sexta-feira, novembro 23, 2007

INOCENTES ÚTEIS - II


Pior do que um chavista declarado, só um chavista disfarçado. É esse o caso de Hélio Schwartsman, editorialista da Folha de S. Paulo. Se eu ainda tinha alguma dúvida sobre suas inclinações esquerdistas, demonstradas, aliás, por seu elogio envergonhado da ditadura de Fidel Castro (veja meu texto "Inocentes Úteis", sobre o caso dos pugilistas cubanos devolvidos à ilha durante os Jogos Pan-Americanos, postado aqui em 16/08 passado), elas acabaram com a leitura de seu texto "Chávez e a democracia", publicado na edição eletrônica do jornal em 22/11 (ver aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u347346.shtml).

Como no texto anterior, em que fingia criticar o regime comunista cubano, Hélio Schwartsman parece preocupado em não ser associado diretamente a Hugo Chávez e ao chavismo, jurando de pés juntos que está longe de querer defendê-lo e a seu populismo autoritário. Mas, do mesmo modo que, em seu artigo sobre Cuba, criticava a ditadura castrista apenas para, logo em seguida, elogiá-la por suas "conquistas sociais", faz questão de dizer que "estão pegando no pé do coronel". Segundo ele, há dezenas de motivos legítimos para criticar o presidente venezuelano. "A proposta de reforma constitucional que acaba com a limitação de reeleições", porém, "não é um deles".

O raciocínio do colunista da Folha é simples. Deixemos que ele fale:

"Em termos puramente teóricos, não há problema nenhum em a população reeleger um líder tantas vezes quantas julgar conveniente. Não ignoro que a constituição de um Estado democrático exige bem mais do que apenas ouvir a voz das urnas. Se assim fosse, a Alemanha nazista, por exemplo, seria uma democracia, dado que o chanceler Adolf Hitler chegou ao poder através do voto. Para uma nação ser considerada democrática, ela precisa também, entre outros requisitos, comprometer-se a respeitar um núcleo de direitos aplicáveis a todos, cidadãos ou não. Essas garantias fundamentais não podem ser revertidas nem pela vontade da maioria." (grifo meu)

À primeira vista, um argumento de uma lógica cristalina, quase perfeita, irrefutável. De fato, um regime político não pode ser definido como antidemocrático apenas pelo fato de o governante ser eleito e reeleito quantas vezes for possível. Nem pode ser tido como democrático pela simples vontade popular, que, como sabemos, também levou Hitler ao poder. Mas a questão não é essa. O problema está longe de ser teórico. Pelo contrário. É bem real, e diz respeito não a uma hipótese, mas a um dado da realidade: a destruição da democracia na Venezuela por Chávez e seus asseclas é um fato, e a reforma constitucional que lhe permitirá permanecer no poder indefinidamente é parte inseparável desse processo.

Para dar lustro à sua tese, Hélio Schwartsman cita governantes que se mantiveram por bastante tempo no poder, sendo várias vezes reconduzidos ao cargo, como o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt e o francês François Mitterrand (o mesmo fez Lula, há alguns dias, ao defender a reforma da Constituição venezuelana e a permanência de Chávez no poder). Ele argumenta que os quatro mandatos de FDR e os 14 anos de Mitterrand à frente do governo não foram assim tão nefastos para a democracia nos EUA e na França.
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O argumento é correto, mas apenas pela metade. Ninguém duvida que FDR e Mitterrand presidiram governos democráticos. Assim como ninguém põe em dúvida que EUA e França são democracias consolidadas, com regras claras e estáveis. Bem diferente é a Venezuela de hoje, um país submetido a um regime personalista e caudilhesco. A reforma constitucional pretendida por Chávez, ao garantir sua perpetuação no poder, apenas reforçará ainda mais seu controle sobre a sociedade, contribuindo para enterrar ainda mais fundo a democracia no país vizinho.
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Schwartsman tenta disfarçar, criticando, por exemplo, algumas características do regime chavista, como as substituições que fez no Judiciário ("Aqui, houve, sim, desequilíbrio na repartição dos Poderes" - só "desequilíbrio"? Onde está a separação de poderes, condição essencial de qualquer regime democrático?). Mas deixa cair a máscara em seguida, quando afirma: "Isso também ocorreu no Legislativo, mas aí por culpa exclusiva da oposição que decidiu boicotar as últimas eleições parlamentares entregando ao adversário controle total sobre o Congresso" (grifo meu). E arremata: "Se há algo pior do que Chávez, é a oposição a Chávez". É o mesmo discurso oficial brasileiro e dos apoiadores de Chávez no Brasil, que não leva em conta o fato de que a oposição venezuelana - um leque bastante heterogêneo, que vai desde empresários a setores da esquerda marxista - retirou-se das eleições legislativas de 2005 por julgar que estas seriam - como de fato foram - controladas e manipuladas pelo regime. Certa ou errada, a decisão da oposição resultou da convicção de que as eleições na Venezuela já se tornaram há muito uma farsa, com o órgão encarregado de organizá-las e fiscalizá-las - o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) - dominado por chavistas e obediente a Chávez. Se há algo pior do que um elogio a um ditador, é um elogio disfarçado de crítica.

Schwartsman prossegue em sua defesa camuflada do chavismo, afirmando que as "mordiscadas" de Chávez em setores da sociedade civil são preocupantes, mas, ao contrário do que sugere a oposição venezuelana, o país não pode ser comparado a uma ditadura clássica. Clássica, no sentido em que eram as ditaduras totalitárias ou militares do século XX, a ditadura chavista, de fato, não é. O que não significa que deixe de ser uma ditadura. Estranhamente, Schwartsman não diz que a Venezuela não pode, também, ser considerada uma democracia clássica. E que coisas como liberdade de imprensa e de expressão, ao contrário do que ele sugere ("relativa liberdade de imprensa" - grifo meu), não podem ser relativizadas. Assim como a própria democracia, que não pode ser adjetivada (só para lembrar: as ditaduras comunistas do Leste Europeu se auto-proclamavam "democracias populares" e a Coréia do Norte, por exemplo, ostenta os adjetivos "democrática" e "popular" em seu nome oficial). O simples fato de o regime chavista se intitular uma democracia "participativa e protagônica", rejeitando seu caráter liberal representativo, já demonstra que não há mais democracia na Venezuela.

"Não devemos, no afã de ver nossas aspirações pessoais realizadas, dar-nos o direito de fazer críticas infundadas", escreve Hélio Schwartsman. Além de esquivar-se de especificar que "aspirações pessoais" seriam essas (de quem seriam? de Bush? da CIA? das gigantes do petróleo?), o colunista da Folha considera "infundadas" as críticas a Chávez. Segundo ele, embora o coronel venezuelano deva ser visto com desconfiança, "a proposta de acabar com a limitação às reeleições está longe de ser um crime de lesa-democracia". Embora alfinete, no final, a hipocrisia do PT, que se opôs à reeleição de FHC em 1998 mas defende agora o terceiro mandato para Lula, fica claro no texto de Schwartsman a tendência a encarar como normal o que é, na verdade, um convite ao totalitarismo. Ainda mais quando o atual governo do Brasil é composto por gente que não vê problema algum em um governo fechar uma rede de televisão que lhe fazia oposição, e ainda defende com unhas e dentes seu ingresso num bloco regional que tem, como cláusula fundamental, o respeito às normas democráticas. É preciso ser muito ingênuo ou muito cínico para não perceber o tamanho dessa farsa.
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As ponderações de Hélio Schwartsman podem enganar a muitos, mas, felizmente, dessa doença, já estou vacinado. Por trás de uma análise aparentemente isenta e sofisticada, o que se esconde é uma tentativa mal-disfarçada de minimizar e até mesmo justificar o que se passa no reino bolivariano. Com o bônus de cobrir de legitimidade as intenções continuístas de Lula, nosso candidato a Chávez. Não é preciso ser pró-EUA ou fanático antichavista para perceber o óbvio: que a Venezuela de hoje não é mais uma democracia, e que Chávez é um ditador. Não importa se sua ditadura é disfarçada e está sendo estabelecida por meios legais e constitucionais. Assim também fez Hitler na Alemanha, como lembra o próprio Hélio Schwartsman. O fim da limitação à reeleição será apenas o coroamento desse processo.
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Em termos "puramente teóricos", o "socialismo do século XXI" defendido por Chávez, assim como o comunismo cubano e o marxismo, é uma maravilha. Teoricamente, são regimes perfeitos. Mas, na prática, são um desastre. O comunismo, aliás, de tão perfeito na teoria levou aos piores crimes e calamidades da História no século XX, com um saldo de mais de 100 milhões de mortos. Precisamos deixar de teorizar e enxergar a realidade tal como ela é. Somente assim será possível desmascarar as manipulações demagógicas e barrar os propósitos totalitários de demagogos psicopatas como Chávez. O resto é conversa para boi dormir.

quarta-feira, novembro 21, 2007

MERDOSUL BOLIVARIANO


Por 44 votos a favor e 17 contra, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, no dia de hoje, 21/11, o parecer do deputado Paulo Maluf (ele mesmo!), do PP-SP, que defende a entrada da Venezuela no Mercosul. O projeto, que ainda precisa ser votado no Plenário, teve o apoio da base aliada. Os deputados governistas, como José Múcio (PTB-PE) e José Genoíno (PT-SP), insistiram em separar Hugo Chávez da necessidade econômica de integrar a Venezuela no bloco regional. "Com todos os países somos tolerantes, por que seriamos intolerantes com a Venezuela?", disse o deputado Ivan Valente (PSOL-SP). ACM Neto (DEM-BA) tentou contra-argumentar, mas ficou sozinho. O PMDB, como sempre, trocou seus votos por promessas de cargo no governo. Depois de ir a Plenário, o parecer precisa ser aprovado no Senado. O Itamaraty comemorou discretamente.

A sessão da CCJ do dia 21/11/2007 deveria entrar para os anais do Legislativo brasileiro como um dos momentos mais vergonhosos de sua história. A quantidade de mentiras, falácias, sofismas e manipulações cínicas da realidade por parte dos defensores da admissão da Venezuela chavista ao MERCOSUL, bem como a incompetência e tibieza da assim chamada "oposição", incapaz de se contrapor ao lobby pró-Chávez no Congresso, é de assustar até quem já morreu. Em vez de uma discussão de algum nível sobre os impedimentos estatutários e legais à entrada da Venezuela no grupo, assistiu-se a um bate-boca ginasiano, típico de grêmio estudantil. Da parte dos deputados governistas, que agiram como autênticos papagaios de Chávez, o que se montou ali foi uma mistura de circo e comício em favor da "revolução bolivariana" e do "socialismo do século XXI".

Segundo os petistas e seus aliados, as acusações de que Chávez vem minando a democracia na Venezuela e provocando uma corrida armamentista na região, brandidas pelos adversários da idéia da entrada do país no MERCOSUL, são infundadas. Além disso, repetem, uma coisa é Chávez, outra a Venezuela, um país rico em petróleo, que poderia trazer bons dividendos à integração regional sul-americana e à expansão dos negócios. Não haveria nada de mais, afirmam, em aceitar a Venezuela como novo membro do bloco, e as afirmações em contrário seriam apenas fruto de preconceito e ranço ideológicos.

Os argumentos apresentados pela banda de música governista valem tanto quanto a quotação do bolívar, a depauperada moeda venezuelana. Em primeiro lugar, como já afirmei aqui e repetirei até que esses cabeças-ocas entendam, a Venezuela já deixou de ser uma democracia há muito tempo. Desde que chegou ao poder, Chávez vem implantando gradativamente um regime autoritário e personalista, usando para tanto os mecanismos da própria democracia, como Hitler e Mussolini. A separação de poderes - condição sine qua nom da democracia - desapareceu completamente, sendo substituída pela concentração de poderes nas mãos do caudilho. A maior rede de televisão do país foi fechada e jornalistas que ousam criticar o governo são diariamente agredidos e intimidados - como o pobre-coitado que levou uma surra ao vivo da deputada chavista Íris ("fosforito") Varela, no mesmo dia em que o parecer era discutido na CCJ. A militarização da sociedade, com a criação das "milícias bolivarianas" - uma preparação para a "guerra de todo o povo", como diz Chávez - está em marcha acelerada. Sem falar no rearmamento ostensivo do país, que Chávez diz ser apenas um reequipamento normal de suas Forças Armadas, mas que não esconde, na verdade, seus projetos expansionistas. Sob Chávez, a Venezuela tornou-se o maior troublemaker da região, já tendo intervindo abertamente em diversos outros países, como a Bolívia e o Peru (onde apoiou uma tentativa de golpe em 2005). Chávez usa o petróleo do país para construir um eixo com Estados patrocinadores do terrorismo como o Irã e já anunciou que deseja desenvolver, ele mesmo, um projeto nuclear similar ao iraniano. Sua tática é confrontar os EUA, o "império", e para isso ele quer arrastar todos os países do continente, submetendo-os a seu projeto da Alternativa Bolivariana das Américas (ALBA), criada por ele e pelo ditador cubano Fidel Castro como uma resposta à ALCA. Chávez é um psicopata, um perigo para a democracia e para os países da América Latina e a integração regional. Mas Lula e seus cupinchas preferem olhar para o outro lado, dando as boas-vindas ao coronel venezuelano e confundindo democracia com a realização de eleições e plebiscitos.

Os parlamentares governistas gostam de apontar a necessidade de separar o ingresso da Venezuela no MERCOSUL do regime chavista. Dizem que Chávez vai passar, mas que a Venezuela ficará. Eles mentem. A longo prazo, a idéia da entrada da Venezuela no bloco regional, assim como a de qualquer outro país, é boa e desejável. Mas é um erro grosseiro - ou cinismo - acreditar que se pode separar o país do regime. Se algo caracteriza o regime de Chávez, é sua subordinação da economia e da integração regional a seus caprichos de protagonismo político. Chávez já se retirou da Comunidade Andina (CAN) num rompante, pois não achava que estava tendo a devida atenção dos demais membros do bloco. Com o MERCOSUL, não será diferente. Até mesmo em termos de pragmatismo diplomático o ingresso da Venezuela no bloco é um despautério, pois os supostos benefícios comerciais que dele adviriam para o Brasil não compensam o prejuízo político que isso causará ao MERCOSUL e à integração regional. Não duvido que, se Hitler em pessoa renascesse das cinzas e reassumisse o poder na Alemanha, os petistas no governo defenderiam um acordo comercial com a Alemanha, usando, como justificativa, a separação entre o regime e o país. E ainda considerariam essa atitude "moderna" e "pluralista".
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Na verdade, a entrada da Venezuela no MERCOSUL é parte dos planos de Chávez para perpetuar-se no poder e eternizar sua ditadura bolivariana. As duas coisas estão intrinsecamente ligadas e não podem ser dissociadas. No próximo dia 2 de dezembro será realizado na Venezuela um referendo para decidir sobre a reforma constitucional proposta por Chávez, a qual lhe dará a possibilidade de se reeleger quantas vezes quiser. Tendo ele o controle total das instituições estatais, inclusive do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) - o TSE venezuelano -, isso significa que ele terá carta branca para continuar na cadeira presidencial até fazer mofo. A admissão de Chávez no MERCOSUL será a carta de apresentação do coronel para chancelar a reforma da Constituição venezuelana, e garantir sua permanência ad aeternum no poder. Negar-lhe o acesso ao MERCOSUL pelo menos lhe retirará a pretensão de legitimidade para alcançar esse objetivo.

É certo que não cabe ao governo de nenhum país, muito menos a seu Legislativo, definir o caráter democrático ou não de um governo estrangeiro. Mas isso não significa que se deve ser indiferente à destruição da democracia num país vizinho. Nem tampouco aceitar a companhia desse governo num organismo internacional. Ainda mais se esse órgão tem, em sua Carta Fundamental, uma cláusula que exige de seus membros a obediência aos princípios democráticos. De acordo com esta, somente países comprovadamente democráticos podem participar do MERCOSUL. A Venezuela há muito deixou de ser uma democracia. Se for aceita no bloco, este ficará desmoralizado para sempre. Já mal das pernas por causa das disputas comerciais entre seus membros, o MERCOSUL, que surgiu em 1991 com o objetivo "neoliberal" de derrubar as barreiras comerciais e promover a integração econômica entre os países da região, recém-saídos de décadas de autoritarismo, tornar-se-á mais um palanque para as arengas demagógicas de Chávez. Ou seja: perderá a própria razão de ser.

A entrada da Venezuela no MERCOSUL é uma questão de honra para os petistas e seus aliados. Para conseguir isso, eles estão dispostos a tudo. Até mesmo a cerrar fileiras com o mais novo chavista da praça, Paulo Maluf. Se Chávez resolver fechar o Congresso, botar todos os jornalistas que lhe fazem oposição na cadeia e fuzilar seus adversários, ainda assim o governo brasileiro vai sair em sua defesa, apelando, em última instância, para o direito à "soberania" e à "autodeterminação dos povos". É assim que o governo brasileiro faz, há anos, em relação a ditadura de Fidel Castro em Cuba, por exemplo. Não se enganem: com a entrada da Venezuela no MERCOSUL, o bloco e todo o esforço de integração regional sul-americano irão para o saco. De MERCOSUL, virará um Merdosul bolivariano.

terça-feira, novembro 20, 2007

"DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA": UMA DATA RACISTA


Longe de mim falar mal de um feriado. Afinal, também sou brasileiro e o brasileiro, como dizia Nelson Rodrigues, "é um feriado". Mas certas coisas não podem passar em branco (sem trocadilho). O Dia da Consciência Negra, que se celebra hoje em todo o Brasil, sendo feriado oficial em mais de 200 municípios, é uma dessas datas, como a Semana Santa e o 12 de outubro (Dia de N. Senhora Aparecida), que nos fazem pensar. E não somente pelo simbolismo da efeméride - uma homenagem ao líder da mais famosa revolta escrava da História do Brasil, Zumbi dos Palmares -, mas principalmente porque, assim como aquelas duas outras datas me fazem duvidar do caráter laico do Estado brasileiro (desde 1889, o Brasil não tem religião oficial; logo, por que um feriado oficial em homenagem a uma santa católica?), uma data como a de hoje levanta dúvidas sobre a própria essência da nacionalidade. Sobre o que somos, enfim, e sobre que tipo de nação queremos ser.

Em primeiro lugar, por que Dia da Consciência Negra? Sabemos que dizer quem é negro ou não no Brasil, devido à miscigenação que, queiramos ou não, é nossa marca registrada, é uma tarefa das mais difíceis, responsável por enormes dores de cabeça aos recenseadores do IBGE. Como afirma Gilberto Freyre - um autor tão atacado quanto pouco lido pelos militantes da "negritude" e da esquerda em geral -, não houve, por essas bandas, um processo de segregação racial como ocorreu, por exemplo, nos EUA ou na África do Sul. Pelo contrário: o escravo negro desempenhou, aqui, um papel na formação cultural do País sem paralelo com o que teve nesses outros lugares, onde permaneceu quase sempre separado e mantido à distância pela população branca. Aqui, até mesmo pela violência e perversão sexual inerentes à escravidão, os sinhozinhos, eles mesmos bem pouco puros racialmente (filhos de portugueses, que por sua vez se tinham misturado com árabes e berberes, romanos e celtíberos), refestelaram-se transando com as negras (e índias, e mulatas, e caboclas, e cafuzas, e por aí vai), resultando numa população racialmente tão indefinida quanto a sexualidade de um padre. Paralelamente à essa mistura de raças, a influência da cultura da senzala - sua música, culinária, religião, língua etc. - se fez sentir na casa-grande, a ponto de Freyre afirmar, por exemplo, que, culturalmente, somos mais africanos do que europeus (fenômeno facilmente observável; basta verificar quais os ritmos que fazem mais sucesso nas festas de classe média: o funk, o rap, o hip-hop, o samba, ou a ópera e a valsa vienense?). Daí ser tão difícil, para não dizer impossível, classificar o brasileiro em termos raciais. (Eu, por exemplo, descendente de portugueses e índios do alto sertão potiguar, já fui confundido até com vietnamita... Se me perguntarem a que raça pertenço, respondo: à raça humana). Sem falar que "afro-descendente", o termo preferido dos politicamente corretos para se referir aos que, como disse certa vez um ex-presidente da República, têm um pé na cozinha, é algo tão insólito quanto dizer que alguém é "descendente de Eva" - sendo o continente africano, segundo as pesquisas arqueológicas mais recentes, o berço da espécie humana e da civilização, somos todos, portanto, afro-descendentes. Somos um povo mestiço, caboclo, misturado, vira-lata. Então, para que um Dia da Consciência Negra? Não seria melhor dizer Dia da Consciência Nacional, simplesmente?

A insistência em enxergar a realidade brasileira pelo prisma da divisão racial - e não social ou cultural, como deveria ser o caso - é parte da ideologia e do programa antropológicos de ONGs e grupos pertencentes ao chamado movimento "negro" no Brasil. Tal movimento, surgido nas periferias das grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador por volta dos anos 70 do século passado, tem por objetivo inculcar na sociedade brasileira uma visão bicolor - e racista -, na contramão do elogio da miscigenação feito por Gilberto Freyre, o pai da idéia da "democracia racial" brasileira, que esses militantes tanto contestam. Ninguém questiona que a democracia racial brasileira está longe de ser perfeita (aliás, existe alguma coisa perfeita neste mundo?), nem que há preconceito e discriminação raciais, camuflados sob um véu de cordialidade. Ninguém também nega que a questão social entre nós é e sempre foi uma calamidade nacional e que, por causa de nossa cultura escravocrata, negro no Brasil é quase sinônimo de pobre e favelado. Ninguém nega isso. O problema está na percepção de que essas desigualdades decorrem tão-somente de uma questão de raça, como se fosse a cor da pele ou o tipo de cabelo o elemento definidor da posição social - e da nacionalidade. Tal conceito, eminentemente racista e discriminatório, está na raiz, por exemplo, do sistema de cotas nas universidades, o qual paradoxalmente apenas oficializou o racismo, instituindo um tribunal de "pureza racial" para definir quais alunos seriam, e quais não seriam,"afro-descendentes" - algo que só pode gerar confusão e injustiças, como vem ocorrendo, por exemplo, na UnB.

Outra questão geralmente levantada pelos "militantes negros" - verdadeiros guerrilheiros da raça, prontos para enquadrar criminalmente qualquer professor universitário que tiver a audácia de chamar alguém de "crioulo", por exemplo, mas não o atual presidente da República - é que a data de 20/11 vem "resgatar a memória da luta dos negros contra a escravidão". Aqui sou obrigado mais uma vez a discordar dos companheiros. Novamente, por razões históricas: em primeiro lugar, quem disse que a escravização de outros povos foi exclusividade dos europeus? A instituição da escravidão existiu na Antigüidade, do antigo Egito à Grécia e Roma, tendo sido retomada, a partir do século VIII d.C., pelos conquistadores árabes no Norte e Leste da África. Para quem não sabe, foram eles, os mouros (árabes e africanos negros) que a introduziram na Europa, via Península Ibérica, e a mantiveram até o século XIX (a primeira guerra que os EUA travaram fora de seu território, por exemplo, foi contra os mercadores de escravos árabes da Berbéria, onde hoje é a Argélia, no começo do século XIX). Durante séculos, o Império Otomano - a Turquia atual - importou escravos e escravas de pele branca e olhos claros de suas possessões do Leste Europeu e do Cáucaso para seus exércitos e haréns. Quando os portugueses começaram a traficar escravos na costa ocidental da África, no século XV, não estavam inventando nada novo: estavam apenas transferindo para o Atlântico uma prática usual no interior do continente africano. Até hoje, aliás, a prática da escravidão continua em certas partes do continente, como o Sudão. Logo, historicamente, a escravidão não foi invenção dos europeus, nem tem nada a ver com raça. Daí o absurdo do gesto teatral do presidente da República pedindo "desculpas" aos africanos pela escravidão no Brasil, algo que só pode ser compreendido como fruto de ignorância histórica - ou de demagogia mesmo.

Até no Brasil, o último país do Ocidente a abolir essa prática vergonhosa, a escravidão acabou transcendendo as barreiras raciais. Há registros de mulatos e até ex-escravos que eram, eles mesmos, donos de escravos. O próprio Quilombo dos Palmares, tido como inspirador do 20/11, não contava, entre seus moradores, apenas com ex-escravos negros fugidos. Havia, entre eles, também muitos índios, bem como numerosos mestiços e até mesmo alguns brancos pobres em busca de terras. Até hoje, quem for a alguma comunidade quilombola não terá muita dificuldade em encontrar, entre seus habitantes, alguém de cabelo liso e pele clara.

As origens de tanto mal-entendido e tanta confusão não são muito difíceis de traçar. Embora se pretenda, com a data, ressaltar um aspecto importante do caráter nacional brasileiro, a idéia por trás do Dia da Consciência Negra é alienígena: vem dos movimentos pelos direitos civis nos EUA dos anos 50 e 60, com Martin Luther King à frente, reforçado, depois, pela luta contra o apartheid na África do Sul. Em que consiste essa idéia? Basicamente, no resgate das tradições e do orgulho da população negra oprimida nesses países - o black power e o black is beautiful brandido pelos negros norte-americanos. Nesses países, a população negra era segregada nas escolas e obrigada a viver em guetos longe dos bairros brancos. Transmudado em solo pátrio, o "orgulho negro" tornou-se uma espécie de "grito dos excluídos" com tintas raciais. Daí porque a frase da Ministra da Integração (sic) Racial, Matilde Ribeiro -, "Não é racismo quando um negro odeia um branco" - não deveria surpreender ninguém.

A data que hoje se comemora no Brasil veio substituir a que era celebrada anteriormente como a da libertação dos escravos - o 13 de maio, data da Lei Áurea, proclamada pela Princesa Isabel em 1888. Tal data era considerada, e ainda o é, "elitista" e "branca" demais pelos grupos de militantes negros. Estes precisavam de uma data que marcasse mais fortemente as lutas dos afro-brasileiros contra a escravidão e a discriminação de que ainda seriam vítimas. Faltava apenas encontrar uma figura histórica que pudesse ser considerada um símbolo e um herói dessa resistência: Zumbi dos Palmares. Processou-se, desse modo, aquilo que o professor Demétrio Magnoli chamou de "abolição da Abolição": de momento fundamental da História nacional, a Abolição passou a ser vista como uma farsa, e a Princesa Isabel, de Redentora, passou a ser ridicularizada. Por sua vez, os principais vultos da campanha abolicionista, como Joaquim Nabuco, Castro Alves, Luís Gama e José do Patrocínio (os dois últimos, aliás, mulatos), foram relegados ao esquecimento histórico, passando, de heróis e símbolos da luta pelo fim da escravatura, à condição de quase vilões, verdadeiros usurpadores dessa causa sagrada. O resultado é que, hoje, as crianças desconhecem completamente a verdadeira epopéia que foi o movimento abolicionista do final do século XIX, enquanto aprendem a reverenciar Zumbi e Malcolm X.

O processo de construção/mistificação histórica que resultou na oficialização do Dia da Consciência Negra seguiu um padrão bem conhecido. Aconteceu, com Zumbi, algo parecido com o que ocorreu com a figura de Tiradentes após a proclamação da República: inicialmente rebeldes, tornaram-se, com a ascensão de novos interesses, símbolos da ordem política e social que se tentou implantar. No caso de Tiradentes, a iconografia oficial buscou na imagética religiosa sua fonte de inspiração, tratando de representá-lo como um Cristo redivivo, de barba e cabelos longos, tão sugestivo como historicamente improvável (associação semelhante se fez com Che Guevara, com proporções bem maiores). O mesmo com Zumbi dos Palmares. Figura semi-lendária, como quase todos os mitos nacionais, tornou-se, de líder de escravos rebelados, em um símbolo de orgulho e pureza racial, algo completamente estranho à própria constituição física do brasileiro. Como tal, sua imagem foi encampada pelos grupos e partidos de esquerda, sobretudo o PT (não por acaso, uma das siglas que pegaram em armas contra a ditadura militar nos anos 60 e 70, da qual participou, entre outros, a atual Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, chamava-se Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares).

Houve uma época em que os brasileiros, com vergonha de serem mestiços, queriam "embranquecer" a si mesmos. Hoje, continuamos com vergonha do que somos, mas não vemos nenhum mal em querer "enegrecer" o país. Ao se propor a celebrar a pureza de raça em um país de mestiços, o Dia da Consciência Negra é um contra-senso. Algo tão sem sentido quanto celebrar o Dia da Consciência Alemã ou Coreana, por exemplo. Mas, num país em que ONGs denunciam o "genocídio" de homossexuais e que tem, ao mesmo tempo, a maior parada do orgulho gay do mundo, isso não deveria surpreender.

PEQUENO DICIONÁRIO DE NOVILÍNGUA ESQUERDISTA


De uns tempos para cá, um de meus passatempos favoritos passou a ser compilar algumas frases e expressões características dos que hoje nos governam. O resultado daria um livro. Eis aqui um glossário que talvez seja útil nesses tempos sinistros. A cada frase segue a respectiva tradução no idioma de Camões. Certamente, você já leu ou ouviu alguma delas, e continuará a lê-las e ouvi-las por muito tempo ainda, sem dúvida:
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"A greve foi um sucesso. Conseguimos fazer ouvir nossas reivindicações e demos um importante passo adiante na luta da categoria".
Tradução: A greve foi um fracasso total: os estudantes ficaram sem escola por um tempão, os hospitais públicos deixaram os pacientes à míngua, a paralisação dos transportes penalizou a população, e não conseguimos o aumento desejado... Mas não vamos dizer isso, pois seria dar munição aos críticos. Prontos pra outra?

"O capitalismo em crise está em sua fase final de decomposição. A vitória do socialismo é inevitável".
Tradução: O capitalismo está em crise desde que existe, ou seja, há pelo menos uns duzentos anos... Já o socialismo não durou setenta anos. Mas não deixem ninguém saber disso, o.k.?

"O que havia na antiga URSS e nos países do Leste Europeu não era socialismo".
Tradução: Não deu certo, logo não pode ser socialismo. O socialismo de verdade é aquilo que eu defendo, e ponto final.

"Não às privatizações. O patrimônio do povo é inegociável".
Tradução: Viva o Estado-mastodonte!

"Não à privatização das universidades federais! Por um ensino público gratuito e de qualidade!"
Tradução: Quê? Cobrar mensalidade nas universidades? Que absurdo! Quem iria pagar meu Toddyinho? E minha viagem anual a Londres? E minha mesada de R$ 3 mil? E ainda querem fazer avaliação da qualidade dos cursos? Quer dizer que agora eu vou ter que assistir às aulas? Onde é que vamos parar?

"Abaixo o neoliberalismo!"
Tradução: Nem sei o que é isso. Mas que soa bonito, soa.

"A previdência é intocável. Em direito adquirido não se mexe".
Tradução: Farinha pouca, meu pirão primeiro.

"O imposto sindical é uma conquista dos trabalhadores".
Tradução: idem.

"Fora Bush do Iraque! Em defesa da soberania e da autodeterminação dos povos!".
Tradução: Não importa o que façam, os EUA estão sempre errados. Viva Saddam! Viva Ahmadinejad! Viva Fidel!

"Fora FMI!"
Tradução: Deixem-nos ser irresponsáveis com o dinheiro público do jeito que quisermos. Se der errado, botamos a culpa em vocês, claro.

"O mensalão e o valerioduto são fruto de uma conspiração das elites e da mídia contra um governo autenticamente popular".
Tradução: Infelizmente, não conseguimos comprar toda a imprensa e todos os empresários brasileiros...

"O sistema de cotas é um sucesso".
Tradução:
(numa banca examinadora de uma universidade brasileira)
- Vamos ver as fotos dos candidatos pelo sistema de cotas a uma vaga.
- Hum, esse aqui parece bem afro-descendente...
- Deixa eu ver. Hum, sei não... Esse cabelo me parece meio liso, e esse nariz está fino demais pro meu gosto...
- Cabelo liso? Nariz fino? E se for chapinha? E se for descendente de etíopes? Não tá vendo a assinatura dele no papel? Afro-descendente. Então, é ne... digo, é afro mesmo, pô!
- Mas e esse lábio fino? Mais parece um europeu bem bronzeado. Sem falar nesse sobrenome... Como se pronuncia mesmo? Haargenveiger... Se bem que, pela escuridão do estúdio em que a foto foi tirada, não dá mesmo pra dizer a cor do sujeito...
- Olha, deixa isso pra lá. Na dúvida, é melhor deixar entrar. Você quer sofrer um processo por racismo?
- Tem razão (coloca o selo de "aprovado"). Se você não me tivesse avisado, eu teria cometido a maior injustiça. Já pensou? Veja a nota que ele tirou no vestibular, em comparação com esse outro candidato, que se saiu bem melhor na prova mas não se declarou afro-descendente. Aliás, o outro bem que poderia, pois é bem moreninho...
- Ainda bem que você entendeu que estamos tentando democratizar o acesso à universidade. Estamos tentando resgatar uma dívida histórica aqui, poxa! Vamos ver o próximo...

"Preconceituoso! Elitista!"
Tradução: Só porque você estudou quando pôde, acha que pode criticar nosso Líder só porque ele pôde ter estudado, mas preferiu ficar bebendo uísque e jogando pelada durante mais de vinte anos? Humpf!

"O Plano Real é o maior estelionato eleitoral da história brasileira" (em 1994).
Tradução: É verdade. Mas o estelionato fomos nós que demos (em 2002 e 2006).
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"Abaixo a CPMF" (antes de 2002).
Tradução: Sem a CPMF, é impossível governar (hoje).

"Vamos mudar a geografia comercial do mundo".
Tradução: Vamos sonhar um pouquinho?

"Espetáculo de crescimento".
Tradução: Essa não colou. Vamos tentar outra? (chama o marqueteiro) Hum... Como é mesmo o nome? Heim? PAC? Gostei. Acho que dessa vez eles engolem. Parabéns, você é um gênio!

"Reforma agrária".
Tradução: Vâmo invadí aquele terreno acolá e matá umas vaca, pru mode o guvernu nos dá un din-din? (de um militante do MST para outro).

"Pode ter igual, mas não tem mais mais honesto do que eu (nós)".
Tradução: Roubamos mais e com mais eficiência, e ainda nos fazemos de santos...

"Não sei de nada. Não vi nada".
Tradução: Vi tudo. Sei de tudo. Beneficiei-me de tudo. Mas, como já fui canonizado, ninguém vai me pegar... he-he.

"Caixa dois? Todo mundo faz, ora..."
Tradução: Eu disse que éramos diferentes? Eu quis dizer que éramos iguais a eles todos, desculpe...
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"Fui traído".
Tradução: "Sujou!" (será que eles engolem essa?)

"Lula e o PT traíram seus ideais".
Tradução: Eles estão fazendo aquilo que eu faria se estivesse no lugar deles. Mas vamos deixar os trouxas acreditarem que a corrupção e a demagogia são "de direita"...
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"Em Cuba, há mais democracia do que no Brasil".
Tradução: É verdade. Mas os cubanos não gostam muito de democracia. Tanto que preferem pegar o primeiro bote pra Miami...

"Digam o que quiserem, mas na Venezuela há democracia".
Tradução: Não ousem falar mal do companheiro Hugo Chávez. Só porque ele conseguiu o que eu sempre quis? (ou seja: perpetuar-se "democraticamente" no poder...)

"Fascista! Reacionário! Agente da CIA! Lacaio do imperialismo!..."
Tradução: Não conseguimos comprá-lo.
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***

P.S.: Esta é apenas uma pequena amostra da novilíngua esquerdo-petista, atualmente o idioma oficial da República Lulista do Brasil. Aguardem, em breve trarei outros verbetes.

segunda-feira, novembro 19, 2007

A VERDADEIRA CORAGEM


"Mostra-me teus heróis e eu te direi quem és". A frase é de um dos personagens mais controversos do Brasil na atualidade, o filósofo Olavo de Carvalho. Ex-comunista, considerado um dos principais expoentes do pensamento conversador brasileiro, OC, como é também conhecido, é uma das figuras mais odiadas e demonizadas da intelectualidade nacional. Há anos, ele se dedica a fustigar sem tréguas os esquerdistas, em textos recheados de fúria e indignação, que já lhe renderam uma quantidade incontável de desafetos e inimigos jurados nos meios acadêmicos e jornalísticos do País. Dono de um estilo polêmico e virulento, sem papas na língua, ele é o alvo do ódio mortal dos militantes de esquerda e politicamente corretos de todos os matizes. É a bête-noire das esquerdas brasileiras.

Desde pelo menos 1996, quando publicou seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (uma bem-humorada e devastadora crítica do besteirol cultural esquerdista, cujo título parodia a idéia de "intelectual coletivo" de Gramsci), OC tem sido uma voz quase solitária na multidão, clamando quixotescamente no deserto contra as empulhações de esquerda. Para se ter uma idéia, ele foi praticamente o único escritor brasileiro a denunciar, de forma sistemática nas páginas dos jornais, durante anos, as maquinações hegemônicas e revolucionárias do Foro de São Paulo, quando muitos até mesmo negavam - e ainda negam! - que tal entidade sequer existisse. O preço, claro, foi alto. Suas denúncias e artigos inflamados custaram-lhe, além de uma legião de inimigos, sua demissão de vários órgãos de imprensa, entre os quais o jornal O Globo e a revista Época, nos quais assinava uma coluna como articulista, quase uma década de ostracismo e centenas de epítetos lançados contra ele por parte de seus inúmeros detratores, dos quais "direitista" e "reacionário" são os mais suaves, e "disiquilibrado" (sic) um dos mais freqüentes.

Estou longe de ser um fã incondicional de OC. Embora suas análises demolidoras sobre as esquerdas sejam quase sempre brilhantes e certeiras, sua militância cristã conservadora, por exemplo, não faz meu gênero. No entanto, uma coisa até seus inimigos devem reconhecer: OC é um dos homens mais corajosos do Brasil. Talvez o mais corajoso. Digo mais: ele é a personificação mesma, entre nós, da verdadeira coragem, algo indispensável a um intelectual.

Há décadas, a esquerda e seus companheiros de viagem nos têm impingido uma noção de coragem e bravura totalmente falsa e enganosa, que não tem nada a ver com a coragem e heroísmo verdadeiros e serve apenas para encobrir uma concepção anti-humanista do homem e do mundo. De acordo com essa visão, "herói" é aquele que sacrifica sua vida e interesses pessoais, sua própria individualidade, família etc. em favor da coletividade, do Partido, do Estado, da Revolução. Estariam nessa categoria os principais líderes e representantes da ideologia comunista, como Lênin (e Stálin), Fidel Castro ou Che Guevara, além de todos aqueles militantes que deram a vida em holocausto pela sagrada causa revolucionária, renunciando a si mesmos, a suas próprias idéias, para se tornarem mártires e santos de um projeto coletivo maior do que eles. A medida de seu heroísmo e de sua coragem estaria, assim, em sua disposição em largar tudo e dar a própria vida por esse ideal, como bons soldados e leais servidores da causa socialista, dispostos a imolar-se em nome desse objetivo supremo. "Melhor errar dentro do Partido do que acertar fora dele", aprenderam a repetir para si mesmos, como um mantra, gerações de militantes comunistas.

Como tudo que diz respeito à esquerda, desde Marx, a noção de coragem por ela cultivada é marcada, do início ao fim, pela mais cínica enganação, pela falsidade mais completa. O que está descrito no parágrafo acima não é coragem. É estupidez. Não é heroísmo, mas servilismo e obediência. Não é independência e insubordinação de pensamento, mas conformismo e acomodação a uma ideologia totalitária que exige de seus crentes, como requisito básico, a regressão a um estágio mental pré-racional, a recusa voluntária ao ato de pensar. Dar a vida pela Pátria ou pela Revolução não é bravura: é seguir ovinamente a multidão, servindo de pasto aos interesses de outros indivíduos, eles mesmos covardes e espertos o suficiente para fazerem outros imbecis se sacrificarem por eles. Pode-se dizer que os soldados alemães ou japoneses que combateram até a morte na Segunda Guerra Mundial, ou os fanáticos islamitas que lançaram os aviões cheios de civis indefesos contra as Torres Gêmeas em 11/09/2001 eram bravos e heróis? Em que consiste a verdadeira bravura e heroísmo: seguir cegamente as ordens superiores (ou a vontade divina, esperando um banquete de 72 virgens no Paraíso como recompensa pela auto-imolação em nome de Deus) ou rebelar-se, como seres conscientes e dotados de razão? A idiotia desse suposto "heroísmo" não tem paralelo nem mesmo no reino animal. Uma besta de carga que, mesmo chicoteada por seu dono, recusa-se a atirar-se num precipício ou a entrar num rio gelado revela-se mais racional e sábia do que muitos membros de nossa intelligentsia, que acham lindo morrer - e, principalmente, matar - pelo Socialismo. É o medo de pensar por si próprios, o culto da unanimidade e do bom-mocismo, a rendição pragmática à força do número, da maioria - enfim, a covardia intelectual -, o que caracteriza essa gente.

Nem Lênin, nem Fidel Castro, nem Che Guevara, nem qualquer outro ídolo do panteão esquerdista, podem ser considerados modelos de coragem e desprendimento. Pelo mesmo motivo por que não se pode considerar honestamente como exemplos de bravura e heroísmo a tiranos, genocidas e assassinos. No caso específico dos três personagens citados, deve-se acrescentar o culto à personalidade decorrente da hábil manipulação histórica, patente na forma como se atribui coragem pessoal a um intelectual rancoroso sedento de vingança e poder (Lênin), a um ditador com medo do próprio povo que escraviza há quase cinqüenta anos, a ponto de mantê-lo sob estrita vigilância policial e negar-lhe o direito de escolher livremente seu destino (Fidel Castro), ou a um carrasco travestido de herói guerrilheiro, cuja mitologia criada em torno de sua estampa busca disfarçar sua sede de sangue como executor de prisioneiros indefesos no paredón e a forma abjeta como implorou pela vida ao ser capturado em combate ("não me matem, não me matem" - Che Guevara). Glorificados e santificados como paradigmas de compromisso revolucionário e heroísmo altruísta, são, na verdade, a antítese exata da bravura.

A verdadeira coragem não nasce da fé cega numa ideologia totalitária, da obediência servil a seus dogmas, mas da consciência individual, que de tudo duvida e que tudo põe à prova. É na mente de cada indivíduo, em seu eu interior, que ela surge, manifestando-se no embate com princípios e idéias feitas coletivamente, os quais quase sempre correspondem não à verdade, mas às conveniências e interesses de grupos ou doutrinas. Por essa razão, a coragem verdadeira não tem outro compromisso senão a própria consciência do indivíduo. Não se deve confundir coragem com fidelidade: um cão pode ser fiel e defender seu dono a mordidas, mas não se pode dizer que este seja um ato de bravura ou coragem. Esta é sempre uma ação consciente, racional, logo pessoal e instransferível, fruto da iniciativa do indivíduo livre e dono de sua vontade, e não da lealdade canina e automática a um partido ou bandeira.

A verdadeira coragem é sempre individual. Logo, não pode coadunar-se com ideologias ou projetos coletivistas. É sempre uma afirmação radical de independência do indivíduo, a fonte e o sujeito de toda liberdade, contra qualquer tentativa de discipliná-lo ou enquadrá-lo em algum esquema ideológico pré-estabelecido. Por esse motivo, é quase sempre um ato solitário, isolado, de pessoas que não se ajustam ou não se conformam com os padrões mentais estabelecidos pela coletividade. Poderemos encontrar exemplos dessa coragem em figuras que não se renderam às pressões de sua época ou do ambiente em que viveram, afrontando e desafiando verdades consideradas imutáveis, como Giordano Bruno, Voltaire, Zola, Reinaldo Arenas ou Alexander Soljenitsin (na ex-URSS, aliás, os dissidentes eram internados à força em hospitais psiquiátricos, pois os burocratas do Kremlin acreditavam mesmo que pensar com a própria cabeça era um gesto de loucura... O que demonstra que a liberdade de pensamento, para as esquerdas, é mesmo para loucos). Em suma, a verdadeira coragem é sempre um ato de dissidência.

Volta e meia, alguém me pergunta por que gasto tanto tempo escrevendo sobre a esquerda e suas fanfarronices. O que eu desejo ganhar com isso, afinal? Respondo que minhas intenções são as mais modestas possíveis. Sei que escrever o que escrevo dificilmente me trará vantagens pessoais. Que isso não vai me fazer ficar mais rico ou mais popular. Mas, sinceramente, não dou a mínima. Não espero, na verdade, nenhuma recompensa pelo que digo. Se o preço a pagar por dizer o que penso, do jeito que eu considero melhor, é o isolamento e a solidão, pago esse preço com prazer. Se um dia me apontarem na rua como aquele maluco com quase tanta coragem quanto um Olavo de Carvalho, eu já me darei por satisfeito.

Alguém disse que o primeiro dever do intelectual é a impopularidade. Se for assim, há um enorme déficit de intelectuais no Brasil.

sábado, novembro 17, 2007

UM POMAR DE FRUTOS PODRES


Vejam vocês como são as coisas. Alguns dias atrás, publiquei aqui um artigo meu sobre o cala-boca histórico que o Rei Juan Carlos da Espanha aplicou no Napoleão de hospício e tiranete bananeiro Hugo Chávez. Na ocasião, eu afirmei, sem a menor intenção de ser profeta, que o PT em breve se manifestaria de algum modo a favor de Chávez. Pois mal eu desliguei o computador e comecei a me preparar para curtir uns dias de sossego no feriadão prolongado e Sua Excelência, o Apedeuta em pessoa, já saiu dizendo que a Venezuela é um modelo de democracia plebiscitária e que não vê nada de errado em (atenção senhores parlamentares!) um governante querer ficar no poder por um tempinho a mais... Para justificar esse elogio do continuísmo, nosso Guia Genial citou os exemplos de governantes que ficaram um bom tempo no poder, como Margaret Thatcher e Felipe González. Nem eu, em meus delírios paranóicos, cheguei a pensar em algo assim.

No mesmo dia das afirmações pró-Chávez de Lula, leio um artigo do Secretário de Assuntos Internacionais do PT, Valter Pomar, no qual ele defende o ditador - já é ditador, como afirmei antes, e sem aspas - e associa a monarquia espanhola ao fascismo. No artigo, Pomar lembra, com ares de historiador, que a República espanhola foi esmagada por um levante fascista, que restaurou a monarquia na Espanha. O atual monarca espanhol, Juan Carlos, que passou a maior bronca em Chávez em Santiago do Chile, foi coroado após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, e "jogou um papel no mínimo controverso no processo de redemocratização", escreveu Pomar. Em outras palavras, "que autoridade moral tem um monarca (Juan Carlos) para mandar calar a boca de alguém que foi eleito pelo povo (Chávez)?", pergunta Pomar.

Três importantes lições resultam das palavras de Lula e do Chanceler de seu partido, o PT. A primeira é que o atual governante brasileiro não perde a chance de agir como porta-voz e defensor de seu colega e parceiro Hugo Chávez, ao ponto de justificar seu projeto ditatorial com tons falsamente democráticos. A segunda é que Lula não mais esconde de ninguém suas pretensões continuístas, no que se espelha em ninguém menos do que seu companheiro venezulano. A terceira, bem clara no artigo de Pomar, é que o método por excelência da esquerda, e do PT em particular, é a mentira e a fasificação histórica.

Deixemos de lado, por ora, a colossal desfaçatez de chamar democrático um regime como o venezuelano, em que a divisão de poderes, por exemplo, já deixou há muito de existir. Ou a monumental ignorância em não enxergar qualquer diferença entre os planos totalitários de um caudilho megalomaníaco de perpetuar-se no poder e os mecanismos do sistema parlamentarista em países como Inglaterra e Espanha, onde o primeiro-ministro pode permanecer vários anos no cargo (ou alguns meses ou mesmo dias, dependendo do voto de confiança ou não do Parlamento). A verdadeira chave para se compreender a posição do governo brasileiro em relação a Chávez e à Venezuela não está nas frases de botequim de Lula, nos seus "sabe" e "ou seja", mas nas palavras de Valter Pomar. É nelas que está sintetizada a visão de mundo petista, bem expressa na forma como distorce a história para ir em socorro a um de sua grei.

Em primeiro lugar, não foi "um levante fascista" que levou ao fim da República espanhola proclamada em 1931, como afirma Pomar, mas principalmente as divisões e lutas internas entre as próprias forças republicanas. Estas compreendiam um leque bastante amplo e heterogêneo de correntes políticas e ideológicas, que iam desde democratas liberais até comunistas servis a Moscou, passando por trotskistas e anarquistas. Ao longo dos três anos que durou a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), esses setores não deixaram de se digladiar, com os comunistas, por exemplo, promovendo verdadeiros expurgos nas fileiras republicanas, muito mais prejudiciais à causa da República do que as ofensivas militares nacionalistas (para quem quiser ter um painel do que foram as atrocidades cometidas pelos republicanos, em especial dos comunistas a mando de Stálin, durante o conflito espanhol, recomendo a leitura do excelente A Batalha da Espanha, de Antony Beevor). Os petistas já se especializaram em distorcer a história pátria, apresentando, por exemplo, a luta armada dos anos 60 e 70 como um movimento "contra o autoritarismo e pelo retorno das liberdades democráticas". Agora distorcem também a história de outros países.

Quanto ao papel de Juan Carlos no processo de redemocratização da Espanha após a morte do generalíssimo Franco, mais uma vez fica revelada a profunda ignorância ou a compulsão em falsificar a História por parte dos petistas. Qualquer estudante de ginásio espanhol conhece a data de 23 de fevereiro de 1981, quando um tenente-coronel da Guarda Nacional, de pistola em punho, invadiu o Parlamento espanhol e tentou dar um golpe de Estado para restaurar a ditadura. Naquele momento, fazia somente seis anos da morte de Franco e a democracia espanhola, ainda extremamente frágil, apenas engatinhava. Pois bem. Naquela ocasião, o que fez o "fascista" Juan Carlos? Foi à televisão e, num pronunciamento histórico, condenou a tentativa golpista e conclamou a nação a se unir em torno da democracia, o que retirou qualquer legitimidade ao golpe. Desde então, a Espanha achou seu lugar no concerto dos países democráticos, tendo sabido reconciliar-se com seu passado e encontrado seu caminho de modernidade e prosperidade. Para tanto, vem contando com um sistema político sólido e pluralista, balizado pela figura moderadora do Rei que, em um momento de grave crise político-institucional, soube reconduzir seu país nos rumos da democracia. Foi esse o "papel no mínimo controverso" de Juan Carlos de Borbón no processo de redemocratização da Espanha.

Valter Pomar pergunta que autoridade moral tem Juan Carlos de mandar Chávez calar-se. Além de o Chanceler do PT aparentemente se esquecer que foi Chávez que estava impedindo, com seus insultos a Aznar e seu monólogo interminável, o primeiro-ministro Rodríguez Zapatero de tomar a palavra (daí o já famoso "por qué no te callas?"), pode-se responder: com a mesma autoridade moral que o levou a ordenar os militares sublevados a voltarem aos quartéis em 1981 na Espanha. Militares estes com quem o coronel tem muito mais em comum do que querem fazer crer seus defensores brasileiros.

Nada disso, é claro, seria dito por petistas como Valter Pomar se Juan Carlos tivesse, em vez de mandado Chávez calar-se, feito elogios à sua ditadura disfarçada. Já disse antes que chamar alguém de fascista é a maneira preferida dos esquerdistas de desqualificar seus adversários e impedir o debate. Já afirmei também que, ao mesmo tempo em que se proclamam os únicos verdadeiros defensores da democracia, eles servem de banda de música e de tropa de choque de regimes que tratam de aboli-la. É o caso da Venezuela de Chávez e da Cuba de Fidel Castro, para citar os dois maiores exemplos atuais. Com isso, nossos esquerdistas apenas repetem os métodos do fascismo, que eles fingem combater, os quais consistem exatamente em utilizar a democracia para destruí-la. Desse Pomar, só podem vir frutos podres.

quarta-feira, novembro 14, 2007

DIÁLOGO ENTRE UM REVOLUCIONÁRIO DE ESQUERDA E UM PORCO DIREITISTA


Continuando a série "cartas e respostas" deste blog, recebi há alguns dias uma carta (reluto em usar a expressão e-mail, acho muito impessoal) de um velho conhecido meu dos tempos de universidade, para o qual eu havia enviado, meses atrás, meu texto "Como me tornei um reacionário"(http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/06/como-me-tornei-um-reacionrio.html). Para minha surpresa - e, confesso, um pouco de decepção -, meu ex-camarada parece ter esquecido de mim e da época em que sonhávamos com a revolução socialista mundial que iria derrubar a burguesia e redimir a humanidade. Não sendo eu capaz de resistir à tentação, reproduzo aqui a missiva de meu ex-camarada, do jeito que ele mandou, com sua lógica perfeita e seu português impecável:

"Gustavo, acredito que sejas meu colega que trabalha na EMATER.

Lamentou muito o que aconteceu com vc. Concordo sobre o que dizes das biografias e em parte sobre o orkut. Realmente tem alguns amostrados. Já soube a biografia, vc tb é um grande exemplo: afirmar que enquanto jovem sempre teve sua opção sexual sem conflitos, verdadeiramente é tentar encobrir seus próprios impulsos "imaturos" (como diria vc).

Vc tem razão tb quando afirma q, mesmo eu, q pouco lhe conhecia, me surpreendi com seu texto. Têm muitas organizações ditas trotskystas que, acredito, vc tenha tido experiência em alguma delas, realmente esquisitas e até engraçadas se não fosse isso na realidade, tragicômico. E agora veja só, o que esta experiência trouxe para vc.

Eu não participei da mesma organização ultra q vc. Mas algumas características me pareceram familiar. Acredito q nem cabemos em uma kombi. Basta algo muito menor. Entretanto, não se mede a justeza política de um pensamento pelo número de adeptos. Isto eu aprendi quando jovem como vc e, agora mais velho, acredito mais ainda nisso. A luta política é assim mesmo. Vc fez o curso de História, sabe que a burguesia demorou séculos para conquistar o poder. Pq haveria os defensores da revolução comunista mundial ficarem depressivos pelo fato de estarem hoje restrito a uma meia dúzia ou menos de propagandístas? Para usar suas palavras, não sou impaciente e nem presunçoso ao ponto de achar que vou viver uma época diferene disso.

A divisão do movimento trotskystas deve-se a razões históricas. Isso significa pra mim que deve-se aos percurssos, dificuldades e até a morte de Trótsky que aconteceram no passado. As forças centrífugas do movimento trotskysta portanto, não são de hoje. Como acabar com esta divisão? Para mim é um problema prático e não teórico. Penso que somente com uma revolução atual vitoriosa.

A caracterização da ex-URSS não deve-se a radicalidade dos grupos mas ao estudo de sua formação social. A ex-URSS nunca foi socialista não pq estes grupos "extremistas" não queiram, poderiam até querer, mas a análise de sua formação social demonstra que não era. Fidel Castro como um burguês contra-revolucionário, bem, isso deve ser uma análise singular do grupo que vc participou e que, na minha opinião, demonstra um equivoco muito grande de seu antigo grupo.

A questão dos codinomes, atividades semi-clandestinidade e clandestinas destes agrupamentos tb são características comuns. Isso se dá devido a consciência de q não há democracia e a que existe, sendo de classe, pode ser suprimida. Evidentemente que não seria de uma hora para outra, mas nenhum grupo conseguiria se preparar apenas quando ela vinhesse. É preciso educar-se desde já. E o golpe de 64 no Brasil é uma prova na história de que a segurança dos grupos que defendem o fim do capítalismo é uma questão necessária e séria. Realmente, vc tem de nv razão, que possui um aspecto romântico. Mas, pelos poucos colegas que conheço que viveram a época de 64 - eu não a vivi - eles não acharam nem um pouco romântica.

Gustavo, realmente eu lamento que vc tenha tido uma visão de revolução tomando o Palácio de governo ou lutando em uma Sierra Maestra, fuzilando inimigos e alguns desafetos pessoais, etc. Não tenho esta visão. Não lembro se algum dia a tive. Mas com certeza, sua permanencia enquanto simpatizante durante muito tempo neste grupo e sua falta de relato sobre as leituras de Trótsky que marcaram sua vida, demonstra que vc, apesar de afirmar q estava um acima da "média" dos mortais normais (que diabo é isso? média? como vc calculou isso?), leu pouquissimo e o pouco que escutou não entendeu quase nada.

De tudo que vc escreveu, lhe peço que não me escreva mais - acredito q fará com prazer -, a única coisa que acredito vc ter razão completamente, é quando afirma que é um reacionário. Quem diria, uma pessoa que diz ter tido experiência em uma organização trotskysta terminar como um reacionário. Entretanto, para sua infelicidade, vc não é o primeiro, portanto, nem nisso sua vida tornou-se singular. Mas afinal, pra vc tb isso não importa. Então está td bem. Vc tb não é original quando afirma juventude imatura, irresponsavel de fácil manipulação e quando ficamos velhos ficamos mais inteligentes. Por favor, isso é tradicional demais.

Vc tem razão, VC SE TORNOU UM REACIONÁRIO."

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Sensibilizado com esse eco de meu passado, resolvi escrever ao meu ex-camarada. Eis a carta que lhe enviei, com algumas pequenas alterações de estilo:

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Olá Alessandro,

Não sou seu colega que trabalha na EMATER. Sinto muito.

Parece que você esqueceu quem eu sou, ou então não deve ser o Alessandro revolucionário que eu conheci alguns anos atrás, e que depois foi ser professor na UERN. Se for o primeiro caso, entendo. Afinal, já faz muito tempo, mais de quinze anos... Vou refrescar sua memória: sou aquele Gustavo com quem você tinha altas conversas sobre marxismo e revolução, primeiro na ETFRN e depois na UFRN, lá em Natal. Lembra?

Bom, depois dessa sessão nostalgia, permita-me dizer uma ou duas palavras sobre sua resposta tardia ao meu texto. Espero que não se importe, mesmo sabendo que você não deseja que eu lhe escreva.

Antes de qualquer coisa, só um esclarecimento, de caráter, digamos, biográfico: não disse que, quando mais jovem, sempre tive minha opção sexual "sem conflitos". Disse apenas que, de todas as dúvidas que se pode ter na adolescência, jamais as tive sobre minha opção heterossexual, da qual, aliás, me orgulho muito (se existe até uma parada do orgulho gay, acho que tenho direito de me orgulhar de nunca ter feito nenhuma concessão nessa área, não acha?). Sei que, para você, como revolucionário (ou seja: como um indivíduo certamente mais evoluído, muitos degraus acima do restante dos mortais), isso pode parecer meio "careta" e até mesmo "imaturo", como você disse. Para mim, foi apenas um exemplo que dei para ilustrar o processo de minha formação.

Meu caro Alessandro, não lamente o fato de eu ter me transformado num reacionário. Na verdade, sendo bem sincero com você, foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, até agora. Isso mesmo. Descobri que sou um reacionário - e direitista, e conservador, e contra-revolucionário, e todos esses adjetivos com que os marxistas costumam brindar todos aqueles que não pensam como eles, como "agente da CIA" e "lacaio do imperialismo" - quando finalmente descobri, depois de muito refletir e principalmente VIVER, que a LIBERDADE - a liberdade burguesa mesmo, essa de falar o que se quer, quando se quer, sobre o que se quiser, sem pedir licença a ninguém -, a liberdade de pensamento, de expressão, de opinião, de reunião, de associação (até mesmo para defender a revolução socialista e o fim da democracia burguesa), a liberdade, enfim, é a coisa mais importante que existe. Mais importante que o pão. Mais importante que a tal "igualdade" defendida pelos revolucionários comunistas. Enfim, descobri-me um reacionário quando me dei conta de que eu jamais poderia viver - nem desejo que ninguém viva um dia - sob o tacão do TOTALITARISMO, que é o tipo de regime que os revolucionários marxistas - todos eles, de todos os matizes - desejam para a humanidade.

Participamos, sim, da mesma organização ultra-esquerdista. Chamava-se TPOR - Tendência pelo Partido Operário Revolucionário (francamente, até hoje não entendo essa "Tendência", mas deixa pra lá). Isso, claro, se você é o mesmo Alessandro que eu conheci. Nem sei se ainda existe a tal sigla e, se existe, francamente não me interessa muito. Com suas idéias ultra-radicais e sectárias, é difícil que alguém ainda lhe dê atenção. Mas esta não é a questão principal agora.

Alessandro, você afirma que "não se mede a justeza política de um pensamento pelo número de adeptos". Eu concordo com você. Hoje em dia, por exemplo, aqueles que colocam a liberdade e a democracia acima de quaisquer outras considerações são uma minoria no Brasil e no restante da América Latina. Aqueles que afirmam, como eu, que não existe esquerda "moderada", mas apenas esquerda ingênua e dissimulada, de um lado, e esquerda radical e totalitária, de outro, e que todas as correntes de esquerda - trotskistas, stalinistas, maoístas, castristas, reformistas etc. - são variações do mesmo viés totalitário, tendo em comum o mesmo ódio à liberdade e ao indivíduo, o mesmo desprezo pela democracia e pelo pensamento discordante, continuam a ser até mesmo discriminados como "de direita" e outras palavrinhas que você certamente conhece. Assim como você, acredito que a verdade de uma causa não é uma simples questão matemática. Creio que pelo menos uma coisa temos em comum, afinal.

Você também afirma lamentar que eu tivesse nessa época uma visão da revolução como se fosse a tomada do Palácio de Inverno ou a descida da Sierra Maestra, e que não defende essa visão. Eu também lamento isso. Principalmente porque era assim que eu visualizava o triunfo dos trabalhadores contra o capitalismo e o imperialismo, em meus delírios juvenis. Usei essas duas imagens porque eram e continuam a ser as duas imagens clássicas da revolução. Por isso acho tão estranho você agora negar que também via a coisa desse jeito. Afinal, que revolução - e socialista, ainda por cima - já foi feita no mundo sem derramamento de sangue dos burgueses e contra-revolucionários? Que revolução já triunfou em algum país sem fuzilamentos, sem expurgos, sem burocracia, sem gulag? Tudo bem que a dissimulação é uma arma dos esquerdistas, mas não precisa exagerar.

Mais um esclarecimento: não afirmei em meu texto que estava acima da "média" dos mortais, como você disse. Escrevi apenas que, quando eu ainda era um moleque entediado e presunçoso, leitor ávido de textos de esquerda (para seu conhecimento, guardo ainda hoje minha coleção de livros marxistas, como Que Fazer? e O Estado e a Revolução, de Lênin, e A Revolução Traída e Moral e Revolução, de Trotsky), lia um pouco acima da média de meus colegas de escola. Algo, aliás, que não é muito difícil de "calcular". Logo, ao contrário do que você imagina, eu li algo sobre o assunto, sim. Mas numa coisa você tem razão: na época eu não entendi muito. Na época, eu acreditei sinceramente que a revolucão proletária era o caminho para o fim das desigualdades e para a verdadeira emancipação humana. Só agora, depois de tanto tempo, é que percebo com clareza o que todos esses autores até hoje idolatrados pela esquerda marxista de fato defendiam: a supressão da democracia (mera ditadura disfarçada "de classe", na visão desse pessoal) e a instauração, em seu lugar, de um Estado totalitário, como de fato ocorreu em TODOS os países em que os comunistas tomaram o poder. Demorei para perceber esse fato. Deve ser porque eu, como um reacionário, ainda não estou à altura desses seres humanos tão iluminados e acima do restante da humanidade, que são os revolucionários marxistas. Talvez seja por isso.

Falando em livros, e como você parece ser alguém que dá bastante importância à leitura (no que me convenço ainda mais que é o Alessandro que conheci), recomendo alguns que você certamente vai achar muito interessantes: pode começar com O Livro Negro do Comunismo (Stéphane Courtois, ed., 1999). Mas se você achar muito básico e estiver interessado em algo, digamos, mais acadêmico, pode ler também O Passado de uma Ilusão (François Furet), A Grande Parada (Jean-François Revel), A Sociedade Aberta e seus Inimigos (Karl Popper), O Caminho da Servidão (Friedrich Hayek) e O Ópio dos Intelectuais (Raymond Aron). Claro que são todos livros de autores "conservadores", "reacionários" e "direitistas", alguns deles até ex-comunistas desencantados. É possível que você, como bom revolucionário, os descarte logo de cara por causa disso, o que, aliás, não me surpreenderia nem um pouco. Mas pelo menos fica a sugestão.

Acho que já me alonguei bastante. Com certeza você tem tarefas importantes da revolução a cumprir. Espero ter deixado claro para você o porquê de minha opção político-filosófica. Desejo-lhe sorte em sua empreitada política revolucionária, e que você alcance o que quer. Peço-lhe somente uma coisa: que, quando vocês tiverem finalmente se apoderado do aparelho do Estado e instaurado a ditadura do proletariado, por favor poupe do fuzilamento este pobre reacionário e porco direitista que lhe escreve, e que um dia acreditou que o comunismo era uma coisa boa e que as nuvens eram de algodão. Acho que não é pedir muito. Ou será que é?

Abraços reacionários.

Ass.: Gustavo

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P.S1: Mais uma coisa. Não disse que, quando ficamos mais velhos, ficamos mais inteligentes. Se fosse assim, seria muito fácil, não seria preciso sequer pensar: bastaria contar quantos anos vivemos e pronto. O que disse e reafirmo é que, quando somos muito jovens, como era o meu caso quando participei de uma organização revolucionária marxista semi-clandestina, somos facilmente enganados e manipuláveis. Claro que isso não é uma regra absoluta. Algumas pessoas ficam até mais burras com a idade. É o que acontece quando insistem nos erros da juventude e continuam aferradas às mesmas ilusões de quando tinham 18 ou 19 anos. A ponto de rejeitarem essa simples constatação, como algo "tradicional demais". Essas pessoas, infelizmente, estão além do alcance da razão.
P.S2: Convenci-me que o autor da carta era a mesma pessoa que conheci há anos quando, em seu texto, ele fez referência aos codinomes e "regras de segurança" que devem ser seguidos pelos "revolucionários". A principal justificativa para esse tipo de paranóia era exatamente a mesma que está na resposta de meu ex-camarada: "não vivemos numa democracia de verdade e, sendo esta um regime de classe, nada garante que não seja revogada. Veja o que houve em 1964" etc. Daí o gosto dos "revolucionários" trotskistas por uma militância meio escondida, semi-clandestina, mesmo em pleno Estado de Direito Democrático. Hoje, estou convencido de que esse papo meio neurótico de "segurança" não tem nada a ver com o fato de vivermos numa "ditadura de classe", e que a relutância de nossos Lênins e Trotskys tupiniquins em exporem suas idéias, de forma clara e aberta, não resulta do receio de irem parar no xilindró, mas unicamente da incapacidade de sustentarem suas teses em público. Em outras palavras: do medo do ridículo. Algo, aliás, bem humano - bem burguês, como diria meu ex-camarada.
P.S3: Na foto que ilustra este texto, uma lembrança dos velhos tempos: meu ex-camarada discursando para as massas e eu, no canto esquerdo, conspirando discretamente pela derrubada da burguesia e pela vitória inexorável da revolução comunista mundial. Quem sabe agora ele lembre.

segunda-feira, novembro 12, 2007

UM CALA-BOCA REAL NO FASCISMO BOLIVARIANO

A grande notícia da semana que passou foi a homérica descompostura do Rei Juan Carlos da Espanha no ditadorzeco e leão-de-chácara de boate gay (copyright Arnaldo Jabor) Hugo Chávez, na sessão de encerramento da última Cúpula Ibero-Americana, em Santiago do Chile. Foi um momento histórico. Certamente, a tal Cúpula será lembrada nos anos vindouros por aquele sonoro e indignado "Por qué no te callas?" que Sua Majestade, Don Juan Carlos de Borbón, aplicou no boquirroto ditador - já é ditador, não se enganem quanto a isso - da pátria de Bolívar. Naquele momento, Sua Majestade Real falou não somente por ele, mas por todos aqueles que não agüentam mais ouvir as churumelas populistas e pseudo-revolucionárias do fanfarrão e caudilho de mierda venezuelano.
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Apenas para resumir a ópera: o cala-boca real foi aplicado por ocasião de um debate-monólogo do histrião de Caracas com o primeiro-ministro Rodríguez Zapatero (aliás, aliado e simpático a Chávez). Na ocasião, Zapatero reclamava de Chávez pela insistência deste em chamar seu antecessor no cargo de primeiro-ministro, José María Aznar, de "fascista" (este é o adjetivo preferido dos esquerdistas e demagogos de todo tipo para rotular quem pensa diferente deles). Menos por discordar da avaliação de Chávez sobre seu adversário político e mais pelo constrangimento de ver um presidente de um país latino-americano meter o bedelho em público nos assuntos internos de seu próprio país, é bom que se diga. A conversa, de início amigável, logo virou um bate-boca. Foi aí então que Sua Majestade, do alto de sua nobreza, resolveu descer do trono e, perdendo a paciência, falou por muitos, tascando o "por qué no te callas?" e deixando o bufão venezuelano com a cara redonda no chão.

Chávez chegou a Santiago do Chile cantando, achando que iria mais uma vez roubar a cena. Que seria novamente o protagonista, a estrela, contando para tanto com a simpatia e a cumplicidade de alguns êmulos seus latino-americanos, como Evo Morales, Daniel Ortega e, claro, seu compañero Lula. Com este último, aliás, fez questão de trocar algumas amenidades, cumprimentando-o pelo anúncio da descoberta de uma super-ultra-mega-reserva de petróleo na costa brasileira (uma notícia boa para ambos, já que, pelo menos momentaneamente, desvia o foco do Brasil do etanol e fez todo mundo esquecer a crise energética brasileira com a Bolívia. Lula, aliás, exibia para todos o sorriso restaurado de novo-rico ex-banguela, certo de que ninguém ia prestar atenção na coincidência do anúncio da PETROBRAS com o problema do gás boliviano... Mas melhor não falar isso, pois aí vão me acusar de teórico da conspiração). Pois bem. Como eu dizia, Chávez achava que ia abafar, como das outras vezes. Quebrou a cara. Não somente pelo constrangimento de ouvir o monarca espanhol lhe passando um pito em público, como um menino mimado e malcriado que não sabe ouvir, só falar, mas principalmente por ter percebido que suas palhaçadas bolivarianas já começam a cansar. Como um Idi Amim cucaracho, como um Bokassa do Caribe, suas patacoadas e arengas populistas, antes vistas como algo apenas folclórico, já estão enchendo a paciência. Que Chávez tenha acabado de enfiar goela abaixo da subserviente Assembléia Nacional venezuelana uma reforma constitucional (da Constituição que ele mesmo fez, aliás) que na prática oficializa sua perpetuação no poder, permitindo-lhe reeleger-se quantas vezes quiser, é uma coisa; que ele queira dar pitaco no governo dos outros, ainda mais no governo da Espanha, é outra bem diferente. Mesmo um governo que sempre o tratou a pão-de-ló, como o de Rodríguez Zapatero, percebeu que as tiradas de Chávez não são apenas ridículas: são também um perigo para a democracia no continente, e até fora dele.

O atual governo do Brasil, que também é aliado e parceiro de Chávez, também estava representado na Cúpula Ibero-Americana de Santiago do Chile. Mas, ao contrário da delegação espanhola, ainda está muito longe de perceber o perigo que o fascismo bolivariano representa. Lula e Marco Aurélio "Top, Top, Top" Garcia estavam pianinho, como se diz, certamente tão surpresos e constrangidos com o basta! do Rei Juan Carlos quanto o próprio Chávez. Também pudera. Os petistas no poder já chegaram a justificar até mesmo o fechamento de uma rede de televisão que fazia oposição a Chávez na Venezuela, dizendo que não viam nada de mal na medida. Sem falar que Chávez já chamou os parlamentares brasileiros até de papagaios, e não se ouviu nenhuma voz de protesto no Governo brasileiro quanto a isso. Pelo contrário: Lula e Marco Aurélio Garcia já bateram pé de que a Venezuela será o novo membro do Mercosul. Daqui a pouco vou dar uma espiada no site do PT. Provavelmente vão colocar lá algum manifesto de solidariedade a Chávez. Prometo reproduzi-lo aqui.

É curioso que o motivo de todo o bafafá em Santiago tenha sido a insistência de Chávez em chamar o ex-primeiro-ministro espanhol José María Aznar de "fascista". Aznar é dirigente do Partido Popular, de centro-direita. Em abril de 2002, seu governo foi um dos poucos a apoiar o movimento que resultou na saída (temporária) de Chávez do poder, no que foi provavelmente o golpe de Estado (se realmente foi golpe, como dizem os chavistas) mais estranho dos últimos tempos (até hoje não se sabe ao certo, por exemplo, se Chávez foi mesmo deposto ou se renunciou ao cargo após um massacre no centro de Caracas, do qual até hoje se discute a autoria). Um dos principais aliados dos EUA na guerra ao terrorismo islamita declarada após os atentados de 11 de setembro de 2001, Aznar enviou em 2003 um contingente de tropas espanholas para o Iraque, em apoio à guerra para depor Saddam Hussein. No ano seguinte, quando dos atentados terroristas que mataram 190 pessoas no metrô de Madri, ele tentou culpar o grupo separatista basco ETA e teve que renunciar após protestos da população espanhola, que acabou assim atendendo a um dos propósitos dos terroristas, que era a saída das tropas espanholas do Iraque (o que foi, na minha opinião, uma rendição dos espanhóis ao terrorismo, mas isso não vem ao caso agora). Desde então, o socialista José Luís Rodríguez Zapatero é o chefe de governo da Espanha.

Aznar tentou enganar a população, e por isso teve que sair. Seu partido é de centro-direita, e muitos de seus integrantes são egressos da ditadura franquista. Daí a chamá-lo de "fascista", porém, vai uma distância muito grande. Além de ser no mínimo uma indelicadeza e uma intervenção indevida nos assuntos internos espanhóis, é um equívoco político e histórico, equivalente a associar automaticamente o DEM com a Ação Integralista, ou o PDT com a ditadura do Estado Novo varguista. Chávez, mesmo com sua proverbial demagogia, deveria saber disso. Até porque, se é de fascismo que se está falando, o regime que ele está construindo na Venezuela, por suas características - reeleição indefinida do presidente da República, cooncentração de poderes nas mãos do Executivo, submissão das demais instâncias do Estado ao partido no poder, imposição gradativa da censura aos meios de imprensa, assédio constante de milícias e grupos paramilitares pró-governo às manifestações de oposição, militarização da sociedade, ideologização e partidarização do ensino e das Forças Armadas, culto à figura do chefe etc. - é muito mais semelhante ao de Mussolini na Itália ou ao de Hitler na Alemanha (sem falar, claro, no de Franco na Espanha) do que o era o governo de Aznar. Não por acaso, o regime chavista já começa a ser chamado - muito apropriadamente, diga-se de passagem - de fascismo bolivariano ou "bolifascismo". Um fascismo bananeiro, tão demagógico quanto autoritário, baseado em slogans vazios e discursos intermináveis, além de uma monstruosa falsificação da História. Algo que os europeus, e inclusive os espanhóis, conhecem muito bem, e de que não têm nenhuma saudade.

É uma pena que o governante do Brasil não seja um Juan Carlos de Borbón. Dá até vontade de defender o retorno da Monarquia. !Viva el Rey!
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P.S.: Desde que publiquei o texto acima, entrei no site do PT algumas vezes. Até o momento em que escrevo este PS (18:00h do dia 14/11), ainda não apareceu nenhum manifesto defendendo o Chávez e criticando o gesto do Rei da Espanha. O que não significa que os petistas não tenham começado a se mexer para tomar as dores do caudilho bolivariano. Vejam, por exemplo, a enquete preparada pelo site do PT(http://www.pt.org.br/portalpt/index.php): (Pergunta: "Por que a imprensa brasileira comemorou o “cala-boca” do rei da Espanha a Hugo Chávez?" Opções: "Porque é tão autoritária quanto o gesto praticado pelo rei", "Porque não consegue disfarçar sua mentalidade colonialista", "Porque o incidente foi o pretexto ideal para subestimar a importância da cúpula Ibero-Americana" e, finalmente, "Porque faz parte da estratégia de indispor a “opinião pública” brasileira contra a integração latino-americana"). É de lascar ou não é?

sexta-feira, novembro 09, 2007

EU, O HOMOFÓBICO


Vasculhando meus posts antigos, deparei com o seguinte comentário de um simpático leitor ao meu texto "República dos coitadinhos", postado em 13/07, comentário este que aqui transcrevo na íntegra (sem mudar uma vírgula, como sempre faço):

Tua visão dicotômica da realidade é irreal. Mas tdo bem sou Homossexual e por isso serei anõnimo porém sincero.No mundo inteiro existe preconceito contra nós e nenhum empresário no nosso país é ou foi punido por discriminação quanto a opção sexual dos seus funcionários. Isso é liberdade???? Só um recadinho."Direita vamos devolver".

Como de costume, não resisto à tentação de dizer algumas palavras sobre os comentários a meus textos, ainda mais quando descem a lenha em mim. Mesmo quando não são assinados, como é este o caso. Pois bem, eis aqui minha resposta.

Caro "anônimo",

muito obrigado por seu comentário. Embora até agora não tenha entendido o que você quis dizer com a primeira frase ("Tua visão dicotômica da realidade é irreal"), que parece ter sido redigida em algum idioma por mim desconhecido, creio que, no geral, compreendi seu ponto de vista.

No texto em questão, faço referência ao projeto de lei que está para ser aprovado no Senado Federal - PLC 122/06 -, que prevê a criminalização da "homofobia", ou seja, da aversão a homossexuais. Pelo que eu entendi, foi minha abordagem crítica a esse projeto de lei que lhe deixou chateado (pelo menos, acredito que você não esteja indignado por causa da minha opinião sobre o caso Renan Calheiros, que era o assunto central do texto). Nesse caso, vou lembrar um pouco o que acho desse projeto de lei, se você me permite.

A primeira questão que deve ser colocada é o que se deve entender por "homofobia", novo crime terrível (ainda não é crime hediondo, por enquanto) que a referida lei pretende coibir com a força do monopólio da violência pelo Estado. Gostaria que você me esclarecesse algumas dúvidas. Seria a tal "homofobia" aquela piadinha - de gosto duvidoso, é verdade, mas não é isso que vem ao caso agora - que a turma de amigos costuma contar, na mesa de bar, sobre os trejeitos do amigo ou conhecido gay? Seria, em vez disso, o uso daquelas expressões usadas e consagradas pelo vocabulário popular - às vezes chulo, concordo, mas isso também não vem ao caso - para designar os indivíduos homossexuais, tais como "veado", "bicha", "boiola", "baitola" etc.? Seria o fato de um pastor evangélico citar a Bíblia para expor o ponto de vista de sua religião - completamente absurdo, como todas as religiões, a meu ver, mas esta também não é a questão - sobre a homossexualidade? Seria, ainda, o ato de negar uma cantada dada por algum praticante dessa modalidade sexual, em algum bar, boate ou na rua?

Se o "crime" que se pretende coibir, com a força da lei, é algum desses citados acima - o que, a meu ver, é exatamente o risco que corremos se vier a ser aprovada essa lei idiota -, então, meu caro amigo anônimo, pode me considerar de antemão um criminoso. Pode chamar a polícia. Se, em vez disso, trata-se de uma medida destinada a punir atos de violência, como espancamentos e até assassinatos, cometidos contra os adeptos do homossexualismo, então, pode ter certeza de que eu seria o primeiro a me colocar a favor dessa lei.

Tenho fortes razões para crer que os punidos por essa lei cretina, infelizmente, não serão os skinheads e homofóbicos que se divertem espancando casais gays e travestis, pois leis que coibem tais atos de intolerância sexual - ou racial, ou de qualquer outro tipo - já existem há bastante tempo e estão devidamente tipificadas no Código Penal (só para lembrar: agressão é agressão, não importa a raça, cor, sexo, religião ou opção sexual da vítima, pois a Justiça é cega para essas coisas - aliás, é por isso mesmo que ela é representada com uma venda nos olhos). A PLC 122/06, ao contrário, punirá principalmente a imensa maioria (creio eu que ainda é a maioria, mas nunca se sabe...) que não partilha desse gosto exótico, e que se verá impedida de dizer o que pensa sobre o assunto. Em outras palavras: retirará a venda dos olhos da Justiça, criando uma categoria especial e privilegiada de cidadãos, definidos não pelo fato de serem cidadãos, logo titulares de deveres e direitos, mas unicamente pelo que fazem na cama. Cidadãos acima dos demais, portanto - inclusive do ponto de vista sexual.

Você mesmo, meu caro anônimo, deu ainda mais motivo para que eu pense assim, ao afirmar, em seu comentário, nunca ter visto um empresário ser preso no Brasil "por discriminação contra a opção sexual de seus funcionários". Sem querer, você matou a charada. Em primeiro lugar, a que discriminação você está se referindo, exatamente? Se o empresário em questão não gosta de pessoas que preferem parceiros do mesmo sexo, ou receia deparar com dois homens ou duas mulheres se beijando ou trocando carícias dentro de seu escritório, ou tem opiniões religiosas sobre o assunto, pode-se querer que ele mude obrigatoriamente sua forma de pensar? Se ele é dono de seu negócio e é, por exemplo, um corintiano fanático, deveria ser obrigado, por lei, a admitir funcionários palmeirenses? Nesse caso, a "homofobia", assim como a aversão a palmereinses ou são-paulinos, seria, portanto, nada mais do que uma opinião. Preconceituosa, pode-se dizer, mas ainda assim uma opinião. O funcionário palmeirense poderia muito bem sentir-se "discriminado" e solicitar a punição do empresário preconceituoso por ter esse tipo de ponto de vista contra seu clube do coração. Deve-se punir crimes de opinião? Isso não lembra aquele negócio... como é mesmo o nome? Ah lembrei: ditadura?

Não pense que eu seja "homofóbico" ou coisa parecida. Nada disso. Como já disse antes e repetirei sempre que for necessário, não tenho nada contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transsexuais, panssexuais, transgêneros ou - ufa! - simpatizantes, assim como não tenho nada contra quem gosta de sushi ou de música sertaneja. Sou apenas alguém que considera a liberdade de expressão e de pensamento como valores universais, muito acima dos melindres de grupos específicos. Para mim, alguém ser homossexual ou não me interessa tanto quanto saber se o sujeito torce para o Flamengo ou para o XV de Piracicaba. O fato de os torcedores do XV de Piracicaba serem minoria e até se sentirem discriminados por causa disso não lhes dá o direito, em minha opinião, de requererem uma lei específica e exclusiva para eles. Lei esta, aliás, que os colocaria na mesma categoria dos deficientes físicos (alguém defenderia, em são juízo, cotas para homossexuais no serviço público?). Dizer o que se pensa, sem o risco de ser preso por causa disso - sim, isso é liberdade.

Espero ter-me feito entender. No dia em que um empresário for para a cadeia, neste país, por não aceitar em sua empresa um empregado gay, ou por chamar um funcionário de "veado" ou "boiola", eu me convencerei que não vivemos mais numa democracia.

Um abraço (mas de longe, pois abraço muito apertado e demorado em outro homem é coisa de boiola...)

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P.S.: Só uma perguntinha: o que significa "Direita, vamos devolver?" É alguma gíria gay?

quinta-feira, novembro 08, 2007

O HOLOCAUSTO VERMELHO


Ontem fez noventa anos da Revolução Russa de 1917, que levou os comunistas de Lênin, Trotsky e companhia (bolcheviques) ao poder. Atualmente, tal fato é, para a maioria das pessoas, algo tão distante e esotérico quanto a descoberta da América ou a construção das Pirâmides do Egito. Entretanto, segundo vários historiadores, tanto marxistas (como Eric Hobsbwan), quanto não-marxistas (como Paul Johnson e Richard Pipes), este foi o fato inaugural e definidor do século XX. Trata-se, certamente, de uma data que não pode ser esquecida, mas não como querem os partidos e grupos radicais de esquerda: não se trata de uma efeméride a ser celebrada, como o 14 de Julho ou o Dia da Independência, mas sim lembrada com horror e contrição, pelas suas conseqüências nefastas, assim como o Holocausto ou o 11 de Setembro.

É difícil acreditar que essa data - 7 de novembro no calendário ocidental, 24 de outubro no antigo calendário juliano russo (abolido após a Revolução) - era, até pouco tempo atrás (até 1991, para ser mais exato), comemorada com pompa e circunstância na hoje defunta União Soviética, com desfiles gigantescos de milhares de soldados do glorioso Exército Vermelho e a exibição das mais modernas armas que a outrora poderosa indústria bélica soviética poderia criar. Mais incrível ainda é que o Estado originado dessa revolução, já desaparecido, chegou um dia a dominar praticamente metade do globo terrestre, ao ponto de rivalizar com os EUA pelo domínio mundial. O mito do poderio soviético, cuidadosamente cultivado sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, conseguiu de fato enganar muita gente, até mesmo nas fileiras inimigas. Daí a surpresa que tomou conta de quase todo mundo, até mesmo da CIA, quando os regimes satélites da URSS começaram a cair um após o outro no Leste Europeu, em 1989. É que, por mais de sete décadas, o regime que os patrocinava se sustentava tão-somente numa eficiente máquina de propaganda, brilhantemente descrita por George Orwell em seu romance 1984 ("liberdade é escravidão, ignorância é força, guerra é paz"), e que encobria diligentemente a ineficiência e corrupção inerentes ao regime. A mentira, assim como o terror, era a base mesma do sistema comunista.

Mas o mais impressionante, o mais inacreditável, é que ainda hoje, dezoito anos após a queda do Muro de Berlim e dezesseis após o colapso da URSS, ainda há quem veja no comunismo, em qualquer uma de suas vertentes (soviética, chinesa, titoísta, castrista etc.), um ideal puro e generoso, que teria sido apenas deturpado pelos comunistas no poder. Daí a distinção, que ainda é feita em alguns círculos acadêmicos, entre "socialismo ideal" (o de Marx e Engels, e até mesmo de Lênin), e "socialismo real" (os regimes comunistas tal como existiram, com seu rosário de crimes e atrocidades de todo tipo). É uma forma ingênua ou bastante malandra de tentar tapar o sol com a peneira, a fim de preservar o cerne da ideologia marxista, em nome da qual, e por causa da qual, todos esses crimes foram cometidos. Como já escrevi antes aqui neste blog, houve uma época em que eu acreditei nessa conversa fiada, tendo sido durante algum tempo simpatizante de um grupelho trotskista. Os trotskistas, como se sabe, até hoje debatem entre si sobre o caráter verdadeiramente socialista ou não da ex-URSS, que Trotsky preferia classificar - depois de ter sido expulso por Stálin, claro - nem como um Estado operário "puro", nem como um país capitalista, mas como um "Estado operário burocraticamente degenerado". A crítica dos trotskistas à burocratização da vida soviética e aos crimes de Stálin era algo que, confesso, me atraía por seu aspecto dissidente (sempre gostei da idéia de discordar da maioria, de remar contra a maré; acho que é algo que está no meu sangue). Mas essa crítica logo diminuía de veemência e intensidade quando se tratava de analisar o grau de responsabilidade do próprio Trotsky - e também de Lênin - na construção desse Estado totalitário. Nesse momento, lembro bem, os trotskistas preferiam silenciar, ou então justificavam abertamente a repressão bolchevique aos camponeses ucranianos ou aos demais partidos de esquerda como algo necessário para defender a revolução. O mesmo argumento - "eram inimigos da revolução, era preciso defendê-la a todo custo" etc. - foi repetido por Stálin e Pol Pot, e é repetido até hoje por Fidel Castro.
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Hoje, depois de muitas outras leituras (para quem tiver estômago suficiente, recomendo o Livro Negro do Comunismo, organizado por Stéphane Courtois; os que estão dispostos a mergulhar fundo nas raízes da utopia comunista acharão interessantes os clássicos L'opium des intellectuels, de Raymond Aron, e O Passado de uma ilusão, de François Furet), percebo que Trotsky e Lênin foram tão responsáveis quanto Stálin e Mao Tsé-Tung pela catástrofe que se seguiu. Na verdade, é impossível dissociar o stalinismo - e o maoísmo, e o castrismo - do próprio pensamento e ação marxista-leninistas. Não foi Stálin, mas Lênin, o criador da polícia secreta, bem como dos campos de concentração (o Gulag, tão realisticamente descrito por Alexander Soljenitsin e Anne Applebaun). Assim como não foi Stálin o autor dos primeiros expurgos de dissidentes, nem tampouco o ideólogo da ditadura do partido único ou do terror revolucionário, do qual ele foi apenas um eficiente operador. Dizer o contrário seria, aliás, superdimensionar a capacidade e a inteligência do tirano georgiano, que seus adversários sempre consideraram bastante limitadas. Tudo isso - a própria essência do totalitarismo, tanto de esquerda quanto de direita - deve ser buscado em Lênin, não em seu discípulo Stálin. Se formos mais além, veremos as sementes da URSS já em Marx, com sua teoria da luta de classes e da ditadura do proletariado, e mesmo em Rousseau ou em Platão, que podem ser considerados com justiça os pais do totalitarismo. Quando os trotskistas e outros saudosistas da revolução negam o caráter socialista da ex-URSS, querendo manter viva a chama revolucionária, não fazem mais que usar um critério subjetivo, rejeitando o socialismo de que não gostam em favor daquele que gostam ou gostariam de ver implantado, em algum lugar, em algum país, quem sabe um dia. Aqueles que defendem, como solução para os problemas da humanidade, um retorno à suposta "pureza" dos ideais revolucionários originais, como se estes não tivessem nada a ver com o que veio depois, são como um cachorro correndo atrás do próprio rabo, girando em torno de si mesmos. Se há uma resposta para os males do mundo, se há um caminho capaz de democratizar as relações sociais e promover a felicidade para o maior número possível de pessoas, certamente não está em Marx ou em Lênin, mas na boa, velha e caluniada democracia liberal, a verdadeira revolução.
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De todas as revoluções ocorridas na história, a Revolução bolchevique na Rússia foi a mais funesta, a de conseqüências mais terríveis e sanguinárias para a humanidade. Não somente por ter inaugurado o regime político mais criminoso de todos os tempos, responsável por mais de 100 milhões de mortos em quase metade do mundo durante setenta anos, mas também por não ter deixado nada - absolutamente nada - que possa ser aproveitado para benefício da espécie humana. A Revolução Gloriosa de 1688 na Inglaterra legou-nos a tradição de respeito às liberdades fundamentais. A Revolução Norte-Americana (conhecida entre nós como "Guerra de Independência dos Estados Unidos", pois ainda achamos improvável que os EUA tenham sido palco de uma revolução) abriu o caminho para o fim do Antigo Sistema Colonial e a emancipação política dos países americanos, assim como lançou as bases da democracia constitucional moderna. A Revolução Francesa de 1789, em que pese o Terror jacobino, deixou para a posteridade o ideal de democracia e de respeito aos direitos do cidadão. Até mesmo as "revoluções" oligárquicas da América Latina no século XIX, refletidas na proclamação da independência das colônias luso-espanholas do continente, resultaram nos atuais Estados nacionais da região, do qual o Brasil é um exemplo. E a Revolução comunista de 1917, o que nos deixou de bom? Nada.

Feita para acabar com a desigualdade e a miséria, a Revolução Russa somente gerou opressão e miséria em escala colossal, nunca antes vista. Ouso dizer que, entre suas conseqüências, devem ser contabilizados também o nazismo e o fascismo, visto que essas ideologias totalitárias nada mais foram do que uma pantomima dos métodos de ação comunistas. Estou delirando? Então, dêem uma olhada na seguinte confissão, feita por ninguém menos do que Adolf Hitler em pessoa, em Hitler m'a dit, série de entrevistas publicada por Hermann Rauschning em 1939, em que o líder nazista candidamente confessa: "Não sou apenas o vencedor do marxismo, sou seu realizador. Aprendi muito com o marxismo e não pretendo escondê-lo. O que despertou interesse nos marxistas e me forneceu ensinamentos foram seus métodos. Eu, simplesmente, levei a sério o que essas mentes de pequenos comerciantes e secretárias haviam vislumbrado timidamente. Todo o nacional-socialismo lá está contido. Veja bem: os grêmios operários de ginástica, as células empreendedoras, os desfiles monumentais, os folhetos de propaganda redigidos em linguagem de fácil compreensão pelas massas. Esses novos métodos de luta política foram praticamente inventados pelos marxistas. Eu só precisei me apoderar deles e desenvolvê-los para conseguir assim os instrumentos de que necessitávamos."* E a coisa não pára por aí. Também na atualidade os frutos de setenta anos de domínio comunista se fazem sentir. Além de uma montanha de cadáveres, do temor da destruição nuclear e de guerras e rebeliões em diversos países do mundo, o saldo, nada positivo, do comunismo inclui um Estado russo atualmente enfraquecido, governado por uma súcia de mafiosos e ex-funcionários do regime comunista, inclusive ex-agentes da KGB (atual FSB), como o atual mandatário, Vladimir Putin, que não parecem ter abandonado os velhos métodos de eliminação de adversários políticos. E pior: montada num arsenal atômico, para preocupação dos que ainda se importam com coisas como segurança e democracia.

Há quem diga que a vitória dos bolcheviques na Rússia serviu como um alerta às classes dominantes dos países capitalistas, que trataram então de fazer algumas reformas sociais, a fim de impedir a eclosão de movimentos semelhantes. Até hoje, há vozes que sustentam esse disparate. Não é preciso muito esforço para perceber a falácia desse argumento: basta lembrar que as reformas sociais tão citadas como tendo sido um subproduto da Revolução comunista começaram a ser implementadas nos países capitalistas desenvolvidos, como Inglaterra e Alemanha, antes de 1917, e não depois. Sem falar que países tidos como paradigmas do welfare state, como a Suécia e a Noruega, são aqueles em que o movimento comunista sempre foi mais débil e marginal, sem força suficiente para provocar qualquer tipo de mudança social.

Passado tanto tempo do fim da Guerra Fria e da URSS, é comum ouvir que o comunismo morreu, do mesmo modo que, após 1945, tornou-se comum dizer que o nazismo estava morto. É preciso cuidado com esse tipo de proclamação otimista. Sabe-se que os nazistas foram derrotados na Segunda Guerra Mundial, mas nem por isso o nazismo, como ideologia política, pode ser considerado morto e enterrado (até mesmo em Israel, o lugar mais improvável para esse tipo de coisa, apareceu, alguns dias atrás, um bando de judeus neonazistas). Do mesmo modo, o comunismo morreu, mas nem tanto. Suas viúvas, órfãos e demais aparentados continuam por aí, defendendo suas bandeiras totalitárias, aproveitando-se das vantagens da democracia para preparar o golpe que irá destruí-la e a substituirá pela ditadura do proletariado. No momento, as viúvas do totalitarismo estão na ofensiva em países como Venezuela, Bolívia e Equador e estão organizadas, em escala continental, no Foro de São Paulo, cujo objetivo declarado é "recuperar, na América Latina, o que foi perdido na ex-URSS e nos demais países do Leste Europeu" (um dos fundadores do tal Foro é um barbudinho, presidente de um certo país sul-americano, que muitos juram de pés juntos ser um político "moderno" e "moderado"). Se não acordarmos logo para esse perigo real e iminente, estaremos na mesma situação que Kerensky, o líder democrata russo que assumiu o poder em fevereiro de 1917, apenas para ser enxotado em outubro, por aqueles mesmos que ele antes considerava aliados. Este é o destino dos tolos e inocentes úteis.

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* A quem interessar possa, eis outras declarações de Adolf Hitler que não deixam dúvida sobre a identidade essencial entre comunismo e nazismo:

"Eu aprendi muito com o Marxismo, como não hesito em admitir. A diferença entre eles e eu é que eu tenho posto em prática o que esses 'revolucionários teóricos' têm começado timidamente. Eu tive apenas de concluir logicamente que a Social-Democracia falhou repetidamente devido à sua tentativa de realizar a evolução dentro da estrutura democrática. O Nacional-Socialismo é o que o Marxismo poderia ter sido se ele tivesse quebrado suas ligações absurdas e artificiais com a ordem democrática." - Fonte: "The Ominous Parallels" (1982)
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"Há mais do que nos une ao Bolchevismo do que nos separa dele. Há, acima de tudo, um sentimento genuinamente revolucionário, que está vivo em todo o lugar na Rússia. Eu sempre considerei essa circunstância, e dei ordens para que ex-Comunistas sejam admitidos no Partido imediatamente. A pequena burguesia Social-Democrata e os sindicalistas nunca serão um Nacional-Socialista, mas o Comunista sempre será."
- Fonte: "The Ominous Parallels" (1982)
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"Nós somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista para a exploração dos economicamente fracos, com seus salários injustos, com sua indecorosa avaliação do ser humano de acordo com a riqueza e a propriedade em vez de sua responsabilidade e desempenho, e nós estamos todos determinados a destruir esse sistema sob todas as condições." - Primeiro de Maio de 1927
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"Que significa ainda a propriedade e que significam as rendas? Para que precisamos nós socializar os bancos e as fábricas? Nós socializamos os homens." - Fonte: "Hitler m'a dit" (1939)