terça-feira, fevereiro 19, 2008

A RENÚNCIA DO DITADOR NÃO É O FIM DA TIRANIA


Está em todos os jornais de hoje. Nesta terça-feira, 19 de fevereiro, Fidel Castro renunciou ao cargo de Presidente da República e de Presidente do Conselho de Estado de Cuba. De seu leito de morte, o "Coma Andante", na brilhante e hilariante definição de Reinaldo Azevedo, mandou avisar que não quer mais comandar formalmente o Estado e o governo cubanos. Em todo o mundo, milhares de exilados cubanos exultaram com a notícia histórica. A imprensa, nacional e estrangeira - isto é, a parte que não se acostumou a babar feito um adolescente deslumbrado e a entoar loas ao ditador caribenho -, não perdeu tempo: já começa a anunciar o início de uma "nova era" na História de Cuba, antecipando a inevitável sucessão e transição política.

Então Cuba finalmente está caminhando rumo à democracia, certo? Nada disso, infelizmente. Fidel Castro renunciou aos cargos que ocupava, mas não renunciou à tirania. Desde 31 de julho de 2006, quando decidiu afastar-se, pela primeira vez em 47 anos, do comando sobre a vida de 11 milhões de cubanos, por motivo de doença - desde então objeto de incontáveis especulações na imprensa mundial -, o tiranossauro do Caribe passou as rédeas do poder a seu hermanito Raúl, que comanda as Forças Armadas da ilha há mais de quatro décadas. Ao lado de Fidel e de Che Guevara, Raúl Castro compôs a famosa "santa trindade" da Revolução Cubana, tendo comandado muitos fuzilamentos. Raulito é tão ou mais déspota que seu irmão maior, como demonstra seu passado de fiel militante do Partido Comunista Cubano, antes mesmo da tomada do poder pelos barbudos (alguns dizem até que foi ele quem levou Fidel e Cuba para o lado da defunta URSS). Desde que ele assumiu a direção do Estado, a ilha não avançou um milímetro no respeito às liberdades fundamentais. Pelo contrário. A ditadura comunista cubana, sob Raúl Castro, mostra-se apenas uma continuação da tirania fidelista. Mais de 200 presos políticos continuam a mofar nas prisões. Não há liberdade de imprensa. As eleições são uma fraude para legitimar a tirania - 614 candidatos para 614 vagas na Assembléia Nacional, que não passa de uma correia de transmissão da vontade do Partido único, capitaneado por Fidel e sua súcia. Enfim, nada mudou. Arrisco-me a dizer que, com a saída - aparente - de cena de Fidel, nada ou muito pouco mudará.

Para quem está chegando agora, não é a primeira vez que o ditador barbudo renuncia a um cargo político. Em julho de 1959, quando a ilha ainda não era uma ditadura comunista, ele renunciou ao cargo de primeiro-ministro, "em protesto" contra o então presidente da República nomeado por ele próprio, o juiz liberal Manuel Urrutia, que teve a ousadia de opor-se publicamente às medidas comunizantes do regime e à centralização do poder. Exatamente como Jânio Quadros tentou fazer no Brasil dois anos depois, com sua renúncia intempestiva, Fidel Castro quis, com isso, provocar uma crise política, forçando o povo cubano a tomar uma decisão do tipo "ou ele ou eu". O golpe deu certo. Ao saber da renúncia inesperada de Fidel, o povo foi às ruas, pedindo seu retorno ao poder e a saída de Urrutia, que então abandonou o cargo, fugindo do país e indo engrossar a lista de exilados políticos do regime. Isso dá uma idéia do grau de manipulação e de farsa que existe por trás de cada ação do líder revolucionário.

Também não se deve superestimar o significado dos cargos aos quais o ditador acabou de renunciar. Em regimes totalitários como o de Cuba e o da ex-URSS, funções como o de presidente da República ou primeiro-ministro são apenas meras formalidades. Quem comanda mesmo é o Partido, que, em Cuba, está nas mãos dos irmãos Castro. De 1959 a 1976, por exemplo, o presidente de Cuba atendia pelo nome de Oswaldo Dorticós. Alguém sabe quem foi? Stálin, na ex-URSS, só se auto-indicaria presidente da República em 1940, mais de dez anos depois de ter imposto seu poder absoluto, e depois de exterminados todos os seus adversários, reais ou imaginários, na estrutura do Partido e do Estado soviéticos. Logo, não há razão para otimismo exagerado, nem para achar que o "Coma Andante" vai deixar de dar as cartas na ilha-prisão, sua fazenda particular.

Outro motivo, porém, me parece o mais forte a desaconselhar qualquer euforia desmedida. Além da repressão e do terror policial, o que sustenta o regime comunista cubano é a simpatia e a leniência com que ele é encarado por vários governos ocidentais. Entre os quais, o de Lula da Silva no Brasil. Enquanto tais governos continuarem a fazer vista grossa ou a justificar abertamente a ausência de liberdade na ilha, não haverá motivo algum para acreditar que Cuba se tornará, gradualmente, uma democracia. Sabe-se que regimes totalitários não podem ser reformados, pelo menos no que diz respeito ao monopólio do poder político: ou são derrubados ou sucumbem por seu próprio peso e ineficiência. Ou, então, se eternizam. Sendo um regime totalitário, é muito pouco provável que Cuba venha a se transformar numa democracia pela vontade da elite castrista no poder, que tem tudo a ganhar com a manutenção do regime, e tudo a perder com qualquer abertura. E, enquanto houver governos como o brasileiro, dispostos a fechar os olhos para as atrocidades da ditadura, a nomenklatura cubana não terá motivo nenhum para liberalizar o regime. Como já disse antes, Cuba é uma ditadura sustentada por democracias, para eterna vergonha destas e sofrimento dos cubanos.

Como não poderia deixar de ser em se tratando de um ditador, o cubano, com laços tão fortes com o atual governo do Brasil, não faltou ao episódio um toque brasileiro. Na carta que fez publicar no jornal oficial Granma, em que anuncia sua decisão de não mais ser o presidente da República e primeiro-ministro da ilha, Fidel Castro cita o arquiteto brasileiro e gênio oficial Oscar Niemeyer, seu amigo de longa data. Fidel diz que é preciso ser conseqüente até o fim. Se isso é verdade, podem esquecer, pois o regime não vai recuar um centímetro em seu caráter totalitário. Com ou sem Fidel, não importa: se depender de seus amigos, como Lula e Hugo Chávez, o povo cubano continuará a olhar para o mar em busca de esperança.

GOVERNO DE PSICOPATAS


Como acontece com quase todo mundo, chega um momento em que me canso de falar em política. Nessas horas, vou à estante e pego aleatoriamente um livro, sem qualquer relação com o assunto. Em geral, um romance ou uma reportagem, ou um livro de História. Mas não tem jeito. Não dá pra fugir da realidade. Por mais que tentemos dela escapar, ela sempre nos puxa de volta, como um buraco negro, engolindo tudo em sua volta.

Descobri a inutilidade desse meu esforço de passar pelo menos umas horas sem pensar em Lula, PT, mensalão, Foro de São Paulo e, agora, cartões corporativos quando comecei a folhear um livro da escritora de romances policiais Patricia Cornwell, "Retrato de um Assassino - Jack, O Estripador: Caso Encerrado", que, como diz o título, trata dos crimes do famoso serial killer inglês do final do século XIX. A certa altura, nas páginas 35 e 36, a autora se debruça sobre o conceito clínico de psicopatia. Entre outras coisas, ela diz o seguinte:

"(...) O conceito de que é errado roubar, violentar, atacar, mentir ou fazer qualquer outra coisa que degrade, defraude o outro ou o prive de suas características humanas não é assimilado pelo psicopata.

(...) os psicopatas não exibem emoções humanas normais e constituem uma pequena porcentagem da população que é responsável por uma alta porcentagem dos crimes. São pessoas extraordinariamente astutas que levam uma vida dupla. Os que lhes são próximos geralmente não têm idéia de que por trás da máscara de simpatia existe um monstro que só se revela - como o Estripador - um pouco antes de atacar.

O psicopata é incapaz de amar. Quando demonstra o que parece remorso, tristeza ou pesar, está manipulando, e a expressão dessas emoções se origina de suas próprias necessidades e não de consideração autêntica por outra criatura. Ele costuma ser atraente, carismático e de inteligência acima da média. Embora seja dado a impulsos, é organizado no planejamento e na execução de seus crimes. Não há cura. Não se pode reabilitá-lo nem 'preservá-lo da desventura criminosa' (...)".

Vocês já devem ter percebido. Ao ler as definições acima, é impossível não remeter ao que está acontecendo no Brasil de hoje. É impossível não pensar em Lula e nos petistas. As palavras de Patricia Cornwell num livro sobre Jack, o Estripador parecem ajustar-se perfeitamente à definição dos que ora nos governam.

Antes que alguém me acuse, não é minha intenção demonizar os companheiros lulistas. Mesmo se eu quisesse, não poderia demonizá-los, pois os fatos falam por si mesmos. Como diz o Reinaldo Azevedo, não se trata de demonizar os petralhas, mas de denunciá-los. E denunciá-los, convenhamos, é inseparável de algumas conclusões a respeito deles. Tomemos as denúncias de corrupção contra o governo. Quem pode dizer que a ausência de qualquer sentimento de remorso, a atrofia completa de qualquer senso de moral, que caracterizam os psicopatas, se encaixam perfeitamente na forma de os petistas lidarem com o assunto? Diante do último escândalo envolvendo os lulo-petistas, o dos cartões corporativos, o que faz o governo? Reconhece o crime, pune os culpados, pede perdão pelo delito cometido? Não: tenta atirar lama nos que o acusam, querendo com isso fazer com que todos relevem sua ladroagem. Alguém viu, até agora, um membro do alto escalão do governo, ou mesmo do baixo escalão, admitir publicamente que, sim, roubou, e que roubar é errado, é um crime e deve ser punido como tal? Em entrevista às páginas amarelas da Veja desta semana, o secretário-geral do PT, o deputado federal José Eduardo Cardozo, reconhece que o mensalão existiu. É um passo importante, sem dúvida, por destoar do que insistem em dizer os petralhas e seus amigos na imprensa. Mas o que Cardozo diz em seguida? Que houve "equívocos" de "alguns dirigentes", que se deixaram levar por "um pragmatismo equivocado", esquecendo-se do que era o partido original, e que "a questão ética é indispensável na construção de nossas bandeiras". Que questão ética, deputado? Que bandeiras? Fica parecendo que o partido tinha um "patrimônio ético" que se perdeu. O PT nunca teve patrimônio ético, tinha apenas um discurso moralista fajuto para justificar sua própria roubalheira em nome do poder, ou do socialismo, ou do que quer que seja. A raiz da corrupção petista não está num suposto "desvio de rota" da pureza do partido original, como se este fosse um clube de santos que se perderam, mas em sua própria essência original totalitária. Os arquitetos do mensalão e de outras cafajestadas, os Delúbios, os Silvinhos podem tranqüilamente dizer-se fiéis operadores a serviço da causa original petista. Seu "erro", seu "pecado", não foi terem coordenado a roubalheira: foi terem sido apanhados.

Outro exemplo: a memória dos "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil. A ninguém escapa o fato de que as esquerdas dela se apropriaram totalmente. Impera, nesse assunto, o maniqueísmo puro e simples. Apenas um lado, o das esquerdas, é mostrado: o lado em que elas aparecem sempre como vítimas da repressão, da censura, da tortura, dos assassinatos, dos desaparecimentos. Silencia-se completamente sobre a violência das guerrilhas, que incluiu assaltos, seqüestros e assassinatos, ou então busca-se mesmo justificar tais atos como uma forma de resistência contra a opressão e de luta pela democracia. Uma falsidade total, pois o que a esquerda armada queria não era instaurar a democracia, mas impor uma ditadura comunista. No entanto, os remanescentes dessa época, os Zé Dirceus, os Franklin Martins, as Dilmas Rousseffs, os Genoínos apresentam-se e são apresentados como devotados democratas. Considera-se crime somente o que é cometido contra as esquerdas, nunca por elas. Se os esquerdistas roubam, mentem, matam ou seqüestram, é por uma boa causa, ou então não passa de intriga da direita. Do mesmo modo, somente as ditaduras de direita estão sujeitas à obrigação moral de respeitar os direitos humanos.

Em psiquiatria, diz-se que psicopata é uma pessoa sem inibições morais, carente de remorso e arrependimento. Para um esquerdista, assim como para um serial killer, seus crimes não são crimes. Pelo contrário: são mesmo motivo de orgulho ou, quando muito, um mal necessário, um meio para atingir um fim. O esquerdismo é uma psicopatia, uma perversão moral, uma doença do espírito.

As características elencadas por Patricia Cornwell para definir a mente psicopática servem à perfeição para classificar os que nos governam atualmente. Assim como Jack, o Estripador e outros criminosos seriais, os atuais ocupantes do poder no Brasil se guiam pela astúcia infinita, pela duplicidade moral e pela manipulação mental. E, assim como ocorria com o assassino de prostitutas do East End londrino, a psicopatia esquerdista não tem cura. Jack, o Estripador jamais foi pego por seus crimes. Será que o mesmo ocorrerá com os lulo-petistas?

domingo, fevereiro 17, 2008

A IDEOLOGIA DOS SEM-IDEOLOGIA


Imaginem a seguinte situação: um bandido é apanhado em flagrante matando, roubando ou estuprando. Diante das acusações que lhe são feitas, ele não se deixa abater. Ao invés disso, impõe a seus acusadores a seguinte condição: só irá para a cadeia se os delitos de um seu concorrente forem investigados também. Caso contrário, trata-se de uma atitude parcial e preconceituosa. Ou vai preso todo mundo, ou não vai preso ninguém.

Que pessoa decente e honesta endossaria essa impostura? Quem pensaria duas vezes antes de cuspir na cara do sujeito que propõe coisa semelhante, chamando-o de vagabundo e de canalha da pior espécie? Quem hesitaria em denunciar manobra tão escandalosamente cínica, tão descarada, bradando que um crime não pode servir de desculpa para outro, e que, nessa situação, qualquer apelo à "imparcialidade" não passa de uma cortina de fumaça para garantir a impunidade?

Pois é exatamente isso o que está ocorrendo no Brasil, hoje. Sim, vocês adivinharam. Estou falando do caso dos cartões corporativos, o mais recente - mas não o último, outros certamente virão - escândalo envolvendo a petralhada. Apanhados com a mão na massa desviando dinheiro público, os petralhas tentam mais uma vez jogar areia nos olhos de todo mundo. A manobra da vez consiste em criar uma CPI ("vejam como somos honestos e transparentes: queremos até CPI") completamente fajuta, para investigar os gastos com cartões corporativos não apenas nesse, mas desde o governo anterior, dos tucanos. Com isso, querem emparedar a assim chamada "oposição", que sabidamente tem seus podres a esconder. Esta, com receio de que a maré de lama transborde e respingue para seu lado, já topou um acordão, livrando a cara ("blindando") os chefões de cada lado, Lula e FHC. Qualquer pessoa com um nível intelectual acima do dos bacilos já percebeu qual é a jogada: como eles têm o que esconder, a CPI vai ficar prejudicada desde o início, e no final não vai dar em nada, pensam os estrategistas do governo petralha. E ainda por cima vamos poder posar de "isentos", fazendo aquilo que sempre fizemos: enganar a todos.

Parte da imprensa, principalmente a que já foi comprada pelos companheiros, já aderiu ao discurso "isentista" defendido pelo governo Lula da Silva. De fato, esse discurso tem sido a principal arma dos petralhas desde que chegaram ao poder. Depois de mais de duas décadas transpirando ética por todos os poros, proclamando-se diferentes do resto dos partidos, os petistas partiram para a tática oposta, tendo como principal argumento a seu favor o fato de fazerem o mesmo que os outros fazem (lembram daquela entrevista de Lula em Paris, no auge do escândalo do mensalão, quando ele disse que caixa dois era normal, "todo mundo faz"?). Assim esperam se livrar, exatamente como o meliante do primeiro parágrafo deste texto. E muitos jornalistas, cooptados ou ingênuos, dão sua chancela a essa demonstração de desrespeito à inteligência alheia, cobrando "isenção" e "imparcialidade" na cobertura do(s) escândalo(s). Defendem, é o que dizem, uma atitude "neutra" e "não-ideológica" diante do atual governo. Como se isso fosse logicamente possível ou moralmente aceitável.

Não é possível ser "neutro" diante do governo de Lula e dos petralhas, pois não é possível ser "neutro" diante da mentira e do crime. A idéia de "neutralidade" ou de "imparcialidade", o "nenhumladismo" tão cultuado pela mídia "séria", diante de escândalos como o dos cartões corporativos, não passa de uma forma de compactuar com a delinqüência política. É simplesmente uma manobra diversionista para impedir a apuração do escândalo e a punição dos culpados. É como se dissessem: "Viram? Na época deles também havia corrupção. Então para quê nos investigar?". Com isso, desviam o foco da questão. Não são os gastos do governo FHC, ou Itamar, ou Collor, ou D. Pedro I, ou Tomé de Souza, o que está em questão. É a gestão atual. E ponto. Que se investigue o que se passa nos porões do governo Lula da Silva. Depois ajustaremos contas com seus predecessores. Ninguém se lembrou das maracutaias do governo Sarney, por exemplo, quando se acusou o governo Collor de corrupção. Isenção, aqui, é apenas um outro nome para impunidade, uma forma de livrar a cara dos bandidos apelando para os delitos de outrem.

Por trás do discurso "não-ideológico", esconde-se, na verdade, uma ideologia: a do mau-caratismo, da duplicidade ética e da desonestidade intelectual. Lula e seus comparsas adoram posar de moderados, e convenceram muita gente de que não estão atrelados a nenhuma ideologia, sendo, antes, políticos pragmáticos, que encaram os negócios do Estado com um olhar de estadistas e não de militantes esquerdistas. Não caiam nessa lorota. Para desmascarar essa balela, não vou nem repetir o que já disse em outros textos, por exemplo, sobre o Foro de São Paulo; basta fazer um exercício simples: acuse os petistas, denuncie-os por algum escândalo de corrupção, como o mensalão e o dos cartões corporativos, e a resposta deles virá na forma de manobras como a descrita acima ou de um aluvião de slogans e chavões esquerdóides, atribuindo as acusações a uma conspiração das "forças reacionárias e golpistas" etc. Esse esquerdismo de galinheiro é o cassetete ideológico que os lulo-petistas mantêm guardado, em caso de necessidade, para lançar na cabeça dos que denunciam suas tramóias.

Já escrevi aqui antes que PT e PSDB são partidos gêmeos ideologicamente. Que, por trás da fachada de aparente inimizade, ambos se completam e se complementam, fazendo parte do mesmo arco político-ideológico. Agora, com o caso dos cartões, fica claro que são irmãos também na ladroagem. Concorrentes na disputa pelo poder, sempre poderão encontrar no outro um motivo para garantir a própria impunidade. Exatamente como o criminoso que, para livrar-se da prisão, aponta para seu cúmplice, saindo de fininho, assobiando. E ainda enchem a boca para falar em imparcialidade jornalística, como uma velha prostituta pregando as virtudes da castidade. Com os lulo-petistas é assim: sempre se pode descer mais um degrau. A desfaçatez dessa gente, assim como os gastos com cartões corporativos, não tem mesmo limites.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A VOLTA DOS CAÇA-FANTASMAS


Os caçadores de conspirações estão de volta. Apareceu um sujeito no sul, preso por crimes comuns, dizendo-se ex-agente secreto da ditadura militar uruguaia (1973-1985), e afirmando ter provas de que o ex-presidente brasileiro João Goulart, o Jango, foi assassinado pelos órgãos de repressão política dos países do Cone Sul. No Congresso, já está rolando um pedido de CPI para apurar o caso. Os saudosistas da esquerda, que ainda têm Jango em alta conta, já começaram a se mexer, felizes por terem algo em que se agarrar, em meio a tantos escândalos.

Ai, ai. Sente-se cheiro de empulhação no ar... Não, não tenho nada contra investigações desse tipo. Aliás, pelo contrário: acho-as bem-vindas e necessárias. Não sei se Jango morreu de causas naturais ou se foi mesmo morto por algum sicário dos milicos, como estão dizendo. Não é impossível que tenha sido morto, assim como não é impossível que as mortes de Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, para citar outros líderes da oposição que morreram na mesma época, não tenham ocorrido exatamente da maneira como relata a História. Não é impossível, embora seja pouco provável, que essas mortes tenham alguma relação com a chamada Operação Condor, o plano secreto dos regimes militares da América do Sul para eliminar seus opositores no final dos anos 70. Jango, como se sabe, era cardíaco, e faleceu em 1976, ao que parece, por uma falha no consumo dos medicamentos que usava, que provavelmente foram trocados. Intencionalmente ou não, ninguém sabe. Além disso, os procedimentos post-mortem foram no mínimo apressados, com um laudo necroscópico repleto de falhas (oficialmente, sua causa mortis foi "enfermedad", escreveu o médico argentino que viu seu corpo). Tudo isso, a meu ver, deve ser investigado, até que não paire nenhuma dúvida sobre o caso. Mas a questão não é essa. A questão verdadeira, em meu ponto de vista, é que o resultado da investigação, se esta vier a ocorrer, já foi alcançado antes de esta ter começado. Em outras palavras: para todos os efeitos, independentemente de quais conclusões chegar a CPI, Jango foi uma vítima de uma conspiração, e ponto final.

Há muito mais por trás desse exercício mórbido de necrologia do que o simples e elementar desejo de descobrir a verdade. A verdade, para as esquerdas, é uma só: Jango foi assassinado pelos militares. Trata-se da única conclusão possível, para os sacerdotes da mitologia e do martirológio esquerdista. Não importa o que digam os resultados das investigações, sempre será aventada essa hipótese. A fabricação de mártires, de líderes elevados à quase-santidade depois de mortos em circunstâncias misteriosas, ou tornadas misteriosas diante da determinação de torná-los mártires e santos, é uma caracterítica inseparável do método esquerdista. É uma forma de compensar os defeitos dos personagens (no caso de Jango, inúmeros) e, também, de manter acesa a chama da "causa", seja lá o que isso for hoje em dia. Além disso, é uma maneira de reforçar o papel histórico preferido que as esquerdas, seja lá com que autoridade moral para tanto, auto-atribuíram-se: o de eternas vítimas dos lobos maus capitalistas (representados, nesse caso, pelos governos militares). Com isso, ao mesmo tempo em que posam de mártires e heróis, desviam a atenção de seus próprios esqueletos no armário, que não são poucos.

Para as esquerdas, a abertura de casos como o da morte de Jango só traz vantagens. Trata-se, afinal, de um investimento com retorno garantido. Isso porque, de acordo com uma visão há muito estabelecida como verdade irrefutável e artigo de fé, esquerdistas são sempre vítimas. Se um deles morre, ainda que tenha sido após cair e bater a cabeça no banheiro, é porque foi vítima de uma conspiração maléfica do imperialismo, ou que outro nome tenha o inimigo de plantão, que deixou cair o sabonete para que ele escorregasse. Pouco importa se a investigação comprova as suspeitas ou não. Feita a investigação, apurados os fatos, ouvidas as testemunhas, o resultado é de somenos importância. Se a investigação comprovar as suspeitas de morte não-acidental, ótimo, as esquerdas têm um mártir em suas mãos. Se, em vez disso, não se descobre nada, fica a suspeita. E é de suspeitas, de paranóias e mistificações, de vitimismos e complexos persecutórios, que vivem as esquerdas. As leis da natureza, ou o simples acaso, simplesmente não se aplicam a elas. As denúncias de corrupção contra os petralhas no governo hoje, por exemplo, só podem ser o produto de alguma conspiração golpista, não importa as provas. E por aí vai.

Outro fator que trabalha a favor da legenda áurea esquerdista é o inegável fascínio que as teorias da conspiração exercem sobre o cérebro humano. De fato, nas últimas décadas surgiu uma verdadeira indústria sobre o tema. Com o detalhe de que, em quase todos os casos, os suspeitos são sempre, invariavelmente, representantes da "direita", do establishment, do imperialismo, da CIA etc. Décadas de propaganda nos tornaram todos predispostos, psicológica e ideologicamente, a aceitar as teses mais estapafúrdias, desde que o culpado seja, claro, a direita. Vejam o caso mais famoso do mundo: o assassinato de John F. Kennedy, em 1963. Já surgiram as teorias mais descabeladas sobre o assunto, apontando para a CIA (sempre ela!), a máfia, o complexo industrial-militar, os exilados cubanos anticastristas de Miami, os brancos racistas do sul dos EUA etc. (só faltou o Mickey Mouse e o Pernalonga). Quase ninguém se contentou com a conclusão óbvia, ou seja, que o autor dos tiros foi Lee Harvey Oswald, um sujeito estranho ("ruim de mira", disseram), e com o fato de que todos os indícios apontavam para o envolvimento de Cuba e da URSS no caso, pois Oswald era membro de um grupo pró-Castro, exilara-se na URSS alguns anos antes e requerera, inclusive, sua entrada em Cuba semanas antes dos tiros em Dallas ("era um agente duplo, um provocador a soldo da CIA" etc.). Mas, como sabem todos os que já assistiram ao filme de Oliver Stone sobre o assunto, o culpado só poderia ser alguém na, ou com conexões com, a Casa Branca... Ou seja: havia fortes motivos para aventar a participação não da CIA, da máfia ou de quem quer que seja, mas de um governo estrangeiro - o de Cuba -, com o qual os EUA estavam em guerra, numa trama para assassinar o presidente dos EUA, mas mesmo assim preferiu-se a tese do "atirador isolado e desequilibrado", ou então do "complô-das-forças-direitistas-e-reacionárias-descontentes-com-a-política-progressista-de-Kennedy". Hum...

O mesmo padrão conspiracionista se verificou logo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Quem não se lembra? Na ocasião, pipocaram teorias sobre quem teria sido o verdadeiro cérebro por trás dos ataques: a CIA (olha ela aí de novo!), as gigantes do petróleo norte-americano, Bush, o Mossad israelense... Só faltou dizer que foram os mesmos que mataram Odete Roittman e Salomão Ayala. Não faltou quem, como o renomado economista Celso Furtado, cogitou da possibilidade de ter sido o próprio governo estadunidense o autor da atrocidade. Quando ficou claro que os responsáveis pela tragédia foram fanáticos islâmicos, reunidos em torno de Osama Bin Laden, os conspiracionistas mudaram de tática: passaram a tentar justificar a morte de 3 mil pessoas como uma resposta legítima de um povo oprimido contra a opressão do imperialismo ocidental, ou como a revolta da criatura contra o criador... (ainda tenho vivos na memória os textos de Leonardo Boff e de Tariq Ali regozijando-se pela queda das Torres Gêmeas). Ou seja: culpe os EUA, nunca seus inimigos, esse é o caminho.

O afã dos esquerdopatas em acusar os EUA e o "neoliberalismo" por tudo de ruim que acontece no mundo, desde a morte de Jango até o aquecimento global e a falta de vergonha dos políticos, só tem paralelo com sua disposição em não falar dos crimes do comunismo. É claro que não estou sugerindo que recordemos dos podres de um lado e fechemos os olhos para os de outro, nada disso. Quem faz isso, e muito bem, são os esquerdistas, como estão comprovando os petralhas no caso dos cartões corporativos. Trata-se apenas de comparar. Enquanto existiu, a URSS foi responsável por alguns dos piores crimes já cometidos contra a humanidade, inclusive intervindo militarmente em outros países e assassinando líderes estrangeiros, como Jan Masaryk (atirado de uma janela por se opor ao golpe comunista na Tchecoslováquia, em 1948), Imre Nagy (fuzilado como responsável pela revolta húngara de 1956), Hafizullah Amin (metralhado por páraquedistas soviéticos durante a invasão do Afeganistão, em 1979), e tantos outros. Sem falar no apoio ao terrorismo internacional, em assassinatos de dissidentes exilados etc. O atentado ao papa João Paulo II em 1981, por exemplo, ao que parece, foi obra dos serviços secretos búlgaros, em conluio com a KGB. Um livro publicado em 2005 na França, Cuba Nostra, do jornalista Alain Ammar, afirma, com base no depoimento de um ex-espião cubano hoje exilado, que o presidente chileno Salvador Allende foi morto por seus próprios seguranças cubanos, no Palácio La Moneda, durante o golpe de estado de 11 de setembro de 1973, quando deu mostras de que se renderia aos militares. Mas quem se importa?

Tudo isso me dá o direito, creio eu, de desconfiar das "revelações" do suposto ex-araponga uruguaio sobre a morte de Jango. Principalmente quando acabo de ler que Hugo Chávez, o caudilho fanfarrão da Venezuela, declarou que quer exumar o cadáver de Simón Bolívar, que ele considera o "pai espiritual" de sua "revolução", para averiguar as "verdadeiras causas" de sua morte (supostamente, diz Chávez, por envenenamento). Chávez já disse várias vezes que o governo dos EUA planeja matá-lo. A se julgar pela forma como ele se apropriou da história de seu país para falsificá-la, e dos instrumentos da democracia para destruí-la, é de supor que ele é capaz de cometer suicídio somente para botar a culpa no Bush, ou de culpá-lo pela morte de Bolívar. Enquanto a História for vista como uma via de mão única, com os esquerdistas retratados sempre como vítimas e seus adversários, como cruéis vilões, seus fantasmas continuarão a nos assombrar.

VÍDEO CASSETADA

Estava até pensando em escrever sobre a verdadeira chanchada que virou o caso dos cartões corporativos. Mas o vídeo abaixo, uma paródia de uma cena do filme "A Queda", já diz tudo. O vídeo está circulando na internet, já há algum tempo. É a coisa mais hilariante - para não dizer, infelizmente, realista - que eu já vi na rede em muito tempo. Dêem uma olhada e morram de rir também.
.
Direto dos porões do Palácio do Planalto:

http://br.youtube.com/watch?v=kRiRKKO8HvU

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

RELIGIÃO, UM ASSUNTO DISCUTÍVEL


Um ditado tão antigo quanto idiota afirma que política, religião e futebol não se discutem. Cansei de ouvir esse mantra na hora do jantar, quando estávamos todos reunidos à mesa, provavelmente como uma forma de garantir uma refeição em paz e em família. Quanto ao último assunto, não discordo nem concordo, pois nunca me senti compelido a alguma emocionante discussão sobre quem foi o maior craque, ou qual o melhor time, o Corinthians de Caicó ou o Flamengo de Teresina. Aliás, sempre achei que futebol e atividade intelectual, definitivamente, não combinam. Com relação aos dois outros temas, porém, sou obrigado a discordar radicalmente. Política e religião se discutem, sim. Religião, mais até do que política, e com muito mais necessidade. Principalmente nos dias atuais.

Um povo se define, entre outras coisas, pelos seus ditados. O transcrito acima quer dizer, resumidamente, o seguinte: nós, brasileiros, não gostamos de debates profundos e/ou que possam causar controvérsias; gostamos, isso sim, ou de jogar conversa fora ou de rasgar seda. Educados na tradição católica ibérica, que valoriza acima de tudo o consenso, a unanimidade, aprendemos desde cedo a fugir da polêmica como o diabo foge da cruz. Encaramos um debate como uma briga pessoal, ou um embate de egos, nada mais. Além disso, para debater é preciso pensar, ter idéias, e isso cansa, dá trabalho. Melhor seguir o rebanho.

Considero isso - a aversão ao debate, ao choque de idéias - um de nossos principais vícios de formação, uma de nossas maiores taras nacionais. Para contornarmos a discussão, estamos dispostos até a renunciar ao que pensamos, se pensamos, para não desagradarmos a fulano ou beltrano. Percebe-se ai o peso de outra tara nacional: a propensão a elogiar os superiores, o puxa-saquismo, a falta de caráter e de personalidade.
.
Em nenhum outro assunto esse vício de formação se demonstra com tanta intensidade quanto na questão da religião. Em assuntos de fé, somos o povo mais politicamente correto do mundo. Daí minha cisma com os chamados religiosos "moderados". Ao contrário do que alguém poderia pensar, não sou anti-religioso, nem anticlerical. Sou tão anticatólico, por exemplo, quanto sou antiprotestante, anti-muçulmano ou anti-torcida do Botafogo. Ou seja: não sou nem contra nem a favor da religião. Sou apenas a favor do debate. Por isso só posso ser contra quando vejo que o caminho geralmente adotado pelos fiéis religiosos, quando diante da contestação a algum de seus dogmas, é simplesmente fugir à discussão, fechar-se em sua concha de certezas absolutas. Por exemplo: o debate sobre o Islã. Afinal, é uma religião que prega a violência ou não? Até o momento, a única coisa que eu vi seus defensores e até mesmo praticantes de outras crenças dizerem é que não, o Islã é uma religião de paz e tolerância, os atentados terroristas cometidos em seu nome não passam da obra de algumas mentes doentias, que apenas conspurcam o Islã. Em outras palavras: os atentados não têm nada a ver com a fé, e ponto final.

Toda vez que leio ou escuto argumento semelhante, fico com a sensação de que está faltando alguma coisa, de que estão querendo esconder algo importante. A questão não é se os lunáticos que se explodiram e levaram 3 mil pessoas junto em 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington estavam ou não agindo conforme a fé muçulmana, mas por que, se o Islã não tem nada a ver com o terrorismo islamita, não se vêem igualmente homens-bomba judeus ou protestantes, ou lamaístas? Por que são, quase sempre e exatamente, muçulmanos? Certo, a intolerância e o fanatismo não são exclusividade dos muçulmanos, há fanáticos e intolerantes em todas as religiões, e inclusive já escrevi sobre isso neste blog. Mas isso não responde a questão: por que, se o Islã é uma fé pacífica, quando se fala em terrorismo a primeira imagem que vem à mente, hoje em dia, é de um militante da Al Qaeda ou do Hizbollah, ou seja, de um muçulmano? Seria mera coincidência? Preconceito? Manipulação da mídia ocidental e cristã? Duvido muito.

Não pensem que sou inimigo dessa ou daquela fé em particular, nada disso. Nem tampouco que sou um adversário da fé em geral. Ter ou não ter fé, para mim, é uma questão individual, um direito. Como já disse, não tenho nada contra a religiosidade em si, motivo pelo qual me distinguo, por exemplo, dos marxistas, que querem abolir a religião por decreto (o que é a melhor maneira de reforçá-la, como mostra a História). Não tenho nada a ver com esse tipo de idiota. Mas nem por isso acho que a crença religiosa é algo inofensivo e sem conseqüências, como a crença infantil em Papai Noel ou no Coelho da Páscoa. O que me aborrece na discussão sobre religião, aliás como em tudo o mais, é a falta de honestidade. Do mesmo modo que sou a favor do debate, defendo a sinceridade total quando se trata desse assunto. Quero dizer o seguinte: fico bastante irritado quando vejo que a maioria dos que se dizem católicos, por exemplo, não sabem nada de sua fé. Isso fica claro em questões polêmicas como aborto, uso de preservativos e pesquisas com células-tronco. Agora mesmo surgiu um tal movimento "católicas pelo direito de decidir", que defende a liberalização do aborto. Ora, se são católicas, como podem defender o "direito de decidir" sobre esse assunto? Não lhes foi ensinado que abortar, para os cânones católicos, é um pecado seríssimo, um ato contra a vida, e que diante disso não cabe a ninguém "escolher", pois não é dado a ninguém que realmente acredita escolher pecar contra Deus ou não? E que isso é inegociável, como a infalibilidade papal e a virgindade de Maria? Assim como na questão dos preservativos e das células-tronco. Se querem ser a favor do aborto, tudo bem, não tenho nada contra. Aliás, acho mesmo que a decisão deve ser da mulher, e que o Vaticano está mesmo na contramão do progresso. Mas não me venham dizer que se pode conciliar o direito ao aborto com o catolicismo. Não me venham dizer que a Igreja deveria aceitar isso. Ao defenderem essa tese, as "católicas pelo direito de decidir" mostram-se tão anticatólicas quanto os ex-padres da auto-proclamada teologia da libertação, tão oportunistas quanto. Assim como estes, querem revogar 2 mil anos de história da Igreja Católica.

Das duas uma: ou as defensoras católicas do direito ao aborto não sabem o que estão dizendo, e, nesse caso, são ignorantes, ou sabem, e, nesse caso, não são católicas. É preciso escolher entre ser católico e ser a favor do aborto. Simples assim. E não me venham dizer que esta é um atitude autoritária e intolerante. Porque é claro que a fé é autoritária e intolerante, ora bolas. Ou vão dizer que não sabiam? Ou vão dizer que crer em Deus ou no Diabo, e nos santos, anjos, demônios, pecado original e outros dogmas do tipo é uma coisa lógica e racional? E, assim como é irracional, é uma escolha de cada um. Se ainda vivêssemos sob um Estado teocrático, em que todos fossem obrigados a seguir o credo oficial e todos os demais fossem reprimidos, como no Irã, eu diria que esta seria uma atitude autoritária e intolerante. Mas felizmente vivemos - pelo menos em teoria - num país onde o Estado é laico (ou seja: nem religioso, nem ateu), em que seguir essa ou aquela crença é uma decisão individual. Ninguém é obrigado a ser católico, assim como ninguém é obrigado a ser protestante, muçulmano, espírita, budista ou umbandista. Ou ateu. Do mesmo modo, todos devem ter o direito de se manifestar livremente em nome de sua crença. Outro dia o papa foi impedido de discursar numa universidade italiana. Achei um absurdo. Os estudantes e professores esquerdistas que lideraram o piquete contra Bento XVI tentaram justificar essa sua atitude alegando que as posições da Igreja sobre aborto, uso de contraceptivos, homossexualismo e pesquisas com células-tronco eram obscurantistas e retrógradas. Balela. Obscurantistas e retrógradas, as posições da Igreja sobre esses temas são mesmo. Mas Sua Santidade não iria ali para tentar impor suas crenças, mas apenas para discursar. Se discordavam do que ele iria dizer, é outra questão. Além do mais, se o convidado fosse um líder muçulmano, será que iriam tentar impedi-lo de falar?

Os que advogam a conciliação entre os valores cristãos e as exigências da modernidade, assim como os que afirmam que as ações da Al Qaeda não têm nada a ver com o Islã, mostram-se bem menos sinceros consigo mesmos do que os terroristas suicidas (aliás, suicidas nada: homicidas, mesmo). Estes pelo menos são coerentes com os preceitos da jihad, a guerra santa islâmica, que, ao contrário do que dizem por aí, não se restringe a uma luta espiritual interior, mas é uma guerra para valer, com sangue, morte e sofrimento. Entre a desonestidade relativista e politicamente correta, de um lado, e o integrismo dos fanáticos, de outro, fico na dúvida sobre qual é o mais nocivo para a humanidade.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

McCAIN PARA PRESIDENTE


Nem Hillary, nem Obama. Se eu fosse americano, meu voto iria para John McCain. McCain 2008. McCain na cabeça. McCain! McCain!

O responsável por essa minha adesão entusiasmada à candidatura do senador republicano à presidência dos EUA foi Fidel Castro. O ditador perpétuo de Cuba escreveu no jornal oficial da ilha-cárcere (ou seja: em seu jornal particular, como tudo o mais no país) que McCain mentiu ao dizer que foi torturado por militares cubanos quando era prisioneiro de guerra no Vietnã, quarenta anos atrás. Aproveitou para criticar o programa eleitoral de McCain, que ele chamou de "programinha", em questões como meio ambiente e etanol. Nesse último ponto, elogiou o programa brasileiro de biocombustíveis, afirmando que, se eleito, o candidato republicano tudo fará para sabotá-lo, a fim de substituí-lo pelo etanol de milho produzido nos EUA, muito mais caro e de menor rentabilidade (logo ele, Fidel, que já cerrou fileiras com seu colega e clone Hugo Chávez, de cujo petróleo depende, para condenar o etanol como um todo, dizendo que este vai, inclusive, aumentar a fome no mundo. Mas deixa pra lá...).

O ditador caribenho é o maior cabo eleitoral de John McCain. Por um motivo muito simples. Se Fidel Castro disse que alguém está mentindo, então é óbvio que quem ele acusou só pode estar dizendo a verdade. Se o "Coma Andante" afirma que dois mais dois são quatro e que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário, eu vou me dar o direito de duvidar da matemática e das leis da astronomia. Se o carcereiro de 11 milhões de pessoas afirma que algo é ruim, logo só pode ser bom. E vice-versa. Por conseguinte, se ele insinua que os democratas têm as melhores propostas, o lógico, o correto, é deduzir que McCain é o melhor candidato. Esse é o meu critério.

Não sei se os torturadores de John McCain eram mesmo cubanos. Aliás, nem sei se ele disse mesmo isso. Até agora, todas as minhas buscas na internet para identificar a fonte dessa informação se mostraram infrutíferas (cartas para a redação!). Mas é algo bastante possível, embora pareça improvável, rocambolesco até. Não me surpreenderia que, no mundo surreal da Guerra Fria, militares cubanos, agindo sob as ordens de Fidel, tenham dado uns tabefes num piloto de aviões norte-americano, quando este era hóspede de uma cela de prisão vietnamita, no fim dos anos 60. Hoje parece difícil acreditar, mas essas coisas aconteciam. A partir daquela década, "assessores" cubanos foram enviados a vários países do mundo, sobretudo na África e na América Latina, para ajudar a "exportar a revolução" e "combater o imperialismo". Com esse objetivo em mente, militares cubanos lutaram, com maior ou menor sucesso, em países como Congo, Bolívia, Venezuela, Guiné-Bissau, Angola, Etiópia e Síria. Cubanos estavam ao lado de Salvador Allende, quando do golpe de 1973 no Chile. Naquele mesmo ano, tanquistas cubanos chegaram a trocar tiros com tanques israelenses, ao lado das forças sírias, na Guerra do Yom Kippur. Esses são fatos históricos incontestáveis, comprovados por farta documentação. Mesmo assim, admito a possibilidade de McCain ter-se equivocado, ou mesmo mentido, sobre seu passado. Em matéria de mentira e manipulação histórica, porém, o ditador cubano está anos-luz à sua frente, assim como de qualquer mortal. Entre a palavra de um e de outro, fico com a de McCain sem piscar.

Ainda que apresente provas documentais irrefutáveis, Fidel Castro não tem o direito de chamar ninguém de mentiroso. Não há, provavelmente, em todo o planeta, quem tenha mentido mais, enganado mais, e com tanta desfaçatez e competência. Fidel é um mentiroso profissional, um farsante contumaz e compulsivo. Toda a sua carreira, toda a sua vida, foi feita em cima de falsidades e mentiras. Desde que apareceu na ribalta internacional, há mais de cinqüenta anos, ele não tem feito outra coisa senão mentir. Ele mentiu quando tomou o poder, em 1959, dizendo-se um democrata e anticomunista. Mentiu ao dizer que a queda da ditadura anterior foi obra única e exclusivamente das ações heróicas de sua guerrilha mambembe de Sierra Maestra, criando o mito dos doze revolucionários que derrubaram uma ditadura a partir do zero, do nada, e fazendo todos esquecerem a existência de um amplo movimento de resistência nas cidades, que ele logo tratou de suplantar após apossar-se do poder. Mentiu quando exagerou os números da "guerra" (que, na verdade, nem guerra foi) entre os rebeldes e o governo, transformando 1.200 mortos em 20 mil (!), para efeito de propaganda. Mentiu quando disse que restauraria as liberdades democráticas e a Constituição cubana de 1940, tendo instituído, em vez disso, sua ditadura pessoal totalitária. Mentiu ao culpar os EUA por sua decisão de impor um regime ditatorial e voltar-se para a URSS, quando se sabe, hoje, que a comunização de Cuba começou antes de qualquer plano da CIA ou do Pentágono para derrubá-lo ou assassiná-lo. Mentiu e continua mentindo ao responsabilizar o "bloqueio" norte-americano pela penúria do país, causada tão-somente pela falência do regime comunista. Mente ao mostrar sua ilha da fantasia como um modelo de igualdade e justiça social para o mundo, em aspectos como saúde e educação, quando se sabe que Cuba era, antes de sua subida ao poder, um dos países mais desenvolvidos do continente também nessas áreas - fato geralmente ignorado pela legião de idiotas úteis esquerdistas que o idolatram. Mente ao criticar a democracia nos EUA, quando em Cuba as eleições são uma farsa feita para chancelar seu poder absoluto - as últimas eleições parlamentares cubanas, por exemplo, tiveram 614 candidatos para 614 vagas, com partido único, e nenhuma possibilidade de dissensão. Mente, finalmente, ao tachar qualquer movimento de oposição e em defesa dos direitos humanos na ilha como "terroristas" e "mercenários a soldo do imperialismo", aproveitando qualquer pretexto para colocar seus opositores na cadeia - no que conta com o apoio aberto e declarado dos companheiros Hugo Chávez e Lula da Silva, seus parceiros no Foro de São Paulo (pronto, já falei; não vou falar mais), que vão periodicamente em peregrinação à ilha, em busca das bênçãos e dos ensinamentos políticos do Grande Mestre. Enfim, ninguém mente mais, e com tantos cúmplices. Mente, mente, mente. Sem parar.

Se John McCain não foi totalmente honesto em suas memórias de guerra, as mentiras de Fidel Castro o tornam digno de crédito. Dirá alguém que estou me deixando cegar pela parcialidade, que uma mentira não anula outra etc. Mas, nesse caso, é preciso olhar mais além. É verdade que o fato de terem sido veteranos de guerra costuma ser capitalizado eleitoralmente pelos políticos estadunidenses, que não raro exageram no relato de suas façanhas no campo de batalha - o exemplo clássico é o de John F. Kennedy, transformado em herói de guerra por um incidente com sua lancha no Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial -, mas nenhum deles prometeu uma revolução e fez outra, como fez Fidel Castro. Nenhum deles, seja republicano ou democrata, escravizou um povo inteiro prometendo-lhe liberdade. Nenhum deles hipnotizou tantos, e por tanto tempo, a ponto de perderem completamente a capacidade de discernir a realidade da fantasia. Além disso, se resolverem inflacionar seus feitos militares, os políticos ianques correrão o sério risco de se verem desmascarados como farsantes pela imprensa mais livre e mais bisbilhoteira do mundo. Ao contrário do que ocorre em Cuba, onde a palavra da imprensa é a palavra de Fidel, e ponto final. Creio que isso é mais do que suficiente para descartar o que quer que o tiranossauro do Caribe diga a respeito de seus adversários.

Outras razões, mais de política norte-americana, me fazem preferir McCain a seus concorrentes. Os republicanos, por tradição, sempre foram mais duros, menos flexíveis, com tiranias. Foi um republicano, o hoje incensado mas em sua época ridicularizado Ronald Reagan, que ajudou a enterrar o império do mal soviético nos anos 80, não recuando um milímetro em sua determinação de confrontar o comunismo (outro representante dessa estirpe política é Bush, atualmente execrado, mas a História lhe fará justiça). Por sua vez, os democratas representam as esquerdas (chamados de "liberais" nos EUA), algo que conhecemos muito bem. Entre suas fileiras, há gente que, embora fale em paz e democracia, não hesitaria em erguer uma estátua em homenagem aos governantes de países como o Irã e a Coréia da Norte, sem falar em Cuba e nas ex-ditaduras do Afeganistão e do Iraque. Gente, enfim, que trabalha, conscientemente ou não, para o terrorismo islâmico e Fidel Castro. Além disso, os republicanos são reconhecidamente menos protecionistas do que os democratas, o que interessa sobremodo ao Brasil, embora os esquerdistas hoje no poder em Brasília jamais o admitam.

Junto a essa minha análise uma certa dose de subjetivismo. Os pré-candidatos democratas não me agradam. Hillary Clinton traz o ônus do sobrenome e da (pelo menos para mim) antipatia pessoal. A meus olhos, ela representa o que há de pior na política norte-americana, com seu feminismo meia-oito e seu jeito de Margaret Thatcher dos politicamente corretos. Tenho, não nego, uma aversão quase orgânica a pessoas que tentam compensar o fracasso de suas vidas pessoais com a busca obsessiva por poder. Talvez seja um ranço machista de minha parte, um resquício de minha formação familiar tradicional, mas o fato é que não consigo evitar minha ojeriza a mulheres extremamente ambiciosas, com cara e jeito de executivas de multinacional, querendo desesperadamente mostrar uma força que não têm. É algo que soa, para mim, tão falso quanto uma nota de três dólares. E se essa mulher é a esposa de Bill Clinton, então nem dá para duvidar.

E Obama? Certamente, é melhor do que sua concorrente no partido democrata. A seu favor, está o fato de não ter usado, pelo menos até agora, o fato de ser negro (para os padrões dos EUA, diga-se) como um chamariz para angariar votos, explorando o velho discurso vitimista que os nossos militantes cotistas tanto adoram. Também contam a seu favor algumas declarações suas sobre a necessidade e a justeza de algumas guerras, embora tenha sido contra a guerra no Iraque (Hillary votou a favor, mas se arrependeu depois). Não parece ser, portanto, um demagogo insosso como Clinton ou Al Gore. Mas algo nele não inspira confiança: a vagueza, intencional ou não, de seus discursos, os apelos constantes por "mudança", sem explicar direito o que isso significa, até mesmo sua relativa juventude e simpatia entre os diretores e atores de Hollywood - quase todos ardentes democratas -, o que já lhe valeu o apelido de "Kennedy negro", soam falsos demais, artificiais demais, para ser levados a sério. Como não poderia deixar de ser, ele já começou a conquistar admiradores no Brasil. Arnaldo Jabor, que reclama de Lula mas adora falar mal de Bush para não ficar fora de moda, disse que Obama é "sexy". Até pouco tempo atrás, muita gente também achava muito sexy a barba e o português estropiado de Lula. Deu no que deu.

Por tudo isso, John McCain é meu candidato à sucessão de George W. Bush. Espero que ele ganhe. De preferência, contra Barack Obama. Mas é claro que essa não é uma decisão irrevogável. Basta Fidel Castro escrever outro artigo para o Granma, falando mal de Obama ou de Hillary e acusando-os de mentirosos. Nesse caso, sou capaz de repensar minha decisão.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

DE VOLTA ÀS COISAS SÉRIAS

O.k., o uso abusivo de cartões de crédito corporativos pela petralhada é um escândalo, o maior desde o mensalão. O.k., não se pode dar poder a esses petistas que eles já saem por aí aprontando a maior lambança com o dinheiro público. O.k., as tentativas do governo de - mais uma vez - "blindar" Lula e abafar o caso, tentando atirar lama nos adversários para desviar a atenção de todos, é de um cinismo atroz. O.k., o.k. Tudo isso já está claro como água ou como o céu de Brasília. Afinal, a coisa fede mesmo, e, se houvesse oposição de verdade no Brasil, já seria matéria suficiente para implodir o governo. Mas vou me permitir deixar esse assunto um pouco de lado para me concentrar no que considero um escândalo muito maior, muito mais tenebroso. Por mais escabroso, por mais grotesco que seja o caso dos cartões corporativos, é apenas um escândalo entre tantos, que provavelmente logo será ultrapassado por outro, e esquecido. O verdadeiro escândalo é outro, muito mais sério. Perto dele, as compras de Lula na padaria da esquina "em nome da segurança nacional" e a tapioca de Orlando Silva são fichinha. São nada mesmo. Nadinha. Uma merreca.

Refiro-me a algo sobre o qual venho escrevendo há algumas semanas, e sobre o qual continuarei escrevendo: o Foro de São Paulo. Insisto nesse assunto. Desculpem se pareço repetitivo. Perdoem-me se pareço meio obcecado e paranóico. Mas a coisa é séria. Muito séria mesmo. Arrisco-me a dizer que é o assunto mais sério a aparecer nos últimos quarenta anos na América Latina. Nada mais do que a maior ameaça à democracia no continente, desde então.

Dirá alguém que é exagero, que é muito barulho por nada. Que o Foro não é nada de mais, pois, afinal, o próprio nome diz: é um fórum de debates, onde os esquerdistas discutem suas bobagens, algo totalmente inofensivo etc., etc. Respondo, ou melhor, pergunto: onde já se viu um fórum de debates emitir resoluções ao final de suas reuniões? Onde já se viu uma resolução, aprovada unanimente, não ser uma diretriz para a ação política (e ação política envolvendo, vejam bem, o PT de Lula, o Partido Comunista Cubano de Fidel Castro, os narcobandoleiros das FARC e do ELN e os terroristas do MIR chileno, entre outros conhecidos democratas)? Lula já confessou publicamente que, entre outras coisas, manobrou junto ao Foro para garantir a vitória de Hugo Chávez no plebiscito de agosto de 2004 na Venezuela. Já admitiu em público que o Foro foi usado para intervir na política de um país vizinho. Fórum de debates inofensivo, uma pinóia.

Alguém dirá ainda: mas e daí que o tal Foro seja um espaço de articulação estratégica desses movimentos de esquerda, e que seu objetivo declarado seja recuperar na América Latina o comunismo, se o governo do Brasil, o governo de Lula da Silva, já deu mostras mais que suficientes de que não vai por esse caminho, que é, em vez disso, um governo da esquerda moderada, light, "vegetariana", "paz e amor", responsável e democrática? Um governo, enfim, que pode até fazer essa ou aquela concessão retórica aos radicais da esquerda carnívora, mas que está plenamente adaptado à democracia e à economia de mercado?

A isso respondo com uma pergunta: desde quando ter duas caras, cultuar a ambigüidade, mudando o discurso de acordo com a platéia, significa compromisso com a democracia e responsabilidade política? De fato, é só isso que Lula e o PT têm feito, desde a fundação do partido. Assim confundem e desnorteiam seus adversários. Lula recebe, num dia, Bush de braços abertos? Pois noutro dia lá está ele, tirando fotos com Fidel Castro. Discursa perante uma platéia de bem-vestidos empresários e presidentes no Forum Econômico Mundial em Davos? Pois faz o mesmo no Forum Social Mundial, para um multidão de radicalóides esquerdopatas, ou manda alguém em seu lugar. Para muitos incautos ou otimistas, isso é um sinal de moderação e pragmatismo político, uma prova de que Lula, enfim, é capaz de unir os dois pólos, pairando acima dos mesmos, e que o PT é o partido do juste milieu. Tola ilusão. Longe de significar responsabilidade e moderação, esse tipo de transmutação denota apenas falta de honestidade e oportunismo. Ao acender uma vela para Deus e outra para o Diabo, Lula não está agindo como um conciliador, como uma ponte entre dois extremos, mas, tal como o deus Jano, revela ter duas caras, dois discursos, duas agendas. Uma, oficial, a das entrevistas à imprensa e dos encontros com chefes de Estado e outra, clandestina. É aqui que entra precisamente o Foro de São Paulo, como um espaço em que Lula e Hugo Chávez, para não falar de Fidel e das FARC, possam tratar dos objetivos revolucionários do Foro, livres das amarras da política governamental.

Não sou eu que digo isso. É o próprio Lula. Em 2/7/2005, em discurso por ocasião da celebração do 15. aniversário do Foro de São Paulo, ao se referir à criação do "Grupo de Amigos da Venezuela", em 2003, ele disse que tal iniciativa "só foi possível graças a uma ação política de companheiros. Não era uma ação política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com outro presidente. Quem está lembrado, o Chávez participou de um dos foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível construirmos (...) a consolidação do que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez como presidente da Venezuela".
.
E mais:

"Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política. (...) Foi assim que nós assistimos a evolução política no nosso continente. "

Vêem agora por que o discurso das duas caras é inseparável da prática petista? Compreendem por que toda a propaganda em torno de Lula para torná-lo mais palatável à classe média e às elites não passa de uma estorinha da carochinha, um conto-de-fadas? Lula disse em Havana que condenava os seqüestros das FARC como arma política. Como, se ele e as FARC são parceiros no Foro? Como, se ele apóia a ditadura de Fidel Castro, que apóia as FARC, e que mantém cerca de 11 milhões de cubanos literalmente seqüestrados na ilha-prisão do Caribe? Não por acaso, Lula se definiu, um dia desses, como uma "metamorfose ambulante". É esse tipo de doublethink, de duplipensar, que está na base do pensamento e da ação do lulo-petismo: dizer sempre o contrário do que se faz; fazer o oposto do que se diz, a ponto de ser necessário um tradutor para entender o que Lula fala em seus discursos (e não somente por causa dos erros de português). Perceberam porque não se pode dar crédito à "conversão" política dos petralhas?

Dessa maneira, os companheiros petistas agem de forma realmente "dualética", como diz o Reinaldo Azevedo. Ou seja: com duas éticas, duas morais - uma, para consumo externo, para inglês ver, segundo a qual Lula é um governante sério e democrata exemplar, e o PT é o partido mais ético da história da humanidade; a outra, a verdadeira, é aquela que se expressa na prática política do governo e do partido, com o mensalão e os cartões corporativos.

Mas por que quase ninguém percebe isso, denunciando essa farsa monumental, a maior mentira na história "deste país"? Eu poderia arrolar centenas de motivos, mas o mais importante de todos, óbvio, é o controle hegemônico que a esquerda marxista e gramsciana exerce sobre a mídia. Claro, sou um paranóico, você deve estar pensando. Nesse caso, basta nos perguntarmos por que durante 18 anos a imprensa brasileira silenciou sobre o Foro de São Paulo, por exemplo. Impossível ter sido por falta de informação sobre o assunto, como qualquer um pode averiguar facilmente fazendo uma rápida busca no Google.

Há, também, causas circunstanciais. É inegável que, além de uma formidável máquina de propaganda ideológica a seu serviço, Lula teve, também, muita sorte. Sua ascensão política, aliás, foi o fruto de uma série de circunstâncias, quase do acaso. Nenhum petista irá jamais admitir, mas Lula é uma criatura da ditadura militar. Mais especificamente, do "cérebro" por trás do processo de distensão política do regime de 64, o general Golbery do Couto e Silva. O "bruxo", como era conhecido a eminência parda dos governos Geisel e Figueiredo, preparou o caminho para a espetacular ascensão de Lula, foi, na verdade, seu padrinho político, ao apostar na liderança do até aquele momento (fins dos anos 70) obscuro líder metalúrgico do ABC paulista para dividir ainda mais as esquerdas, em especial o MDB e o velho Partidão. Ao mesmo tempo, por meio de sua política da "panela de pressão", permitia que as esquerdas dominassem os ambientes artístico e acadêmico no Brasil, o que também teve reflexos no surgimento do fenômeno Lula. Nesse caso, Golbery cometeu um erro tremendo, entregando a cultura de bandeja nas mãos dos esquerdistas, que assim puderam conquistar, paulatinamente e por meio dos métodos gramscianos de propaganda, a hegemonia na mídia e nas artes, algo essencial ao mito lulista. No final da vida, Golbery, criador do SNI, o famigerado Serviço Nacional de Informações da ditadura militar, se arrependeria de sua mais famosa criação, dizendo que tinha criado "um monstro". Poderia ter dito o mesmo de Lula.
.
Claro que haverá quem tente descartar tudo isso que escrevi acima como mera fantasia. Não se pode esperar outra coisa das esquerdas. Seu controle da opinião pública já está tão fortemente arraigado que qualquer análise que destoe de seu projeto hegemônico, desmascarando suas manobras ideológicas, é imediatamente tachada como coisa de lunáticos, ridicularizada como maluquice e nada mais. Também joga a seu favor o fato de que a maior parte da população brasileira, principalmente a classe média, não está muito interessada em saber das maquinações revolucionárias do Foro de São Paulo. Para a maioria dos brasileiros, essas são coisas obscuras, abstratas, impalpáveis, tal como o próprio Foro até pouco tempo atrás. Sua indignação volta-se mais facilmente para escândalos menores, como o dos cartões corporativos, diluindo-se num moralismo efêmero e sem conseqüências, que apenas espera estourar o próximo escândalo para se manifestar, recolhendo-se em seguida a um simples resmungo ou muxoxo.

De nada adianta culpar o incendiário por jogar uma bituca de cigarro na rua. Já disse e repito: enquanto não se ligar a roubalheira petista ao projeto ideológico continental de que o PT é parte integrante, só se fará enxugar gelo e ensacar fumaça. Podem me chamar de repetitivo. Podem me tachar de obcecado e paranóico. Prefiro isso a ser cego ou cúmplice de uma gigantesca mentira.

domingo, fevereiro 10, 2008

AVISO AOS NAVEGANTES

Tenho recebido alguns posts muito simpáticos, em geral anônimos, de algumas pessoas indignadas com o que escrevo, recheados de palavrões, entre os quais referências, digamos, desabonadoras à minha genitora. Resolvi não publicá-los aqui. Não por algum pudor moral de minha parte ou simples gosto estético, nada disso. Não tenho nada contra o palavrão. Pelo contrário: considero o palavrão uma forma perfeitamente legítima de expressão, muitas vezes a única que certos indivíduos conhecem para dizer o que pensam. Também não o fiz por nenhuma questão de orgulho ou por simples respeito a meus parcos leitores, embora eles mereçam coisa melhor.
.
Não publiquei e não publicarei neste blog mensagens com palavras de baixo calão e ofensas gratuitas dirigidas a mim ou a quem quer que seja por um motivo muito mais prosaico: sou um sentimental, um piegas. A compaixão por meus semelhantes - e, principalmente, pelos dessemelhantes - é um de meus maiores defeitos, talvez o maior de todos. Como disse, não tenho nada contra o palavrão em si, inclusive dirigido à minha pessoa. Afinal, trata-se de uma forma sincera de expressão, sem inibições lingüísticas e morais. É algo que diz muito sobre quem o diz ou escreve, mais do que sobre os alvos desses xingamentos. Podem falar o que quiserem de mim, eu não ligo. É precisamente por isso que não publico esse tipo de coisa aqui: primeiro, porque eu não dou a mínima, e segundo, porque desejo poupar seus autores do constrangimento de verem esse traço de sua personalidade escancarado de maneira tão explícita. Sendo eu um sentimental e um piegas incorrigível, do tipo que ainda se comove com a miséria humana, causar-me-ia dor no coração ver alguém ser exposto a um ridículo tão atroz, publicando aqui esse tipo de excremento saído de suas mentes doentias.
.
Portanto, meninos, ao não verem seus posts me chamando de filho disso ou daquilo publicados aqui, não encarem isso como uma forma de censura. Ao fazê-lo, estou tentando preservá-los de virarem alvo de escárnio. Não fiquem tristes. Não gosto de ver ninguém, mesmo protegido pelo anonimato, exposto à execração pública, com sua personalidade mostrada tão abertamente na internet - deve ser por isso, imagino, que não colocam seus nomes nas mensagens. Sem falar nos erros de português e de lógica (como chamar comentário de "matéria", por exemplo). Creio que é um favor que lhes faço. Espero que me entendam. Se não entenderem, paciência.
.
Dito isso, deixemos os malcriados de plantão de lado e voltemos às coisas sérias.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

CONHECENDO "O VELHO"

Certa vez, no distante e bastante mitificado ano de 1968, o dramaturgo maldito e cronista genial Nelson Rodrigues estava numa festa de grã-finos. Ele gostava de freqüentar tais lugares, e tinha especial obsessão por certos personagens dessa fauna exótica, como "a grã-fina de narinas de cadáver". Dez em cada dez presentes àquele sarau da fina flor da grã-finagem carioca se declarava marxista ("como é marxista a nossa elite!"). Havia mesmo, entre os convivas, uma "amante espiritual de Guevara", vejam só.

A festa estava cheia de bons marxistas. Só se falava de Marx e sua incrível capacidade intelectual etc., etc. Na época, chamava-se a isso "esquerda festiva" (hoje seria algo como a beautiful people, os politicamente corretos de todos os tipos, defensores das cotas raciais e eleitores de Lula e do PT). Eram tão marxistas, aliás, que discutiam mesmo a furunculose de Marx, a quem chamavam, em tom reverente e ao mesmo tempo quase familiar, de "O Velho". Sabendo disso, o famoso reacionário - o único escritor brasileiro, que eu saiba, a ostentar com orgulho esse título - chamou a todos para ouvirem "umas piadas bacanérrimas". Pondo as mãos no bolso, retirou algumas notas que havia rabiscado e, disposto a provocar aquelas mentes tão ilustradas, tão iluminadas, tão progressistas, começou a lê-las para todos ouvirem. Eis algumas das frases:
.
- "O imperialismo é a tarefa dos povos dominantes - Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos";

- Sobre os EUA: "o país mais progressista do mundo";

- "Contra o imperialismo russo, a salvação era o imperialismo britânico";

- "O defeito dos ingleses é que não são bastante imperialistas";

- "O colonialismo é progressista porque os povos domináveis e colonizáveis só têm para dar a estupidez primitiva";
.
- Sobre o budismo: "o culto bestial da natureza";

- Sobre a China: uma "civilização que apodrece";

Sobre a vitória dos EUA contra o México, em 1848:

- "Presenciamos a conquista do México E REGOZIJAMO-NOS PORQUE ESTE PAÍS, FECHADO EM SI MESMO, dilacerado por guerras civis, e negando-se a toda evolução, seja precipitado violentamente no movimento histórico. No seu próprio interesse, terá que suportar a tutela que, desde este momento, os Estados Unidos exercerão sobre ele";

E continuava:

- "A Alemanha é um povo superior e os latinos e os eslavos, mera gentalha";

- Ainda sobre os eslavos: "Povos piolhentos, estes dos Bálcãs, povos de bandidos";

- Sobre os búlgaros, em particular: "um povo de suínos", que "melhor estariam sob o domínio turco";

- Sobre os povos eslavos, em suma: "povos anões", "escórias de uma civilização milenar";
.
- E, finalizando: "A expansão russa para o Ocidente é a expansão da barbárie".

A cada frase daquelas, o público fremia de indignação mal-contida. Que absurdo! Que intolerância! Que deslavada apologia do imperialismo e do racismo!, pensavam. Quem teria escrito tamanha barbaridade? Hitler? Goebbels? Mussolini? Franco? O general Médici? Após ler por duas horas para os indignados da "festiva", o dramaturgo, recuperando o fôlego, embolsou as notas e perguntou: "Vocês ouviram. O autor ou autores citados já morreram. Quero saber se teriam coragem de cuspir na cova de quem escreveu tudo isso." Perguntou ainda: "Quem pensa assim, e escreve assim, é um canalha?"

A resposta dos presentes foi fulminante: "É um canalha!".

Nelson Rodrigues ainda os advertiu:

"Calma, calma. São dois os autores! Vocês têm certeza de que são dois canalhas? E canalhas abjetos?"

Novamente, os marxistas de salão ali presentes foram unânimes e enfáticos na resposta. Sim, os autores eram dois canalhas da pior espécie. Canalhas abjetos. Se vivos fossem, os convivas não hesitariam em pular sobre seus pescoços e chupar-lhes as carótidas. Sim, escarrariam, felizes, sobre seus túmulos. Sapateariam, feito possessos, em suas covas, maldizendo-os para sempre.
.
Foi então, sem que pairasse qualquer dúvida, que o dramaturgo alçou a fronte e revelou os nomes dos dois canalhas: Karl Marx e Friedrich Engels. Silêncio na sala. Nelson Rodrigues repetiu: "Marx e Engels, os dois pulhas, segundo vocês".

Desnecessário dizer que os grã-finos da "festiva" ficaram totalmente embasbacados com a revelação. Marx e Engels, os criadores do "socialismo científico", os deuses da revolução, "eram paladinos fanáticos do imperialismo, do colonialismo, admiradores dos ianques, russófobos". Tanto que escreveram o seguinte: "A revolução proletária acarretará um implacável terrorismo até o extermínio de todos esses povos eslavos".

Retirei o episódio acima de uma crônica de Nelson Rodrigues, "O Velho", publicada em O Globo de 3/5/1968 e que consta do livro A Cabra Vadia: Novas Confissões (Rio de Janeiro: Agir, 2007, páginas 172-176). Quem tiver interesse em se aprofundar no assunto, recomendo ler as cartas de Marx e Engels, que podem ser facilmente encontradas em sebos e bibliotecas públicas, em edições antigas e emboloradas de suas Obras Completas.

Os grã-finos de Nelson Rodrigues, e isso ele queria dizer, não entendiam patavina de Marx e Engels. Liam sobre os dois, conversavam sobre os dois, até escreviam sobre os dois, mas não tinham a menor idéia do que eles pensavam de verdade. Entre eles, é bom que se diga, não havia somente socialites de cabeça oca, mas também "poetas, romancistas, sociólogos, ensaístas. Intelectuais da mais alta qualidade". O marxismo, para eles, como para a maior parte da intelectualidade brasileira, era uma moda de salão, nada mais. As passeatas, àquela época, eram o "must". Todos queriam ser de esquerda, parecer de esquerda, usar o vocabulário e os ornamentos da esquerda. De fato, dizer-se marxista, ou pelo menos de esquerda, passou a ser, entre nós, uma verdadeira religião, uma obrigação moral. Daí os personagens impagáveis que ele criou: o "padre de passeata", a "freira de minissaia", a "estagiária da PUC", "o marxista de galinheiro" e por aí vai.

Ninguém sabia o que era ser de esquerda, de verdade. Nem então, e nem hoje. Atualmente, os esquerdistas estão no poder no Brasil. Entre eles, há muitos que se dizem e se consideram marxistas, até marxistas-leninistas. Falam ou pretendem falar em nome do povo, dos oprimidos, contra o imperialismo e a dominação dos fortes sobre os fracos etc., etc. Exatamente o oposto do que afirmavam Marx e Engels. Para esses dois, somos todos uns bárbaros, uns primitivos, uns comedores de banana, uns suínos, uns piolhentos, mais insignificantes do que ratos. Estaríamos melhor debaixo da dominação de algum povo superior, como os alemães ou os norte-americanos. É impressionante como certas coisas não mudaram. Quem, dentre a companheirada hoje no governo, teria a coragem e a sinceridade de admitir que seus ídolos são dois defensores ferrenhos da escravização de povos inteiros, do racismo, da exploração desenfreada, da guerra, do genocídio? Dois canalhas da pior espécie. Canalhas abjetos.

Nelson Rodrigues dizia que certas verdades somente confessamos numa entrevista imaginária, à meia noite, num terreno baldio, à luz de archotes, tendo apenas uma cabra vadia por testemunha. Eis uma verdade que só assim confessamos: "somos analfabetos em Marx, dolorosamente analfabetos em Marx". Os esquerdistas, os mais analfabetos de todos.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

CONSTANTINE MENGES TINHA RAZÃO


Constantine Menges estava certo. Quem?, você deve estar se perguntando. Vou repetir o nome para ninguém esquecer: Constantine Menges. Mas quem é essa figura? É, não. Era - morreu alguns anos atrás. E o que ele disse ou escreveu para estar certo, e sobre o quê? Vou contar uma historinha.

O ano era 2002. Corria a campanha presidencial no Brasil. Os dois candidatos favoritos eram Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra. O favorito, Lula, todos sabemos, ganhou a eleição. Respirava-se, então, um certo ar de desconfiança, não se sabia exatamente a que vinha o candidato do PT (agora se sabe muito bem: veio para transformar o Estado num cabide de empregos para os companheiros, refestelados na farra dos cartões de crédito corporativos, entre outras práticas republicanas). Os mercados ainda tremiam ante a perspectiva de um governo petista. Lula não havia lançado ainda sua "Carta aos Brasileiros", na qual provava que os homens do dinheiro poderiam ficar tranqüilos, pois um governo da companheirada poderia muito bem conviver com seus lucros (e até multiplicá-los, como se viu depois, abrindo-se formidáveis oportunidades de negócios, como, por exemplo, no setor de telefonia, como bem sabe o Lulinha). Foi nesse ambiente de insegurança e receio, sintetizado pela fala patética de Regina Duarte na TV ("tenho medo"), que um desconhecido professor norte-americano, Constantine Menges, publicou nos jornais dos EUA, às vésperas das eleições brasileiras, um texto assustador, intitulado "Blocking the New Axis of Evil" ("Bloqueando o Novo Eixo do Mal").

Aquilo estourou como uma bomba. Poucas vezes um artigo causou tanto espanto e indignação. Resumidamente, o gringo dizia o seguinte:

- A ascensão de Lula da Silva no Brasil constituía uma séria ameaça à segurança do continente ("Uma nova ameaça terrorista de armas/mísseis bélicos nucleares pode surgir, incluindo Fidel Castro de Cuba, o regime Chavéz na Venezuela e o próximo presidente eleito radical do Brasil, todos com ligações com Iraque, Irã e China"."Se o candidato pró-Castro for eleito presidente do Brasil, os resultados podem incluir um regime radical no Brasil, o restabelecimento de seus programas de armas nucleares e de mísseis bélicos, com ligações estreitas com Estados patrocinadores do terrorismo, como Cuba, Iraque e Irã, com efeitos na desestabilização das frágeis democracias vizinhas.")

- O então candidato favorito à presidência do Brasil, Luiz Inácio da Silva, do Partido dos Trabalhadores, era "um radical pró-Castro com extensos laços com o terrorismo internacional".

- As inclinações radicais de Lula se evidenciavam pela sua aliança de longa data com o ditador Fidel Castro e pela fundação, juntamente com este, do Foro de São Paulo ("O senhor da Silva não guarda segredos de suas simpatias. Ele tem sido aliado do senhor Castro por mais de 25 anos. Com a ajuda do senhor Castro, o senhor da Silva fundou o Fórum de São Paulo em 1990, como um encontro anual de comunistas e outros terroristas radicais e organizações políticas da América Latina, Europa e Oriente Médio, o qual tem sido usado para coordenar e planejar atividades políticas e terroristas ao redor do mundo e contra os Estados Unidos").

- Inimigo do capitalismo e do mercado, um governo Lula seria um retrocesso no caminho para a criação da ALCA, a Área de Livre Comércio das Américas, e para a liberalização econômica no continente ("Como o senhor Castro, o senhor da Silva culpa os Estados Unidos e o 'neo-liberalismo' pelos problemas reais das áreas sociais e econômicas que o Brasil e a América Latina ainda enfrentam. O senhor da Silva chamou a Área de Livre Comércio das Américas de um plano dos Estados Unidos para 'anexar' o Brasil, e ainda disse que os financiadores internacionais que buscam o pagamento de seus empréstimos de 250 bilhões de dólares são 'terroristas econômicos.' Ele também disse que aqueles que estão retirando investimentos do Brasil com medo de seu regime são 'terroristas econômicos'. Isto nos dá uma idéia sobre o tipo de 'guerra contra o terrorismo' que seu regime irá conduzir.")

- Um governo Lula no Brasil seria um estímulo importante para as ações de governos antidemocráticos e antiamericanos na região, como o de Hugo Chávez na Venezuela, assim como para movimentos terroristas como as FARC ("O Brasil divide fronteiras com outros 10 países da América do Sul. Isto ajudaria da Silva a estimular - e ele frisou que o faria - a política externa do regime Chavez, pró-Castro e pró-Iraque, na Venezuela, que tem provido suporte aos comunistas narcoterroristas da FARC na Colômbia, assim como outros grupos anti-democráticos em países da América do Sul.")

- A ascensão de Lula significaria, enfim, a criação de um verdadeiro "Eixo do Mal" na América Latina, unindo o Brasil à ditadura de Cuba e ao regime chavista na Venezuela ("Um eixo Castro-Chavéz-da Silva significaria ligar os 43 anos da política de guerra de Fidel Castro contra os Estados Unidos, com a riqueza em petróleo da Venezuela e o potencial econômico e nuclear bélico do Brasil").

Confesso que, ao ler pela primeira vez essas linhas, eu mesmo tomei um choque. Aquilo parecia puro delírio paranóico. O fato de o autor do texto ser ligado a uma instituição ultraconservadora, de direita, o Hudson Institute, e ter inclusive trabalhado no Conselho de Segurança Nacional e na CIA, certamente influiu para que quase ninguém o levasse a sério. Resultado: as advertências do autor foram quase imediatamente postas de lado, como coisa de lunáticos. Lembro que, uma noite, em uma dessas cerimônias do Itamaraty, eu e um grupo de colegas do Instituto Rio Branco cercamos a então embaixadora dos EUA no Brasil, Donna Hrinak, e lhe indagamos sobre o texto. Ela, muita solícita, muito simpática, tratou logo de descartar avaliação tão alarmante, dizendo que o governo norte-americano não endossava absolutamente aquelas idéias. Até a representante do "Império" achou o texto absurdo... Eu mesmo, que ainda não sabia da existência e das maquinações do Foro de São Paulo, achei que aquilo tudo era um exagero, para dizer o mínimo. Para mim, Lula podia ter, e certamente tem, todos os defeitos, entre os quais farsante e enganador, além de espertalhão e preguiçoso. Mas radical e incendiário, achava eu, ele não era.

Ledo engano. Hoje, passados quase seis anos, sou forçado a reconhecer que as palavras de Constantine Menges eram proféticas. Ele acertou em cheio. Todas as suas previsões se mostraram precisas, certeiras.

Leia novamente os pontos enumerados acima. De todos os vaticínios adiantados por Menges, apenas um, o de que o Brasil poderia restabelecer seu programa de armas nucleares iniciado no regime militar, ainda não se mostrou realidade. Mas isso não significa que os companheiros petralhas tenham desistido da idéia. Muito pelo contrário. Vez ou outra se ouve um rumor êntre as fileiras petistas e seus aliados, em favor da retomada do projeto nuclear brasileiro, em nome do ideal megalomaníaco de "Brasil Potência". O que mostra que Constantine Menges não estava tão longe da verdade assim também nesse quesito.

Onde o analista norte-americano mais acertou, claro, foi na análise (na verdade, na denúncia) das relações para lá de íntimas e cordiais entre o então candidato Lula e Fidel Castro, assim como com o protoditador Hugo Chávez e as FARC. Alguém pode negar, à luz dos últimos fatos ocorridos na América Latina, que esse "eixo do mal" realmente existe? Quem pode dizer, ante a pilha de evidências fartamente documentadas e disponíveis na internet, que Lula, Fidel Castro, Chávez, Morales, Correia, e os terroristas das FARC e do MIR chileno não são parceiros na mesma organização revolucionária continental, o Foro de São Paulo? Essa aliança, que Menges escancara, é uma realidade, um fato inegável, como comprovam as atas do Foro. Mas esse alerta caiu, então, em ouvidos moucos. É que, na época, Lula tentava ganhar o apoio das elites e da classe média e, apelando para uma jogada de marketing jamais igualada na história do Brasil, apresentava-se como um esquerdista "domesticado", light - "Lulinha paz e amor". Muitos caíram nessa. E hoje pagam o preço de sua cegueira ou ingenuidade.

Não sendo possível refutar fatos tão concretos, tão evidentes que só faltam subir nos telhados e gritar nas esquinas, não resta outra coisa a fazer às esquerdas senão tentar desqualificar o autor de denúncias tão graves, tão escabrosas. É a velha tática de atacar o mensageiro, e não a mensagem. Sim, Constantine Menges era um falcão, um conservador de direita, um membro do staff presidencial de Bush e ardente anticomunista, além de ter trabalhado para a CIA. E daí? Desde quando para desmascarar uma impostura é preciso ter atestado de pureza ideológica? A simples exigência desse pré-requisito demonstra até que ponto chegou a hegemonia ideológica das esquerdas: só se aceita a crítica vinda das próprias hostes esquerdistas, nunca de fora delas. Ou seja: se o sujeito é um completo idiota, um débil mental de babar na gravata (como dizia Nelson Rodrigues), sem nenhuma idéia própria, mas se apresenta e se comporta segundo os cânones da esquerda, sempre haverá quem o ouça com atenção. Se, ao contrário, ele apresenta provas concretas e irrefutáveis do que diz, se a realidade comprova item por item tudo que ele escreveu, mas é "um reaça", ninguém lhe dará a mínima. O fato de o acusador ser de direita ou conservador vale tanto quanto querer saber qual seu prato preferido ou para que time de futebol ele torce. E, no caso de Constantine Menges, um refugiado nascido na Turquia e naturalizado norte-americano depois de fugir do nazismo na Europa e ter ajudado a resistência à dominação soviética no Leste Europeu durante a Guerra Fria, o anticomunismo é uma virtude.

Se os esquerdistas tivessem um pingo de honestidade intelectual, para não dizer vergonha na cara, deveriam todos ficar de joelhos, contritos, e pedir perdão a Constantine Menges. E se não fôssemos tão ingênuos, tão parvos e idiotas, estaríamos hoje todos arrependidos e envergonhados por não lhe termos dado a devida atenção.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

CHÁVEZ, O TERRORISTA


(Nesta segunda-feira, dia 4 de fevereiro, ocorreram manifestações de protesto em vários países contra as FARC. Milhares de pessoas saíram as ruas para expressar sua condenação e dar um basta aos seqüestros dos narcoterroristas colombianos. Menos no Brasil).

Do blog de Reinaldo Azevedo, 4/02/2008 (o texto está em negrito, meus comentários vêm em seguida):

Os colombianos, mais uma vez, manifestam seu inequívoco repúdio ao terrorismo. Não é a primeira vez, certo? As eleições democráticas do país e a popularidade do presidente Álvaro Uribe deixam isso muito claro. Mas é importante que o protesto tenha um alvo definido.

O que causa estranheza — ou nem tanto — é que justamente os familiares dos seqüestrados tenham decidido não participar. Não deixa de ser uma evidência de que os terroristas foram longe demais. Compreende-se: vivem sob chantagem, sob o tacão do medo, que é a condição dos parentes das vítimas desse tipo de crime. Temem ver seus nomes no noticiário, o que colocaria sob risco seus entes queridos. Triste é ler a justificativa: “O evento foi politizado” — como se pudesse haver um protesto contra o terror que fosse imune à política.

Claro, aí também estão as patas do ditador do outro lado da fronteira: Hugo Chávez. Ele foi o primeiro a se opor à manifestação de protesto e ainda se coloca como um intermediário entre os familiares e os terroristas — ou seja: é terrorista também. O vagabundo já afirmou que os narcobandoleiros têm “um projeto político bolivariano”. Portanto, reconhece a sua legitimidade.

Assim, os familiares dos seqüestrados temem endossar a luta contra o terror e lançar o nome de seus parentes numa lista negra do terrorismo e do chavismo. Nesta segunda, o coronel saudou a disposição das Farc de libertar mais três pessoas, como se fosse uma concessão que devesse ser aplaudida, um gesto de boa vontade. Ao mesmo tempo, estimula o conflito com a Colômbia, falando no risco de um conflito armado entre os dois países.

Os colombianos e milhares de cidadãos em várias partes do mundo manifestaram seu repúdio contra o terrorismo das Farc. E que fique claro: contra Hugo Chávez também.

---
Creio que as palavras acima resumem tudo. Faço apenas um pequeno adendo: as FARC, para quem ainda não sabe ou se nega a ver, é parceira do governo Lula da Silva e do PT no Foro de São Paulo, sobre o qual já falei aqui. Assim como o Chávez, que tenta posar de intermediário quando na verdade apóia os narcoterroristas colombianos. Está claro agora porque as declarações de Lula em Havana "condenando" os seqüestros como "abomináveis" foram tudo pura encenação, um teatrinho hipócrita para inglês ver? Está claro porque o governo brasileiro, com Lula e Marco Aurélio Garcia à frente, se recusa a reconhecer as FARC como um bando de seqüestradores, assassinos e terroristas?
.
Que fique claro: os protestos desta segunda-feira no mundo todo não foram contra as FARC e Hugo Chávez somente. Foram contra Lula também. Foram contra todos os que, por cinismo, omissão ou covardia, preferem silenciar e fingir-se de cegos ante o que ocorre na Colômbia.
.
Outra coisa. Tudo bem que é carnaval, mas alguém viu alguma manifestação em alguma cidade do Brasil, por menor que fosse, contra as FARC nesta segunda-feira? Não vi vivalma, um gato pingado sequer. Onde estava a UNE? E a CUT? E a CNBB? E as entidades de direitos humanos? Devem estar esperando a folia de momo passar e a ressaca acabar para botarem o bloco na rua novamente. Desta vez contra Bush, a guerra no Iraque, a globalização, o neoliberalismo... Esse é o Brasil.
.
Quem apóia narcotraficantes e terroristas, como fazem Chávez e Fidel Castro, é narcotraficante e terrorista também. E quem se cala diante do narcotráfico e do terrorismo, recusando-se a chamá-los pelo nome, como deve ser chamado?

"PARANÓIA" BEM FUNDAMENTADA

Antecipando-me às críticas que os esquerdistas provavelmente farão ao artigo de Reinaldo Azevedo sobre o Foro de São Paulo, publicado na Veja da semana retrasada, resolvi eu mesmo lançar-me à tarefa de analisar os prováveis argumentos que deverão ser utilizados pela companheirada para tentar desqualificar o artigo e o autor. Ao fazer isso, estou sendo bastante otimista, pois é sabido que esse pessoal, quando contrariado, não tem por costume o debate sobre fatos e idéias, mas unicamente grunhir e partir para o achincalhamento e a agressão pessoal, no pior estilo stalinista. Até o momento, por exemplo, não vi nenhuma refutação ao artigo de R.A., o qual comentei em meu texto anterior. Talvez os companheiros petistas e seus aliados ainda estejam desnorteados com a ousadia sem paralelo de um jornalista falar abertamente, num grande veículo de imprensa, sobre uma entidade cuja simples existência era negada de forma sistemática. Talvez estejam meio ressabiados, pois afinal não poderão mais contar com o silêncio cúmplice de parte da grande imprensa sobre assunto tão cabeludo. Nesse caso, é provável que prefiram ficar na moita, esperando a poeira baixar e todos se esquecerem. Mas aposto quanto vocês quiserem que a linha de argumentação dos petralhas seria mais ou menos assim:
.
O Foro não é nenhuma entidade revolucionária ou subversiva, e muito menos tem por objetivo a instalação do comunismo na América Latina. Ele nada mais é do que um simples fórum de debates entre os partidos e movimentos políticos de esquerda e centro-esquerda do continente, comprometidos com a democracia e os direitos humanos, a fim de defender uma alternativa popular e progressista à globalização neoliberal e ao avanço do imperialismo norte-americano no continente. Qualquer afirmação em contrário é somente paranóia etc. etc. etc. Esse tipo de lengalenga já foi dito antes, como se pode ver por aqui(http://www.olavodecarvalho.org/semana/10192002globo.htm e http://www.olavodecarvalho.org/semana/061016dc.html)
.
Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir logo perceberá, sem muito esforço mental, que todos os "argumentos" elencados acima não passam de uma gigantesca tentativa de enganar mais uma vez o público. Não sendo mais capazes de simplesmente esconder de todos a existência do tal Foro, tratarão agora de minimizar seus objetivos, dando-lhe ares de um clube de senhoras ou de um inofensivo círculo de debates acadêmicos. Não dêem ouvidos a essas platitudes. É tudo lorota. O Foro de São Paulo não é inócuo e inofensivo coisíssima nenhuma. É, isto sim, um instrumento da revolução continental, destinado a derrubar as estruturas políticas vigentes e instaurar o comunismo na América Latina. É, enfim, o maior perigo à democracia e à liberdade no continente nas últimas quatro décadas.
.
Delírio? Loucura? Fantasia paranóica? Então vejamos. Em primeiro lugar, onde já se viu um fórum de debates emitir resoluções após seus encontros? Resoluções, ao que se sabe, são normas para a ação, diretrizes para a atuação política. Mas deixa pra lá. Para desmontar por completo esse conto-de-fadas, basta fazer um breve exercício de síntese histórica. O Foro foi criado em 1990, por iniciativa do PT, que convidou para dele fazer parte o Partido Comunista de Cuba, chefiado por Fidel Castro ("comprometido com a democracia e os direitos humanos", logo se vê). Muito bem. O que ocorria de tão importante no mundo, naquela época, que justificou tal iniciativa do partido de Lula? A URSS estava caindo pelas tabelas, vindo a extinguir-se no ano seguinte. O movimento comunista internacional, por conseguinte, parecia estar dando seus últimos suspiros, juntamente com a Pátria-Mãe soviética. Daí a iniciativa de Lula e Fidel Castro - comandante da única ditadura comunista do hemisfério ocidental - para, nas palavras do ditador cubano, "reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu". Vejam bem: não se tratava de "repensar" o comunismo, de "humanizá-lo", torná-lo mais "democrático", menos totalitário, como se tentou fazer - sem sucesso - na ex-Tchecoslováquia em 1968. Nada disso. Tratava-se de salvá-lo, de resgatar da ameça de extinção o movimento comunista. Esse objetivo ficou ainda mais evidente com a entrada na dita organização de outro movimento, as FARC, que saudou a criação do Foro como uma verdadeira "tábua de salvação" do movimento comunista latino-americano (v. http://port.pravda.ru/mundo/15168-farcsaudacao-0). Não por acaso, ao contrário dos ex-partidos comunistas da Europa ocidental, como o da Itália e o da França, o PT jamais renunciou de maneira formal e inequívoca ao marxismo. Ao contrário: sempre o manteve como uma espécie de reserva ideológica, cultivando a ambigüidade, dando pasto às feras enquanto posa de partido "moderado" e "responsável" perante a mídia e os investidores internacionais.
.
De lá para cá, o Foro de São Paulo se consolidou, realizando reuniões regulares a cada dois anos, sempre em cidades diferentes, como um "espaço de articulação estratégica" da esquerda continental. Como se dá essa articulação? O próprio Lula explicou recentemente, quando confessou, em público, em julho de 2005, ter trabalhado junto ao Foro para garantir a vitória de Hugo Chávez no referendo de 15 de agosto de 2004, que o manteve no poder: (http://www.info.planalto.gov.br/download/discursos/pr812a.doc). Ou seja: longe de ser um círculo de debates sem conseqüências, o Foro é, isto sim, um mecanismo de ação conjunta das esquerdas, acima e além dos governos e das soberanias. Um intrumento revolucionário supranacional, tal como foram a OLAS e o Comintern.
.
Não é preciso ser nenhum gênio ou Sherlock Holmes para perceber que os fatos mais relevantes que aconteceram na América Latina nos últimos dezoito anos - a ascensão de movimentos e governos populistas de esquerda como os de Chávez, Morales, Correa e Lula, para citarmos apenas alguns - não ocorreram no vazio, foram gestados e amamentados na incumbadora do Foro de São Paulo. Quando o Foro foi criado, em 1990, só um dos partidos que o compunham estava no poder - o Partido Comunista de Cuba, de Fidel Castro. Em 2008, já são vários os movimentos que dele fazem parte que alcançaram o comando do Estado - a começar pelo PT de Lula. E seus objetivos não se encerram por aí.
.
Isso é o Foro de São Paulo. Uma organização revolucionária, antidemocrática e anticapitalista, e não o clube de escoteiros que muitos imaginam. Se ainda têm alguma dúvida, não acreditem em mim, não acreditem em Reinaldo Azevedo. Acreditem no que dizem os documentos do Foro, os discursos de Fidel e Lula nas reuniões da entidade. Está tudo na internet. Se quiserem, dêem uma olhada e tirem suas próprias conclusões: http://www.midiasemmascara.com.br/links.php?language=pt.
.
Quando eu fazia parte de uma organização trotskista de extrema-esquerda, uns quinze anos atrás, eu considerava como principais inimigos, mais do que a burguesia e o imperialismo, o PT e seus aliados. Considerava-os, então, com seus discursos e maneiras moderados e bem-comportados, um bando de reformistas e contra-revolucionários, verdadeiros traidores da revolução socialista. O caminho para a revolução só poderia ser pavimentado por uma retórica inflamada e por palavras de ordem radicais, acreditava. Custou-me compreender que a estratégia mais eficiente para garantir o sucesso do processo da revolução comunista não passa necessariamente pelo enfrentamento direto e pela luta armada, mas se constrói no dia a dia, de forma quase imperceptível, mediante uma combinação habilidosa de métodos legais e ilegais, lícitos e ilícitos. Não tinha percebido ainda que a sonsice e a dissimulação, o fingir-se de bom-moço para ganhar as graças das elites enquanto se prepara o bote final, são parte inseparável da tática e estratégia revolucionárias. Via corretamente Lula e os petistas como uns farsantes e embromadores, mas pelos motivos errados. É que na época eu ainda não tinha lido Gramsci.
.
A participação do partido do presidente da República no Foro de São Paulo, ao lado de tiranos como Fidel Castro e de terroristas como as FARC e o MIR chileno, de modo a que essa articulação revolucionária possa ocorrer de forma quase subterrânea, semi-clandestina, nada mais é do que a comprovação dessa estratégia. Sua eficácia é medida principalmente pela insistência dos grandes meios de comunicação em silenciar sobre o assunto, cobrindo de insultos e de ridículo todo aquele que ouse quebrar esse pacto de silêncio e expor a verdade.
.
Delírio? Loucura? Fantasia paranóica? Sim, tudo isso.