sexta-feira, fevereiro 08, 2008

CONHECENDO "O VELHO"

Certa vez, no distante e bastante mitificado ano de 1968, o dramaturgo maldito e cronista genial Nelson Rodrigues estava numa festa de grã-finos. Ele gostava de freqüentar tais lugares, e tinha especial obsessão por certos personagens dessa fauna exótica, como "a grã-fina de narinas de cadáver". Dez em cada dez presentes àquele sarau da fina flor da grã-finagem carioca se declarava marxista ("como é marxista a nossa elite!"). Havia mesmo, entre os convivas, uma "amante espiritual de Guevara", vejam só.

A festa estava cheia de bons marxistas. Só se falava de Marx e sua incrível capacidade intelectual etc., etc. Na época, chamava-se a isso "esquerda festiva" (hoje seria algo como a beautiful people, os politicamente corretos de todos os tipos, defensores das cotas raciais e eleitores de Lula e do PT). Eram tão marxistas, aliás, que discutiam mesmo a furunculose de Marx, a quem chamavam, em tom reverente e ao mesmo tempo quase familiar, de "O Velho". Sabendo disso, o famoso reacionário - o único escritor brasileiro, que eu saiba, a ostentar com orgulho esse título - chamou a todos para ouvirem "umas piadas bacanérrimas". Pondo as mãos no bolso, retirou algumas notas que havia rabiscado e, disposto a provocar aquelas mentes tão ilustradas, tão iluminadas, tão progressistas, começou a lê-las para todos ouvirem. Eis algumas das frases:
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- "O imperialismo é a tarefa dos povos dominantes - Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos";

- Sobre os EUA: "o país mais progressista do mundo";

- "Contra o imperialismo russo, a salvação era o imperialismo britânico";

- "O defeito dos ingleses é que não são bastante imperialistas";

- "O colonialismo é progressista porque os povos domináveis e colonizáveis só têm para dar a estupidez primitiva";
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- Sobre o budismo: "o culto bestial da natureza";

- Sobre a China: uma "civilização que apodrece";

Sobre a vitória dos EUA contra o México, em 1848:

- "Presenciamos a conquista do México E REGOZIJAMO-NOS PORQUE ESTE PAÍS, FECHADO EM SI MESMO, dilacerado por guerras civis, e negando-se a toda evolução, seja precipitado violentamente no movimento histórico. No seu próprio interesse, terá que suportar a tutela que, desde este momento, os Estados Unidos exercerão sobre ele";

E continuava:

- "A Alemanha é um povo superior e os latinos e os eslavos, mera gentalha";

- Ainda sobre os eslavos: "Povos piolhentos, estes dos Bálcãs, povos de bandidos";

- Sobre os búlgaros, em particular: "um povo de suínos", que "melhor estariam sob o domínio turco";

- Sobre os povos eslavos, em suma: "povos anões", "escórias de uma civilização milenar";
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- E, finalizando: "A expansão russa para o Ocidente é a expansão da barbárie".

A cada frase daquelas, o público fremia de indignação mal-contida. Que absurdo! Que intolerância! Que deslavada apologia do imperialismo e do racismo!, pensavam. Quem teria escrito tamanha barbaridade? Hitler? Goebbels? Mussolini? Franco? O general Médici? Após ler por duas horas para os indignados da "festiva", o dramaturgo, recuperando o fôlego, embolsou as notas e perguntou: "Vocês ouviram. O autor ou autores citados já morreram. Quero saber se teriam coragem de cuspir na cova de quem escreveu tudo isso." Perguntou ainda: "Quem pensa assim, e escreve assim, é um canalha?"

A resposta dos presentes foi fulminante: "É um canalha!".

Nelson Rodrigues ainda os advertiu:

"Calma, calma. São dois os autores! Vocês têm certeza de que são dois canalhas? E canalhas abjetos?"

Novamente, os marxistas de salão ali presentes foram unânimes e enfáticos na resposta. Sim, os autores eram dois canalhas da pior espécie. Canalhas abjetos. Se vivos fossem, os convivas não hesitariam em pular sobre seus pescoços e chupar-lhes as carótidas. Sim, escarrariam, felizes, sobre seus túmulos. Sapateariam, feito possessos, em suas covas, maldizendo-os para sempre.
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Foi então, sem que pairasse qualquer dúvida, que o dramaturgo alçou a fronte e revelou os nomes dos dois canalhas: Karl Marx e Friedrich Engels. Silêncio na sala. Nelson Rodrigues repetiu: "Marx e Engels, os dois pulhas, segundo vocês".

Desnecessário dizer que os grã-finos da "festiva" ficaram totalmente embasbacados com a revelação. Marx e Engels, os criadores do "socialismo científico", os deuses da revolução, "eram paladinos fanáticos do imperialismo, do colonialismo, admiradores dos ianques, russófobos". Tanto que escreveram o seguinte: "A revolução proletária acarretará um implacável terrorismo até o extermínio de todos esses povos eslavos".

Retirei o episódio acima de uma crônica de Nelson Rodrigues, "O Velho", publicada em O Globo de 3/5/1968 e que consta do livro A Cabra Vadia: Novas Confissões (Rio de Janeiro: Agir, 2007, páginas 172-176). Quem tiver interesse em se aprofundar no assunto, recomendo ler as cartas de Marx e Engels, que podem ser facilmente encontradas em sebos e bibliotecas públicas, em edições antigas e emboloradas de suas Obras Completas.

Os grã-finos de Nelson Rodrigues, e isso ele queria dizer, não entendiam patavina de Marx e Engels. Liam sobre os dois, conversavam sobre os dois, até escreviam sobre os dois, mas não tinham a menor idéia do que eles pensavam de verdade. Entre eles, é bom que se diga, não havia somente socialites de cabeça oca, mas também "poetas, romancistas, sociólogos, ensaístas. Intelectuais da mais alta qualidade". O marxismo, para eles, como para a maior parte da intelectualidade brasileira, era uma moda de salão, nada mais. As passeatas, àquela época, eram o "must". Todos queriam ser de esquerda, parecer de esquerda, usar o vocabulário e os ornamentos da esquerda. De fato, dizer-se marxista, ou pelo menos de esquerda, passou a ser, entre nós, uma verdadeira religião, uma obrigação moral. Daí os personagens impagáveis que ele criou: o "padre de passeata", a "freira de minissaia", a "estagiária da PUC", "o marxista de galinheiro" e por aí vai.

Ninguém sabia o que era ser de esquerda, de verdade. Nem então, e nem hoje. Atualmente, os esquerdistas estão no poder no Brasil. Entre eles, há muitos que se dizem e se consideram marxistas, até marxistas-leninistas. Falam ou pretendem falar em nome do povo, dos oprimidos, contra o imperialismo e a dominação dos fortes sobre os fracos etc., etc. Exatamente o oposto do que afirmavam Marx e Engels. Para esses dois, somos todos uns bárbaros, uns primitivos, uns comedores de banana, uns suínos, uns piolhentos, mais insignificantes do que ratos. Estaríamos melhor debaixo da dominação de algum povo superior, como os alemães ou os norte-americanos. É impressionante como certas coisas não mudaram. Quem, dentre a companheirada hoje no governo, teria a coragem e a sinceridade de admitir que seus ídolos são dois defensores ferrenhos da escravização de povos inteiros, do racismo, da exploração desenfreada, da guerra, do genocídio? Dois canalhas da pior espécie. Canalhas abjetos.

Nelson Rodrigues dizia que certas verdades somente confessamos numa entrevista imaginária, à meia noite, num terreno baldio, à luz de archotes, tendo apenas uma cabra vadia por testemunha. Eis uma verdade que só assim confessamos: "somos analfabetos em Marx, dolorosamente analfabetos em Marx". Os esquerdistas, os mais analfabetos de todos.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

CONSTANTINE MENGES TINHA RAZÃO


Constantine Menges estava certo. Quem?, você deve estar se perguntando. Vou repetir o nome para ninguém esquecer: Constantine Menges. Mas quem é essa figura? É, não. Era - morreu alguns anos atrás. E o que ele disse ou escreveu para estar certo, e sobre o quê? Vou contar uma historinha.

O ano era 2002. Corria a campanha presidencial no Brasil. Os dois candidatos favoritos eram Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra. O favorito, Lula, todos sabemos, ganhou a eleição. Respirava-se, então, um certo ar de desconfiança, não se sabia exatamente a que vinha o candidato do PT (agora se sabe muito bem: veio para transformar o Estado num cabide de empregos para os companheiros, refestelados na farra dos cartões de crédito corporativos, entre outras práticas republicanas). Os mercados ainda tremiam ante a perspectiva de um governo petista. Lula não havia lançado ainda sua "Carta aos Brasileiros", na qual provava que os homens do dinheiro poderiam ficar tranqüilos, pois um governo da companheirada poderia muito bem conviver com seus lucros (e até multiplicá-los, como se viu depois, abrindo-se formidáveis oportunidades de negócios, como, por exemplo, no setor de telefonia, como bem sabe o Lulinha). Foi nesse ambiente de insegurança e receio, sintetizado pela fala patética de Regina Duarte na TV ("tenho medo"), que um desconhecido professor norte-americano, Constantine Menges, publicou nos jornais dos EUA, às vésperas das eleições brasileiras, um texto assustador, intitulado "Blocking the New Axis of Evil" ("Bloqueando o Novo Eixo do Mal").

Aquilo estourou como uma bomba. Poucas vezes um artigo causou tanto espanto e indignação. Resumidamente, o gringo dizia o seguinte:

- A ascensão de Lula da Silva no Brasil constituía uma séria ameaça à segurança do continente ("Uma nova ameaça terrorista de armas/mísseis bélicos nucleares pode surgir, incluindo Fidel Castro de Cuba, o regime Chavéz na Venezuela e o próximo presidente eleito radical do Brasil, todos com ligações com Iraque, Irã e China"."Se o candidato pró-Castro for eleito presidente do Brasil, os resultados podem incluir um regime radical no Brasil, o restabelecimento de seus programas de armas nucleares e de mísseis bélicos, com ligações estreitas com Estados patrocinadores do terrorismo, como Cuba, Iraque e Irã, com efeitos na desestabilização das frágeis democracias vizinhas.")

- O então candidato favorito à presidência do Brasil, Luiz Inácio da Silva, do Partido dos Trabalhadores, era "um radical pró-Castro com extensos laços com o terrorismo internacional".

- As inclinações radicais de Lula se evidenciavam pela sua aliança de longa data com o ditador Fidel Castro e pela fundação, juntamente com este, do Foro de São Paulo ("O senhor da Silva não guarda segredos de suas simpatias. Ele tem sido aliado do senhor Castro por mais de 25 anos. Com a ajuda do senhor Castro, o senhor da Silva fundou o Fórum de São Paulo em 1990, como um encontro anual de comunistas e outros terroristas radicais e organizações políticas da América Latina, Europa e Oriente Médio, o qual tem sido usado para coordenar e planejar atividades políticas e terroristas ao redor do mundo e contra os Estados Unidos").

- Inimigo do capitalismo e do mercado, um governo Lula seria um retrocesso no caminho para a criação da ALCA, a Área de Livre Comércio das Américas, e para a liberalização econômica no continente ("Como o senhor Castro, o senhor da Silva culpa os Estados Unidos e o 'neo-liberalismo' pelos problemas reais das áreas sociais e econômicas que o Brasil e a América Latina ainda enfrentam. O senhor da Silva chamou a Área de Livre Comércio das Américas de um plano dos Estados Unidos para 'anexar' o Brasil, e ainda disse que os financiadores internacionais que buscam o pagamento de seus empréstimos de 250 bilhões de dólares são 'terroristas econômicos.' Ele também disse que aqueles que estão retirando investimentos do Brasil com medo de seu regime são 'terroristas econômicos'. Isto nos dá uma idéia sobre o tipo de 'guerra contra o terrorismo' que seu regime irá conduzir.")

- Um governo Lula no Brasil seria um estímulo importante para as ações de governos antidemocráticos e antiamericanos na região, como o de Hugo Chávez na Venezuela, assim como para movimentos terroristas como as FARC ("O Brasil divide fronteiras com outros 10 países da América do Sul. Isto ajudaria da Silva a estimular - e ele frisou que o faria - a política externa do regime Chavez, pró-Castro e pró-Iraque, na Venezuela, que tem provido suporte aos comunistas narcoterroristas da FARC na Colômbia, assim como outros grupos anti-democráticos em países da América do Sul.")

- A ascensão de Lula significaria, enfim, a criação de um verdadeiro "Eixo do Mal" na América Latina, unindo o Brasil à ditadura de Cuba e ao regime chavista na Venezuela ("Um eixo Castro-Chavéz-da Silva significaria ligar os 43 anos da política de guerra de Fidel Castro contra os Estados Unidos, com a riqueza em petróleo da Venezuela e o potencial econômico e nuclear bélico do Brasil").

Confesso que, ao ler pela primeira vez essas linhas, eu mesmo tomei um choque. Aquilo parecia puro delírio paranóico. O fato de o autor do texto ser ligado a uma instituição ultraconservadora, de direita, o Hudson Institute, e ter inclusive trabalhado no Conselho de Segurança Nacional e na CIA, certamente influiu para que quase ninguém o levasse a sério. Resultado: as advertências do autor foram quase imediatamente postas de lado, como coisa de lunáticos. Lembro que, uma noite, em uma dessas cerimônias do Itamaraty, eu e um grupo de colegas do Instituto Rio Branco cercamos a então embaixadora dos EUA no Brasil, Donna Hrinak, e lhe indagamos sobre o texto. Ela, muita solícita, muito simpática, tratou logo de descartar avaliação tão alarmante, dizendo que o governo norte-americano não endossava absolutamente aquelas idéias. Até a representante do "Império" achou o texto absurdo... Eu mesmo, que ainda não sabia da existência e das maquinações do Foro de São Paulo, achei que aquilo tudo era um exagero, para dizer o mínimo. Para mim, Lula podia ter, e certamente tem, todos os defeitos, entre os quais farsante e enganador, além de espertalhão e preguiçoso. Mas radical e incendiário, achava eu, ele não era.

Ledo engano. Hoje, passados quase seis anos, sou forçado a reconhecer que as palavras de Constantine Menges eram proféticas. Ele acertou em cheio. Todas as suas previsões se mostraram precisas, certeiras.

Leia novamente os pontos enumerados acima. De todos os vaticínios adiantados por Menges, apenas um, o de que o Brasil poderia restabelecer seu programa de armas nucleares iniciado no regime militar, ainda não se mostrou realidade. Mas isso não significa que os companheiros petralhas tenham desistido da idéia. Muito pelo contrário. Vez ou outra se ouve um rumor êntre as fileiras petistas e seus aliados, em favor da retomada do projeto nuclear brasileiro, em nome do ideal megalomaníaco de "Brasil Potência". O que mostra que Constantine Menges não estava tão longe da verdade assim também nesse quesito.

Onde o analista norte-americano mais acertou, claro, foi na análise (na verdade, na denúncia) das relações para lá de íntimas e cordiais entre o então candidato Lula e Fidel Castro, assim como com o protoditador Hugo Chávez e as FARC. Alguém pode negar, à luz dos últimos fatos ocorridos na América Latina, que esse "eixo do mal" realmente existe? Quem pode dizer, ante a pilha de evidências fartamente documentadas e disponíveis na internet, que Lula, Fidel Castro, Chávez, Morales, Correia, e os terroristas das FARC e do MIR chileno não são parceiros na mesma organização revolucionária continental, o Foro de São Paulo? Essa aliança, que Menges escancara, é uma realidade, um fato inegável, como comprovam as atas do Foro. Mas esse alerta caiu, então, em ouvidos moucos. É que, na época, Lula tentava ganhar o apoio das elites e da classe média e, apelando para uma jogada de marketing jamais igualada na história do Brasil, apresentava-se como um esquerdista "domesticado", light - "Lulinha paz e amor". Muitos caíram nessa. E hoje pagam o preço de sua cegueira ou ingenuidade.

Não sendo possível refutar fatos tão concretos, tão evidentes que só faltam subir nos telhados e gritar nas esquinas, não resta outra coisa a fazer às esquerdas senão tentar desqualificar o autor de denúncias tão graves, tão escabrosas. É a velha tática de atacar o mensageiro, e não a mensagem. Sim, Constantine Menges era um falcão, um conservador de direita, um membro do staff presidencial de Bush e ardente anticomunista, além de ter trabalhado para a CIA. E daí? Desde quando para desmascarar uma impostura é preciso ter atestado de pureza ideológica? A simples exigência desse pré-requisito demonstra até que ponto chegou a hegemonia ideológica das esquerdas: só se aceita a crítica vinda das próprias hostes esquerdistas, nunca de fora delas. Ou seja: se o sujeito é um completo idiota, um débil mental de babar na gravata (como dizia Nelson Rodrigues), sem nenhuma idéia própria, mas se apresenta e se comporta segundo os cânones da esquerda, sempre haverá quem o ouça com atenção. Se, ao contrário, ele apresenta provas concretas e irrefutáveis do que diz, se a realidade comprova item por item tudo que ele escreveu, mas é "um reaça", ninguém lhe dará a mínima. O fato de o acusador ser de direita ou conservador vale tanto quanto querer saber qual seu prato preferido ou para que time de futebol ele torce. E, no caso de Constantine Menges, um refugiado nascido na Turquia e naturalizado norte-americano depois de fugir do nazismo na Europa e ter ajudado a resistência à dominação soviética no Leste Europeu durante a Guerra Fria, o anticomunismo é uma virtude.

Se os esquerdistas tivessem um pingo de honestidade intelectual, para não dizer vergonha na cara, deveriam todos ficar de joelhos, contritos, e pedir perdão a Constantine Menges. E se não fôssemos tão ingênuos, tão parvos e idiotas, estaríamos hoje todos arrependidos e envergonhados por não lhe termos dado a devida atenção.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

CHÁVEZ, O TERRORISTA


(Nesta segunda-feira, dia 4 de fevereiro, ocorreram manifestações de protesto em vários países contra as FARC. Milhares de pessoas saíram as ruas para expressar sua condenação e dar um basta aos seqüestros dos narcoterroristas colombianos. Menos no Brasil).

Do blog de Reinaldo Azevedo, 4/02/2008 (o texto está em negrito, meus comentários vêm em seguida):

Os colombianos, mais uma vez, manifestam seu inequívoco repúdio ao terrorismo. Não é a primeira vez, certo? As eleições democráticas do país e a popularidade do presidente Álvaro Uribe deixam isso muito claro. Mas é importante que o protesto tenha um alvo definido.

O que causa estranheza — ou nem tanto — é que justamente os familiares dos seqüestrados tenham decidido não participar. Não deixa de ser uma evidência de que os terroristas foram longe demais. Compreende-se: vivem sob chantagem, sob o tacão do medo, que é a condição dos parentes das vítimas desse tipo de crime. Temem ver seus nomes no noticiário, o que colocaria sob risco seus entes queridos. Triste é ler a justificativa: “O evento foi politizado” — como se pudesse haver um protesto contra o terror que fosse imune à política.

Claro, aí também estão as patas do ditador do outro lado da fronteira: Hugo Chávez. Ele foi o primeiro a se opor à manifestação de protesto e ainda se coloca como um intermediário entre os familiares e os terroristas — ou seja: é terrorista também. O vagabundo já afirmou que os narcobandoleiros têm “um projeto político bolivariano”. Portanto, reconhece a sua legitimidade.

Assim, os familiares dos seqüestrados temem endossar a luta contra o terror e lançar o nome de seus parentes numa lista negra do terrorismo e do chavismo. Nesta segunda, o coronel saudou a disposição das Farc de libertar mais três pessoas, como se fosse uma concessão que devesse ser aplaudida, um gesto de boa vontade. Ao mesmo tempo, estimula o conflito com a Colômbia, falando no risco de um conflito armado entre os dois países.

Os colombianos e milhares de cidadãos em várias partes do mundo manifestaram seu repúdio contra o terrorismo das Farc. E que fique claro: contra Hugo Chávez também.

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Creio que as palavras acima resumem tudo. Faço apenas um pequeno adendo: as FARC, para quem ainda não sabe ou se nega a ver, é parceira do governo Lula da Silva e do PT no Foro de São Paulo, sobre o qual já falei aqui. Assim como o Chávez, que tenta posar de intermediário quando na verdade apóia os narcoterroristas colombianos. Está claro agora porque as declarações de Lula em Havana "condenando" os seqüestros como "abomináveis" foram tudo pura encenação, um teatrinho hipócrita para inglês ver? Está claro porque o governo brasileiro, com Lula e Marco Aurélio Garcia à frente, se recusa a reconhecer as FARC como um bando de seqüestradores, assassinos e terroristas?
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Que fique claro: os protestos desta segunda-feira no mundo todo não foram contra as FARC e Hugo Chávez somente. Foram contra Lula também. Foram contra todos os que, por cinismo, omissão ou covardia, preferem silenciar e fingir-se de cegos ante o que ocorre na Colômbia.
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Outra coisa. Tudo bem que é carnaval, mas alguém viu alguma manifestação em alguma cidade do Brasil, por menor que fosse, contra as FARC nesta segunda-feira? Não vi vivalma, um gato pingado sequer. Onde estava a UNE? E a CUT? E a CNBB? E as entidades de direitos humanos? Devem estar esperando a folia de momo passar e a ressaca acabar para botarem o bloco na rua novamente. Desta vez contra Bush, a guerra no Iraque, a globalização, o neoliberalismo... Esse é o Brasil.
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Quem apóia narcotraficantes e terroristas, como fazem Chávez e Fidel Castro, é narcotraficante e terrorista também. E quem se cala diante do narcotráfico e do terrorismo, recusando-se a chamá-los pelo nome, como deve ser chamado?

"PARANÓIA" BEM FUNDAMENTADA

Antecipando-me às críticas que os esquerdistas provavelmente farão ao artigo de Reinaldo Azevedo sobre o Foro de São Paulo, publicado na Veja da semana retrasada, resolvi eu mesmo lançar-me à tarefa de analisar os prováveis argumentos que deverão ser utilizados pela companheirada para tentar desqualificar o artigo e o autor. Ao fazer isso, estou sendo bastante otimista, pois é sabido que esse pessoal, quando contrariado, não tem por costume o debate sobre fatos e idéias, mas unicamente grunhir e partir para o achincalhamento e a agressão pessoal, no pior estilo stalinista. Até o momento, por exemplo, não vi nenhuma refutação ao artigo de R.A., o qual comentei em meu texto anterior. Talvez os companheiros petistas e seus aliados ainda estejam desnorteados com a ousadia sem paralelo de um jornalista falar abertamente, num grande veículo de imprensa, sobre uma entidade cuja simples existência era negada de forma sistemática. Talvez estejam meio ressabiados, pois afinal não poderão mais contar com o silêncio cúmplice de parte da grande imprensa sobre assunto tão cabeludo. Nesse caso, é provável que prefiram ficar na moita, esperando a poeira baixar e todos se esquecerem. Mas aposto quanto vocês quiserem que a linha de argumentação dos petralhas seria mais ou menos assim:
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O Foro não é nenhuma entidade revolucionária ou subversiva, e muito menos tem por objetivo a instalação do comunismo na América Latina. Ele nada mais é do que um simples fórum de debates entre os partidos e movimentos políticos de esquerda e centro-esquerda do continente, comprometidos com a democracia e os direitos humanos, a fim de defender uma alternativa popular e progressista à globalização neoliberal e ao avanço do imperialismo norte-americano no continente. Qualquer afirmação em contrário é somente paranóia etc. etc. etc. Esse tipo de lengalenga já foi dito antes, como se pode ver por aqui(http://www.olavodecarvalho.org/semana/10192002globo.htm e http://www.olavodecarvalho.org/semana/061016dc.html)
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Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir logo perceberá, sem muito esforço mental, que todos os "argumentos" elencados acima não passam de uma gigantesca tentativa de enganar mais uma vez o público. Não sendo mais capazes de simplesmente esconder de todos a existência do tal Foro, tratarão agora de minimizar seus objetivos, dando-lhe ares de um clube de senhoras ou de um inofensivo círculo de debates acadêmicos. Não dêem ouvidos a essas platitudes. É tudo lorota. O Foro de São Paulo não é inócuo e inofensivo coisíssima nenhuma. É, isto sim, um instrumento da revolução continental, destinado a derrubar as estruturas políticas vigentes e instaurar o comunismo na América Latina. É, enfim, o maior perigo à democracia e à liberdade no continente nas últimas quatro décadas.
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Delírio? Loucura? Fantasia paranóica? Então vejamos. Em primeiro lugar, onde já se viu um fórum de debates emitir resoluções após seus encontros? Resoluções, ao que se sabe, são normas para a ação, diretrizes para a atuação política. Mas deixa pra lá. Para desmontar por completo esse conto-de-fadas, basta fazer um breve exercício de síntese histórica. O Foro foi criado em 1990, por iniciativa do PT, que convidou para dele fazer parte o Partido Comunista de Cuba, chefiado por Fidel Castro ("comprometido com a democracia e os direitos humanos", logo se vê). Muito bem. O que ocorria de tão importante no mundo, naquela época, que justificou tal iniciativa do partido de Lula? A URSS estava caindo pelas tabelas, vindo a extinguir-se no ano seguinte. O movimento comunista internacional, por conseguinte, parecia estar dando seus últimos suspiros, juntamente com a Pátria-Mãe soviética. Daí a iniciativa de Lula e Fidel Castro - comandante da única ditadura comunista do hemisfério ocidental - para, nas palavras do ditador cubano, "reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu". Vejam bem: não se tratava de "repensar" o comunismo, de "humanizá-lo", torná-lo mais "democrático", menos totalitário, como se tentou fazer - sem sucesso - na ex-Tchecoslováquia em 1968. Nada disso. Tratava-se de salvá-lo, de resgatar da ameça de extinção o movimento comunista. Esse objetivo ficou ainda mais evidente com a entrada na dita organização de outro movimento, as FARC, que saudou a criação do Foro como uma verdadeira "tábua de salvação" do movimento comunista latino-americano (v. http://port.pravda.ru/mundo/15168-farcsaudacao-0). Não por acaso, ao contrário dos ex-partidos comunistas da Europa ocidental, como o da Itália e o da França, o PT jamais renunciou de maneira formal e inequívoca ao marxismo. Ao contrário: sempre o manteve como uma espécie de reserva ideológica, cultivando a ambigüidade, dando pasto às feras enquanto posa de partido "moderado" e "responsável" perante a mídia e os investidores internacionais.
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De lá para cá, o Foro de São Paulo se consolidou, realizando reuniões regulares a cada dois anos, sempre em cidades diferentes, como um "espaço de articulação estratégica" da esquerda continental. Como se dá essa articulação? O próprio Lula explicou recentemente, quando confessou, em público, em julho de 2005, ter trabalhado junto ao Foro para garantir a vitória de Hugo Chávez no referendo de 15 de agosto de 2004, que o manteve no poder: (http://www.info.planalto.gov.br/download/discursos/pr812a.doc). Ou seja: longe de ser um círculo de debates sem conseqüências, o Foro é, isto sim, um mecanismo de ação conjunta das esquerdas, acima e além dos governos e das soberanias. Um intrumento revolucionário supranacional, tal como foram a OLAS e o Comintern.
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Não é preciso ser nenhum gênio ou Sherlock Holmes para perceber que os fatos mais relevantes que aconteceram na América Latina nos últimos dezoito anos - a ascensão de movimentos e governos populistas de esquerda como os de Chávez, Morales, Correa e Lula, para citarmos apenas alguns - não ocorreram no vazio, foram gestados e amamentados na incumbadora do Foro de São Paulo. Quando o Foro foi criado, em 1990, só um dos partidos que o compunham estava no poder - o Partido Comunista de Cuba, de Fidel Castro. Em 2008, já são vários os movimentos que dele fazem parte que alcançaram o comando do Estado - a começar pelo PT de Lula. E seus objetivos não se encerram por aí.
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Isso é o Foro de São Paulo. Uma organização revolucionária, antidemocrática e anticapitalista, e não o clube de escoteiros que muitos imaginam. Se ainda têm alguma dúvida, não acreditem em mim, não acreditem em Reinaldo Azevedo. Acreditem no que dizem os documentos do Foro, os discursos de Fidel e Lula nas reuniões da entidade. Está tudo na internet. Se quiserem, dêem uma olhada e tirem suas próprias conclusões: http://www.midiasemmascara.com.br/links.php?language=pt.
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Quando eu fazia parte de uma organização trotskista de extrema-esquerda, uns quinze anos atrás, eu considerava como principais inimigos, mais do que a burguesia e o imperialismo, o PT e seus aliados. Considerava-os, então, com seus discursos e maneiras moderados e bem-comportados, um bando de reformistas e contra-revolucionários, verdadeiros traidores da revolução socialista. O caminho para a revolução só poderia ser pavimentado por uma retórica inflamada e por palavras de ordem radicais, acreditava. Custou-me compreender que a estratégia mais eficiente para garantir o sucesso do processo da revolução comunista não passa necessariamente pelo enfrentamento direto e pela luta armada, mas se constrói no dia a dia, de forma quase imperceptível, mediante uma combinação habilidosa de métodos legais e ilegais, lícitos e ilícitos. Não tinha percebido ainda que a sonsice e a dissimulação, o fingir-se de bom-moço para ganhar as graças das elites enquanto se prepara o bote final, são parte inseparável da tática e estratégia revolucionárias. Via corretamente Lula e os petistas como uns farsantes e embromadores, mas pelos motivos errados. É que na época eu ainda não tinha lido Gramsci.
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A participação do partido do presidente da República no Foro de São Paulo, ao lado de tiranos como Fidel Castro e de terroristas como as FARC e o MIR chileno, de modo a que essa articulação revolucionária possa ocorrer de forma quase subterrânea, semi-clandestina, nada mais é do que a comprovação dessa estratégia. Sua eficácia é medida principalmente pela insistência dos grandes meios de comunicação em silenciar sobre o assunto, cobrindo de insultos e de ridículo todo aquele que ouse quebrar esse pacto de silêncio e expor a verdade.
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Delírio? Loucura? Fantasia paranóica? Sim, tudo isso.

domingo, fevereiro 03, 2008

UMA FANTASIA BASTANTE REAL (OU: COMO TRANSFORMAR A REALIDADE EM FICÇÃO, E VICE-VERSA)


Peço licença a quem lê estas linhas para um pequeno afago em meu ego. A Veja desta semana publicou carta minha em que elogio o artigo do Reinaldo Azevedo sobre o Foro de São Paulo, publicado na semana passada. Na íntegra, sem nenhum corte ou censura (chegaram até a me corrigir, pois escrevi errado o nome do R.A. na última frase, tendo colocado um inexistente "de" entre os dois nomes). Eis a carta, tal como foi publicada (edição 2046, seção carta do leitor, página 27, canto superior esquerdo):

Até que enfim! Há tempos eu esperava que alguém tivesse a ousadia de falar abertamente do Foro de São Paulo, quebrando a cortina de silêncio estabelecida há anos sobre o assunto. Trata-se da maior ameaça à democracia na América Latina nos últimos quarenta anos, uma organização revolucionária criada por Lula e pelo tirano Fidel Castro, com a participação das FARC, para "restaurar no continente o que se perdeu no Leste Europeu" (ou seja: o comunismo). Depois disso, será que alguém na esquerda ainda vai ter a cara-de-pau de negar que o tal Foro existe, e que o governo Lula e os narcoterroristas das FARC são parceiros? Parabéns ao Reinaldo Azevedo pela coragem!

Fico feliz, claro. Afinal, quem não sentiria uma pontinha de orgulho e uma certa vaidade por ter visto um texto seu, ainda que seja na seção de cartas, na revista mais lida e mais odiada do País (principalmente pelos que são provavelmente seus maiores leitores, os petralhas e esquerdinhas, que adoram fazer gênero dizendo que não lêem "aquela revista reacionária")? Dá até para pensar em vôos mais altos.

Mas, voltando um pouco cá na terra, percebo que há muita coisa a ser feita ainda. Coisa demais, na verdade. O artigo de R.A. sobre o Foro de São Paulo, como eu já escrevi aqui antes, ficará como um marco na história do jornalismo brasileiro, pela coragem ao tratar do tema, até onde eu sei inédito na grande imprensa. Daí o entusiasmo com que eu o saudei. No entanto, desconfio que, assim como ocorreu em outras ocasiões envolvendo esse governo Lula da Silva, como o escândalo do mensalão e outros que já caíram no esquecimento (quem ainda fala hoje, por exemplo, do caso Celso Daniel e dos sanguessugas, só para citar alguns?), logo logo irá desaparecer da grande mídia qualquer menção ao famigerado Foro de São Paulo. Mesmo se tratando, como eu escrevi acima, de algo da maior gravidade, simplesmente a maior ameaça à democracia na América Latina nas últimas quatro décadas. É quase com dor no coração, mas me arrisco a apostar que em breve quase ninguém se lembrará do assunto, que permanecerá como um tabu, uma verdadeira ficção, tal como tem sido tratado desde 1990, quando o Foro foi criado.

Por que digo isso? Em parte, porque a experiência me fez aprender a ser pessimista. Com esse governo que aí está, com a petralhada no poder, deve-se esperar sempre o pior. O controle dos corações e mentes pela turma dos barbudinhos leitores de Gramsci está simplesmente arraigado demais, incrustado demais, nos cérebros de todos nós - e, quando digo todos, digo todos mesmo, incluída aí a Veja -, para que percebamos o tamanho da armação. Não adianta mostrar provas, apontar para o fato de que o referido Foro é uma realidade, estando abundantemente documentado na internet. Os brasileiros estão todos anestesiados, entorpecidos, idiotizados por décadas de propaganda esquerdista repetida sistematicamente para se sentirem indignados com mais essa denúncia contra os companheiros. O quê? Uma organização criada por Lula e pelo "Coma Andante" para servir de articulação estratégica dos partidos e movimentos revolucionários de esquerda para implantar o comunismo na América Latina, recuperando por estas bandas o que se perdeu na antiga URSS? Simplesmente irreal demais, louco demais, para ser verdade. Só pode ser delírio e paranóia desses direitões e reaças, claro. Assim continuarão a repetir nossas cabeças mais brilhantes e "progressistas". Durante 18 anos se pensou assim. Por que agora seria diferente?

O artigo de Reinaldo Azevedo foi, como eu também já disse, um sopro de ar numa sala embolarada. Certamente, uma das melhores coisas que já apareceram na imprensa brasileira, comparável, guardadas as devidas proporções, à denúncia do mensalão pelo Roberto Jefferson, ou do esquema PC Farias pelo irmão do Collor, que deslanchou todo o processo de impeachment. É dinamite pura, material de altíssima voltagem. Mas, não nos esqueçamos, este é o Brasil, um país em que a mídia mais lúcida e responsável ainda vê Lula como um governante sério e moderado, uma espécie de antídoto contra o marxismo de galinheiro e o populismo chavista. Se vivêssemos num país onde a sensatez e a inteligência fossem artigos valorizados, e onde as pessoas tivessem o hábito elementar de ligar os pontos, a revelação de que o Apedeuta e seu partido são parceiros de ditadores e narcoterroristas numa organização que planeja nada menos do que a revolução continental renderia pelo menos uma CPI ou um processo criminal. Bastaria isso e garanto que Lula e seus comparsas não durariam mais uma semana. Mas, como este é o país do carnaval, não posso me dar o luxo de ser otimista.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A FARRA DOS CARTÕES E O DISCURSO DA VITIMIZAÇÃO RACIAL: UM SAMBA DO CRIOULO DOIDO

Acabei de ler na internet. A Ministra da Secretaria Especial de Políticas para a Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, pediu demissão do cargo. O motivo foi a revelação de que andou gastando dinheiro público com cartões corporativos, R$ 171 mil no ano passado, em despesas pessoais que incluíram o aluguel de carros e o pagamento de contas em restaurantes, e até compras num free shop. Outros ministros estão envolvidos na farra. O da Aqüicultura e Pesca torrou alguns milhares de reais em viagens para sua terra natal. O do Esporte usou os tais cartões para comprar até tapioca (pelo menos foi nacionalista, poderia ter sido um Big Mac...).

A Ministra já vai tarde. Deveria ter pedido para sair alguns meses atrás, quando, numa entrevista inesquecível para a BBC em Londres, entrou para a lista de autores de frases mais inacreditáveis da História, quando disse o seguinte: "Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco (sic). Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural (sic), embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça (sic), porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou". Ao contrário do que poderia supor o bom senso mais elementar, ela não sofreu nenhuma reprimenda oficial por causa disso. Nem mesmo um puxãozinho de orelha. Na época, o governo pôs panos quentes e o assunto foi esquecido. Pena. Tivesse ela sido demitida por declarações absurdas como essa, e não por um escandalozinho de quinta categoria como o dos cartões corporativos, teria sido um sinal de que o País, afinal, tem solução. Teria sido a prova de que o Brasil não está tomado, afinal, pelo discurso demagógico e marketeiro do politicamente correto, como demonstra outro grande escândalo, o das cotas raciais nas universidades. Alguns anos atrás, outra Ministra do governo Lula, Benedita da Silva, igualmente negra, igualmente despreparada, igualmente deslumbrada e incompetente até na roubalheira, teve de se demitir após ter sido apanhada com a boca na botija, usando dinheiro do contribuinte para passear em Buenos Aires, aonde foi participar de um culto evangélico. Eu a demitiria não por isso, mas pelo lema que escolheu para sua campanha política quando se candidatou a governadora do Rio de Janeiro: "Mulher, negra e favelada". Uma peça de demagogia e de vitimização sem paralelo com quase tudo que eu já vi.

A queda de Matilde Ribeiro é um desses episódios que, em sua aparente banalidade, trazem importantes lições. Infelizmente, creio que logo serão esquecidas, assim como o próprio caso em si, como uma mera gota no oceano de bandalheira que é o governo Luiz Inácio. Mas vale a pena não deixar a peteca cair. A primeira lição, óbvio, diz respeito ao próprio deslumbramento da Ministra, que usou e abusou do cartão corporativo até nas férias de fim de ano. Isso mostra que não temos jeito, somos mesmo um bando de malandros e cafajestes. Basta dar um cargo a qualquer um e lhe entregar um cartão para gastar com despesas oficiais, que o sujeito ou sujeita vai se refestelar no primeiro restaurante ou shopping center. Coloque-o numa cadeira com um cargo "de responsa", dê-lhe uma sala com ar condicionado e alguns funcionários, e ele ou ela logo se sentirá o rei ou rainha da cocada preta, uma autêntica "otoridade", acima do bem e do mal. Não importa se o dinheiro que paga o aluguel do carro ou a tapioca vem do meu, do seu, do nosso bolso. É um traço de nosso caráter nacional, algo de que não podemos fugir. Está nos nossos genes, na nossa formação histórica e cultural defeituosa, o não distinguir entre o que é particular e o que é público, ou, como gostamos de dizer, o que "não é de ninguém".

Mas isso é, como dizia Nelson Rodrigues, o óbvio ululante. O mais importante, o que se deve ter em mente quando ninguém mais lembrar da Dra. Matilde Ribeiro, é o próprio cargo que ela exercia. Afinal, o que faz exatamente a Secretaria Especial para a Promoção de Pólíticas para a Igualdade Racial da Presidência da República? Trata-se de uma ficção, mais uma sinecura estatal feita sob medida para ser preenchida por companheiros militantes, para que estes ponham em prática seus delírios ideológicos. No caso, militantes de uma causa, a da "igualdade racial", que têm como uma de suas principais bandeiras a adoção do sistema de cotas racias nas universidades federais, algo já vigente na UnB. Em nome da luta contra o racismo - causa nobre contra a qual ninguém em sã consciência se insurgiria, assim como ninguém seria contra a "luta pela paz" ou a preservação das baleias azuis -, estão dispostos a tornar institucional o próprio racismo, como de fato faz o sistema de cotas, o qual apenas serve para dividir a sociedade em duas raças e desmoralizar os negros como incapazes intelectualmente, sepultando a meritocracia. E isso num país que se gaba - corretamente, aliás - de sua mestiçagem. A tal Secretaria presidida pela Ministra demissionária, enfim, é um erro desde o início. Um autêntico samba do crioulo doido - ou do afro-descendente fora do pleno domínio de suas faculdades mentais, como queiram. Diante disso, o escândalo dos cartões é apenas um detalhe, a pontinha do iceberg.

A saída de Matilde Ribeiro do Ministério Lula da Silva só não é mais melancólica do que o próprio cargo que ela ocupava. Durante o governo Lula, sob a sua coordenação, tem-se assistido a um enorme retrocesso também na área racial, com o aparecimento de tensões antes inexistentes em função da adoção das cotas nas universidades, criadas por uma visão vitimista que não raro é usada como um álibi para se cometer todo tipo de roubalheira. Não duvido que a ex-Ministra, assim como Benedita da Silva antes dela, seja elevada à condição de mártir e heroína por seus companheiros de causa racista, ops, racial, uma Joana d'Arc afro-descendente, pois teria sido vítima de algum complô ardiloso das "zelite" por ser negra, coitada... O País regrediu algumas décadas sob Lula. Ele desmoralizou não apenas a ética, mas os negros também. Ficamos todos mais corruptos, mais safados, mais sonsos, mais racistas. E mais burros.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

O BRASIL AMEAÇA A SOBERANIA DOS PAÍSES VIZINHOS


É um dos raros consensos existentes que a soberania é uma das idéias-base da diplomacia. Trata-se mesmo do alicerce primordial das relações internacionais. Ninguém, em seu juízo perfeito, ousaria contestar esse dogma supremo, verdadeiro fundamento dos Estados nacionais. Desde que entrei para os quadros do Itamaraty, em 2002, devo ter ouvido a expressão "soberania" e "defesa da soberania" umas quinhentas vezes, no mínimo, em geral no meio de algum discurso patrioteiro contra o inimigo favorito da humanidade, o imperialismo dos EUA, sempre como uma necessidade imperiosa e um dever sagrado de todo diplomata e funcionário do Estado. Em nome dela, a soberania, declaram-se guerras, fazem-se revoluções. A defesa da soberania, enfim, é mais do que um imperativo político: é uma obrigação moral, um dever imprescindível para a própria existência da Nação.

Pois bem. Essa mesma soberania, tão cara aos nacionalistas de todos os tipos, está sob ameaça hoje na América Latina. E, ao contrário do que dizem dez em cada dez analistas políticos da região, um de seus principais inimigos, hoje em dia, não é a Casa Branca, o Departamento de Estado ou o Pentágono: é o governo do Brasil, de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em que me baseio para dizer tamanha sandice?, você deve estar se perguntando. Cito três fatos básicos. Ei-los: 1) a recusa do governo Lula em reconhecer as FARC como terroristas; 2) a política de abstenção na Comissão de Direitos Humanos da ONU em relação à ditadura de Cuba; e 3) o apoio velado ao proto-ditador Hugo Chávez na Venezuela, às vezes por cima dos canais diplomáticos.

Em todos esses exemplos, o governo brasileiro alega defender a soberania dos países envolvidos, dizendo adotar uma postura favorável à não-intervenção e à autodeterminação dos povos. Dificilmente poderia existir algo mais falso. Vejamos cada um desses exemplos, separadamente.

1) Com relação ao não-reconhecimento das FARC como terroristas, a justificação do governo Lula é sempre a mesma: trata-se de um problema interno da Colômbia, e reconhecê-las como terroristas não ajudaria em nada para a solução do conflito, muito pelo contrário. Ouvi essas palavras da boca do próprio assessor especial da presidência da República para relações internacionais, Marco Aurélio ("Top,Top,Top") Garcia, quando indaguei-lhe sobre as razões dessa política do governo brasileiro em relação ao conflito na Colômbia, alguns anos atrás.

Os argumentos apresentados pelo governo Lula, por meio de Marco Aurélio Garcia, para justificar sua política de omissão/cumplicidade com as FARC na questão da Colômbia não valem meia colher de mel coado. São, na verdade, uma grande tapeação. Vejamos por quê:

Em primeiro lugar, o conflito na Colômbia, que se arrasta há mais de quatro décadas, há muito já deixou de ser um assunto interno colombiano. Pelo menos desde que as FARC e o ELN passaram a se sustentar no tráfico de cocaína, cujos carregamentos são enviados para vários países, inclusive o Brasil, a guerra civil já extrapolou as fronteiras daquele país. Desde então, o conflito armado da Colômbia constitui um problema regional, uma ameaça à segurança e à paz de praticamente todos os países da região.

Além disso, como ficou claro para quem quisesse ver pelo gigantesco circo de promoção pessoal montado por Hugo Chávez no caso da libertação de duas reféns colombianas na virada do ano - que culminou, não por acaso, com a defesa veemente feita pelo coronel venezuelano da retirada das FARC da lista de organizações terroristas dos EUA e da União Européia e seu reconhecimento como "força beligerante"-, o não-reconhecimento das FARC e do ELN (e também dos páramilitares de direita da AUC) como terroristas não significaria intromissão alguma nos assuntos internos da Colômbia. Muito pelo contrário: o próprio governo de Bogotá solicita, há anos, que os governos do continente reconheçam esses grupos como o que de fato são. Além do mais, ninguém diz que a União Européia, que considera as FARC como terroristas, está se imiscuindo na política interna colombiana. O não-reconhecimento do terrorismo das FARC, na verdade, não significa neutralidade. Ao negar-se a reconhecer o óbvio - que as FARC são, sim, terroristas em seus métodos e objetivos -, o governo brasileiro, longe de assumir uma postura eqüidistante, apenas beneficia um dos lados do conflito colombiano - o lado do terror e do narcotráfico.

Finalmente, dizer que o reconhecimento das FARC e do ELN como terroristas seria um empecilho ao processo de paz na Colômbia é de uma vigarice sem tamanho, além de demonstrar completo desconhecimento do que se passa no país vizinho. Ora, o objetivo dos narcoterroristas colombianos não é alcançar a paz coisa nenhuma. É, sim, tomar o poder e impor, na Colômbia, um regime marxista, com o apoio de seus aliados e inocentes úteis. Alguns anos atrás, o governo colombiano do presidente Andrés Pastrana, anterior ao atual, atendeu a várias reivindicações dos "guerrilheiros" e entregou às FARC um território maior que a Suiça. O que se viu desde então não foi nenhum avanço no processo de paz, mas apenas o recrudescimento dos atentados.

2) Quanto à abstenção sistemática do Brasil nas votações sobre Cuba na Comissão de Direitos Humanos da ONU - uma política, justiça seja feita, adotada desde antes do atual governo brasileiro -, a manipulação interesseira da soberania para beneficiar a tirania cubana se mostra ainda mais evidente. A justificativa apresentada sempre pelo governo brasileiro - não se pode politizar a questão dos direitos humanos na ilha, é preciso defender a não-intervenção e a autodeterminação dos povos - não passa de conversa para boi dormir. Isso porque a "politização" alegada diz respeito a quem faz as denúncias - geralmente, os EUA -, e não às violações em si. A esse respeito, por exemplo, cita-se sempre a política dos EUA em relação a seus aliados, como Israel e a Arábia Saudita. Do que se deduz que a não-condenação da ditadura castrista de Cuba pelos fuzilamentos e prisões de dissidentes políticos ocorre tão-somente porque as denúncias partem dos EUA. Pode existir politização da questão maior do que essa? Há alguns dias, Lula foi a Cuba e se encontrou com Fidel Castro. Na ocasião, elogiou a saúde do ditador e sorriu para as fotos. Quanto aos presos políticos na ilha, nenhuma palavra. Enquanto isso, os dissidentes continuam presos e o povo cubano impedido de se manifestar livre e soberanamente na ilha-prisão de Cuba, verdadeiro paraíso dos companheiros petistas.

3) E quanto ao apoio velado de Lula a Hugo Chávez? Creio que aqui não é preciso dizer muito para demonstrar que, também nesse caso, o discurso da não-intervenção é mera fachada para encobrir uma relação ideológica bastante íntima. É suficiente recordar alguns episódios, como o envio de um navio cheio de petróleo à Venezuela em pleno paro contra Chávez, no começo de 2003 - o que, certo ou não, é até hoje lembrado pela oposição venezuelana como prova de cumplicidade de Lula com seu companheiro bolivariano, e de parcialidade a seu favor - e, mais recentemente, o discurso de Lula em julho de 2005, no 15. aniversário do Foro de São Paulo, entidade que, não por coincidência, reúne os atuais presidentes do Brasil e da Venezuela, além do "Coma Andante" Fidel Castro e as FARC. Nesse caso, acho que vale a pena citar algumas palavras de Sua Excelência em seu discurso, quando se refere à vitória de Chávez no plebiscito de 15 de agosto de 2004 que o manteve na presidência. Não acreditem em mim, acreditem nele:"O Chávez participou de um dos foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível construirmos (...) a consolidação do que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez como presidente da Venezuela". Difícil imaginar maior confissão de intromissão nos assuntos internos de outro país do que essa, à margem dos canais governamentais normais. Um verdadeiro atentado à soberania do povo venezuelano. Quanto ao Foro, muita gente ainda acha que é algo inofensivo, um simples fórum de debates sem maiores conseqüências (pelo menos não dizem mais que é uma fantasia, já é um avanço...).

Outros exemplos poderiam ser dados, como a falta de atitude do atual governo brasileiro em relação à encampação das refinarias da PETROBRAS na Bolívia, que muita gente até hoje não entendeu (o fato de Evo Morales ser parceiro de Lula e Chávez no FSP talvez explique). Mas os três acima bastam para dar uma idéia de até onde vai esta articulação estratégica continental.

Tudo isso me faz pensar. A idéia de soberania nacional é certamente uma das mais importantes já surgidas na história. E também uma das mais deturpadas, mais prostituídas. Os exemplos acima mostram isso cabalmente. Como também demonstra a sua utilização por regimes tirânicos e ditatoriais, geralmente como um álibi para justificar a repressão política interna e violações aos direitos humanos - o caso de Cuba é óbvio demais para ser ignorado -, a soberania é inseparável da democracia. Mais que isso: a soberania, como conceito e como realidade, só faz sentido se vem acompanhada da preservação de valores políticos e morais elevados, reconhecidos amplamente como essenciais à vida civilizada. De nada vale defender a soberania de um país submetido a uma ditadura brutal, como a de Hitler ou a de Saddam Hussein no Iraque. Nesse caso, o discurso da soberania não passa de retórica vazia, uma cortina de fumaça para justificar o crime e enobrecer a tortura, o estupro e o assassinato. Algo, enfim, que diz respeito não a este ou àquele país específico, mas à toda a humanidade.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

O FIM DE UM TABU


Mal pude acreditar quando vi. Mas está lá, na Veja desta semana. Um artigo de duas páginas, assinado por Reinaldo Azevedo, sobre o Foro de São Paulo, cujo título diz tudo: "O Foro de São Paulo não é uma fantasia" (edição n. 2045, páginas 60 e 61). Finalmente, depois de uma tímida referência ao Foro em reportagem sobre as FARC na edição da semana passada, um jornalista tem a coragem e ousadia de quebrar abertamente este que é o maior tabu dos meios de informação brasileiros nos dias de hoje. Um golaço para a liberdade de imprensa e contra o obscurantismo ideológico. Cito um trecho:

"Os petistas falam do Foro sem receio. Fizeram-no no vídeo preparado para o 3. Congresso do partido, no fim de agosto e início de setembro do ano passado. Procure no Youtube. Parte do jornalismo brasileiro, no entanto, pretende que tratar do assunto é dar asas a uma fantasia paranóica. Eis uma prática antiga da esquerda. Ela sempre foi craque em ridicularizar a verdade, transformando-a numa caricatura, de modo que seus adversários intelectuais ou ideológicos não encontrem senão a solidão e o desamparo".

O artigo de Reinaldo Azevedo sobre o Foro de São Paulo entrará para a história do jornalismo brasileiro como um marco na denúncia das maquinações esquerdistas para alcançar o controle hegemônico da sociedade. Eu recomendo recortá-lo e colá-lo na parede, emoldurado como um quadro ou um troféu. Assim deve fazê-lo, a meu ver, qualquer pessoa que ainda tenha um mínimo de compromisso com a verdade e que se oponha a qualquer tentativa de acobertamento da mesma em favor de um projeto ideológico de poder. O Foro de São Paulo, como eu já disse neste blog inúmeras vezes e não me canso de repetir, é a maior ameaça à democracia na América Latina desde a OLAS, nos anos 60, funcionando como um verdadeiro Comintern cucaracha, para "restaurar no continente o que se perdeu no Leste Europeu" (ou seja, o comunismo). Dele fazem parte Lula da Silva e o ditador perpétuo de Cuba, Fidel Castro (seus fundadores), além das FARC e outras agremiações de extrema esquerda. E, apesar de seus objetivos totalitários não serem nenhum segredo, estando inclusive divulgados fartamente na internet, durante quase vinte anos se cobriu o Foro com um véu de silêncio na grande mídia brasileira, o qual somente agora começa a ser rasgado. Não é para menos. Em 2005, por exemplo, Lula confessou em discurso no aniversário de quinze anos do Foro ter trabalhado para consolidar a vitória de Hugo Chávez no plebiscito de agosto de 2004 que lhe garantiu a permanência no poder na Venezuela, numa clara interferência na política interna do país vizinho. E isso é só a ponta do iceberg.

Resta agora saber o que dirão os companheiros defensores de Lula e do PT, assim como a legião de analistas "sérios" que se dedicaram, nos últimos anos, a descartar qualquer menção ao Foro como obra de algumas mentes paranóicas e reacionárias. Certamente, gastarão seus (parcos) neurônios atacando o mensageiro, e não a mensagem, questionando a credibilidade da revista e do autor do artigo, o qual deverá ser alvo dos insultos e ofensas pessoais de praxe. É típico dos esquerdistas agirem assim, toda vez que são desmascarados. Também resta saber o que será, a partir de agora, da carreira jornalística de Reinaldo Azevedo, depois de tamanha ousadia. Basta lembrar o que houve com o filósofo Olavo de Carvalho, o primeiro a denunciar abertamente na imprensa brasileira a existência e os objetivos do Foro de São Paulo, e que teve como prêmio por sua ousadia uma carta de demissão do jornal O Globo e da revista Época alguns anos atrás. Espera-se que a Veja não demonstre a mesma pusilanimidade das publicações da família Marinho.

A cortina de silêncio cúmplice e covarde que cobria a maior articulação estratégica da esquerda revolucionária continental foi descerrada. Não há mais como negar sua existência, assim como não é mais possível negar a cumplicidade do governo Lula da Silva com ditadores assassinos e narcotraficantes. Se isso não valer pelo menos uma CPI, é porque estamos todos dominados.

domingo, janeiro 27, 2008

ANTONIO GRAMSCI, OU COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS


"Quem controla a mente humana, controla a realidade" (George Orwell, 1984)


O ex-primeiro-ministro da antiga Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, certa vez disse uma frase que, em sua aparente simplicidade, resume tudo. Era mais ou menos assim: "É uma pena que a inteligência humana seja limitada, enquanto a estupidez não conhece limites".

Fico pensando nessa frase, que li há muito tempo, toda vez que tento debater sobre o cenário político atual latino-americano, em especial sobre a esquerda, no Brasil e no mundo, e alguém me vem com argumentos do tipo: o conjunto da esquerda brasileira já abandonou por completo a idéia de revolução socialista; com exceção de alguns grupelhos radicalóides, a esquerda nacional já se acomodou perfeitamente à democracia e ao capitalismo; todo esse papo sobre revolução continental e Foro de São Paulo não passa de simples paranóia e delírio de um punhado de reacionários e saudosistas dos tempos da Guerra Fria etc etc.

Esse tipo de wishful thinking, que se tornou um verdadeiro mantra após a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, não resiste ao menor sopro de crítica. Ignoro se meus interlocutores já ouviram falar em Gramsci - desconfio que não -, mas o fato é que os argumentos mostrados acima apenas parecem reproduzir, sem tirar nem pôr, as idéias principais gramscianas.
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O italiano Antonio Gramsci (1891-1937), um dos maiores teóricos marxistas do século XX - alguns o consideram o maior ideólogo comunista depois de Lênin -, foi o fundador do Partido Comunista Italiano, até poucos anos atrás o maior do Ocidente. Autêntico amarelão ideológico, no dizer de Reinaldo Azevedo, Gramsci é uma espécie de Dale Carnegie das esquerdas. Em seus escritos, ele tratou de adaptar o pensamento marxista à época da comunicação de massa, defendendo que a tomada do poder pelos comunistas poderia ocorrer não necessariamente por meio da insurreição armada, tal como ocorrera na Rússia em 1917, nem mesmo pela simples via legal e eleitoral, mas por um processo de conquista gradativa das instituições, particularmente da superestrutura intelectual e espiritual da sociedade. Em outras palavras, os revolucionários comunistas, segundo Gramsci, deveriam concentrar seus esforços não exclusivamente na luta política direta pelo poder do Estado, mas, principalmente, na conquista de espaços e na busca pelo controle, a partir de dentro, da mídia, das artes, das ciências - enfim, da vida intelectual e cultural em geral. A dissimulação é parte importante nesse processo: em vez de palavras de ordem por um governo socialista, por exemplo, deveriam ser usadas expressões como "governo democrático e popular", ou "em defesa da paz", ou, ainda, "inclusão social", ainda que os objetivos dos marxistas sejam exatamente o inverso. Palavras como "comunismo" e "revolução" estariam, assim, proibidas - o importante era construí-las na prática cotidiana, através da propaganda. Nada, portanto, de sair por aí defendendo, em alto e bom som, a derrubada imediata da burguesia e a tomada do poder pela classe operária. A propaganda é sempre mais eficaz quando não parece propaganda.
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Desse modo, além de disfarçar os reais propósitos dos revolucionários, o método gramsciano visa a criar as bases para a revolução sem falar em revolução, para o estabelecimento do comunismo sem precisar falar abertamente em comunismo, e todo aquele que ouse denunciar esse esquema solerte de solapamento da democracia é imediatamente tachado de reacionário ou paranóico. A esse processo, levado adiante pelos "intelectuais orgânicos" do proletariado - o partido -, Gramsci chamou de conquista da hegemonia. Um esquema quase perfeito, brilhante em sua sonsice sem limites.
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Como fica claro pelas idéias de Gramsci, o verdadeiro campo de batalha em que as esquerdas tratam de construir seu poder hoje em dia não são as instituições do Estado, como o Parlamento e as eleições. É a mente humana. Não se toma o poder apenas pela força, mas pela persuasão, pelo convencimento. É pelo controle mental, pela repetição incessante de slogans e chavões, que se pode alcançar o tão sonhado controle da realidade. Isso demanda um trabalho longo e prolongado de infiltração e doutrinação ideológicas, que ocorre de forma lenta, solerte, anestésica, quase imperceptível, nos principais setores da superestrutura. Esse trabalho pode durar anos, ou mesmo décadas. O objetivo é que, no decorrer desse processo, os objetivos do partido revolucionário - o príncipe moderno, na definição de Gramsci, que a retirou de Maquiavel - venham a constituir-se, nas palavras do próprio Gramsci, "em um imperativo moral, um substituto do imperativo divino".

Recentemente, reli 1984, de George Orwell, um de meus livros preferidos. A certa altura do romance, O'Brien começa a explicar a Winston qual a finalidade da tortura que lhe estava sendo aplicada em nome do Ingsoc, o Partido. Não se tratava de simplesmente forçar o prisioneiro, pela dor e pelo medo, a confessar-se herege ou autor de crimes imaginários, como na Inquisição medieval ou na ditadura stalinista soviética. O objetivo, explica O'Brien, era fazer o prisioneiro acreditar que era efetivamente culpado de um crime monstruoso (a "crimidéia", ou crime do pensamento), a fim de aceitar o poder do Ingsoc. Era, enfim, fazê-lo amar o Grande Irmão. Isso porque - conclui O'Brien - o controle sobre a mente humana, a ponto de fazê-la acreditar que dois mais dois são cinco, é o fundamento mesmo do poder do Partido.

Não sei se Orwell conhecia os escritos de Gramsci. Mas, ao narrar de forma tão contundente os mecanismos de dominação totalitária, descreveu à perfeição a maneira como a ideologia esquerdista, marxista e totalitária, vem penetrando há pelo menos oito décadas as mentes das pessoas no Ocidente, conforme o esquema preconizado por Gramsci. Tal esquema de condicionamento mental quase pavloviano já avançou tão profundamente sobre as consciências dos indivíduos que a maioria esmagadora da população é mantida na mais completa ignorância de sua existência, embora ele possa ser facilmente percebido em todos os lugares: nas escolas, no cinema, no teatro, na literatura, nas igrejas, nos sindicatos etc. Eis um exemplo que julgo bastante didático: você, que lê essas linhas, conhece algum professor universitário ou artista de renome, ou qualquer outro "formador de opinião" no Brasil, que se diga abertamente de direita e a favor do capitalismo? Por outro lado, quantos você conhece que enchem a boca e estufam o peito para proclamar, aos quatro ventos, suas convicções esquerdistas, ou, pelo menos, simpáticas às teses de esquerda?

Quando à estupidez humana se soma a capacidade ilimitada dos herdeiros de Marx e Lênin de mudarem de cara e de roupa para enganarem os incautos, convencendo-os de que seus propósitos não são antidemocráticos, o resultado é meio caminho andado para o estabelecimento de um Estado totalitário. No Brasil, esse processo encontra-se em estágio bastante avançado, como demonstra a hegemonia (no sentido gramsciano do termo) do discurso "politicamente correto" em questões tão díspares como racismo, homofobia e meio ambiente, a ponto de ser necessário, para revertê-la, proceder a uma verdadeira reprogramação neurolingüística. O silêncio obsequioso da quase totalidade da imprensa brasileira a respeito da cumplicidade do governo Lula da Silva em relação aos narcoterroristas das FARC e ao Foro de São Paulo, assim como a elevação de figuras como Oscar Niemeyer e Luiz Fernando Veríssimo à condição de faróis intelectuais da nacionalidade, são apenas a ponta de um gigantesco iceberg. Há pelo menos trinta anos, já estamos todos dominados, inconscientemente, pela retórica esquerdista. Assim como o personagem principal de 1984, aprendemos todo dia que dois mais dois são cinco.

sábado, janeiro 26, 2008

SÍNDROME DE ESTOCOLMO


Aproveitando o ensejo do meu último artigo, em que comento a cortina de silêncio que há quase vinte anos desceu sobre o Foro de São Paulo, senti-me na obrigação de escrever mais algumas palavras sobre o assunto. Na verdade, devo confessar que fiquei tão entusiasmado com a - pequena, pequeníssima - referência da revista ao Foro - o maior tabu da imprensa brasileira na atualidade - que acabei esquecendo de observar algo fundamental. Algo que é a própria essência de todo o debate atual sobre a esquerda e os esquerdistas, no Brasil e no exterior.

Na edição anterior da revista, há uma reportagem sobre as FARC que, a certa altura, diz o seguinte (transcrevo ipsis literis):

"A organização que mantém cerca de oitocentas pessoas em seu poder, conhecida pela sigla Farc, não é formada por guerrilheiros marxistas, como repete a denominação usual. Nem Marx endossaria as barbáries cometidas pelas Farc, que se originaram numa querra civil ocorrida na Colômbia e depois tiveram inspiração esquerdista, mas há muito tempo degeneraram em uma espécie de seita de fanáticos que vive à custa do tráfico de cocaína.”

Malgrado a justeza da condenação das FARC no parágrafo transcrito acima, há nele três grandes erros. Erros graves, gravíssimos. Vamos a eles:

1) Ao contrário do que diz a Veja, as FARC são uma organização marxista, sim. Somente quem desconhece por completo a história do movimento revolucionário comunista, desde a Primeira Internacional, em 1864, passando pela Revolução bolchevique de 1917 na Rússia até as maquinações insurrecionais do Comintern e da OLAS, sem falar na própria essência do pensamento de Marx e Engels, pode alegar o contrário. Seu objetivo não é outro senão transformar a Colômbia numa ditadura comunista, como é a de Cuba. Não há contradição alguma entre o marxismo e o tráfico de drogas, os seqüestros, extorsões e assaltos a bancos. Na realidade, esses métodos sempre estiveram intimamente associados aos objetivos revolucionários comunistas, desde a segunda metade do século XIX - basta folhear qualquer biografia de Lênin ou Stálin para perceber que, na luta pelo socialismo, todos os meios são válidos. Matar, seqüestrar, roubar, corromper, traficar cocaína - o que é tudo isso, do ponto de vista marxista e revolucionário, comparado ao supremo objetivo da revolução? Até hoje os críticos liberais do marxismo - como os editores de Veja - ainda não se deram conta de que a moral marxista e revolucionária - a moral das FARC - não se guia pelos mesmos elevados princípios abstratos da moral burguesa. Ao contrário desta, a moral revolucionária é instrumental, e está resumida num pequeno livro escrito por Trotsky, cujo título já é bastante explicativo - "Nossa Moral e a Deles". O que é correto, o que é moral para um revolucionário marxista? Tudo o que conduza ao triunfo da revolução, diz Trotsky, que ninguém pode acusar de ter sido antimarxista. Se isso significa manter acorrentadas pelo pescoço, feito animais, centenas de pessoas no meio do mato, ou encher os cofres do partido-guerrilha com os lucros provenientes do tráfico de drogas, que o seja. É assim que pensam as FARC.

2) Pelos motivos enunciados acima, fica claro que, também ao contrário do que diz a revista, Marx endossaria tranqüilamente, sim, as barbáries das FARC (sem falar no seu objetivo final, que é nada mais nada menos do que a transformação da Colômbia numa ditadura comunista). Aliás, é muito estranha essa insistência em separar Marx de seus discípulos narcoterroristas. Não há razão alguma para isso, senão a vontade de preservar o mito revolucionário. Marx não foi apenas o criador do "socialismo científico", o filósofo e economista que quis transpor para o campo da realidade a dialética hegeliana, como é geralmente descrito de maneira anódina nos manuais de filosofia política. Foi um inimigo da liberdade, responsável direto pelas maiores tragédias do século XX. Além de um farsante e um grande charlatão, um tremendo hipócrita, que falava em acabar com as desigualdades sociais do capitalismo enquanto se dedicava a engravidar a empregada.

Essa busca incessante pela preservação do mito da pureza marxista não tem nada de novo, e encontra eco nos sucessores do marrano alemão. Do mesmo modo que, quando da revelação dos crimes do stalinismo por Krushev em 1956, tentou-se inicialmente atribuir a responsabilidade dos crimes - "erros", na visão oficial soviética - a subordinados de Stálin, e, quando da derrocada da ex-URSS, buscou-se culpar pelo fracasso do socialismo tão-somente Stálin e seus asseclas, preservando a figura de Lênin, o conjunto das esquerdas - e até a Veja, vejam vocês - tenta blindar a figura de Marx, protegendo-o de qualquer culpa pelo que sucedeu depois na ex-URSS e demais países comunistas. E, da mesma forma que as demais, esta é uma grande mentira, uma gigantesca tapeação.

Marx não foi, certamente, o criador da doutrina comunista. Antes dele, vieram os chamados "utópicos", como Babeuf, Proudhon e Fourier, sem falar em Rousseau e, ainda mais para trás, Morus e Platão. Mas foi, sem dúvida, seu sistematizador, o responsável pela transformação do ideal igualitário-totalitário numa doutrina política coerente e sistêmica, apresentada numa embalagem "científica". Foi essa doutrina que esteve por trás dos piores crimes já cometidos contra a humanidade. Sem Marx, não teria havido Lênin, nem Stálin, nem Mao Tsé-Tung, nem Pol Pot, nem Fidel Castro. Trocando em miúdos: não haveria gulag, processos de Moscou, guardas vermelhos, campos da morte. Nem paredón e FARC.

3) As FARC são, sim, um bando de fanáticos terroristas e narcotraficantes, mas não deixaram de ser marxistas por causa disso. Muito pelo contrário. Os motivos estão expostos acima. De nada adianta mostrar indignação com o banditismo das FARC sem vinculá-lo a seus objetivos revolucionários e à ideologia comunista que lhe dá sustentação. Enquanto não se perceber isso, enquanto não se atentar para a relação inseparável entre a barbárie das FARC e sua ideologia marxista, qualquer condenação de seus métodos terroristas cairá no vazio.

Toda essa recusa em enxergar uma realidade tão óbvia e irrefutável - tanto que chego a hesitar antes de escrever sobre ela, como algo realmente acaciano - só se explica, creio eu, por algum tipo de lavagem cerebral coletiva, uma espécie de síndrome de Estocolmo em massa. Isso ficou ainda mais claro para mim quando soube que alguns familiares dos reféns das FARC chegaram a agradecer a Hugo Chávez "por seus esforços para libertá-los". Ora, Chávez está tão interessado no bem-estar dos reféns das FARC quanto na preservação da democracia na Venezuela: ou seja, não dá a mínima para isso. Seu único interesse no assunto é político e propagandístico. Ele se aproveita do desespero dos parentes das vítimas das FARC para aparecer como um benfeitor aos olhos da opinião pública mundial. Assim, desvia a atenção do fato de que ele é um dos maiores parceiros e defensores das FARC, a ponto de afirmar, em alto e bom som, que elas não são terroristas. É, portanto, um cúmplice de seus crimes. Assim como Lula, que tem a cara-de-pau de "condenar" os seqüestros das FARC como "abomináveis" perante os jornalistas, enquanto seu governo se nega, sistematicamente, a reconhecer as mesmas FARC como terroristas, pois é parceiro destas no Foro de São Paulo. Assim como os parentes dos reféns das FARC que, iludidos, mostraram gratidão ao bufão venezuelano, fomos todos seqüestrados pela retórica esquerdista. Pior: sem nos termos dado conta disso.

Essa lavagem cerebral se intensificou, a meu ver, depois da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS, quando se tornou lugar-comum proclamar aos quatro ventos o triunfo definitivo da democracia e do capitalismo sobre a ideologia comunista. Desde então, passou-se a acreditar que os remanescentes da esquerda, sobretudo aqueles que nunca se declararam abertamente marxistas - caso de Lula e do PT, por exemplo -, teriam abandonado qualquer veleidade revolucionária e socialista, por anacrônica e ridícula, e aderido, até mesmo por uma questão de sobrevivência, ao capitalismo e ao estado de direito democrático. A esse respeito, cita-se freqüentemente a política econômica do atual governo brasileiro, como uma prova do "amadurecimento" e da "responsabilidade" dos esquerdistas no poder.

É uma esperança tola, que só pode ser descrita como um enorme auto-engano. Primeiro, porque a História não caminha de forma linear. Não basta dizer que as palavras de ordem revolucionárias comunistas são anacrônicas e ridículas. Ridículo e anacrônico também o era, cinquenta ou mesmo cem anos atrás, o extremismo religioso islâmico, por exemplo. E, no entanto, quem ousaria dizer, em 1950 ou 1900, ou mesmo em 1800, sem o risco de virar alvo de chacota, que, no limiar do século XXI, em plena época do celular e da internet, a maior ameaça à civilização ocidental e à democracia no mundo seria representada por um fanático barbudo e de turbante, adepto de uma visão religiosa do século VII D.C., escondido em alguma caverna nos confins do Afeganistão?

Segundo, que ninguém se engane com as declarações dos esquerdistas de conversão ao capitalismo. O fato de o governo Lula manter intocada a política econômica do governo tucano não denota compromisso algum com a responsabilidade fiscal ou metas de inflação, como comumente se diz, mas unicamente com a preservação do poder, o que é também uma característica da política comunista. Além do mais, o fato de um partido ou governo marxista adotar práticas capitalistas não os faz deixarem de ser marxistas. A própria URSS sob Lênin adotou, em 1921, uma política econômica - a NEP, Nova Política Econômica - que na prática restaurou a economia de mercado e o direito de propriedade, e nem por isso deixou de ser um Estado marxista e uma ditadura do proletariado. China e Vietnã há décadas aderiram na prática à economia de mercado, e também nem por isso deixaram de ser ditaduras comunistas, com partido único e censura à imprensa. Quem conhece um pouco de história do movimento comunista sabe perfeitamente que ganhar dinheiro como capitalistas para aplicá-lo como socialistas - na forma de tráfico de drogas, por exemplo - não está em contradição com os objetivos do marxismo.
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Como sempre, a ingenuidade dos meios de comunicação em relação a movimentos marxistas e revolucionários como as FARC e o Foro de São Paulo advém, também, da ignorância. Com exceção dos que um dia militaram nas hostes da esquerda mas que renunciaram às ilusões esquerdistas, deixando claro e sem ambigüidades que o capitalismo é o único sistema social capaz de gerar riqueza e que o socialismo é intrinsecamente totalitário - coisa que o PT, por exemplo, nunca fez -, não há, como eu já disse antes, esquerdista light ou moderado. Há apenas inocentes úteis ou mestres da dissimulação. O esquerdismo, em todos os seus matizes, é como o sarampo ou a catapora: é preciso ter sido acometido dessas doenças infantis para ficar imunizado contra elas. Somente os que, um dia, imergiram no universo de slogans e chavões das organizações marxistas - como este que vos escreve - podem compreender como realmente funciona a mente revolucionária. A maioria da humanidade, que jamais teve essa experiência, será sempre facilmente enganada por esses lobos em pele de cordeiro.

terça-feira, janeiro 22, 2008

ROMPENDO O SILÊNCIO


Como faço toda semana, fui ao jornaleiro e comprei a Veja. Muita gente, principalmente de esquerda, diz detestar a revista da família Civita, cobrindo-a de rótulos como "neoliberal", "conservadora", "tucana"(sic), "direitista" etc. Mas a verdade é que, odeiem-na ou não, e embora não o admitam, seus detratores também a lêem, como demonstrado pela fogueira que alguns energúmenos fizeram alguns meses atrás em frente à sede da Editora Abril em São Paulo, com uma edição da revista que teve a ousadia de - pecado mortal! - falar mal de santo Che Guevara. Mas voltando ao que eu dizia antes. Desembolsei R$ 8,40 e comprei a revista. Lá pelas tantas, ao ler uma reportagem sobre as atrocidades das FARC, que Hugo Chávez quer ver retiradas da lista de organizações terroristas e elevadas à categoria de "força beligerante", deparei com algo que realmente me chamou a atenção, e que, a meu ver, por si só valeu o preço da revista: uma referência, clara e inegável, ao maior tabu do Brasil na atualidade: o Foro de São Paulo.

Até que enfim! Já estava ficando preocupado, começando a achar que o tal Foro era alguma espécie de alucinação de minha mente paranóica, que insistia em ver algo que a quase totalidade da mídia, falada, escrita e televisada, esconde sistematicamente do público há 18 anos. Como o personagem Simão Bacamarte do conto O Alienista, de Machado de Assis, cheguei a sentir ganas de concluir que a insanidade humana, longe de ser uma ilha, é um continente, e que, diante da loucura geral - que se manifesta, no caso, pela recusa em reconhecer a simples existência do tal Foro, até hoje considerado uma espécie de fantasma por muitos analistas "sérios" -, o melhor para a minoria de mentalmente sãos é se trancarem num hospício e jogarem a chave fora. Nessas férias, tentei puxar conversa sobre o assunto com amigos e parentes, chamando a atenção, sempre que a conversa versava sobre política e a oportunidade se apresentava, para os verdadeiros objetivos das esquerdas e do Foro de São Paulo. Como sempre, olharam-me como se eu estivesse falando grego ou sendo vítima de algum tipo de delírio persecutório. De nada adiantou lembrar-lhes que ouvi o Apedeuta em pessoa mencionar o dito Foro em 2005, em discurso durante a cerimônia de formatura de minha turma do Instituto Rio Branco. Ao me ouvirem falar abertamente do que ninguém na grande mídia parece disposto a falar, e que por isso desconhecem totalmente, devem ter pensado que eu havia bebido demais ou que seria melhor me trancafiar numa instituição psiquiátrica.

É verdade, a referência foi extremamente tímida, tendo vindo quase escondida, fora do texto principal, num box ao lado da foto do Marco Aurélio Garcia, mostrado como um dos simpatizantes brasileiros das FARC e ex-coordenador do Foro. Dada a importância e gravidade do tema, o assunto mereceria não uma nota de rodapé, mas uma reportagem de capa, até uma edição inteira. Mas já é alguma coisa. A menção está lá, na página 51, não foi ilusão de ótica. Por segurança, vou guardar a revista comigo, caso alguém queira reescrever a História, nunca se sabe. Salvo engano - corrijam-me se eu estiver errado -, é a primeira vez que um grande órgão da imprensa brasileira menciona o Foro de São Paulo. Tirando isso, há os artigos de Olavo de Carvalho (banido da imprensa brasileira há anos por sua insistência em falar do assunto) e o site Mídia Sem Máscara, além, claro, deste que escreve estas linhas.

Por mais tímida que tenha sido, a menção ao conclave esquerdista criado por Lula e Fidel Castro em 1990 para - são suas palavras- "restabelecer na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu", correspondeu a uma verdadeira lufada de ar num quarto abafado. Mais que isso: significa uma ruptura, infelizmente ainda não total, com quase duas décadas de cumplicidade silenciosa com o maior plano esquerdista de revolução continental urdido na América Latina desde a OLAS, nos anos 60 (ver meu texto anterior). Para que a quebra do silêncio seja completa, basta que se liguem os pontos, que unem o Foro de São Paulo, as FARC - que participam do Foro - e o conjunto da esquerda latino-americana, em que o governo Lula ocupa lugar de honra. Feito isso, não seria muito difícil compreender que as palavras de Lula proferidas em Cuba condenando os seqüestros como abomináveis não valem meia colher de mel coado, como se dizia antigamente. Não seria difícil também perceber que não são apenas os métodos das FARC, que incluem explodir pessoas que se recusam a ceder à extorsão e acorrentar reféns como animais na selva, que são terroristas. Seus objetivos, chancelados por Hugo Chávez e pelos companheiros petistas - a revolução comunista, a implantação de um regime marxista na Colômbia -, também são.

Durante décadas, tudo que se dizia a respeito dos crimes cometidos pelos regimes comunistas da URSS e da China era imediatamente descartado por grande parte da mídia esquerdista como simples propaganda capitalista e distorsão da verdade. Até hoje, aliás, é essa a atitude adotada pelas esquerdas e pelo governo Lula em relação à ditadura comunista de Cuba, verdadeiro xodó da companheirada. Foi preciso a URSS vir abaixo, em 1991, para que a verdade sobre os cerca de 100 milhões de mortos pelo comunismo no século XX começasse a vir à tona. Agora, quando a América Latina se vê alvo de um plano continental para reconstruir no continente a maior máquina de moer carne humana da História, a maioria esmagadora da imprensa liberal fecha voluntariamente os olhos e ignora completamente essa ameaça. Embriagada pela onda de triunfalismo inconsciente que se seguiu ao colapso do bloco comunista, que confunde sistematicamente com o fim do próprio comunismo, a mídia liberal recusa-se a enxergar o óbvio. Acordem, senhores. Lula, Chávez, Morales e as FARC são parceiros. O espaço em que estão articulados politicamente não são os salões atapetados das recepções diplomáticas e as declarações anódinas à imprensa, mas as reuniões do Foro de São Paulo. Ao persistirem no erro absurdo de não levar em conta essa maquinação gigantesca, considerando a democracia como um fato da natureza e Lula como um governante responsável, vocês estão cavando seu próprio túmulo. Depois não digam que foi por falta de aviso.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

PALHAÇADA NA SELVA (OU: EL GRAN CIRCO CHAVISTA EM AÇÃO)


Na virada do ano, o mundo assistiu, nas selvas da Colômbia, ao desenrolar de um dos espetáculos mais bizarros e farsescos dos últimos tempos. O enredo do show, se é que se pode resumí-lo, é mais ou menos o seguinte: um ditador constitucional, o coronel Hugo Chávez, ansioso por mudar sua imagem internacional meio arranhada após a derrota no plebiscito de 2 de dezembro passado, em que a maioria da população venezuelana rejeitou seu projeto de eternizar-se "legalmente" no poder, chamou as câmeras de TV do mundo todo para anunciar, com grande estardalhaço, a libertação de três reféns mantidos cativos há anos pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC. Após várias marchas e contramarchas, que incluíram trocas de acusações entre Chávez e seu desafeto, o presidente colombiano Álvaro Uribe, descobre-se que um dos reféns, uma criança de seis anos de idade, filho de uma relação - consentida ou não, ainda não se sabe - entre uma refém e um dos seqüestradores, na verdade já estava há tempos em mãos do governo da Colômbia, o que deixou o principal "mediador" da "operação humanitária", Hugo Chávez, com cara de tacho, desacreditado perante a opinião pública mundial que pretendia engabelar. Para salvarem a operação do fracasso e não deixarem o companheiro venezuelano na mão e sem um troféu a oferecer à mídia internacional, os "guerrilheiros" das FARC apressaram-se a entregar à Venezuela, no meio do mato, as duas reféns prometidas, como "um gesto de boa vontade". No final, Chávez deu a volta por cima e, posando de humanitário, conseguiu capitalizar o episódio, não sem antes declarar solenemente, e com a cara mais lavada do mundo, que as FARC e o Exército de Libertação Nacional (ELN), outro grupo armado de esquerda que há décadas luta contra o governo de Bogotá, não são, ao contrário do que dizem seus métodos e os EUA e a União Européia, vejam só, terroristas... Nesse mister, ele conta com o apoio mais ou menos discreto de governos como o de Madame Kirchner na Argentina e de inocentes úteis como o cineasta norte-americano Oliver Stone, além, claro, do sempre prestativo governo do companheiro de todas as horas, Luiz Inácio Lula da Silva, por meio do sempre alerta companheiro e ghost-chancellor Marco Aurélio ("Top, Top, Top") Garcia, um notório simpatizante das FARC alçado à posição de assessor especial da Presidência da República para relações internacionais.

Não vou aqui lembrar algumas verdades mais que evidentes, de caráter quase acaciano em sua obviedade - que, de humanitária, a operação articulada por Chávez e pelas FARC não teve nada, sendo antes uma operação tipicamente propagandística; que as FARC são um dos grupos terroristas mais cruéis e assassinos do mundo, que vive às custas do narcotráfico, do seqüestro e da extorsão; que, além das duas reféns libertadas, mantém atualmente 780 pessoas seqüestradas, em condições subumanas em campos de concentração espalhados na selva colombiana etc. Tudo isso já foi mais ou menos perscrutado pela grande imprensa. Vou me concentrar apenas no que NINGUÉM falou, ao longo de todo o imbróglio, e que, justamente por ter sido omitido sistematicamente pelos meios de comunicação, é o mais importante: a relação ideológica, íntima, fraternal, entre os atores principais da gigantesca farsa que acabou de ser encenada nas matas da Colômbia - as FARC, Hugo Chávez e o governo de Lula da Silva, todos os três reunidos, sob os auspícios da ditadura comunista de Fidel e Raúl Castro em Cuba, no - anotem aí para não esquecerem - Foro de São Paulo.

Mas o que raios vem a ser esse tal Foro de São Paulo, sobre o qual eu, assim como meia dúzia de paranóicos de direita, insisto tanto em escrever? E o que ele tem a ver com o caso das reféns colombianas das FARC? Prestem atenção, eu vou explicar. O tal Foro foi criado em 1990, por iniciativa de Fidel Castro e do então candidato presidencial recém-derrotado Lula, como um "espaço de articulação estratégica" dos partidos e movimentos de esquerda na América Latina. Seu objetivo, exposto em vários documentos, não é outro senão restabelecer, no continente, o que então estava desmoronando no Leste Europeu - o comunismo. O mesmo objetivo, diga-se de passagem, das FARC na Colômbia. Desde então reúne-se de tempos em tempos, sempre em uma cidade diferente do continente. Seria assim uma espécie de sucessor da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), criada pelo regime de Cuba para fomentar guerrilhas comunistas na América Latina nos anos 60, assim como, em escala continental, da Internacional Comunista (Comintern), órgão encarregado, nas décadas de 20 a 40, de coordenar a revolução comunista internacional a partir da ex-URSS.

O.k., mas e daí?, vocês podem estar se perguntando. Vamos ligar os pontos: Lula é membro fundador do Foro de São Paulo, assim como Fidel Castro. Hugo Chávez também aderiu à organização. Sabem quem também faz parte do dito Foro? Elas mesmas, as FARC. Agora, advinhem quem comandou o Foro de São Paulo até 2001: ninguém mais, ninguém menos do que... estão preparados? Marco Aurélio Garcia. Surpresos?

Entenderam por que Chávez quer que os EUA e a União Européia retirem as FARC e o ELN da lista de organizações terroristas? Entenderam porque Lula e seu assessor especial para assuntos internacionais recusam-se a reconhecê-los também como terroristas, insistindo que o governo colombiano negocie com eles, em vez de tratá-los como os bandidos e criminosos que de fato são? E porque o representante das FARC no Brasil, Olivério Medina, circula com tanta desenvoltura entre os círculos petistas, tendo sido inclusive o intermediário da ajuda financeira dos naroterroristas colombianos à campanha de Lula em 2002, conforme foi denunciado pela Veja alguns anos atrás? E porque nenhum grande narcotraficante ligado às FARC já foi preso no Brasil? Não? Será preciso explicar de novo?

O silêncio total dos meios de comunicação em relação às maquinações do Foro de São Paulo, mais uma vez evidenciado no episódio das reféns das FARC, só se explica por um misto de inconsciência auto-induzida e otimismo triunfalista. Depois da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS, em 1991, tornou-se comum dizer que o comunismo morreu, e que a democracia e a economia de mercado triunfaram. Chegou-se mesmo a falar, num arroubo de triunfalismo, em "fim da História". Trata-se de um erro de interpretação histórica, fruto de auto-engano. De fato, o antigo bloco comunista, com exceção de alguns sobreviventes renitentes como China, Cuba, Vietnã e Coréia do Norte, desmoronou como um castelo de areia, devido, como não poderia deixar de ser, à própria ineficiência crônica e às contradições inerentes ao regime de partido único e economia planificada, e é inegável que isto teve um impacto fulminante sobre muitos partidos comunistas e de esquerda em geral. Mas o movimento revolucionário socialista internacional, que é anterior à Revolução de 1917, continua firme e forte, e até tomou novo impulso, adquirindo nova roupagem e novos slogans, como a luta antiglobalização e ambientalista, mas sem ter abdicado de seus propósitos totalitários e anticapitalistas. O fato de a URSS ter sucumbido, nesse sentido, é de somenos importância; afinal, o comunismo não foi criado para dar certo em lugar nenhum do planeta, mas para destruir a civilização ocidental tal como a conhecemos. Como demonstra o altíssimo preço em vidas humanas consumidas em fracassados e megalomaníacos planos qüinqüenais e grandes saltos adiante, o objetivo do comunismo não é o estabelecimento de padrões mais racionais de administração econômica ou a democratização das relações sociais, mas tão-somente o aniquilamento da democracia, a destruição total e irrevogável da liberdade individual, o que equivale ao esmagamento do gênero humano. Daí a criação do Foro de São Paulo, para manter viva a chama da luta revolucionária anticapitalista na América Latina, escolhida como o palco ideal para o florescimento de governos populistas e movimentos terroristas como as FARC, dedicados integralmente a restaurar por estas bandas o que se perdeu na ex-URSS. Assim como Chávez e o PT, as FARC nada mais são do que uma parte desse plano estratégico de subversão continental. Querem saber qual o ideal de futuro almejado pelos participantes do Foro de São Paulo? Basta dar uma olhada nas imagens dos reféns das FARC, subnutridos e acorrentados, submetidos a todo tipo de tortura e maus-tratos na selva.

As mentiras e maquinações propagandísticas do conflito colombiano por Hugo Chávez - que quis usar o episódio mais ou menos como o ex-ditador de Uganda Idi Amin tentou usar o seqüestro de um avião cheio de civis israelenes em 1976, o qual esperava fosse um trampolim para seu sonho megalomaníaco de vir a ganhar o Prêmio Nobel da Paz -, assim como a postura caudatária e cúmplice do governo brasileiro em relação ao caudilho venezuelano e às FARC, não deveriam surpreender ninguém. Afinal, os laços de amizade e cooperação entre os três são bastante conhecidos para ser ignorados, como demonstra sua participação conjunta no Foro de São Paulo. Que a totalidade dos órgãos de imprensa no Brasil, mesmo os que se dizem críticos de Chávez e Lula, mantenham um silêncio sepulcral a respeito de fato de tamanha gravidade e significação para o futuro da América Latina, é algo que desafia a compreensão humana.

P.S.: Logo após ter dado sua colaboração à monumental farsa chavista-narcoterrorista, o Apedeuta viajou a Cuba, onde anunciou investimentos da ordem de US$ 1 bilhão para ajudar a salvar a economia da ilha-prisão, e aproveitou para prestar reverência a seu ídolo e companheiro de longa data, Fidel Castro. Na ocasião, em mais uma demonstração inequívoca de sonsice e caradurismo sem limites, nosso Grande Timoneiro disse aos jornalistas em Havana que condena o seqüestro como arma política. Tudo fingimento. Se Lula realmente condena os seqüestros das FARC, o que fazia ele prestigiando a quase cinqüentenária ditadura castrista, que apóia as FARC e que tem há anos sob seu poder dezenos de presos políticos, oficialmente seqüestrados pelas autoridades cubanas pelo terrível crime de pensarem diferente e pedirem liberdade para a ilha? Além do mais, se é de seqüestro que se está falando, o regime cubano é campeão mundial na matéria, pois mantém em cativeiro, literalmente seqüestrada, a totalidade de sua população, mais de 11 milhões de pessoas, que não vêem outra esperança de uma vida melhor senão atirar-se ao mar e fugir para Miami. Destino que será certamente também de milhões de colombianos e venezuelanos, caso as FARC se apossem do poder um dia e Hugo Chávez transforme em realidade seu projeto de ditadura perpétua. E também de boa parte da população brasileira, se tantos parvos continuarem dando crédito ao que diz o Grande Embromador.