terça-feira, fevereiro 26, 2008

FIDEL, O AMERICANÓFILO


Na foto, o carniceiro-mor e terrorista heróico Che Guevara apreciando um pouco o gosto do imperialismo ianque: antiamericanismo para brasileiro ver
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Em sua última "Reflexão" publicada em seu jornal oficial Granma, o Coma Andante e mentiroso profissional Fidel Castro, que mais uma vez conseguiu enganar a todos com sua renúncia de mentirinha (continua no controle do Partido Comunista, que detém o verdadeiro poder em Cuba), escreveu o seguinte:
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"Eles [os EUA] falam em mudança. Mudança, mudança, mudança. Concordo que é preciso haver mudança. Mas nos Estados Unidos."

A frase é importante. Leiam-na de novo. Mais uma vez. Memorizem-na. Seu significado pode ser traduzido da seguinte maneira: "Nós, cubanos, somos um povo soberano. Tão soberano que, se quisermos ter democracia um dia, dependemos dos EUA. Podem tirar o cavalo da chuva: enquanto a camarilha castrista estiver no poder em Cuba, quem manda nos destinos da ilha não são os cubanos; é o Departamento de Estado, é Rice, é Bush."

Perceberam o paradoxo? Fidel Castro, o líder do antiimperialismo na América Latina (como disse Oscar Niemeyer), o herói da luta contra a opressão e a arrogância imperial norte-americana, é um ardente seguidor do imperialismo ianque. Isso mesmo. Você leu certo. Fidel é um agente da Casa Branca, um americanófilo, um lacaio de Wall Street.

Onde isso mais se verifica é na forma como o tirano caribenho manipula a questão do "bloqueio" norte-americano à ilha (na verdade, um embargo). Há mais de 40 anos Fidel repete sem cessar que o tal "bloqueio" é a causa de todos os males de Cuba, da falta de sabão em pó até o caráter ditatorial do regime. Tal "bloqueio", como já disse antes, é uma farsa, uma ilusão, pois Cuba mantém relações comerciais normais com a maior parte dos países do mundo, e inclusive com os EUA, que enviam US$ 1 bilhão à ilha todo ano por meio dos exilados anticastristas. Mas isso não importa para os apoiadores do ditador. O "bloqueio" é um bode expiatório, o álibi perfeito. Se o ambargo não existisse, Fidel o faria existir.

Mas e os slogans do regime? E os quase cinqüenta anos de propaganda oficial cubana? E os discursos longuíssimos do "líder máximo" esbravejando contra o "bloqueio" dos EUA à ilha? Encenação, pura encenação. Farsa para inglês - ou brasileiro - ver. Fidel Castro é tão antiamericano quanto foi, um dia, anti-soviético ou anti-torcida do Fluminense. Trocando em miúdos: o antiamericanismo, em seu regime farsesco, não passa de um instrumento ideológico da ditadura, uma forma de garantir seu controle absoluto sobre a população.

A dependência castrista dos EUA revela-se em praticamente toda ação, toda iniciativa do regime cubano. A lógica do confronto, do enfrentamento, foi o caminho escolhido por ele, Fidel, e agora repetido por seu pupilo Hugo Chávez, para se estabelecer e se eternizar no poder. Afinal, a invenção do inimigo externo, para um ditador, é algo essencial. Com base nesse discurso, ele pode aparecer como "defensor da pátria" e, ao mesmo tempo, meter na cadeia todos aqueles que possam constituir um obstáculo à ditadura, juntando a paranóia à ânsia pelo poder. É provável que, se os EUA não tivessem patrocinado a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e a CIA não tivesse tentado matá-lo 636 vezes nos anos 60, ele teria forjado a invasão e os atentados apenas para ter a quem culpar por seus desmandos.

Assim, sempre que é defrontado com o imperativo moral de acabar com a censura e permitir eleições livres e plurais, o tirano trata imediatamente de condicionar qualquer abertura na ilha-prisão à medida semelhante nos EUA. Alguém pediu liberdade na ilha para os presos políticos? Os EUA devem libertar os "cinco heróis" detidos há alguns anos nos EUA por espionagem. Falou-se em liberdade de imprensa em Cuba? A imprensa norte-americana é dominada por uma "ditadura do dinheiro". Defendem a realização de eleições livres e plurais? Os EUA são uma democracia "de fachada". Fim das violações aos direitos humanos e das perseguições aos dissidentes políticos? Fechem a base militar de Guantánamo, gritam os castristas (enquanto isso, há umas duzentas Guantánamos em Cuba, mas ninguém liga). E assim por diante.

Mas Cuba não é um país soberano? Aí é que está. Em todas as suas declarações, o ditador faz questão de reafirmar a soberania de sua ilha-cárcere. Diz que o país tem orgulho de sua Revolução, que não se renderá jamais etc., etc. Um verdadeiro cabra-macho, esse Fidel. Mas, na verdade, é tudo jogo de cena, é tudo falso. A principal característica da soberania é a possibilidade de um país decidir livremente sobre seu destino. Se Cuba fosse realmente um país soberano, não dependeria do que ocorre em Washington para decidir seu futuro. Se fosse realmente independente, não condicionaria qualquer mudança na ilha a nenhuma mudança nos EUA. Não faria esse tipo de chantagem, procurando politizar a questão. Mais importante que isso, se Cuba fosse realmente um país soberano, seu povo não estaria manietado por um tirano que se eterniza no poder há 49 anos. Ao mesmo tempo em que, em seu discurso, brada sua soberania diante do "império", Fidel a nega, subordinando qualquer passo que venha a dar na ilha à decisão da Casa Branca.

Muitos ainda acreditam que foram os EUA que, com sua política hostil e desastrada, empurraram Cuba para o lado do comunismo e da ex-URSS. Já falei aqui que isso é um mito, entre os muitos mitos e falsidades alimentados pela ditadura castrista. Agora, no ocaso de seu poder e de sua vida, o tirano se aproveita de mais essa mentira para tentar vender a idéia de que Cuba hoje só não é uma democracia porque os EUA não querem, porque os EUA não deixam. Não caiam nessa. Cuba só é uma ditadura, e continuará a ser uma ditadura, por única e exclusiva vontade de Fidel Castro - com uma mãozinha, claro, de seus inúmeros amigos, como Chávez e Lula.

Fidel deve tudo aos EUA. Inclusive o poder. Quando estava em Sierra Maestra, contou com o apoio mais ou menos velado da CIA e do Departamento de Estado, que desconfiavam do ditador Fulgencio Batista e viam o jovem líder guerrilheiro barbudo como uma alternativa democrática para a ilha. Um correspondente do The New York Times, Herbert L. Matthews, subiu a serra para encontrar-se com Fidel, então dado como morto após o desembarque do Granma, e voltou alardeando que o guerrilheiro era um líder democrata e não-comunista. Quando as forças rebeldes entraram em Havana, em janeiro de 1959, contavam com o apoio e a simpatia não só da população cubana, mas da opinião pública norte-americana, que, trabalhada pelas reportagens de Matthews, via Fidel como um herói romântico e dirigente democrático. Logo veriam quão democrático ele era, com os milhares de fuzilamentos e a anulação de todas as liberdades na ilha, que então se transformaria num Estado marxista sustentado pela URSS.

Os auto-proclamados antiamericanismo e antiimperialismo de Fidel são tão falsos e oportunistas quanto suas arengas por "mudança" nos EUA. Muita gente acredita que, após a "renúncia" fajuta do tirano, o caminho estaria aberto para que Hillary ou Obama, se eleitos, finalmente iniciem algum tipo de diálogo com Cuba, e que isso levaria à restauração da democracia na ilha. Tola ilusão. Se houvesse uma revolução nos EUA e o país se tornasse, hipoteticamente, uma república comunista, o Coma Andante daria um jeito de continuar a espinafrá-lo, apenas para desviar a atenção do que ocorre em sua ilha particular, transformada em verdadeira prisão para seus habitantes, há quase meio século. O curioso é que Fidel sempre foi um ardente admirador dos EUA. Seu primeiro contato com a política foi aos 13 anos de idade, quando enviou uma carta, em inglês cheio de erros, ao presidente Franklin Roosevelt, dos EUA, na qual pedia que este lhe enviasse uma nota de 10 dólares (já se antevia aí o futuro espertalhão). Na juventude, era um astro do beisebol, seu esporte favorito. Lia Hemingway. Adorava Coca-Cola e filmes de faroeste. Que tanta gente ainda se deixe levar por sua lábia é algo que desafia a compreensão humana.

Não é só Fidel que é dependente, política e psicologicamente, dos EUA. Os bocós esquerdóides que o idolatram, os Chicos Buarques e Luís Fernandos Veríssimos, também são. Assim como o ditador cubano, eles são fascinados pelo país do Mickey Mouse. E, assim como ele, falta-lhes um mínimo de honestidade intelectual para que o confessem.

CUBA NÃO ERA CASSINO, LULA

Notícia desta terça-feira, 26 de fevereiro, retirada do portal Terra. Meus comentários estão em preto.
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em Buenos Aires que a América do Sul precisa ajudar Cuba a se desenvolver nesta nova etapa pós-Fidel Castro, para que a ilha não volte aos tempos em que era "um cassino".
Vocês viram? De acordo com o Apedeuta, que é tão versado em história de Cuba quanto em língua portuguesa, a ilha era, antes de Fidel, "um cassino". Deve ter-se baseado em "O Poderoso Chefão 2" para dizer tamanha asneira. Primeiro, Cuba não era cassino coisíssima nenhuma. A capital, Havana, tinha sim muitos cassinos e cabarés, assim como o Rio de Janeiro nos anos 40, antes da proibição do jogo pelo Dutra. Mas isso não se estendia de maneira alguma à toda a ilha. Sem falar que o significado que se quis imprimir à palavra "cassino" - um lugar de jogatina e perdição, um paraíso da máfia e do turismo sexual, como se Cuba fosse "um bordel dos ianques" - esconde o fato de que a ilha, antes de Fidel ("nos tempos em que era um cassino", segundo Lula), tinha um dos melhores níveis de vida da América Latina. Ao contrário de hoje em dia: sob a gerontocracia cubana, a ilha transformou-se numa mistura de bordel para os turistas endinheirados e prisão para seu povo.

Em entrevista transmitida na segunda pela TV argentina, o presidente afirmou que na ocasião teve a impressão de que Fidel, que já estava afastado desde julho de 2006, continuava "lúcido politicamente".
Fidel, "lúcido politicamente"? Esse Lula é mesmo do balacobaco. A não ser que se considere um tirano assassino que se recusa a devolver o poder ao povo como "lúcido politicamente". A não ser que se considere lucidez política o apego desmesurado ao poder, a intolerância com dissidentes, a mitomania exagerada e o culto da personalidade. Nesses quesitos, o Apedeuta pode dizer que o Coma Andante é tão lúcido quanto a múmia esclerosada Oscar Niemeyer.

"Todos nós na América do Sul precisamos contribuir para que Cuba não volte a ser um cassino. Precisamos contribuir para que se aproveite todo o seu potencial intelectual, o potencial educativo do seu povo, e se transforme em um país mais próspero, mais desenvolvido", afirmou Lula ao canal de notícias TN.
Mais uma vez, Lula diz o seguinte: todos nós precisamos contribuir para evitar que Cuba volte a ter a 3. renda per capita da América Latina (hoje tem a 29a, inferior apenas a do Haiti), eleições livres, imprensa independente e sem censura. Precisamos contribuir para que a ilha não volte a ser o país que era antes de Fidel Castro ter-se apossado do poder, prometendo democracia e instaurando, em lugar desta, uma ditadura comunista que lançou um país antes próspero na mais completa indigência e desespero. Enfim, diz Lula, é preciso impedir que Cuba volte a ser uma democracia próspera, e continue a ser uma ditadura falida.
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"Estou convencido de que Cuba não voltará a ser o que era nos tempos de Fulgencio Batista. Cuba é um povo muito orgulhoso, extraordinariamente politizado, um povo com a formação adequada, e acho que vai se sair bem desta", acrescentou Lula.
E eu "estou convencido de que" Lula sabe tanto sobre o que era Cuba nos tempos pré-Fidel Castro quanto minha avó sabe sobre física quântica. Do contrário, ele saberia que o país era, antes de 1959, um dos mais prósperos e produtivos do continente americano, com níveis de desenvolvimento superiores, à época, aos da Espanha, sua antiga metrópole, e equivalentes à da Itália. Hoje, Cuba é uma sombra do que já foi um dia, uma ditadura totalitária que mantém um povo acorrentado à base de libreta de racionamento. Mesmo povo que Lula acredita ser "extraordinariamente politizado" e que teve "uma formação adequada", como se doutrinação ideológica obrigatória (ou seja: lavagem cerebral) e falta de liberdade de pensamento fossem sinônimos de politização e de formação adequada... Lula, Lula, você me mata.

"Acho que é assim que vamos ajudar Cuba: sem nenhuma ingerência política, e sim com muita vontade de ajudar os cubanos a fazer o que precisam que seja feito", concluiu. Esse Lula é demais. Primeiro, corrobora a versão oficial castrista da História de Cuba pré-Fidel, e manifesta todo seu apoio e admiração ao tirano do Caribe. Depois, diz ser contra qualquer ingerência política... É, ele realmente sabe "fazer o que precisa que seja feito". Impressionante.

Se antes eu tinha certeza de que o Apedeuta era um completo ignorante em Gramática e em História do Brasil, agora me convenço de que é também um parvo em História de Cuba. Deve ser porque seu conhecimento sobre o assunto é retirado de alguma cartilha de Frei Betto ou Emir Sader. Nunca na história deste país tivemos um presidente tão ignorante, tão farsante e tão amigo de um ditador.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Resposta ao leitor

Escreve um leitor, que assina como João, a respeito de meu último texto, "Fidel, o discurso isentista e a filosofia dos eunucos morais":

"Polêmico, com toda a certeza. Mas não me parece um "Inimigo da afetação de qualquer espécie, da arrogância, do esnobismo e de outras frescuras do tipo". A questão não é ser isento perante a questão do Fidel, mas a Veja nada mais é do que uma revista "afetada"; nada mais faz do que expor uma opinião com defesas fracas e sem base argumentativa. Liberdade de imprensa não é sinônimo de mediocridade de matéria."
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Comento:
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Caro João, você não leu errado. Sou, sim, um inimigo da afetação de qualquer espécie, da arrogância, do esnobismo e de outras frescuras do tipo. Continuarei a sê-lo. Esta é uma atitude minha em relação à vida, assim como o compromisso, que cedo me impus, com a verdade dos fatos. Quanto a isso, reafirmo o que está no meu perfil.

Pelo que eu entendi, você insinua que eu estaria em contradição com esse meu compromisso, quando diz que a Veja, que eu elogio em meu texto, é uma revista "afetada" (as aspas são suas), que nada mais faz senão "expor uma opinião com defesas fracas e sem base argumentativa". Concordo somente com a primeira parte de sua frase. Sim, a Veja é uma revista que tem opinião, e, ao contrário de nossa mídia "isentista" e "nenhumladista", não tem medo de expô-las. Discordo quando você diz que essas opiniões são "fracas" e "sem base argumentativa". Ao contrário do que você diz, no caso da "renúncia" do tiranossauro do Caribe a revista expôs suas opiniões de forma muito clara e com forte base de argumentação. Aliás, até agora não vi ninguém refutar nenhuma das afirmações da Veja sobre o ditador cubano e a tirania que ele impôs à sua ilha da fantasia. Não quer tentar fazer isso?
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Você diz que "liberdade de imprensa não é sinônimo de mediocridade de matéria". Novamente, sou obrigado a concordar apenas em parte, o que significa discordar em parte. Primeiro, porque, se você está se referindo à Veja, então tenho que discordar de sua opinião: de todas as revistas semanais de informação, a que mais se aproximou da verdade no caso de Cuba foi, sim, a revista dos Civita, como espero ter feito entender em meu texto. E segundo, porque, liberdade de imprensa, infelizmente, pode sim conviver com a mediocridade mais tacanha e o panfletarismo mais obtuso. Basta dar uma olhada no que faz a Carta Capital, por exemplo.

O que me irrita, João, é a desonestidade intelectual. Esta é, a meu ver, a pior forma de arrogância, o pior tipo de esnobismo. A Veja pode ser acusada de muita coisa, menos de esconder suas próprias opiniões por trás de um véu de "isentismo" e ambigüidade.
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Enfim, João, a questão É SE É POSSÍVEL SER "ISENTO" QUANTO À TIRANIA CASTRISTA. Afirmo que não. Afirmo que qualquer tentativa de relativizar o que acontece em Cuba, alegando neutralidade ou imparcialidade, é uma forma de compactuar com a ditadura. No caso da cobertura sobre a tirania castrista em Cuba, a Veja não fez isso. Optou pela honestidade intelectual, chamando pato de pato e cachorro de cachorro. Por isso merece meu aplauso.

FIDEL, O DISCURSO ISENTISTA E A FILOSOFIA DOS EUNUCOS MORAIS


Três das quatro principais revistas semanais brasileiras estampam em suas capas, nesta semana, o mesmo assunto: a "renúncia" do ditador Fidel Castro, após 49 anos no comando da ditadura comunista de Cuba. A Veja resume tudo na chamada: "Já Vai Tarde". A Época mantém o tom anódino e imparcial: "Depois de Fidel". Coerente com seu papel de porta-voz oficioso das esquerdas, a Carta Capital parece lamentar a saída do tirano: "Cuba sem Fidel". A Istoé preferiu falar de lipoaspiração.

As três capas sintetizam três posições da imprensa brasileira. Três atitudes diante de um ícone das esquerdas do século XX. Com exceção da Veja e outras publicações "de direita", a postura da mídia nacional ante o regime de Havana tem sido ou o alinhamento total (Carta Capital) ou a defesa da "neutralidade" (Época). Das três posições, o apoio incondicional e a "imparcialidade" denotam, apenas, canalhice ideológica ou desonestidade intelectual. Ponto para a Veja. Ponto para a verdade.

Não vou analisar aqui o ponto de vista de revistas como a Carta Capital ou a Caros Amigos - verdadeiros panfletos esquerdóides travestidos de jornalismo, comprometidos até a medula com a roubalheira dos petralhas. Não vou me sujar comentando esse lixo. Creio que as opiniões por elas emitidas sobre Fidel, terrorismo islâmico, o mensalão, o escândalo dos cartões corporativos, Chávez e Morales são por demais conhecidas e por demais pedestres para merecerem ser rebatidas. A própria realidade se encarrega disso, revelando o nível de degradação moral a que chegaram seus editores. Em vez disso, vou me concentrar na cobertura da chamada imprensa "neutra", ou "imparcial", sobre a saída de cena do tirano do Caribe.

A atitude "isentista" cultuada por parte da imprensa brasileira em relação à ditadura cubana não tem nada a ver com compromisso com a verdade. Muito pelo contrário. Trata-se de uma posição também ideológica, uma concessão inexplicável às esquerdas. No caso, uma posição ideológica meio envergonhada, de quem se acanha diante de fatos irrefutáveis e se empenha em defender o indefensável. Basta lembrar. Quase todas as reportagens ou artigos sobre Fidel Castro começavam com o mesmo bordão: "Para uns, um ditador; para outros, um benfeitor". Ou seja: lembrava-se da falta de liberdade em Cuba, dos fuzilamentos, das prisões de dissidentes, apenas para em seguida fazer a observação compensadora: sim, o regime é ditatorial, mas deixou um legado de conquistas sociais. Sim, o regime é assassino, mas deu saúde e educação ao povo. Como eu já comentei aqui, uma articulista da Folha de S. Paulo, jornal que se orgulha de sua posição "isenta" e "equilibrada", Eliane Cantanhêde, chegou a escrever que é preciso "preservar os ideais" do regime cubano. Em outras palavras: é preciso reconhecer, em nome da "isenção" e do "equilíbrio" jornalísticos, que o regime castrista tem lá suas qualidades. É uma ditadura, mas uma ditadura camarada, "boa", "do bem"...

Estranho discurso esse, o da "isenção" política. Digo estranho porque ele só costuma ser aplicado às ditaduras de esquerda. Esse tipo de filosofia de eunucos morais não costuma valer para ditaduras de direita, como a de Pinochet no Chile, que aliás já acabou faz tempo, ao contrário da de Cuba, que apenas mudou de mãos. Que jornalista "neutro" teria coragem de escrever que regimes como o dos generais chilenos ou os de Hitler e Mussolini deixaram um legado importante de avanços sociais e econômicos, dizendo que é necessário "preservar esses ideais"? Claro está que esse discurso ambíguo, quando aplicado à ditadura cubana, não se sustenta. Primeiramente, porque em nenhum lugar está escrito que renunciar à democracia é o preço a pagar por justiça social (fosse assim, a Costa Rica e o Chile de hoje, para não falar de países como a Suécia e a Dinamarca, seriam terríveis ditaduras). E, principalmente, porque os tão decantados "avanços sociais" da ditadura cubana não passam de uma farsa. Como sabe qualquer pessoa que estudou um pouco de história de Cuba, a situação econômica do país antes da chegada de Fidel Castro ao poder era das melhores na América Latina, inclusive na área social. Havia uma boa relação médico-pessoa na ilha antes de 1958, e o analfabetismo, que Fidel Castro diz ter sido de 50%, era na verdade de 22%, um dos menores índices nas Américas (o Brasil, para se ter uma idéia, tinha quase a metade da população analfabeta, no mesmo período). Nenhum desses alardeados avanços foi conquista da ditadura cubana. Pelo contrário: na saúde, por exemplo, que é o carro-chefe da propaganda cubana no exterior, o que se tem visto é o declínio das condições sanitárias da população e o aparecimento, nos anos 90, de doenças antes erradicadas, devido à deficiência no consumo de proteínas (os cubanos, com seu bom humor apesar de tudo, costumam dizer que, em Cuba, há três problemas: o café-da-manhã, o almoço e o jantar). Por sua vez, o sistema educacional cubano pode ser qualquer coisa, menos ideal: além de não se poder ler o que se quer por causa da censura governamental, os estudantes cubanos são obrigados a passar por verdadeiras sessões de doutrinação ideológica e lavagem cerebral (não admira, portanto, que os companheiros petistas queiram reproduzir por estas plagas o sistema cubano, com cartilhas marxistas ensinadas às crianças nas escolas). Pergunto: que "educação de qualidade" pode conviver com a censura e a impossibilidade de pensamento independente?

Mas onde a retórica "isentista" mostra toda sua parcialidade disfarçada a favor da ditadura castrista é quando se debruça sobre as causas da situação calamitosa da ilha-prisão. Em nove de cada dez análises ou artigos, culpa-se o embargo norte-americano (às vezes chamado, com boa ou má fé, de "bloqueio") pela situação de penúria e indigência do país. Desse modo, nossa imprensa "isenta" apenas reproduz o discurso oficial castrista, servindo de caixa de ressonância de suas mentiras, ao responsabilizar um fator externo, os EUA (sempre ele, claro), pelas mazelas produzidas pela própria incompetência do regime socialista. Em primeiro lugar, o embargo norte-americano não impede que a ilha comercie livremente com 179 países (dados do Ministério das Relações Exteriores de Cuba), nem que os EUA sejam hoje, embora por vias tortas, um de seus principais parceiros comerciais, com US$ 1 bilhão enviado anualmente pelos gusanos de Miami a seus parentes na ilha-cárcere - uma das principais fontes de renda do regime, ao lado do turismo e da exploração de níquel e petróleo. O racionamento de alimentos, uma das principais contribuições cubanas ao atraso secular da América Latina, data de 1962, em plena época das vacas gordas soviéticas. Durante mais de três décadas, de 1960 a 1991, Cuba foi sustentada por uma polpuda mesada da ex-URSS. Estima-se que a ilha tenha recebido em ajuda econômica de seus antigos patrocinadores soviéticos algo em torno de US$ 100 bilhões - dinheiro suficiente para alavancar a economia de qualquer país. E, no entanto, o que a ditadura de Fidel Castro deixou como legado? Um país arruinado, empobrecido e sem perspectivas.

Tudo que ditadores como Fidel Castro e seu irmão Raúl desejam não é a adesão incondicional dos formadores de opinião dos países democráticos a suas teses totalitárias: é a imparcialidade, ou "isenção" dos mesmos diante de seus crimes. Ao contar com esse tratamento diferenciado, os donos do poder em Havana poderão ficar sossegados, pois saberão que sempre haverá quem procure compactuar com a tirania. Ainda que Cuba fosse um paraíso da saúde e da educação (o que está bem longe de ser verdade), ainda que a ilha-presídio estivesse submetida a "um cruel bloqueio genocida do imperialismo" (o que também é falso), não haveria motivo algum para tamanha condescendência. É uma pena que revistas como Época e o governo do Brasil não enxerguem essa realidade.

Chamar o ditador e assassino em massa Fidel Castro de ditador e assassino em massa não é uma opinião. É um fato. Assim como chamar Hitler ou Stálin de tiranos e genocidas não é uma questão de ponto de vista, mas de respeito à verdade da História. Não pode haver neutralidade diante do crime e da mentira. Pedir "isenção" diante do estupro de um país inteiro, como o que ocorre em Cuba há 49 anos, não é deixar de tomar posição: é colocar-se ao lado do estuprador. Fidel já vai tarde. Ponto para a Veja.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

O BRASIL NÃO DEVE MAIS. APESAR DOS PETISTAS.

Deu nos jornais de hoje. O Banco Central anunciou que, pela primeira vez na História, o Brasil dispõe, em caixa, de mais dinheiro do que o necessário para pagar sua dívida externa. Daria para pagar a danada e ainda sobrariam uns 4 bilhões de dólares. De devedor, o Brasil é agora credor dos gringos.

A notícia é excelente. Finalmente nos livramos de um fantasma que assombrou gerações. A minha, por exemplo, que está na faixa dos trinta e poucos anos, cresceu ouvindo que a tal dívida era o maior entrave ao desenvolvimento do País. Acostumamo-nos a achar que ela era impagável. Lembro que, quando eu comecei a despertar para as coisas do mundo, lá pelos meados dos anos 80, havia poucas certezas na vida. Uma delas era que jamais veríamos o dia em que a dita dívida seria, enfim, coisa do passado. Era algo, se tanto, para os nossos netos ou bisnetos. Até que enfim nos livramos de um fardo. No entanto...

No entanto, "notícia boa demais a gente desconfia", como se diz em minha terra. No caso, não é a notícia em si, uma das melhores coisas que já aconteceram nos últimos tempos no Brasil, mas o que os atuais ocupantes do poder vão fazer com ela. Os lulo-petistas, claro, vão tentar capitalizar em cima da notícia. Vão dizer que o mérito é todo deles, que fizeram o dever de casa em economia. Lula vai aparecer na TV enchendo o peito, dizendo que "nunca na história defte paif" etc., etc. Não caiam nessa. É mais uma empulhação da quadrilha no poder.

O fim do problema da dívida externa não é uma vitória do governo Lula, nem dos lulo-petistas. É uma vitória da ortodoxia econômica. Quem tem memória lembra bem: os lulo-petistas sempre foram contra as políticas ortodoxas ("neoliberais") que permitiram o equilíbrio das contas públicas. Clamaram contra elas, quando estas começaram a ser aplicadas, durante o governo de seu rival FHC, treze anos atrás. Alegavam, demagogicamente, que tais políticas seriam "uma submissão aos ditames do FMI e do capital internacional". Uma vez no poder, porém, mudaram de discurso, mantendo a mesma política econômica que condenavam com tanto fervor na véspera. Sem confissão, nem arrependimento. Não por convicção, mas por puro oportunismo. Por pura demagogia.

O sucesso da política econômica de Mantega, Meirelles e cia. não se dá por causa dos petistas, mas apesar deles. Incapazes de apresentar coisa melhor do que a política de seus rivais tucanos, trataram de copiá-los. Não foram os lulo-petistas que criaram as condições para o sucesso dessa política ortodoxa. Apenas beneficiaram-se dela. Depois de terem tentado de todas as maneiras destruí-la, dela se apropriaram. Não podendo ter destruído a árvore em sua raiz, estão colhendo os seus frutos. O que chamam de sucesso é apenas a prova de sua desonestidade.

Assim como fizeram com a ética e com a democracia, os lulo-petistas aderiram à ortodoxia econômica por conveniência política, por oportunismo. Trata-se de uma adesão instrumental, e não filosófica. Se adotam uma linha econômica baseada em pré-requisitos como responsabilidade fiscal, metas de inflação e superávit primário, não é porque acreditam de fato nesses princípios, mas apenas porque os consideram um instrumento útil à conservação de seu poder. Este, sim, é o único compromisso dos lulo-petistas, sua única e real causa.

Nesse trabalho de enganar a todos, os lulo-petistas contaram também com uma boa dose de sorte. De fato, a sorte de Lula é impressionante. Durante seu governo, ele se beneficiou de uma maré extremamente favorável da economia mundial. Assim como Hugo Chávez, que se beneficia da alta dos preços do petróleo no mercado internacional para impor seu "socialismo do século XXI". Assim como seu colega venezuelano, Lula usa o capitalismo e a democracia para miná-los. E, assim como Chávez, ele não pode dizer que foi o criador dessa situação favorável.

Não há como negar também que as boas notícias na área econômica têm um lado negativo para os lulo-petistas. Até agora, por exemplo, não os vi comemorarem tanto assim a notícia de que o País é, enfim, dono de seu destino. Deve ser porque, com o problema da dívida enfim solucionado, não poderão mais botar a culpa pelos males do Brasil no FMI ou em outro agente externo. Não poderão mais defender a realização de um plebiscito em defesa do calote da dívida externa, como já fizeram antes. Terão que procurar outro bode expiatório. As elites ou a mídia golpista, quem sabe.

O que permite tamanha distorção da realidade pelos petralhas, além dos fatores citados, é uma boa dose de ingenuidade política por parte de seus críticos liberais. Estes tendem a absolutizar o papel da economia, acreditando que, basta o governo adotar uma linha ortodoxa, com resultados positivos, e provará ser um governo de gente madura e responsável. Não pode haver engano maior do que esse. O que esses senhores não entendem é que a economia não é um fim em si mesmo; é um meio para a conquista e manutenção do poder político. Se os petistas rezam, hoje, pela cartilha da ortodoxia liberal, isso não ocorre porque tenham se convertido ao credo da liberdade e da democracia, mas apenas porque esperam que tal política lhes garanta as bases materiais necessárias à implantação de um projeto totalitário de poder. Esse projeto pode muito bem conviver com uma política econômica capitalista, como demonstram os exemplos da China e do Vietnã. Na América Latina, seu principal instrumento de articulação estratégica é o Foro de São Paulo. Nele, o mesmo governo que é hoje louvado por seu "pragmatismo" e "responsabilidade" por muitos economistas cerra fileiras ao lado de ditadores como Fidel Castro e do narcotráfico internacional. Enquanto os banqueiros e financistas se mantiverem satisfeitos com os números da economia, não prestarão atenção a esse processo.

A História demonstra que encher os bolsos da burguesia é a melhor maneira de seus inimigos prepararem o golpe que a varrerá do mapa e lhes permitirá a conquista do poder. Foi assim na Rússia czarista, com a ajuda do Kaiser alemão a Lênin para derrubar o governo provisório de Kerensky. Foi assim na Alemanha, com parte da burguesia alemã apoiando os nazistas de Hitler. E é assim hoje, no Brasil, com o governo de Lula e dos petralhas. Enquanto esses burgueses estúpidos continuarem pensando com seus bolsos e suas barrigas, e não com suas cabeças, o triunfo definitivo dos inimigos da liberdade será só uma questão de tempo.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

MUNDO BIZARRO


Quando eu era criança, passava na TV um desenho animado do Super-Homem, no qual ele lutava com um seu alter-ego, chamado Bizarro. Bizarro era parecido com o Super-Homem, com a diferença de que fazia tudo ao contrário. Tinha, se não me engano, o "S" invertido no peito, inclusive. Se o Homem de Aço era o arquétipo do bom-moço, Bizarro era sua antítese. Era, digamos assim, um anti-Super-Homem, que usava seus superpoderes a serviço do mal. Bizarro habitava o planeta Bizarro, onde tudo acontecia às avessas do que se passava na Terra: os lixeiros se dedicavam a emporcalhar as ruas, em vez de limpá-las, e os policiais a soltar os criminosos, em vez de prendê-los. As leis existiam para punir as vítimas, e beneficiar os criminosos. Era uma espécie de Terra ao contrário, um espelho invertido. Um caos.
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Esta semana lembrei muito de Bizarro e de seu planeta. Quem me reacendeu essa lembrança proustiana de minha infância foi Lula. O Apedeuta deu mais uma contribuição à sua quase inesgotável lista de frases absurdas, ao dizer numa entrevista que espera que, após a renúncia de El Coma Andante Fidel Castro, os exilados cubanos em Miami não voltem ao pais para "criar uma situação de conflito" (não era bem isso que ele quis dizer, ele pensou um pouco antes de completar a frase). Em outras palavras, nosso Guia Genial formulou votos de que os 2 milhões de exilados desde que Fidel Castro tomou o poder, 49 anos atrás, não retornem a seu país, e que a sucessão em Cuba não resulte no fim da ditadura.

Lembrei-me quase imediatamente do desenho animado. Tal como o personagem Bizarro, Lula tem-se dedicado a defender, no caso de Cuba, tudo aquilo a que sempre disse se opor, e vice-versa. Lula, o líder democrata, o inimigo da ditadura militar, é hoje um dos defensores mais ardorosos de uma das ditaduras mais antigas do planeta. Lula, o ex-preso político no DOPS, o símbolo da luta pela anistia e pelas diretas-já, é um inimigo ferrenho da anistia e das eleições diretas em Cuba. Lula, o maior mito já criado pela imprensa livre brasileira, é um inimigo da liberdade de imprensa na ilha-presídio. Lula, o maior fenômeno das esquerdas brasileiras, surgido no mesmo ano da volta dos exilados brasileiros, é contra a volta dos exilados em Cuba. Lula é o Bizarro da política brasileira. Lula e os esquerdistas. Um bando de Bizarros, revirando latas de lixo e abrindo as portas das cadeias.

Mundo realmente bizarro esse das esquerdas, realmente estranho. Afinal, que esquerdista não uivaria de raiva e indignação ao ver alguém tripudiar dos exilados brasileiros, nos anos 70, dizendo que esperava que estes não voltassem ao país, pois poderiam "criar uma situação de conflito"? Quem, nas hostes de esquerda, não levantaria a voz para berrar contra atitude tão autoritária, de quem não deseja a volta da democracia e procura a todo custo evitar o retorno dos punidos pelo regime, para "evitar revanchismos"? Chico Buarque certamente escreveria uma música denunciando o autor de proposta tão indecente, tão nauseabunda e imoral, defendendo a volta do irmão do Henfil. O Pasquim publicaria páginas e páginas de sátira sobre o assunto, com certeza. E assim por diante.

O Planeta Bizarro dos nossos esquerdistas é Cuba. Tudo que eles sempre condenaram aqui com veemência - a repressão política, a prisão de dissidentes, as violações de direitos humanos, a pobreza generalizada -, lá eles defendem com igual fervor. Pense numa coisa, qualquer coisa, que os lulo-petistas sejam contra no Brasil, e eles serão a favor da mesma coisa em Cuba. Se aqui eles se dizem a favor da liberdade de expressão, e inclusive torram milhões numa TV estatal completamente inútil para, segundo dizem, "defender o direito do povo à informação", lá eles ignoram a falta de imprensa livre. Se aqui eles falam em democracia, lá falam em não deixar os exilados retornarem a seu país. Se aqui eles defendem os direitos dos cidadãos, lá fecham os olhos para a ausência de eleições livres e democráticas. E assim por diante.

O desenho animado me fascinava por causa da idéia de um mundo pelo avesso, de ponta-cabeça (ou de cabeça para baixo, como queiram), em que o claro se torna escuro, o certo se torna errado, o bem vira mal, e assim por diante. Na minha mente infantil, aquilo atraía pelo caráter absurdo, pela impossibilidade lógica. Hoje, percebo que tal realidade invertida não é tão impossível assim. Mundo bizarro, o das esquerdas.

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P.S.: Por falar em Chico Buarque, um dos mais conhecidos amigos e admiradores brasileiros do ditador renunciante, lembrei de uma música muita inspirada que ele compôs nos anos 70. O país era outro, o ditador era outro, mas quem pode dizer que a letra da canção não se ajusta perfeitamente a um certo país e a um certo tirano, para quem tanto ele quanto Lula batem palmas? Será que o Chico topa fazer um show nesse país, bancado pelo Ministério da Cultura de seu amigo Gilberto Gil? Vejam a letra e pensem a respeito:

Apesar De Você

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque

(Crescendo) Amanhã vai ser outro día x 3

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

(Coro) Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.
Você que inventou a tristeza
Ora tenha a finezade “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

(Coro2) Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.
E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

(Coro3) Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

(Coro4) Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La, laiá, la laiá, la laiá…….

REAÇÕES ABJETAS - II


Vocês têm acompanhado a cobertura da imprensa brasileira sobre a renúncia do tiranossauro Fidel Castro? Tirando uma ou outra coisa, grande parte poderia facilmente ser publicada no Granma, o jornal oficial do Partido Comunista Cubano. É sempre a mesma lengalenga sobre a "ambigüidade" de Fidel, uma figura-chave da História da América Latina no século XX e, ao mesmo tempo, um ditador que se perpetuou no poder e baniu as liberdades etc. e tal. É assim que tem se comportado a nossa imprensa chamada "isenta", que acredita ser possível manter-se "neutra" diante de um facínora e assassino em massa. A Folha de S. Paulo de hoje, 20 de fevereiro, por exemplo, publicou um artigo de Eliane Cantanhêde sobre o assunto (http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/elianecantanhede/ult681u374019.shtml). Como sempre faço quando leio algo do tipo, não resisti e fiz uns comentários, que seguem às frases da autora que mais me chamaram a atenção:

"Se Hugo Chávez é o maior e mais eficaz amigo de Cuba com seus petrodólares, Lula tem uma enorme vantagem sobre ele: além de aliado de Fidel e agora de Raul Castro, Lula mantém um diálogo maduro e próximo com os Estados Unidos. É assim com George W. Bush, certamente será assim com o sucessor --ou sucessora-- seja democrata, seja republicano".

De que "diálogo maduro e próximo" a autora está falando? Será que está se referindo ao mesmo presidente que já expulsou até um jornalista americano porque este teve a ousadia de comentar seus hábitos etílicos (mostrando também, com isso, todo seu amor à liberdade de imprensa, no que também se aproxima de seu ídolo Fidel Castro)? Ou, então, deve estar falando da política externa implementada pelo Itamaraty, uma mistura mal-ajambrada de megalomania terceiromundista e antiamericanismo de botequim que fez de tudo para ajudar a enterrar a ALCA, entre outras importantes conquistas da nacionalidade...

Eliane Cantanhêde pertence ao time dos analistas "sérios" que acreditam, sinceramente ou não, que o governo Lula é uma alternativa real à ditadura comunista de Fidel Castro ou ao caudilhismo populista de Hugo Chávez e Evo Morales. Certamente, não ouviu falar ainda do Foro de São Paulo ou, se já ouviu, faz-se de desentendida. Se olhasse a realidade mais de perto, perceberia que a aliança Lula-Fidel vai muito além de qualquer possibilidade - aliás, bastante remota - de "mediação" entre Cuba e os EUA. O objetivo de Lula não é mediar qualquer transição para a democracia na ilha: é garantir a sobrevivência da ditadura cubana.

"Como vão se comportar os "cubanos de Miami", que têm muito dinheiro e querem triturar todos os Castro com os próprios dentes? Os EUA, que empurraram Fidel para a órbita soviética e comunista, terão flexibilidade para abrir o diálogo e cancelar o embargo à ilha?"

A autora repete um dos estereótipos mais comuns sobre os opositores da ditadura castrista, que seriam todos gente endinheirada e que querem triturar Fidel e seu hermanito porque eles, afinal, tiveram a audácia de nacionalizar suas propriedades milionárias em nome da justiça social, vejam vocês... Basta olhar para o perfil médio dos exilados que se arriscam todos os dias em barcos improvisados tentando fugir da ilha-prisão para perceber que essa idéia é falsa. Outra coisa: não foram os EUA que "empurraram Fidel para a órbita soviética e comunista". Essa mentira, de tão repetida, já virou uma espécie de mantra, que até os inimigos de Fidel reproduzem. Já escrevi sobre isso antes neste blog, mas vou repetir: a comunização de Cuba não foi o resultado de nenhuma pressão externa dos EUA sobre Cuba. Foi Fidel, ansioso por poder, que manipulou a rivalidade entre as duas superpotências, os EUA e a URSS, para alijar os setores não-comunistas da Revolução Cubana e concentrar todos os poderes em suas mãos, instituindo sua ditadura pessoal. Vá estudar um pouco de História, Eliane Cantanhêde!

"Apesar disso [a fuga em massa de cubanos para o exílio], as análises confidenciais brasileiras, desde a época de FHC, são de que Fidel conseguiu manter expressivo apoio popular, sobrevivendo ao fim da União Soviética, à queda do Muro de Berlim e à crise econômica, que se tornou especialmente grave depois de 1995."

Sabe por que, apesar das dificuldades, Fidel "conseguiu manter expressivo apoio popular", Eliane? Porque conta com coisas como a G2, a polícia secreta, e os CDR, os Comitês de Defesa da Revolução, que mantêm controle total da sociedade cubana, por meio do terror absoluto. Porque não há nenhuma liberdade de expressão, a imprensa é completamente censurada, e qualquer um que ouse falar mal do tirano é jogado imediatamente no xadrez. Só por isso. Mas se você está mesmo interessada em saber se os cubanos amam mesmo o seu regime, então olhe para os milhares que fogem do paraíso socialista, votando com os remos.

"Fidel é o mito de gerações. Difundiu ideais de igualdade emocionantes que fizeram a cabeça de milhões mundo afora, enquanto determinou e conduziu uma prática política repressora das liberdades individuais que gerou oposição também em milhões mundo afora. Além de ter convivido com um embargo econômico cruel e inabalável durante décadas. Um embargo que derrubaria qualquer um, menos ele".

Poucas vezes vi tietagem tão explícita disfarçada de análise "séria". Vejamos quais foram os "ideais emocionantes" que o caudilho cubano difundiu: fuzilamentos, milhares de presos políticos, partido único no poder, ausência de todas as liberdades, paranóia e megalomania. Sem falar na destruição econômica da ilha, que ele transformou num porta-aviões da ex-URSS nas Américas. Emocionante, não? E os EUA ainda por cima impôem um "embargo econômico cruel" (pelo menos ela não falou em "bloqueio", já é alguma coisa) só pra prejudicar o Fidel, esse herói. Ah, esses gringos malvados e imperialistas... Mas ainda bem que Fidel é o "cara" e enfrenta os ianques. Como todos sabem, é só porque é "ele" que o embargo não o derrubou. Isso não tem nada a ver com o fato de que o tal embargo não impede o governo da ilha de ser paparicado por dezenas de governos ocidentais, como o do amigão Lula da Silva, não é mesmo? Claro que não, ora...

"O que se espera é que os ideais sobrevivam, amparados por bons índices de saúde e de educação, e que novos ventos acrescentem ao regime cubano modernidade, democracia e integração ao mundo. Manter o bom legado, passar por cima do mau legado".

Acho que aqui não precisa dizer muita coisa. Os votos de Eliane Cantanhêde de que os "ideais sobrevivam", e que os "bons índices de saúde e de educação" prossiguam demonstram a que vem a nossa imprensa quando trata de Fidel e de Cuba. Eis o "bom legado" deixado por Fidel, para ficarmos apenas nas duas áreas citadas: uma saúde sucateada, que já era boa antes do tirano chegar ao poder, e uma "educação" que não passa de doutrinação ideológica, nem sequer disfarçada, uma lavagem cerebral movida a slogans e panegíricos ao "máximo líder". É a teoria dos "dois Fidéis", o bonzinho, que dá saúde e educação ao povo, e o mauzinho, que lhe tira a liberdade. Fico aqui pensando... Será que alguém na nossa grande mídia teria coragem de dizer algo semelhante de um Pinochet, ou de um general Médici? Ah, essa nossa imprensa "séria e isenta"...

Não sei o que é pior: uma imprensa abertamente calhorda e alinhada com os donos do poder, ou uma que esconde suas preferências ideológicas alegando uma suposta "imparcialidade". Tem gente que acha possível ficar neutro diante do crime e da mentira. Tem gente que prefere esconder-se detrás de um véu de ambigüidade. Tem gente que acha impossível distinguir entre o certo e o errado, a verdade e a mentira, o bem e o mal. Eu, não.

REAÇÕES ABJETAS


Asquerosa. Nojenta. Abjeta. Repugnante. Horrível. Nauseante. Canalha.

Que palavra da língua portuguesa poderia melhor descrever a declaração do Apedeuta, quando perguntado por jornalistas qual sua opinião sobre a renúncia do tirano Fidel Castro? Depois de derramar-se nos elogios de praxe ao "mito vivo", Lula disse esperar que o fato abra caminho para uma transição pacífica etc. e tal, e, num arroubo de quase-sinceridade, deixou escapar que espera que a saída de cena do Coma Andante não permita que os exilados cubanos em Miami (dá uma risadinha meio irônica) não retornem à ilha para... (parou para pensar um pouco) para... "criar uma situação de conflito". Ufa!

A pequena pausa feita por Lula antes de terminar sua frase lamentável - mais uma para constar do bestialógio lulista - é quase tão reveladora quanto a frase em si, uma das coisas mais cínicas e nojentas que eu me lembro ter visto alguém dizer nos últimos tempos. Naquele instante, não mais do que uns cinco segundos, o Guia Genial se deu conta da enormidade do absurdo que estava dizendo e, tentando remendar o irremendável, saiu-se com o "criar uma situação de conflito". Aposto uma viagem para Havana no Aerolula que o que ele queria dizer, na verdade, era que esperava que a renúncia de seu ídolo Fidel Castro não levasse a que os exilados voltassem a Cuba para restaurar a democracia e o capitalismo na ilha-prisão, ajustando as contas com os carrascos castristas. Deve ter sido porque ele percebeu que não estava numa reunião do Foro de São Paulo, foi isso.

O que explica tamanha cretinice? A meu ver, apenas o fascínio de Lula e dos companheiros petralhas pela figura do ditador cubano, um dos maiores assassinos em série da história da humanidade, responsável pela ruína física e moral de um país inteiro para alimentar sua megalomania e gosto pelo poder. Para Lula, assim como para o serial killer do Caribe, todos os exilados cubanos - cerca de 2 milhões - são vermes, gusanos, mercenários a soldo do imperialismo e da CIA. Gente como o escritor Guillermo Cabrera Infante, falecido há alguns anos no exílio na Inglaterra. Ou Huber Matos, companheiro de luta de Fidel e Che Guevara em Sierra Maestra, hoje exilado na Flórida, que passou vinte anos preso em condições subumanas por não ter aceito a comunização da revolução que ajudou a fazer. Ou o escritor Reinaldo Arenas, já falecido, que passou anos preso nas masmorras fétidas da ilha pelo crime de ser homossexual (o que diriam os nossos militantes gays diante disso?). Ou o poeta Heberto Padilla, também já morto, forçado a abjurar toda sua obra e a denunciar em público vários colegas artistas e intelectuais, num espetáculo de degradação humana só comparável aos expurgos da era stalinista na ex-URSS. E Carlos Franqui, Norberto Fuentes, Raúl Rivero, Oswaldo Payá, Vladimiro Roca... Nomes que Lula certamente desconhece, ou, se conhece, despreza solenemente. Não importa que muitos deles tenham fugido em desespero de seu país, quando o viram transformado numa ditadura comunista. Não importa que tenham sido perseguidos e enjaulados como animais por pregarem a liberdade. O lado bom, o lado da humanidade, para Lula e a quadrilha que ele comanda, não são eles, é Fidel, é Raúl Castro. Estes sim, os verdadeiros heróis, para os esquerdistas.

Não vou lembrar aqui o que afirmei antes neste blog, inclusive com números, sobre a monstruosa farsa que é o regime cubano. Nem vou mencionar fatos que a esquerda há muito esconde, como a quantidade de mortos pela ditadura castrista. Quem tiver interesse em conhecer os números pode folhear O Livro Negro do Comunismo e refutar as informações lá contidas, se puder. Vou lembrar apenas que Lula e Fidel Castro são mais do que bons companheiros. São cúmplices. Não por acaso, Lula entregou de bandeja dois atletas cubanos que tentaram fugir da ilha-cárcere, no ano passado. Não por acaso, também, quando esteve em Cuba, em janeiro, não falou em nenhum momento sobre os mais de 250 presos políticos do regime. É que ele, Lula, é um dos carcereiros.

Outra declaração que me deu vontade de vomitar, embora não me tenha causado nenhuma surpresa pela personagem que a emitiu, foi de Oscar Niemeyer. Nosso gênio oficial consegue ser mais caquético do que o tirano cubano. Niemeyer, do alto de seus recém-completados cem anos de stalinismo e hipocrisia - deve tudo, para começo de conversa, a um conhecido anticomunista e apoiador do golpe de 64, Juscelino Kubitschek -, afirmou, gagá, que Fidel Castro é não somente o líder de Cuba, mas da América Latina inteira. Isso mesmo. Fidel, o novo Bolívar, o comandante de 300 milhões de latino-americanos contra o imperialismo ianque... O que devo concluir de tal afirmação? Que o tirano cubano é o maior benfeitor que apareceu no continente nos últimos cinqüenta anos, diz Niemeyer. Tão benfeitor que transformou um país que há cinco décadas tinha a terceira renda per capita da América Latina num escombro que hoje só perde para o Haiti. Em sua carta-renúncia, Fidel citou o arquiteto brasileiro, dizendo que é preciso ser conseqüente até o fim. Em outras palavras, que levará junto para o túmulo 11 milhões de indivíduos, se assim achar necessário para conservar seu poder, assim como estava disposto a levar a humanidade inteira na crise dos mísseis, em 1962, quando quase provocou uma guerra nuclear entre os EUA e a ex-URSS. Niemeyer, pelo menos, tem a desculpa da idade para dizer tais aberrações. Ao contrário de outros capachos do ditador, como Lula e Frei Betto. Estes se encaminham, céleres, para a senilidade niemeyeriana, prematuramente caducos.

Não sei o que será de Cuba quando Fidel Castro finalmente se for deste mundo, fazendo assim a alegria de milhões de cubanos exilados e de tantos outros milhões que querem juntar-se a seus parentes fora da ilha, ou que simplesmente sonham secretamente com o dia em que poderão dizer o que pensam. Pior do que com ele é que não poderá ficar. Sei apenas que quando esse dia chegar, não haverá lenços suficientes para enxugar as lágrimas que nossos esquerdistas verterão pela morte do adorado Líder Máximo. Com idiotas da estirpe de Lula e Niemeyer, o Brasil caminha a passos largos para descer cada vez mais na escada da inteligência humana.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A RENÚNCIA DO DITADOR NÃO É O FIM DA TIRANIA


Está em todos os jornais de hoje. Nesta terça-feira, 19 de fevereiro, Fidel Castro renunciou ao cargo de Presidente da República e de Presidente do Conselho de Estado de Cuba. De seu leito de morte, o "Coma Andante", na brilhante e hilariante definição de Reinaldo Azevedo, mandou avisar que não quer mais comandar formalmente o Estado e o governo cubanos. Em todo o mundo, milhares de exilados cubanos exultaram com a notícia histórica. A imprensa, nacional e estrangeira - isto é, a parte que não se acostumou a babar feito um adolescente deslumbrado e a entoar loas ao ditador caribenho -, não perdeu tempo: já começa a anunciar o início de uma "nova era" na História de Cuba, antecipando a inevitável sucessão e transição política.

Então Cuba finalmente está caminhando rumo à democracia, certo? Nada disso, infelizmente. Fidel Castro renunciou aos cargos que ocupava, mas não renunciou à tirania. Desde 31 de julho de 2006, quando decidiu afastar-se, pela primeira vez em 47 anos, do comando sobre a vida de 11 milhões de cubanos, por motivo de doença - desde então objeto de incontáveis especulações na imprensa mundial -, o tiranossauro do Caribe passou as rédeas do poder a seu hermanito Raúl, que comanda as Forças Armadas da ilha há mais de quatro décadas. Ao lado de Fidel e de Che Guevara, Raúl Castro compôs a famosa "santa trindade" da Revolução Cubana, tendo comandado muitos fuzilamentos. Raulito é tão ou mais déspota que seu irmão maior, como demonstra seu passado de fiel militante do Partido Comunista Cubano, antes mesmo da tomada do poder pelos barbudos (alguns dizem até que foi ele quem levou Fidel e Cuba para o lado da defunta URSS). Desde que ele assumiu a direção do Estado, a ilha não avançou um milímetro no respeito às liberdades fundamentais. Pelo contrário. A ditadura comunista cubana, sob Raúl Castro, mostra-se apenas uma continuação da tirania fidelista. Mais de 200 presos políticos continuam a mofar nas prisões. Não há liberdade de imprensa. As eleições são uma fraude para legitimar a tirania - 614 candidatos para 614 vagas na Assembléia Nacional, que não passa de uma correia de transmissão da vontade do Partido único, capitaneado por Fidel e sua súcia. Enfim, nada mudou. Arrisco-me a dizer que, com a saída - aparente - de cena de Fidel, nada ou muito pouco mudará.

Para quem está chegando agora, não é a primeira vez que o ditador barbudo renuncia a um cargo político. Em julho de 1959, quando a ilha ainda não era uma ditadura comunista, ele renunciou ao cargo de primeiro-ministro, "em protesto" contra o então presidente da República nomeado por ele próprio, o juiz liberal Manuel Urrutia, que teve a ousadia de opor-se publicamente às medidas comunizantes do regime e à centralização do poder. Exatamente como Jânio Quadros tentou fazer no Brasil dois anos depois, com sua renúncia intempestiva, Fidel Castro quis, com isso, provocar uma crise política, forçando o povo cubano a tomar uma decisão do tipo "ou ele ou eu". O golpe deu certo. Ao saber da renúncia inesperada de Fidel, o povo foi às ruas, pedindo seu retorno ao poder e a saída de Urrutia, que então abandonou o cargo, fugindo do país e indo engrossar a lista de exilados políticos do regime. Isso dá uma idéia do grau de manipulação e de farsa que existe por trás de cada ação do líder revolucionário.

Também não se deve superestimar o significado dos cargos aos quais o ditador acabou de renunciar. Em regimes totalitários como o de Cuba e o da ex-URSS, funções como o de presidente da República ou primeiro-ministro são apenas meras formalidades. Quem comanda mesmo é o Partido, que, em Cuba, está nas mãos dos irmãos Castro. De 1959 a 1976, por exemplo, o presidente de Cuba atendia pelo nome de Oswaldo Dorticós. Alguém sabe quem foi? Stálin, na ex-URSS, só se auto-indicaria presidente da República em 1940, mais de dez anos depois de ter imposto seu poder absoluto, e depois de exterminados todos os seus adversários, reais ou imaginários, na estrutura do Partido e do Estado soviéticos. Logo, não há razão para otimismo exagerado, nem para achar que o "Coma Andante" vai deixar de dar as cartas na ilha-prisão, sua fazenda particular.

Outro motivo, porém, me parece o mais forte a desaconselhar qualquer euforia desmedida. Além da repressão e do terror policial, o que sustenta o regime comunista cubano é a simpatia e a leniência com que ele é encarado por vários governos ocidentais. Entre os quais, o de Lula da Silva no Brasil. Enquanto tais governos continuarem a fazer vista grossa ou a justificar abertamente a ausência de liberdade na ilha, não haverá motivo algum para acreditar que Cuba se tornará, gradualmente, uma democracia. Sabe-se que regimes totalitários não podem ser reformados, pelo menos no que diz respeito ao monopólio do poder político: ou são derrubados ou sucumbem por seu próprio peso e ineficiência. Ou, então, se eternizam. Sendo um regime totalitário, é muito pouco provável que Cuba venha a se transformar numa democracia pela vontade da elite castrista no poder, que tem tudo a ganhar com a manutenção do regime, e tudo a perder com qualquer abertura. E, enquanto houver governos como o brasileiro, dispostos a fechar os olhos para as atrocidades da ditadura, a nomenklatura cubana não terá motivo nenhum para liberalizar o regime. Como já disse antes, Cuba é uma ditadura sustentada por democracias, para eterna vergonha destas e sofrimento dos cubanos.

Como não poderia deixar de ser em se tratando de um ditador, o cubano, com laços tão fortes com o atual governo do Brasil, não faltou ao episódio um toque brasileiro. Na carta que fez publicar no jornal oficial Granma, em que anuncia sua decisão de não mais ser o presidente da República e primeiro-ministro da ilha, Fidel Castro cita o arquiteto brasileiro e gênio oficial Oscar Niemeyer, seu amigo de longa data. Fidel diz que é preciso ser conseqüente até o fim. Se isso é verdade, podem esquecer, pois o regime não vai recuar um centímetro em seu caráter totalitário. Com ou sem Fidel, não importa: se depender de seus amigos, como Lula e Hugo Chávez, o povo cubano continuará a olhar para o mar em busca de esperança.

GOVERNO DE PSICOPATAS


Como acontece com quase todo mundo, chega um momento em que me canso de falar em política. Nessas horas, vou à estante e pego aleatoriamente um livro, sem qualquer relação com o assunto. Em geral, um romance ou uma reportagem, ou um livro de História. Mas não tem jeito. Não dá pra fugir da realidade. Por mais que tentemos dela escapar, ela sempre nos puxa de volta, como um buraco negro, engolindo tudo em sua volta.

Descobri a inutilidade desse meu esforço de passar pelo menos umas horas sem pensar em Lula, PT, mensalão, Foro de São Paulo e, agora, cartões corporativos quando comecei a folhear um livro da escritora de romances policiais Patricia Cornwell, "Retrato de um Assassino - Jack, O Estripador: Caso Encerrado", que, como diz o título, trata dos crimes do famoso serial killer inglês do final do século XIX. A certa altura, nas páginas 35 e 36, a autora se debruça sobre o conceito clínico de psicopatia. Entre outras coisas, ela diz o seguinte:

"(...) O conceito de que é errado roubar, violentar, atacar, mentir ou fazer qualquer outra coisa que degrade, defraude o outro ou o prive de suas características humanas não é assimilado pelo psicopata.

(...) os psicopatas não exibem emoções humanas normais e constituem uma pequena porcentagem da população que é responsável por uma alta porcentagem dos crimes. São pessoas extraordinariamente astutas que levam uma vida dupla. Os que lhes são próximos geralmente não têm idéia de que por trás da máscara de simpatia existe um monstro que só se revela - como o Estripador - um pouco antes de atacar.

O psicopata é incapaz de amar. Quando demonstra o que parece remorso, tristeza ou pesar, está manipulando, e a expressão dessas emoções se origina de suas próprias necessidades e não de consideração autêntica por outra criatura. Ele costuma ser atraente, carismático e de inteligência acima da média. Embora seja dado a impulsos, é organizado no planejamento e na execução de seus crimes. Não há cura. Não se pode reabilitá-lo nem 'preservá-lo da desventura criminosa' (...)".

Vocês já devem ter percebido. Ao ler as definições acima, é impossível não remeter ao que está acontecendo no Brasil de hoje. É impossível não pensar em Lula e nos petistas. As palavras de Patricia Cornwell num livro sobre Jack, o Estripador parecem ajustar-se perfeitamente à definição dos que ora nos governam.

Antes que alguém me acuse, não é minha intenção demonizar os companheiros lulistas. Mesmo se eu quisesse, não poderia demonizá-los, pois os fatos falam por si mesmos. Como diz o Reinaldo Azevedo, não se trata de demonizar os petralhas, mas de denunciá-los. E denunciá-los, convenhamos, é inseparável de algumas conclusões a respeito deles. Tomemos as denúncias de corrupção contra o governo. Quem pode dizer que a ausência de qualquer sentimento de remorso, a atrofia completa de qualquer senso de moral, que caracterizam os psicopatas, se encaixam perfeitamente na forma de os petistas lidarem com o assunto? Diante do último escândalo envolvendo os lulo-petistas, o dos cartões corporativos, o que faz o governo? Reconhece o crime, pune os culpados, pede perdão pelo delito cometido? Não: tenta atirar lama nos que o acusam, querendo com isso fazer com que todos relevem sua ladroagem. Alguém viu, até agora, um membro do alto escalão do governo, ou mesmo do baixo escalão, admitir publicamente que, sim, roubou, e que roubar é errado, é um crime e deve ser punido como tal? Em entrevista às páginas amarelas da Veja desta semana, o secretário-geral do PT, o deputado federal José Eduardo Cardozo, reconhece que o mensalão existiu. É um passo importante, sem dúvida, por destoar do que insistem em dizer os petralhas e seus amigos na imprensa. Mas o que Cardozo diz em seguida? Que houve "equívocos" de "alguns dirigentes", que se deixaram levar por "um pragmatismo equivocado", esquecendo-se do que era o partido original, e que "a questão ética é indispensável na construção de nossas bandeiras". Que questão ética, deputado? Que bandeiras? Fica parecendo que o partido tinha um "patrimônio ético" que se perdeu. O PT nunca teve patrimônio ético, tinha apenas um discurso moralista fajuto para justificar sua própria roubalheira em nome do poder, ou do socialismo, ou do que quer que seja. A raiz da corrupção petista não está num suposto "desvio de rota" da pureza do partido original, como se este fosse um clube de santos que se perderam, mas em sua própria essência original totalitária. Os arquitetos do mensalão e de outras cafajestadas, os Delúbios, os Silvinhos podem tranqüilamente dizer-se fiéis operadores a serviço da causa original petista. Seu "erro", seu "pecado", não foi terem coordenado a roubalheira: foi terem sido apanhados.

Outro exemplo: a memória dos "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil. A ninguém escapa o fato de que as esquerdas dela se apropriaram totalmente. Impera, nesse assunto, o maniqueísmo puro e simples. Apenas um lado, o das esquerdas, é mostrado: o lado em que elas aparecem sempre como vítimas da repressão, da censura, da tortura, dos assassinatos, dos desaparecimentos. Silencia-se completamente sobre a violência das guerrilhas, que incluiu assaltos, seqüestros e assassinatos, ou então busca-se mesmo justificar tais atos como uma forma de resistência contra a opressão e de luta pela democracia. Uma falsidade total, pois o que a esquerda armada queria não era instaurar a democracia, mas impor uma ditadura comunista. No entanto, os remanescentes dessa época, os Zé Dirceus, os Franklin Martins, as Dilmas Rousseffs, os Genoínos apresentam-se e são apresentados como devotados democratas. Considera-se crime somente o que é cometido contra as esquerdas, nunca por elas. Se os esquerdistas roubam, mentem, matam ou seqüestram, é por uma boa causa, ou então não passa de intriga da direita. Do mesmo modo, somente as ditaduras de direita estão sujeitas à obrigação moral de respeitar os direitos humanos.

Em psiquiatria, diz-se que psicopata é uma pessoa sem inibições morais, carente de remorso e arrependimento. Para um esquerdista, assim como para um serial killer, seus crimes não são crimes. Pelo contrário: são mesmo motivo de orgulho ou, quando muito, um mal necessário, um meio para atingir um fim. O esquerdismo é uma psicopatia, uma perversão moral, uma doença do espírito.

As características elencadas por Patricia Cornwell para definir a mente psicopática servem à perfeição para classificar os que nos governam atualmente. Assim como Jack, o Estripador e outros criminosos seriais, os atuais ocupantes do poder no Brasil se guiam pela astúcia infinita, pela duplicidade moral e pela manipulação mental. E, assim como ocorria com o assassino de prostitutas do East End londrino, a psicopatia esquerdista não tem cura. Jack, o Estripador jamais foi pego por seus crimes. Será que o mesmo ocorrerá com os lulo-petistas?

domingo, fevereiro 17, 2008

A IDEOLOGIA DOS SEM-IDEOLOGIA


Imaginem a seguinte situação: um bandido é apanhado em flagrante matando, roubando ou estuprando. Diante das acusações que lhe são feitas, ele não se deixa abater. Ao invés disso, impõe a seus acusadores a seguinte condição: só irá para a cadeia se os delitos de um seu concorrente forem investigados também. Caso contrário, trata-se de uma atitude parcial e preconceituosa. Ou vai preso todo mundo, ou não vai preso ninguém.

Que pessoa decente e honesta endossaria essa impostura? Quem pensaria duas vezes antes de cuspir na cara do sujeito que propõe coisa semelhante, chamando-o de vagabundo e de canalha da pior espécie? Quem hesitaria em denunciar manobra tão escandalosamente cínica, tão descarada, bradando que um crime não pode servir de desculpa para outro, e que, nessa situação, qualquer apelo à "imparcialidade" não passa de uma cortina de fumaça para garantir a impunidade?

Pois é exatamente isso o que está ocorrendo no Brasil, hoje. Sim, vocês adivinharam. Estou falando do caso dos cartões corporativos, o mais recente - mas não o último, outros certamente virão - escândalo envolvendo a petralhada. Apanhados com a mão na massa desviando dinheiro público, os petralhas tentam mais uma vez jogar areia nos olhos de todo mundo. A manobra da vez consiste em criar uma CPI ("vejam como somos honestos e transparentes: queremos até CPI") completamente fajuta, para investigar os gastos com cartões corporativos não apenas nesse, mas desde o governo anterior, dos tucanos. Com isso, querem emparedar a assim chamada "oposição", que sabidamente tem seus podres a esconder. Esta, com receio de que a maré de lama transborde e respingue para seu lado, já topou um acordão, livrando a cara ("blindando") os chefões de cada lado, Lula e FHC. Qualquer pessoa com um nível intelectual acima do dos bacilos já percebeu qual é a jogada: como eles têm o que esconder, a CPI vai ficar prejudicada desde o início, e no final não vai dar em nada, pensam os estrategistas do governo petralha. E ainda por cima vamos poder posar de "isentos", fazendo aquilo que sempre fizemos: enganar a todos.

Parte da imprensa, principalmente a que já foi comprada pelos companheiros, já aderiu ao discurso "isentista" defendido pelo governo Lula da Silva. De fato, esse discurso tem sido a principal arma dos petralhas desde que chegaram ao poder. Depois de mais de duas décadas transpirando ética por todos os poros, proclamando-se diferentes do resto dos partidos, os petistas partiram para a tática oposta, tendo como principal argumento a seu favor o fato de fazerem o mesmo que os outros fazem (lembram daquela entrevista de Lula em Paris, no auge do escândalo do mensalão, quando ele disse que caixa dois era normal, "todo mundo faz"?). Assim esperam se livrar, exatamente como o meliante do primeiro parágrafo deste texto. E muitos jornalistas, cooptados ou ingênuos, dão sua chancela a essa demonstração de desrespeito à inteligência alheia, cobrando "isenção" e "imparcialidade" na cobertura do(s) escândalo(s). Defendem, é o que dizem, uma atitude "neutra" e "não-ideológica" diante do atual governo. Como se isso fosse logicamente possível ou moralmente aceitável.

Não é possível ser "neutro" diante do governo de Lula e dos petralhas, pois não é possível ser "neutro" diante da mentira e do crime. A idéia de "neutralidade" ou de "imparcialidade", o "nenhumladismo" tão cultuado pela mídia "séria", diante de escândalos como o dos cartões corporativos, não passa de uma forma de compactuar com a delinqüência política. É simplesmente uma manobra diversionista para impedir a apuração do escândalo e a punição dos culpados. É como se dissessem: "Viram? Na época deles também havia corrupção. Então para quê nos investigar?". Com isso, desviam o foco da questão. Não são os gastos do governo FHC, ou Itamar, ou Collor, ou D. Pedro I, ou Tomé de Souza, o que está em questão. É a gestão atual. E ponto. Que se investigue o que se passa nos porões do governo Lula da Silva. Depois ajustaremos contas com seus predecessores. Ninguém se lembrou das maracutaias do governo Sarney, por exemplo, quando se acusou o governo Collor de corrupção. Isenção, aqui, é apenas um outro nome para impunidade, uma forma de livrar a cara dos bandidos apelando para os delitos de outrem.

Por trás do discurso "não-ideológico", esconde-se, na verdade, uma ideologia: a do mau-caratismo, da duplicidade ética e da desonestidade intelectual. Lula e seus comparsas adoram posar de moderados, e convenceram muita gente de que não estão atrelados a nenhuma ideologia, sendo, antes, políticos pragmáticos, que encaram os negócios do Estado com um olhar de estadistas e não de militantes esquerdistas. Não caiam nessa lorota. Para desmascarar essa balela, não vou nem repetir o que já disse em outros textos, por exemplo, sobre o Foro de São Paulo; basta fazer um exercício simples: acuse os petistas, denuncie-os por algum escândalo de corrupção, como o mensalão e o dos cartões corporativos, e a resposta deles virá na forma de manobras como a descrita acima ou de um aluvião de slogans e chavões esquerdóides, atribuindo as acusações a uma conspiração das "forças reacionárias e golpistas" etc. Esse esquerdismo de galinheiro é o cassetete ideológico que os lulo-petistas mantêm guardado, em caso de necessidade, para lançar na cabeça dos que denunciam suas tramóias.

Já escrevi aqui antes que PT e PSDB são partidos gêmeos ideologicamente. Que, por trás da fachada de aparente inimizade, ambos se completam e se complementam, fazendo parte do mesmo arco político-ideológico. Agora, com o caso dos cartões, fica claro que são irmãos também na ladroagem. Concorrentes na disputa pelo poder, sempre poderão encontrar no outro um motivo para garantir a própria impunidade. Exatamente como o criminoso que, para livrar-se da prisão, aponta para seu cúmplice, saindo de fininho, assobiando. E ainda enchem a boca para falar em imparcialidade jornalística, como uma velha prostituta pregando as virtudes da castidade. Com os lulo-petistas é assim: sempre se pode descer mais um degrau. A desfaçatez dessa gente, assim como os gastos com cartões corporativos, não tem mesmo limites.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A VOLTA DOS CAÇA-FANTASMAS


Os caçadores de conspirações estão de volta. Apareceu um sujeito no sul, preso por crimes comuns, dizendo-se ex-agente secreto da ditadura militar uruguaia (1973-1985), e afirmando ter provas de que o ex-presidente brasileiro João Goulart, o Jango, foi assassinado pelos órgãos de repressão política dos países do Cone Sul. No Congresso, já está rolando um pedido de CPI para apurar o caso. Os saudosistas da esquerda, que ainda têm Jango em alta conta, já começaram a se mexer, felizes por terem algo em que se agarrar, em meio a tantos escândalos.

Ai, ai. Sente-se cheiro de empulhação no ar... Não, não tenho nada contra investigações desse tipo. Aliás, pelo contrário: acho-as bem-vindas e necessárias. Não sei se Jango morreu de causas naturais ou se foi mesmo morto por algum sicário dos milicos, como estão dizendo. Não é impossível que tenha sido morto, assim como não é impossível que as mortes de Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, para citar outros líderes da oposição que morreram na mesma época, não tenham ocorrido exatamente da maneira como relata a História. Não é impossível, embora seja pouco provável, que essas mortes tenham alguma relação com a chamada Operação Condor, o plano secreto dos regimes militares da América do Sul para eliminar seus opositores no final dos anos 70. Jango, como se sabe, era cardíaco, e faleceu em 1976, ao que parece, por uma falha no consumo dos medicamentos que usava, que provavelmente foram trocados. Intencionalmente ou não, ninguém sabe. Além disso, os procedimentos post-mortem foram no mínimo apressados, com um laudo necroscópico repleto de falhas (oficialmente, sua causa mortis foi "enfermedad", escreveu o médico argentino que viu seu corpo). Tudo isso, a meu ver, deve ser investigado, até que não paire nenhuma dúvida sobre o caso. Mas a questão não é essa. A questão verdadeira, em meu ponto de vista, é que o resultado da investigação, se esta vier a ocorrer, já foi alcançado antes de esta ter começado. Em outras palavras: para todos os efeitos, independentemente de quais conclusões chegar a CPI, Jango foi uma vítima de uma conspiração, e ponto final.

Há muito mais por trás desse exercício mórbido de necrologia do que o simples e elementar desejo de descobrir a verdade. A verdade, para as esquerdas, é uma só: Jango foi assassinado pelos militares. Trata-se da única conclusão possível, para os sacerdotes da mitologia e do martirológio esquerdista. Não importa o que digam os resultados das investigações, sempre será aventada essa hipótese. A fabricação de mártires, de líderes elevados à quase-santidade depois de mortos em circunstâncias misteriosas, ou tornadas misteriosas diante da determinação de torná-los mártires e santos, é uma caracterítica inseparável do método esquerdista. É uma forma de compensar os defeitos dos personagens (no caso de Jango, inúmeros) e, também, de manter acesa a chama da "causa", seja lá o que isso for hoje em dia. Além disso, é uma maneira de reforçar o papel histórico preferido que as esquerdas, seja lá com que autoridade moral para tanto, auto-atribuíram-se: o de eternas vítimas dos lobos maus capitalistas (representados, nesse caso, pelos governos militares). Com isso, ao mesmo tempo em que posam de mártires e heróis, desviam a atenção de seus próprios esqueletos no armário, que não são poucos.

Para as esquerdas, a abertura de casos como o da morte de Jango só traz vantagens. Trata-se, afinal, de um investimento com retorno garantido. Isso porque, de acordo com uma visão há muito estabelecida como verdade irrefutável e artigo de fé, esquerdistas são sempre vítimas. Se um deles morre, ainda que tenha sido após cair e bater a cabeça no banheiro, é porque foi vítima de uma conspiração maléfica do imperialismo, ou que outro nome tenha o inimigo de plantão, que deixou cair o sabonete para que ele escorregasse. Pouco importa se a investigação comprova as suspeitas ou não. Feita a investigação, apurados os fatos, ouvidas as testemunhas, o resultado é de somenos importância. Se a investigação comprovar as suspeitas de morte não-acidental, ótimo, as esquerdas têm um mártir em suas mãos. Se, em vez disso, não se descobre nada, fica a suspeita. E é de suspeitas, de paranóias e mistificações, de vitimismos e complexos persecutórios, que vivem as esquerdas. As leis da natureza, ou o simples acaso, simplesmente não se aplicam a elas. As denúncias de corrupção contra os petralhas no governo hoje, por exemplo, só podem ser o produto de alguma conspiração golpista, não importa as provas. E por aí vai.

Outro fator que trabalha a favor da legenda áurea esquerdista é o inegável fascínio que as teorias da conspiração exercem sobre o cérebro humano. De fato, nas últimas décadas surgiu uma verdadeira indústria sobre o tema. Com o detalhe de que, em quase todos os casos, os suspeitos são sempre, invariavelmente, representantes da "direita", do establishment, do imperialismo, da CIA etc. Décadas de propaganda nos tornaram todos predispostos, psicológica e ideologicamente, a aceitar as teses mais estapafúrdias, desde que o culpado seja, claro, a direita. Vejam o caso mais famoso do mundo: o assassinato de John F. Kennedy, em 1963. Já surgiram as teorias mais descabeladas sobre o assunto, apontando para a CIA (sempre ela!), a máfia, o complexo industrial-militar, os exilados cubanos anticastristas de Miami, os brancos racistas do sul dos EUA etc. (só faltou o Mickey Mouse e o Pernalonga). Quase ninguém se contentou com a conclusão óbvia, ou seja, que o autor dos tiros foi Lee Harvey Oswald, um sujeito estranho ("ruim de mira", disseram), e com o fato de que todos os indícios apontavam para o envolvimento de Cuba e da URSS no caso, pois Oswald era membro de um grupo pró-Castro, exilara-se na URSS alguns anos antes e requerera, inclusive, sua entrada em Cuba semanas antes dos tiros em Dallas ("era um agente duplo, um provocador a soldo da CIA" etc.). Mas, como sabem todos os que já assistiram ao filme de Oliver Stone sobre o assunto, o culpado só poderia ser alguém na, ou com conexões com, a Casa Branca... Ou seja: havia fortes motivos para aventar a participação não da CIA, da máfia ou de quem quer que seja, mas de um governo estrangeiro - o de Cuba -, com o qual os EUA estavam em guerra, numa trama para assassinar o presidente dos EUA, mas mesmo assim preferiu-se a tese do "atirador isolado e desequilibrado", ou então do "complô-das-forças-direitistas-e-reacionárias-descontentes-com-a-política-progressista-de-Kennedy". Hum...

O mesmo padrão conspiracionista se verificou logo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Quem não se lembra? Na ocasião, pipocaram teorias sobre quem teria sido o verdadeiro cérebro por trás dos ataques: a CIA (olha ela aí de novo!), as gigantes do petróleo norte-americano, Bush, o Mossad israelense... Só faltou dizer que foram os mesmos que mataram Odete Roittman e Salomão Ayala. Não faltou quem, como o renomado economista Celso Furtado, cogitou da possibilidade de ter sido o próprio governo estadunidense o autor da atrocidade. Quando ficou claro que os responsáveis pela tragédia foram fanáticos islâmicos, reunidos em torno de Osama Bin Laden, os conspiracionistas mudaram de tática: passaram a tentar justificar a morte de 3 mil pessoas como uma resposta legítima de um povo oprimido contra a opressão do imperialismo ocidental, ou como a revolta da criatura contra o criador... (ainda tenho vivos na memória os textos de Leonardo Boff e de Tariq Ali regozijando-se pela queda das Torres Gêmeas). Ou seja: culpe os EUA, nunca seus inimigos, esse é o caminho.

O afã dos esquerdopatas em acusar os EUA e o "neoliberalismo" por tudo de ruim que acontece no mundo, desde a morte de Jango até o aquecimento global e a falta de vergonha dos políticos, só tem paralelo com sua disposição em não falar dos crimes do comunismo. É claro que não estou sugerindo que recordemos dos podres de um lado e fechemos os olhos para os de outro, nada disso. Quem faz isso, e muito bem, são os esquerdistas, como estão comprovando os petralhas no caso dos cartões corporativos. Trata-se apenas de comparar. Enquanto existiu, a URSS foi responsável por alguns dos piores crimes já cometidos contra a humanidade, inclusive intervindo militarmente em outros países e assassinando líderes estrangeiros, como Jan Masaryk (atirado de uma janela por se opor ao golpe comunista na Tchecoslováquia, em 1948), Imre Nagy (fuzilado como responsável pela revolta húngara de 1956), Hafizullah Amin (metralhado por páraquedistas soviéticos durante a invasão do Afeganistão, em 1979), e tantos outros. Sem falar no apoio ao terrorismo internacional, em assassinatos de dissidentes exilados etc. O atentado ao papa João Paulo II em 1981, por exemplo, ao que parece, foi obra dos serviços secretos búlgaros, em conluio com a KGB. Um livro publicado em 2005 na França, Cuba Nostra, do jornalista Alain Ammar, afirma, com base no depoimento de um ex-espião cubano hoje exilado, que o presidente chileno Salvador Allende foi morto por seus próprios seguranças cubanos, no Palácio La Moneda, durante o golpe de estado de 11 de setembro de 1973, quando deu mostras de que se renderia aos militares. Mas quem se importa?

Tudo isso me dá o direito, creio eu, de desconfiar das "revelações" do suposto ex-araponga uruguaio sobre a morte de Jango. Principalmente quando acabo de ler que Hugo Chávez, o caudilho fanfarrão da Venezuela, declarou que quer exumar o cadáver de Simón Bolívar, que ele considera o "pai espiritual" de sua "revolução", para averiguar as "verdadeiras causas" de sua morte (supostamente, diz Chávez, por envenenamento). Chávez já disse várias vezes que o governo dos EUA planeja matá-lo. A se julgar pela forma como ele se apropriou da história de seu país para falsificá-la, e dos instrumentos da democracia para destruí-la, é de supor que ele é capaz de cometer suicídio somente para botar a culpa no Bush, ou de culpá-lo pela morte de Bolívar. Enquanto a História for vista como uma via de mão única, com os esquerdistas retratados sempre como vítimas e seus adversários, como cruéis vilões, seus fantasmas continuarão a nos assombrar.

VÍDEO CASSETADA

Estava até pensando em escrever sobre a verdadeira chanchada que virou o caso dos cartões corporativos. Mas o vídeo abaixo, uma paródia de uma cena do filme "A Queda", já diz tudo. O vídeo está circulando na internet, já há algum tempo. É a coisa mais hilariante - para não dizer, infelizmente, realista - que eu já vi na rede em muito tempo. Dêem uma olhada e morram de rir também.
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Direto dos porões do Palácio do Planalto:

http://br.youtube.com/watch?v=kRiRKKO8HvU

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

RELIGIÃO, UM ASSUNTO DISCUTÍVEL


Um ditado tão antigo quanto idiota afirma que política, religião e futebol não se discutem. Cansei de ouvir esse mantra na hora do jantar, quando estávamos todos reunidos à mesa, provavelmente como uma forma de garantir uma refeição em paz e em família. Quanto ao último assunto, não discordo nem concordo, pois nunca me senti compelido a alguma emocionante discussão sobre quem foi o maior craque, ou qual o melhor time, o Corinthians de Caicó ou o Flamengo de Teresina. Aliás, sempre achei que futebol e atividade intelectual, definitivamente, não combinam. Com relação aos dois outros temas, porém, sou obrigado a discordar radicalmente. Política e religião se discutem, sim. Religião, mais até do que política, e com muito mais necessidade. Principalmente nos dias atuais.

Um povo se define, entre outras coisas, pelos seus ditados. O transcrito acima quer dizer, resumidamente, o seguinte: nós, brasileiros, não gostamos de debates profundos e/ou que possam causar controvérsias; gostamos, isso sim, ou de jogar conversa fora ou de rasgar seda. Educados na tradição católica ibérica, que valoriza acima de tudo o consenso, a unanimidade, aprendemos desde cedo a fugir da polêmica como o diabo foge da cruz. Encaramos um debate como uma briga pessoal, ou um embate de egos, nada mais. Além disso, para debater é preciso pensar, ter idéias, e isso cansa, dá trabalho. Melhor seguir o rebanho.

Considero isso - a aversão ao debate, ao choque de idéias - um de nossos principais vícios de formação, uma de nossas maiores taras nacionais. Para contornarmos a discussão, estamos dispostos até a renunciar ao que pensamos, se pensamos, para não desagradarmos a fulano ou beltrano. Percebe-se ai o peso de outra tara nacional: a propensão a elogiar os superiores, o puxa-saquismo, a falta de caráter e de personalidade.
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Em nenhum outro assunto esse vício de formação se demonstra com tanta intensidade quanto na questão da religião. Em assuntos de fé, somos o povo mais politicamente correto do mundo. Daí minha cisma com os chamados religiosos "moderados". Ao contrário do que alguém poderia pensar, não sou anti-religioso, nem anticlerical. Sou tão anticatólico, por exemplo, quanto sou antiprotestante, anti-muçulmano ou anti-torcida do Botafogo. Ou seja: não sou nem contra nem a favor da religião. Sou apenas a favor do debate. Por isso só posso ser contra quando vejo que o caminho geralmente adotado pelos fiéis religiosos, quando diante da contestação a algum de seus dogmas, é simplesmente fugir à discussão, fechar-se em sua concha de certezas absolutas. Por exemplo: o debate sobre o Islã. Afinal, é uma religião que prega a violência ou não? Até o momento, a única coisa que eu vi seus defensores e até mesmo praticantes de outras crenças dizerem é que não, o Islã é uma religião de paz e tolerância, os atentados terroristas cometidos em seu nome não passam da obra de algumas mentes doentias, que apenas conspurcam o Islã. Em outras palavras: os atentados não têm nada a ver com a fé, e ponto final.

Toda vez que leio ou escuto argumento semelhante, fico com a sensação de que está faltando alguma coisa, de que estão querendo esconder algo importante. A questão não é se os lunáticos que se explodiram e levaram 3 mil pessoas junto em 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington estavam ou não agindo conforme a fé muçulmana, mas por que, se o Islã não tem nada a ver com o terrorismo islamita, não se vêem igualmente homens-bomba judeus ou protestantes, ou lamaístas? Por que são, quase sempre e exatamente, muçulmanos? Certo, a intolerância e o fanatismo não são exclusividade dos muçulmanos, há fanáticos e intolerantes em todas as religiões, e inclusive já escrevi sobre isso neste blog. Mas isso não responde a questão: por que, se o Islã é uma fé pacífica, quando se fala em terrorismo a primeira imagem que vem à mente, hoje em dia, é de um militante da Al Qaeda ou do Hizbollah, ou seja, de um muçulmano? Seria mera coincidência? Preconceito? Manipulação da mídia ocidental e cristã? Duvido muito.

Não pensem que sou inimigo dessa ou daquela fé em particular, nada disso. Nem tampouco que sou um adversário da fé em geral. Ter ou não ter fé, para mim, é uma questão individual, um direito. Como já disse, não tenho nada contra a religiosidade em si, motivo pelo qual me distinguo, por exemplo, dos marxistas, que querem abolir a religião por decreto (o que é a melhor maneira de reforçá-la, como mostra a História). Não tenho nada a ver com esse tipo de idiota. Mas nem por isso acho que a crença religiosa é algo inofensivo e sem conseqüências, como a crença infantil em Papai Noel ou no Coelho da Páscoa. O que me aborrece na discussão sobre religião, aliás como em tudo o mais, é a falta de honestidade. Do mesmo modo que sou a favor do debate, defendo a sinceridade total quando se trata desse assunto. Quero dizer o seguinte: fico bastante irritado quando vejo que a maioria dos que se dizem católicos, por exemplo, não sabem nada de sua fé. Isso fica claro em questões polêmicas como aborto, uso de preservativos e pesquisas com células-tronco. Agora mesmo surgiu um tal movimento "católicas pelo direito de decidir", que defende a liberalização do aborto. Ora, se são católicas, como podem defender o "direito de decidir" sobre esse assunto? Não lhes foi ensinado que abortar, para os cânones católicos, é um pecado seríssimo, um ato contra a vida, e que diante disso não cabe a ninguém "escolher", pois não é dado a ninguém que realmente acredita escolher pecar contra Deus ou não? E que isso é inegociável, como a infalibilidade papal e a virgindade de Maria? Assim como na questão dos preservativos e das células-tronco. Se querem ser a favor do aborto, tudo bem, não tenho nada contra. Aliás, acho mesmo que a decisão deve ser da mulher, e que o Vaticano está mesmo na contramão do progresso. Mas não me venham dizer que se pode conciliar o direito ao aborto com o catolicismo. Não me venham dizer que a Igreja deveria aceitar isso. Ao defenderem essa tese, as "católicas pelo direito de decidir" mostram-se tão anticatólicas quanto os ex-padres da auto-proclamada teologia da libertação, tão oportunistas quanto. Assim como estes, querem revogar 2 mil anos de história da Igreja Católica.

Das duas uma: ou as defensoras católicas do direito ao aborto não sabem o que estão dizendo, e, nesse caso, são ignorantes, ou sabem, e, nesse caso, não são católicas. É preciso escolher entre ser católico e ser a favor do aborto. Simples assim. E não me venham dizer que esta é um atitude autoritária e intolerante. Porque é claro que a fé é autoritária e intolerante, ora bolas. Ou vão dizer que não sabiam? Ou vão dizer que crer em Deus ou no Diabo, e nos santos, anjos, demônios, pecado original e outros dogmas do tipo é uma coisa lógica e racional? E, assim como é irracional, é uma escolha de cada um. Se ainda vivêssemos sob um Estado teocrático, em que todos fossem obrigados a seguir o credo oficial e todos os demais fossem reprimidos, como no Irã, eu diria que esta seria uma atitude autoritária e intolerante. Mas felizmente vivemos - pelo menos em teoria - num país onde o Estado é laico (ou seja: nem religioso, nem ateu), em que seguir essa ou aquela crença é uma decisão individual. Ninguém é obrigado a ser católico, assim como ninguém é obrigado a ser protestante, muçulmano, espírita, budista ou umbandista. Ou ateu. Do mesmo modo, todos devem ter o direito de se manifestar livremente em nome de sua crença. Outro dia o papa foi impedido de discursar numa universidade italiana. Achei um absurdo. Os estudantes e professores esquerdistas que lideraram o piquete contra Bento XVI tentaram justificar essa sua atitude alegando que as posições da Igreja sobre aborto, uso de contraceptivos, homossexualismo e pesquisas com células-tronco eram obscurantistas e retrógradas. Balela. Obscurantistas e retrógradas, as posições da Igreja sobre esses temas são mesmo. Mas Sua Santidade não iria ali para tentar impor suas crenças, mas apenas para discursar. Se discordavam do que ele iria dizer, é outra questão. Além do mais, se o convidado fosse um líder muçulmano, será que iriam tentar impedi-lo de falar?

Os que advogam a conciliação entre os valores cristãos e as exigências da modernidade, assim como os que afirmam que as ações da Al Qaeda não têm nada a ver com o Islã, mostram-se bem menos sinceros consigo mesmos do que os terroristas suicidas (aliás, suicidas nada: homicidas, mesmo). Estes pelo menos são coerentes com os preceitos da jihad, a guerra santa islâmica, que, ao contrário do que dizem por aí, não se restringe a uma luta espiritual interior, mas é uma guerra para valer, com sangue, morte e sofrimento. Entre a desonestidade relativista e politicamente correta, de um lado, e o integrismo dos fanáticos, de outro, fico na dúvida sobre qual é o mais nocivo para a humanidade.