domingo, fevereiro 03, 2008

UMA FANTASIA BASTANTE REAL (OU: COMO TRANSFORMAR A REALIDADE EM FICÇÃO, E VICE-VERSA)


Peço licença a quem lê estas linhas para um pequeno afago em meu ego. A Veja desta semana publicou carta minha em que elogio o artigo do Reinaldo Azevedo sobre o Foro de São Paulo, publicado na semana passada. Na íntegra, sem nenhum corte ou censura (chegaram até a me corrigir, pois escrevi errado o nome do R.A. na última frase, tendo colocado um inexistente "de" entre os dois nomes). Eis a carta, tal como foi publicada (edição 2046, seção carta do leitor, página 27, canto superior esquerdo):

Até que enfim! Há tempos eu esperava que alguém tivesse a ousadia de falar abertamente do Foro de São Paulo, quebrando a cortina de silêncio estabelecida há anos sobre o assunto. Trata-se da maior ameaça à democracia na América Latina nos últimos quarenta anos, uma organização revolucionária criada por Lula e pelo tirano Fidel Castro, com a participação das FARC, para "restaurar no continente o que se perdeu no Leste Europeu" (ou seja: o comunismo). Depois disso, será que alguém na esquerda ainda vai ter a cara-de-pau de negar que o tal Foro existe, e que o governo Lula e os narcoterroristas das FARC são parceiros? Parabéns ao Reinaldo Azevedo pela coragem!

Fico feliz, claro. Afinal, quem não sentiria uma pontinha de orgulho e uma certa vaidade por ter visto um texto seu, ainda que seja na seção de cartas, na revista mais lida e mais odiada do País (principalmente pelos que são provavelmente seus maiores leitores, os petralhas e esquerdinhas, que adoram fazer gênero dizendo que não lêem "aquela revista reacionária")? Dá até para pensar em vôos mais altos.

Mas, voltando um pouco cá na terra, percebo que há muita coisa a ser feita ainda. Coisa demais, na verdade. O artigo de R.A. sobre o Foro de São Paulo, como eu já escrevi aqui antes, ficará como um marco na história do jornalismo brasileiro, pela coragem ao tratar do tema, até onde eu sei inédito na grande imprensa. Daí o entusiasmo com que eu o saudei. No entanto, desconfio que, assim como ocorreu em outras ocasiões envolvendo esse governo Lula da Silva, como o escândalo do mensalão e outros que já caíram no esquecimento (quem ainda fala hoje, por exemplo, do caso Celso Daniel e dos sanguessugas, só para citar alguns?), logo logo irá desaparecer da grande mídia qualquer menção ao famigerado Foro de São Paulo. Mesmo se tratando, como eu escrevi acima, de algo da maior gravidade, simplesmente a maior ameaça à democracia na América Latina nas últimas quatro décadas. É quase com dor no coração, mas me arrisco a apostar que em breve quase ninguém se lembrará do assunto, que permanecerá como um tabu, uma verdadeira ficção, tal como tem sido tratado desde 1990, quando o Foro foi criado.

Por que digo isso? Em parte, porque a experiência me fez aprender a ser pessimista. Com esse governo que aí está, com a petralhada no poder, deve-se esperar sempre o pior. O controle dos corações e mentes pela turma dos barbudinhos leitores de Gramsci está simplesmente arraigado demais, incrustado demais, nos cérebros de todos nós - e, quando digo todos, digo todos mesmo, incluída aí a Veja -, para que percebamos o tamanho da armação. Não adianta mostrar provas, apontar para o fato de que o referido Foro é uma realidade, estando abundantemente documentado na internet. Os brasileiros estão todos anestesiados, entorpecidos, idiotizados por décadas de propaganda esquerdista repetida sistematicamente para se sentirem indignados com mais essa denúncia contra os companheiros. O quê? Uma organização criada por Lula e pelo "Coma Andante" para servir de articulação estratégica dos partidos e movimentos revolucionários de esquerda para implantar o comunismo na América Latina, recuperando por estas bandas o que se perdeu na antiga URSS? Simplesmente irreal demais, louco demais, para ser verdade. Só pode ser delírio e paranóia desses direitões e reaças, claro. Assim continuarão a repetir nossas cabeças mais brilhantes e "progressistas". Durante 18 anos se pensou assim. Por que agora seria diferente?

O artigo de Reinaldo Azevedo foi, como eu também já disse, um sopro de ar numa sala embolarada. Certamente, uma das melhores coisas que já apareceram na imprensa brasileira, comparável, guardadas as devidas proporções, à denúncia do mensalão pelo Roberto Jefferson, ou do esquema PC Farias pelo irmão do Collor, que deslanchou todo o processo de impeachment. É dinamite pura, material de altíssima voltagem. Mas, não nos esqueçamos, este é o Brasil, um país em que a mídia mais lúcida e responsável ainda vê Lula como um governante sério e moderado, uma espécie de antídoto contra o marxismo de galinheiro e o populismo chavista. Se vivêssemos num país onde a sensatez e a inteligência fossem artigos valorizados, e onde as pessoas tivessem o hábito elementar de ligar os pontos, a revelação de que o Apedeuta e seu partido são parceiros de ditadores e narcoterroristas numa organização que planeja nada menos do que a revolução continental renderia pelo menos uma CPI ou um processo criminal. Bastaria isso e garanto que Lula e seus comparsas não durariam mais uma semana. Mas, como este é o país do carnaval, não posso me dar o luxo de ser otimista.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A FARRA DOS CARTÕES E O DISCURSO DA VITIMIZAÇÃO RACIAL: UM SAMBA DO CRIOULO DOIDO

Acabei de ler na internet. A Ministra da Secretaria Especial de Políticas para a Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, pediu demissão do cargo. O motivo foi a revelação de que andou gastando dinheiro público com cartões corporativos, R$ 171 mil no ano passado, em despesas pessoais que incluíram o aluguel de carros e o pagamento de contas em restaurantes, e até compras num free shop. Outros ministros estão envolvidos na farra. O da Aqüicultura e Pesca torrou alguns milhares de reais em viagens para sua terra natal. O do Esporte usou os tais cartões para comprar até tapioca (pelo menos foi nacionalista, poderia ter sido um Big Mac...).

A Ministra já vai tarde. Deveria ter pedido para sair alguns meses atrás, quando, numa entrevista inesquecível para a BBC em Londres, entrou para a lista de autores de frases mais inacreditáveis da História, quando disse o seguinte: "Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco (sic). Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural (sic), embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça (sic), porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou". Ao contrário do que poderia supor o bom senso mais elementar, ela não sofreu nenhuma reprimenda oficial por causa disso. Nem mesmo um puxãozinho de orelha. Na época, o governo pôs panos quentes e o assunto foi esquecido. Pena. Tivesse ela sido demitida por declarações absurdas como essa, e não por um escandalozinho de quinta categoria como o dos cartões corporativos, teria sido um sinal de que o País, afinal, tem solução. Teria sido a prova de que o Brasil não está tomado, afinal, pelo discurso demagógico e marketeiro do politicamente correto, como demonstra outro grande escândalo, o das cotas raciais nas universidades. Alguns anos atrás, outra Ministra do governo Lula, Benedita da Silva, igualmente negra, igualmente despreparada, igualmente deslumbrada e incompetente até na roubalheira, teve de se demitir após ter sido apanhada com a boca na botija, usando dinheiro do contribuinte para passear em Buenos Aires, aonde foi participar de um culto evangélico. Eu a demitiria não por isso, mas pelo lema que escolheu para sua campanha política quando se candidatou a governadora do Rio de Janeiro: "Mulher, negra e favelada". Uma peça de demagogia e de vitimização sem paralelo com quase tudo que eu já vi.

A queda de Matilde Ribeiro é um desses episódios que, em sua aparente banalidade, trazem importantes lições. Infelizmente, creio que logo serão esquecidas, assim como o próprio caso em si, como uma mera gota no oceano de bandalheira que é o governo Luiz Inácio. Mas vale a pena não deixar a peteca cair. A primeira lição, óbvio, diz respeito ao próprio deslumbramento da Ministra, que usou e abusou do cartão corporativo até nas férias de fim de ano. Isso mostra que não temos jeito, somos mesmo um bando de malandros e cafajestes. Basta dar um cargo a qualquer um e lhe entregar um cartão para gastar com despesas oficiais, que o sujeito ou sujeita vai se refestelar no primeiro restaurante ou shopping center. Coloque-o numa cadeira com um cargo "de responsa", dê-lhe uma sala com ar condicionado e alguns funcionários, e ele ou ela logo se sentirá o rei ou rainha da cocada preta, uma autêntica "otoridade", acima do bem e do mal. Não importa se o dinheiro que paga o aluguel do carro ou a tapioca vem do meu, do seu, do nosso bolso. É um traço de nosso caráter nacional, algo de que não podemos fugir. Está nos nossos genes, na nossa formação histórica e cultural defeituosa, o não distinguir entre o que é particular e o que é público, ou, como gostamos de dizer, o que "não é de ninguém".

Mas isso é, como dizia Nelson Rodrigues, o óbvio ululante. O mais importante, o que se deve ter em mente quando ninguém mais lembrar da Dra. Matilde Ribeiro, é o próprio cargo que ela exercia. Afinal, o que faz exatamente a Secretaria Especial para a Promoção de Pólíticas para a Igualdade Racial da Presidência da República? Trata-se de uma ficção, mais uma sinecura estatal feita sob medida para ser preenchida por companheiros militantes, para que estes ponham em prática seus delírios ideológicos. No caso, militantes de uma causa, a da "igualdade racial", que têm como uma de suas principais bandeiras a adoção do sistema de cotas racias nas universidades federais, algo já vigente na UnB. Em nome da luta contra o racismo - causa nobre contra a qual ninguém em sã consciência se insurgiria, assim como ninguém seria contra a "luta pela paz" ou a preservação das baleias azuis -, estão dispostos a tornar institucional o próprio racismo, como de fato faz o sistema de cotas, o qual apenas serve para dividir a sociedade em duas raças e desmoralizar os negros como incapazes intelectualmente, sepultando a meritocracia. E isso num país que se gaba - corretamente, aliás - de sua mestiçagem. A tal Secretaria presidida pela Ministra demissionária, enfim, é um erro desde o início. Um autêntico samba do crioulo doido - ou do afro-descendente fora do pleno domínio de suas faculdades mentais, como queiram. Diante disso, o escândalo dos cartões é apenas um detalhe, a pontinha do iceberg.

A saída de Matilde Ribeiro do Ministério Lula da Silva só não é mais melancólica do que o próprio cargo que ela ocupava. Durante o governo Lula, sob a sua coordenação, tem-se assistido a um enorme retrocesso também na área racial, com o aparecimento de tensões antes inexistentes em função da adoção das cotas nas universidades, criadas por uma visão vitimista que não raro é usada como um álibi para se cometer todo tipo de roubalheira. Não duvido que a ex-Ministra, assim como Benedita da Silva antes dela, seja elevada à condição de mártir e heroína por seus companheiros de causa racista, ops, racial, uma Joana d'Arc afro-descendente, pois teria sido vítima de algum complô ardiloso das "zelite" por ser negra, coitada... O País regrediu algumas décadas sob Lula. Ele desmoralizou não apenas a ética, mas os negros também. Ficamos todos mais corruptos, mais safados, mais sonsos, mais racistas. E mais burros.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

O BRASIL AMEAÇA A SOBERANIA DOS PAÍSES VIZINHOS


É um dos raros consensos existentes que a soberania é uma das idéias-base da diplomacia. Trata-se mesmo do alicerce primordial das relações internacionais. Ninguém, em seu juízo perfeito, ousaria contestar esse dogma supremo, verdadeiro fundamento dos Estados nacionais. Desde que entrei para os quadros do Itamaraty, em 2002, devo ter ouvido a expressão "soberania" e "defesa da soberania" umas quinhentas vezes, no mínimo, em geral no meio de algum discurso patrioteiro contra o inimigo favorito da humanidade, o imperialismo dos EUA, sempre como uma necessidade imperiosa e um dever sagrado de todo diplomata e funcionário do Estado. Em nome dela, a soberania, declaram-se guerras, fazem-se revoluções. A defesa da soberania, enfim, é mais do que um imperativo político: é uma obrigação moral, um dever imprescindível para a própria existência da Nação.

Pois bem. Essa mesma soberania, tão cara aos nacionalistas de todos os tipos, está sob ameaça hoje na América Latina. E, ao contrário do que dizem dez em cada dez analistas políticos da região, um de seus principais inimigos, hoje em dia, não é a Casa Branca, o Departamento de Estado ou o Pentágono: é o governo do Brasil, de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em que me baseio para dizer tamanha sandice?, você deve estar se perguntando. Cito três fatos básicos. Ei-los: 1) a recusa do governo Lula em reconhecer as FARC como terroristas; 2) a política de abstenção na Comissão de Direitos Humanos da ONU em relação à ditadura de Cuba; e 3) o apoio velado ao proto-ditador Hugo Chávez na Venezuela, às vezes por cima dos canais diplomáticos.

Em todos esses exemplos, o governo brasileiro alega defender a soberania dos países envolvidos, dizendo adotar uma postura favorável à não-intervenção e à autodeterminação dos povos. Dificilmente poderia existir algo mais falso. Vejamos cada um desses exemplos, separadamente.

1) Com relação ao não-reconhecimento das FARC como terroristas, a justificação do governo Lula é sempre a mesma: trata-se de um problema interno da Colômbia, e reconhecê-las como terroristas não ajudaria em nada para a solução do conflito, muito pelo contrário. Ouvi essas palavras da boca do próprio assessor especial da presidência da República para relações internacionais, Marco Aurélio ("Top,Top,Top") Garcia, quando indaguei-lhe sobre as razões dessa política do governo brasileiro em relação ao conflito na Colômbia, alguns anos atrás.

Os argumentos apresentados pelo governo Lula, por meio de Marco Aurélio Garcia, para justificar sua política de omissão/cumplicidade com as FARC na questão da Colômbia não valem meia colher de mel coado. São, na verdade, uma grande tapeação. Vejamos por quê:

Em primeiro lugar, o conflito na Colômbia, que se arrasta há mais de quatro décadas, há muito já deixou de ser um assunto interno colombiano. Pelo menos desde que as FARC e o ELN passaram a se sustentar no tráfico de cocaína, cujos carregamentos são enviados para vários países, inclusive o Brasil, a guerra civil já extrapolou as fronteiras daquele país. Desde então, o conflito armado da Colômbia constitui um problema regional, uma ameaça à segurança e à paz de praticamente todos os países da região.

Além disso, como ficou claro para quem quisesse ver pelo gigantesco circo de promoção pessoal montado por Hugo Chávez no caso da libertação de duas reféns colombianas na virada do ano - que culminou, não por acaso, com a defesa veemente feita pelo coronel venezuelano da retirada das FARC da lista de organizações terroristas dos EUA e da União Européia e seu reconhecimento como "força beligerante"-, o não-reconhecimento das FARC e do ELN (e também dos páramilitares de direita da AUC) como terroristas não significaria intromissão alguma nos assuntos internos da Colômbia. Muito pelo contrário: o próprio governo de Bogotá solicita, há anos, que os governos do continente reconheçam esses grupos como o que de fato são. Além do mais, ninguém diz que a União Européia, que considera as FARC como terroristas, está se imiscuindo na política interna colombiana. O não-reconhecimento do terrorismo das FARC, na verdade, não significa neutralidade. Ao negar-se a reconhecer o óbvio - que as FARC são, sim, terroristas em seus métodos e objetivos -, o governo brasileiro, longe de assumir uma postura eqüidistante, apenas beneficia um dos lados do conflito colombiano - o lado do terror e do narcotráfico.

Finalmente, dizer que o reconhecimento das FARC e do ELN como terroristas seria um empecilho ao processo de paz na Colômbia é de uma vigarice sem tamanho, além de demonstrar completo desconhecimento do que se passa no país vizinho. Ora, o objetivo dos narcoterroristas colombianos não é alcançar a paz coisa nenhuma. É, sim, tomar o poder e impor, na Colômbia, um regime marxista, com o apoio de seus aliados e inocentes úteis. Alguns anos atrás, o governo colombiano do presidente Andrés Pastrana, anterior ao atual, atendeu a várias reivindicações dos "guerrilheiros" e entregou às FARC um território maior que a Suiça. O que se viu desde então não foi nenhum avanço no processo de paz, mas apenas o recrudescimento dos atentados.

2) Quanto à abstenção sistemática do Brasil nas votações sobre Cuba na Comissão de Direitos Humanos da ONU - uma política, justiça seja feita, adotada desde antes do atual governo brasileiro -, a manipulação interesseira da soberania para beneficiar a tirania cubana se mostra ainda mais evidente. A justificativa apresentada sempre pelo governo brasileiro - não se pode politizar a questão dos direitos humanos na ilha, é preciso defender a não-intervenção e a autodeterminação dos povos - não passa de conversa para boi dormir. Isso porque a "politização" alegada diz respeito a quem faz as denúncias - geralmente, os EUA -, e não às violações em si. A esse respeito, por exemplo, cita-se sempre a política dos EUA em relação a seus aliados, como Israel e a Arábia Saudita. Do que se deduz que a não-condenação da ditadura castrista de Cuba pelos fuzilamentos e prisões de dissidentes políticos ocorre tão-somente porque as denúncias partem dos EUA. Pode existir politização da questão maior do que essa? Há alguns dias, Lula foi a Cuba e se encontrou com Fidel Castro. Na ocasião, elogiou a saúde do ditador e sorriu para as fotos. Quanto aos presos políticos na ilha, nenhuma palavra. Enquanto isso, os dissidentes continuam presos e o povo cubano impedido de se manifestar livre e soberanamente na ilha-prisão de Cuba, verdadeiro paraíso dos companheiros petistas.

3) E quanto ao apoio velado de Lula a Hugo Chávez? Creio que aqui não é preciso dizer muito para demonstrar que, também nesse caso, o discurso da não-intervenção é mera fachada para encobrir uma relação ideológica bastante íntima. É suficiente recordar alguns episódios, como o envio de um navio cheio de petróleo à Venezuela em pleno paro contra Chávez, no começo de 2003 - o que, certo ou não, é até hoje lembrado pela oposição venezuelana como prova de cumplicidade de Lula com seu companheiro bolivariano, e de parcialidade a seu favor - e, mais recentemente, o discurso de Lula em julho de 2005, no 15. aniversário do Foro de São Paulo, entidade que, não por coincidência, reúne os atuais presidentes do Brasil e da Venezuela, além do "Coma Andante" Fidel Castro e as FARC. Nesse caso, acho que vale a pena citar algumas palavras de Sua Excelência em seu discurso, quando se refere à vitória de Chávez no plebiscito de 15 de agosto de 2004 que o manteve na presidência. Não acreditem em mim, acreditem nele:"O Chávez participou de um dos foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível construirmos (...) a consolidação do que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez como presidente da Venezuela". Difícil imaginar maior confissão de intromissão nos assuntos internos de outro país do que essa, à margem dos canais governamentais normais. Um verdadeiro atentado à soberania do povo venezuelano. Quanto ao Foro, muita gente ainda acha que é algo inofensivo, um simples fórum de debates sem maiores conseqüências (pelo menos não dizem mais que é uma fantasia, já é um avanço...).

Outros exemplos poderiam ser dados, como a falta de atitude do atual governo brasileiro em relação à encampação das refinarias da PETROBRAS na Bolívia, que muita gente até hoje não entendeu (o fato de Evo Morales ser parceiro de Lula e Chávez no FSP talvez explique). Mas os três acima bastam para dar uma idéia de até onde vai esta articulação estratégica continental.

Tudo isso me faz pensar. A idéia de soberania nacional é certamente uma das mais importantes já surgidas na história. E também uma das mais deturpadas, mais prostituídas. Os exemplos acima mostram isso cabalmente. Como também demonstra a sua utilização por regimes tirânicos e ditatoriais, geralmente como um álibi para justificar a repressão política interna e violações aos direitos humanos - o caso de Cuba é óbvio demais para ser ignorado -, a soberania é inseparável da democracia. Mais que isso: a soberania, como conceito e como realidade, só faz sentido se vem acompanhada da preservação de valores políticos e morais elevados, reconhecidos amplamente como essenciais à vida civilizada. De nada vale defender a soberania de um país submetido a uma ditadura brutal, como a de Hitler ou a de Saddam Hussein no Iraque. Nesse caso, o discurso da soberania não passa de retórica vazia, uma cortina de fumaça para justificar o crime e enobrecer a tortura, o estupro e o assassinato. Algo, enfim, que diz respeito não a este ou àquele país específico, mas à toda a humanidade.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

O FIM DE UM TABU


Mal pude acreditar quando vi. Mas está lá, na Veja desta semana. Um artigo de duas páginas, assinado por Reinaldo Azevedo, sobre o Foro de São Paulo, cujo título diz tudo: "O Foro de São Paulo não é uma fantasia" (edição n. 2045, páginas 60 e 61). Finalmente, depois de uma tímida referência ao Foro em reportagem sobre as FARC na edição da semana passada, um jornalista tem a coragem e ousadia de quebrar abertamente este que é o maior tabu dos meios de informação brasileiros nos dias de hoje. Um golaço para a liberdade de imprensa e contra o obscurantismo ideológico. Cito um trecho:

"Os petistas falam do Foro sem receio. Fizeram-no no vídeo preparado para o 3. Congresso do partido, no fim de agosto e início de setembro do ano passado. Procure no Youtube. Parte do jornalismo brasileiro, no entanto, pretende que tratar do assunto é dar asas a uma fantasia paranóica. Eis uma prática antiga da esquerda. Ela sempre foi craque em ridicularizar a verdade, transformando-a numa caricatura, de modo que seus adversários intelectuais ou ideológicos não encontrem senão a solidão e o desamparo".

O artigo de Reinaldo Azevedo sobre o Foro de São Paulo entrará para a história do jornalismo brasileiro como um marco na denúncia das maquinações esquerdistas para alcançar o controle hegemônico da sociedade. Eu recomendo recortá-lo e colá-lo na parede, emoldurado como um quadro ou um troféu. Assim deve fazê-lo, a meu ver, qualquer pessoa que ainda tenha um mínimo de compromisso com a verdade e que se oponha a qualquer tentativa de acobertamento da mesma em favor de um projeto ideológico de poder. O Foro de São Paulo, como eu já disse neste blog inúmeras vezes e não me canso de repetir, é a maior ameaça à democracia na América Latina desde a OLAS, nos anos 60, funcionando como um verdadeiro Comintern cucaracha, para "restaurar no continente o que se perdeu no Leste Europeu" (ou seja, o comunismo). Dele fazem parte Lula da Silva e o ditador perpétuo de Cuba, Fidel Castro (seus fundadores), além das FARC e outras agremiações de extrema esquerda. E, apesar de seus objetivos totalitários não serem nenhum segredo, estando inclusive divulgados fartamente na internet, durante quase vinte anos se cobriu o Foro com um véu de silêncio na grande mídia brasileira, o qual somente agora começa a ser rasgado. Não é para menos. Em 2005, por exemplo, Lula confessou em discurso no aniversário de quinze anos do Foro ter trabalhado para consolidar a vitória de Hugo Chávez no plebiscito de agosto de 2004 que lhe garantiu a permanência no poder na Venezuela, numa clara interferência na política interna do país vizinho. E isso é só a ponta do iceberg.

Resta agora saber o que dirão os companheiros defensores de Lula e do PT, assim como a legião de analistas "sérios" que se dedicaram, nos últimos anos, a descartar qualquer menção ao Foro como obra de algumas mentes paranóicas e reacionárias. Certamente, gastarão seus (parcos) neurônios atacando o mensageiro, e não a mensagem, questionando a credibilidade da revista e do autor do artigo, o qual deverá ser alvo dos insultos e ofensas pessoais de praxe. É típico dos esquerdistas agirem assim, toda vez que são desmascarados. Também resta saber o que será, a partir de agora, da carreira jornalística de Reinaldo Azevedo, depois de tamanha ousadia. Basta lembrar o que houve com o filósofo Olavo de Carvalho, o primeiro a denunciar abertamente na imprensa brasileira a existência e os objetivos do Foro de São Paulo, e que teve como prêmio por sua ousadia uma carta de demissão do jornal O Globo e da revista Época alguns anos atrás. Espera-se que a Veja não demonstre a mesma pusilanimidade das publicações da família Marinho.

A cortina de silêncio cúmplice e covarde que cobria a maior articulação estratégica da esquerda revolucionária continental foi descerrada. Não há mais como negar sua existência, assim como não é mais possível negar a cumplicidade do governo Lula da Silva com ditadores assassinos e narcotraficantes. Se isso não valer pelo menos uma CPI, é porque estamos todos dominados.

domingo, janeiro 27, 2008

ANTONIO GRAMSCI, OU COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS


"Quem controla a mente humana, controla a realidade" (George Orwell, 1984)


O ex-primeiro-ministro da antiga Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, certa vez disse uma frase que, em sua aparente simplicidade, resume tudo. Era mais ou menos assim: "É uma pena que a inteligência humana seja limitada, enquanto a estupidez não conhece limites".

Fico pensando nessa frase, que li há muito tempo, toda vez que tento debater sobre o cenário político atual latino-americano, em especial sobre a esquerda, no Brasil e no mundo, e alguém me vem com argumentos do tipo: o conjunto da esquerda brasileira já abandonou por completo a idéia de revolução socialista; com exceção de alguns grupelhos radicalóides, a esquerda nacional já se acomodou perfeitamente à democracia e ao capitalismo; todo esse papo sobre revolução continental e Foro de São Paulo não passa de simples paranóia e delírio de um punhado de reacionários e saudosistas dos tempos da Guerra Fria etc etc.

Esse tipo de wishful thinking, que se tornou um verdadeiro mantra após a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, não resiste ao menor sopro de crítica. Ignoro se meus interlocutores já ouviram falar em Gramsci - desconfio que não -, mas o fato é que os argumentos mostrados acima apenas parecem reproduzir, sem tirar nem pôr, as idéias principais gramscianas.
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O italiano Antonio Gramsci (1891-1937), um dos maiores teóricos marxistas do século XX - alguns o consideram o maior ideólogo comunista depois de Lênin -, foi o fundador do Partido Comunista Italiano, até poucos anos atrás o maior do Ocidente. Autêntico amarelão ideológico, no dizer de Reinaldo Azevedo, Gramsci é uma espécie de Dale Carnegie das esquerdas. Em seus escritos, ele tratou de adaptar o pensamento marxista à época da comunicação de massa, defendendo que a tomada do poder pelos comunistas poderia ocorrer não necessariamente por meio da insurreição armada, tal como ocorrera na Rússia em 1917, nem mesmo pela simples via legal e eleitoral, mas por um processo de conquista gradativa das instituições, particularmente da superestrutura intelectual e espiritual da sociedade. Em outras palavras, os revolucionários comunistas, segundo Gramsci, deveriam concentrar seus esforços não exclusivamente na luta política direta pelo poder do Estado, mas, principalmente, na conquista de espaços e na busca pelo controle, a partir de dentro, da mídia, das artes, das ciências - enfim, da vida intelectual e cultural em geral. A dissimulação é parte importante nesse processo: em vez de palavras de ordem por um governo socialista, por exemplo, deveriam ser usadas expressões como "governo democrático e popular", ou "em defesa da paz", ou, ainda, "inclusão social", ainda que os objetivos dos marxistas sejam exatamente o inverso. Palavras como "comunismo" e "revolução" estariam, assim, proibidas - o importante era construí-las na prática cotidiana, através da propaganda. Nada, portanto, de sair por aí defendendo, em alto e bom som, a derrubada imediata da burguesia e a tomada do poder pela classe operária. A propaganda é sempre mais eficaz quando não parece propaganda.
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Desse modo, além de disfarçar os reais propósitos dos revolucionários, o método gramsciano visa a criar as bases para a revolução sem falar em revolução, para o estabelecimento do comunismo sem precisar falar abertamente em comunismo, e todo aquele que ouse denunciar esse esquema solerte de solapamento da democracia é imediatamente tachado de reacionário ou paranóico. A esse processo, levado adiante pelos "intelectuais orgânicos" do proletariado - o partido -, Gramsci chamou de conquista da hegemonia. Um esquema quase perfeito, brilhante em sua sonsice sem limites.
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Como fica claro pelas idéias de Gramsci, o verdadeiro campo de batalha em que as esquerdas tratam de construir seu poder hoje em dia não são as instituições do Estado, como o Parlamento e as eleições. É a mente humana. Não se toma o poder apenas pela força, mas pela persuasão, pelo convencimento. É pelo controle mental, pela repetição incessante de slogans e chavões, que se pode alcançar o tão sonhado controle da realidade. Isso demanda um trabalho longo e prolongado de infiltração e doutrinação ideológicas, que ocorre de forma lenta, solerte, anestésica, quase imperceptível, nos principais setores da superestrutura. Esse trabalho pode durar anos, ou mesmo décadas. O objetivo é que, no decorrer desse processo, os objetivos do partido revolucionário - o príncipe moderno, na definição de Gramsci, que a retirou de Maquiavel - venham a constituir-se, nas palavras do próprio Gramsci, "em um imperativo moral, um substituto do imperativo divino".

Recentemente, reli 1984, de George Orwell, um de meus livros preferidos. A certa altura do romance, O'Brien começa a explicar a Winston qual a finalidade da tortura que lhe estava sendo aplicada em nome do Ingsoc, o Partido. Não se tratava de simplesmente forçar o prisioneiro, pela dor e pelo medo, a confessar-se herege ou autor de crimes imaginários, como na Inquisição medieval ou na ditadura stalinista soviética. O objetivo, explica O'Brien, era fazer o prisioneiro acreditar que era efetivamente culpado de um crime monstruoso (a "crimidéia", ou crime do pensamento), a fim de aceitar o poder do Ingsoc. Era, enfim, fazê-lo amar o Grande Irmão. Isso porque - conclui O'Brien - o controle sobre a mente humana, a ponto de fazê-la acreditar que dois mais dois são cinco, é o fundamento mesmo do poder do Partido.

Não sei se Orwell conhecia os escritos de Gramsci. Mas, ao narrar de forma tão contundente os mecanismos de dominação totalitária, descreveu à perfeição a maneira como a ideologia esquerdista, marxista e totalitária, vem penetrando há pelo menos oito décadas as mentes das pessoas no Ocidente, conforme o esquema preconizado por Gramsci. Tal esquema de condicionamento mental quase pavloviano já avançou tão profundamente sobre as consciências dos indivíduos que a maioria esmagadora da população é mantida na mais completa ignorância de sua existência, embora ele possa ser facilmente percebido em todos os lugares: nas escolas, no cinema, no teatro, na literatura, nas igrejas, nos sindicatos etc. Eis um exemplo que julgo bastante didático: você, que lê essas linhas, conhece algum professor universitário ou artista de renome, ou qualquer outro "formador de opinião" no Brasil, que se diga abertamente de direita e a favor do capitalismo? Por outro lado, quantos você conhece que enchem a boca e estufam o peito para proclamar, aos quatro ventos, suas convicções esquerdistas, ou, pelo menos, simpáticas às teses de esquerda?

Quando à estupidez humana se soma a capacidade ilimitada dos herdeiros de Marx e Lênin de mudarem de cara e de roupa para enganarem os incautos, convencendo-os de que seus propósitos não são antidemocráticos, o resultado é meio caminho andado para o estabelecimento de um Estado totalitário. No Brasil, esse processo encontra-se em estágio bastante avançado, como demonstra a hegemonia (no sentido gramsciano do termo) do discurso "politicamente correto" em questões tão díspares como racismo, homofobia e meio ambiente, a ponto de ser necessário, para revertê-la, proceder a uma verdadeira reprogramação neurolingüística. O silêncio obsequioso da quase totalidade da imprensa brasileira a respeito da cumplicidade do governo Lula da Silva em relação aos narcoterroristas das FARC e ao Foro de São Paulo, assim como a elevação de figuras como Oscar Niemeyer e Luiz Fernando Veríssimo à condição de faróis intelectuais da nacionalidade, são apenas a ponta de um gigantesco iceberg. Há pelo menos trinta anos, já estamos todos dominados, inconscientemente, pela retórica esquerdista. Assim como o personagem principal de 1984, aprendemos todo dia que dois mais dois são cinco.

sábado, janeiro 26, 2008

SÍNDROME DE ESTOCOLMO


Aproveitando o ensejo do meu último artigo, em que comento a cortina de silêncio que há quase vinte anos desceu sobre o Foro de São Paulo, senti-me na obrigação de escrever mais algumas palavras sobre o assunto. Na verdade, devo confessar que fiquei tão entusiasmado com a - pequena, pequeníssima - referência da revista ao Foro - o maior tabu da imprensa brasileira na atualidade - que acabei esquecendo de observar algo fundamental. Algo que é a própria essência de todo o debate atual sobre a esquerda e os esquerdistas, no Brasil e no exterior.

Na edição anterior da revista, há uma reportagem sobre as FARC que, a certa altura, diz o seguinte (transcrevo ipsis literis):

"A organização que mantém cerca de oitocentas pessoas em seu poder, conhecida pela sigla Farc, não é formada por guerrilheiros marxistas, como repete a denominação usual. Nem Marx endossaria as barbáries cometidas pelas Farc, que se originaram numa querra civil ocorrida na Colômbia e depois tiveram inspiração esquerdista, mas há muito tempo degeneraram em uma espécie de seita de fanáticos que vive à custa do tráfico de cocaína.”

Malgrado a justeza da condenação das FARC no parágrafo transcrito acima, há nele três grandes erros. Erros graves, gravíssimos. Vamos a eles:

1) Ao contrário do que diz a Veja, as FARC são uma organização marxista, sim. Somente quem desconhece por completo a história do movimento revolucionário comunista, desde a Primeira Internacional, em 1864, passando pela Revolução bolchevique de 1917 na Rússia até as maquinações insurrecionais do Comintern e da OLAS, sem falar na própria essência do pensamento de Marx e Engels, pode alegar o contrário. Seu objetivo não é outro senão transformar a Colômbia numa ditadura comunista, como é a de Cuba. Não há contradição alguma entre o marxismo e o tráfico de drogas, os seqüestros, extorsões e assaltos a bancos. Na realidade, esses métodos sempre estiveram intimamente associados aos objetivos revolucionários comunistas, desde a segunda metade do século XIX - basta folhear qualquer biografia de Lênin ou Stálin para perceber que, na luta pelo socialismo, todos os meios são válidos. Matar, seqüestrar, roubar, corromper, traficar cocaína - o que é tudo isso, do ponto de vista marxista e revolucionário, comparado ao supremo objetivo da revolução? Até hoje os críticos liberais do marxismo - como os editores de Veja - ainda não se deram conta de que a moral marxista e revolucionária - a moral das FARC - não se guia pelos mesmos elevados princípios abstratos da moral burguesa. Ao contrário desta, a moral revolucionária é instrumental, e está resumida num pequeno livro escrito por Trotsky, cujo título já é bastante explicativo - "Nossa Moral e a Deles". O que é correto, o que é moral para um revolucionário marxista? Tudo o que conduza ao triunfo da revolução, diz Trotsky, que ninguém pode acusar de ter sido antimarxista. Se isso significa manter acorrentadas pelo pescoço, feito animais, centenas de pessoas no meio do mato, ou encher os cofres do partido-guerrilha com os lucros provenientes do tráfico de drogas, que o seja. É assim que pensam as FARC.

2) Pelos motivos enunciados acima, fica claro que, também ao contrário do que diz a revista, Marx endossaria tranqüilamente, sim, as barbáries das FARC (sem falar no seu objetivo final, que é nada mais nada menos do que a transformação da Colômbia numa ditadura comunista). Aliás, é muito estranha essa insistência em separar Marx de seus discípulos narcoterroristas. Não há razão alguma para isso, senão a vontade de preservar o mito revolucionário. Marx não foi apenas o criador do "socialismo científico", o filósofo e economista que quis transpor para o campo da realidade a dialética hegeliana, como é geralmente descrito de maneira anódina nos manuais de filosofia política. Foi um inimigo da liberdade, responsável direto pelas maiores tragédias do século XX. Além de um farsante e um grande charlatão, um tremendo hipócrita, que falava em acabar com as desigualdades sociais do capitalismo enquanto se dedicava a engravidar a empregada.

Essa busca incessante pela preservação do mito da pureza marxista não tem nada de novo, e encontra eco nos sucessores do marrano alemão. Do mesmo modo que, quando da revelação dos crimes do stalinismo por Krushev em 1956, tentou-se inicialmente atribuir a responsabilidade dos crimes - "erros", na visão oficial soviética - a subordinados de Stálin, e, quando da derrocada da ex-URSS, buscou-se culpar pelo fracasso do socialismo tão-somente Stálin e seus asseclas, preservando a figura de Lênin, o conjunto das esquerdas - e até a Veja, vejam vocês - tenta blindar a figura de Marx, protegendo-o de qualquer culpa pelo que sucedeu depois na ex-URSS e demais países comunistas. E, da mesma forma que as demais, esta é uma grande mentira, uma gigantesca tapeação.

Marx não foi, certamente, o criador da doutrina comunista. Antes dele, vieram os chamados "utópicos", como Babeuf, Proudhon e Fourier, sem falar em Rousseau e, ainda mais para trás, Morus e Platão. Mas foi, sem dúvida, seu sistematizador, o responsável pela transformação do ideal igualitário-totalitário numa doutrina política coerente e sistêmica, apresentada numa embalagem "científica". Foi essa doutrina que esteve por trás dos piores crimes já cometidos contra a humanidade. Sem Marx, não teria havido Lênin, nem Stálin, nem Mao Tsé-Tung, nem Pol Pot, nem Fidel Castro. Trocando em miúdos: não haveria gulag, processos de Moscou, guardas vermelhos, campos da morte. Nem paredón e FARC.

3) As FARC são, sim, um bando de fanáticos terroristas e narcotraficantes, mas não deixaram de ser marxistas por causa disso. Muito pelo contrário. Os motivos estão expostos acima. De nada adianta mostrar indignação com o banditismo das FARC sem vinculá-lo a seus objetivos revolucionários e à ideologia comunista que lhe dá sustentação. Enquanto não se perceber isso, enquanto não se atentar para a relação inseparável entre a barbárie das FARC e sua ideologia marxista, qualquer condenação de seus métodos terroristas cairá no vazio.

Toda essa recusa em enxergar uma realidade tão óbvia e irrefutável - tanto que chego a hesitar antes de escrever sobre ela, como algo realmente acaciano - só se explica, creio eu, por algum tipo de lavagem cerebral coletiva, uma espécie de síndrome de Estocolmo em massa. Isso ficou ainda mais claro para mim quando soube que alguns familiares dos reféns das FARC chegaram a agradecer a Hugo Chávez "por seus esforços para libertá-los". Ora, Chávez está tão interessado no bem-estar dos reféns das FARC quanto na preservação da democracia na Venezuela: ou seja, não dá a mínima para isso. Seu único interesse no assunto é político e propagandístico. Ele se aproveita do desespero dos parentes das vítimas das FARC para aparecer como um benfeitor aos olhos da opinião pública mundial. Assim, desvia a atenção do fato de que ele é um dos maiores parceiros e defensores das FARC, a ponto de afirmar, em alto e bom som, que elas não são terroristas. É, portanto, um cúmplice de seus crimes. Assim como Lula, que tem a cara-de-pau de "condenar" os seqüestros das FARC como "abomináveis" perante os jornalistas, enquanto seu governo se nega, sistematicamente, a reconhecer as mesmas FARC como terroristas, pois é parceiro destas no Foro de São Paulo. Assim como os parentes dos reféns das FARC que, iludidos, mostraram gratidão ao bufão venezuelano, fomos todos seqüestrados pela retórica esquerdista. Pior: sem nos termos dado conta disso.

Essa lavagem cerebral se intensificou, a meu ver, depois da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS, quando se tornou lugar-comum proclamar aos quatro ventos o triunfo definitivo da democracia e do capitalismo sobre a ideologia comunista. Desde então, passou-se a acreditar que os remanescentes da esquerda, sobretudo aqueles que nunca se declararam abertamente marxistas - caso de Lula e do PT, por exemplo -, teriam abandonado qualquer veleidade revolucionária e socialista, por anacrônica e ridícula, e aderido, até mesmo por uma questão de sobrevivência, ao capitalismo e ao estado de direito democrático. A esse respeito, cita-se freqüentemente a política econômica do atual governo brasileiro, como uma prova do "amadurecimento" e da "responsabilidade" dos esquerdistas no poder.

É uma esperança tola, que só pode ser descrita como um enorme auto-engano. Primeiro, porque a História não caminha de forma linear. Não basta dizer que as palavras de ordem revolucionárias comunistas são anacrônicas e ridículas. Ridículo e anacrônico também o era, cinquenta ou mesmo cem anos atrás, o extremismo religioso islâmico, por exemplo. E, no entanto, quem ousaria dizer, em 1950 ou 1900, ou mesmo em 1800, sem o risco de virar alvo de chacota, que, no limiar do século XXI, em plena época do celular e da internet, a maior ameaça à civilização ocidental e à democracia no mundo seria representada por um fanático barbudo e de turbante, adepto de uma visão religiosa do século VII D.C., escondido em alguma caverna nos confins do Afeganistão?

Segundo, que ninguém se engane com as declarações dos esquerdistas de conversão ao capitalismo. O fato de o governo Lula manter intocada a política econômica do governo tucano não denota compromisso algum com a responsabilidade fiscal ou metas de inflação, como comumente se diz, mas unicamente com a preservação do poder, o que é também uma característica da política comunista. Além do mais, o fato de um partido ou governo marxista adotar práticas capitalistas não os faz deixarem de ser marxistas. A própria URSS sob Lênin adotou, em 1921, uma política econômica - a NEP, Nova Política Econômica - que na prática restaurou a economia de mercado e o direito de propriedade, e nem por isso deixou de ser um Estado marxista e uma ditadura do proletariado. China e Vietnã há décadas aderiram na prática à economia de mercado, e também nem por isso deixaram de ser ditaduras comunistas, com partido único e censura à imprensa. Quem conhece um pouco de história do movimento comunista sabe perfeitamente que ganhar dinheiro como capitalistas para aplicá-lo como socialistas - na forma de tráfico de drogas, por exemplo - não está em contradição com os objetivos do marxismo.
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Como sempre, a ingenuidade dos meios de comunicação em relação a movimentos marxistas e revolucionários como as FARC e o Foro de São Paulo advém, também, da ignorância. Com exceção dos que um dia militaram nas hostes da esquerda mas que renunciaram às ilusões esquerdistas, deixando claro e sem ambigüidades que o capitalismo é o único sistema social capaz de gerar riqueza e que o socialismo é intrinsecamente totalitário - coisa que o PT, por exemplo, nunca fez -, não há, como eu já disse antes, esquerdista light ou moderado. Há apenas inocentes úteis ou mestres da dissimulação. O esquerdismo, em todos os seus matizes, é como o sarampo ou a catapora: é preciso ter sido acometido dessas doenças infantis para ficar imunizado contra elas. Somente os que, um dia, imergiram no universo de slogans e chavões das organizações marxistas - como este que vos escreve - podem compreender como realmente funciona a mente revolucionária. A maioria da humanidade, que jamais teve essa experiência, será sempre facilmente enganada por esses lobos em pele de cordeiro.

terça-feira, janeiro 22, 2008

ROMPENDO O SILÊNCIO


Como faço toda semana, fui ao jornaleiro e comprei a Veja. Muita gente, principalmente de esquerda, diz detestar a revista da família Civita, cobrindo-a de rótulos como "neoliberal", "conservadora", "tucana"(sic), "direitista" etc. Mas a verdade é que, odeiem-na ou não, e embora não o admitam, seus detratores também a lêem, como demonstrado pela fogueira que alguns energúmenos fizeram alguns meses atrás em frente à sede da Editora Abril em São Paulo, com uma edição da revista que teve a ousadia de - pecado mortal! - falar mal de santo Che Guevara. Mas voltando ao que eu dizia antes. Desembolsei R$ 8,40 e comprei a revista. Lá pelas tantas, ao ler uma reportagem sobre as atrocidades das FARC, que Hugo Chávez quer ver retiradas da lista de organizações terroristas e elevadas à categoria de "força beligerante", deparei com algo que realmente me chamou a atenção, e que, a meu ver, por si só valeu o preço da revista: uma referência, clara e inegável, ao maior tabu do Brasil na atualidade: o Foro de São Paulo.

Até que enfim! Já estava ficando preocupado, começando a achar que o tal Foro era alguma espécie de alucinação de minha mente paranóica, que insistia em ver algo que a quase totalidade da mídia, falada, escrita e televisada, esconde sistematicamente do público há 18 anos. Como o personagem Simão Bacamarte do conto O Alienista, de Machado de Assis, cheguei a sentir ganas de concluir que a insanidade humana, longe de ser uma ilha, é um continente, e que, diante da loucura geral - que se manifesta, no caso, pela recusa em reconhecer a simples existência do tal Foro, até hoje considerado uma espécie de fantasma por muitos analistas "sérios" -, o melhor para a minoria de mentalmente sãos é se trancarem num hospício e jogarem a chave fora. Nessas férias, tentei puxar conversa sobre o assunto com amigos e parentes, chamando a atenção, sempre que a conversa versava sobre política e a oportunidade se apresentava, para os verdadeiros objetivos das esquerdas e do Foro de São Paulo. Como sempre, olharam-me como se eu estivesse falando grego ou sendo vítima de algum tipo de delírio persecutório. De nada adiantou lembrar-lhes que ouvi o Apedeuta em pessoa mencionar o dito Foro em 2005, em discurso durante a cerimônia de formatura de minha turma do Instituto Rio Branco. Ao me ouvirem falar abertamente do que ninguém na grande mídia parece disposto a falar, e que por isso desconhecem totalmente, devem ter pensado que eu havia bebido demais ou que seria melhor me trancafiar numa instituição psiquiátrica.

É verdade, a referência foi extremamente tímida, tendo vindo quase escondida, fora do texto principal, num box ao lado da foto do Marco Aurélio Garcia, mostrado como um dos simpatizantes brasileiros das FARC e ex-coordenador do Foro. Dada a importância e gravidade do tema, o assunto mereceria não uma nota de rodapé, mas uma reportagem de capa, até uma edição inteira. Mas já é alguma coisa. A menção está lá, na página 51, não foi ilusão de ótica. Por segurança, vou guardar a revista comigo, caso alguém queira reescrever a História, nunca se sabe. Salvo engano - corrijam-me se eu estiver errado -, é a primeira vez que um grande órgão da imprensa brasileira menciona o Foro de São Paulo. Tirando isso, há os artigos de Olavo de Carvalho (banido da imprensa brasileira há anos por sua insistência em falar do assunto) e o site Mídia Sem Máscara, além, claro, deste que escreve estas linhas.

Por mais tímida que tenha sido, a menção ao conclave esquerdista criado por Lula e Fidel Castro em 1990 para - são suas palavras- "restabelecer na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu", correspondeu a uma verdadeira lufada de ar num quarto abafado. Mais que isso: significa uma ruptura, infelizmente ainda não total, com quase duas décadas de cumplicidade silenciosa com o maior plano esquerdista de revolução continental urdido na América Latina desde a OLAS, nos anos 60 (ver meu texto anterior). Para que a quebra do silêncio seja completa, basta que se liguem os pontos, que unem o Foro de São Paulo, as FARC - que participam do Foro - e o conjunto da esquerda latino-americana, em que o governo Lula ocupa lugar de honra. Feito isso, não seria muito difícil compreender que as palavras de Lula proferidas em Cuba condenando os seqüestros como abomináveis não valem meia colher de mel coado, como se dizia antigamente. Não seria difícil também perceber que não são apenas os métodos das FARC, que incluem explodir pessoas que se recusam a ceder à extorsão e acorrentar reféns como animais na selva, que são terroristas. Seus objetivos, chancelados por Hugo Chávez e pelos companheiros petistas - a revolução comunista, a implantação de um regime marxista na Colômbia -, também são.

Durante décadas, tudo que se dizia a respeito dos crimes cometidos pelos regimes comunistas da URSS e da China era imediatamente descartado por grande parte da mídia esquerdista como simples propaganda capitalista e distorsão da verdade. Até hoje, aliás, é essa a atitude adotada pelas esquerdas e pelo governo Lula em relação à ditadura comunista de Cuba, verdadeiro xodó da companheirada. Foi preciso a URSS vir abaixo, em 1991, para que a verdade sobre os cerca de 100 milhões de mortos pelo comunismo no século XX começasse a vir à tona. Agora, quando a América Latina se vê alvo de um plano continental para reconstruir no continente a maior máquina de moer carne humana da História, a maioria esmagadora da imprensa liberal fecha voluntariamente os olhos e ignora completamente essa ameaça. Embriagada pela onda de triunfalismo inconsciente que se seguiu ao colapso do bloco comunista, que confunde sistematicamente com o fim do próprio comunismo, a mídia liberal recusa-se a enxergar o óbvio. Acordem, senhores. Lula, Chávez, Morales e as FARC são parceiros. O espaço em que estão articulados politicamente não são os salões atapetados das recepções diplomáticas e as declarações anódinas à imprensa, mas as reuniões do Foro de São Paulo. Ao persistirem no erro absurdo de não levar em conta essa maquinação gigantesca, considerando a democracia como um fato da natureza e Lula como um governante responsável, vocês estão cavando seu próprio túmulo. Depois não digam que foi por falta de aviso.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

PALHAÇADA NA SELVA (OU: EL GRAN CIRCO CHAVISTA EM AÇÃO)


Na virada do ano, o mundo assistiu, nas selvas da Colômbia, ao desenrolar de um dos espetáculos mais bizarros e farsescos dos últimos tempos. O enredo do show, se é que se pode resumí-lo, é mais ou menos o seguinte: um ditador constitucional, o coronel Hugo Chávez, ansioso por mudar sua imagem internacional meio arranhada após a derrota no plebiscito de 2 de dezembro passado, em que a maioria da população venezuelana rejeitou seu projeto de eternizar-se "legalmente" no poder, chamou as câmeras de TV do mundo todo para anunciar, com grande estardalhaço, a libertação de três reféns mantidos cativos há anos pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC. Após várias marchas e contramarchas, que incluíram trocas de acusações entre Chávez e seu desafeto, o presidente colombiano Álvaro Uribe, descobre-se que um dos reféns, uma criança de seis anos de idade, filho de uma relação - consentida ou não, ainda não se sabe - entre uma refém e um dos seqüestradores, na verdade já estava há tempos em mãos do governo da Colômbia, o que deixou o principal "mediador" da "operação humanitária", Hugo Chávez, com cara de tacho, desacreditado perante a opinião pública mundial que pretendia engabelar. Para salvarem a operação do fracasso e não deixarem o companheiro venezuelano na mão e sem um troféu a oferecer à mídia internacional, os "guerrilheiros" das FARC apressaram-se a entregar à Venezuela, no meio do mato, as duas reféns prometidas, como "um gesto de boa vontade". No final, Chávez deu a volta por cima e, posando de humanitário, conseguiu capitalizar o episódio, não sem antes declarar solenemente, e com a cara mais lavada do mundo, que as FARC e o Exército de Libertação Nacional (ELN), outro grupo armado de esquerda que há décadas luta contra o governo de Bogotá, não são, ao contrário do que dizem seus métodos e os EUA e a União Européia, vejam só, terroristas... Nesse mister, ele conta com o apoio mais ou menos discreto de governos como o de Madame Kirchner na Argentina e de inocentes úteis como o cineasta norte-americano Oliver Stone, além, claro, do sempre prestativo governo do companheiro de todas as horas, Luiz Inácio Lula da Silva, por meio do sempre alerta companheiro e ghost-chancellor Marco Aurélio ("Top, Top, Top") Garcia, um notório simpatizante das FARC alçado à posição de assessor especial da Presidência da República para relações internacionais.

Não vou aqui lembrar algumas verdades mais que evidentes, de caráter quase acaciano em sua obviedade - que, de humanitária, a operação articulada por Chávez e pelas FARC não teve nada, sendo antes uma operação tipicamente propagandística; que as FARC são um dos grupos terroristas mais cruéis e assassinos do mundo, que vive às custas do narcotráfico, do seqüestro e da extorsão; que, além das duas reféns libertadas, mantém atualmente 780 pessoas seqüestradas, em condições subumanas em campos de concentração espalhados na selva colombiana etc. Tudo isso já foi mais ou menos perscrutado pela grande imprensa. Vou me concentrar apenas no que NINGUÉM falou, ao longo de todo o imbróglio, e que, justamente por ter sido omitido sistematicamente pelos meios de comunicação, é o mais importante: a relação ideológica, íntima, fraternal, entre os atores principais da gigantesca farsa que acabou de ser encenada nas matas da Colômbia - as FARC, Hugo Chávez e o governo de Lula da Silva, todos os três reunidos, sob os auspícios da ditadura comunista de Fidel e Raúl Castro em Cuba, no - anotem aí para não esquecerem - Foro de São Paulo.

Mas o que raios vem a ser esse tal Foro de São Paulo, sobre o qual eu, assim como meia dúzia de paranóicos de direita, insisto tanto em escrever? E o que ele tem a ver com o caso das reféns colombianas das FARC? Prestem atenção, eu vou explicar. O tal Foro foi criado em 1990, por iniciativa de Fidel Castro e do então candidato presidencial recém-derrotado Lula, como um "espaço de articulação estratégica" dos partidos e movimentos de esquerda na América Latina. Seu objetivo, exposto em vários documentos, não é outro senão restabelecer, no continente, o que então estava desmoronando no Leste Europeu - o comunismo. O mesmo objetivo, diga-se de passagem, das FARC na Colômbia. Desde então reúne-se de tempos em tempos, sempre em uma cidade diferente do continente. Seria assim uma espécie de sucessor da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), criada pelo regime de Cuba para fomentar guerrilhas comunistas na América Latina nos anos 60, assim como, em escala continental, da Internacional Comunista (Comintern), órgão encarregado, nas décadas de 20 a 40, de coordenar a revolução comunista internacional a partir da ex-URSS.

O.k., mas e daí?, vocês podem estar se perguntando. Vamos ligar os pontos: Lula é membro fundador do Foro de São Paulo, assim como Fidel Castro. Hugo Chávez também aderiu à organização. Sabem quem também faz parte do dito Foro? Elas mesmas, as FARC. Agora, advinhem quem comandou o Foro de São Paulo até 2001: ninguém mais, ninguém menos do que... estão preparados? Marco Aurélio Garcia. Surpresos?

Entenderam por que Chávez quer que os EUA e a União Européia retirem as FARC e o ELN da lista de organizações terroristas? Entenderam porque Lula e seu assessor especial para assuntos internacionais recusam-se a reconhecê-los também como terroristas, insistindo que o governo colombiano negocie com eles, em vez de tratá-los como os bandidos e criminosos que de fato são? E porque o representante das FARC no Brasil, Olivério Medina, circula com tanta desenvoltura entre os círculos petistas, tendo sido inclusive o intermediário da ajuda financeira dos naroterroristas colombianos à campanha de Lula em 2002, conforme foi denunciado pela Veja alguns anos atrás? E porque nenhum grande narcotraficante ligado às FARC já foi preso no Brasil? Não? Será preciso explicar de novo?

O silêncio total dos meios de comunicação em relação às maquinações do Foro de São Paulo, mais uma vez evidenciado no episódio das reféns das FARC, só se explica por um misto de inconsciência auto-induzida e otimismo triunfalista. Depois da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS, em 1991, tornou-se comum dizer que o comunismo morreu, e que a democracia e a economia de mercado triunfaram. Chegou-se mesmo a falar, num arroubo de triunfalismo, em "fim da História". Trata-se de um erro de interpretação histórica, fruto de auto-engano. De fato, o antigo bloco comunista, com exceção de alguns sobreviventes renitentes como China, Cuba, Vietnã e Coréia do Norte, desmoronou como um castelo de areia, devido, como não poderia deixar de ser, à própria ineficiência crônica e às contradições inerentes ao regime de partido único e economia planificada, e é inegável que isto teve um impacto fulminante sobre muitos partidos comunistas e de esquerda em geral. Mas o movimento revolucionário socialista internacional, que é anterior à Revolução de 1917, continua firme e forte, e até tomou novo impulso, adquirindo nova roupagem e novos slogans, como a luta antiglobalização e ambientalista, mas sem ter abdicado de seus propósitos totalitários e anticapitalistas. O fato de a URSS ter sucumbido, nesse sentido, é de somenos importância; afinal, o comunismo não foi criado para dar certo em lugar nenhum do planeta, mas para destruir a civilização ocidental tal como a conhecemos. Como demonstra o altíssimo preço em vidas humanas consumidas em fracassados e megalomaníacos planos qüinqüenais e grandes saltos adiante, o objetivo do comunismo não é o estabelecimento de padrões mais racionais de administração econômica ou a democratização das relações sociais, mas tão-somente o aniquilamento da democracia, a destruição total e irrevogável da liberdade individual, o que equivale ao esmagamento do gênero humano. Daí a criação do Foro de São Paulo, para manter viva a chama da luta revolucionária anticapitalista na América Latina, escolhida como o palco ideal para o florescimento de governos populistas e movimentos terroristas como as FARC, dedicados integralmente a restaurar por estas bandas o que se perdeu na ex-URSS. Assim como Chávez e o PT, as FARC nada mais são do que uma parte desse plano estratégico de subversão continental. Querem saber qual o ideal de futuro almejado pelos participantes do Foro de São Paulo? Basta dar uma olhada nas imagens dos reféns das FARC, subnutridos e acorrentados, submetidos a todo tipo de tortura e maus-tratos na selva.

As mentiras e maquinações propagandísticas do conflito colombiano por Hugo Chávez - que quis usar o episódio mais ou menos como o ex-ditador de Uganda Idi Amin tentou usar o seqüestro de um avião cheio de civis israelenes em 1976, o qual esperava fosse um trampolim para seu sonho megalomaníaco de vir a ganhar o Prêmio Nobel da Paz -, assim como a postura caudatária e cúmplice do governo brasileiro em relação ao caudilho venezuelano e às FARC, não deveriam surpreender ninguém. Afinal, os laços de amizade e cooperação entre os três são bastante conhecidos para ser ignorados, como demonstra sua participação conjunta no Foro de São Paulo. Que a totalidade dos órgãos de imprensa no Brasil, mesmo os que se dizem críticos de Chávez e Lula, mantenham um silêncio sepulcral a respeito de fato de tamanha gravidade e significação para o futuro da América Latina, é algo que desafia a compreensão humana.

P.S.: Logo após ter dado sua colaboração à monumental farsa chavista-narcoterrorista, o Apedeuta viajou a Cuba, onde anunciou investimentos da ordem de US$ 1 bilhão para ajudar a salvar a economia da ilha-prisão, e aproveitou para prestar reverência a seu ídolo e companheiro de longa data, Fidel Castro. Na ocasião, em mais uma demonstração inequívoca de sonsice e caradurismo sem limites, nosso Grande Timoneiro disse aos jornalistas em Havana que condena o seqüestro como arma política. Tudo fingimento. Se Lula realmente condena os seqüestros das FARC, o que fazia ele prestigiando a quase cinqüentenária ditadura castrista, que apóia as FARC e que tem há anos sob seu poder dezenos de presos políticos, oficialmente seqüestrados pelas autoridades cubanas pelo terrível crime de pensarem diferente e pedirem liberdade para a ilha? Além do mais, se é de seqüestro que se está falando, o regime cubano é campeão mundial na matéria, pois mantém em cativeiro, literalmente seqüestrada, a totalidade de sua população, mais de 11 milhões de pessoas, que não vêem outra esperança de uma vida melhor senão atirar-se ao mar e fugir para Miami. Destino que será certamente também de milhões de colombianos e venezuelanos, caso as FARC se apossem do poder um dia e Hugo Chávez transforme em realidade seu projeto de ditadura perpétua. E também de boa parte da população brasileira, se tantos parvos continuarem dando crédito ao que diz o Grande Embromador.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

MINHA MENSAGEM DE FIM DE ANO


O ano está chegando ao fim. Como sucede a cada giro de 365 dias, as pessoas costumam tirar alguns dias de folga e enviar mensagens a seus amigos e familiares com os melhores votos de paz, felicidade, saúde - e dinheiro também, claro, pois ninguém é de ferro. Fiel a essa tradição, também estou saindo de férias, motivo pelo qual deixarei de colocar aqui textos novos por algumas semanas. Também pensei em escrever algo, digamos, edificante, bem de acordo com o espírito natalino, para deixar todos felizes, enquanto trocam presentes e comem panetone na ceia de Natal, ou estouram seus espumantes e jogam flores para Iemanjá na noite do reveillón, desejando boas festas.
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Mas confesso. Não sou bom nisso. Nunca fui e, desconfio, jamais serei. O fim do ano é uma época que provoca, em mim, sentimentos contraditórios. Por um lado, fico feliz porque o ano finalmente está acabando e poderei, após meses intensos de trabalho estafante, descansar alguns dias e rever a família (este ano, inclusive, terei a oportunidade de renovar a fidelidade à tribo, pois, apesar de ser a pessoa mais improvável para tal função, fui escolhido como padrinho no batismo de minha sobrinha...). Por outro lado, a proximidade de outro ano me enche de uma sensação de tédio quase insuportável, intensificado pelas costumeiras e previsíveis mensagens de esperança para o ano que se inicia, e pela circunstância de que o período de Natal coincide com meu aniversário - 33 anos, a idade do crucificado -, o que, não é difícil imaginar, causava-me bastante frustração quando criança (em vez de dois, ganhava sempre apenas um presente, "para as duas datas", me diziam com um sorriso meio amarelo...). O tédio que neste período costuma se apossar de mim reforça-se ainda mais diante da perspectiva, quase sempre certeira, de que, em vez de renovação, no próximo ano assistiremos a um pouco mais do mesmo, à repetição de velhos erros e ilusões, que insistem em desafiar qualquer experiência e qualquer ensinamento. Pois assim é a natureza humana: passam-se os anos, as décadas, os séculos, os milênios, e a humanidade continua a mesma, está sempre correndo atrás do próprio rabo, como cachorro louco, em busca de sonhos de grandeza e de redenção da espécie que, em vez de resolver, apenas agravam nossas falhas.

Por esse motivo, não vou desejar nada para 2008. Espero apenas que o ano que se inicia traga, mais do que paz, saúde, grana e felicidade, menos assuntos sobre os quais escrever neste blog do que 2007, que foi realmente um ano cheio. Que haja menos demagogia, menos criminalidade, menos ingenuidade, menos banditismo travestido de bom-mocismo. E que haja um pouco mais de senso crítico, tolerância verdadeira (e não afetações relativistas), inteligência e, acima de tudo, lucidez. Sei que isso é quase uma utopia, talvez um sonho impossível. Mas, se há algo que eu gostaria de pedir a Papai Noel, seria isso: que em 2008, eu tenha muito mais tempo para cultivar meu jardim, e muito menos razão para incomodar dizendo o que penso - e não só o que a maioria gosta de ler - na tela do computador.

Até mais. Vejo vocês em 2008 (com menos textos, espero).

terça-feira, dezembro 18, 2007

COMO DESTRUIR UM PAÍS


Diante da atual situação política de Nuestra América, resolvi elaborar uma pequena receita que, creio, será útil aos candidatos a ditadores e demagogos de todos os tipos, cores e ideologias, que sonham em, um dia, alcançar o Paraíso na terra. Para eles próprios, evidentemente. Tomem nota:

Refundar a nação - A primeira lição que um bom caudilho populista deve aprender, talvez a mais importante de todas, é não ser modesto. Nada de reformazinhas cosmésticas aqui e ali, que logo serão superadas e esquecidas. O bom demagogo deve buscar sempre deixar sua marca na história, de forma inesquecível e indelével. E que maneira melhor de fazer isso do que "refundando" o país? Em outras palavras: nada de reconhecer avanços positivos nos governos anteriores; trata-se agora de romper radicalmente com o passado, fazendo dele tábula rasa. Todos os governantes que o antecederam não fizeram mais que destruir a nação; é hora de reconstruí-la das cinzas. Para fixar essa idéia-força na cabeça da população, não se furte a apelar para a história, condenando, por exemplo, as "elites" (ou "oligarquias") que "dominam este país há quinhentos anos". Mudar o nome oficial do país, inserindo um "bolivariano" no meio, é aconselhável. Aproveite e recubra qualquer iniciativa de seu governo, mesmo que seja a inauguração de cemitério de cachorro em Passa-Quatro do Norte, com ares de Moisés abrindo o Mar Vermelho ou de conquista da Lua, afirmando que "nunca na história deste país" se fez coisa semelhante. Finalmente, sempre que algum engraçadinho resolver botar água na sua fervura, apele para a "herança maldita" deixada pelo governo anterior como a raiz de todos os problemas atuais. Ainda que essa tal herança seja o que sustenta sua demagogia.

Apresente-se como representante das camadas populares - Essa é uma lição importantíssima. O bom demagogo deve esforçar-se sempre para trombetear, ante seu eleitorado e os visitantes estrangeiros, sua imagem de legítimo filho do povo, de autêntico rebento dos setores mais desfavorecidos. Se for mestiço, descendente de índios e semi-analfabeto, melhor ainda, pois sempre poderá usar sua origem e sua própria ignorância como moeda política, aproximando-se assim do povo, que o verá como um dos seus. Mesmo que essa ignorância seja voluntária e cuidadosamente estudada para provocar esse efeito, bastante impactante, curiosamente, também nas camadas mais abastadas, que gostam de coisas exóticas e costumam ser acometidas por um forte sentimento de culpa. Assim, tendo você conquistado a condescendência do conjunto da população, e inclusive das "elites", qualquer um que tiver a ousadia de apontar para sua manipulação de suas origens étnico-sociais por razões eleitoreiras será rapidamente tachado de "elitista" e "preconceituoso", ainda que aponte para fatos, nada mais que fatos.

Concentre todos os poderes - Este é o caminho das pedras. Tenha sempre em mente que o verdadeiro objetivo, a finalidade última, do demagogo é ter todo o poder em suas mãos. Mas aqui é preciso cuidado: não se trata de tomar o poder do Estado à força, num golpe ou quartelada. Esse método está ultrapassado. Nos dias de hoje, os caudilhos tratam de se apossar do poder de forma mais suave e dissimulada, usando os próprios meios legais da democracia. Lembre-se de Hitler e Mussolini, ditadores que conseguiram chegar lá pelo voto. Uma vez na cadeira presidencial, entretanto, não se contente com as restrições constitucionais à concentração dos poderes. De preferência, faça sua própria Constituição, após conseguir maioria parlamentar. Use e abuse de plebiscitos e referendos, pois, ainda que manipulados, você poderá dizer que seu governo é democrático e tem apoio popular e muitos acreditarão nisso. Faça questão de falar em democracia, mas sempre coloque um adjetivo depois, como "participativa" e "protagônica", para diferenciá-la da democracia verdadeira, que não precisa de adjetivos. Aproveite e nomeie os juízes da Suprema Corte, e também a Justiça Eleitoral. Se isso ainda não for suficiente, tente reformar a Constituição que você mesmo fez, a fim de conseguir ser reeleito quantas vezes quiser. Trocando em miúdos: use a democracia para destruí-la. Caso não tenha a sorte de encontrar um país em frangalhos, com a população ansiosa para se livrar dos velhos políticos, nem detenha maioria no Congresso, não tem importância: uma mesadinha para os deputados, digamos uns 30 mil caraminguás por mês, são o suficiente para garantir a fidelidade deles. Mas cuidado para que nenhum deputado da base aliada, não querendo servir de boi de piranha em algum escandalozinho qualquer, resolva botar a boca no trombone e chutar o pau da barraca. Aí o caldo entorna.

Cale a imprensa - O bom candidato a ditador deve sempre ter em mente que a imprensa, tirando a oficial, é sempre sua inimiga, e que notícia boa é sempre notícia a favor. Para garantir essa visão cor-de-rosa, não hesite em maquiar a realidade. Pode começar por uma repaginada no visual, por exemplo, trocando um macacão surrado de operário por ternos bem cortados (ou, se preferir, pode criar sua própria persona, usando símbolos como uma boina militar ou uma roupa com motivos indígenas, fique à vontade). Não esqueça de contratar um bom marqueteiro, a fim de passar uma imagem simpática, e cuidar da aparência (você vai perceber que, nesse jogo da política, aparência é tudo que há). Quanto à imprensa não-tutelada, não vá com muita sede ao pote. Nada de sair por aí mandando de cara empastelar jornais e espancar jornalistas atrevidos. Comece devagarinho, usando os próprios meios legais, como processos por injúria e difamação. Expulsar um jornalista estrangeiro que ousou escrever sobre seus hábitos etílicos, juntando assim censura e patriotada, é uma boa pedida, embora possa pegar mal no início. Idem para tentar tutelar o que se passa na TV, de preferência com nomes pomposos e aparentemente anódinos como Conselho Federal de Jornalismo. Ameaçar sutilmente cortar o fornecimento de papel aos jornais ou cancelar a concessão para funcionar, também é útil. Sem falar no método mais infalível de todos: grana. Com o tempo, você verá como parte da imprensa vai ficar mansinha, vendo como você é maravilhoso e dizendo amém para o seu governo. Logo, logo, você poderá alçar vôos mais altos, fechando, por exemplo, aquela emissora de TV que lhe incomodava. Lembre-se: o que você quer não é debate, não é honestidade. É aplauso.

Distribua assistencialismo - Demagogo que se preze não pode descuidar do bom e velho panen et circensis. Sobretudo porque isso é o que costuma lhe garantir apoio entre as massas populares, e simpatia em setores da intelligentsia nacional e internacional. Aproveite que há idiotas no mundo que sempre vão confundir populismo com justiça social, e faça farto uso de verbas oficiais para distribuir dinheiro e outros benefícios aos mais pobres. Se seu país for rico em recursos naturais, como petróleo, não pense duas vezes antes de torrar os petrodólares com "missões" assistencialistas nas favelas das principais cidades, ainda que tal assistencialismo não se traduza em melhorias efetivas da qualidade de vida da população. Se os alimentos começarem a sumir das prateleiras e a inflação disparar, não se preocupe: basta culpar a ganância dos especuladores, e pronto. O paternalismo estatal, seja na forma de misiones ou de Bolsa-Família, é item indispensável no kit de qualquer demagogo, pois ajuda a manter a população dócil e sob cabresto, criando uma clientela dependente e fiel. Mesmo se o seu maior beneficiário - ou seja, você, candidato a ditador - tenha passado metade da vida vociferando contra a esmola dos ricos, pois esta só fazia promover o conformismo e adiar a tão necessária revolução. Não importa: você está no governo agora, não é mais tempo de bravatas. Lembre-se: você gosta dos pobres; quanto mais deles houver, melhor.

Aparelhe a máquina estatal - É muito importante, para garantir o poder, cercar-se de companheiros leais. Essa lição elementar da política se aplica com muito mais intensidade no caso de líderes populistas e caudilhescos. No seu caso, não se trata apenas de encher a máquina estatal com companheiros de partido ou de campanha, em geral sem nenhuma outra qualificação para exercer o cargo para o qual acabaram de ser nomeados que não o fato de serem companheiros de partido ou de campanha. Trata-se de garantir o controle efetivo da máquina do Estado, sem o qual o projeto populista-totalitário não pode ser implantado. O fato de os que ocupam os altos cargos públicos não terem nenhum compromisso com estes ou capacitação técnica para exercê-los não deve ser um óbice para você: saiba que o Estado deve estar a seu serviço, e não da população. Se tal aparelhamento ideológico do Estado resultar em tragédias, como, por exemplo, a queda de um avião por causa de má administração do sistema aéreo, acione a outra máquina, a da propaganda, e é grande a chance de todos aceitarem a esparrela de que foi tudo uma fatalidade.

Coloque pobres contra ricos - Item da mais alta importância. O velho discurso marxista da luta de classes, verdadeiro catecismo das esquerdas, é sempre bem-vindo. Como bom adepto da arte da demagogia, você sabe perfeitamente que nenhum ditador, desde o século XIX, conseguiu impor sua tirania sem apelar para esse tipo de chavão. Tendo-se atribuído a missão messiânica de "refundar" o país, e apresentando-se como o representante iluminado dos anseios populares, você precisa coroar essa sua missão atiçando os pobres contra os ricos, os sem-terra contra os latifundiários, o proletariado contra a burguesia. Nesse quesito o apoio das esquerdas, em especial dos comunistas, ser-lhe-á de extrema relevância. Consciente que o comunismo soviético já foi para as cucuias faz tempo, e que o socialismo fracassou onde quer que tenha sido implantado, trate de rebatizá-lo, acrescentando-lhe um "democrático" ou um "do século 21". Tenha o cuidado, porém, de não deixar muito claro o que isso significa, deixando aberto o caminho para as mais diversas interpretações. É recomendável, aliás, cultivar a imprecisão. Por exemplo, caso lhe perguntem qual sua ideologia, responda que não é nem capitalista nem comunista, nem de direita nem de esquerda, apenas um "torneiro mecânico". Diante de uma platéia de empresários, é bom fingir compromisso com a estabilidade econômica, a disciplina fiscal, a democracia etc. Para a companheirada, porém, pode soltar o verbo, prometendo a revolução. Desse modo, você vai deixar seus adversários da oposição atordoados, enquanto implementa seu projeto de poder quase na surdina. Deixe os bobocas esquentarem a cabeça para descobrir qual é a sua. Afinal, quando descobrirem - se descobrirem -, já será tarde demais. Com essa aparente indefinição e ambigüidade, você conquistará de imediato o respeito da burguesia e a simpatia e apoio entusiastas de grande parte da intelligentsia européia e continental, órfã da utopia comunista e ansiosa por se deixar enganar novamente. Também não se importe com o fato de, sob seu governo socialista, ter surgido uma elite de burocratas e novos-ricos empoleirados nas tetas estatais. Assim como ocorria na ex-URSS e continua a ocorrer em Cuba, eles ganham dinheiro e bebem seu Romané-Conti a R$ 11 mil a garrafa para servir à causa dos trabalhadores. Além disso, junte à luta de classes uma pitada de chauvinismo nacionalista. Faça como Mussolini, transferindo a dicotomia ricos versus pobres para o cenário internacional. Esta é a próxima dica.

Invente um inimigo externo - Seguindo esse último conselho, não deixe de condenar, em seus discursos, o "imperialismo", escolhendo um país - de preferência, os EUA - para demonizar como responsável por todos os males do mundo. Aproveite que esse é um tipo de discurso que, não importa a época, sempre terá uma audiência atenta e fiéis seguidores. Além de servir para unir a nação em torno de sua figura e desviar a atenção dos problemas internos, a retórica antiimperialista serve também para projetá-lo no exterior, como líder dos povos oprimidos, mesmo que seu país seja um dos maiores exportadores para o "império". Busque aproximar-se de outros inimigos jurados da Casa Branca, em geral países democráticos como o Irã e a Coréia do Norte, a fim de formar um eixo contra as ambições imperiais de Bush e cia. Tal discurso será sempre popular, e tem o bônus de ser de fácil assimilação pelas massas incultas e analfabetas: estas sempre vão querer alguém para culpar pelos seus próprios infortúnios, causados, em grande medida, por você mesmo. Se esse inimigo externo a condenar for os EUA, aí sim a coisa fica perfeita. Sobretudo se o país estiver envolvido em duas guerras impopulares no Oriente Médio, e que, ainda por cima, resultaram na derrubada de duas das piores tiranias dos últimos cinqüenta anos. Nesse caso, é aconselhável, mesmo a título de propaganda, explorar o temor de uma invasão ianque, tal como Fidel Castro faz em Cuba há quase meio século, e armar-se até os dentes. Você dirá que as armas são para enfrentar a invasão iminente, mas é claro que o verdadeiro inimigo é interno: o próprio povo, cada vez mais vigiado.

Reescreva a história - "Quem controla o passado, controla o presente", já dizia George Orwell. "E quem controla o presente, controla o futuro". Isso significa que, para assegurar a posse do poder, é indispensável ter o controle também da educação pública, instituindo um eficiente sistema de doutrinação político-ideológica nas escolas. Não somente através de ameaças abertas ou veladas às instituições de ensino privado, mas principalmente mediante um amplo esquema gramsciano de lavagem cerebral, existente há décadas, no qual militantes disfarçados de professores procuram doutrinar, com cartilhas marxistas, crianças de 13 e 14 anos de idade contra o perverso sistema capitalista e em favor de grandes humanistas como Stálin e Mao Tsé-Tung. Nesse sentido, não hesite em comparar-se a figuras proeminentes da história pátria, e até mesmo mundial, como Bolívar ou Jesus Cristo, atribuindo-lhes supostas características socialistas. Some a isso uma boa dose de revisionismo histórico, pedindo desculpas aos países africanos, por exemplo, pela escravidão negra no passado (ainda que os próprios africanos tenham feito largo uso também do trabalho escravo), ou concedendo a torto e a direito indenizações milionárias a famílias de militantes que lutaram pela democracia (ainda que esses militantes quisessem transformar o país numa Cuba). Com esse tipo de manipulação da História, não duvide, você terá as portas abertas para seu projeto populista de poder.

Desqualifique seus críticos, não os argumentos - Outra dica importante: jamais responda as críticas que lhe fizerem. Apele para a desqualificação de quem as fez, usando e abusando do velho método de argumentação ad hominem, que consiste em atacar o mensageiro, não a mensagem. Assim, você poderá unir o útil ao mais últil ainda, impedindo o debate e desviando o foco para a pessoa que o iniciou, somando, de quebra, mais alguns pontinhos. Por exemplo, alguém mencionou que o governo está gastando demais com o aparelhamento dos Ministérios e projetos sociais assistencialistas de caráter puramente eleitoral? São neoliberais, querem um Estado para os ricos somente. Alguém protesta contra os freqüentes atentados à liberdade de expressão e outras garantias constitucionais? É um reacionário, um defensor da velha ordem oligárquica. Alguém cogitou de seu impeachment por causa da roubalheira oficial, fartamente documentada para quem quiser ver? É um golpista, um saudoso dos anos de chumbo da ditadura. Alguma voz se ergueu para criticar o sistema de cotas raciais nas universidades, que apenas oficializa o racismo, sob pretexto de combatê-lo? É um racista, neto de senhores de escravos e membro da Ku-Klux Klan. Alguém criticou a proposta de prorrogar pela eternidade um imposto que nasceu provisório? São sonegadores, ainda que o imposto em questão penalizasse ricos e pobres. E assim por diante.
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Tenha amigos no exterior - A experiência demonstra que um demagogo legítimo não dura muito tempo sem amigos importantes, não somente nos governos de outros países, mas também nos meios acadêmicos e artísticos em geral. Assim como Mao Tsé-Tung teve um Edgar Snow e Fidel Castro teve um Herbert L. Matthews, o bom caudilho de hoje não pode sobreviver sem um Ignacio Ramonet ou um Noam Chomsky. Não se acanhe, se você for um pouquinho inclinado à leitura, em brandir um livro desses gênios quando estiver discursando, sobretudo se for no maior palco de todos, a Assembléia Geral da ONU. Não esqueça também de chamar esses amigos preciosos para conversar de vez em quando, de preferência com tudo pago pelo governo que você preside. Dá visibilidade, e também ajuda a inflar-lhes os egos.
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Conte com a ignorância alheia - Finalmente, nenhum desses conselhos elencados acima teria alguma serventia se não fosse por essa deusa suprema, a verdadeira guia da vida dos mortais: a ignorância. Jamais subestime a capacidade humana de iludir-se. É ela o verdadeiro motor da História.

Seguida à risca essa receita, asseguro que estarão criadas as bases para mais um governo populista e personalista, messiânico e autoritário. Garanto que o resultado será, em pouco tempo, um país destroçado, uma economia arrasada ou estagnada, as divisões sociais e raciais exacerbadas, a insegurança galopante, as instituições em frangalhos, um povo imbecilizado, uma intelectualidade vendida ou estupidificada. O verdadeiro caminho para a reedição dos piores pesadelos do século que passou. A humanidade não aprende com seus erros; apenas espera a oportunidade de repeti-los. Como tragédia ou como farsa. Ou como ambas.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

O QUE ELES QUEREM


"Eu responderei minha pergunta. O Partido procura o poder por amor ao poder. Não estamos interessados no bem-estar alheio; só estamos interessados no poder. Nem na riqueza, nem no luxo, nem em longa vida de prazeres: apenas no poder, poder puro. O que significa poder puro já compreenderás, daqui a pouco. Somos diferentes de todas as oligarquias do passado, porque sabemos o que estamos fazendo. Todas as outras, até mesmo as que se assemelhavam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos muito se aproximaram de nós nos métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer os próprios motivos. Fingiam, talvez até acreditassem, ter tomado o poder sem querer, e por tempo limitado, e que bastava dobrar a esquina para entrar num paraíso onde os seres humanos seriam iguais e livres. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo. O poder não é um meio, é um fim em si. Não se estabelece uma ditadura com o fito de salvarguardar uma revolução; faz-se a revolução para estabelecer a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder. Agora começa a me compreender?"

Toda vez que eu leio isso, fico arrepiado. O parágrafo acima é, pode-se dizer, o clímax do romance de George Orwell, 1984, e descreve um diálogo (na verdade, um monólogo) entre o torturador, O'Brien, e sua vítima, Winston. Enquanto Winston está sendo torturado até ser reduzido a um esqueleto vivo no Ministério do Amor, O'Brien lhe explica didaticamente os princípios do Ingsoc, o Partido, como a novilíngua e o duplipensar, e a amar o Grande Irmão (o "Big Brother", que tudo sabe e tudo vê, e que é mais conhecido hoje em dia por causa daquele programa de TV idiota). Tendo passado pelas mais cruéis formas de tortura, Winston, que fora preso juntamente com sua amante, Júlia, já passara pelo estágio de aprender: agora precisava compreender para, depois, aceitar. Nesse estágio final, onde deveria tomar para si que dois mais dois são cinco, seria encaminhado à temida sala 101, onde seria colocado diante de seus piores medos.

A leitura de Orwell é, certamente, o melhor caminho para entender o que se está passando na América Latina de hoje, e no Brasil em particular. Mais que isso: é uma das melhores formas de compreender os mecanismos do poder. Há, no diálogo entre O'Brien e Winston, mais ensinamento do que na maioria dos tratados de ciência política. Não há, em toda a literatura ocidental, trecho mais forte a dissecar o verdadeiro motivo que leva as pessoas, sobretudo aquelas imbuídas de uma fé messiânica na redenção da humanidade, a buscar o poder. O poder, diz Orwell, não tem outro compromisso senão com o próprio poder, é um fim em si mesmo. Ao contrário do que nos acostumamos a pensar mecanicamente - por inércia, por preguiça, por medo, ou por tudo isso junto -, é o poder, o poder puro, e não qualquer objetivo altruísta, o que move e conduz os políticos. Todos os políticos, indistintamente. Os de esquerda, defensores de soluções totalitárias - como as denunciadas por Orwell em seus livros -, mais que os outros.

Estando eu em Brasília já há alguns anos, convivo quase diariamente com essa realidade de um mirante, digamos, privilegiado. Por causa da minha profissão, vez ou outra tenho contato com ministros e parlamentares. Percebo, então, como é vazia essa gente, como são ocos seus discursos. É sempre a mesma ladainha, a mesma lengalenga sobre a importância de servir os interesses do "povo" etc. etc. É claro que é tudo falso, que ninguém no Congresso, ou nos Ministérios, ou em qualquer outra instância governamental, leva essa discurseira demagógica a sério, nem está nem aí para os desejos do "povo", ou seja lá o que isso for. É óbvio que a briga por verbas para seus currais eleitorais, a eterna barganha política, não atende a outro propósito senão a manutenção de seus cargos e privilégios corporativos, e nada mais. É o desejo de poder, às vezes da simples proximidade com o poder, o que está por trás de todas as suas ações.

Diariamente, somos bombardeados com informações de como o governo está se empenhando em melhorar a vida da população, em como o Bolsa-Família e a CPMF irão beneficar milhões de pessoas (no caso da CPMF, devemos colocar a sentença no condicional, pois a prorrogação da mesma acaba de ser derrubada no Senado), de como, enfim, o Estado existe para atender os anseios e necessidades do povo. Esqueçam essa balela. É tudo falso, é tudo mentira. Nem Lula, nem a "oposição", nem quem quer que seja, têm outra finalidade, pensam em outra coisa senão em conquistar e conservar o poder. Como sabe perfeitamente quem já leu Maquiavel, é essa a única finalidade da política. Poder. Mais poder. Sempre. Simples assim.

É difícil abrir os olhos para essa verdade tão simples, tão óbvia. Um dos mitos mais fortes, sobretudo entre a esquerda do Primeiro Mundo, é que políticos populistas como Lula e Chávez estão interessados em promover a justiça social. Nada poderia ser mais distante da realidade. Assim como as ditaduras totalitárias do século XX, como o nazismo e o comunismo, os populismos latino-americanos, ao prometerem o céu para as massas, apenas preparam o caminho para o inferno. Nem Lula, nem Chávez, nem Fidel Castro, nem Stálin, nem o Grande Irmão dão a mínima para justiça social e outras coisas do tipo. A única coisa que realmente lhes interessa, a única razão por que se lançaram à política, é o poder, nada mais, nada menos. No caso de Lula e dos companheiros petistas, o poder nunca foi um instrumento para alcançar nenhum objetivo mais elevado, mas o próprio objetivo perseguido, assim como uma forma de ascensão social. É isso que explica seus ziguezagues políticos, suas alianças espúrias, seus mensalões e valeriodutos, suas bravatas, sua proposital indefinição e vagueza ideológica. O poder pelo poder.

Não que todos os políticos sejam vagabundos e safados. Nada disso. Acredito que, em meio à imensa maioria de salafrários, sempre haverá um ou dois idealistas. Mas isso não faz a menor diferença. Idealistas, creio eu, também eram muitos nazistas e comunistas. Provavelmente o personagem do livro de Orwell, O'Brien, o torturador a serviço do Partido, seja um arquétipo do idealismo. Por isso sempre desconfiei de quem se mostra muito idealista em política. Pior que um político sem princípios, só um político com princípios. Principalmente, se for de esquerda.
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Durante muito tempo, acreditei na cantilena marxista de que o Estado, longe de ser um instrumento a serviço do bem comun, nada mais é do que uma máquina para garantir a opressão de uma classe por outra, ou, no dizer de Marx, "um comitê para gerir os negócios comuns da burguesia". Como em tudo o mais, Marx estava redondamente enganado. O Estado não é nada disso. É, sim, um instrumento de opressão, mas a serviço de si mesmo. É para sustentar essa formidável máquina, e não para transformar a terra num paraíso, que existem as leis, os exércitos e os impostos. É por isso que, quanto menor for essa máquina, quanto menor for sua burocracia e quanto menos funcionários tiver, quanto menor for sua ingerência na economia e nos assuntos privados dos cidadãos, melhor para a sociedade. Não por acaso, o animal que simboliza a receita federal, entre nós, é o leão. Não sendo possível nos livrarmos em definitivo desse monstro voraz, cumpre serrar seus dentes e aparar suas unhas, para que fique o mais manso possível.
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Se lêssemos um pouco Orwell, talvez percebêssemos que, de tudo o que o governo nos diz, 99% são mentiras, e o 1% restante é pura propaganda, o que dá quase no mesmo. Seríamos capazes, certamente, de enxergar o que sempre esteve diante de nossos olhos o tempo todo, mas que nunca tivemos a disposição, ou a coragem, de enxergar: que ninguém entra na política pensando no bem alheio, mas unicamente, exclusivamente, simplesmente, no poder, o eterno e inexorável poder. Poder não para distribuir justiça, para dar comida aos pobres e lar às criancinhas, mas para ter mais e mais poder. Não é à toa que os livros de Orwell são até hoje proibidos em países como Cuba. Não é à toa que elegemos e reelegemos Lula para presidente do Brasil.
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Enquanto não abrirmos os olhos para essa dura e fria realidade do poder, deixando de lado definitivamente as ilusões de justiça social brandidas pelos totalitarismos e populismos de todo tipo, correremos o risco de acabar como Winston, que, após ser reduzido a um farrapo humano, aprende a amar o Grande Irmão. "Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre", diz O'Brien no livro de Orwell. 1984 foi escrito há mais de cinqüenta anos. O futuro chegou.

terça-feira, dezembro 11, 2007

A ARTE DE CULTIVAR O PRÓPRIO JARDIM

Confesso. Sou um egoísta. Sempre fui. Desde criancinha. Claro, de acordo com a teologia cristã, eu vou para o inferno. Mas não me importo, até porque não creio em Deus, nem em Diabo, nem em boitatá ou curupira. Isso significa também que, de acordo com a ideologia oficial do Estado brasileiro atualmente, eu sou um canalha, um reacionário, um burguês desprezível. Nem precisa dizer que não dou a mínima para isso também.

É óbvio que, para afirmar tal coisa a respeito de mim mesmo, eu teria que ter uma forte argumentação a favor do egoísmo, tido entre nós como um dos vícios mais funestos, um dos pecados mais terríveis que alguém possa cometer. Teria que ter uma base muito sólida, ou ser muito cara-de-pau, ou as duas coisas, para provar que é bem melhor ser egoísta e se importar apenas com a própria vida do que ser um militante de causas altruístas como a luta contra a extinção dos ursos panda chineses ou o aquecimento global. Devo dizer que a tarefa não é das mais difíceis. Nem precisei ler Ayn Rand ou Milton Friedman para descobrir a delícia e a virtude que estão por trás dessa minha opção consciente. Bastou um pouco de Voltaire.
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François-Marie Arouet, o Voltaire (1694-1778), como quem já leu a Barsa deve saber, foi o principal filósofo do Iluminismo na França. E foi também um grande cínico. Em um século, o XVIII, pontuado por mentes brilhantes e detestáveis, ele foi talvez a mais brilhante de todas, e pessoalmente a mais detestável. Fortemente anticlerical (chamava a Igreja católica de "A Infame"), embora acreditasse na possibilidade de Deus (mas e daí?, perguntava; pois se há mesmo um Deus bondoso e todo-poderoso, por que existem terremotos?) e inimigo de toda forma de obscurantismo, cortejava, porém, algumas cabeças coroadas da Europa, como o Rei da Prússia, Frederico II, em cuja corte chegou a viver por alguns anos. Adversário implacável do absolutismo, desprezava, no entanto, o povo, a quem chamava de "a canalha". Era bastante esperto também, e, quando se tratava de ganhar dinheiro, tinha poucos escrúpulos. Certa vez, aproveitando-se de uma loteria mal organizada, comprou todos os bilhetes e embolsou o prêmio. Escritor, romancista e teatrólogo, desdenhava o público, que considerava uma fera terrível, que precisava ser domada. Era o que se poderia chamar de um esnobe, um aristocrata do pensamento.
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O contraponto perfeito de Voltaire é seu contemporâneo, o filósofo suiço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), autor de O Contrato Social. Ao contrário de Voltaire, Rousseau acreditava na virtude pessoal e na bondade natural dos homens, e fazia mesmo dessa crença uma obsessão e a base de sua filosofia. Diferentemente de Voltaire, Rousseau rejeitava a ciência e o progresso, assim como as desigualdades sociais decorrentes do capitalismo, e advogava, em lugar da sociedade industrial, um retorno à natureza. Em nome da "vontade geral", opunha-se à monarquia constitucional defendida por Voltaire, defendendo o que chamou de "soberania popular". Foi em nome de seus ideais de igualdade e justiça que a ala mais radical da Revolução Francesa, os jacobinos, tendo à frente Robespierre, o "Incorruptível" - tão incorruptível que, dizem, morreu virgem -, desencadeou o Terror na França, cortando milhares de cabeças dos que se opunham ao "Reino da Virtude" e lançando as sementes dos totalitarismos do século XX, como o nazismo e o comunismo. Paradigma da Virtude, Rousseau acreditava que o Estado, como encarnação da vontade geral, poderia substituir o indivíduo e a família. Coerente com essa crença, entregou seus filhos a um orfanato estatal e foi passear à beira do Lago Genebra, onde costumava sonhar com a redenção da humanidade, sustentado por uma rica viúva. Rousseau, o romântico, acreditava que os homens nascem bons e livres, apenas a sociedade é que os corrompia. Voltaire, o racionalista, acreditava que a sociedade poderia até ser algo bom, mas os homens, não. Durante um período, Voltaire e Rousseau trocaram uma rica correspondência. Certa feita, diante da insistência de Rousseau em condenar o progresso e em louvar as virtudes de uma vida pastoril, Voltaire, fiel a seu estilo sarcástico, não titubeou: sugeriu-lhe ficar de quatro e comer capim.
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Ao contrário de seu colega genebrino, Voltaire não dava a mínima para as assim chamadas causas sociais, esse fetiche das esquerdas. A coisa mais importante que um homem poderia fazer na vida, a única realmente de algum valor, dizia, era cuidar do próprio jardim. Somente uma vez Voltaire deixou suas roseiras de lado e entrou de cabeça na defesa de uma causa. Foi quando um morador de Toulouse, no sul da França, Jean Calas, protestante, foi acusado falsamente de planejar o assassinato de um filho que se havia convertido ao catolicismo. Voltaire sentiu, corretamente, cheiro de Inquisição no ar. O resultado foi uma das páginas mais corajosas e uma das defesas mais brilhantes da liberdade religiosa já escritas na história humana, seu Tratado sobre a Tolerância.
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Mesmo nesse caso, porém, Voltaire foi coerente com sua opção individualista. Ele não defendeu Jean Calas porque simpatizasse pessoalmente com ele, ou porque gostasse dos protestantes, ou porque queria mostrar ao mundo que era capaz de gestos altruístas e que não era tão individualista assim, afinal. Nada disso. O que estava em jogo para ele, naquele momento, era o mesmo sentimento que o levava a cultivar seu jardim: a defesa da liberdade individual. Em nome desta, ele estava disposto a servir de advogado em um obscuro caso de intolerância religiosa, em pleno "Século das Luzes", numa distante vila no interior da França. Ao fazê-lo, ele afrontou, assim como faria depois Émile Zola no caso Dreyfus - outro caso de intolerância religiosa, travestido de patriotada militarista -, um país inteiro, uma época inteira.
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Voltaire foi um dos maiores egoístas que já andaram sobre a terra. E um dos maiores benfeitores da humanidade, em todos os tempos. Seu cinismo legou-nos coisas como a liberdade de pensamento e a busca da felicidade individual, artigos até hoje considerados de luxo em muitas partes do planeta ainda submersas no obscurantismo. "Não concordo com uma palavra do que você diz, mas, enquanto viver, lutarei até o fim para que você tenha o direito de dizer o que pensa", é certamente sua frase mais citada. Pode-se dizer que ele é mesmo o modelo do célebre paradoxo formulado por Adam Smith, o pai da economia clássica, segundo o qual vícios individuais, como a cobiça e a avareza, geram benefícios coletivos.
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Entre nós, brasileiros, as idéias de Voltaire nunca foram muito populares. Em vez de seu saudável ceticismo e de sua mordacidade política, bem presente em sátiras como Cândido, preferimos Rousseau, com seu igualitarismo meio histérico. Este sempre teve, por estas bandas, discípulos devotos. É fácil encontrá-los: no governo, em ONGs, nas redações dos jornais e revistas. Alguns vestem batina. Outros, estão aboletados em algum Ministério. Todos preocupam-se com o próximo, com a humanidade, exalando virtude por todos os poros, arrotando altruísmo e compromisso com a coletividade, ansiosos por "fazer a diferença". Querem revolucionar o mundo, mudá-lo de alto a baixo para restaurar o império da virtude, assim como Rousseau e Robespierre. Em nome desse objetivo abstrato e de um futuro hipotético, no qual imperaria o bem absoluto, estão dispostos a tudo, não se importando em fazer o mal aqui mesmo, de forma concreta, no presente. A perfeita definição do revolucionário, pode-se dizer.
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Costuma-se afirmar, a título de boutade, que quem não foi de esquerda na juventude não tem coração, e quem continua a sê-lo na maturidade não tem cérebro. Eu discordo em parte. Como demonstram os 100 milhões de mortos produzidos no século XX pelo Reino da Virtude, quem é de esquerda, seja que idade tiver, não tem nem cérebro nem coração. Agora com licença, que eu vou cuidar do meu jardim.