativa de diminuir a ditadura cubana, mas apenas um questionamento quanto ao carater personalista dela.

2-Li você fazendo críticas ásperas a religião e em especialmente ao islamismo, criticas com as quais até concordo; mas queria saber se quando você critica o islamismo se trata de uma critica apenas a religião (com a qual concordo) ou se é uma crítica contra os 1 bilhão de muçulmanos. Sinceramente não acredito que tenha algo contra uma pessoa apenas pela fé que segue (ou diz seguir), mas queria que você esclarecesse esta questão.

3-Por que na tua opinião Rousseau e Platão são totalitaristas e Voltaire é democrata?

4-Você defende que a onu esta falida e ineficiente, algo que concordo; mas para resolver questões envolvendo conflitos, direitos humanos e guerras o que você defende: Uma criação de um novo organismo internacional mais rigoroso (ou uma reforma da onu) ou que tais questões fiquem simplesmente sob responsabilidade de certas potências democráticas e "responsáveis"?

5-Ví você criticando Gandhi em um de seus artigos. Poderia me dizer os teus pontos de critica contra ele? E entre ele e Bush, qual deles você acha mais admirável?

Ps:Fique a vontade para responder meus questionamentos em teu blog, para transcrver este e-mail (total ou parcialmente) e para citar meu nome.

Obrigado pela atenção".

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Respondo
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Cássius, obrigado pelas perguntas. Eis o que tenho a dizer sobre elas:
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1 - Sobre a ditadura cubana: pelo que entendi, você afirma que esta não seria um regime personalista pois, entre outras coisas, não haveria grande ênfase no culto a Fidel (cartazes, estátuas etc.). Sobre isso, tenho a dizer o seguinte:
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A ditadura cubana é totalitária e personalista, sim, Cássius. Isso significa que nela impera, sim, o culto da personalidade do "Líder Máximo", Fidel Castro, como em qualquer outro regime totalitário, como o da ex-URSS sob Stálin e na China de Mao Tsé-Tung ou na Coréia do Norte de Kim Jong-il. O culto da personalidade do líder, invenção dos regimes totalitários do século XX, pode expressar-se de diversas maneiras. Uma delas é a construção de estátuas e cartazes com a imagem do ditador. Mas esta não é a única forma.
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À primeira vista, não haveria culto da personalidade em Cuba pois não existiriam estátuas de Fidel na ilha etc. Trata-se de um erro crasso, que confunde um fenômeno - o culto da personalidade - com uma das formas que ele pode assumir. A primeira coisa a ter em mente é que o culto da personalidade é uma característica intrínseca de todos os regimes totalitários. E Cuba é uma ditadura totalitária. Que não haja estátuas de Fidel ou cartazes com seu rosto espalhados ostensivamente na ilha não é prova de que o regime seja mais democrático, ou que não haja culto da personalidade.
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O que caracteriza o culto da personalidade não é necessariamente a existência de estátuas ou cartazes, mas de uma veneração sistemática e quase religiosa da figura e das palavras do "líder". No caso de Cuba, este é um fato inegável, que caminha lado a lado com a própria natureza antidemocrática do regime. Nenhum outro líder latino-americano do século XX foi objeto de um culto e veneração de sua personalidade tão fortes quanto o tirano de Cuba. Sua imagem foi forjada durante décadas de propaganda intensiva, que buscava mostrá-lo como um líder da luta antiimperialista e benfeitor do povo cubano, na forma de centenas e milhares de livros e entrevistas com "intelectuais" esquerdistas cuidadosamente escolhidos - o brasileiro Frei Betto é um deles -, sem falar em incontáveis fotos e outros documentos iconográficos. Essa propaganda massiva foi responsável pela criação de um mito fortemente arraigado nas consciências de milhões de pessoas mundo afora sobre o regime cubano e seu principal líder, a ponto de ainda hoje ser difícil para muita gente reconhecer o óbvio: que Cuba é uma ditadura totalitária, com culto da personalidade. Diante disso, para que estátuas? (Lembremos ainda que algumas ditaduras, como a do Khmer Vermelho no Camboja nos anos 70, não dispunham de estátuas de seus líderes, como Pol Pot).
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Além disso, é preciso lembrar que nenhum outro líder deixou sua marca pessoal tão profundamente no processo político de seu país quanto Fidel Castro. Os outros ditadores, como Stálin e Mao Tsé-Tung, eram agentes de seus partidos, sendo, portanto, funcionários destes. Fidel, ao contrário, superou a todos, criando, ele próprio, seu próprio partido comunista, em 1965. De certa forma, ele tornou a Revolução Cubana, graças à repressão política, sua revolução pessoal, apropriando-se da história e do Estado cubanos para instalar sua ditadura particular, castrista ou fidelista. Impossível, portanto, negar que se trata de uma ditadura totalitária e personalista.
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2 - Quanto às minhas críticas ao Islã (e a todas as demais religiões), que fique claro: não tenho nada contra quem quer que seja por ser muçulmano, católico, protestante, judeu, budista, umbandista ou adepto da religião do grande espaguete voador. Nada tenho contra quem professe qualquer uma dessas crenças. Tenho, sim, contra as crenças em si, que são funestas pelos motivos já por mim apontados. Sinceramente, acredito que uma pessoa pode ser boa e ser profundamente religiosa, como pode haver ateus canalhas, e vice-versa. É por isso, aliás, que critico a religião - todas as religiões -: a moralidade e a ética podem perfeitamente prescindir da crença em Deus. Assim como a tolerância.
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3 - Não critico Rousseau e Platão por serem "totalitaristas" - o totalitarismo é um conceito do século XX, logo não haveria como criticar esses dois autores por isso sem cometer um anacronismo -, mas sim porque as idéias totalitárias encontram neles sua base teórica. É inegável que, com suas teses da "República ideal" e da "vontade geral", Platão e Rousseau lançaram as bases do que viria a ser, no século XX, as ideologias totalitárias (o comunismo, o nazismo e o fascismo), que sempre buscam justificar-se como formas de "democracia popular". Do mesmo modo, não se pode considerar Voltaire um democrata - ele era, isto sim, um aristocrata, para quem o povo era "a canalha". A diferença entre Voltaire e esses outros autores era que, ao contrário destes, Voltaire considerava como a base fundamental de qualquer regime político não o "bem comum" ou outra ficção do gênero, mas a liberdade de expressão e de pensamento. Ironicamente, o grande aristocrata tornou-se o maior defensor da democracia, enquanto autores "democráticos", como Platão e Rousseau, forneceram o substrato ideológico para o totalitarismo.
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4 - Sinceramente, não tenho uma resposta para a questão da falência da ONU, e que outro organismo internacional poderia substituí-lo - se eu tivesse uma resposta pronta sobre essa questão, eu seria provavelmente um esquerdista. Sei apenas que a ONU está falida como organização destinada a preservar a paz e a democracia no mundo, e que algo precisa ser feito a respeito. Sei também que, entre os EUA e países como o Sudão ou a Coréia do Norte, fico com o Tio Sam. Até que se encontre um caminho melhor, em que a palavra "multilateralismo" não seja uma desculpa para justificar regimes tirânicos e ditatoriais, os EUA continuarão a ser a polícia do mundo.
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5 - Quanto a Gandhi, critiquei-o num artigo sobre o Lula. O motivo foi o seguinte: tanto Lula quanto Gandhi são mais conhecidos pelo mito criado em torno de suas figuras do que pelo que realmente fizeram ou disseram. No caso de Gandhi, a brecha entre o mito e a pessoa de carne e osso é bastante grande para ser ignorada - lembremos que ele foi contra a guerra na Europa contra o nazismo, por exemplo. Além disso, sempre desconfiei dos pacifistas. Principalmente quando vejo que o pacifismo é, na maioria dos casos, um instrumento a serviço dos piores tipos de regime.
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Quanto a escolher entre Bush e Gandhi... francamente, acho essa comparação descabida. Creio que a melhor escolha não é entre Bush e o Mahatma, mas entre Bush e Saddam Hussein, ou entre Bush e o Talibã, ou entre Bush e Bin Laden. Nesse caso, minha escolha é clara e definida. Preciso dizer qual é?
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É isso. Espero que tenha esclarecido suas dúvidas.
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Um abraço.

quarta-feira, abril 30, 2008

UMA PEQUENA LIÇÃO DE HISTÓRIA


Fidel Castro e o premiê soviético, Nikita Krushev, 1961: o Brasil deveria ter votado a favor dessa aliança, diz atual Chanceler brasileiro

Estive ontem na cerimônia do Dia do Diplomata no Itamaraty, ocasião solene, seguida da formatura dos novos diplomatas. Estavam presentes o Presidente da República e o Ministro das Relações Exteriores, os quais, segundo o protocolo, discursaram na cerimônia. Fui para ouvir os discursos de Lula e do nosso Chanceler. O de Lula me decepcionou um pouco. Ele não estava em sua melhor forma. Como sempre faz nessas ocasiões, primeiro ele leu um texto previamente preparado, no qual, entre os rapapés de praxe, defendeu a atual política externa brasileira e respondeu as críticas ao programa brasileiro de biocombustíveis. Em seguida, fez seu já tradicional improviso, em que costuma soltar o verbo e a língua presa. Não estando num de seus dias mais inspirados, falou por cerca de trinta minutos, encerrando logo o discurso.
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A fala de Celso Amorim, por sua vez, chamou-me mais a atenção. Discursando de improviso, nosso Chanceler desfiou os costumeiros auto-elogios à atual política externa brasileira, cobrindo-a de adjetivos como "independente" e "altiva", e enaltecendo os princípios que, segundo ele, norteiam a conduta diplomática do governo Lula, quais sejam a não-interferência ("mas não indiferença", emendou) e o respeito à autodeterminação dos povos. Em certo momento, querendo fazer uma ponte entre a orientação atual da diplomacia brasileira e a Política Externa Independente do governo João Goulart, Sua Excelência fez menção a Francisco Clementino de San Tiago Dantas, Chanceler brasileiro no período. Mais especificamente, referiu-se a um episódio em particular: a atuação do Itamaraty, então chefiado por San Tiago Dantas, na Reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) ocorrida em Punta del Este, Uruguai, em 1962, que decidiu pela expulsão do governo de Cuba do sistema interamericamo. Segundo Celso Amorim, se tal reunião ocorresse hoje, o Brasil não deveria ter optado pela abstenção, mas sim votado contra a exclusão do regime de Havana da OEA.

Por coincidência, o assunto é tema de um dos capítulos do livro que pretendo lançar ainda este ano, sobre as relações - formais e nem tão formais - entre o Brasil e Cuba, de 1959 até o reatamento diplomático, em 1986. Logo, não posso ficar indiferente a essa referência histórica. Como ex-professor de História e estudioso do assunto, não posso deixar de apontar na declaração acima um forte viés ideológico - no caso, a favor da ditadura cubana. Vejamos.
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A VIII Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos, que se realizou em Punta del Este no final de janeiro e começo de fevereiro de 1962, foi convocada pela Colômbia no fim do ano anterior para discutir a permanência ou não do regime de Cuba na OEA, tendo em vista a transformação de Cuba num regime comunista. Em dezembro de 1961, Fidel Castro tornou irreversível essa sua decisão, ao se declarar, em discurso perante milhares de pessoas, um marxista-leninista "até a morte". Com isso, ele atirou ao lixo todas as promessas democráticas feitas no começo da revolução, e tornou oficial sua aliança com o bloco comunista liderado pela hoje defunta URSS. Na prática, ao se aliar a Moscou, Fidel Castro estava autoexcluindo-se da OEA.
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A situação de um Estado declaradamente marxista nas Américas criou um dilema para os demais países do continente. Liderados pelos EUA, a maioria deles se colocou frontalmente a favor da exclusão de Cuba do convívio continental. Para tanto, invocaram a Carta da OEA promulgada em 1948, que declarou o comunismo incompatível com os princípios democráticos do sistema interamericano, declaração confirmada em reuniões posteriores (Caracas, 1954; Santiago, 1959; São José da Costa Rica, 1960). Por esse mesmo princípio, argumentou-se, nenhum Estado da região poderia aliar-se, sob pena de expulsão, a uma potência extracontinental (no caso, a URSS). Na votação que se seguiu, o governo cubano foi expulso da OEA por 14 votos a favor, 1 contra e 6 abstenções (Brasil, Argentina, Uruguai, México, Chile e Bolívia). A declaração final da reunião, que o Brasil subscreveu, também aprovou uma moção de condenação ao comunismo, reafirmando o espírito da Carta da OEA.
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O voto brasileiro de abstenção na Reunião de Punta del Este foi alvo de fortes críticas no Brasil. Um grupo de ex-Chanceleres publicou inclusive uma nota no jornal O Globo criticando duramente a decisão. Em resposta, San Tiago Dantas teve de defender a posição do Itamaraty em relação a Cuba na TV e no Congresso Nacional. Sua argumentação foi essencialmente jurídica: embora condenasse o comunismo, declarando a preferência do governo brasileiro pela democracia representativa e sua crença na superioridade desse regime político, o então Chanceler adotou uma postura principista na Reunião, em defesa da não-interferência e da autodeterminação. Nesse sentido, apegou-se à própria Carta da OEA, que, se bem condenava o comunismo, não trazia nenhum instrumento jurídico que autorizasse a expulsão de qualquer de seus Estados-membros. Para que a exclusão de Cuba fosse juridicamente aceitável, argumentou San Tiago Dantas, seria preciso convocar uma nova Conferência da organização, e não uma Reunião de Consulta dos Chanceleres dos países americanos, como era o caso. O voto da delegação brasileira em Punta del Este sobre a questão cubana tornou-se um exemplo de argumentação jurídica na diplomacia brasileira, tendo sido exposto num livro clássico (Política Externa Independente, Civilização Brasileira, 1962).
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Juridicamente falando, não há como não dar razão a San Tiago Dantas. De fato, sua lógica jurídica é impecável. Pelo ineditismo da situação - nunca antes havia sido instalado um regime comunista no continente -, esta exigia, do ponto de vista do Direito Internacional, um tratamento especial. Mas nem por isso pode-se dizer que a posição brasileira no episódio, assim como em relação à questão cubana em geral, fosse inatacável. Na época, nem San Tiago Dantas, nem qualquer outro diplomata brasileiro conhecia ainda a real dimensão da intervenção cubana nos assuntos internos dos países latino-americanos. Hoje, porém, não há como usar o desconhecimento desse fato como argumento. Nove meses depois da reunião, em novembro de 1962, a intervenção de Cuba nos assuntos brasileiros foi revelada quando foram descobertos, nos escombros de um avião comercial da Varig que caiu em Lima, Peru, documentos secretos na mala de um agente cubano que comprovavam os laços de Havana com as guerrilhas das Ligas Camponesas. Esse apoio se realizava desde 1961, portanto antes da Reunião de Punta del Este. Antes e depois disso, o governo de Fidel Castro deu amplo apoio político, moral e material - na forma de dinheiro e treinamento de guerrilha, principalmente - a milhares de guerrilheiros latino-americanos que tentavam derrubar, por meio da violência e do terrorismo, os governos da região. E não somente governos autoritários, como as ditaduras centroamericanas e os regimes militares da América do Sul - algo que se tornou costumeiro dizer nas décadas seguintes -, mas também governos democraticamente eleitos. Por exemplo: em 1964, na reunião seguinte da OEA, os países da região concordaram em romper relações com Havana depois que foi descoberto, no ano anterior, um carregamento de armas provenientes de Cuba para os guerrilheiros castristas que lutavam contra o governo constitucional do presidente Rómulo Betancourt, da Venezuela. A abstenção brasileira em Punta del Este teve pelo menos o aspecto da eqüidistância em relação ao caráter ideológico do regime castrista e à sua aliança com a URSS. O voto contra, defendido retroativamente por Celso Amorim, teria o mesmo significado de um voto a favor dessa aliança e da ditadura - e, por extensão, da intervenção cubana no hemisfério.
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Essa pequena lição de História se faz necessária para colocar a frase de Celso Amorim em seu devido contexto. A decisão de expulsar Cuba da OEA, embora juridicamente discutível, foi acertada, pois Fidel Castro estava de fato interferindo abertamente nos negócios internos dos países da região, na forma do apoio a movimentos subversivos e revolucionários no continente. Logo, ao dizer que a atitude correta em relação a Cuba teria sido não a abstenção, mas o voto contrário à sua expulsão da OEA, Celso Amorim ou ignorou ou deu sua aprovação oficial às ações intervencionistas do regime de Fidel Castro, fartamente documentadas. Não há como não enxergar nisso uma boa dose de preferência ideológica pela ditadura dos irmãos Castro.
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A Política Externa Independente (PEI) de João Goulart e San Tiago Dantas e a atual política exterior de Lula e Celso Amorim têm em comum o fato de reivindicarem uma postura de independência ideológica e de pragmatismo nas relações com os demais países. Em comum, também, têm a dificuldade de dissimular um certo viés ideológico, que está em clara contradição com esse discurso e que se manifesta principalmente nas relações com vizinhos problemáticos. No caso da PEI, isso se expressou sobretudo na questão cubana, na qual o governo Goulart oscilou entre as pressões de grupos à direita e à esquerda, com esses últimos passando a ditar a agenda do governo em sua fase terminal. No caso do governo Lula, a diplomacia brasileira coloca-se cada vez mais a reboque de um projeto ideológico estranho ao interesse nacional, como demonstra a atitude tíbia e complacente, para dizer o mínimo, em relação às peripécias de Chávez, Morales e cia. - sem falar na Cuba castrista, onde, segundo o Itamaraty, não há nenhuma violação aos direitos humanos. Declarações como a de Celso Amorim sobre Cuba não deixam dúvidas quanto a isso. De não-ideológica, a política externa brasileira tem muito pouco.

terça-feira, abril 29, 2008

FORJANDO ZUMBIS

O Cego guiando cegos, de Peter Bruegel, o Velho (1588)

O professor Carlão é uma figura. Suas aulas são bastante animadas. Ele costuma ilustrá-las com danças e coreografias, além de uma linguagem, digamos, bem despojada. Tem musiquinha também. Suas performances são um sucesso. Não por acaso, seus alunos parecem adorá-lo. Ele é, como se dizia antigamente, um sujeito boa-praça, um cara legal. Uma figuraça, o Carlão.
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Carlão é professor de História no colégio Anglo de Tatuí, em São Paulo. Ele virou uma celebridade na internet. Tudo graças a um vídeo no Youtube, em que ele professa uma de suas - como direi? - aulas. Ele está falando sobre os EUA. Selecionei alguns trechos para vocês conferirem. Conheçam Carlão, professor de História, em toda sua forma:

- "a indústria alimentícia, a indústria de automóveis, a indústria de refrigerantes, a indústria de roupas está toda atrelada à indústria bélica. Isso todo mundo sabe." [sobre a indústria norte-americana]

- "Porque eles matam! Essa é a idéia da riqueza estadunidense. E eles matam, eles continuam matando. Porque é a principal indústria, porra! “Num” tem muito que se pensar."

- "E você não pode esquecer que tudo isso é mercado consumidor que acaba sendo gerado pras principais indústrias que apóiam essa mesma indústria bélica, porra!"

- "Eles conseguem controlar a mídia de uma tal forma, que nós acreditamos que tudo que o Jornal Nacional fala é verdade, que o Jornal da Record fala é verdade, que não existe um nazismo presente filtrando a porra das informações."

- "Você não consegue enxergar neles nada de errado, porque eles conseguem criar uma verdade pela mídia. Então mentem, sim. E mentem mais. E são várias pessoas que mentem."

- "E o pior é que não se dão por satisfeitos. Eles precisam humilhar, não só mentir. Não é? [mostra telão] E aqui, olha, puta que o pariu!, gosto tanto dessa cena, em Cabul, eu acho tão bonita! Aqui nós temos um monte de iraquianos, um estadunidense aqui, “uma” estadunidense, deve tá com uns quinze mão na chana dela, ela tá sorrindo de alegria, não é?"

- "como é que a gente pode continuar acreditando que um mundo melhor possa ser construído com a presença deles? Incomoda. Eu acho que é o mesmo que, talvez, os gregos pensassem dos romanos."

- "Porque aonde eles entram, entra o mercado também. Onde eles dominam, é um mercado que [inaudível]... E as indústrias estadunidenses patrocinam a guerra porque precisam de mercado consumidor."

- "A gente precisa dar uma basta, mas devagar, resistir, tentar se conter a tomar uma coca-cola. Eu sei que é difícil. É preciso pagar e deixar o Hollywood, o cigarro."

- "Por isso que eu tô fazendo uma homenagem a esse povo com as torres gêmeas."

É isso mesmo que vocês leram. Para o querido mestre, toda a indústria norte-americana - absolutamente toda - está atrelada à indústria bélica. Os EUA fazem guerras para garantir mercados consumidores (em Cabul e em Bagdá? Pois é...). A riqueza dos EUA é proporcional à miséria dos países pobres. "Eles" controlam ainda a mídia e tudo o mais. E etc. etc. Vai mais além: acha difícil um mundo melhor "com a presença deles" (do que se deduz que eles, os norte-americanos, devem ser exterminados?) e propõe um boicote aos produtos dos EUA. Além disso, Carlão não se faz de rogado: faz uma "homenagem" aos EUA, comemorando a queda das Torres Gêmeas, onde morreram cerca de 3 mil pessoas em 11 de setembro de 2001. Um grande humanista, esse Carlão.
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Esse tipo de propaganda antiamericana tosca está sendo ensinado nas escolas brasileiras como se fosse História. E com uma platéia cativa. Os alunos parecem embevecidos com as palavras de Carlão. No video, pode-se ver vários celulares levantados, registrando sua performance. Um exemplo de didatismo e seriedade no ensino de História, certamente.
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Retirei os trechos acima do blog do Reinaldo Azevedo, que transcreveu as melhores passagens da, digamos, aula de Carlão. Como não poderia deixar de ser, muitos alunos do professor bombardearam o blog com mensagens furiosas, protestando contra o que consideravam ser uma imagem errada do Carlão. Diziam, entre outras coisas, que o blog não teria captado o "verdadeiro" Carlão, como se o Carlão que estivesse no vídeo fosse outra pessoa (um clone, talvez?). Outros, ainda, escreveram para concordar com cada palavra de Carlão, sem dúvida um exemplo de profissional de ensino, capaz de instilar uma "consciência crítica" em seus alunos (é uma pena que essa tal consciência crítica não pareça vir acompanhada da simples obediência às regras da gramática... o que demonstra que ela vai bem além da crítica aos EUA, atingindo também a própria língua portuguesa).
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As, com o perdão da palavra, "aulas" de Carlão vêm comprovar aquilo que venho dizendo neste blog já há algum tempo: que a educação, no Brasil, de uns tempos para cá, tornou-se nada mais do que propaganda ideológica disfarçada (ou nem isso), sempre a serviço de "causas" antiamericanas e totalitárias. Não se trata de um fenômeno novo. Qualquer um que tiver mais de quarenta anos já foi vítima desse tipo de doutrinação por algum molestador juvenil travestido de educador. Carlão é apenas mais um exemplar dessa fauna. Como indivíduo, ele não é importante. Assim como ele, os Carlões da vida proliferam, tanto no ensino público como no privado, incentivados oficialmente por cartilhas ideológicas do MEC classificadas abusivamente de "livros didáticos".
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Sob a égide da doutrina marxista e gramsciana, as escolas brasileiras há muito se transformaram em verdadeiras madraçais, em que, em vez de História, ensina-se o ódio aos EUA e ao capitalismo. Há muito os slogans anticapitalistas, antiamericanos e antiglobalização tomaram o lugar de qualquer compromisso com a verdade e com o pensamento crítico, que foi totalmente abandonado pelos professores. Estes, embalados por coreografias e slides sensacionalistas, esforçam-se para transmitir a adolescentes de 18 anos uma visão de mundo retirada de velhos manuais marxistas. O resultado é que, em vez de estudantes preparados intelectual e moralmente para a vida, forjam-se anualmente milhões de zumbis, adestrados a repetir slogans e incapazes de um raciocínio próprio, até mesmo de pronunciar uma frase coerente, com sujeito e predicado. Graças aos Carlões do ensino brasileiro.
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Não digo isso por ouvir falar. Também já fui professor e, por coincidência, da mesma matéria ensinada por Carlão. Nessa condição, deparei-me com muitos alunos que estranhavam minha atitude de querer dar aula em vez de pronunciar discursos inflamados contra os EUA, o imperialismo e o "governo neoliberal de FHC" (era a época de FHC). Certa vez, fui, inclusive, quase agredido fisicamente por um bando de militantes profissionais, quando, cumprindo a vontade dos próprios alunos, insisti em dar aula durante uma greve na universidade (qualquer dia escreverei sobre isso aqui). Portanto, sei algo sobre o assunto. Via então, e continuo vendo hoje, aqueles alunos que me interpelavam como vítimas de um sistema educacional corrompido, destinado a formar militantes esquerdistas, e não cidadãos. O próprio Carlão, de certa forma, é uma vítima dessa máquina de moer cérebros. Quando estudante, certamente ele esteve sob a influência de algum militante fantasiado de professor, que lhe serviu de mestre. Ele apenas reproduz, em suas aulas-comício-espetáculo, o que sempre lhe foi ensinado em sala de aula.

O Anglo é uma escola particular, onde estudam os filhos da classe média. De lá sairão alguns futuros advogados e profissionais liberais do Brasil, inclusive professores. Pergunto: se é assim numa escola cara como o Anglo, em que supostamente existe algum tipo de controle de qualidade do que seus professores dizem na sala de aula, o que dizer do que acontece nas escolas da rede pública espalhadas por esse Brasil de Lula e companhia?

Esse é um retrato da educação brasileira.

segunda-feira, abril 28, 2008

ERRATA

Sua Majestade Fidel Castro Ruz em traje de dormir: o supra-sumo da humildade e do humanismo revolucionário

Penitencio-me perante os que lêem este blog por um pequeno erro que cometi em meu texto "Fidel, o Americanófilo", que publiquei aqui em 26/02 (ao contrário de muita gente, não vejo como demérito, mas como sinal de honestidade, admitir erros). No texto, afirmo que a retórica antiamericana do Coma Andante e serial killer do Caribe é uma farsa, pois, entre outras coisas, ele gostava de Coca-Cola, lia Hemingway e era fã de filmes de faroeste. Quanto aos dois primeiros, a afirmação procede. Mas não para os filmes de faroeste. Fidel nunca gostou desse tipo de filme.

Quem me chamou a atenção para esse detalhe foi o ex-analista da CIA Brian Latell, em um livro recentemente publicado no Brasil (Cuba sem Fidel, Editora Novo Conceito, 2008). Eu recomendo o livro. É uma das análises mais profundas que eu já li sobre a personalidade do tirano e de seu hermanito Raúl, que o sucedeu na chefia da castradura cubana. Latell, que foi analista da CIA para Cuba durante 30 anos (nossa, agente da CIA?! Pois é. Ao contrário do que pensam os esquerdóides, para quem só vale o ponto de vista a favor da ditadura cubana, isso, a meu ver, credencia-o para falar sobre a tirania castrista), vai fundo no estudo das motivações psicológicas do assassino em série. Quando analisa a infância e adolescência de Fidel, por exemplo, ele lembra que ele detestava filmes de faroeste e considerava o maior astro do western, John Wayne, uma figura ridícula. Sabem por quê?

O melhor vem agora. Fidel não gostava de faroestes por ter um gosto artístico refinado, ou por se solidarizar com os índios americanos, geralmente retratados de forma caricatural nesses filmes. Nada disso. Ele desprezava esse tipo de filme e os caubóis de Hollywood por um motivo, digamos, mais profundo, mais psicológico e pessoal: seus heróis sempre foram outros. Eram, para ser mais exato, figuras históricas como Napoleão, Júlio César e Alexandre, o Grande. Perto deles, figuras como John Wayne ou Gary Cooper pareciam, para o jovem Fidel, meros canastrões.

O detalhe não é insignificante. Revela bastante sobre a personalidade megalomaníaca e a ambição desmedida de Fidel Castro. Latell lembra que, entre os ídolos de infância e juventude de Fidel, jamais houve um líder democrata. Alguém assim como, por exemplo, um Churchill ou um Roosevelt (Fidel chegou a enviar uma carta a este último quando criança, mas muito mais para se gabar ante seus coleguinhas de escola do que por admiração genuína). Napoleão, César e Alexandre eram mais apropriados a seus sonhos de grandeza e poder, de fama e glória. Isso explica em muito sua trajetória posterior. Para Fidel, nada menos que o poder absoluto e sonhos megalomaníacos de grandeza parecem suficientes para seu ego gigantesco. Não por acaso, Latell lembra que, junto com Lênin, ele é o único líder dos últimos cem anos que jamais foi subordinado a alguém. Para ele, é o poder total, ou nada.

Jamais Fidel se sentiu atraído por representantes da democracia liberal, ou pelos instrumentos democráticos. Sua atração por líderes autoritários, seu pendor para a violência e a tirania, são traços marcantes de sua personalidade, em todos os momentos de sua vida. Nisso, o futuro ditador se mostrou, desde o início, bastante eclético ideologicamente. O livro de Latell recorda alguns fatos que, certamente, muitos dos admiradores esquerdistas de Fidel prefeririam ver esquecidos, ou desconhecem completamente: o que diria um Frei Betto, por exemplo, diante da revelação de que seu ídolo maior era um admirador entusiasmado do ditador Francisco Franco, da Espanha, ou que mantinha sempre à mão um livro com os discursos de Mussolini e de Hitler? A motivação essencial de Fidel, sua razão fundamental, sempre foi o poder. Nada menos que o poder. Poder absoluto.

Latell também se debruça sobre a personalidade de Raúl Castro. Ao contrário de Fidel, ele sempre se contentou com uma posição secundária. Raúl sempre se submeteu às decisões do irmão, que jamais foram contestadas. E uma das decisões que o ditador cubano se impõs é a confrontação com os EUA. A retórica antiamericana, afirma Latell, é uma verdadeira religião para Fidel e para o regime de Havana, que é totalmente dominado por um só homem. Daí porque a esperança de muitos analistas de que Cuba se torne, um dia, uma democracia sob a égide dos irmãos Castro é uma fantasia. Enquanto a sombra de Fidel pairar sobre a sociedade cubana, jamais a ilha se renconciliará com os EUA. Tudo isso por causa da megalomania narcisística de alguém que sempre se achou o Napoleão do Caribe, o Alexandre da América Latina.

Enfim, recomendo o livro de Brian Latell para quem quiser se aprofundar na história e na realidade do regime cubano e seu principal líder. É leitura bastante instrutiva, principalmente para a multidão de idiotas úteis e inúteis que insistem em enxergar no idoso ditador barbudo um "humanista", um líder do Terceiro Mundo inimigo do "imperialismo" e preocupado com o bem-estar de seu povo. Estes, certamente, vão ter uma surpresa nada agradável.

quinta-feira, abril 24, 2008

Sobre a diplomacia brasileira, Chávez e outros bufões

Recebi um e-mail de um amigo meu que, por motivos pessoais e profissionais (infelizmente o Itamaraty tem dessas coisas), pediu-me para permanecer anônimo. Ele discorda das opiniões do historiador Marco Antonio Villa sobre a política externa brasileira, expostas na entrevista que concedeu à Veja e que comento no post anterior. Aí vai o e-mail de meu amigo (em vermelho, minha resposta vai em preto):
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Gustavo, não gostei do texto não. Achei-o fraquinho, fraquinho! Eis alguns poucos comentários:
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* Ele (o autor) cria uma frase de efeito dizendo que se fosse hoje o Acre e Santa Catarina não seriam nossos, pra mais tarde completar que no caso de Santa Catarina (Questão de Palmas) "Não perdemos um hectare de terra". Ora bolas, esquece-se o cara de mencionar que no caso acreano, ao contrário de SC, Rio Branco cedeu território brasileiro em compensação à Bolívia e foi duramente criticado por isso, inclusive por figurões da época como Rui Barbosa.
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* O autor dá a entender que a diplomacia brasileira é muito molenga pra depois dizer que o caso dos espanhóis foi exagero.
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* O autor acusa Chávez de reivindicar dois terços da Guiana, deliberadamente omitindo que a reivindicação é venezuelana (e não pessoal de Chávez) e antecede o atual Presidente venezuelano em muitas décadas. Isso sem mencionar que o próprio Chávez já contemporizou com Georgetown a respeito do Essequibo.
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Há outras incongruências e exageros no texto, mas não pretendo me estender.
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As críticas que faço obviamente não significam que o autor tenha falado algumas verdades e acertado aqui e ali, mas pelo menos pra mim, comprovam que o texto não está com essa bola toda não, pelo contrário!
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Um abração,
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Em resposta a meu amigo, escrevi o seguinte:
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Caro XXX,
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Acho que você perdeu de vista o essencial do que o autor quis dizer:
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1 - Quando o Villa diz a frase de efeito sobre o Acre e Santa Catarina, ele se refere à política externa lulista, que subordinou o interesse nacional às conveniências ideológicas dos "companheiros". Isso ficou claro na questão do gás da Bolívia e vai se demonstrar agora, também, no caso de Itaipu, pode ter certeza. A analogia com o Acre e a Questão de Palmas, portanto, é a seguinte: se fosse um governo pusilânime e ideologicamente comprometido, como o de Lula, os dois estados seriam hoje parte da Bolívia ou da Argentina. Não tenho dúvida quanto a isso.
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2 - Quando o autor diz que a diplomacia brasileira é molenga e depois cita o caso dos turistas espanhóis, ele não está cometendo nenhuma contradição. Leia de novo a entrevista. Ele está chamando a atenção para o contraste da atitude do governo Lula em relação aos "companheiros" Chávez e Morales, por exemplo, e os governos de outros países. O autor deixa isso claro quando diz: "Ser duro com um turista espanhol é fácil. Quero ver ser duro com Hugo Chávez."
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3 - É verdade que a questão de Essequibo é anterior a Chávez, mas isso não muda muita coisa. A questão é que, por ser ele um bufão e um caudilho imprevísível, a qualquer hora ele pode invadir a Guiana e desencadear uma guerra na região. A reivindicação às Malvinas também era anterior à ditadura militar argentina. Basta um governo irresponsável e megalomaníaco - e um cordão de puxa-sacos continentais a bater palma ou a botar panos quentes em qualquer besteira que Chávez fizer - que o cenário pro desastre estará completo.
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Enfim, achei a entrevista muito boa, como disse. Achei fantástica a comparação do Marco Aurélio "top, top" Garcia com o Pacheco do Eça de Queiroz. Muito boa mesmo, apesar da ressalva à questão do Foro de São Paulo. Também não pude deixar de notar um pequeno erro que ele comete na última pergunta, quando diz que "pela primeira vez" a política externa poderá ser tema de eleição no Brasil - na eleição presidencial de 1960, a questão de Cuba dominou os debates eleitorais. Mas, feito o desconto, assino embaixo de tudo que ele disse.
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Finalizando
Meu amigo escreveu ainda: "discordo redondamente que no caso boliviano tenhamos 'subordinado o interesse nacional às conveniências ideológicas dos companheiros'. Pelo contrário, foram setores da imprensa e da opinião pública que tiveram uma reação desmedida, simplista e infantil!". Não sei que tipo de reação seria considerada apropriada no caso em questão. Sei apenas que "desmedida, simplista e infantil" me parecem adjetivos apropriados para definir a atitude de um governo que manda o exército invadir e ocupar refinarias pertencentes a outro país, num surto de nacionalismo bravateiro. Assim como simplista e infantil, para não dizer pusilânime, parece-me a falta de ação de um governo que, diante dessa tunga monumental, trata de pôr panos quentes, pois afinal o governo que encampou as refinarias é presidido por um "companheiro". Fica a pergunta: será que se o governo que mandou a tropa invadir as refinarias da Petrobras na Bolívia fosse presidido por um "neoliberal", e não por um parceiro das lides ideológicas, o atual governo brasileiro agiria - ou melhor, não agiria - da mesma forma? Eis a questão.
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P.S.: Só um pequeno detalhe histórico: ao se referir à questão do Acre, meu amigo lembra que o Barão do Rio Branco chegou a ceder territórios para a Bolívia, tendo sido duramente criticado por isso. É verdade, e isso só corrobora meu ponto de vista. Rio Branco, mesmo tendo garantido o Acre para o Brasil e feito uso da ameaça do uso da força militar contra a Bolívia, foi alvo de duras críticas de Rui Barbosa, por sua suposta "pusilanimidade" na questão. Isso demonstra quanto o governo Lula está distante da defesa do interesse nacional brasileiro. O que diria a Águia de Haia de um governo que cedeu tão abertamente a um outro governo que o insultou de forma tão acintosa? Isso demonstra até que ponto a ideologia, e não o pragmatismo, se apoderou da diplomacia brasileira. É uma pena.

terça-feira, abril 22, 2008

OS BUFÕES DA AMÉRICA

Leiam abaixo a entrevista publicada nas páginas amarelas da Veja com o historiador Marco Antonio Villa (edição de 16/04/08). É uma das coisas mais lúcidas que já li nos últimos tempos. Fez reacender em mim a esperança na minha primeira profissão, a de historiador, e na atual, de diplomata. Parece que nem tudo está perdido, afinal. Volto em seguida.
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O bufão da américa
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Historiador diz que Hugo Chávez, presidente da Venezuela, é perigoso por ser ambicioso e imprevisível
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Duda Teixeira
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"Se Lula tivesse sido presidente na República Velha, o Acre seria dos bolivianos e Santa Catarina, dos argentinos"
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O historiador Marco Antonio Villa já escreveu 21 livros, com temas que variam da Idade Média à Revolução Mexicana. Ao investir contra mitos da história nacional em suas obras e artigos, esse professor da Universidade Federal de São Carlos colecionou polêmicas e fez dezenas de inimigos. Sete anos atrás, tornou-se persona non grata no estado de Minas Gerais ao sustentar que Tiradentes foi um herói construído pelos republicanos. Mais tarde, causou comoção ao escrever que o presidente João Goulart, deposto pelos militares em 1964, preparava o próprio golpe de estado para obter a reeleição. "Os historiadores costumam ter receio de polêmicas, mas é com elas que se transforma a visão de mundo de uma sociedade", diz Villa, que tem 52 anos. Estudioso da diplomacia brasileira, ele vê com preocupação o sumiço da linha de diplomacia cunhada pelo barão do Rio Branco. "O barão profissionalizou o Itamaraty, que passou a atuar em busca dos interesses do país, e não de um governo ou partido." Em sua casa na Zona Norte de São Paulo, o historiador deu a seguinte entrevista a VEJA.
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VejaComo o senhor avalia a atual diplomacia brasileira?
Villa – Nossa diplomacia se esquiva de defender os interesses nacionais na América Latina. Teima sempre em chegar a um acordo e, como não consegue, acaba cedendo aos vizinhos. Se Lula tivesse sido presidente na República Velha, o Acre seria hoje dos bolivianos e Santa Catarina, dos argentinos. Por aqui se pensa que o Brasil não pode ter interesses nacionais ou econômicos na América do Sul, uma vez que estamos em busca de uma integração regional. É um equívoco. Os interesses do Brasil não são os mesmos da Argentina. Os objetivos do Paraguai não são os do Brasil. A linguagem amena, educada, usada pelos nossos diplomatas apenas tem fortalecido os caudilhos da região, como o venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales, que se acham com autoridade para falar ainda mais grosso e aumentar as exigências.
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VejaA diplomacia brasileira não era assim no passado?
Villa – Não. No fim do século XIX, a Argentina reivindicou o oeste do Paraná e de Santa Catarina. Não fazia o menor sentido. O presidente Prudente de Moraes, com a ajuda do barão do Rio Branco, resolveu a questão e evitou a doação da área. Não perdemos um hectare de terra. O barão sabia quais eram os interesses nacionais e os defendia. Além disso, profissionalizou o Itamaraty, que passou a coordenar uma política em nome do país, e não de um governo ou partido. Hoje, precisamos urgentemente que o barão do Rio Branco se incorpore no ministro das Relações Exteriores.
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VejaO Brasil cede sempre?
Villa – Só não o fazemos quando é impossível. Em negociações recentes com a argentina Cristina Kirchner e com Evo Morales, a Petrobras recusou-se a fornecer gás para a Argentina, que vive sob ameaça de um apagão. Se cedesse, o Brasil teria um grave desabastecimento. Nos outros casos, somos sempre fregueses. O Brasil já sofreu no passado uma invasão de produtos argentinos e ninguém reclamou. Quando a situação se inverteu e a balança comercial tornou-se superavitária para o Brasil, os argentinos chiaram e conseguiram o que queriam. Com a Bolívia, aceitamos uma indenização simbólica pelas refinarias nacionalizadas, a um valor muito aquém do que foi investido pela Petrobras. Com Hugo Chávez, falamos sempre "não" na primeira hora, depois dizemos "sim". Éramos contra o Banco do Sul. Hoje somos a favor. Fazemos o oposto do que recomendava Vladimir Lenin, para quem era preciso dar um passo atrás e depois dois para a frente. A diplomacia nacional dá um para a frente e dois para trás.
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VejaDeportar turistas espanhóis é uma resposta inteligente à repatriação de brasileiros que tentavam ir para a Espanha?
Villa – Foi um exagero. A política externa não é para ficar a cargo de um funcionário da Polícia Federal. As cenas dos espanhóis sendo deportados no aeroporto de Fortaleza são absurdas. Uma coisa é um turista que vai para Jericoacoara, outra é um brasileiro que, supostamente ou não, deseja trabalhar na Espanha. Quando faz diplomacia com a Europa, os Estados Unidos ou a Ásia, o Brasil tem sido muito agressivo. É como se o esforço para se afirmar como país, uma vez que não se realiza na América Latina, fosse todo desviado para os fóruns em outros continentes. Ser duro com um turista espanhol é fácil. Quero ver ser duro com Hugo Chávez.
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VejaChávez é o grande líder da América Latina?
Villa – Quando se olha o que ocorre com os mais de vinte países da região, não há dúvida disso. Com a alta do preço do petróleo, Chávez construiu uma sólida rede de alianças. Foi uma sucessão de vitórias. Tem o apoio de Cuba, Nicarágua, Equador, Bolívia, Argentina. Quem está do lado do Brasil? Ninguém. Chávez é um ator que faz um monólogo. Eventualmente alguém da platéia sobe no palco e participa. O show é dele. Ele determina o que vai ser discutido e como. Os outros só correm atrás. Os países que estão se aproximando do Brasil, como Paraguai e Peru, fazem isso apenas porque não tiveram ainda um estabelecimento de relações com a Venezuela. A história talvez comece a mudar agora. Não por obra de Lula, evidentemente, e sim de Álvaro Uribe, o presidente colombiano. Graças a ele, Chávez teve sua primeira derrota em política externa. A reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), que colocou panos quentes na discussão que se seguiu à morte do terrorista Raúl Reyes, pode sinalizar um futuro diferente.
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VejaPor que o senhor considera que Chávez perdeu?
Villa – Chávez é um caudilho e, como tal, precisa de um palanque para discursar. Quando reagiu com firmeza à morte de Raúl Reyes no Equador, ganhou um palco considerável. Só que durou pouquíssimo tempo. A solução rápida e eficaz do problema pela OEA, que estava sumida do mapa, tirou essa oportunidade dele. Chávez resignou-se porque a maioria dos países apoiou a resolução final, que condenava a invasão territorial no Equador e ao mesmo tempo acusava a presença das Farc naquele país. Uribe, ao pautar as negociações que esfriaram o conflito, mostrou que é possível dar um basta a Chávez. Sua atitude terá um impacto pedagógico até mesmo dentro da Venezuela, onde o povo tem aceitado as precárias condições internas do país ao ver que, externamente, seu presidente só obtém vitórias. Chávez teve sua primeira grande derrota no referendo constitucional. Agora, teve a segunda derrota, dessa vez em política externa.
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Veja Por que o discurso é tão importante para um caudilho?
Villa – Um caudilho não vive sem a oratória. O programa dominical Aló Presidente é o que vitamina Chávez. Fidel Castro adora discursar por horas. O mexicano Antonio López de Santa Anna foi ditador várias vezes, afundou seu país e, ferido e pensando que ia morrer, ditou suas últimas palavras. Foram quinze páginas. No fim, sobreviveu com uma perna amputada, que sepultou com honras militares. A oratória é uma tradição latino-americana, que ocorre paralelamente à dissociação entre discurso e prática. Para esses homens e para as suas platéias, é como se as palavras, sozinhas, tivessem um poder de mudar a realidade. Pura bobagem. Não existe tal mágica. Lula também aposta nesse artifício. Acha que ao divulgar o programa do PAC pode transformar o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em um bairro residencial em seis meses. Para os sucessores, a herança desse tipo de comportamento é terrível.
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VejaPor que os latino-americanos possuem o vício da oratória?
Villa – Em parte, há na América Latina uma forte tradição do bacharelismo. Muitos dos presidentes passaram por faculdades de direito. No Brasil, Getúlio Vargas e Jânio Quadros são exemplos. Epitácio Pessoa era chamado de "A Patativa do Norte", em referência a uma ave cantora. Fidel Castro foi advogado. O argentino Juan Domingo Perón não era, mas a maioria dos seus auxiliares, sim. Para um advogado, o que importa não é a legitimidade da causa, mas o nível de retórica do advogado para defender seu acusado. Somos muito marcados por isso.
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VejaQual é o maior perigo de Chávez para o resto da América Latina?
Villa – Ele está armando seu Exército e sua população. Compra fuzis, caças e faz acordos com o Irã. Ninguém parece levar isso a sério. A diplomacia brasileira sabe disso e vai contornando a situação. Uma hora Chávez vai invadir a Guiana. Ele reivindica quase dois terços do território desse país. Para Chávez, a Guiana é uma aventura fácil. E quem vai defendê-la? O que a Guiana conta na América do Sul? Nada.
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Veja Chávez reagiu ao ataque colombiano às Farc no Equador com um discurso em defesa da soberania nacional. Ele invadiria a Guiana?
Villa – Chávez é um bufão. Ele construiu um personagem. É um militar de boina vermelha que se emociona, chora e canta em público. Em um momento é simpático. No minuto seguinte, aparece totalmente irado. O bufão é isso. Nunca se podem prever suas atitudes. Pode abraçar um crítico ou mandá-lo para a prisão. Suas atitudes não se regem pelo mundo racional. O bufão trabalha em outro universo.
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VejaPor que Chávez defende as Farc?
Villa – Seu objetivo é enfraquecer Álvaro Uribe. Chávez vê de forma simplista a conjuntura latino-americana. O mundo para ele se divide de uma maneira muito primária: os que estão com ele e os que estão com os Estados Unidos. Considera que o presidente da Colômbia é um agente imperialista na América do Sul. O combate às Farc tem sido uma das mais fortes bandeiras de Uribe.
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VejaÉ legítimo usar grupos armados ou políticos de outros países para causar instabilidade?
Villa – Há uma incompatibilidade em defender a soberania e apoiar materialmente um movimento terrorista em um país vizinho. No Brasil, tivemos uma história parecida. No governo de João Goulart, as Ligas Camponesas tinham meia dúzia de campos guerrilheiros e contavam com o apoio financeiro cubano. Quando se descobriram os campos, foi um escândalo. Vivíamos um regime democrático e o governo brasileiro manifestava-se contrário à expulsão de Cuba da OEA, enquanto Cuba violava a soberania brasileira apoiando um movimento guerrilheiro que rompia com a legalidade constitucional. A defesa da soberania só valia para os cubanos. Eu imaginava que essa prática de violação da soberania fosse página virada da história latino-americana. Ledo engano.
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VejaChávez foi o grande pacificador do conflito entre Colômbia e Equador, como disse Lula?
Villa – Não há nenhum fato que comprove isso. Os documentos que estavam no computador do guerrilheiro Raúl Reyes ainda mostram que Chávez apoiava financeiramente as Farc e também recebia ajuda dos narcoterroristas. Isso não tem nada a ver com paz. Lula não tinha por que falar isso. Diz essas asneiras porque está em um momento especial. A economia vai muito bem, o que levou Lula a entender que ganhou um salvo-conduto para reescrever a história do Brasil. Discursou homenageando Severino Cavalcanti, que renunciou quando se comprovou que ele recebia um mensalinho de 10.000 reais para deixar um restaurante funcionando na Câmara dos Deputados. Dois dias depois, defendeu sua amizade com Renan Calheiros, que teve suas contas pessoais pagas por um lobista. Quando falou de Chávez, Lula disse que ele era um ex-guerrilheiro. Lula sabe que essas coisas não são verdade. Não é ingênuo e é bem assessorado. Mas fala como se fosse um iluminado. É um líder messiânico em plena campanha eleitoral. Os professores de história devem estar arrepiados.
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Veja Qual é a importância do Foro de São Paulo na condução da política externa brasileira?
Villa – O Foro de São Paulo é um clube da terceira idade. Basta ver as fotos. São senhores em idade provecta, como se dizia antigamente. São provectos também no sentido ideológico. Suas idéias pertencem ao passado. Não creio que tenham uma estratégia revolucionária para a América Latina tal como foi a Internacional Comunista. Durante o período da União Soviética, os partidos comunistas espalhados pelo mundo eram braços da política externa soviética. O Foro de São Paulo não tem esse poder. Sua maior influência se dá pela pessoa de Marco Aurélio Garcia, assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, que tem grande participação no Foro.
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VejaQual é a relevância de Marco Aurélio Garcia nas relações externas?
Villa – Desde o início da República, não há registro de um assessor com tanto poder como ele. Garcia aparece nas fotos quase sempre atrás de Lula. Dá pronunciamentos em pé de igualdade com o ministro das Relações Exteriores ou o secretário-geral do Itamaraty. Marco Aurélio Garcia é considerado um grande acadêmico, um gênio, uma referência para qualquer estudo sobre relações internacionais na América Latina. Curioso é que não se conhece nenhuma nota de rodapé que ele tenha escrito sobre o tema. Fui procurar seu currículo na plataforma Lattes, do CNPq. Não há nada sobre ele. Marco Aurélio Garcia é o Pacheco das relações internacionais.
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VejaQuem é o Pacheco?
Villa – É um personagem de Eça de Queiroz que aparece no livro A Correspondência de Fradique Mendes. Pacheco era um sujeito tido como brilhante. No primeiro ano de Coimbra, as pessoas achavam estranho um estudante andar pela universidade carregando grossos volumes. No segundo ano, ele começou a ficar mais calvo e se sentava na primeira carteira. Começaram a achar que ele era muito inteligente, porque fazia uma cara muito pensativa durante as aulas e, vez por outra, folheava os tais volumes. No quarto ano, Portugal todo já sabia que havia um grande talento em Coimbra. Era o Pacheco. Virou deputado, ministro e primeiro-ministro. Quando morreu, a pátria toda chorou. Os jornalistas foram estudar sua biografia e viram que ele não tinha feito nada. Era uma fraude.
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Veja Que conseqüências a política externa do Brasil pode ter no futuro?
Villa – Pela primeira vez na história do país existe a possibilidade de a política externa tornar-se tema de eleição. Seria algo realmente inédito que, para acontecer, só depende de como Chávez vai agir nos próximos anos. As concessões dadas à Bolívia, os diversos acordos com Chávez e a recusa em classificar as Farc como um grupo terrorista estão provocando muita crítica dentro do Brasil e podem juntar-se em um único e potente tema central na próxima campanha presidencial.
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Comento
A VEJA acertou em cheio, mais uma vez. A entrevista com Marco Antonio Villa lavou a alma de muita gente, com o historiador dizendo aquilo que muitos dentro e fora do Itamaraty têm coragem apenas de pensar (sei disso por experiência própria). É sempre reconfortante ver um historiador desafiar os velhos mitos e lugares-comuns esquerdóides que passam, há décadas, por História nas escolas e universidades. Sua análise sobre a atual política externa lulista é certeira, assim como sua abordagem sobre o bufão Hugo Chávez e seus asseclas. Assino embaixo.
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Faço apenas uma pequena ressalva. Quando fala do Foro de São Paulo, Villa destoa um pouco do restante da entrevista, no mais excelente. Sim, o Foro é um clube da terceira idade, e suas idéias também são provectas. Quanto a isso, não resta a menor dúvida, e estou de pleno acordo. Mas isso não significa que se deve menosprezá-lo e subestimar sua importância. O Foro de São Paulo não é apenas uma reunião de velhotes gagás, é uma organização revolucionária, criada em 1990 por Lula e Fidel Castro para "restabelecer na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu". Como tal, não é um simples fórum de debates (fórum de debates com resolução? Onde já se viu isso?), mas possui, sim, uma estratégia revolucionária para a América Latina, tal como tiveram no passado a OLAS e a Internacional Comunista. O próprio Lula já admitiu isso publicamente, em discurso proferido em 2/07/2005, quando confessou que o Foro, como um "espaço de articulação estratégica" das organizações de esquerda latino-americanas (inclusive as FARC), foi utilizado para garantir, de forma subreptícia, a vitória de Chávez no plebiscito de 2004 na Venezuela, que o confirmou no poder. A América Latina, após o fim do comunismo no Leste Europeu, tornou-se um laboratório de teste das ideologias totalitárias mais toscas e atrasadas. O instrumento pelo qual essas ideologias se manifestam e são implementadas é o Foro de São Paulo.
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Não se trata, portanto, de algo inofensivo. A diferença do Foro de São Paulo em relação a outras organizações revolucionárias anteriores é que estas foram levadas a sério em sua época. O Foro se beneficia do fato de que a maioria das pessoas, inclusive gente lúcida e inteligente como Marco Antonio Villa, não despertaram ainda para o perigo que ele representa para a democracia no continente. Se o fizessem, perceberiam que a ascensão de governos populistas e antiamericanos nos últimos dez anos na região - Chávez na Venezuela; Morales na Bolívia; Lula no Brasil; Correa no Equador; Ortega na Nicarágua; e agora Fernando Lugo no Paraguai - não é mera coincidência.
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No mais, não há o que reparar na entrevista. A subestimação da ameaça representada pelo Foro de São Paulo não deve ser motivo de desânimo para ninguém. Basta lembrar que durante mais de quinze anos a grande imprensa simplesmente ignorou por completo o assunto, chegando ao ponto de muita gente negar categoricamente que o Foro existia, penalizando quem ousava dizer o contrário (vide Olavo de Carvalho). Agora o tema é discutido abertamente nas páginas amarelas da Veja. Não dá para negar que é um avanço e tanto.