sexta-feira, setembro 28, 2007

EM DEFESA DO CAPITALISMO


"A diferença entre capitalismo e socialismo é que, no capitalismo, se você leva um chute, você pode reclamar; no socialismo, se você leva um chute, você tem que aplaudir". (Reinaldo Arenas, Antes que anoiteça)

Eu não sei nada de economia. Se dependesse unicamente de meus conhecimentos sobre o assunto, eu jamais teria conseguido ser aprovado no concurso do Itamaraty. Tirando um pouco de História econômica e alguns rudimentos sobre macroeconomia, sou completamente ignorante na matéria. Sem falar que sempre detestei lidar com números, contas, esse tipo de coisa. Até hoje não sei a diferença entre fundo de renda fixa e caderneta de poupança, por exemplo. Brinco sempre que, se alguém quiser perder dinheiro, é só me entregar o comando de um negócio que eu o levo à falência em dois tempos. Como Lula ou Che Guevara na época em que era o manda-chuva da economia em Cuba, sou incapaz de tocar até uma birosca de esquina. Sou o que se pode chamar de um anticapitalista nato, o avesso de um empresário.

Quem me vê assim, totalmente desapegado desses assuntos mundanos, inclusive de minhas finanças pessoais, pode até pensar que eu seria um simpatizante da esquerda, um crítico feroz do capitalismo e da sociedade de consumo. Pois sou exatamente o contrário. Minha relativa ignorância em assuntos econômicos e falta de praticidade burguesa não me impedem de enxergar aquilo que é óbvio: que, com todos os seus defeitos - que não são poucos -, o capitalismo é o único sistema econômico e social compatível com a democracia e a liberdade do indivíduo. Disso, sim, eu entendo alguma coisa. Pelo menos eu acho.

A primeira virtude do sistema capitalista é, paradoxalmente, seu maior defeito: nele, tudo gira em torno do dinheiro, do vil metal. Nada de títulos de nobreza ou de ligações familiares (e por aí se vê quanto o Brasil está longe de ser, ainda, um país capitalista...). O que vale mesmo, o que realmente importa, é quanta bufunfa você tem no bolso ou no banco. Isso, que é um anátema para muitos românticos e para os padres católicos, foi uma verdadeira revolução, certamente a mais importante dos últimos quinhentos anos. O capitalismo, que muita gente confunde ignorantemente com ambição e egoísmo puro e simples, no sentido religioso da palavra, é fruto da grandiosa explosão criativa do Renascimento e da expansão comercial européia iniciada no século XI, que levou ao fim o antigo sistema feudal, com suas obrigações e privilégios, e estabeleceu em seu lugar um sistema inteiramente novo, baseado nas concepções do Humanismo e na prosperidade individual. Foram essas idéias que produziram a Reforma religiosa do século XVI e permitiram à humanidade, pela primeira vez na História, libertar-se das amarras sociais que impediam o desenvolvimento da consciência pessoal. O lucro mediante o trabalho, a iniciativa empresarial, o livre comércio, o florescimento da individualidade, o espírito empreendedor, decorrentes em grande parte da ética protestante - como diria Max Weber -, tudo isso é produto direto, inseparável, do capitalismo. Não por acaso, até o maior inimigo do sistema capitalista, Karl Marx, inicia seu texto mais famoso enaltecendo o papel profundamente revolucionário desempenhado pela burguesia ao longo da História.

Claro que um sistema assim, alicerçado na iniciativa individual e não em laços de sangue ou feudais, só poderia florescer em um modelo político que garantisse os interesses particulares contra a ingerência esmagadora e sufocante do Estado todo-poderoso. Num primeiro momento, um Estado forte, absolutista, chefiado por um monarca de direito divino como Luís XIV na França ou Elisabeth I na Inglaterra, foi necessário para minar as bases da velha autoridade feudal e eclesiástica e garantir os interesses dessa classe de comerciantes. Esse Estado, porém, logo esgotou sua utilidade, passando de garantidor para um entrave ao andamento dos negócios. Em seu lugar, surgiu então um novo sistema político, baseado não mais na autoridade suprema e incontestável do Rei sobre seus súditos, mas no conceito de Estado-Nação, nos direitos universais dos cidadãos. Esse sistema, que perdura desde então nos chamados países civilizados, é a democracia.

Fiz toda essa digressão histórica porque, há pelo menos noventa anos, a esquerda se apropriou do discurso da defesa da democracia. Mais: chegou mesmo a mudar completamente o sentido da palavra, alterando seu significado original. Assim, ditaduras totalitárias como os regimes comunistas do Leste Europeu se auto-intitulavam "democracias populares" e governos populistas como o de Hugo Chávez na Venezuela se autodenominam "democracias participativas e protagônicas". Aprendi a desconfiar de todas as tentativas de se adjetivar a democracia, mesmo que seja para descrevê-la como "democracia democrática". Democracia é democracia. E ponto. O resto é ditadura, disfarçada ou não.
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Os esquerdistas afirmam que o capitalismo não tem nada a ver com democracia porque ele pode existir tanto em regimes democráticos quanto em ditaduras, como a dos militares no Brasil em 1964-1985 ou a do Chile sob o general Pinochet. É uma meia verdade, o que significa uma meia mentira. Sim, o capitalismo floresceu em alguns setores, durante esses regimes, principalmente no caso do Chile, onde se adotou, de forma pioneira a partir dos anos 70, uma série de reformas liberais da economia, paralelamente à repressão política. Mas o fato inegável é que tais regimes sempre se mostram, a longo prazo, um entrave ao desenvolvimento do livre mercado. Tanto que existem sempre a título provisório, com a perspectiva de um dia darem lugar ao retorno da normalidade democrática. No caso do regime militar do Brasil, assistiu-se a um crescimento fenomenal de alguns setores - obras públicas, principalmente - dependentes do apoio estatal, em detrimento de áreas em que a livre iniciativa e a livre concorrência fazem toda a diferença (um exemplo é o setor de informática, artificalmente congelado por uma absurda "reserva de mercado" durante décadas). Não por acaso, foi durante a ditadura militar brasileira, anticomunista e antiesquerdista, que ocorreu o maior inchaço do setor público-estatal da economia no País - algo do agrado, certamente, dos esquerdistas que estão hoje no poder.
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Assim como conviveu, dos séculos XVI ao XVIII, com o absolutismo monárquico e o Antigo Regime Colonial, o capitalismo pode conviver durante algum tempo com regimes autoritários, como as ditaduras militares latino-americanas dos anos 60 e 70, estabelecidas para conter o avanço da esquerda anticapitalista e antidemocrática. Mas seu livre florescimento, por suas próprias características, só pode ocorrer em bases democráticas. O socialismo, por sua vez - e aqui me refiro aos "socialismos reais" do século XX, como o da ex-URSS e o de Cuba -, só pode existir em bases ditatoriais, totalitárias. Aliás, a destruição da democracia, em todas as suas vertentes, é a sua base, seu alicerce fundamental. Pode existir capitalismo sem democracia? Certamente que sim. Mas não pode haver democracia sem capitalismo. A recíproca não é verdadeira.

O capitalismo não é superior apenas porque faz os melhores carros e barbeadores elétricos, ou porque é o único sistema capaz de gerar - e distribuir - riqueza, mas principalmente porque é o único sistema social, até o momento, compatível com as noções de democracia e de liberdade. Não somente a democracia no sentido estritamente político, a democracia do voto, mas a democracia social, a possibilidade de mudar de classe ou de grupo socioeconômico, para cima ou para baixo. Para tanto, é imprescindível a existência de um ordenamento jurídico e político sólido, capaz de garantir, ao mesmo tempo, os interesses dos ricos e dos que almejam sê-lo um dia, alicerçado em regras e princípios impessoais e na defesa das liberdades básicas do cidadão: liberdade de escolha, de consciência, de crença, de expressão, de associação, de reunião, de ir e vir etc. Não é a democracia que é boa porque permite o livre mercado; é o livre mercado que é bom porque permite a democracia. Em suma, o capitalismo é melhor porque é o único sistema que possibilita uma sociedade aberta e democrática. Como tal, é incompatível com o patrimonialismo, o familismo e outras chagas tão conhecidas da sociedade brasileira. Até o momento em que escrevo estas linhas, ninguém apresentou coisa melhor.

Durante muito tempo, hesitei em reconhecer a relação inegável entre democracia e capitalismo, assim como entre desenvolvimento econômico e capitalismo. Ainda influenciado pelas teses marxistas, insistia em negar o fato óbvio de que os regimes socialistas, a pretexto de promover a igualdade, apenas mataram a liberdade e geraram somente atraso e opressão. Hoje, alguns anos e muitas leituras depois, percebo com cada vez mais nitidez o que muitos políticos, demagogos e tecnocratas relutam em admitir: que as diferenças entre os países ricos e pobres não decorrem do capitalismo, mas da falta dele (nos países pobres, bem entendido) e que as noções de livre empresa e de propriedade privada são inseparáveis da democracia (se têm alguma dúvida, comparem as trajetórias políticas dos EUA, o maior país capitalista de todos os tempos, e da Europa nos últimos duzentos anos).

É claro que o sistema capitalista, com sua ênfase na propriedade e no lucro, não está livre, como já disse, de defeitos. Mas, no balanço geral, esses defeitos, tal como os vícios individuais, acabam gerando benefícios coletivos. O principal deles é a própria democracia. As leis do mercado e a livre concorrência, se geram problemas, abrem ao mesmo tempo enormes oportunidades a quem está disposto a pagar o preço e correr riscos. As desigualdades inevitáveis que daí decorrem são plenamente compensadas, em minha opinião, pela liberdade que lhes é inerente. Os marxistas e seus "companheiros de viagem" adoram falar em revolução, mas a verdade é que o único sistema verdadeiramente revolucionário é o que querem destruir. No socialismo, todos são escravos do Estado revolucionário. No capitalismo, cada um pode fazer sua própria revolução individual. E, se levam um chute no meio do caminho, podem gritar. Ao contrário do que ocorria nas "democracias populares" que pretenderam substituí-lo.

terça-feira, setembro 25, 2007

O BÊ-A-BÁ DO BESTEIROL IDEOLÓGICO


Simón Bolívar, o herói da independência latino-americana, disse em seu testamento que a única coisa a fazer na América Latina era emigrar. Depois do que li na semana passada sobre o que é ensinado atualmente nas escolas públicas no Brasil, tive vontade de seguir à risca o conselho de "El Libertador" e correr para o aeroporto.

O que deflagrou tudo foi um artigo de Ali Kamel, publicado n'"O Globo" de 18/09, no qual o autor, editor de jornalismo da Rede Globo, chama a atenção para o problema da doutrinação ideológica nas escolas da rede pública de ensino. Mais especificamente, Kamel analisa o conteúdo de um livro didático, "Nova História Crítica", de Mário Schmidt, distribuído pelo MEC a cerca de 750 mil alunos da 8a série no País. Eis o que é ensinado atualmente às crianças brasileiras:

Sobre o capitalismo: "Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários."

Sobre o ideal marxista: "Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores."

Sobre Mao Tse-tung: "Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador."

Sobre a Revolução Cultural Chinesa: "Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (...) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (...) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (...) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes "politicamente esclerosados". (...) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: "Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo." As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo."

Sobre a Revolução Cubana e o paredão: "A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular."

Sobre as primeiras medidas de Fidel: "O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%." Essas medidas eram justificadas assim: "Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde."

Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: "Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA. (...) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?"

Sobre os motivos da derrocada da URSS: "É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (...) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas... Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinham (sic) inveja da classe média dos países desenvolvidos (...) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (...) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (...) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?" (obs.: que belo exemplo de História não-factual, baseada no "e se"...)

O lixo reproduzido acima dispensa maiores comentários. Conclui Ali Kamel:

"De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas apenas um pesadelo?"

Em resposta ao editor de jornalismo da Rede Globo, o autor do livro, Mário Schmidt, escreveu o seguinte:

"Não publicamos livros para fazer crer nisso ou naquilo, mas para despertar nos estudantes a capacidade crítica de ver além das aparências e de levar em conta múltiplos aspectos da realidade. Nosso grande ideal não é o de Stálin ou de Mao-Tsé Tung, mas o de Kant: que os indivíduos possam pensar por conta própria, sem serem guiados por outros.

Assim, em primeiro lugar exigimos respeito. Nós jamais acusaríamos o sr. Kamel de ser racista apenas porque tentou argumentar racionalmente contra o sistema de cotas nas universidades brasileiras. E por isso mesmo estranhamos que ele, no seu inegável direito de questionar obras didáticas que não façam elogios irrestritos à isenção do Jornal Nacional, tenha precisado editar passagens de modo a apresentar Nova História Crítica como ridículo manual de catecismo marxista.

Selecionar trechos e isolá-los do contexto talvez fosse técnica de manipulação ultrapassada, restrita aos tempos das edições dos debates presidenciais na tevê. Mas o artigo do sr. Ali Kamel parece reavivar esse procedimento. Ele escolheu os trechos que revelariam as supostas inclinações stalinistas ou maoístas do autor de Nova História Crítica".

Trocando em miúdos: o livro "Nova História Critíca", segundo seu autor, não foi escrito para fazer as crianças "acreditarem nisso ou naquilo", nem é guiado, ao contrário de grande parte da esquerda brasileira que hoje se refestela no poder, pelo ideal de Stálin ou de Mao Tsé-Tung. Não é, portanto, um "ridículo manual de catecismo marxista", nem seu autor tem qualquer suposta inclinação stalinista ou maoísta. Fiquem calmos, senhores, eu não quero doutrinar os filhos de vocês, é o que diz o professor Mário Schmidt.

Ainda sobre o assunto, termino de ler no site do PCdoB um artigo de um tal Pedro de Oliveira, em defesa do livro de Mário Schmidt e contra o artigo de Ali Kamel. Eis o que ele diz:

"O professor Mario Schmidt é notoriamente um severo crítico do capitalismo. Para Ali Kamel, olavetes, reinaldetes e ''nova direita'', isso, atualmente, é um pecado mortal - onde já se viu? Um sistema tão bonitinho, tão limpinho e responsável, como é possível que não se admita que o capitalismo é o sistema econômico perfeito, para não dizer o sistema econômico terminal da humanidade. Quem ousaria levantar críticas ao capitalismo e - horror, horror! - encontrar qualidades no socialismo?"

Traduzindo: num primeiro momento, a idéia de que há doutrinação ideológica nas escolas é descartada como paranóia de um bando de direitistas. Noutro, o autor do livro "inofensivo" é louvado como um notório e severo crítico do capitalismo, que ousa encontrar qualidades no socialismo, algo, obviamente, inaceitável para os "olavetes e reinaldetes". Num momento, banca-se o bom-moço. Noutro, estamos diante de um verdadeiro intelectual orgânico da classe trabalhadora, para usar a terminologia gramsciana, tão conhecida dos esquerdistas. Um verdadeiro exercício de doublespeaking.

Ficou claro o tamanho da empulhação? Ou será preciso repetir?

Sempre tive uma desconfiança quase instintiva em relação a livros que trazem o adjetivo "crítico" no título. Ainda mais se o livro em questão é de História. "História Crítica" é na verdade um pleonasmo, uma redundância, pois toda História, se quiser ser séria, precisa ser crítica. É como dizer "Geografia do Planeta Terra" ou "Matemática dos Números". Na quase totalidade dos casos, o que se quer dizer com "crítica" é "ideológico", ou "panfletário". Mais que isso, o adjetivo "Nova" traz em si a idéia de superação, de que tudo o que veio antes, a interpretação anterior dos fatos históricos - a "Velha História", portanto -, seria algo caduco e superado, a "verdadeira" sendo a "nova", a História segundo a cartilha revolucionária e esquerdista. É exatamente isso o que os discípulos de Marx e Engels trataram de aplicar onde quer que botaram as mãos na máquina do Estado, como na ex-URSS, na China e na Venezuela de Hugo Chávez, e é exatamente o que os companheiros lulistas estão tratando de fazer hoje nas escolas da periferia.

Na verdade, o processo de doutrinação ideológica - anticapitalista, antiglobalização, antiamericana, antidemocrática, e em favor do socialismo - não é algo novo, nem se restringe à rede pública de ensino. Há tempos as escolas e as universidades, tanto públicas como também particulares, seguem à risca a cartilha marxista. Tão longe chegou essa infiltração gramsciana que já nem nos damos conta dela, a encaramos como algo natural. Lembro que, no início dos anos 80, ainda aluno numa conceituada escola particular, os professores derramavam-se em elogios aos heróicos revolucionários sandinistas. A escola, católica e tradicional, seguia a linha da teologia da libertação, e adotávamos, como texto-base, um livro de Frei Betto. Isso em pleno regime militar!

Esse foi um processo longo, que contou inclusive com o apoio, consciente ou não, de importantes meios de comunicação e da grande mídia, que agora descobre, com algumas décadas de atraso, que as escolas se transformaram em verdadeiras madrassas, em caixas de ressonância da versão esquerdista da História, recheada de asnice "politicamente correta" e de palavras de ordem marxistóides. Hoje, com os esquerdistas no poder - e, quando digo esquerdistas, não me refiro somente aos lulistas, mas também aos tucanos, que posam de "modernos", mas vêm do mesmo ninho -, a ideologização da sociedade é muito mais explícita, muito mais escancarada, pois conta com apoio oficial. A cartilha do professor Mário Schmidt é apenas uma pequena, embora eloqüente, amostra do nível avançado a que chegou esse processo. É algo realmente preocupante.

Claro, os defensores da lavagem cerebral travestida de pedagogia que hoje se ensina nas salas de aula vão espernear que estou, a exemplo de Ali Kamel, "selecionando trechos e isolando-os do contexto", como afirma Mário Schmidt. Selecionando estou mesmo, e não poderia ser diferente. Até porque não é possível transcrever aqui todos os absurdos e falsificações reproduzidos na obra em questão. Mas isolar do contexto é coisa bem diferente. Ninguém, nem Ali Kamel nem eu, está retirando os trechos acima citados do contexto em que estão inseridos. Pelo contrário: basta olhar em volta e se verá facilmente de que contexto estamos falando. Para ser mais explícito: basta lembrar que, para o governo lulista, a quem o MEC é subordinado, o modelo de educação pública e de qualidade é a Cuba de Fidel Castro. Precisa dizer mais?

A propósito: reescrever a História, editando textos e imagens para melhor se ajustarem aos interesses de quem está no poder, é algo típico de regimes totalitários, como o de Cuba e o de Stálin. O mesmo tipo de regime político considerado ideal por pessoas como Pedro de Oliveira e Mário Schmidt.

Você matricularia um filho seu em uma escola pública no Brasil de hoje?

quarta-feira, setembro 19, 2007

CORRIDA PELO SUCESSO


Vou começar este texto sem saber ao certo onde vou terminar. Sei apenas que me deu vontade de escrever. A compulsão por escrever, a mania de pôr algo no papel (ou na tela de um micro) é algo que me acompanha há tempos, e que, desde então, me persegue quase como uma sombra ou uma voz interior, dessas que ficam soprando no ouvido e a gente não sabe se é coisa boa ou ruim. Nos últimos tempos, escrever virou para mim uma espécie de terapia, em que me ponho a desabafar, a despejar minha raiva contida, magnificada por horas e horas de tédio forçado em frente a uma tela de computador. É uma maneira de exercitar o português e, de quebra, exorcizar os demônios de cada dia.

De repente bateu vontade de falar (escrever) sobre sucesso. Sim, sucesso. Diabo de palavrinha metida, essa. Por onde quer que eu vá, lá está ela, estampada em outdoors e em telas de TV, em anúncios e capas de revista. Se vou a uma livraria, deparo com ela, na forma de estantes e mais estantes recheadas de livros de auto-ajuda, dos Paulos Coelhos e Shiniashikys da vida que, sob um véu de misticismo e psicologismo baratos, prometem mundos e fundos de felicidade e dinheiro (pelo menos para eles, os autores desse lixo todo, a fórmula se mostrou bastante lucrativa). Se folheio uma revista, lá está ela, a palavrinha maldita, em propagandas de carros ou de bebidas. Se ligo a TV, ela faz questão de aparecer, em comerciais com jeito de video-clipe, quase sempre com gente bonita, bem vestida, de dentes alvíssimos e corpos sarados. Vivemos para o sucesso. Acordamos pensando nele. Almoçamos, jantamos, dormimos, sonhamos todo dia e toda noite com ele. Sucesso, sucesso, sucesso.

No mundo em que vivemos, marcado pelo culto à vaidade, por celebridades instantâneas e pela futilidade elevada à condição de item essencial de sobrevivência, a obsessão pelo sucesso, pelo "se dar bem na vida", tornou-se uma verdadeira religião. No meu trabalho, não é diferente. Aliás, falando com toda sinceridade, em poucos lugares o sucesso é perseguido com mais ardor e sofreguidão do que no Itamaraty. Como se não bastasse um concurso dos mais difíceis, mais três anos de estudos intensivos, sem falar nas "regras não escritas" e no formalismo burocrático às vezes sufocante, a carreira diplomática se caracteriza, pelo que eu vi até aqui, pela busca incessante, selvagem, pelo sucesso. E essa busca se torna mais frenética à medida que vão se aproximando as promoções e a competição pelos melhores postos - os "melhores" sendo os "postos A", o chamado "circuito Elizabeth Arden", as embaixadas mais cobiçadas no exterior, aquelas localizadas nas capitais mais glamurosas, como Washington, Londres, Roma ou Paris. Então, criam-se desavenças, amizades se desfazem, interesses se impõem. E os que ficam para trás são os "caroneados", os "perdedores", com o surgimento inevitável de ressentimentos e egos feridos. Tudo em nome do danado, do maldito sucesso.

A cada dia me convenço mais: somos escravos do sucesso. Não sabemos ao certo o que ele é, mas o idolatramos mesmo assim, nos sujeitamos, nos rebaixamos por ele. Para a maioria das pessoas, pelo menos para a maioria do sexo masculino, sucesso é sinônimo de dinheiro, um carrão importado na garagem, uma mansão no Lago Sul ou aquela gata maravilhosa da propaganda de cerveja. Outros vêem sucesso na fama, na celebridade, em geral alcançada sem méritos maiores do que a pura e simples exposição na mídia. Outros, ainda, vêem o sucesso no poder, ou na proximidade com o poder. Para isso, muita gente sacrifica tudo: amizades, respeito próprio, lazer, saúde. Lembro de uma piada antiga que dizia mais ou menos assim: um sujeito podre de rico está conversando com um mendigo. "Olhe para mim", diz o milionário. "Hoje tenho carros de luxo, uma montanha de dinheiro, casas, iate, tudo conquistado com muito suor e trabalho. E você, o que tem?". O mendigo, então, indaga singelamente: "Para que tudo isso?". Ao que o ricaço responde, com ar de superioridade: "Para que, quando você estiver doente, tenha dinheiro para cuidar de sua saúde". E o mendigo: "Então você quer dizer que eu devo ralar para ganhar dinheiro, perder a saúde de tanto trabalhar, ganhar uma úlcera, só para gastar meu dinheiro depois tentando recuperar a saúde, que perdi para ganhar dinheiro? Prefiro continuar pobre".

Não sei quanto a vocês, mas essa conversa toda de sucesso me aborrece terrivelmente. Hoje, tenho carro e dinheiro no banco, um padrão de vida que, se não chega a ser cinco estrelas, me permite viver com certo conforto e tranqüilidade, sem apertos financeiros. Ganho o suficiente para ter os livros e DVDs que desejo e viajar nas férias - o que, para mim, se não é a felicidade, é quase. Mesmo assim, não sou capaz de dizer se sou mais feliz e realizado agora do que quando ainda era estudante em Natal, ganhava uma bolsa de 200 reais, vivia na praia, de bermuda e chinelo, e saía, quase todos os fins de semana, para alguma farra com os amigos, onde em geral não se gastava mais do que 30 reais por cabeça (para a cerveja e o tira-gosto). Naquela época, eu não tinha carro, nem celular - sem o qual, aliás, eu passaria muito bem, obrigado -, nem casa (morava com meus pais), mas pelo menos eu fazia meus próprios horários e não tinha um workaholic chato e neurótico como chefe me importunando o tempo todo (em busca, sempre, do sucesso, claro). Mais importante, eu tinha tempo livre suficiente para fazer o que mais gosto na vida: ler, conversar, ir ao cinema ou simplesmente sair por aí, sem destino certo nem horário para seguir. Lembro como se fosse hoje de minha mãe (espero que ela me perdoe por dizer isso) buzinando no meu ouvido, eu esparramado no sofá da sala ou numa rede, lendo algum livro de História ou algum romance de Dostoiévsky, ou vendo algum filme no velho video-cassete, e ela balançando a cabeça, preocupada, certamente pensando: "que perda de tempo, quando ele vai tomar jeito na vida?", e meu pai (perdão, perdão), o olhar de reprovação, repetindo quase como se fosse um mantra, entre uma baforada ou outra do cigarro: "História... isso não dá dinheiro, não...". Dinheiro pode até não dar, mas me dava prazer. Tanto que, se não fosse por tanta insistência e pelas cobranças constantes, sem falar em inconveniências como a falta de privacidade, acho que eu ainda estaria morando com meus pais e nunca teria mudado para Brasília. Hoje, sou dono de muita coisa, menos de meu tempo. Posso dizer que sou mais bem-sucedido hoje do que era antes?

Comecei a escrever este texto dizendo que não saberia como o terminaria. Pois aí vai um fecho que julgo apropriado: sucesso, grana, fama... nada, mas nada mesmo, vale uma úlcera. O importante é ser feliz. O resto é penduricalho.

segunda-feira, setembro 17, 2007

O FIM DA ESQUERDA



Sei que você já não agüenta mais ouvir falar em corrupção, Renan Calheiros, Lula, mensalão, Zé Dirceu etc. etc. Também já estou de saco cheio de tudo isso. Afinal, é difícil tratar de tema tão malcheiroso sem sentir náusea e ânsia de vômito. Mas vou pedir licença para falar mais uma vez do assunto. Por mais que nos cause repugnância remexer em tamanha imundície, alguém tem que tapar o nariz e fazer o papel de vira-bosta.

Já virou lugar-comum dizer que a absolvição do senador Renan Calheiros na sessão - secreta - de 12/09, por 40 votos a favor, 35 contra e 6 abstenções, no processo de quebra de decoro parlamentar pelas suas relações mal-explicadas com um lobista de empreiteira que pagava suas contas pessoais, é um dos capítulos mais vergonhosos da História nacional e, em particular, do Senado. Como já se tornou um clichê afirmar que, com tal decisão, o Senado Federal, veneranda instituição de 180 anos, cometeu um verdadeiro suicídio político, desmoralizando-se perante a opinião pública. Com Renan livre, leve e solto, os senhores senadores premiaram a impunidade, a corrupção, o patrimonialismo, a safadeza etc. etc. etc. Isso todos já estão cansados de saber.

A questão principal, aquela que ficou em segundo plano na maratona de informações sobre o caso Renan e seu último desdobramento, diz respeito não ao senador alagoano em si, ou a seus bois, sua ex-amante que vai posar para a Playboy e outras coisas do gênero. Diz respeito, na verdade, nem mesmo ao Senado, que Renan, com uma mãozinha dos companheiros petistas, acaba de desmoralizar por completo. A questão diz respeito a Lula, ao PT e à esquerda, ou ao que sobrou da esquerda, ou ao que se convencionou chamar de esquerda, no Brasil.

Recapitulemos. As manobras e intrigas de bastidores que garantiram a absolvição de Renan obedeceram a um padrão bem conhecido da política nacional. Aliado do governo Lula, Renan é peça-chave no esquema lulo-petista. Como presidente do Senado, é o pilar fundamental para a aprovação na Casa da prorrogação da CPMF - imposto que, nascido provisório, dá sinais de vocação para a eternidade, e cuja extinção, assim como a "defesa da ética", já foi uma das bandeiras de campanha de Lula e da companheirada. Só isso já explica o apoio prestado pela bancada petista ao companheiro Renan, seja pelo voto a favor ou pela abstenção - caminho seguido corajosamente pelo senador Aloízio Mercadante, por exemplo. Acrescente-se o rabo preso dos demais senadores dos outros partidos, todos lembrados discretamente por Renan de que seus votos certamente teriam conseqüências (uma forma suave de descrever a velha tática da chantagem) e está explicada a maioria contrária à cassação do distinto senador, que poderá, pelo menos por enquanto, continuar a presidir a instituição como se fosse mais uma de suas fazendas em Murici.

Que lição fica de tudo isso? A seguinte: o PT, Partido dos Trabalhadores, da estrela vermelha e do presidente Lula; o PT, outrora conhecido como o campeão infatigável das causas populares e da ética na política; o PT, o maior partido de esquerda do Ocidente; o PT, que se meteu até o pescoço nos escândalos do assassinato de Celso Daniel, do mensalão, do valerioduto, do dossiêgate e outros rolos mal-explicados; o PT, enfim, acaba de assinar seu atestado de óbito. E, com ele, toda a esquerda, a própria noção de esquerda.

Tendo nascido sob o signo da luta pela redemocratização do País e da justiça social, tendo abraçado, antes de desfrutar as delícias do "pudê", a bandeira da ética, o PT culmina melancolicamente sua trajetória trabalhando para livrar a cara do ex-collorido Renan Calheiros. Tendo durante quase três décadas se apresentado como o único e legítimo defensor da virtude na política, acaba rebaixado à condição de partido da barganha e do toma-lá-dá-cá, da corrupção e da condescendência com corruptos. Com isso, fica mais que demonstrado, para quem quiser ver, que toda aquela discurseira sobre ética, toda aquela retórica repetida ad nauseam em favor dos pobres e humildes, e em defesa da moralidade na vida pública, não passava de mera demagogia oportunista para vencer as eleições.

Não apenas a bandeira da ética foi pelo ralo - a da democracia também. Assim como fez com a ética, o PT tentou partidarizar e ideologizar a democracia, tentando impor goela abaixo de todos a falácia de que a defesa da legalidade democrática pertence exclusivamente à esquerda. E, assim como ocorreu com seu tão decantado "patrimônio ético", tal visão falsa e deturpada caiu totalmente por terra, na forma de manifestações públicas de apoio ao tiranossauro Fidel Castro e a seus discípulos Hugo Chávez e Evo Morales (o apoio de Lula à retirada do ar da RCTV na Venezuela, assim como a PF servindo de capitão do mato no episódio dos pugilistas cubanos deportados para a ilha-prisão, ainda está fresco na memória). Tais fatos demonstram que não somente a discurseira demagógica sobre honestidade na política era pura fachada eleitoreira, mas o discurso da democracia e dos direitos humanos, ainda hoje repetido por muitos petistas e gente da esquerda em geral, não passa de mais uma forma de engabelar os incautos.

Ao ajudar Renan a se safar, o PT cravou o último prego no caixão do discurso democrático. Isso porque, com escândalos como o do mensalão e agora com Renan, é tentador afirmar que a avacalhação das instituições políticas brasileiras é parte inseparável da estratégia lulo-petista de conquista e manutenção do poder. Não por acaso, Renan Calheiros citou Gramsci ao se defender. É que os lulo-petistas, em sua grande marcha para construir um paraíso dos trabalhadores, não se contentaram em encher a máquina estatal com companheiros (vejam o caso da ANAC, por exemplo), nem em desmoralizar a Câmara com o mensalão; agora, tratam de enxovalhar também o Senado, completando o serviço. Enquanto isso, Lula continua fazendo suas viagens, que ele tanto criticava na época que era oposição, mobilizando a militância petista, distribuindo uma verbinha aqui, outra acolá para os companheiros dos "movimentos sociais" como MST, UNE, CGT etc., empenhados em convocar um plebiscito para reestatizar a Vale do Rio Doce. Ao mesmo tempo, embora o negue de pés juntos em público, já começa a articular, malandramente, para garantir seu terceiro, quarto, quinto ou sexto mandato, à moda chavista... Que melhor caminho para preparar o terreno para esse projeto continuísta que a enxovalhação do Congresso?

Tão entranhada está a idéia da esquerda-defensora-exclusiva-da-ética-e-da-democracia que mesmo os que queriam a cabeça de Renan e se opõem ao Apedeuta terminam reproduzindo esse discurso, chegando, inclusive, a radicalizá-lo. É o caso do PSOL da destrambelhada (ou muito cara-de-pau mesmo) Heloísa Helena, para quem a corrupção foi o resultado da "inflexão à direita" do PT após a subida ao poder. Essa tese, que só poderia ter surgido da cabeça de um esquerdista, tem por objetivo salvar a própria noção de esquerda, dissociando-a daqueles que dela se "desviaram" ou se deixaram "corromper pelo poder" (como se o poder, em vez de desmascarar, corrompesse). Em outras palavras: corrupção é de direita; a honestidade, a ética, são de esquerda. É como se, para falar de corrupção, fosse preciso ter atestado de pureza ideológica, tal como o PT de outra época. É impossível evitar a sensação de déjà vu.

Enquanto aqueles que se dizem oposicionistas não atentarem para os fatos acima, as demonstrações de oposição ao lulo-petismo vão continuar restritas a alguns editoriais indignados e a movimentos caricatos como o "Cansei", envergonhado de se assumir como oposição a Lula e ao governo. O PT morreu. A esquerda morreu. Deles, só sobrou o cadáver. Mas é um cadáver insepulto. E, como tal, continuará a exalar odores nauseabundos, empesteando tudo que o cerca.

terça-feira, setembro 11, 2007

ATEUS E "ATEUS"


A, talvez, meia dúzia de abnegados que presta atenção no que escrevo neste blog já deve ter notado que um dos alvos preferidos de minhas invectivas são os esquerdistas em geral e, em particular, os comunistas. Também devem ter atinado, se leram o texto anterior, para o fato de que, desde meus 14 ou 15 anos de idade - passando, claro, por várias fases de amadurecimento intelectual, que foram do marxismo juvenil até o ceticismo liberal - coloco-me filosoficamente no lado daquela ínfima minoria da humanidade que, ao contrário de George W. Bush e Osama Bin Laden, afirma aberta e orgulhosamente não crer em Deus e em outras ficções criadas pela religião. Daí que algum deles possa ter ficado um pouco confuso, entendo. Afinal, como posso ser ao mesmo tempo anticomunista e ateu? Como o texto anterior pode ter dado margem a uma intepretação equivocada ou maliciosa, e como essa aparente contradição foi responsável por algumas noites insones, faço questão de colocar os pingos nos is.

O problema me foi suscitado pelo livro de Richard Dawkins, Deus, um delírio, que li de um fôlego só, com curiosidade e prazer. À certa altura, após demolir um por um os postulados religiosos que afirmam a existência de Deus (e do Diabo), demonstrando a natureza intrinsecamente irracional e anticientífica da fé, e ao defender a possibilidade de uma moral atéia - ou seja, de um senso moral, de bem e de mal, advindo não da religião, com suas noções de pecado e culpa, mas de um saudável ceticismo humanista -, o autor depara com a seguinte pergunta: "E Hitler e Stálin? Não eram ateus?" A pergunta, maliciosa, traz embutido o seguinte raciocínio: 1) ambos os tiranos eram ateus, e 2) o fato de terem sido ateus explicaria as crueldades indizíveis que cometeram.

A tese, é claro, é um sofisma dos mais vulgares. Com relação a Hitler, Dawkins derruba com eficiência a lenda de que o ditador nazista era ateu, demonstrando de maneira irrefutável, inclusive com declarações do próprio Adolf Hitler, que ele era, isto sim, uma espécie de místico devoto, certamente teísta. Logo, a idéia de que a religiosidade seria um antídoto contra perversões morais e atrocidades políticas - a tese subjacente à pergunta acima mencionada - fica completamente demolida, pelo menos no caso do nazismo. O problema é quando Dawkins esbarra nos crimes do stalinismo.

Ao contrário do que insinua a pergunta que Dawkins se propõe a responder, Hitler certamente não era ateu, e seus crimes eram motivados, na realidade, por uma crença (no caso, a idéia de "pureza de raça") que ele considerava inspirada divinamente e que, por sua irracionalidade, só pode ser descrita como religiosa. Isso está fora de dúvida. Mas e Stálin? Sim, o que dizer do tirano comunista, responsável por um dos regimes mais assassinos de todos os tempos, e cujo número de vítimas, ao lado de outros criminosos em série como Mao Tsé-Tung, Pol Pot e Fidel Castro, na verdade seus êmulos, ultrapassa tudo que as ditaduras de direita, inclusive a nazista na Alemanha, fizeram no século XX? Dawkins afirma que, diferentemente de Hitler, Stálin era, sim, ateu, mas não há nenhuma prova de qualquer relação entre seu ateísmo e as atrocidades por ele praticadas. Enfim, ele não acreditava em Deus, mas isso não tem nada a ver com o que ele fez ou deixou de fazer.

Confesso que o argumento de Dawkins não me satisfez nem um pouco, e que essa é a parte mais fraca do livro (no mais, excelente). Ele está certo ao apontar o falso ateísmo de Hitler. Mas, talvez por sua formação acadêmica - a biologia evolucionista, e não a ciência política ou a filosofia -, parece desconhecer os aspectos essenciais da ideologia totalitária comunista, de que Stálin foi o maior praticante. Em primeiro lugar, é preciso responder a pergunta: afinal, os comunistas, como Stálin e Pol Pot, são ou não são ateus? A resposta é sim e não.

Sim, pois os comunistas, em todos seus matizes, partem de uma filosofia política - o marxismo-leninismo, o materialismo histórico e dialético - que exclui a idéia de Deus, ao afirmar deterministicamente o primado das relações materiais - no caso, econômicas - sobre todas as demais (a superestrutura). Em outras palavras, a crença religiosa, para os comunistas, é mero reflexo de uma situação de miséria material, da infra-estrutura econômica da sociedade. Elimine-se essa base material da carência religiosa - derrubando o capitalismo e impondo, em seu lugar, um regime comunista - e se eliminará, por conseguinte, a própria razão de ser da religião, o "ópio do povo", segundo célebre definição atribuída a Marx. Daí porque a religião e o marxismo, ao contrário do que dizem os padres bobalhões da teologia da libertação, são incompatíveis.

Mas não, Stálin e os comunistas não podem ser definidos como ateus, pelo menos não no sentido em que o eram figuras como Bertrand Russell e Albert Einstein, sem falar no próprio Richard Dawkins. O motivo é o seguinte: embora Lênin e Stálin se declarassem abertamente ateus, o regime que implantaram na Rússia e que foi depois exportado para outros países no Leste Europeu, por suas próprias características - partido único no poder, eliminação sistemática de qualquer forma de oposição, imposição de um pensamento único, mobilização permanente e compulsória da população, mediante a substituição do pensamento crítico pela repetição mecânica de slogans - só pode ser implantado e conservar-se apelando para o que há de mais irracional, de mais supersticioso, na natureza humana. O fanatismo político, exacerbado pela propaganda, foi um traço fundamental desses regimes. Trocando em miúdos: não queriam eliminar Deus, mas substituí-lo. No caso, pelo Partido e pelo Estado todo-poderosos, identificados como a única e mesma coisa.

Essa associação entre o Partido e o Estado - não é que o Partido seja parte do Estado, ele é o próprio Estado, e vice-versa -, a imposição do controle estatal sobre todos - absolutamente todos - os aspectos da vida social e particular dos indivíduos, é o que torna os regimes comunistas muito semelhantes, em sua estrutura básica, a ditaduras teocráticas como a do Irã e do Afeganistão sob os Talibãs. Não por acaso, todos os regimes comunistas instituíram o culto da personalidade do Líder, mantido graças a um ultra-eficiente sistema de repressão, espionagem e propaganda. Em todos eles - novamente, todos, sem exceção -, imperou um sistema político baseado numa tentativa radical de engenharia social, que não se limitava a alterar substancialmente as estruturas políticas ou econômicas, mas a própria mente das pessoas e, no limite, a própria natureza humana, criando um "homem novo". Para atingir esse objetivo, eivado de aspectos herdados da cosmovisão religiosa judaico-cristã - o paraíso terrestre, o dia do julgamento, a redenção final pelo expurgo dos "impuros" etc. - os regimes comunistas não hesitaram em criar rígidas estruturas calcadas no modelo religioso, instituindo uma verdadeira religião estatal, completa, com um sumo-sacerdote (Stálin, Mao etc.), clero (os intelectuais e ideólogos do Partido), iconografia (estátuas, pinturas, imagens - como a de Trotsky representado como S. Jorge matando o dragão capitalista, mostrada acima), hagiografia (os mártires e heróis da "causa") e uma liturgia própria (os ensinamentos e rituais do Partido, com uniforme, hino, desfiles etc.). E, assim como as religiões, trataram de criar sua própria lenda, distorcendo e falsificando a História para melhor ajustá-la a seus objetivos revolucionários. Ao mesmo tempo, buscaram eliminar a religião por decreto, mais por medo da concorrência e para suprimir a liberdade de pensamento do que por compromisso com a verdade (em Cuba, Fidel Castro chegou a proibir a festa de Natal por trinta anos, e o Estado era até recentemente oficialmente ateu, como em todas as demais "democracias populares" do Leste Europeu. Além disso, em países como China e Vietnã ainda hoje pode-se ser preso por rezar em público). Que ninguém se iluda: o comunismo não é um humanismo. Muito pelo contrário: é a supressão do homem, o esmagamento do indivíduo e da liberdade em favor do culto ao Deus-Estado, ao Deus-Partido, ao Deus-Stálin.

Mas atenção! Isso não significa que o comunismo, embora compartilhe com a religião alguns traços comuns, seja, ele mesmo, uma religião. A religião baseia-se na idéia de um outro mundo, um mundo além-túmulo, sobrenatural, que os comunistas rejeitam. À diferença de cristãos, muçulmanos, judeus ou budistas, os comunistas não se restringem à idéia de um paraíso imaginário após a morte, mas projetam esse paraíso num futuro distante, na sociedade comunista sem classes e sem Estado, onde o indíviduo, como afirmava Marx, ocupará seu tempo pescando e escrevendo peças de teatro. A religião idealiza um paraíso num plano metafísico e imaterial; o comunismo, por sua vez, promete realizar esse paraíso aqui na Terra, mesmo se esse objetivo conduza, literalmente, ao inferno (como de fato ocorreu em todos os países que tiveram a infelicidade de se transformarem em ditaduras do proletariado). Essa é a diferença fundamental entre a crença religiosa e a ideologia comunista, o que de modo algum a torna mais racional. Basta olhar seus pressupostos principais. Qual a base racional e científica, por exemplo, da crença marxista na inevitabilidade do socialismo e no futuro comunista da humanidade? Como explicar afirmações como essa senão pela fé, por uma crença cega, pelo triunfo da vontade sobre a realidade (e ainda deram a essa farsa monumental o nome pomposo de "socialismo científico"...)?

Richard Dawkins é ateu, e não há qualquer dúvida quanto a isso. Seu ateísmo está alicerçado numa sólida base racional e científica, balizada pela busca incessante da verdade - a raison d'être da ciência. Já os seguidores de Marx e Lênin não são, certamente, religiosos no sentido estrito da palavra, mas é óbvio que estão muito longe de se nortearem pelo mesmo compromisso com a razão e o humanismo. Assim como os astecas e outros povos da Antigüidade, eles também cultuam seus deuses. E, a exemplo daqueles, são deuses sangrentos, que exigem terríveis sacrifícios humanos.

segunda-feira, setembro 10, 2007

O INTELECTUAL E O TERRORISTA


Já falei, aqui neste blog, de Noam Chomsky. Qualquer pessoa razoavelmente informada já deve ter pelo menos ouvido falar no quase octogenário intelectual norte-americano, considerado "a maior referência intelectual do mundo moderno, ao lado da Bíblia e de Shakespeare" (The Guardian) e "o maior intelectual vivo" (The New York Times). Creio que o personagem dispensa apresentações.

Uma das pessoas que já ouviu falar da obra e das opiniões de Chomsky é Osama Bin Laden. Mesmo distante do mundo civilizado, aparentemente sem internet nem outras comodidades da vida moderna, o megaterrorista islâmico, em sua última aparição em vídeo, fez rasgados elogios a Noam Chomsky, a quem qualificou de "um dos mais lúcidos analistas da política externa de George W. Bush e dos EUA". Ao mesmo tempo em que repetia as condenações de praxe ao Ocidente e a seus governantes apóstatas, convidando os norte-americanos a - vejam só - se converterem ao Islã, depois de ter ceifado a vida de alguns milhares de infiéis em dezenas de atentados mundo afora, o líder da Al-Qaeda, assim como o venezuelano Hugo Chávez, humildemente se rendeu aos argumentos antiimperialistas e anticapitalistas do professor do MIT, reconhecendo nele um grande pensador, como milhares de adolescentes e militantes esquerdistas que acreditam, assim como Chomsky e Bin Laden, que os EUA são o grande inimigo da humanidade (o "Grande Satã", diria o aiatolá Khomeini, outro que certamente aplaudiria as palavras do ilustre professor).

Bin Laden, como todos sabem, é um fanático islâmico, para quem todos que não compartilham da religião do Profeta devem converter-se ou ser sumariamente eliminados. Chomsky é ateu e anarquista (um "socialista libertário", em suas próprias palavras), um ardente defensor das causas terceiromunistas e crítico implacável do imperialismo norte-americano e do capitalismo. Aparentemente, portanto, nada mais diferente, nada mais antagônico. Aparentemente. Porque, como tentarei mostrar a seguir, há mais coisas em comum entre os dois do que supõe nossa vã filosofia.

Coincidiu que, na mesma semana em que Bin Laden revelou ao mundo sua admiração por Noam Chomsky, terminei de ler o livro do biólogo evolucionista inglês Richard Dawkins, The God Delusion (Deus, um delírio, na tradução brasileira). É um livro polêmico e corajoso, um dos melhores que já li (a propósito, recomendo também o Traité d'Athéologie, de Michel Onfray, e God is not Great, de Christopher Hitchens, que tratam do mesmo tema, mas de um ponto de vista mais filosófico e político). Ao ver o vídeo em que Bin Laden elogia Chomsky, lembrei imediatamente de um subcapítulo do livro de Dawkins, intitulado "como os 'moderados' alimentam o fundamentalismo". Nele, o autor elimina, de forma demolidora, qualquer ilusão a respeito de uma religiosidade "moderada", demonstrando, de maneira brilhantemente racional, que mesmo a fé mais "moderada", ao se basear em pressupostos essencialmente irracionais e anticientíficos (dos quais o maior de todos é a crença na própria existência de Deus), acaba sempre, invariavelmente, abrindo o caminho ao extremismo religioso. Em outras palavras, afirma Dawkins, não haveria homens-bomba se não existisse islamismo, nem teria havido Inquisição se não houvesse cristianismo - e não haveria nem um nem outro se não existisse a religião, a crença em Deus, em primeiro lugar.

Do mesmo modo, vendo-se os elogios de Bin Laden a Noam Chomsky, é tentador afirmar que muito, mas muito dificilmente mesmo haveria terrorismo islâmico - ou tiranias totalitárias, como a de Stálin ou de Fidel Castro - sem um Noam Chomsky ou um Tariq Ali que lhes prepare o caminho e os justifique. Assim como os religiosos "moderados" servem aos propósitos dos fundamentalistas, e a esquerda "vegetariana", moderada, atua como retaguarda da esquerda "carnívora", radical, o antiamericanismo de Chomsky e seus discípulos cai como uma luva para os desígnios dos terroristas e extremistas de todos os matizes. É por isso que Bin Laden se sente tão grato a pessoas como Noam Chomsky. Ele sabe que, a cada atentado terrorista que promover, a cada homem-bomba que vá pelos ares no Iraque ou na Cisjordânia em nome de Alá, poderá contar com a pena e a voz do renomado lingüista norte-americano, que tratará, sempre, de buscar uma justificativa para suas ações homicidas em alguma decisão anterior do Departamento de Estado e do Pentágono.

O livro de Dawkins é certamente muito bom, mas há momentos em que o autor dá umas derrapadas. Todo o livro é pontuado por críticas bastante ácidas a Bush e à direita religiosa norte-americana, inimiga ferrenha do evolucionismo darwiniano e favorável ao ensino do criacionismo nas escolas (é uma pena que Richard Dawkins não conheça a enorme contribuição brasileira ao rol de absurdos teológicos, como o espiritismo e a teologia da libertação...). Do ponto de vista científico, isso é mais que correto, mas o leva a ignorar algumas questões políticas importantes. Por exemplo: é curioso como um carola fervoroso como Bush, que se opõe intransigentemente ao direito ao aborto e às pesquisas científicas com células-tronco por motivos religiosos, tenha sido o responsável pela derrubada de uma das teocracias mais retrógradas e odiosas de que já se teve notícia (os nomes Talibã e Afeganistão lembram alguma coisa para você?). É interessante também que seja o Estado de Israel, geralmente execrado pela intelectualidade esquerdista como imperialista e até mesmo fundamentalista (!), o único regime democrático e pluralista do Oriente Médio. Enquanto isso, os esclarecidíssimos europeus, muito mais sofisticados do que os brucutus estadunidenses, fazem todo tipo de contorcionismo verbal para justificar a intolerância religiosa dos mulás palestinos e aiatolás iranianos, inclusive com o argumento do "relativismo cultural" (por exemplo, pedindo desculpas aos muçulmanos enraivecidos por alguma frase mal-interpretada do Papa ou por alguma caricatura blasfema de Maomé, a qual estes respondem com fatwas e ateando fogo em embaixadas ocidentais, demonstrando, assim, que o Islã é mesmo uma religião de paz e de tolerância...). Creio que, para ser coerente com o argumento central de seu livro - com o qual, aliás, estou de total acordo -, Dawkins deveria atentar um pouco mais para esses detalhes.

Visto isso, não fica muito difícil entender os elogios de Bin Laden a Noam Chomsky. A aliança profana entre o terrorista islâmico e o intelectual anarquista (além do mais, de origem judaica) não deve surpreender ninguém. Afinal, como explica Richard Dawkins, os "moderados" (e não se pode sequer chamar Chomsky de "moderado", sob qualquer ponto de vista) estão a serviço do fundamentalismo. Faço apenas um adendo: não somente em religião, mas em política também.

Pelos mesmos motivos por que não sou religioso e não creio em Deus, nem em Diabo, céu, inferno, anjos, santos, demônios, espíritos, saci-pererê e mula-sem-cabeça, sempre fui extremamente cético em relação às ideologias políticas. Sobretudo se essas ideologias se apresentam com os rótulos de "esquerda", "progressista", "socialista" (ou comunista), ou, ainda, "dos trabalhadores". A meu ver, crer em Deus ou na grande conspiração imperialista-sionista mundial (da qual Chomsky e Bin Laden são crentes devotos) é a mesma coisa, ambas as crenças possuem a mesma carga de irracionalidade e superstição. E, do mesmo modo que um fiel religioso - cristão, muçulmano, judeu, espírita, budista ou mesmo agnóstico - não é capaz de conceber uma moralidade independente e mesmo contrária à religião, um verdadeiro esquerdista, moderado ou radical - como Noam Chomsky -, só poderá entender o bem e o mal em termos de "nós", os iluminados defensores do povo e dos oprimidos, versus "eles", os burgueses e reacionários. Troque "nós" por "povo eleito" e "eles" por "infiéis" e você perceberá facilmente a identidade essencial entre ideologia esquerdista e crença religiosa.

Noam Chomsky é um intelectual respeitado, cuja opinião é levada em conta por muitos governos. Bin Laden é um terrorista, um fanático assassino, um inimigo da modernidade e da humanidade. Que um seja universalmente tido como exemplo de extremismo fundamentalista e o outro, louvado por muitos que se consideram racionais e progressistas, é um desses mistérios que desafiam a compreensão humana.

segunda-feira, setembro 03, 2007

O GRANDE AUSENTE


Não tem jeito. Quando eu achava que finalmente o Grande Molusco ia nos poupar por um tempo de suas pérolas lingüístico-populistas e eu finalmente poderia me dedicar a assuntos mais edificantes, eis que ele volta com a carga toda. A última do Apedeuta foi ter declarado ao microfone, durante o 3. Congresso Nacional do PT (para quem já se esqueceu, o partido do dito-cujo), que os réus no processo do mensalão (um "erro", segundo Sua Excelência), atualmente em curso no STF, os companheiros Zé Dirceu, Genoíno, Delúbio, Duda Mendonça, Silvinho Land-Rover e afins "não fizeram nada de que se envergonhar". Mais: certamente embalado pela visão de um microfone e algumas dezenas de companheiros petistas ululantes, mostrou ser correto o velho ditado de que quem muito fuma cachimbo (ou charutos cubanos), acaba com a boca torta, ao proclamar pela enésima vez que ninguém no Universo tem mais autoridade moral, política e o escambau do que... o PT (!). Não duvidem: em breve ele será visto, junto com a companheirada, caminhando sobre as águas.

Ai, ai. Lembrei no mesmo instante em que ouvi as sapientíssimas palavras de Nosso Guia Genial e Pai dos Pobres de outra frase de Lula, pronunciada há uns dois anos, no auge do escândalo do mensalão e do valerioduto. Na ocasião, o Apedeuta falou em rede nacional de rádio e televisão que se sentia "traído" pelo que estava acontecendo. Isso depois de ter tentado desqualificar as primeiras denúncias como "folclore" e ter dado uma entrevista em Paris dizendo que caixa dois "não era nada demais, todo mundo fazia". Admito que o papo de "traição" parece cair melhor em Lula, que tem como principal álibi para não estar presente no banco dos réus do atual julgamento do STF o "não sei de nada, não vi nada" - e que parece que todos, inclusive o Procurador-Geral da República e os Juízes do STF, engoliram. Por isso achei tão esquisito vê-lo declarar solidariedade àqueles que, em suas próprias palavras, o "traíram". Confesso que desconhecia por completo essa faceta do Grande Molusco: sendo verdadeiras suas palavras de dois anos atrás, é forçoso admitir que, tal como alguns maridos, ele parece gostar de ser enganado.

Mas o que me chamou mesmo a atenção foi a segunda frase, o elogio desbragado ao PT, o partido mais ético e com mais autoridade moral da História da Humanidade. Muita gente acreditou que, com a débàcle de 2005, os petistas teriam baixado a bola. Teriam descido do salto, caído na real, deixando de lado suas pretensões à santidade, descobrindo-se enfim feitos da mesma matéria do restante da espécie humana. Ledo engano. As palavras de Lula demonstram exatamente o contrário. Também pudera. O projeto político-ideológico do PT não se resume a oito anos de governo, nem a um PAC ou a um Bolsa-Família. Está baseado até a medula nos postulados do marxismo-leninismo, devotados que estão seus militantes a transformar o Brasil numa república soviética ou num Cubão. Isso não sou eu que digo, é o próprio Lula, fundador, juntamente com Fidel Castro, do Foro de S. Paulo, entidade cujo único propósito é servir de "espaço de articulação estratégica" dos diversos partidos e movimentos revolucionários de esquerda na América Latina, inclusive os narcotraficantes das FARC, para realizar, por estas bandas, o que ruiu na ex-URSS em 1991 (vejam aqui: http://www.olavodecarvalho.org/nota_lulafsp.html). Intoxicados por essa visão messiânica, os companheiros da estrela vermelha já se auto-proclamaram, há tempos, os únicos e legítimos donos da Verdade Revelada, os verdadeiros detentores do monopólio da ética e da virtude. Diante disso, a montanha de indícios contra ex-membros da alta cúpula do partido, a avalanche de denúncias coletadas pelo STF e noticiadas, diariamente, pela "imprensa burguesa", o mensalão, o valerioduto, tudo isso não é nada, é fichinha (ou mera conspiração das elites e da mídia, como gosta de repetir ad nauseam esse pessoal). Não será nenhum escândalo de corrupção que demoverá a companheirada de sua auto-atribuída missão histórica redentora. Daí as repetidas declarações de humildade de nosso Presidente, o homem que transformou sua própria ignorância em motivo de orgulho e que também já declarou, com toda sua modéstia, que ninguém nefte paif é mais gabaritado para falar de moral e ética do que ele, a encarnação de Tiradentes e de Jesus Cristo (com desvantagem para estes dois, é claro).

Qualquer pessoa com um mínimo de senso de realidade, para não falar em honestidade e vergonha na cara, já deve ter percebido que falta alguém no julgamento do STF. Esse grande ausente, claro, é Lula. Seria preciso ser um petista roxo e incurável, para quem o Apedeuta é a suprema personificação do Bem, ou um cego completo para ignorar um detalhe fundamental na denúncia contra os mensaleiros. Bastaria repetir para si mesmo a célebre máxima de Cássio: cui bono? (a quem beneficia?) Será que os 40 indiciados fizeram tudo apenas por amor ao companheiro-mor, sem que este soubesse de nada? Teriam sido capazes de tanto desprendimento? E Lula, teria estado alheio ao maior esquema de corrupção da História do Brasil, que tinha por objetivo principal favorecê-lo e era planejado a poucos metros de sua sala por pessoas de sua mais alta confiança?

Lula e os petistas são como um bicho-de-pé ou uma unha encravada. O mundo seria bem melhor sem eles. Mas por mais que a gente tente, não dá pra fingir que eles não existem.

quinta-feira, agosto 30, 2007

MEMÓRIA SELETIVA (OU: A HORA DA REVANCHE)


Em cerimônia oficial no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou ontem, dia 29/08, um livro que relata, pormenizadoramente, centenas de casos de pessoas mortas, torturadas e desaparecidas durante os "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil. É a primeira vez que um governo brasileiro patrocina e dá seu selo oficial a uma publicação do gênero (há outros livros semelhantes, como Brasil: Nunca Mais e Dos Filhos deste Solo, mas nenhum deles com o carimbo de publicação oficial do Estado). Com o título pomposo - e enganoso - de Direito à Memória e à Verdade, o cartapácio de 500 páginas, nas palavras do presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça, Marco Antônio Rodrigues Barbosa, "significa o resgate da memória, da verdade e, portanto, da justiça, sem revanchismo”.“O livro contribui para a consolidação do respeito aos Direitos Humanos no Brasil”, ressaltou o ministro da Secretaria Especial de Ditreitos Humanos, Paulo Vannuchi - organizador da publicação.

Em seu discurso na cerimônia de lançamento do livro, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, reiterou que tal iniciativa não significa revanchismo, mas justiça, não implicando, portanto, nenhuma revisão da Lei de Anistia de 1979, que, em nome da reconciliação nacional, perdoou os delitos de ambos os lados. Por coincidência, no mesmo dia, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, Frei Betto - crítico implacável dos crimes da ditadura militar brasileira, mas não da de seu amigo Fidel Castro -, ao comentar o assunto, escreveu que a nação "tem o direito de resgatar a sua memória e corrigir aberrações jurídicas como a 'anistia recíproca' do governo Figueiredo". Fiquei intrigado. Em quem devo confiar, em Nelson Jobim ou em Frei Betto?

Não há dúvida de que a publicação do livro pode ter qualquer outra finalidade, menos "resgatar a memória e a verdade", como afirmam os porta-vozes do governo, sobre os anos do arbítrio militar e do terrorismo no Brasil. Quem tiver interesse em saber o que houve, poderá encontrar à sua disposição uma vasta bibliografia (recomendo, a propósito, Combate nas Trevas, de Jacob Gorender, e a série de quatro livros de Elio Gaspari). Visa, isto sim, a preparar o terreno para a revanche dos "vencidos" sobre os "vencedores" de 1964. Prova disso é o próprio conteúdo do livro, que reúne somente os casos das vítimas da repressão política, muitas das quais militantes de organizações armadas mortos em confronto com órgãos de segurança policiais e militares. Se o objetivo de seus autores fosse mesmo o de "resgatar a memória e a verdade" sobre o período, não se limitariam a mostrar apenas um lado da questão, adotando, como critério, a seletividade por afinidade ideológica. Daí as palavras de Frei Betto, que traem uma inequívoca intenção revanchista. A mensagem é a seguinte: "Vocês, militares, perdoaram nossos crimes, mas nós não perdoamos os crimes de vocês. Queremos que todos se recordem do que vocês fizeram, mas não do que nós fizemos. Podem botar as barbas de molho".

Para ser um registro histórico honesto dos "anos de chumbo" no Brasil, o livro organizado pelo governo federal - um documento oficial, portanto - deveria conter também os relatos das mortes de cerca de 100 pessoas que foram vítimas da esquerda armada após 1964. Deveria tratar de TODOS os casos, de forma imparcial e não-seletiva. Por que a morte de militantes de esquerda, muitos dos quais praticaram atos terroristas como assassinatos, assaltos e seqüestros, deve ter um tratamento diferenciado e especial, a ponto de merecer um livro com a assinatura do governo federal? Por que, em uma obra que se propõe a "resgatar a memória dos anos de chumbo", simplesmente "esqueceu-se" de mencionar os casos de brasileiros que caíram vitimados pelas balas e bombas da esquerda radical? Onde está uma referência ao almirante Nelson Fernandes e ao jornalista Édson Régis, mortos em atentado à bomba no aeroporto de Recife, em 1966? Ou ao soldado Mário Kozel Filho, estraçalhado por um carro-bomba lançado por terroristas de esquerda no QG do II Exército, em São Paulo (ambos atentados ocorridos antes do AI-5, brandido até hoje pelos apologistas da luta armada como justificativa para o terror de esquerda)? Ou ao tenente da PM/SP Alberto Mendes Jr., que teve o crânio arrebentado a coronhadas de fuzil, depois de ter sido rendido, pelo bando do ex-capitão Carlos Lamarca (um dos "heróis" da turma que está hoje no Palácio do Planalto, e cuja família foi recentemente premiada com uma gorda pensão de general promovido postumamente)? Acaso os familiares das vítimas do terrorismo no Brasil não têm o direito de prantear seus mortos? Só os parentes dos mortos de "esquerda" podem fazê-lo? É preciso ter agora atestado de filiação ideológica para isso?

Até mesmo entre a própria esquerda há casos de gente assassinada por seus próprios companheiros de luta "contra a ditadura", e cujos parentes até hoje esperam uma palavra do Estado a respeito. É o caso, por exemplo, de Márcio Leite de Toledo, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) abatido a tiros por seus próprios companheiros ("justiçado", era a palavra que usavam na epoca), numa disputa de poder dentro da própria organização, em 1971. Ou de Ari da Rocha Miranda, morto durante assalto a banco pela arma de um membro da mesma organização, e cujo cadáver até hoje está desaparecido (o que mostra que os desaparecimentos não são exclusividade das forças da repressão política). Há vários outros casos do tipo - um deles, na chamada Guerrilha do Araguaia, realmente surreal, em que um militante foi executado por seus pares pelo gravíssimo crime de... adultério (!) Quando poderemos ler, em alguma publicação oficial sobre os anos de chumbo no Brasil, os nomes dessas pessoas?

Por coincidência, na mesma semana em que o livro foi lançado, leio no site oficial do PT um "manifesto de intelectuais" contra o filósofo Olavo de Carvalho, que em artigos publicados em jornais teve a audácia de chamar de assassino o professor de Filosofia da Unicamp João Carlos Kfouri Quartim de Moraes. Quartim de Moraes era um dos dirigentes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e, como tal, foi condenado em 1977 por ter participado de reuniões em que se planejou o assassinato ("justiçamento") do capitão do exército dos EUA Charles R. Chandler, metralhado por um comando da VPR e da ALN em São Paulo, em 12/10/1968. O site petista, que chama Olavo de Carvalho, entre outros adjetivos gentis, de "ideólogo da direita" e "disiquilibrado"(assim mesmo, com "i", o que retira qualquer dúvida de que se trata mesmo de um site feito por petistas), toma as dores de Quartim de Moraes, mas não refuta nenhuma das acusações do filósofo. O próprio professor Quartim de Moraes, aliás, em entrevista também no site do PT (que, para quem já se esqueceu, é o partido de Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva), assim se refere à morte do capitão Chandler:

"A ação foi correta? Estávamos sob um regime de exceção, instaurado pelo golpe contra-revolucionário de 1964. Perante esse ato de força imposto ao povo brasileiro, a resistência invocava o antiqüíssimo direito de rebelião contra a tirania, contrapondo a violência revolucionária à violência reacionária. O militar estadunidense era veterano do Vietnã e tinha vindo para cá para "cooperar" com os serviços policiais da ditadura. Isso justifica a decisão de matá-lo? Hoje, quase quarenta anos depois do episódio, a tendência é dizer que não. Mas a morte está na lógica dos confrontos armados." (grifo meu)

Tudo muito bonito, se não fosse um pequeno detalhe: não há qualquer prova de que Chandler tenha vindo ao Brasil para "cooperar" com os serviços policiais da ditadura, como afirma o professor Quartim de Moraes. Ele foi morto, na frente de sua famíia, por um único "crime": era militar e era norte-americano. Somente isso, única e exclusivamente. Se têm alguma dúvida, leiam os livros de Elio Gaspari, em especial A Ditadura Escancarada, que escancara (sem trocadilho) esse e outros crimes da esquerda, os quais, nas palavras do professor, "estão na lógica dos confrontos armados" (curiosamente, os torturadores do DOPS e do DOI-CODI diziam a mesma coisa para justificar sua atividade macabra - afinal, era uma guerra, diziam, e em guerras pessoas morrem...).

Sem querer, o professor Quartim de Moraes, um ex-militante da esquerda armada e admirador declarado de Stálin (cliquem aqui e vejam: http://www.revan.com.br/catalogo/0269c.htm), ao tentar desqualificar o acusador, mas não a acusação, acabou assumindo-a tacitamente. Isso revela bastante acerca da mentalidade da turma que se arvorou o direito de escrever a versão "oficial" dos acontecimentos de 1964-1985 no Brasil: com a mesma paixão e veemência que condenam os crimes da ditadura (que, é bom repetir, foram terríveis e não devem ser esquecidos), tratam de esconder ou de minimizar os seus próprios, a ponto de reagirem furiosamente quando alguém de fora de suas fileiras chama um assassino, membro de sua grei, de assassino, tentando compensar, pelo número de assinaturas em um manifesto, a ausência de argumentos sólidos em favor de sua inocência. Mais uma vez, confirma-se o adágio romano: Asinus asinum fricat.

Não há dúvida de que muitas das famílias de mortos e desaparecidos políticos merecem ser indenizadas pela tortura e assassinato de seus entes queridos nas mãos de agentes do Estado durante o regime militar. Mas o mesmo não pode ser dito de muitos que pegaram em armas voluntariamente contra o Estado brasileiro, e que morreram em combate - não para restabelecer a democracia, para restaurar a legalidade constitucional, mas para implantar, aqui, um regime totalitário, semelhante ao que vigora em Cuba há quase meio século. Com armas na mão e esse objetivo em mente, muitos foram perseguidos, presos e torturados, mas também assaltaram bancos, seqüestraram, mataram. E não vitimaram somente meganhas e conhecidos torturadores, mas pessoas inocentes como o capitão Chandler e até alguns militantes que ousaram questionar os métodos de luta, como Márcio Leite de Toledo. A luta armada não foi um gesto romântico de resistência de democratas e amantes da liberdade contra um regime tirânico, ou o resultado desesperado, como se tornou costume dizer, da inexistência de um caminho pacífico de oposição à ditadura (até porque nem todos que se organizaram contra o regime militar o fizeram pela via do enfrentamento armado). Foi uma decisão consciente, que remonta mesmo ao período anterior a 1964, de grupos extremistas no sentido de tomar o poder pela força e transformar o Brasil numa espécie de ditadura revolucionária. Um dos que enveredaram por esse caminho de sangue e terror foi o professor Quartim de Moraes, que agora, de forma covarde, se recusa a admitir o que fez no passado. Para essas pessoas, pedir que se fale sobre os crimes dos dois lados é extremismo de direita.

No prefácio do livro lançado pelo governo Lula, há um trecho que diz que agentes do Estado que praticaram assassinatos e deram sumiço aos corpos de suas vítimas, e que sabem da localização dos cadáveres e não apontam onde estão, continuam a praticar um delito. Sendo isso verdade, os assassinos que se recusam a admitir seus crimes, como João Quartim de Moraes, também são passíveis de condenação. Nesse caso, cometeram um crime não somente contra as vitimas, mas contra a História.

sexta-feira, agosto 24, 2007

O GURU DA IDIOTICE GLOBAL

Em uma cena memorável do filme Borat, o falso repórter do Cazaquistão em viagem pelos EUA interpretado pelo comediante inglês Sacha Baron Cohen pega um microfone e, diante de uma platéia em um rodeio no Texas, começa a fazer uma série de declarações de apoio à guerra de George W. Bush ao terror. Com um chapéu de cowboy, vestindo uma ridícula camisa imitando a bandeira norte-americana, Cohen, ou melhor, Borat, aparentemente querendo agradar a platéia, desfia pérolas como a seguinte: "Que George W. Bush beba o sangue de todas as mulheres e crianças do Iraque", sendo constrangedoramente aplaudido. É de morrer de rir.

Muita gente que assistiu ao filme, já totalmente lobotomizada pela propaganda antiamericana que enxerga o mal em tudo que diga respeito aos EUA, viu nele uma crítica bem-humorada à intolerância da sociedade norte-americana em relação a culturas diferentes, à truculência típica dos texanos etc. A meu ver, não é nada disso. A cena do rodeio, uma das minhas preferidas, explora o absurdo de acreditar candidamente que um presidente de um país como os EUA pretende mesmo banquetear-se com o sangue de milhares de pessoas no Iraque ou em qualquer outro lugar. Parece incrível, mas há pessoas que realmente crêem nisso, e fazem dessa crença sua razão de viver.

Uma dessas pessoas, na verdade o maior advogado dessa visão, é Noam Chomsky. O lingüista norte-americano, crítico implacável de tudo que o governo de seu país fez, faz ou fará um dia, é conhecido por suas posições anarquistas radicais. "Os EUA são um Estado terrorista, e o Reino Unido não fica atrás", acabo de ler numa entrevista dele a uma revista brasileira, em que também faz altos elogios a Evo Morales e ao MST. Para Noam Chomsky, a regra "Blame America First" é um princípio sagrado. Para ele, não há diferença alguma entre Bush e Osama Bin laden, ou entre Israel e o Hamas. O 11/9, segundo ele, nada mais foi do que uma vingança dos povos árabes contra a opressão imperialista-sionista. Como Borat, ele realmente acredita - ou finge acreditar, sabe-se lá - que Bush quer mesmo beber o sangue dos iraquianos.

Ao contrário do hilário personagem Borat, porém, Chomsky não é nenhum simplório. Renomado lingüista e filósofo, professor do prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT) há mais de cinco décadas, desde os anos 60 ele é considerado um dos ativistas políticos mais influentes do planeta. Não por acaso, o New York Times classificou-o simplesmente como o mais importante intelectual vivo no mundo hoje. O jornal inglês The Guardian foi ainda mais além: afirmou que ele é, ao lado da Bíblia e de Shakespeare, a maior referência intelectual do mundo moderno.

Entre nós, Chomsky é venerado como poucas pessoas já o foram, em qualquer época. Hugo Chávez brandiu um livro seu, Hegemony or Survival, quando de seu show particular na Assembléia Geral da ONU, no ano passado, como se fosse a própria Bíblia. Estou terminando de ler o livro. É uma compilação de denúncias do imperialismo norte-americano, desde 1945 até a guerra do Iraque. Está quase tudo lá: Hiroshima, os bombardeios no Vietnã, o apoio a golpes militares na América Latina, os planos de dominação global, as agressões ao meio ambiente... Só não vi nenhuma referência, por menor que seja, ao caráter ditatorial de regimes como o de Fidel Castro ou de Saddam Hussein. Nenhuma palavra sobre a detenção ilegal de presos políticos em Cuba, por exemplo. Só em Guantánamo. Nenhuma menção às atrocidades do Talibã no Afeganistão. Só aos bombardeios norte-americanos.

Diferentemente do que ocorre entre nós, pobres cucarachas, que adoramos malhar o imperialismo da grande potência do Norte mas que não nos preocupamos muito em repetir mecanicamente o que dizem os remanescentes da New Left norte-americana ou européia, Chomsky, que se diz um "socialista libertário", está longe de ser uma unanimidade entre seus pares. Mesmo entre representantes de setores de esquerda ou oriundos da esquerda, seu excessivo antiamericanismo e sua condescendência com o terrorismo são duramente criticados. O inglês Christopher Hitchens, que já foi o algoz de Henry Kissinger, é um deles. Em vários artigos, Hitchens lembrou que Chomsky já chegou a justificar o genocídio promovido pelo Khmer Vermelho no Camboja, na década de 70, e a minimizar o holocausto nazista durante a Segunda Guerra Mundial (embora seja judeu de nascimento). Mas nada disso importa para os inúmeros fãs de Noam Chomsky espalhados pelo mundo. Assim como Borat, eles acreditam que Bush e seus assessores estão deliciando-se na Casa Branca com o sangue das mulheres e criancinhas iraquianas, com vinho tinto e queijo camembert.

No Brasil, Chomsky também é visto com o mesmo temor reverencial que os índios geralmente dispensavam a seus totens sagrados, principalmente entre os revolucionários juvenis do toddyinho e do piercing no nariz. Pelo menos duas revistas brasileiras trazem entrevistas suas como matéria principal neste mês (uma delas é a edição local do Le Monde Diplomatique, do impagável Ignacio Ramonet, outro luminar do antiamericanismo chique). Em ambas pode-se ver claramente o selo do patrocínio do governo federal. Ao que parece, os gurus do lulo-petismo, como Emir Sader e outros, não dão mais conta do recado. Trata-se, agora, de importar a idiotice primeiro-mundista. E, nesse particular, Noam Chomsky é um produto de altíssima qualidade. Assim como outros importantes intelectuais que se dedicam a defender causas totalitárias, inclusive vários ganhadores do Prêmio Nobel como Gabriel García Márquez, José Saramago e Harold Pinter, ele é a prova mais contundente de que a inteligência não está necessariamente a serviço da lucidez.

Na capa de uma das publicações dedicadas a Noam Chomsky lê-se, embaixo de uma foto do venerável intelectual norte-americano, a seguinte frase: "Não precisamos aceitar as tiranias". Fica a pergunta: What the hell is this about?

quinta-feira, agosto 16, 2007

INOCENTES ÚTEIS


É ilimitada a capacidade do ser humano para o engano e o auto-engano. A cada dia me convenço mais e mais disso. Principalmente quando leio algo na imprensa, como o artigo de hoje, 16/08, da Folha de S. Paulo (edição eletrônica), assinado por Hélio Schwartsman, editorialista do jornal.

À primeira vista, o texto, intitulado "A Ilha", é uma crítica ao regime ditatorial de Fidel Castro em Cuba, bem como à decisão precipitada do governo Lula de entregar ao ditador cubano dois pugilistas, Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que haviam fugido da vila olímpica (ao que parece, para curtir uma noitada com umas garotas de programa). Uma leitura mais atenta, porém, demonstra exatamente o contrário, isto é, que não se trata de uma crítica, mas de um elogio disfarçado da ditadura de Fidel.

A primeira coisa que me chamou a atenção no texto é o tom, quase de espanto, com que o autor se refere ao episódio dos dois boxeadores. Escreve Schwartsman, com ares de quem acabou de descobrir a pólvora: "O simples fato de os atletas não poderem sair do país com suas famílias à hora que bem entenderem para viver - e trabalhar - onde lhes pareça melhor já demonstra que há algo de muito errado por lá". Brilhante dedução! Fica-se com a impressão de que somente agora, 48 anos depois da tomada do poder por Fidel e seus barbudos, alguém percebeu o óbvio: o que impera na ilha caribenha é uma ditadura. É a mesma impressão que tive depois de ver o escritor português José Saramago anunciar, em 2003, que estava rompendo com a ditadura cubana, depois de mais de quarenta anos de apoio incondicional, por causa do fuzilamento de três pessoas que tentaram fugir da ilha, descobrindo, somente então, que Fidel Castro é um ditador (pouco depois Saramago voltou atrás, recaindo em seu delirium totalitarium). A questão que fica é: não se sabia disso antes? Será preciso ocorrerem fatos como a quase-deserção dos dois pugilistas para perceber que "há algo de muito errado por lá"?

Após essa constatação, mais que evidente, e algumas críticas protocolares à atitude do governo Lula ("só o que censuro ao Ministério da Justiça é a celeridade que imprimiu à operação de repatriamento, que contrasta com outros casos" - ou seja, o fato de terem sido entregues de bandeja ao ditador não entra em questão, mas apenas a pressa com que isso foi feito), o autor entra no cerne da questão: "Embora alguns lapidares do governo de Luiz Inácio Lula da Silva ainda insistam em descrever Cuba como uma democracia popular, não há muita dúvida de que aquilo seja uma ditadura, ainda que não das mais selvagens" (grifo meu).

Aí é que está. Ao mesmo tempo em que busca tomar distância dos companheiros lulistas, discordando, por exemplo, de que Cuba seria uma "democracia popular", o autor trata de matizar o caráter ditatorial do regime castrista. Para ele, não há muita dúvida de que o regime cubano é uma ditadura, mas não "das mais selvagens". Ou seja: é uma ditadurazinha, uma ditadura não tão má, branda (um "regime forte" como gostavam de dizer os defensores do regime militar no Brasil...). Talvez seja necessário recordar alguns fatos básicos: em Cuba vigora há quase meio século uma ditadura de partido único, com polícia política, paredón, censura, 2 milhões de exilados (numa população total de 11 milhões), milhares de pessoas mortas afogadas tentando fugir do país, escassez de quase tudo e culto da personalidade. Se isso não é uma ditadura das mais selvagens, não sei o que é.

Prossegue o editorialista da Folha: "Se Cuba não fosse uma ditadura, os boxeadores nem precisariam ter se dado ao trabalho de bolar uma fuga. Daí não se segue que estejamos diante de um regime tão sanguinário como o de Saddam Hussein ou de alguns tiranetes africanos". (Lógica perfeita! Significa que, porque Fidel não massacrou milhares com gás mostarda como fez Saddam com os curdos, nem devorou pessoalmente seus adversários como Idi Amin, devemos manter sempre uma postura reverente em relação ao tirano do Caribe). Além disso, "Rigondeaux e Lara deverão comer o pão que o diabo amassou, mas é improvável que venham a ser torturados e fuzilados" (grifos meus). Por que improvável? Mais de 17 mil pessoas, ao que consta, já sofreram esse destino "improvável" em Cuba desde 1959. Mas deixa pra lá: afinal, como diz Schwartsman, Cuba é apenas uma ditadurazinha camarada. Uma ditadura boa, quem sabe.

Ainda nessa linha, Schwartsman afirma o seguinte: "o fato de o regime cubano não ser especialmente homicida não basta para justificar seu autoritarismo, mormente porque ele é totalmente desnecessário no que diz respeito aos dois ou três sucessos que a revolução cubana logrou obter". Segundo o autor dessas palavras, o fato de uma ditadura matar milhares, praticar a tortura, física e psicológica, e outras atrocidades não a torna "especialmente homicida". Ainda mais quando a ditadura em questão alcançou "dois ou três sucessos" na área social. É isso o que fica claro da leitura do seguinte parágrafo:

"Por mais que deploremos as práticas de Fidel, é forçoso reconhecer que ele fez um bom trabalho em saúde e educação. É claro que a Universidade de La Habana não compete com Harvard ou Oxford, mas praticamente todos os cubanos sabem ler e escrever e freqüentam a escola básica, o que não é regra no Caribe e mesmo em algumas nações bem mais ricas. Já no campo sanitário, os indicadores básicos de Cuba, se não muito manipulados, são melhores até que o de algumas regiões dos EUA. (...) Só que conseguir essas notáveis realizações de modo algum implica manter boxeadores ou escritores contra sua vontade no país".

A afirmação de que o tirano cubano "fez um bom trabalho em saúde e educação" só se justifica por uma visão herdada de anos de distorsão da verdade e propaganda ideológica. Já me referi, em outro texto (ver "O Trambique do Século", neste blog), às estatísticas, inclusive em saúde e educação, de Cuba antes de 1959. Também já mencionei o detalhe de que a tão proclamada qualidade da educação cubana, onde Fidel teria realizado "um bom trabalho" segundo Schwartsman, é uma grande farsa, pois não se pode conceber uma educação de qualidade onde não se pode ler o que se quer, assim como em qualquer outra "democracia popular" onde também não havia analfabetismo, como a ex-URSS e os Estados comunistas do Leste Europeu. O que pessoas como Hélio Schwartsman ainda não compreenderam é que regimes totalitários, como o de Cuba, dão bastante valor à educação, mas como um mecanismo de controle mental, de thought control. Seria preciso ser um idiota completo para acreditar que uma educação de nível pode conviver com a censura. Como seria preciso ser totalmente cego e surdo para a realidade para crer que os indicadores básicos de Cuba no campo sanitário são mesmo tão bons como dizem, tendo em vista que em Cuba falta de tudo, inclusive alimento (é possível ter uma população altamente saudável e subalimentada? Se isso for possível, Cuba é um caso único na História).

Ao dizer que supostas conquistas sociais não podem ser utilizadas para justificar um regime ditatorial, e que não são necessariamente consequência deste, Hélio Schwartsman está coberto de razão. Ao considerar como verdadeiro o velho clichê de que a ditadura cubana alançou altos níveis em saúde e educação, porém, ele revela, no mínimo, falta de conhecimento histórico ou vontade de lisonjear um ditador. Como não conheço Hélio Schwartsman, prefiro ficar com a primeira opção.
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Essa falta de conhecimento da História de Cuba fica patente na seguinte afirmação: "Vale lembrar que, de início, Fidel Castro não era um líder marxista. Após derrubar a ditadura pró-americana de Fulgencio Batista, em 1959, Fidel não tinha planos de instalar o comunismo. Foi a acentuada pressão de Washington para depor Fidel que o acabou empurrando para os braços da então existente União Soviética". Retoma-se aqui outro velho clichê, o de que Cuba foi empurrada para o comunismo por culpa de Washington, o qual não leva em conta o fato de que a comunização de Cuba é anterior a qualquer movimento da CIA e do Departamento de Estado para derrubar Fidel Castro. Não foi a "acentuada pressão" dos EUA que levou Cuba a abraçar o comunismo, mas sim Fidel Castro que manipulou a disputa entre as duas superpotências para impor seu reino de terror pessoal (ver novamente meu texto "O Trambique do Século", já mencionado).

É curioso que aqueles que ousam apontar os altos índices de crescimento econômico durante as ditaduras militares no Brasil ou no Chile são imediatamente tachados de simpatizantes desses regimes. O mesmo não ocorre com quem repete batidos chavões sobre saúde e educação em Cuba. Hitler acabou com o desemprego na Alemanha e Mussolini fez os trens chegarem na hora, e no entanto não se vê ninguém que se diz democrata lembrar esses fatos sobre as tiranias nazista e fascista para dizer que fizeram "um bom trabalho". Já os que se deixaram seduzir pela ditadura cubana, a ponto de buscar minimizar seu caráter totalitário com base em supostos "avanços sociais", enquanto fingem horror pelas repetidas violações aos direitos humanos, contam-se aos milhares. Com a diferença de que, no caso dos regimes militares brasileiro e chileno, assim como no nazista e fascista, pode-se dizer que essas conquistas foram reais, e não mero produto de falsificação histórica e propaganda ideológica. Ao contrário de Cuba, uma ditadura totalitária que só gerou opressão e pobreza.

Aqueles que conhecem de perto o que é o totalitarismo, como alguns ex-militantes comunistas arrependidos, são em geral seus críticos mais lúcidos e severos. Já os que não sabem do que se trata, os "companheiros de viagem" ou inocentes úteis, como Hélio Schwartsman, sempre encontrarão nele algo de bom e louvável. Mesmo quando parecem criticar regimes tirânicos, acabam, na verdade, servindo como seus porta-vozes.
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Artigo interessante:
"Lula, o senhor de escravos" - Carlos Alberto Montaner

quarta-feira, agosto 15, 2007

MEDO DA RESPONSABILIDADE


Karl Popper, em seu clássico A Sociedade Aberta e seus Inimigos, descreve de forma até agora insuperável os mecanismos mentais e filosóficos que levam alguns indivíduos a renunciarem voluntariamente à liberdade e preferirem sociedades totalitárias. Em sua análise demolidora de Platão, Hegel e Marx, o filófoso austríaco faz uma defesa rigorosa e, ao mesmo tempo - por que não dizê-lo? - apaixonada da democracia, a única forma de organização política e social em que os valores individuais podem florescer abertamente, livres das amarras coletivas (tribais, religiosas, estatais etc.).

Dentre os mecanismos, digamos, psicológicos que Popper denuncia como a origem da compulsão de alguns indivíduos por teses anti-democráticas - a chamada "tentação totalítária", título aliás de outro livro essencial e pouco lido, do desgraçadamente pouco conhecido entre nós Jean-François Revel -, estão aquilo que se poderia chamar de "medo da competição" - o temor de certos indivíduos de perderem privilégios em função da livre concorrência, e que está na raiz das práticas protecionistas e intervencionistas - e o "medo da responsabilidade". Este último geralmente se manifesta na atuação de indivíduos que, pegos em flagrante numa ação delituosa, tratam de fugir à qualquer responsabilidade por seus atos, atribuídos quase sempre a fatores externos ao próprio indivíduo (os bandidos "vítimas da sociedade", que já cansamos de ver sendo justificados pela retórica esquerdista, por exemplo). Nessa concepção, a culpa ou o mérito individuais se diluem completamente, só podendo ter lugar em sociedades democráticas, regidas por valores liberais.

Atualmente, estamos vendo um exemplo bastante ilustrativo de medo da responsabilidade, tal como descrito por Popper. Quem o está dando, qualquer observador mais atento já percebeu facilmente, é o governo de Lula e dos companheiros.

O exemplo a que me refiro diz respeito à maneira como a companheirada que gravita em torno do Apedeuta vem tentando, a todo custo, transferir responsabilidades no caso do desastre com o avião da TAM em São Paulo. A reação pornopolítica de Marco Aurélio "Top, Top, Top" Garcia é o símbolo dessa estratégia lulista: a culpa foi do reversor, ou dos pilotos, logo o governo, a ANAC, a INFRAERO não têm qualquer responsabilidade pela tragédia. Mesmo sabendo-se que, no governo dos companheiros, a ANAC, a INFRAERO e demais órgãos responsáveis foram aparelhados com indivíduos escolhidos por critérios político-partidários, e não técnicos. Mesmo sabendo-se que tais indivíduos, que deveriam estar fiscalizando os serviços das empresas e cuidando da infra-estrutura aérea, estavam mais ocupados viajando com passagens pagas pelas mesmas companhias que deveriam fiscalizar, e torrando milhões do dinheiro do contribuinte em reformas cosméticas, em vez de cuidar da segurança dos aeroportos, por exemplo. Nada disso importa. Segundo a linha adotada pelo atual governo brasileiro, e que, ingênua ou cinicamente, já começa a virar voz corrente, não há nenhuma relação entre esses desmandos e a morte de 199 pessoas. Nenhuma responsabilidade. Nada.
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A mesma saída cínica e imoral - tendo politizado e partidarizado os órgãos encarregados de regulamentar e fiscalizar a aviação civil, agora o governo da companheirada se opõe à "politização" da questão - vem sendo adotada pelos companheiros no poder desde praticamente o dia da posse do Apedeuta no Palácio do Planato. Foi adotada quando estourou o escândalo do mensalão, dois anos atrás, e em todos os outros semelhantes Tentou-se de todas as maneiras possíveis desviar a atenção do fato de que a corrupção lulista decorreu logicamente de uma visão ideológica que considerava válidos quaisquer meios, desde que conduzissem ao "poder". Apenas para lembrar: "não sei nada", "não vi nada", "todos fazem igual" e "fui traído" tornaram-se verdadeiros mantras do atual mandatário para tentar livrar-se de qualquer responsabilidade nesses episódios. Além disso, ao optarem por "blindar" o atual governante, em vez de fazê-lo encarar as críticas, seus assessores acabaram admitindo, sem o querer, sua parcela de responsabilidade - afinal, só se blinda o que é frágil.

Os lulo-petistas são pródigos em declarações de amor à democracia - na verdade, proclamam-se mesmo seus mais ardentes defensores, e convenceram a muitos de que o são de fato -, mas carecem de um pré-requisito fundamental a quem deseja viver numa sociedade democrática: a coragem para assumir suas próprias decisões, a disposição de arcar com as conseqüências de seus atos. Não hesitam em apropriar-se das conquistas de governos passados (como na área econômica), recusando-se a fazer qualquer autocrítica séria, mas se negam até não mais poderem a assumir qualquer responsabilidade pelas conseqüências de suas lambanças. Assim como a tendência ao dirigismo e ao intervencionismo estatal na economia, a ausência de capacidade moral de reconhecer a responsabilidade dos indivíduos por suas próprias ações é uma característica do discurso esquerdista.
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Desse modo, os lulo-petistas comprovam aquilo que Popper colocou tão brilhantemente em sua obra: que as noções de responsabilidade individual e de livre concorrência são incompatíveis com quem nutre simpatias por ideologias e regimes antidemocráticos, como os de Cuba e da Venezuela. Não esperem ver nenhum membro do governo ou alto dirigente petista admitindo qualquer culpa sobre o que quer que seja. É o medo da responsabilidade e a atração pelo totalitarismo, mais do que qualquer outra coisa, o que guia essa gente.