terça-feira, dezembro 11, 2007

A ARTE DE CULTIVAR O PRÓPRIO JARDIM

Confesso. Sou um egoísta. Sempre fui. Desde criancinha. Claro, de acordo com a teologia cristã, eu vou para o inferno. Mas não me importo, até porque não creio em Deus, nem em Diabo, nem em boitatá ou curupira. Isso significa também que, de acordo com a ideologia oficial do Estado brasileiro atualmente, eu sou um canalha, um reacionário, um burguês desprezível. Nem precisa dizer que não dou a mínima para isso também.

É óbvio que, para afirmar tal coisa a respeito de mim mesmo, eu teria que ter uma forte argumentação a favor do egoísmo, tido entre nós como um dos vícios mais funestos, um dos pecados mais terríveis que alguém possa cometer. Teria que ter uma base muito sólida, ou ser muito cara-de-pau, ou as duas coisas, para provar que é bem melhor ser egoísta e se importar apenas com a própria vida do que ser um militante de causas altruístas como a luta contra a extinção dos ursos panda chineses ou o aquecimento global. Devo dizer que a tarefa não é das mais difíceis. Nem precisei ler Ayn Rand ou Milton Friedman para descobrir a delícia e a virtude que estão por trás dessa minha opção consciente. Bastou um pouco de Voltaire.
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François-Marie Arouet, o Voltaire (1694-1778), como quem já leu a Barsa deve saber, foi o principal filósofo do Iluminismo na França. E foi também um grande cínico. Em um século, o XVIII, pontuado por mentes brilhantes e detestáveis, ele foi talvez a mais brilhante de todas, e pessoalmente a mais detestável. Fortemente anticlerical (chamava a Igreja católica de "A Infame"), embora acreditasse na possibilidade de Deus (mas e daí?, perguntava; pois se há mesmo um Deus bondoso e todo-poderoso, por que existem terremotos?) e inimigo de toda forma de obscurantismo, cortejava, porém, algumas cabeças coroadas da Europa, como o Rei da Prússia, Frederico II, em cuja corte chegou a viver por alguns anos. Adversário implacável do absolutismo, desprezava, no entanto, o povo, a quem chamava de "a canalha". Era bastante esperto também, e, quando se tratava de ganhar dinheiro, tinha poucos escrúpulos. Certa vez, aproveitando-se de uma loteria mal organizada, comprou todos os bilhetes e embolsou o prêmio. Escritor, romancista e teatrólogo, desdenhava o público, que considerava uma fera terrível, que precisava ser domada. Era o que se poderia chamar de um esnobe, um aristocrata do pensamento.
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O contraponto perfeito de Voltaire é seu contemporâneo, o filósofo suiço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), autor de O Contrato Social. Ao contrário de Voltaire, Rousseau acreditava na virtude pessoal e na bondade natural dos homens, e fazia mesmo dessa crença uma obsessão e a base de sua filosofia. Diferentemente de Voltaire, Rousseau rejeitava a ciência e o progresso, assim como as desigualdades sociais decorrentes do capitalismo, e advogava, em lugar da sociedade industrial, um retorno à natureza. Em nome da "vontade geral", opunha-se à monarquia constitucional defendida por Voltaire, defendendo o que chamou de "soberania popular". Foi em nome de seus ideais de igualdade e justiça que a ala mais radical da Revolução Francesa, os jacobinos, tendo à frente Robespierre, o "Incorruptível" - tão incorruptível que, dizem, morreu virgem -, desencadeou o Terror na França, cortando milhares de cabeças dos que se opunham ao "Reino da Virtude" e lançando as sementes dos totalitarismos do século XX, como o nazismo e o comunismo. Paradigma da Virtude, Rousseau acreditava que o Estado, como encarnação da vontade geral, poderia substituir o indivíduo e a família. Coerente com essa crença, entregou seus filhos a um orfanato estatal e foi passear à beira do Lago Genebra, onde costumava sonhar com a redenção da humanidade, sustentado por uma rica viúva. Rousseau, o romântico, acreditava que os homens nascem bons e livres, apenas a sociedade é que os corrompia. Voltaire, o racionalista, acreditava que a sociedade poderia até ser algo bom, mas os homens, não. Durante um período, Voltaire e Rousseau trocaram uma rica correspondência. Certa feita, diante da insistência de Rousseau em condenar o progresso e em louvar as virtudes de uma vida pastoril, Voltaire, fiel a seu estilo sarcástico, não titubeou: sugeriu-lhe ficar de quatro e comer capim.
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Ao contrário de seu colega genebrino, Voltaire não dava a mínima para as assim chamadas causas sociais, esse fetiche das esquerdas. A coisa mais importante que um homem poderia fazer na vida, a única realmente de algum valor, dizia, era cuidar do próprio jardim. Somente uma vez Voltaire deixou suas roseiras de lado e entrou de cabeça na defesa de uma causa. Foi quando um morador de Toulouse, no sul da França, Jean Calas, protestante, foi acusado falsamente de planejar o assassinato de um filho que se havia convertido ao catolicismo. Voltaire sentiu, corretamente, cheiro de Inquisição no ar. O resultado foi uma das páginas mais corajosas e uma das defesas mais brilhantes da liberdade religiosa já escritas na história humana, seu Tratado sobre a Tolerância.
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Mesmo nesse caso, porém, Voltaire foi coerente com sua opção individualista. Ele não defendeu Jean Calas porque simpatizasse pessoalmente com ele, ou porque gostasse dos protestantes, ou porque queria mostrar ao mundo que era capaz de gestos altruístas e que não era tão individualista assim, afinal. Nada disso. O que estava em jogo para ele, naquele momento, era o mesmo sentimento que o levava a cultivar seu jardim: a defesa da liberdade individual. Em nome desta, ele estava disposto a servir de advogado em um obscuro caso de intolerância religiosa, em pleno "Século das Luzes", numa distante vila no interior da França. Ao fazê-lo, ele afrontou, assim como faria depois Émile Zola no caso Dreyfus - outro caso de intolerância religiosa, travestido de patriotada militarista -, um país inteiro, uma época inteira.
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Voltaire foi um dos maiores egoístas que já andaram sobre a terra. E um dos maiores benfeitores da humanidade, em todos os tempos. Seu cinismo legou-nos coisas como a liberdade de pensamento e a busca da felicidade individual, artigos até hoje considerados de luxo em muitas partes do planeta ainda submersas no obscurantismo. "Não concordo com uma palavra do que você diz, mas, enquanto viver, lutarei até o fim para que você tenha o direito de dizer o que pensa", é certamente sua frase mais citada. Pode-se dizer que ele é mesmo o modelo do célebre paradoxo formulado por Adam Smith, o pai da economia clássica, segundo o qual vícios individuais, como a cobiça e a avareza, geram benefícios coletivos.
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Entre nós, brasileiros, as idéias de Voltaire nunca foram muito populares. Em vez de seu saudável ceticismo e de sua mordacidade política, bem presente em sátiras como Cândido, preferimos Rousseau, com seu igualitarismo meio histérico. Este sempre teve, por estas bandas, discípulos devotos. É fácil encontrá-los: no governo, em ONGs, nas redações dos jornais e revistas. Alguns vestem batina. Outros, estão aboletados em algum Ministério. Todos preocupam-se com o próximo, com a humanidade, exalando virtude por todos os poros, arrotando altruísmo e compromisso com a coletividade, ansiosos por "fazer a diferença". Querem revolucionar o mundo, mudá-lo de alto a baixo para restaurar o império da virtude, assim como Rousseau e Robespierre. Em nome desse objetivo abstrato e de um futuro hipotético, no qual imperaria o bem absoluto, estão dispostos a tudo, não se importando em fazer o mal aqui mesmo, de forma concreta, no presente. A perfeita definição do revolucionário, pode-se dizer.
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Costuma-se afirmar, a título de boutade, que quem não foi de esquerda na juventude não tem coração, e quem continua a sê-lo na maturidade não tem cérebro. Eu discordo em parte. Como demonstram os 100 milhões de mortos produzidos no século XX pelo Reino da Virtude, quem é de esquerda, seja que idade tiver, não tem nem cérebro nem coração. Agora com licença, que eu vou cuidar do meu jardim.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

AS VIVANDEIRAS DO DESARMAMENTISMO


A cena é conhecida: nos EUA, um maluco entra em um lugar público e, sem nenhum motivo aparente ou racional, saca uma pistola ou submetralhadora e começa a disparar indiscriminadamente. No final do tiroteio, várias pessoas jazem mortas no chão, crivadas de balas, e outras saem feridas, enquanto o atirador, acuado pela polícia, é abatido a tiros ou se suicida.

O episódio mais recente dessa triste rotina ocorreu há dois dias, no estado de Nebraska. Um adolescente de 19 anos entrou num shopping-center armado até os dentes e começou a fuzilar as pessoas em volta. Oito morreram, além do atirador. Depressivo, este deixara uma carta em que relatava sua intenção de se matar "com estilo". Provavelmente ansiava, com esse gesto tresloucado, alcançar postumamente a celebridade, como os dois adolescentes que massacraram os colegas de escola em Columbine, oito anos atrás.

No Brasil, país que, felizmente, como se sabe, não tem dessas coisas - as batalhas campais entre narcotraficantes e polícia nas favelas cariocas ou as chacinas nos bares da periferia paulistana já nos bastam -, grande parte da imprensa, horrorizada, aproveita e martela a velha tecla: se esses gringos idiotas fizessem uma campanha de desarmamento, do tipo "sou da paz", vestindo branco e abraçando a Lagoa, certamente tragédias como essas não ocorreriam. Se resolvessem deixar de lado esse culto machista das armas e fizessem um referendo, como o que se fez no Brasil dois anos atrás em favor do desarmamento, não estaríamos vendo cenas semelhantes se repetindo. E etc. etc. etc.

As vivandeiras do desarmamento estão de volta. Vivandeiras, para quem não sabe, eram as mulheres que seguiam as tropas brasileiras na Guerra do Paraguai. Desde então, a palavra passou a ser sinônimo de quem cerca as autoridades - civis e militares - solicitando "providências urgentes" sempre que uma crise se avizinha. Dois anos atrás, elas sofreram uma derrota, quando 64% da população rejeitou - mais por medo da bandidagem do que por amor à liberdade de escolha, é verdade - sua proposta de "desarmar" a sociedade. Mas elas não desistem assim tão fácil. A cada massacre em alguma cidadezinha dos EUA, elas se manifestam com força redobrada. "Viram só? Mais um banho de sangue nos EUA. A culpa é do lobby pró-armas, que impede o governo norte-americano de exercer um controle efetivo sobre os milhões de armas em circulação no país", proclamam aos quatro ventos, certas de que sempre haverá espíritos pouco críticos ou simplórios o suficiente para cair nessa esparrela.

A idéia de que tragédias como a de Nebraska ou de Columbine poderiam ser evitadas se houvesse um maior controle governamental sobre as armas é um desses mitos que a esquerda politicamente correta daqui e de alhures adora cultivar. É uma maneira muito esperta de manipular a verdade. Serve para desviar a atenção do fato de que crimes como esses acontecem não porque há uma arma na mão de alguém, mas porque há uma mente doentia por trás do gatilho. Se fosse uma faca de cozinha ou um canivete, em vez de uma pistola 45 ou uma escopeta 12, haveria mortes também, como demonstraram os atentados suicidas de 11 de setembro de 2001 (aliás, é curioso como os mesmos que advogam o fim da liberdade de escolha em nome do desarmamento no Brasil se mostram tão indignados quanto às rígidas regras de segurança adotadas nos aeroportos dos EUA após os ataques às Torres Gêmeas...). A questão não é a quantidade de armas em circulação, mas quem as porta, assim como o que importa não é quantos carros há nas estradas, mas se o motorista sabe ou não dirigir. Além disso, já está mais que comprovado que a fórmula "menos armas, mais segurança" não funciona na prática. Há atualmente, nos EUA, muito mais armas de fogo nas mãos de cidadãos comuns do que no Brasil, onde vigora uma legislação duríssima e um "Estatuto do Desarmamento" que praticamente proíbe o indivíduo de comprar legalmente um revóver 38. E, no entanto, o que predomina lá é a fórmula inversa, ou seja, "mais armas, menos crimes". Façam uma pesquisa, se quiserem, e vocês vão ver.

Na verdade, não há nada, rigorosamente nada, que permita dizer que um controle maior do Estado sobre as armas nas mãos da população - ou, inversamente, a ausência desse controle - influi, de forma decisiva, nos índices de criminalidade. Basta ver exemplos como o do Japão e da Jamaica, países onde portar armas, mesmo em casa, é ilegal e que têm níveis de violência muito diferentes - quase nulos no Japão, assustadores na Jamaica. Por sua vez, a Suiça convive muito bem com uma legislação que permite a um cidadão guardar um fuzil militar no armário, e nem por isso se vêem os suíços se matando como se estivessem em guerra.

Sabe-se que os EUA possuem uma tradição de o indivíduo possuir armas e portá-las. Mais que uma tradição, é um direito assegurado pela Constituição. Suas origens estão na própria formação histórica do país, a partir de comunidades na prática independentes, em que a posse de um rifle ou de uma pistola sempre foi vista como uma garantia de segurança contra índios e de liberdade contra qualquer ingerência estatal. Durante a Guerra de Independência (1775-1781), foram as milícias de cidadãos, os minutemen, que estiveram à frente da luta contra as forças coloniais britânicas. Ao contrário dos países da América Latina, colonizados manu militari por Espanha e Portugal, ter ou não uma arma, para os norte-americanos, passou a ser, desde então, mais que uma questão de segurança, um símbolo de resistência à opressão e de liberdade individual.

Daí a resistência dos norte-americanos a qualquer projeto de lei que busque tolher esse direito. É difícil para nós, brasileiros, compreendermos isso. Nossa mentalidade, herdada do colonialismo português, sempre colocou a liberdade individual, o direito de escolha do indivíduo, em segundo lugar. Como demonstram os vários períodos ditatoriais da História do País, sempre vigorou, entre nós, uma postura favorável e simpática ao intervencionismo estatal, ao Estado-Leviatã, em vez do Estado liberal clássico. Este continua a ser, para nós, um anátema, geralmente confundido com práticas anárquicas e nepotistas ou com o funesto e incompreendido "neoliberalismo" (a culpa de todos os nossos males, segundo a visão esquerdista, assim como a "globalização" e o Fernando Henrique...).
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A simples noção de liberdade individual, bem como a responsabilidade que lhe é inerente, nos é algo completamente estranho. Um exemplo demonstra isso de forma bastante didática: quando era criança, o piloto norte-americano Chuck Yeager, o primeiro homem a romper a barreira do som, matou acidentalmente seu irmão com um tiro de espingarda. Apesar do trauma, seu pai o pôs no colo e ensinou-o a manejar corretamente a arma, para que acidentes do tipo não se repetissem. Pode-se imaginar situação semelhante no Brasil? Há alguns dias, uma parte da arquibancada do Estádio da Fonte Nova, em Salvador, desabou, matando sete pessoas. Em vez de apurar responsabilidades, o governo estadual do petista Jaques Wagner resolveu demolir o estádio. Do mesmo modo agiu o governo do Pará, da também petista Ana Júlia Carepa, diante da denúncia de que uma menina de 15 anos havia ficado quase um mês trancafiada numa cela com mais de 20 homens, onde teria sido sistematicamente estuprada: mandou demolir a cadeia. Nos EUA, diante de uma tragédia como a relatada acima, busca-se acertar, corrigir o erro. No Brasil, manda-se demolir - ou desarmar. Cada povo encara - ou não - seus demônios de forma diferente.
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A associação entre desarmamentismo e totalitarismo é inegável. Não por acaso, uma das primeiras medidas que regimes totalitários como o de Hitler e Stálin tomaram foi proibir todos os cidadãos de portar armas. Somente as Forças Armadas e os órgãos de segurança - inclusive a polícia política - tinham esse direito. E o resultado não foi nenhum aumento da segurança para a população. Muito pelo contrário. A julgar pelas simpatias ideológicas de partidos como o PT, que defende o desarmamento, por regimes como o de Cuba e pelos narcoterroristas das FARC, é lícito desconfiar de medidas desse tipo.

Ao contrário do que nos dizem diariamente as ONGs "da paz" e a Rede Globo, armas são, sim, uma proteção. Sempre me perguntei por que os tarados e malucos que resolvem se matar e levar uns dez junto consigo nos EUA escolhem lugares como escolas ou jardins-de-infância para cometer seus massacres. Por que não atacam, por exemplo, uma convenção de caçadores ou um clube de tiro? Há dezenas de motivos para tragédias sangrentas como as de Columbine ou Nebraska. Inclusive, e principalmente, motivos de ordem psicológica. A posse de armas por cidadãos comuns, porém, não é um deles.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

"HÉRCULES 56": A HISTÓRIA SEQÜESTRADA


Tudo bem que o cinema brasileiro nunca foi lá essas coisas. Tudo bem que alguns gêneros específicos, como o documentário, costumam trair um claro viés ideológico de esquerda. Tudo bem que nossos cineastas não são assim uns Fellinis ou Antonionis, apesar de pretensão não lhes ser artigo escasso. Tudo bem até que eles sejam quase todos uns comunas enrustidos e que não possam viver sem mamar nas gordas tetas estatais, sonhando com o dia em que irão competir de igual para igual com Hollywood. Tudo isso eu posso entender, e até tolerar. O problema é quando resolvem "reescrever" a história, na tentativa de impingir-nos uma versão mitificada e falsificada de eventos ocorridos há nem tanto tempo assim. Quando isso ocorre, o que fazem não merece nem ser chamado de cinema. É melhor chamar de propaganda ideológica pura e simples.

Hércules 56, documentário dirigido por Sílvio Da-Rin, se encaixa exatamente nesse perfil. Assisti ao filme há alguns dias. O assunto é o destino dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador dos EUA no Brasil, Charles Burke Elbrick, seqüestrado por duas organizações da esquerda armada em setembro de 1969, na primeira ação do gênero bem-sucedida da História.

Basicamente, Hércules 56 - o nome do filme é uma referência ao avião militar em que os prisioneiros embarcaram para o México e o exílio - é uma série de depoimentos dos ex-militantes de esquerda (alguns, como Zé Dirceu, nem tão "ex" assim) sobreviventes, entremeada por imagens de arquivo e por uma conversa informal entre os participantes da ação, hoje senhores grisalhos, em volta de uma mesa de bar. Enquanto os que foram libertados em troca da vida do embaixador desfiam suas reminiscências diante da câmera, lembrando passo a passo os momentos de tensão que precederam o embarque no avião e a chegada ao México e a Cuba - aonde a maioria se dirigiu, alguns para receber treinamento em guerrilhas -, os que tomaram parte direta no seqüestro relembram, em conversa bastante animada, os detalhes da operação espetacular. Em certo momento, confessam, às gargalhadas, que, caso o governo dos generais não atendesse suas reivindicações - a soltura dos 15 prisioneiros e a divulgação de um manifesto na imprensa - estavam, sim, dispostos a executar o embaixador. À certa altura, chegam mesmo a esboçar uma autocrítica sobre os erros da operação, que não foram poucos, e discutem se ela própria foi ou não um erro. Quanto a isso, as opiniões são discordantes - o próprio Zé Dirceu, além de Vladimir Palmeira e Flávio Tavares, três dos libertados no seqüestro, admitem que a ação foi equivocada desde o início, tendo contribuído para intensificar a repressão.

Dos que estão reunidos na mesa de bar, o atual Ministro da Comunicação Social do governo Lula, Franklin Martins, é o mais falante. Ele teve papel de destaque, como integrante da Dissidência Estudantil da Guanabara (que daria origem ao MR-8) no episódio do seqüestro, tendo sido um dos redatores do manifesto dos sequëstradores (que muitos até hoje acreditam erroneamente, por causa do filme de Bruno Barreto, O Que é Isso, Companheiro?, ter sido obra do Fernando Gabeira). O filme termina com uma frase dele. Ao discutir a questão de se o seqüestro foi ou não um erro, Franklin Martins afirma mais ou menos o seguinte (escrevo de memória): o seqüestro não pode ser considerado uma ação errada, assim como a própria luta armada, pois tanto esta como aquele contribuíram significativamente para a derrota da ditadura e o restabelecimento da democracia no Brasil. Como fica claro pelos extras do DVD, o diretor do filme, Sílvio Da-Rin, tem opinião semelhante.

Foi aqui que me convenci daquilo que coloquei nos dois primeiros parágrafos deste texto. A tese da luta armada "democrática", de resistência à ditadura, é uma das mais presentes na literatura e na produção cinematográfica sobre o período do regime militar no Brasil. E é também uma das falsificações mais grosseiras e escandalosas de que se tem notícia. Não se pode sequer alegar falta de informações sobre o assunto: há uma vasta bibliografia que trata do tema, dentre a qual a série de quatro livros de Elio Gaspari, por exemplo, que não deixa qualquer dúvida sobre os verdadeiros objetivos dos revolucionários brasileiros. Ao contrário do que reza a lenda, estes não queriam saber de democracia, eleições livres e outras "formalidades burguesas", mas, sim, substituir um regime autoritário por outro, totalitário e comunista, transformando o Brasil não numa Suécia ou numa Finlândia, mas num "Cubão". Um dos que participaram do seqüestro de Elbrick, o hoje professor universitário Daniel Aarão Reis, também está presente no filme, ao lado de Franklin Martins. Ao contrário deste, Aarão Reis é um crítico honesto da luta armada dos anos 60 e 70, já tendo afirmado, em diversas ocasiões, seu caráter totalitário e não-democrático, inspirado em ditaduras comunistas como a de Cuba. Estranhamente, ele fala muito pouco no documentário. Deve ter sentido que estava em minoria. Ou que não estava no script.

Durante as últimas três décadas, a versão fantasiosa dos guerrilheiros como heróicos combatentes da liberdade contra os cruéis torturadores militares foi repetida à exaustão nos livros didáticos. Agora, com filmes como Hércules 56 e Batismo de Sangue, essa versão adquire enfim um formato cinematográfico, com apoio oficial (um dos patrocinadores do filme é a onipresente PETROBRAS). Que os militares foram cruéis e torturadores, não resta dúvida. Agora, que os guerrilheiros-terroristas foram heróicos combatentes da liberdade, e que sua luta visava a restaurar a democracia no Brasil, como sugere o filme de Sílvio Da-Rin, são outros quinhentos.

Um dia, num futuro distante, os que pegaram em armas contra o regime militar no Brasil vão admitir, finalmente, que sua luta não era por democracia coisa nenhuma. Que estavam lutando para instaurar aqui um regime muito mais brutal e sanguinário do que o que queriam derrubar e que, caso fossem vitoriosos, teríamos não três centenas de mortos em vinte anos de arbítrio, mas milhares ou milhões de cadáveres. Um dia, também, quem sabe, algum cineasta brasileiro fará um filme honesto sobre os "anos de chumbo" no Brasil. Desconfio, porém, que isso só ocorrerá quando for descoberta a cura para o mau-caratismo e a idiotice, três anos depois de fundarmos nossa primeira colônia na terceira lua de Júpiter.
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P.S.: Na foto acima, os presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano sendo recebidos em Havana, embevecidos, pelo grande democrata e humanista, "El Comandante" Fidel Castro. A prova viva de que o objetivo dos guerrilheiros ("terroristas" é a palavra, mas o bom-tom não permite) era mesmo a democracia, os direitos humanos, a liberdade, eleições livres e pluralismo...

terça-feira, dezembro 04, 2007

OS VENEZUELANOS MANDARAM CHÁVEZ CALAR-SE

Em 1988, o então ditador do Chile, general Augusto Pinochet, convocou um plebiscito para decidir sobre sua permanência ou não no poder, que tomara à força num sangrento golpe de estado em 1973. Com isso, pretendia cobrir de legitimidade seu regime, uma das ditaduras militares mais brutais da história da América Latina, garantindo para si mais alguns anos de desmandos à frente do Estado. Para sua frustração, a grande maioria da população chilena, cansada de tanta arbitrariedade, votou em peso pelo "Não", manifestando seu descontentamento com o regime e seu anseio pelo retorno à democracia. Dois anos depois, a ditadura militar chilena chegava ao fim.

Em 2 de dezembro de 2007, situação semelhante ocorreu na Venezuela, com o plebiscito que decidiu, por uma pequena margem de diferença (51% a 49%), em favor do "Não" à pretensão do ditador de facto do país, coronel Hugo Chávez Frías, de ver aprovada a reforma constitucional que lhe permitiria manter-se indefinidamente na cadeira presidencial. No poder desde 1999, Chávez está à frente de um dos governos mais populistas da história da América Latina, caracterizado pelo personalismo caudilhesco e pela demagogia, sustentado pelos dólares do petróleo.

As duas situações são muito parecidas. Mudam apenas a época e os países, além dos personagens principais. No entanto, há claramente uma grande diferença, desta feita de percepção, entre os dois fatos. Em 1988, a esquerda chilena e latino-americana, brasileira inclusive, exultou como nunca com a derrota de Pinochet. Em 2007, a esquerda brasileira, com Lula e o PT à frente, recolheram-se a um acabrunhado e entristecido silêncio, sentindo o baque. Estão pianinho, como se diz.

Não faltará quem, dentre as hostes esquerdistas, procure racionalizar a derrota de Chávez, afirmando que tal fato é a prova de que o regime chavista é, afinal, democrático, e que todas as afirmações em contrário são, portanto, nada mais do que acusações levianas da ultra-direita e do Departamento de Estado. O mesmo poderia ser dito do regime de Pinochet, por ter permitido o plebiscito que decidiu pelo fim da ditadura. Por aí se vê o nível e a honestidade dos argumentos da tropa de choque pró-Chávez.

É o fim do Socialismo do Século XXI? Não creio. Aliás, essa é justamente, a meu ver, a principal diferença entre as situações do Chile em 1988 e da Venezuela de hoje. Ao contrário da ditadura de Pinochet, o regime chavista está longe de ter queimado seu último cartucho. Quando da realização do plebiscito, o regime dos generais chileno só sobrevivia por inércia, há muito arrastando-se para o fim e dando mostras claras de esgotamento. O autoritarismo militar estava em crise no continente, com os processos de redemocratização avançando a pleno vapor no Brasil, Argentina e Uruguai, dentre outros países. O fascismo bolivariano de Chávez, Morales, Correa et caterva, por sua vez, somente agora começa a dar os primeiros sinais de cansaço. Além disso, as reservas do combustível de que ele se nutre - o petróleo, por um lado, e a demagogia populista e antiamericana, de outro - são, pelo menos no último caso, inesgotáveis. Como demonstra o comportamento de seus cúmplices brasileiros e as tentativas bolivarianas na Bolívia e no Equador, sempre haverá quem esteja disposto a defender com unhas e dentes seu regime. Se têm alguma dúvida, leiam a Carta Capital, que nesta semana publicou uma capa em que, ao mesmo tempo em que reconhece a derrota de Chávez no plebiscit0, louva o caudilho bolivariano por dar comida e educação (!) aos pobres da Venezuela. Enquanto houver idiotas desse naipe, o Napoleão de circo venezuelano poderá ficar sossegado, pois as probabilidades de ele não seguir o caminho de Pinochet ou de Idi Amin continuarão sendo altas.

Pinochet é justamente execrado como um dos ditadores mais cruéis e sanguinários do século XX. Quando morreu, há um ano, milhares de esquerdistas fizeram festa nas ruas. Com todas as barbaridades cometidas por seu regime em 17 anos de autoritarismo, ele aceitou o resultado do plebiscito que rejeitou seu governo e devolveu o Chile à democracia. Receio que o mesmo não possa ser dito de Chávez, que, apesar da derrota do último domingo, ainda não abandonou seu projeto totalitário e militarista. E muito menos de seu mentor, Fidel Castro, que, alérgico a qualquer coisa que lembre remotamente democracia, continua a dar as cartas na ilha-prisão do Caribe. Quando esses dois saírem de cena, será que nossos esquerdistas também farão festa?

A rejeição dos venezuelanos ao projeto de reforma constitucional continuísta de Chávez não deve ser vista como o fim do chavismo. Basta lembrar as palavras do próprio fanfarrão bolivariano, logo após reconhecer a derrota no plebiscito: "por enquanto..." (não por acaso, as mesmas palavras por ele pronunciadas quando do fracasso de sua primeita tentativa - sangrenta - de tomada do poder, numa quartelada mal-sucedida em 1992). Também não se pode deixar de lado o fato (coincidência?) de o plebiscito ter-se realizado em coordenação com tentativas semelhantes de reforma constitucional na Bolívia e no Equador, sem falar na campanha subterrânea pelo terceiro mandato do Grande Molusco no Brasil. Assim como o Rei da Espanha, os venezuelanos mandaram Chávez calar a boca. Mas é improvável que esse Mussolini tropical mantenha a matraca fechada por muito tempo. Que ninguém se iluda com vitórias momentâneas. A fascistização da América Latina está só no começo.

sexta-feira, novembro 30, 2007

ISLÃ: RELIGIÃO DE PAZ OU DA BARBÁRIE?


No Sudão, uma professora inglesa é condenada a vários dias de prisão por blasfêmia, por ter permitido a seus alunos batizarem com o nome de Maomé um ursinho de pelúcia. O Sudão é um país muçulmano, onde vigora a sharia, a lei islâmica.

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

No começo de 2006, uma onda de ódio varreu o mundo muçulmano. Embaixadas ocidentais foram incendiadas. Diplomatas foram atacados e apedrejados. Multidões furiosas gritaram morte ao Ocidente! Motivo: algumas caricaturas do profeta Maomé, consideradas ofensivas, publicadas num jornal dinamarquês.

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

Um escritor indiano de origem muçulmana escreve um livro em que ousa humanizar a figura de Maomé, atribuindo-lhe características não-divinas. Os líderes religiosos do Irã decretam então uma fatwa em que o condenam à morte, e prometem o Paraíso como recompensa a qualquer muçulmano que o despachar para o além. Há vinte anos, o escritor vive escondido, por razões de segurança.

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

Na Nigéria, uma mulher é condenada a morrer apedrejada por ter feito sexo fora do casamento, mesmo separada do primeiro marido, que não havia ainda lhe concedido o divórcio (pela lei corânica, se o marido não concede o divórcio, o casal ainda não está separado).

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

No Afeganistão, membros do Talibã - que governa o país de 1996 a 2001 - impõem uma interpretação literal da lei islâmica, e implodem, por "idólatras", estátuas de Buda de milhares de anos e valor histórico inestimável.

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

Em setembro de 2001, dezenove jovens muçulmanos seqüestram e atiram aviões civis contra as torres do WTC e o prédio do Pentágono nos EUA. Esperavam, com isso, alcançar o Paraíso, onde lhes havia sido dito que 72 virgens de olhos negros serviriam a cada um deles por toda a eternidade. Mais de 3 mil pessoas morrem.

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

Em março de 2004, explosões no metrô de Madri matam 190 pessoas. Os autores são militantes islâmicos.

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

Em dezembro de 2004, o cineasta holandês Theo Van Gogh é assassinado por um imigrante marroquino. Depois de atingi-lo com vários tiros à queima-roupa, o assassino o degola com uma faca de cozinha, e crava-lhe a faca no peito com uma carta em que o condenava por blasfêmia. Van Gogh havia dirigido um filme em que critica o tratamento dispensado às mulheres nos países muçulmanos. Antes de morrer, sua última frase foi "Será que não podemos conversar?".

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

Também na Holanda, uma imigrante da Somália rompe com a religião de sua família e escreve um livro denunciando os abusos que sofrera em seu país de origem, como a mutilação genital (prática anterior ao Islã, mas tolerada e até incentivada por ele). Hoje, vive escondida, sob permanente ameaça de morte.

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância.

Em julho de 2005, mais de 50 pessoas são mortas em atentados à bomba em Londres, praticados por membros da comunidade muçulmana local.

Mas o Islã é uma religião de paz e tolerância...

Nenhum dos episódios narrados acima é um fato isolado. Casos semelhantes ocorrem todos os dias, aos milhares, em todos os países e comunidades em que o islamismo é a religião oficial ou predominante. A lista é interminável, e seria extremamente tedioso narrá-los todos aqui. Do mesmo modo, a cada fato do tipo, a cada atentado terrorista no Iraque ou na Palestina, a resposta das autoridades ocidentais, não-muçulmanas e seculares, é sempre a mesma, não varia nunca: o Islã é uma religião de paz e tolerância, os que cometem essas atrocidades não são verdadeiros muçulmanos, são apenas um bando de fanáticos, cuja interpretação do Islã é completamente deturpada etc. Para tanto, citam algum líder muçulmano "moderado", e pinçam esta ou aquela passagem do Corão, em que se defende a paz e tolerância com outros credos.

Até quando vai durar essa cegueira voluntária? Quantos ataques e quantas mortes mais serão necessários para que todos percebam o que é óbvio, e que, justamente por isso, quase ninguém ousa admitir? Até quando o "politicamente correto" vai nos impedir de ver o que está diante de nossos olhos, e que os inimigos da civilização e da humanidade fazem questão de reafirmar todos os dias: ou seja, que o Islã não é uma religião de paz e tolerância coisa nenhuma. Assim como todas as religiões, é bom que se diga.

Para cada verso do Corão que fala de paz, há pelo menos uns dez que insuflam os fiéis a matar e exterminar sem piedade seus inimigos. Sendo que, por "inimigos", o Islã entende todos aqueles que não cumprem a Lei do Profeta nem oram cinco vezes ao dia voltados para Meca. Ou seja: todos os que não são muçulmanos. A esses, o Corão reserva um lugar particularmente quente no inferno, assim como aos crentes muçulmanos que não levem sua religião suficientemente a sério, deixando de cumprir os cinco deveres sagrados da fé islâmica - entre os quais a guerra santa, a jihad, que, ao contrário do que querem fazer-nos crer os políticos "moderados" e os adeptos do multiculturalismo - até mesmo Bush, como se viu nos dias imediatamente seguintes ao 11 de setembro de 2001 -, não se restringe a uma luta interior, no coração (ou mente) de cada indivíduo, mas constitui, isto sim, uma guerra de morte, literalmente falando, contra os kufrs, os infiéis, os não-muçulmanos.

Até o momento, qualquer afirmação nesse sentido continua a ser rotulada como "eurocêntrica" ou "preconceituosa", do mesmo modo que chamar o banditismo nas favelas brasileiras pelo nome ainda é considerado, pela esquerda festiva, "reacionarismo" e mesmo "fascismo". Contaminados, durante décadas, de relativismo cultural, os ocidentais fecharam voluntariamente os olhos para a realidade, encarando o fascismo islâmico e os atentados terroristas da Al-Qaeda e do Hamas não como o que de fato são - atos de barbárie cometidos contra a civilização, crimes contra a humanidade -, mas ora como "desvios" da "verdadeira" fé islâmica, supostamente tolerante e pacífica, ora como manifestações de protesto contra agravos passados do "imperialismo" ocidental no Oriente Médio. Leiam os livros de Edward Said ou de Tariq Ali e vocês terão uma mostra disso.

O que se tem observado é não uma tentativa de garantir a paz e a coexistência com o Islã, mas de justificar e até mesmo enobrecer os desatinos cometidos em seu nome. Ao contrário dos muçulmanos, que nas últimas décadas se acostumaram a ostentar sua fé de forma explícita e desafiante, com as mulheres chegando mesmo a requerer o "direito" de portar véus em escolas laicas na França, os cidadãos do Ocidente - e nisso incluo também essa margem sul chamada Brasil - parece que se recolheram a um temor reverencial diante da onda crescente islãmica. No caso das caricaturas de Maomé e de algumas declarações do papa, também consideradas ofensivas ao Islã, os governos ocidentais e a própria Igreja católica chegaram mesmo a pedir desculpas aos muçulmanos. Ninguém lembrou de pedir que os muçulmanos se desculpassem por terem ateado fogo a embaixadas e ameaçado cidadãos ocidentais. É que, nessa visão, intolerantes somos nós, nunca eles. Quiseram até que o papa se desculpasse por ter reafirmado, em suas encíclicas, que a fé cristã é o único caminho para a salvação. Queriam o quê? Que o Supremo Pontífice tirasse a batina e orasse cinco vezes em direção a Meca, entoando cânticos a Alá?

A fim de desviar a atenção das barbaridades cometidas em nome do Islã, muitos historiadores, bem ou mal intencionados, vez ou outra falam da "convivência pacífica" entre muçulmanos, judeus e cristãos na Península Ibérica, durante o período da ocupação muçulmana (séculos VIII-XV). Lembram, a propósito, de filósofos muçulmanos importantes da Idade Média, como Avicena e Averróis, que, ao traduzirem antigos textos gregos, ajudaram a preservar a filosofia clássica de Platão e Aristóteles, legando-nos uma rica herança cultural que, de outro modo, estaria perdida para sempre. Trata-se de um mito, decorrente de uma visão anacrônica da História. Não há nada que ateste a suposta "tolerância" dos muçulmanos em relação aos cristãos e judeus ibéricos - pelo contrário, estes eram em geral segregados e obrigados a pagar um imposto se quisessem cultuar sua fé. Do contrário, seriam convertidos à força, do mesmo modo que ocorreria depois com os judeus em Portugal, e muitos foram escravizados. Quanto à preservação dos textos filosóficos gregos, durante séculos os monges católicos se especializaram em copiar textos da Antigüidade clássica greco-romana, e nem por isso a religião católica deixou de conclamar as Cruzadas e de implantar a Inquisição. Aliás, coube a um dos santos da Igreja, o filósofo S. Tomás de Aquino, a tarefa de fazer uma síntese de todo o pensamento filosófico aristotélico com a fé cristã, resultando na filosofia escolástica medieval, até hoje a base do pensamento católico ensinado nos seminários. A idéia da "convivência pacífica e harmoniosa" entre muçulmanos, cristãos e judeus durante essa "era de ouro" idílica na Península Ibérica não passa da transposição de uma aspiração atual para um passado idealizado.

As demonstrações de histeria e irracionalidade em nome de Deus não são, claro, exclusividade do Islã e seus seguidores. Esta é uma característica de todas as religiões, sem exceção. Não conheço nada mais falso do que a idéia de convivência pacífica e respeitosa entre as religiões. É algo quase tão falso e hipócrita quanto a "convivência pacífica" entre EUA e URSS, nos tempos da Guerra Fria. Assim como ocorria na disputa entre capitalismo e comunismo, as religiões sempre estiveram em guerra umas com as outras, às vezes abertamente, às vezes de forma dissimulada. E, assim como a Guerra Fria, essa disputa não chegará ao fim com nenhum tratado de paz, mas apenas com a vitória total de um lado sobre o outro - ou com a destruição de todos.

O simples fato de alguém se declarar muçulmano, ou católico, ou judeu, já significa, por si só, uma postura excludente e preconceituosa. Por mais que professe uma religiosidade light ou moderada, e proclame aos quatro ventos o respeito e a necessidade de diálogo com outros credos, o indivíduo professará uma fé que considera erradas as demais, pois do contrário não teria adotado uma delas. Nos últimos tempos, autores polêmicos, como Christopher Hitchens e Sam Harris, tem-se dedicado a tocar nessa ferida, um verdadeiro tabu. Como afirmam Hitchens e Harris, não há religião de paz e tolerância. Mesmo o budismo, com sua aparente bondade aos olhos ocidentais, tem seus esqueletos no armário. No Sri Lanka, por exemplo, budistas e hindus se massacram há décadas. Na Tailândia, ocorre o mesmo entre budistas e muçulmanos. Onde quer que haja alguém proclamando a verdade de sua fé, onde quer que haja alguém fazendo oferenda a seus deuses, estará sempre presente a semente da intolerância.

Por que, então, não se vêem atualmente católicos ou protestantes cometendo os mesmos atos de barbárie e assassinatos em massa em nome de sua fé? (Em termos: na Irlanda do Norte, por exemplo, os conflitos e massacres entre católicos e protestantes mancharam a região nos últimos quarenta anos). A resposta não deve ser buscada na religião, em cada credo particular, mas no secularismo, algo que, até o momento, continua a ser - infelizmente - uma característica ocidental. Nós nos esquecemos, mas todo o progresso alcançado até hoje no campo da democracia e dos direitos humanos - e na ciência também, vide Galileu - não ocorreu por causa da religião, mas apesar dela e contra ela. Este foi um processo longo e doloroso, que custou milhões de vidas em incontáveis conflitos, como a Guerra dos Trinta Anos na atual Alemanha (1618-1648) e as guerras religiosas na França (1562-1589). Basta lembrar que a Igreja Católica, até o final do século XIX, era um Estado poderoso, dono de vastíssimas possessões de terra e de um bem-armado exército. Se católicos e protestantes não se engalfinham hoje em lutas sangrentas nas ruas, reproduzindo a Noite de S. Bartolomeu (vide a imagem que ilustra este texto), não é porque eles foram tocados pela pomba da paz e pelo espírito de tolerância e fraternidade entre os homens, mas somente porque o Estado, há uns duzentos anos, deixou de ser o instrumento de opressão de uma fé sobre outra. Do mesmo modo, se posso hoje escrever este texto sem medo de ser atirado numa masmorra, torturado e obrigado a abjurar sob pena de ser queimado vivo na fogueira, é porque vivemos numa sociedade laica e secular, com separação entre a religião e o Estado (claro, isso não impede que algum fanático resolva me assassinar, mas é para impedir que isso ocorra que existem as leis). No mundo democrático (ou seja, quase totalmente, ocidental), a religião deixou há muito de ser uma questão de Estado para se tornar um assunto de foro íntimo, de consciência individual. Não é o que ocorre atualmente em países como o Irã ou a Arábia Saudita, que não conheceram nem a Reforma, nem o Iluminismo.

Qualquer interpretação literal de um texto religioso só pode resultar em fanatismo e morte. Não somente o Corão, mas a Bíblia - tanto o Antigo quanto o Novo testamento - estão recheados de passagens em que um homossexual ou uma mulher adúltera, por exemplo, devem ser apedrejados até a morte. Todos conhecem a passagem bíblica em que Abrãao é instado por Deus a sacrificar seu único filho, Isaac, sendo demovido de cometer esse assassinato pela mão de um anjo, quando estava prestes a cortar-lhe a garganta. É em nome desse mesmo deus que Bin Laden e os militantes da Al-Qaeda sacrificam a outros e a si mesmos hoje em dia.

Os crimes cometidos por causa da, ou motivados de alguma maneira, pela religião, estão entre os mais numerosos que se praticaram e praticam hoje. E, no entanto, não há crime com álibi maior e mais tolerado. Sobretudo se for praticado em nome do Islã. Por causa de nossa sociedade secular, paradoxalmente tendemos a rejeitar muito mais firmemente a intolerância dos evangélicos contra homossexuais ou a intolerância católica contra o aborto ou o uso de preservativos - sem falar no escarcéu de bispos e padres por causa de filmes "blasfemos" como Je Vous Salue Marie e A Última Tentação de Cristo (até hoje proibido no Chile, um país democrático) - do que a intolerância muito mais letal e mortífera dos mulás e aiatolás muçulmanos. Em outras palavras: condenamos com bastante vigor o cisco no nosso olho, mas não vemos a trave no olho do vizinho. Uma das melhores frases já ditas até hoje sobre intolerância religiosa é a de Pascal: "Nunca se cometeram tantos crimes quanto os cometidos em nome da Cruz". Eu acrescentaria: e do Crescente, e da Estrela de Davi...

Em São Paulo, há alguns meses, um homem matou toda a família a marteladas, antes de ser abatido pela polícia. Evangélico, o pastor da igreja que freqüentava lhe recomendara deixar de tomar os remédios controlados de que fazia uso regularmente contra a esquizofrenia. Sua fé bastaria para que alcançasse a cura, foi-lhe dito. Sem tomar o remédio há dias, o homem entrou em surto psicótico. A religião é mesmo um caminho de verdade e luz.

terça-feira, novembro 27, 2007

DOIS TABUS


Ontem à noite saí para beber e conversar com alguns amigos. A conversa estava animada, a caipirinha estava boa, a cerveja estava gelada. Lá pelas tantas, após as costumeiras piadas e fofocas sobre os colegas de trabalho, o papo descambou para uma acalorada discussão sobre o filme Tropa de Elite, sobre o qual já escrevi aqui.

Ao elogiar o filme, que pela primeira vez mostra algo parecido com a realidade do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, mostrando bandido como bandido, e não como uma espécie de herói romântico ou rebelde social, fui surpreendido pela afirmação de um dos presentes, segundo a qual eu teria comprado a tese do filme, com ele (na verdade, ela) exclamando, com veemência, que "o BOPE é a polícia mais corrupta que existe!". Em seguida, algumas doses a mais, a conversa já era sobre pena de morte e legalização das drogas. O resto vocês podem imaginar.

Como sempre, fiquei sozinho em minhas opiniões. Um dos presentes à mesa apenas balançava a cabeça, e me lembro de tê-lo ouvido dizer algo como "não concordo com uma palavra que esse cara está dizendo, portanto não vou nem entrar na discussão". Outra pessoa também não escondia a indignação com minhas palavras, lamentando que alguém tão jovem como eu pudesse ter idéias tão "de direita"... No auge do debate, quando esperava desenvolver um pouco mais meu ponto de vista, eliminando os malentendidos e incompreensões que inevitavelmente surgem nessas horas, alguém perguntou sobre o último jogo do Flamengo e aí voltamos às piadas de praxe.

É claro que a mesa de bar não é exatamente o lugar mais adequado para discutir essas questões, e peço desculpas se estraguei a noite de alguém. Só posso dizer que acho estimulante esse tipo de debate. É algo muito mais interessante, certamente, do que as discussões sobre o Flamengo. Mesmo que, no final, eu sempre saia frustrado, porque geralmente não me faço entender direito (até por culpa da caipirinha) e acabe até ganhando um desafeto a mais por causa disso. Mas, paciência. Afinal, fazer o quê? Sou do tipo que perde o amigo, mas não a oportunidade de debater. Daí porque não pude deixar de ficar pensando sobre a discussão quando voltei para casa.

Sobre o filme de José Padilha, não vou falar muito aqui. O que eu tinha para dizer, já coloquei em meu texto postado neste blog em 24/10 passado. Vou dizer apenas que não se deve esperar de um filme nenhuma "tese", mas entretenimento e um pouco de reflexão, coisa que Tropa de Elite faz muito bem, por sinal. Também não vou falar sobre o BOPE, se é corrupto ou não. Pode ser até que seja, e até mais do que a polícia convencional. Mas o ponto não é esse. A questão da pena de morte e a da legalização das drogas, que vez ou outra é retomada como uma espécie de panacéia para a questão do narcotráfico, é que exigem uma abordagem mais serena e equilibrada.

Falar sobre pena de morte e narcotráfico sem apelar para velhos chavões esquerdistas é algo difícil de fazer no Brasil. Na verdade, trata-se de duas não-questões, dois verdadeiros tabus. Em ambos os assuntos, ainda se sente o peso sufocante das duas décadas de ditadura militar, com qualquer argumento a favor da pena capital ou de uma maior ação repressiva contra os narcotraficantes sendo automaticamente rotulado como "autoritário" e até mesmo "fascista". O resultado é que o debate sobre esses dois temas ficou totalmente truncado, sendo hoje algo praticamente inexistente, com a troca de argumentos sendo substituída em geral por acusações de reacionarismo e por muita histeria e irracionalidade. Como se quem quer que ouse levantar o debate fosse um Amaral Netto ou um nostálgico da época em que os milicos prendiam e arrebentavam.

Comecemos pela pena de morte. Antes que alguém me chame, pela enésima vez, de "direitista" e "reacionário", quero deixar claro que minha opinião sobre o assunto está baseada na idéia de responsabilidade do indivíduo. Quero dizer o seguinte: se o sujeito tortura e mata friamente uma família inteira, ou arrasta intencionalmente o corpo de um garotinho por vários quilômetros, está cruzando uma linha, está rompendo completamente qualquer possibilidade de convivência com a humanidade. Mais que um assassinato brutal, ele está expressando seu total desprezo pela vida humana e pela sociedade. Não importa se ele teve uma infância difícil, se seus pais o batiam, se ele veio da miséria etc. (muita gente tem uma infância difícil, é espancada pelos pais e vem da miséria, e nem por isso se transforma num serial-killer). Como indivíduo adulto e consciente, em pleno domínio de suas faculdades mentais e dono de sua razão (daí porque excluo desse raciocínio os mentalmente insanos e incapazes), ele deve saber perfeitamente que seus atos têm conseqüências, e que ele é responsável perante a sociedade. No momento em que entra na vida social, o indivíduo se compromete a respeitar suas regras e a vida alheia, a maior regra de todas. Se ele descumpre essa regra de forma bárbara, se está clara sua incapacidade de conter seus instintos homicidas, ele está se excluindo do convívio com seus semelhantes. Por que a sociedade então deveria manter algum compromisso com ele? Por que deveria sustentá-lo durante anos - ou a vida toda - na cadeia?

A ojeriza dos brasileiros pela pena de morte - pela simples discussão do assunto, na verdade - demonstra um claro vício de formação cultural de nossa parte. Queremos que a sociedade garanta e proteja nossos direitos, mas não queremos cumprir nossos deveres para com a sociedade. É somente essa visão paternalista que explica, a meu ver, o fato de crianças de 16 anos poderem votar, mas não ir para a cadeia (outra explicação, claro, é a demagogia eleitoreira que enxertou esse absurdo na Constituição de 1988). A cidadania, para nós, é uma via de mão única, onde existiriam apenas direitos, e não deveres. Daí o surgimento de uma geração de adolescentes mimados e maleducados, moralmente deformados, que têm tudo do bom e do melhor, mas, sem conhecerem limites, divertem-se despejando extintores em travestis e espancando prostitutas, pois sabem que sempre haverá quem passe a mão em suas cabecinhas-de-vento.

A própria idéia de responsabilidade individual, um dos pilares da civilização contemporânea, é algo estranho à nossa índole. É sobretudo isso, mais do que a morte em si, que nos causa horror na execução de um prisioneiro numa cadeia norte-americana. Não nos horrorizamos com a morte em si, até porque no Brasil se mata muito mais do que em qualquer lugar nos EUA, e todos os dias somos bombardeados com notícias sanguinolentas de chacinas e matanças nas periferias das grandes cidades. O que nos provoca arrepios, na verdade, é a idéia de alguém ser executado por algo que fez, é a própria noção de responsabilidade do indivíduo. Por nossa própria formação cultural e religiosa, marcada pelo catolicismo ibérico, sempre deixamos aberta uma brecha para o arrependimento, a redenção ("ressociabilização") do criminoso, esquecendo-nos, freqüentemente, que o indivíduo é responsável por seus atos e que há, sim, criminosos irrecuperáveis.

A vida é um direito, o primeiro direito de todos. Ninguém duvida disso. Tirar a vida de alguém com intencionalidade, de forma cruel e desumana, significa rasgar o contrato que regulariza esse direito. E quem rasga um contrato deve estar ciente que sofrerá uma penalidade por causa disso. No caso, trata-se de assegurar que a pena será compatível e proporcional ao delito cometido. É justo deixar 20 ou 30 anos preso alguém que devastou uma família inteira, com requintes de crueldade e sadismo? Não seria mais justo e proporcional privá-lo daquilo que ele retirou de sua(s) vítima(s)?

Não se trata, evidentemente, de defender o retorno a algum tipo de justiça primitiva e tribal, a uma lei do talião, do "olho por olho, dente por dente". Nada disso. Não se trata, por exemplo, de torturar um prisioneiro, caso ele tenha feito o mesmo com suas vítimas. Não se trata de arrastá-lo por quilômetros, ou decepar suas mãos, ou castrá-lo, ou furar seus olhos, ou quebrar seus ossos. Nem de queimá-lo vivo, esfolá-lo ou esquartejá-lo. Isso seria bárbaro e desumano. Trata-se de aplicar uma pena que compense o dano causado a outros e à sociedade. Se as leis e o Estado existem para preservar a vida, e não para tirá-la - outro argumento usado pelos que se opõem à pena de morte, esquecendo-se que esse é um compromisso assumido por todos -, então não há razão para que quem não cumpre essa regra básica espere alguma condescendência das leis e do Estado. Pode esperar, isto sim, que o Estado respeite e preserve sua integridade física, mesmo com ele não tendo tido essa preocupação com suas vítimas. É assim nos EUA, onde em alguns Estados se aplica a pena capital. Lá, não há lugar para contemporizações: aqui se faz, aqui se paga. Cruel? Talvez. Mas certamente muito mais honesto.

Outro argumento geralmente utilizado pelos adversários da pena de morte é que esta só penalizaria os mais pobres, servindo como um instrumento de "dominação social" dos ricos e poderosos. É curioso como as esquerdas se atribuíram o papel de legítimos porta-vozes das aspirações populares, quando estão totalmente fora de sintonia com elas. Se há um setor em que a idéia da pena capital é forte, é entre os mais pobres da sociedade, que mais sofrem com a violência e a criminalidade. Vá a qualquer comunidade pobre, favela ou periferia de qualquer cidade brasileira e pergunte a seus moradores o que eles fariam com alguém pego em flagrante roubando ou estuprando. Como demonstram os linchamentos de pequenos delinqüentes por multidões furiosas, não é preciso pensar muito para saber a resposta. Em termos de punição a criminosos, os pobres são até mais "direitistas" e "reacionários" do que os que defendem, com argumentos, a pena de morte, pois, em vez dessa - que pelo menos preserva a integridade física do prisioneiro, até a hora da execução -, defendem o linchamento puro e simples, no local, mesmo sem provas. Ao contrário do que diz a lenda esquerdista, pobre não gosta de bandido. Quem gosta são os intelectuais de esquerda.

Por falar em esquerda, é importante desmascarar o discurso de algumas ONGs e partidos esquerdistas sobre direitos humanos. Com poucas exceções, tal discurso serve apenas para justificar a criminalidade ("fruto da sociedade") e eliminar o conceito de responsabilidade individual. Sem falar que, se partidos como o PT e outros que sempre levantaram essa bandeira estivessem realmente interessados em direitos humanos, não sairiam em defesa de regimes ditatoriais como o de Cuba - onde a pena de morte por fuzilamento existe há tempos, principalmente para adversários políticos do regime. Acabo de saber que um deputado do PT quer apresentar uma moção de censura contra Tropa de Elite, pois, segundo ele, o filme "estimula a tortura e as violações dos direitos humanos". Casa de ferreiro, espeto de pau.

Finalmente, sobra o argumento religioso - "só Deus pode tirar a vida". Sinceramente, sempre achei esse argumento fraco, fraquíssimo. E não somente porque sou ateu e não considero a religião - nenhuma religião - como uma fonte ideal de virtude (basta lembrar as guerras religiosas do passado e do presente entre cristãos e muçulmanos, os atentados terroristas dos fundamentalistas islamitas e por aí vai). Mas principalmente porque tal noção de exclusividade divina serve apenas para encobrir com um véu de espiritualidade sentimental uma questão bem terrena, bem prática. Sem falar que executar os criminosos de guerra nazistas, nessa concepção, seria não um ato de justiça, mas um pecado.

Noves fora todos esses argumentos, resta um, que a meu ver é a principal razão para não querer ver implantada a pena de morte no Brasil: a possibilidade de erro judicial. Este é, certamente, o maior argumento contra essa medida drástica, e se há um bom motivo para não ser a favor da pena capital, é esse. Afinal, ninguém em sã consciência gostaria de arriscar executar um inocente por causa de falhas no processo. E se isso já aconteceu até nos EUA, imagine no Brasil, com nosso Judiciário deficiente. Mesmo aqui, porém, eu me permito uma transgressão. Com o avanço das técnicas e métodos científicos que permitem descobrir a autoria de crimes, quem garante que em breve a possibilidade de erro judicial não seja próxima a zero? Basta lembrar que cinqüenta anos atrás, exame de DNA, por exemplo, era coisa de ficção científica.

***

Quanto à questão das drogas, também não vejo como ser "politicamente correto". A idéia da legalização, que é vendida por tanta gente descolada como uma espécie de solução mágica para o problema do tráfico e do próprio consumo, pois retiraria a sedução do proibido, é, para mim, uma falácia. Na verdade, é uma forma de desviar a atenção do cerne da questão. Não é o que é proibido que importa, se faz ou não mal à saúde, ou se é ou não uma questão de "liberdade individual", com a qual ninguém, muito menos o Estado, teria nada a ver. A questão é outra. O que realmente importa é o fato de que consumir e traficar drogas, no Brasil, é contra a lei. E ponto. Pouco me importa se o que é proibido é o consumo de maconha ou de fubá. É o respeito à lei, e não o fato de o sujeito encher os pulmões com fumaça de canabis ou de pó, o que está em jogo. E a lei é para todos, gostem ou não. Em outras palavras, a idéia da legalização (descriminalização) do porte e consumo de drogas, assim como de seu comércio, apenas atesta a existência de uma cultura da contravenção entre nós, algo também herdado de certa visão de esquerda, dos anos 60.

Vou dar um exemplo: a lei que obriga o uso do cinto de segurança nos automóveis, que existe desde algum tempo. No começo, achei essa lei um absurdo, pois, pelo menos no caso do carona e do motorista, é uma clara intromissão na vida privada do indivíduo. Não há dúvida de que usar o cinto de segurança é algo extremamente importante e recomendável, mas de modo algum, eu acreditava e continuo a acreditar, deveria ser algo obrigatório. O raciocínio por trás dessa medida é o mesmo de querer obrigar todo mundo a escovar os dentes ou tomar banho todos os dias, por exemplo. Malgrado as boas intenções que possam estar por trás de sua elaboração, essa lei é, portanto, bastante questionável. Até hoje penso assim, mas nem por isso deixo de usar o cinto. E não somente por medo de levar uma multa, mas sobretudo porque é lei. E lei se cumpre. Mesmo que seja uma lei discutível.

Assim como já fui adversário visceral da pena de morte, já fui a favor da legalização (descriminalização) das drogas, inclusive das drogas mais pesadas, como cocaína e heroína. Não sou hipócrita: assim como Bill Clinton, também fumei em meus tempos de faculdade e, ao contrário dele, traguei, sim. Literalmente intoxicado de literatura esquerdista, eu acreditava, então, que a lei era autoritária e que drogar-se era, enfim, um ato de rebeldia, uma questão individual, quase como escolher esse ou aquele tipo de comida. Afinal, se o sujeito resolve cheirar ou se picar, o que eu tenho a ver com isso?, raciocinava. Cada um na sua, e ponto final. Também pensava que bastaria legalizar o comércio de entorpecentes para que o problema do narcotráfico acabasse, e assim viraríamos uma Holanda ou uma Suiça.

Hoje penso bem diferente. Descobri que as coisas não são tão simples como eu imaginava na minha época de bicho-grilo. Aquilo que eu via como demonstração de rebeldia e de liberdade, percebi logo, era apenas desprezo pela lei e arrogância. Do mesmo tipo do "sabe com quem você está falando?" e outras típicas manifestações de nossa cultura senhorial e escravocrata, de nossa incapacidade atávica de separar os interesses público e privado. O simples imperativo categórico kantiano - se vale para um, precisa valer para todos, sem exceção - é algo estranho à nossa formação social. Daí a nossa cultura do "jeitinho", da malandragem. A lei pode servir para os outros, para os pobres, os que não têm grana para comprar cocaína "da boa" ou uns pontos de LSD para curtir uma rave, jamais para nós, juventude dourada e descolada, herdeira da geração "paz e amor" dos anos 60... Não há nada de "moderno" no comportamento de um usuário de maconha ou de ecstasy. Pelo contrário: há apenas a reverberação de antigos vícios e taras nacionais. Além de muita vaidade, muito narcisismo e imaturidade.

Pode ser que um dia as drogas sejam todas legalizadas, e qualquer pessoa possa comprar uma trouxinha de maconha ou uma dose de cocaína no coffee-shop da esquina, tal como já ocorre, por exemplo, na Holanda. Pode ser que, nesse dia, fumar um baseado ou cheirar uma carreira de puro pó colombiano seja encarado como algo normal e socialmente aceitável, como é hoje tomar uma dose de uísque ou um gole de cerveja com os amigos. Até mesmo se picar na veia poderá um dia, quem sabe, ser visto apenas como um gosto pessoal, uma preferência sem maiores conseqüências para o usuário e a sociedade. Pode ser que esse dia chegue, e, com os avanços da ciência e da medicina, não duvido disso. Mas enquanto vivermos numa sociedade democrática, em que a lei proíba expressamente esses comportamentos, e enquanto o narcotráfico se aproveitar desses vícios para faturar e comprar armas, enrolar um baseado, por mais inocente que pareça esse gesto, estará longe de ser uma atitude individual. É e será um gesto de cumplicidade com a bandidagem. Conservador? Careta? Talvez. Mas é uma realidade que não dá para fingir que não existe.

No final do filme Os Intocáveis, de Briam De Palma, o personagem de Kevin Costner, que interpreta o inspetor do FBI e principal inimigo de Al Capone, Eliot Ness, é perguntado por um repórter o que faria quando a Lei Seca fosse revogada nos EUA."Vou tomar um drinque", é a resposta de Ness, e a última fala do filme. Talvez eu dê um tapinha ou uma fungada quando as drogas forem legalizadas. Mas, até lá, prefiro respeitar a lei e não compactuar com a bandidagem.

segunda-feira, novembro 26, 2007

PT-PSDB: O DUOPÓLIO ESQUERDISTA


"Nada mais conservador do que um liberal no poder, e vice-versa". A frase é famosa, e diz respeito à alternância no governo entre os dois principais partidos políticos do Brasil-Império. Durante mais de quarenta anos, "luzias" e "saquaremas" se revezaram no poder, sem que isso significasse qualquer mudança substancial de programa político do governo. Do mesmo modo que o fariam, depois, paulistas e mineiros na República Velha - e também fazem, desde 1994, tucanos e petistas.

Há alguns dias, o PSDB realizou sua convenção nacional, em que, aparentemente saindo do muro - sua marca registrada -, próceres do partido como Fernando Henrique Cardoso elevaram o tom e fizeram duros discursos contra o governo Lula. FHC, aliás, chegou mesmo a criticar - indiretamente, como convém a um legítimo tucano - a proverbial ignorância de nosso Guia Genial, questionando como alguém pode falar em melhorar a educação no País se sempre desprezou a sua própria (não é preciso dizer que ele não citou nenhum nome, como se isso fosse necessário). José Serra, Tasso Jereissati e o novo presidente da agremiação, Sérgio Guerra, também criticaram as articulações subterrâneas para garantir o terceiro mandato para Lula. Ao que parece, os tucanos estão saindo da defensiva. Aparentemente, estão se assumindo como oposição. Aparentemente. Pois, como o leitor atento facilmente perceberá, a realidade é bem diferente do que pode imaginar a dicotomia tucanos-petistas.

Não há nada mais falso, nada mais fingido, do que a suposta disputa entre PT e PSDB. Mais até do que entre conservadores e liberais no Império. As críticas do tucanato a Lula e seu governo, em especial ao terceiro mandato, são pura pirotecnia, fanfarronadas para inglês ver. Por debaixo dos panos, o que se está preparando é uma enorme farsa, uma maquinação política entre tucanos e petistas para garantir mais um ano a Lula, em troca de melhores chances do PSDB emplacar um candidato à sua sucessão. A jogada consiste em garantir que Lula fique no poder, pelo menos, até 2011, de modo a que os tucanos, afastada a re-reeleição, tenham o caminho aberto para voltarem ao Palácio do Planalto, talvez com Aécio Neves ou José Serra. A história toda, que é complexa e envolve muitos interesses políticos, está descrita na Veja desta semana. Eu sugiro dar uma espiadinha.

As manobras dos tucanos para beneficiar Lula não são nenhuma novidade. Em 2005, quando o escândalo do mensalão estava no auge e já se começava a falar em impeachment de Lula, os tucanos, juntamente com o DEM, acreditando que ele estava morto e acabado, trataram de salvá-lo, sepultando a idéia. No ano seguinte, quando da campanha presidencial, entre um candidato com chances de vitória (José Serra) e um ilustre desconhecido (Geraldo Alckmin), escolheram o segundo para concorrer com Lula, garantindo-lhe, assim, a reeleição. Durante a campanha, em vez de defenderem, como deveriam ter feito, a herança das privatizações, promovendo um amplo debate nacional sobre o tema, recolheram-se, envergonhados, recusando-se a defendê-las. O PSDB fez de tudo para perder as eleições em 2006. Lula pode dormir tranqüilo, pois sabe que, na hora do sufoco, sempre haverá um tucano pronto a salvar sua pele. Não sei como o PSDB não recebeu, em troca de seus serviços ao petismo, pelo menos um ministério no governo Lula.

Agora, as afinidades entre os dois partidos voltam a aparecer, com a denúncia do Procurador-Geral da República contra o chamado "mensalão mineiro", o esquema ilícito de arrecadação de dinheiro "não-contabilizado" capitaneado pelo publicitário Marcos Valério para a campanha do tucano Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais, em 1998. Muitos petistas acreditam que tal escândalo irá fazer todos esquecerem da avalanche de 2005, deflagrada pelas denúncias de Roberto Jefferson. É assim que eles pensam: um escândalo faz esquecer o outro, e o outro, e o outro... Com isso, esperam enganar a todos novamente. Mas mesmo os petistas mais empedernidos têm de segurar a onda dessa vez. O motivo está na própria denúncia do Procurador-Geral, que classifica o esquema mineiro do PSDB como a "fonte e o laboratório" em que se gestou, nos anos seguintes, o mensalão petista. Além do mais, o ministro recém-demissionário dos Transportes do governo Lula, Walfrido Mares Guia, era em 1998 companheiro de Azeredo na campanha eleitoral em Minas. Adivinhe quem foi o principal financiador da campanha de 2002 de Lula à presidência? Ninguém menos do que - surpresa! - o irmão de Tasso Jeireissati, até a semana passada presidente do PSDB. O mensalão mineiro é mais uma prova de que, longe de serem adversários inconciliáveis, PT e PSDB estão juntos, desde o início. Quer atingir o PT e Lula? Mire nos tucanos.

Não são apenas as cifras das campanhas políticas e complexos cálculos eleitoreiros o que explica a cumplicidade de facto entre tucanos e petistas. O PSDB é incapaz de encabeçar um movimento de repúdio a Lula, assim como o PT é incapaz de liderar um movimento de repúdio a Hugo Chávez. Enquanto fingem brigar, ambos os partidos estão ligados desde o berço, como gêmeos xifópagos, partilhando a mesma concepção esquerdista, os mesmos dogmas, apenas um pouco mais atenuados no caso do PSDB. Estou exagerando? Então dêem uma olhada nas origens ideológicas de PT e PSDB. Até onde eu sei, não me consta que os tucanos nasceram, em 1988, como um contraponto às esquerdas brasileiras, mas como parte delas. Com a diferença de que, desde o início, o partido se assumiu como social-democrata - a começar pelo nome -, ao passo que os petistas, embora na prática caminhassem para a social-democracia, continuaram a salada de tendências e correntes ideológicas que sempre foram. No caso do PSDB, seus fundadores vinham de uma cisão do PMDB, que hoje é apenas uma reunião de interesses particulares (e fisiológicos), mas cujas origens são o MDB de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Muitos dos fundadores do PSDB - José Serra, Sérgio Motta etc. - vinham da esquerda católica dos anos 60, em especial da Ação Popular (AP). É preciso ser cego, surdo e louco para enxergar alguma rivalidade real entre o tosco esquerdismo petista e o esquerdismo cepalino e uspiano dos tucanos.

Na verdade, a divisão PT-PSDB não foge ao padrão verificado historicamente nas esquerdas. Desde pelo menos a política de "frente popular" defendida por Moscou em 1935, sempre foi uma tática das esquerdas cultivar duas caras, dois discursos diferentes, de acordo com a platéia, a fim de enganar o maior número possível de pessoas e garantir o predomínio (a "hegemonia", diria Gramsci) do discurso político. A partir de um certo momento, os comunistas perceberam que esse discurso não poderia triunfar de forma monolítica, com um partido apenas. Daí a necessidade de um partido "para as massas", abertamente radical e revolucionário, e outro, moderado, "para as camadas médias" ou os "setores progressistas da burguesia". Ou, para usar as palavras dos próprios comunistas, um "programa máximo" e um "programa mínimo", a fim de conquistar o apoio do povão, por um lado, e a respeitabilidade das camadas mais "instruídas", por outro. Em suma, a esquerda comunista e revolucionária se deu conta de que não poderia alcançar o poder sem a ajuda de companheiros de viagem. Foi assim no Brasil, com o PTB e o PCB nos anos 1945-1964, por exemplo, e, de certa forma, com o MDB durante o regime militar. E é assim hoje, com PT e PSDB.
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Desde os primórdios, tucanos e petistas caminharam juntos, como Lula e Chávez fazem hoje. O namoro foi interrompido com a ida de FHC para o Ministério da Fazenda, durante o governo Itamar Franco, e o Plano Real, que se tornou o grande trampolim de FHC para alcançar a presidência. Isso, claro, provocou ciúmes na petistada. De lá para cá, os antigos aliados vivem às turras, como um casal que resolveu dar um tempo depois de uma briga, mas que não descarta a possibilidade de uma reconciliação. Que a disputa no Brasil de hoje se resuma a uma querela PT versus PSDB, é algo que revela como estamos atrasados, como é baixo o nível do debate político no País. Na verdade, com o apoio do PSDB, os petistas e seus aliados da esquerda conseguiram implantar, há tempos, um verdadeiro monopólio da linguagem - um duopólio esquerdista.

Como demonstra o mensalão mineiro, as farpas entre FHC e Lula, entre tucanos e petistas, não passam de pura encenação para iludir os incautos. PT e PSDB estão no mesmo campo político-ideológico, tal como petistas e chavistas. Não foi por acaso que Lula no poder copiou grande parte dos programas de FHC, como gostam de lembrar os tucanos. Nada mais tucano do que um lulista no poder, e vice-versa.

sexta-feira, novembro 23, 2007

INOCENTES ÚTEIS - II


Pior do que um chavista declarado, só um chavista disfarçado. É esse o caso de Hélio Schwartsman, editorialista da Folha de S. Paulo. Se eu ainda tinha alguma dúvida sobre suas inclinações esquerdistas, demonstradas, aliás, por seu elogio envergonhado da ditadura de Fidel Castro (veja meu texto "Inocentes Úteis", sobre o caso dos pugilistas cubanos devolvidos à ilha durante os Jogos Pan-Americanos, postado aqui em 16/08 passado), elas acabaram com a leitura de seu texto "Chávez e a democracia", publicado na edição eletrônica do jornal em 22/11 (ver aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u347346.shtml).

Como no texto anterior, em que fingia criticar o regime comunista cubano, Hélio Schwartsman parece preocupado em não ser associado diretamente a Hugo Chávez e ao chavismo, jurando de pés juntos que está longe de querer defendê-lo e a seu populismo autoritário. Mas, do mesmo modo que, em seu artigo sobre Cuba, criticava a ditadura castrista apenas para, logo em seguida, elogiá-la por suas "conquistas sociais", faz questão de dizer que "estão pegando no pé do coronel". Segundo ele, há dezenas de motivos legítimos para criticar o presidente venezuelano. "A proposta de reforma constitucional que acaba com a limitação de reeleições", porém, "não é um deles".

O raciocínio do colunista da Folha é simples. Deixemos que ele fale:

"Em termos puramente teóricos, não há problema nenhum em a população reeleger um líder tantas vezes quantas julgar conveniente. Não ignoro que a constituição de um Estado democrático exige bem mais do que apenas ouvir a voz das urnas. Se assim fosse, a Alemanha nazista, por exemplo, seria uma democracia, dado que o chanceler Adolf Hitler chegou ao poder através do voto. Para uma nação ser considerada democrática, ela precisa também, entre outros requisitos, comprometer-se a respeitar um núcleo de direitos aplicáveis a todos, cidadãos ou não. Essas garantias fundamentais não podem ser revertidas nem pela vontade da maioria." (grifo meu)

À primeira vista, um argumento de uma lógica cristalina, quase perfeita, irrefutável. De fato, um regime político não pode ser definido como antidemocrático apenas pelo fato de o governante ser eleito e reeleito quantas vezes for possível. Nem pode ser tido como democrático pela simples vontade popular, que, como sabemos, também levou Hitler ao poder. Mas a questão não é essa. O problema está longe de ser teórico. Pelo contrário. É bem real, e diz respeito não a uma hipótese, mas a um dado da realidade: a destruição da democracia na Venezuela por Chávez e seus asseclas é um fato, e a reforma constitucional que lhe permitirá permanecer no poder indefinidamente é parte inseparável desse processo.

Para dar lustro à sua tese, Hélio Schwartsman cita governantes que se mantiveram por bastante tempo no poder, sendo várias vezes reconduzidos ao cargo, como o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt e o francês François Mitterrand (o mesmo fez Lula, há alguns dias, ao defender a reforma da Constituição venezuelana e a permanência de Chávez no poder). Ele argumenta que os quatro mandatos de FDR e os 14 anos de Mitterrand à frente do governo não foram assim tão nefastos para a democracia nos EUA e na França.
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O argumento é correto, mas apenas pela metade. Ninguém duvida que FDR e Mitterrand presidiram governos democráticos. Assim como ninguém põe em dúvida que EUA e França são democracias consolidadas, com regras claras e estáveis. Bem diferente é a Venezuela de hoje, um país submetido a um regime personalista e caudilhesco. A reforma constitucional pretendida por Chávez, ao garantir sua perpetuação no poder, apenas reforçará ainda mais seu controle sobre a sociedade, contribuindo para enterrar ainda mais fundo a democracia no país vizinho.
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Schwartsman tenta disfarçar, criticando, por exemplo, algumas características do regime chavista, como as substituições que fez no Judiciário ("Aqui, houve, sim, desequilíbrio na repartição dos Poderes" - só "desequilíbrio"? Onde está a separação de poderes, condição essencial de qualquer regime democrático?). Mas deixa cair a máscara em seguida, quando afirma: "Isso também ocorreu no Legislativo, mas aí por culpa exclusiva da oposição que decidiu boicotar as últimas eleições parlamentares entregando ao adversário controle total sobre o Congresso" (grifo meu). E arremata: "Se há algo pior do que Chávez, é a oposição a Chávez". É o mesmo discurso oficial brasileiro e dos apoiadores de Chávez no Brasil, que não leva em conta o fato de que a oposição venezuelana - um leque bastante heterogêneo, que vai desde empresários a setores da esquerda marxista - retirou-se das eleições legislativas de 2005 por julgar que estas seriam - como de fato foram - controladas e manipuladas pelo regime. Certa ou errada, a decisão da oposição resultou da convicção de que as eleições na Venezuela já se tornaram há muito uma farsa, com o órgão encarregado de organizá-las e fiscalizá-las - o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) - dominado por chavistas e obediente a Chávez. Se há algo pior do que um elogio a um ditador, é um elogio disfarçado de crítica.

Schwartsman prossegue em sua defesa camuflada do chavismo, afirmando que as "mordiscadas" de Chávez em setores da sociedade civil são preocupantes, mas, ao contrário do que sugere a oposição venezuelana, o país não pode ser comparado a uma ditadura clássica. Clássica, no sentido em que eram as ditaduras totalitárias ou militares do século XX, a ditadura chavista, de fato, não é. O que não significa que deixe de ser uma ditadura. Estranhamente, Schwartsman não diz que a Venezuela não pode, também, ser considerada uma democracia clássica. E que coisas como liberdade de imprensa e de expressão, ao contrário do que ele sugere ("relativa liberdade de imprensa" - grifo meu), não podem ser relativizadas. Assim como a própria democracia, que não pode ser adjetivada (só para lembrar: as ditaduras comunistas do Leste Europeu se auto-proclamavam "democracias populares" e a Coréia do Norte, por exemplo, ostenta os adjetivos "democrática" e "popular" em seu nome oficial). O simples fato de o regime chavista se intitular uma democracia "participativa e protagônica", rejeitando seu caráter liberal representativo, já demonstra que não há mais democracia na Venezuela.

"Não devemos, no afã de ver nossas aspirações pessoais realizadas, dar-nos o direito de fazer críticas infundadas", escreve Hélio Schwartsman. Além de esquivar-se de especificar que "aspirações pessoais" seriam essas (de quem seriam? de Bush? da CIA? das gigantes do petróleo?), o colunista da Folha considera "infundadas" as críticas a Chávez. Segundo ele, embora o coronel venezuelano deva ser visto com desconfiança, "a proposta de acabar com a limitação às reeleições está longe de ser um crime de lesa-democracia". Embora alfinete, no final, a hipocrisia do PT, que se opôs à reeleição de FHC em 1998 mas defende agora o terceiro mandato para Lula, fica claro no texto de Schwartsman a tendência a encarar como normal o que é, na verdade, um convite ao totalitarismo. Ainda mais quando o atual governo do Brasil é composto por gente que não vê problema algum em um governo fechar uma rede de televisão que lhe fazia oposição, e ainda defende com unhas e dentes seu ingresso num bloco regional que tem, como cláusula fundamental, o respeito às normas democráticas. É preciso ser muito ingênuo ou muito cínico para não perceber o tamanho dessa farsa.
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As ponderações de Hélio Schwartsman podem enganar a muitos, mas, felizmente, dessa doença, já estou vacinado. Por trás de uma análise aparentemente isenta e sofisticada, o que se esconde é uma tentativa mal-disfarçada de minimizar e até mesmo justificar o que se passa no reino bolivariano. Com o bônus de cobrir de legitimidade as intenções continuístas de Lula, nosso candidato a Chávez. Não é preciso ser pró-EUA ou fanático antichavista para perceber o óbvio: que a Venezuela de hoje não é mais uma democracia, e que Chávez é um ditador. Não importa se sua ditadura é disfarçada e está sendo estabelecida por meios legais e constitucionais. Assim também fez Hitler na Alemanha, como lembra o próprio Hélio Schwartsman. O fim da limitação à reeleição será apenas o coroamento desse processo.
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Em termos "puramente teóricos", o "socialismo do século XXI" defendido por Chávez, assim como o comunismo cubano e o marxismo, é uma maravilha. Teoricamente, são regimes perfeitos. Mas, na prática, são um desastre. O comunismo, aliás, de tão perfeito na teoria levou aos piores crimes e calamidades da História no século XX, com um saldo de mais de 100 milhões de mortos. Precisamos deixar de teorizar e enxergar a realidade tal como ela é. Somente assim será possível desmascarar as manipulações demagógicas e barrar os propósitos totalitários de demagogos psicopatas como Chávez. O resto é conversa para boi dormir.

quarta-feira, novembro 21, 2007

MERDOSUL BOLIVARIANO


Por 44 votos a favor e 17 contra, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, no dia de hoje, 21/11, o parecer do deputado Paulo Maluf (ele mesmo!), do PP-SP, que defende a entrada da Venezuela no Mercosul. O projeto, que ainda precisa ser votado no Plenário, teve o apoio da base aliada. Os deputados governistas, como José Múcio (PTB-PE) e José Genoíno (PT-SP), insistiram em separar Hugo Chávez da necessidade econômica de integrar a Venezuela no bloco regional. "Com todos os países somos tolerantes, por que seriamos intolerantes com a Venezuela?", disse o deputado Ivan Valente (PSOL-SP). ACM Neto (DEM-BA) tentou contra-argumentar, mas ficou sozinho. O PMDB, como sempre, trocou seus votos por promessas de cargo no governo. Depois de ir a Plenário, o parecer precisa ser aprovado no Senado. O Itamaraty comemorou discretamente.

A sessão da CCJ do dia 21/11/2007 deveria entrar para os anais do Legislativo brasileiro como um dos momentos mais vergonhosos de sua história. A quantidade de mentiras, falácias, sofismas e manipulações cínicas da realidade por parte dos defensores da admissão da Venezuela chavista ao MERCOSUL, bem como a incompetência e tibieza da assim chamada "oposição", incapaz de se contrapor ao lobby pró-Chávez no Congresso, é de assustar até quem já morreu. Em vez de uma discussão de algum nível sobre os impedimentos estatutários e legais à entrada da Venezuela no grupo, assistiu-se a um bate-boca ginasiano, típico de grêmio estudantil. Da parte dos deputados governistas, que agiram como autênticos papagaios de Chávez, o que se montou ali foi uma mistura de circo e comício em favor da "revolução bolivariana" e do "socialismo do século XXI".

Segundo os petistas e seus aliados, as acusações de que Chávez vem minando a democracia na Venezuela e provocando uma corrida armamentista na região, brandidas pelos adversários da idéia da entrada do país no MERCOSUL, são infundadas. Além disso, repetem, uma coisa é Chávez, outra a Venezuela, um país rico em petróleo, que poderia trazer bons dividendos à integração regional sul-americana e à expansão dos negócios. Não haveria nada de mais, afirmam, em aceitar a Venezuela como novo membro do bloco, e as afirmações em contrário seriam apenas fruto de preconceito e ranço ideológicos.

Os argumentos apresentados pela banda de música governista valem tanto quanto a quotação do bolívar, a depauperada moeda venezuelana. Em primeiro lugar, como já afirmei aqui e repetirei até que esses cabeças-ocas entendam, a Venezuela já deixou de ser uma democracia há muito tempo. Desde que chegou ao poder, Chávez vem implantando gradativamente um regime autoritário e personalista, usando para tanto os mecanismos da própria democracia, como Hitler e Mussolini. A separação de poderes - condição sine qua nom da democracia - desapareceu completamente, sendo substituída pela concentração de poderes nas mãos do caudilho. A maior rede de televisão do país foi fechada e jornalistas que ousam criticar o governo são diariamente agredidos e intimidados - como o pobre-coitado que levou uma surra ao vivo da deputada chavista Íris ("fosforito") Varela, no mesmo dia em que o parecer era discutido na CCJ. A militarização da sociedade, com a criação das "milícias bolivarianas" - uma preparação para a "guerra de todo o povo", como diz Chávez - está em marcha acelerada. Sem falar no rearmamento ostensivo do país, que Chávez diz ser apenas um reequipamento normal de suas Forças Armadas, mas que não esconde, na verdade, seus projetos expansionistas. Sob Chávez, a Venezuela tornou-se o maior troublemaker da região, já tendo intervindo abertamente em diversos outros países, como a Bolívia e o Peru (onde apoiou uma tentativa de golpe em 2005). Chávez usa o petróleo do país para construir um eixo com Estados patrocinadores do terrorismo como o Irã e já anunciou que deseja desenvolver, ele mesmo, um projeto nuclear similar ao iraniano. Sua tática é confrontar os EUA, o "império", e para isso ele quer arrastar todos os países do continente, submetendo-os a seu projeto da Alternativa Bolivariana das Américas (ALBA), criada por ele e pelo ditador cubano Fidel Castro como uma resposta à ALCA. Chávez é um psicopata, um perigo para a democracia e para os países da América Latina e a integração regional. Mas Lula e seus cupinchas preferem olhar para o outro lado, dando as boas-vindas ao coronel venezuelano e confundindo democracia com a realização de eleições e plebiscitos.

Os parlamentares governistas gostam de apontar a necessidade de separar o ingresso da Venezuela no MERCOSUL do regime chavista. Dizem que Chávez vai passar, mas que a Venezuela ficará. Eles mentem. A longo prazo, a idéia da entrada da Venezuela no bloco regional, assim como a de qualquer outro país, é boa e desejável. Mas é um erro grosseiro - ou cinismo - acreditar que se pode separar o país do regime. Se algo caracteriza o regime de Chávez, é sua subordinação da economia e da integração regional a seus caprichos de protagonismo político. Chávez já se retirou da Comunidade Andina (CAN) num rompante, pois não achava que estava tendo a devida atenção dos demais membros do bloco. Com o MERCOSUL, não será diferente. Até mesmo em termos de pragmatismo diplomático o ingresso da Venezuela no bloco é um despautério, pois os supostos benefícios comerciais que dele adviriam para o Brasil não compensam o prejuízo político que isso causará ao MERCOSUL e à integração regional. Não duvido que, se Hitler em pessoa renascesse das cinzas e reassumisse o poder na Alemanha, os petistas no governo defenderiam um acordo comercial com a Alemanha, usando, como justificativa, a separação entre o regime e o país. E ainda considerariam essa atitude "moderna" e "pluralista".
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Na verdade, a entrada da Venezuela no MERCOSUL é parte dos planos de Chávez para perpetuar-se no poder e eternizar sua ditadura bolivariana. As duas coisas estão intrinsecamente ligadas e não podem ser dissociadas. No próximo dia 2 de dezembro será realizado na Venezuela um referendo para decidir sobre a reforma constitucional proposta por Chávez, a qual lhe dará a possibilidade de se reeleger quantas vezes quiser. Tendo ele o controle total das instituições estatais, inclusive do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) - o TSE venezuelano -, isso significa que ele terá carta branca para continuar na cadeira presidencial até fazer mofo. A admissão de Chávez no MERCOSUL será a carta de apresentação do coronel para chancelar a reforma da Constituição venezuelana, e garantir sua permanência ad aeternum no poder. Negar-lhe o acesso ao MERCOSUL pelo menos lhe retirará a pretensão de legitimidade para alcançar esse objetivo.

É certo que não cabe ao governo de nenhum país, muito menos a seu Legislativo, definir o caráter democrático ou não de um governo estrangeiro. Mas isso não significa que se deve ser indiferente à destruição da democracia num país vizinho. Nem tampouco aceitar a companhia desse governo num organismo internacional. Ainda mais se esse órgão tem, em sua Carta Fundamental, uma cláusula que exige de seus membros a obediência aos princípios democráticos. De acordo com esta, somente países comprovadamente democráticos podem participar do MERCOSUL. A Venezuela há muito deixou de ser uma democracia. Se for aceita no bloco, este ficará desmoralizado para sempre. Já mal das pernas por causa das disputas comerciais entre seus membros, o MERCOSUL, que surgiu em 1991 com o objetivo "neoliberal" de derrubar as barreiras comerciais e promover a integração econômica entre os países da região, recém-saídos de décadas de autoritarismo, tornar-se-á mais um palanque para as arengas demagógicas de Chávez. Ou seja: perderá a própria razão de ser.

A entrada da Venezuela no MERCOSUL é uma questão de honra para os petistas e seus aliados. Para conseguir isso, eles estão dispostos a tudo. Até mesmo a cerrar fileiras com o mais novo chavista da praça, Paulo Maluf. Se Chávez resolver fechar o Congresso, botar todos os jornalistas que lhe fazem oposição na cadeia e fuzilar seus adversários, ainda assim o governo brasileiro vai sair em sua defesa, apelando, em última instância, para o direito à "soberania" e à "autodeterminação dos povos". É assim que o governo brasileiro faz, há anos, em relação a ditadura de Fidel Castro em Cuba, por exemplo. Não se enganem: com a entrada da Venezuela no MERCOSUL, o bloco e todo o esforço de integração regional sul-americano irão para o saco. De MERCOSUL, virará um Merdosul bolivariano.

terça-feira, novembro 20, 2007

"DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA": UMA DATA RACISTA


Longe de mim falar mal de um feriado. Afinal, também sou brasileiro e o brasileiro, como dizia Nelson Rodrigues, "é um feriado". Mas certas coisas não podem passar em branco (sem trocadilho). O Dia da Consciência Negra, que se celebra hoje em todo o Brasil, sendo feriado oficial em mais de 200 municípios, é uma dessas datas, como a Semana Santa e o 12 de outubro (Dia de N. Senhora Aparecida), que nos fazem pensar. E não somente pelo simbolismo da efeméride - uma homenagem ao líder da mais famosa revolta escrava da História do Brasil, Zumbi dos Palmares -, mas principalmente porque, assim como aquelas duas outras datas me fazem duvidar do caráter laico do Estado brasileiro (desde 1889, o Brasil não tem religião oficial; logo, por que um feriado oficial em homenagem a uma santa católica?), uma data como a de hoje levanta dúvidas sobre a própria essência da nacionalidade. Sobre o que somos, enfim, e sobre que tipo de nação queremos ser.

Em primeiro lugar, por que Dia da Consciência Negra? Sabemos que dizer quem é negro ou não no Brasil, devido à miscigenação que, queiramos ou não, é nossa marca registrada, é uma tarefa das mais difíceis, responsável por enormes dores de cabeça aos recenseadores do IBGE. Como afirma Gilberto Freyre - um autor tão atacado quanto pouco lido pelos militantes da "negritude" e da esquerda em geral -, não houve, por essas bandas, um processo de segregação racial como ocorreu, por exemplo, nos EUA ou na África do Sul. Pelo contrário: o escravo negro desempenhou, aqui, um papel na formação cultural do País sem paralelo com o que teve nesses outros lugares, onde permaneceu quase sempre separado e mantido à distância pela população branca. Aqui, até mesmo pela violência e perversão sexual inerentes à escravidão, os sinhozinhos, eles mesmos bem pouco puros racialmente (filhos de portugueses, que por sua vez se tinham misturado com árabes e berberes, romanos e celtíberos), refestelaram-se transando com as negras (e índias, e mulatas, e caboclas, e cafuzas, e por aí vai), resultando numa população racialmente tão indefinida quanto a sexualidade de um padre. Paralelamente à essa mistura de raças, a influência da cultura da senzala - sua música, culinária, religião, língua etc. - se fez sentir na casa-grande, a ponto de Freyre afirmar, por exemplo, que, culturalmente, somos mais africanos do que europeus (fenômeno facilmente observável; basta verificar quais os ritmos que fazem mais sucesso nas festas de classe média: o funk, o rap, o hip-hop, o samba, ou a ópera e a valsa vienense?). Daí ser tão difícil, para não dizer impossível, classificar o brasileiro em termos raciais. (Eu, por exemplo, descendente de portugueses e índios do alto sertão potiguar, já fui confundido até com vietnamita... Se me perguntarem a que raça pertenço, respondo: à raça humana). Sem falar que "afro-descendente", o termo preferido dos politicamente corretos para se referir aos que, como disse certa vez um ex-presidente da República, têm um pé na cozinha, é algo tão insólito quanto dizer que alguém é "descendente de Eva" - sendo o continente africano, segundo as pesquisas arqueológicas mais recentes, o berço da espécie humana e da civilização, somos todos, portanto, afro-descendentes. Somos um povo mestiço, caboclo, misturado, vira-lata. Então, para que um Dia da Consciência Negra? Não seria melhor dizer Dia da Consciência Nacional, simplesmente?

A insistência em enxergar a realidade brasileira pelo prisma da divisão racial - e não social ou cultural, como deveria ser o caso - é parte da ideologia e do programa antropológicos de ONGs e grupos pertencentes ao chamado movimento "negro" no Brasil. Tal movimento, surgido nas periferias das grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador por volta dos anos 70 do século passado, tem por objetivo inculcar na sociedade brasileira uma visão bicolor - e racista -, na contramão do elogio da miscigenação feito por Gilberto Freyre, o pai da idéia da "democracia racial" brasileira, que esses militantes tanto contestam. Ninguém questiona que a democracia racial brasileira está longe de ser perfeita (aliás, existe alguma coisa perfeita neste mundo?), nem que há preconceito e discriminação raciais, camuflados sob um véu de cordialidade. Ninguém também nega que a questão social entre nós é e sempre foi uma calamidade nacional e que, por causa de nossa cultura escravocrata, negro no Brasil é quase sinônimo de pobre e favelado. Ninguém nega isso. O problema está na percepção de que essas desigualdades decorrem tão-somente de uma questão de raça, como se fosse a cor da pele ou o tipo de cabelo o elemento definidor da posição social - e da nacionalidade. Tal conceito, eminentemente racista e discriminatório, está na raiz, por exemplo, do sistema de cotas nas universidades, o qual paradoxalmente apenas oficializou o racismo, instituindo um tribunal de "pureza racial" para definir quais alunos seriam, e quais não seriam,"afro-descendentes" - algo que só pode gerar confusão e injustiças, como vem ocorrendo, por exemplo, na UnB.

Outra questão geralmente levantada pelos "militantes negros" - verdadeiros guerrilheiros da raça, prontos para enquadrar criminalmente qualquer professor universitário que tiver a audácia de chamar alguém de "crioulo", por exemplo, mas não o atual presidente da República - é que a data de 20/11 vem "resgatar a memória da luta dos negros contra a escravidão". Aqui sou obrigado mais uma vez a discordar dos companheiros. Novamente, por razões históricas: em primeiro lugar, quem disse que a escravização de outros povos foi exclusividade dos europeus? A instituição da escravidão existiu na Antigüidade, do antigo Egito à Grécia e Roma, tendo sido retomada, a partir do século VIII d.C., pelos conquistadores árabes no Norte e Leste da África. Para quem não sabe, foram eles, os mouros (árabes e africanos negros) que a introduziram na Europa, via Península Ibérica, e a mantiveram até o século XIX (a primeira guerra que os EUA travaram fora de seu território, por exemplo, foi contra os mercadores de escravos árabes da Berbéria, onde hoje é a Argélia, no começo do século XIX). Durante séculos, o Império Otomano - a Turquia atual - importou escravos e escravas de pele branca e olhos claros de suas possessões do Leste Europeu e do Cáucaso para seus exércitos e haréns. Quando os portugueses começaram a traficar escravos na costa ocidental da África, no século XV, não estavam inventando nada novo: estavam apenas transferindo para o Atlântico uma prática usual no interior do continente africano. Até hoje, aliás, a prática da escravidão continua em certas partes do continente, como o Sudão. Logo, historicamente, a escravidão não foi invenção dos europeus, nem tem nada a ver com raça. Daí o absurdo do gesto teatral do presidente da República pedindo "desculpas" aos africanos pela escravidão no Brasil, algo que só pode ser compreendido como fruto de ignorância histórica - ou de demagogia mesmo.

Até no Brasil, o último país do Ocidente a abolir essa prática vergonhosa, a escravidão acabou transcendendo as barreiras raciais. Há registros de mulatos e até ex-escravos que eram, eles mesmos, donos de escravos. O próprio Quilombo dos Palmares, tido como inspirador do 20/11, não contava, entre seus moradores, apenas com ex-escravos negros fugidos. Havia, entre eles, também muitos índios, bem como numerosos mestiços e até mesmo alguns brancos pobres em busca de terras. Até hoje, quem for a alguma comunidade quilombola não terá muita dificuldade em encontrar, entre seus habitantes, alguém de cabelo liso e pele clara.

As origens de tanto mal-entendido e tanta confusão não são muito difíceis de traçar. Embora se pretenda, com a data, ressaltar um aspecto importante do caráter nacional brasileiro, a idéia por trás do Dia da Consciência Negra é alienígena: vem dos movimentos pelos direitos civis nos EUA dos anos 50 e 60, com Martin Luther King à frente, reforçado, depois, pela luta contra o apartheid na África do Sul. Em que consiste essa idéia? Basicamente, no resgate das tradições e do orgulho da população negra oprimida nesses países - o black power e o black is beautiful brandido pelos negros norte-americanos. Nesses países, a população negra era segregada nas escolas e obrigada a viver em guetos longe dos bairros brancos. Transmudado em solo pátrio, o "orgulho negro" tornou-se uma espécie de "grito dos excluídos" com tintas raciais. Daí porque a frase da Ministra da Integração (sic) Racial, Matilde Ribeiro -, "Não é racismo quando um negro odeia um branco" - não deveria surpreender ninguém.

A data que hoje se comemora no Brasil veio substituir a que era celebrada anteriormente como a da libertação dos escravos - o 13 de maio, data da Lei Áurea, proclamada pela Princesa Isabel em 1888. Tal data era considerada, e ainda o é, "elitista" e "branca" demais pelos grupos de militantes negros. Estes precisavam de uma data que marcasse mais fortemente as lutas dos afro-brasileiros contra a escravidão e a discriminação de que ainda seriam vítimas. Faltava apenas encontrar uma figura histórica que pudesse ser considerada um símbolo e um herói dessa resistência: Zumbi dos Palmares. Processou-se, desse modo, aquilo que o professor Demétrio Magnoli chamou de "abolição da Abolição": de momento fundamental da História nacional, a Abolição passou a ser vista como uma farsa, e a Princesa Isabel, de Redentora, passou a ser ridicularizada. Por sua vez, os principais vultos da campanha abolicionista, como Joaquim Nabuco, Castro Alves, Luís Gama e José do Patrocínio (os dois últimos, aliás, mulatos), foram relegados ao esquecimento histórico, passando, de heróis e símbolos da luta pelo fim da escravatura, à condição de quase vilões, verdadeiros usurpadores dessa causa sagrada. O resultado é que, hoje, as crianças desconhecem completamente a verdadeira epopéia que foi o movimento abolicionista do final do século XIX, enquanto aprendem a reverenciar Zumbi e Malcolm X.

O processo de construção/mistificação histórica que resultou na oficialização do Dia da Consciência Negra seguiu um padrão bem conhecido. Aconteceu, com Zumbi, algo parecido com o que ocorreu com a figura de Tiradentes após a proclamação da República: inicialmente rebeldes, tornaram-se, com a ascensão de novos interesses, símbolos da ordem política e social que se tentou implantar. No caso de Tiradentes, a iconografia oficial buscou na imagética religiosa sua fonte de inspiração, tratando de representá-lo como um Cristo redivivo, de barba e cabelos longos, tão sugestivo como historicamente improvável (associação semelhante se fez com Che Guevara, com proporções bem maiores). O mesmo com Zumbi dos Palmares. Figura semi-lendária, como quase todos os mitos nacionais, tornou-se, de líder de escravos rebelados, em um símbolo de orgulho e pureza racial, algo completamente estranho à própria constituição física do brasileiro. Como tal, sua imagem foi encampada pelos grupos e partidos de esquerda, sobretudo o PT (não por acaso, uma das siglas que pegaram em armas contra a ditadura militar nos anos 60 e 70, da qual participou, entre outros, a atual Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, chamava-se Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares).

Houve uma época em que os brasileiros, com vergonha de serem mestiços, queriam "embranquecer" a si mesmos. Hoje, continuamos com vergonha do que somos, mas não vemos nenhum mal em querer "enegrecer" o país. Ao se propor a celebrar a pureza de raça em um país de mestiços, o Dia da Consciência Negra é um contra-senso. Algo tão sem sentido quanto celebrar o Dia da Consciência Alemã ou Coreana, por exemplo. Mas, num país em que ONGs denunciam o "genocídio" de homossexuais e que tem, ao mesmo tempo, a maior parada do orgulho gay do mundo, isso não deveria surpreender.