
Este é um blog assumidamente do contra. Contra a burrice, a acomodação, o conformismo, o infantilismo, a ingenuidade, a abobalhação e a estupidez que ameaçam tomar conta do País e do Mundo. Seja livre. Seja do contra. - "A ingenuidade é uma forma de insanidade" (Graham Greene)
quarta-feira, setembro 19, 2007
CORRIDA PELO SUCESSO

segunda-feira, setembro 17, 2007
O FIM DA ESQUERDA

Recapitulemos. As manobras e intrigas de bastidores que garantiram a absolvição de Renan obedeceram a um padrão bem conhecido da política nacional. Aliado do governo Lula, Renan é peça-chave no esquema lulo-petista. Como presidente do Senado, é o pilar fundamental para a aprovação na Casa da prorrogação da CPMF - imposto que, nascido provisório, dá sinais de vocação para a eternidade, e cuja extinção, assim como a "defesa da ética", já foi uma das bandeiras de campanha de Lula e da companheirada. Só isso já explica o apoio prestado pela bancada petista ao companheiro Renan, seja pelo voto a favor ou pela abstenção - caminho seguido corajosamente pelo senador Aloízio Mercadante, por exemplo. Acrescente-se o rabo preso dos demais senadores dos outros partidos, todos lembrados discretamente por Renan de que seus votos certamente teriam conseqüências (uma forma suave de descrever a velha tática da chantagem) e está explicada a maioria contrária à cassação do distinto senador, que poderá, pelo menos por enquanto, continuar a presidir a instituição como se fosse mais uma de suas fazendas em Murici.
Que lição fica de tudo isso? A seguinte: o PT, Partido dos Trabalhadores, da estrela vermelha e do presidente Lula; o PT, outrora conhecido como o campeão infatigável das causas populares e da ética na política; o PT, o maior partido de esquerda do Ocidente; o PT, que se meteu até o pescoço nos escândalos do assassinato de Celso Daniel, do mensalão, do valerioduto, do dossiêgate e outros rolos mal-explicados; o PT, enfim, acaba de assinar seu atestado de óbito. E, com ele, toda a esquerda, a própria noção de esquerda.
Tendo nascido sob o signo da luta pela redemocratização do País e da justiça social, tendo abraçado, antes de desfrutar as delícias do "pudê", a bandeira da ética, o PT culmina melancolicamente sua trajetória trabalhando para livrar a cara do ex-collorido Renan Calheiros. Tendo durante quase três décadas se apresentado como o único e legítimo defensor da virtude na política, acaba rebaixado à condição de partido da barganha e do toma-lá-dá-cá, da corrupção e da condescendência com corruptos. Com isso, fica mais que demonstrado, para quem quiser ver, que toda aquela discurseira sobre ética, toda aquela retórica repetida ad nauseam em favor dos pobres e humildes, e em defesa da moralidade na vida pública, não passava de mera demagogia oportunista para vencer as eleições.
Não apenas a bandeira da ética foi pelo ralo - a da democracia também. Assim como fez com a ética, o PT tentou partidarizar e ideologizar a democracia, tentando impor goela abaixo de todos a falácia de que a defesa da legalidade democrática pertence exclusivamente à esquerda. E, assim como ocorreu com seu tão decantado "patrimônio ético", tal visão falsa e deturpada caiu totalmente por terra, na forma de manifestações públicas de apoio ao tiranossauro Fidel Castro e a seus discípulos Hugo Chávez e Evo Morales (o apoio de Lula à retirada do ar da RCTV na Venezuela, assim como a PF servindo de capitão do mato no episódio dos pugilistas cubanos deportados para a ilha-prisão, ainda está fresco na memória). Tais fatos demonstram que não somente a discurseira demagógica sobre honestidade na política era pura fachada eleitoreira, mas o discurso da democracia e dos direitos humanos, ainda hoje repetido por muitos petistas e gente da esquerda em geral, não passa de mais uma forma de engabelar os incautos.
Ao ajudar Renan a se safar, o PT cravou o último prego no caixão do discurso democrático. Isso porque, com escândalos como o do mensalão e agora com Renan, é tentador afirmar que a avacalhação das instituições políticas brasileiras é parte inseparável da estratégia lulo-petista de conquista e manutenção do poder. Não por acaso, Renan Calheiros citou Gramsci ao se defender. É que os lulo-petistas, em sua grande marcha para construir um paraíso dos trabalhadores, não se contentaram em encher a máquina estatal com companheiros (vejam o caso da ANAC, por exemplo), nem em desmoralizar a Câmara com o mensalão; agora, tratam de enxovalhar também o Senado, completando o serviço. Enquanto isso, Lula continua fazendo suas viagens, que ele tanto criticava na época que era oposição, mobilizando a militância petista, distribuindo uma verbinha aqui, outra acolá para os companheiros dos "movimentos sociais" como MST, UNE, CGT etc., empenhados em convocar um plebiscito para reestatizar a Vale do Rio Doce. Ao mesmo tempo, embora o negue de pés juntos em público, já começa a articular, malandramente, para garantir seu terceiro, quarto, quinto ou sexto mandato, à moda chavista... Que melhor caminho para preparar o terreno para esse projeto continuísta que a enxovalhação do Congresso?
Tão entranhada está a idéia da esquerda-defensora-exclusiva-da-ética-e-da-democracia que mesmo os que queriam a cabeça de Renan e se opõem ao Apedeuta terminam reproduzindo esse discurso, chegando, inclusive, a radicalizá-lo. É o caso do PSOL da destrambelhada (ou muito cara-de-pau mesmo) Heloísa Helena, para quem a corrupção foi o resultado da "inflexão à direita" do PT após a subida ao poder. Essa tese, que só poderia ter surgido da cabeça de um esquerdista, tem por objetivo salvar a própria noção de esquerda, dissociando-a daqueles que dela se "desviaram" ou se deixaram "corromper pelo poder" (como se o poder, em vez de desmascarar, corrompesse). Em outras palavras: corrupção é de direita; a honestidade, a ética, são de esquerda. É como se, para falar de corrupção, fosse preciso ter atestado de pureza ideológica, tal como o PT de outra época. É impossível evitar a sensação de déjà vu.
Enquanto aqueles que se dizem oposicionistas não atentarem para os fatos acima, as demonstrações de oposição ao lulo-petismo vão continuar restritas a alguns editoriais indignados e a movimentos caricatos como o "Cansei", envergonhado de se assumir como oposição a Lula e ao governo. O PT morreu. A esquerda morreu. Deles, só sobrou o cadáver. Mas é um cadáver insepulto. E, como tal, continuará a exalar odores nauseabundos, empesteando tudo que o cerca.terça-feira, setembro 11, 2007
ATEUS E "ATEUS"
Ao contrário do que insinua a pergunta que Dawkins se propõe a responder, Hitler certamente não era ateu, e seus crimes eram motivados, na realidade, por uma crença (no caso, a idéia de "pureza de raça") que ele considerava inspirada divinamente e que, por sua irracionalidade, só pode ser descrita como religiosa. Isso está fora de dúvida. Mas e Stálin? Sim, o que dizer do tirano comunista, responsável por um dos regimes mais assassinos de todos os tempos, e cujo número de vítimas, ao lado de outros criminosos em série como Mao Tsé-Tung, Pol Pot e Fidel Castro, na verdade seus êmulos, ultrapassa tudo que as ditaduras de direita, inclusive a nazista na Alemanha, fizeram no século XX? Dawkins afirma que, diferentemente de Hitler, Stálin era, sim, ateu, mas não há nenhuma prova de qualquer relação entre seu ateísmo e as atrocidades por ele praticadas. Enfim, ele não acreditava em Deus, mas isso não tem nada a ver com o que ele fez ou deixou de fazer.
Confesso que o argumento de Dawkins não me satisfez nem um pouco, e que essa é a parte mais fraca do livro (no mais, excelente). Ele está certo ao apontar o falso ateísmo de Hitler. Mas, talvez por sua formação acadêmica - a biologia evolucionista, e não a ciência política ou a filosofia -, parece desconhecer os aspectos essenciais da ideologia totalitária comunista, de que Stálin foi o maior praticante. Em primeiro lugar, é preciso responder a pergunta: afinal, os comunistas, como Stálin e Pol Pot, são ou não são ateus? A resposta é sim e não.
Sim, pois os comunistas, em todos seus matizes, partem de uma filosofia política - o marxismo-leninismo, o materialismo histórico e dialético - que exclui a idéia de Deus, ao afirmar deterministicamente o primado das relações materiais - no caso, econômicas - sobre todas as demais (a superestrutura). Em outras palavras, a crença religiosa, para os comunistas, é mero reflexo de uma situação de miséria material, da infra-estrutura econômica da sociedade. Elimine-se essa base material da carência religiosa - derrubando o capitalismo e impondo, em seu lugar, um regime comunista - e se eliminará, por conseguinte, a própria razão de ser da religião, o "ópio do povo", segundo célebre definição atribuída a Marx. Daí porque a religião e o marxismo, ao contrário do que dizem os padres bobalhões da teologia da libertação, são incompatíveis.
Mas não, Stálin e os comunistas não podem ser definidos como ateus, pelo menos não no sentido em que o eram figuras como Bertrand Russell e Albert Einstein, sem falar no próprio Richard Dawkins. O motivo é o seguinte: embora Lênin e Stálin se declarassem abertamente ateus, o regime que implantaram na Rússia e que foi depois exportado para outros países no Leste Europeu, por suas próprias características - partido único no poder, eliminação sistemática de qualquer forma de oposição, imposição de um pensamento único, mobilização permanente e compulsória da população, mediante a substituição do pensamento crítico pela repetição mecânica de slogans - só pode ser implantado e conservar-se apelando para o que há de mais irracional, de mais supersticioso, na natureza humana. O fanatismo político, exacerbado pela propaganda, foi um traço fundamental desses regimes. Trocando em miúdos: não queriam eliminar Deus, mas substituí-lo. No caso, pelo Partido e pelo Estado todo-poderosos, identificados como a única e mesma coisa.
Essa associação entre o Partido e o Estado - não é que o Partido seja parte do Estado, ele é o próprio Estado, e vice-versa -, a imposição do controle estatal sobre todos - absolutamente todos - os aspectos da vida social e particular dos indivíduos, é o que torna os regimes comunistas muito semelhantes, em sua estrutura básica, a ditaduras teocráticas como a do Irã e do Afeganistão sob os Talibãs. Não por acaso, todos os regimes comunistas instituíram o culto da personalidade do Líder, mantido graças a um ultra-eficiente sistema de repressão, espionagem e propaganda. Em todos eles - novamente, todos, sem exceção -, imperou um sistema político baseado numa tentativa radical de engenharia social, que não se limitava a alterar substancialmente as estruturas políticas ou econômicas, mas a própria mente das pessoas e, no limite, a própria natureza humana, criando um "homem novo". Para atingir esse objetivo, eivado de aspectos herdados da cosmovisão religiosa judaico-cristã - o paraíso terrestre, o dia do julgamento, a redenção final pelo expurgo dos "impuros" etc. - os regimes comunistas não hesitaram em criar rígidas estruturas calcadas no modelo religioso, instituindo uma verdadeira religião estatal, completa, com um sumo-sacerdote (Stálin, Mao etc.), clero (os intelectuais e ideólogos do Partido), iconografia (estátuas, pinturas, imagens - como a de Trotsky representado como S. Jorge matando o dragão capitalista, mostrada acima), hagiografia (os mártires e heróis da "causa") e uma liturgia própria (os ensinamentos e rituais do Partido, com uniforme, hino, desfiles etc.). E, assim como as religiões, trataram de criar sua própria lenda, distorcendo e falsificando a História para melhor ajustá-la a seus objetivos revolucionários. Ao mesmo tempo, buscaram eliminar a religião por decreto, mais por medo da concorrência e para suprimir a liberdade de pensamento do que por compromisso com a verdade (em Cuba, Fidel Castro chegou a proibir a festa de Natal por trinta anos, e o Estado era até recentemente oficialmente ateu, como em todas as demais "democracias populares" do Leste Europeu. Além disso, em países como China e Vietnã ainda hoje pode-se ser preso por rezar em público). Que ninguém se iluda: o comunismo não é um humanismo. Muito pelo contrário: é a supressão do homem, o esmagamento do indivíduo e da liberdade em favor do culto ao Deus-Estado, ao Deus-Partido, ao Deus-Stálin.
Mas atenção! Isso não significa que o comunismo, embora compartilhe com a religião alguns traços comuns, seja, ele mesmo, uma religião. A religião baseia-se na idéia de um outro mundo, um mundo além-túmulo, sobrenatural, que os comunistas rejeitam. À diferença de cristãos, muçulmanos, judeus ou budistas, os comunistas não se restringem à idéia de um paraíso imaginário após a morte, mas projetam esse paraíso num futuro distante, na sociedade comunista sem classes e sem Estado, onde o indíviduo, como afirmava Marx, ocupará seu tempo pescando e escrevendo peças de teatro. A religião idealiza um paraíso num plano metafísico e imaterial; o comunismo, por sua vez, promete realizar esse paraíso aqui na Terra, mesmo se esse objetivo conduza, literalmente, ao inferno (como de fato ocorreu em todos os países que tiveram a infelicidade de se transformarem em ditaduras do proletariado). Essa é a diferença fundamental entre a crença religiosa e a ideologia comunista, o que de modo algum a torna mais racional. Basta olhar seus pressupostos principais. Qual a base racional e científica, por exemplo, da crença marxista na inevitabilidade do socialismo e no futuro comunista da humanidade? Como explicar afirmações como essa senão pela fé, por uma crença cega, pelo triunfo da vontade sobre a realidade (e ainda deram a essa farsa monumental o nome pomposo de "socialismo científico"...)?
Richard Dawkins é ateu, e não há qualquer dúvida quanto a isso. Seu ateísmo está alicerçado numa sólida base racional e científica, balizada pela busca incessante da verdade - a raison d'être da ciência. Já os seguidores de Marx e Lênin não são, certamente, religiosos no sentido estrito da palavra, mas é óbvio que estão muito longe de se nortearem pelo mesmo compromisso com a razão e o humanismo. Assim como os astecas e outros povos da Antigüidade, eles também cultuam seus deuses. E, a exemplo daqueles, são deuses sangrentos, que exigem terríveis sacrifícios humanos.
segunda-feira, setembro 10, 2007
O INTELECTUAL E O TERRORISTA

Coincidiu que, na mesma semana em que Bin Laden revelou ao mundo sua admiração por Noam Chomsky, terminei de ler o livro do biólogo evolucionista inglês Richard Dawkins, The God Delusion (Deus, um delírio, na tradução brasileira). É um livro polêmico e corajoso, um dos melhores que já li (a propósito, recomendo também o Traité d'Athéologie, de Michel Onfray, e God is not Great, de Christopher Hitchens, que tratam do mesmo tema, mas de um ponto de vista mais filosófico e político). Ao ver o vídeo em que Bin Laden elogia Chomsky, lembrei imediatamente de um subcapítulo do livro de Dawkins, intitulado "como os 'moderados' alimentam o fundamentalismo". Nele, o autor elimina, de forma demolidora, qualquer ilusão a respeito de uma religiosidade "moderada", demonstrando, de maneira brilhantemente racional, que mesmo a fé mais "moderada", ao se basear em pressupostos essencialmente irracionais e anticientíficos (dos quais o maior de todos é a crença na própria existência de Deus), acaba sempre, invariavelmente, abrindo o caminho ao extremismo religioso. Em outras palavras, afirma Dawkins, não haveria homens-bomba se não existisse islamismo, nem teria havido Inquisição se não houvesse cristianismo - e não haveria nem um nem outro se não existisse a religião, a crença em Deus, em primeiro lugar.
O livro de Dawkins é certamente muito bom, mas há momentos em que o autor dá umas derrapadas. Todo o livro é pontuado por críticas bastante ácidas a Bush e à direita religiosa norte-americana, inimiga ferrenha do evolucionismo darwiniano e favorável ao ensino do criacionismo nas escolas (é uma pena que Richard Dawkins não conheça a enorme contribuição brasileira ao rol de absurdos teológicos, como o espiritismo e a teologia da libertação...). Do ponto de vista científico, isso é mais que correto, mas o leva a ignorar algumas questões políticas importantes. Por exemplo: é curioso como um carola fervoroso como Bush, que se opõe intransigentemente ao direito ao aborto e às pesquisas científicas com células-tronco por motivos religiosos, tenha sido o responsável pela derrubada de uma das teocracias mais retrógradas e odiosas de que já se teve notícia (os nomes Talibã e Afeganistão lembram alguma coisa para você?). É interessante também que seja o Estado de Israel, geralmente execrado pela intelectualidade esquerdista como imperialista e até mesmo fundamentalista (!), o único regime democrático e pluralista do Oriente Médio. Enquanto isso, os esclarecidíssimos europeus, muito mais sofisticados do que os brucutus estadunidenses, fazem todo tipo de contorcionismo verbal para justificar a intolerância religiosa dos mulás palestinos e aiatolás iranianos, inclusive com o argumento do "relativismo cultural" (por exemplo, pedindo desculpas aos muçulmanos enraivecidos por alguma frase mal-interpretada do Papa ou por alguma caricatura blasfema de Maomé, a qual estes respondem com fatwas e ateando fogo em embaixadas ocidentais, demonstrando, assim, que o Islã é mesmo uma religião de paz e de tolerância...). Creio que, para ser coerente com o argumento central de seu livro - com o qual, aliás, estou de total acordo -, Dawkins deveria atentar um pouco mais para esses detalhes.
Visto isso, não fica muito difícil entender os elogios de Bin Laden a Noam Chomsky. A aliança profana entre o terrorista islâmico e o intelectual anarquista (além do mais, de origem judaica) não deve surpreender ninguém. Afinal, como explica Richard Dawkins, os "moderados" (e não se pode sequer chamar Chomsky de "moderado", sob qualquer ponto de vista) estão a serviço do fundamentalismo. Faço apenas um adendo: não somente em religião, mas em política também.
Pelos mesmos motivos por que não sou religioso e não creio em Deus, nem em Diabo, céu, inferno, anjos, santos, demônios, espíritos, saci-pererê e mula-sem-cabeça, sempre fui extremamente cético em relação às ideologias políticas. Sobretudo se essas ideologias se apresentam com os rótulos de "esquerda", "progressista", "socialista" (ou comunista), ou, ainda, "dos trabalhadores". A meu ver, crer em Deus ou na grande conspiração imperialista-sionista mundial (da qual Chomsky e Bin Laden são crentes devotos) é a mesma coisa, ambas as crenças possuem a mesma carga de irracionalidade e superstição. E, do mesmo modo que um fiel religioso - cristão, muçulmano, judeu, espírita, budista ou mesmo agnóstico - não é capaz de conceber uma moralidade independente e mesmo contrária à religião, um verdadeiro esquerdista, moderado ou radical - como Noam Chomsky -, só poderá entender o bem e o mal em termos de "nós", os iluminados defensores do povo e dos oprimidos, versus "eles", os burgueses e reacionários. Troque "nós" por "povo eleito" e "eles" por "infiéis" e você perceberá facilmente a identidade essencial entre ideologia esquerdista e crença religiosa.
Noam Chomsky é um intelectual respeitado, cuja opinião é levada em conta por muitos governos. Bin Laden é um terrorista, um fanático assassino, um inimigo da modernidade e da humanidade. Que um seja universalmente tido como exemplo de extremismo fundamentalista e o outro, louvado por muitos que se consideram racionais e progressistas, é um desses mistérios que desafiam a compreensão humana.
segunda-feira, setembro 03, 2007
O GRANDE AUSENTE
Mas o que me chamou mesmo a atenção foi a segunda frase, o elogio desbragado ao PT, o partido mais ético e com mais autoridade moral da História da Humanidade. Muita gente acreditou que, com a débàcle de 2005, os petistas teriam baixado a bola. Teriam descido do salto, caído na real, deixando de lado suas pretensões à santidade, descobrindo-se enfim feitos da mesma matéria do restante da espécie humana. Ledo engano. As palavras de Lula demonstram exatamente o contrário. Também pudera. O projeto político-ideológico do PT não se resume a oito anos de governo, nem a um PAC ou a um Bolsa-Família. Está baseado até a medula nos postulados do marxismo-leninismo, devotados que estão seus militantes a transformar o Brasil numa república soviética ou num Cubão. Isso não sou eu que digo, é o próprio Lula, fundador, juntamente com Fidel Castro, do Foro de S. Paulo, entidade cujo único propósito é servir de "espaço de articulação estratégica" dos diversos partidos e movimentos revolucionários de esquerda na América Latina, inclusive os narcotraficantes das FARC, para realizar, por estas bandas, o que ruiu na ex-URSS em 1991 (vejam aqui: http://www.olavodecarvalho.org/nota_lulafsp.html). Intoxicados por essa visão messiânica, os companheiros da estrela vermelha já se auto-proclamaram, há tempos, os únicos e legítimos donos da Verdade Revelada, os verdadeiros detentores do monopólio da ética e da virtude. Diante disso, a montanha de indícios contra ex-membros da alta cúpula do partido, a avalanche de denúncias coletadas pelo STF e noticiadas, diariamente, pela "imprensa burguesa", o mensalão, o valerioduto, tudo isso não é nada, é fichinha (ou mera conspiração das elites e da mídia, como gosta de repetir ad nauseam esse pessoal). Não será nenhum escândalo de corrupção que demoverá a companheirada de sua auto-atribuída missão histórica redentora. Daí as repetidas declarações de humildade de nosso Presidente, o homem que transformou sua própria ignorância em motivo de orgulho e que também já declarou, com toda sua modéstia, que ninguém nefte paif é mais gabaritado para falar de moral e ética do que ele, a encarnação de Tiradentes e de Jesus Cristo (com desvantagem para estes dois, é claro).
Qualquer pessoa com um mínimo de senso de realidade, para não falar em honestidade e vergonha na cara, já deve ter percebido que falta alguém no julgamento do STF. Esse grande ausente, claro, é Lula. Seria preciso ser um petista roxo e incurável, para quem o Apedeuta é a suprema personificação do Bem, ou um cego completo para ignorar um detalhe fundamental na denúncia contra os mensaleiros. Bastaria repetir para si mesmo a célebre máxima de Cássio: cui bono? (a quem beneficia?) Será que os 40 indiciados fizeram tudo apenas por amor ao companheiro-mor, sem que este soubesse de nada? Teriam sido capazes de tanto desprendimento? E Lula, teria estado alheio ao maior esquema de corrupção da História do Brasil, que tinha por objetivo principal favorecê-lo e era planejado a poucos metros de sua sala por pessoas de sua mais alta confiança?
Lula e os petistas são como um bicho-de-pé ou uma unha encravada. O mundo seria bem melhor sem eles. Mas por mais que a gente tente, não dá pra fingir que eles não existem.
quinta-feira, agosto 30, 2007
MEMÓRIA SELETIVA (OU: A HORA DA REVANCHE)

Não há dúvida de que muitas das famílias de mortos e desaparecidos políticos merecem ser indenizadas pela tortura e assassinato de seus entes queridos nas mãos de agentes do Estado durante o regime militar. Mas o mesmo não pode ser dito de muitos que pegaram em armas voluntariamente contra o Estado brasileiro, e que morreram em combate - não para restabelecer a democracia, para restaurar a legalidade constitucional, mas para implantar, aqui, um regime totalitário, semelhante ao que vigora em Cuba há quase meio século. Com armas na mão e esse objetivo em mente, muitos foram perseguidos, presos e torturados, mas também assaltaram bancos, seqüestraram, mataram. E não vitimaram somente meganhas e conhecidos torturadores, mas pessoas inocentes como o capitão Chandler e até alguns militantes que ousaram questionar os métodos de luta, como Márcio Leite de Toledo. A luta armada não foi um gesto romântico de resistência de democratas e amantes da liberdade contra um regime tirânico, ou o resultado desesperado, como se tornou costume dizer, da inexistência de um caminho pacífico de oposição à ditadura (até porque nem todos que se organizaram contra o regime militar o fizeram pela via do enfrentamento armado). Foi uma decisão consciente, que remonta mesmo ao período anterior a 1964, de grupos extremistas no sentido de tomar o poder pela força e transformar o Brasil numa espécie de ditadura revolucionária. Um dos que enveredaram por esse caminho de sangue e terror foi o professor Quartim de Moraes, que agora, de forma covarde, se recusa a admitir o que fez no passado. Para essas pessoas, pedir que se fale sobre os crimes dos dois lados é extremismo de direita.
No prefácio do livro lançado pelo governo Lula, há um trecho que diz que agentes do Estado que praticaram assassinatos e deram sumiço aos corpos de suas vítimas, e que sabem da localização dos cadáveres e não apontam onde estão, continuam a praticar um delito. Sendo isso verdade, os assassinos que se recusam a admitir seus crimes, como João Quartim de Moraes, também são passíveis de condenação. Nesse caso, cometeram um crime não somente contra as vitimas, mas contra a História.
sexta-feira, agosto 24, 2007
O GURU DA IDIOTICE GLOBAL
Em uma cena memorável do filme Borat, o falso repórter do Cazaquistão em viagem pelos EUA interpretado pelo comediante inglês Sacha Baron Cohen pega um microfone e, diante de uma platéia em um rodeio no Texas, começa a fazer uma série de declarações de apoio à guerra de George W. Bush ao terror. Com um chapéu de cowboy, vestindo uma ridícula camisa imitando a bandeira norte-americana, Cohen, ou melhor, Borat, aparentemente querendo agradar a platéia, desfia pérolas como a seguinte: "Que George W. Bush beba o sangue de todas as mulheres e crianças do Iraque", sendo constrangedoramente aplaudido. É de morrer de rir. Ao contrário do hilário personagem Borat, porém, Chomsky não é nenhum simplório. Renomado lingüista e filósofo, professor do prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT) há mais de cinco décadas, desde os anos 60 ele é considerado um dos ativistas políticos mais influentes do planeta. Não por acaso, o New York Times classificou-o simplesmente como o mais importante intelectual vivo no mundo hoje. O jornal inglês The Guardian foi ainda mais além: afirmou que ele é, ao lado da Bíblia e de Shakespeare, a maior referência intelectual do mundo moderno.
Entre nós, Chomsky é venerado como poucas pessoas já o foram, em qualquer época. Hugo Chávez brandiu um livro seu, Hegemony or Survival, quando de seu show particular na Assembléia Geral da ONU, no ano passado, como se fosse a própria Bíblia. Estou terminando de ler o livro. É uma compilação de denúncias do imperialismo norte-americano, desde 1945 até a guerra do Iraque. Está quase tudo lá: Hiroshima, os bombardeios no Vietnã, o apoio a golpes militares na América Latina, os planos de dominação global, as agressões ao meio ambiente... Só não vi nenhuma referência, por menor que seja, ao caráter ditatorial de regimes como o de Fidel Castro ou de Saddam Hussein. Nenhuma palavra sobre a detenção ilegal de presos políticos em Cuba, por exemplo. Só em Guantánamo. Nenhuma menção às atrocidades do Talibã no Afeganistão. Só aos bombardeios norte-americanos.
Diferentemente do que ocorre entre nós, pobres cucarachas, que adoramos malhar o imperialismo da grande potência do Norte mas que não nos preocupamos muito em repetir mecanicamente o que dizem os remanescentes da New Left norte-americana ou européia, Chomsky, que se diz um "socialista libertário", está longe de ser uma unanimidade entre seus pares. Mesmo entre representantes de setores de esquerda ou oriundos da esquerda, seu excessivo antiamericanismo e sua condescendência com o terrorismo são duramente criticados. O inglês Christopher Hitchens, que já foi o algoz de Henry Kissinger, é um deles. Em vários artigos, Hitchens lembrou que Chomsky já chegou a justificar o genocídio promovido pelo Khmer Vermelho no Camboja, na década de 70, e a minimizar o holocausto nazista durante a Segunda Guerra Mundial (embora seja judeu de nascimento). Mas nada disso importa para os inúmeros fãs de Noam Chomsky espalhados pelo mundo. Assim como Borat, eles acreditam que Bush e seus assessores estão deliciando-se na Casa Branca com o sangue das mulheres e criancinhas iraquianas, com vinho tinto e queijo camembert.
No Brasil, Chomsky também é visto com o mesmo temor reverencial que os índios geralmente dispensavam a seus totens sagrados, principalmente entre os revolucionários juvenis do toddyinho e do piercing no nariz. Pelo menos duas revistas brasileiras trazem entrevistas suas como matéria principal neste mês (uma delas é a edição local do Le Monde Diplomatique, do impagável Ignacio Ramonet, outro luminar do antiamericanismo chique). Em ambas pode-se ver claramente o selo do patrocínio do governo federal. Ao que parece, os gurus do lulo-petismo, como Emir Sader e outros, não dão mais conta do recado. Trata-se, agora, de importar a idiotice primeiro-mundista. E, nesse particular, Noam Chomsky é um produto de altíssima qualidade. Assim como outros importantes intelectuais que se dedicam a defender causas totalitárias, inclusive vários ganhadores do Prêmio Nobel como Gabriel García Márquez, José Saramago e Harold Pinter, ele é a prova mais contundente de que a inteligência não está necessariamente a serviço da lucidez.
Na capa de uma das publicações dedicadas a Noam Chomsky lê-se, embaixo de uma foto do venerável intelectual norte-americano, a seguinte frase: "Não precisamos aceitar as tiranias". Fica a pergunta: What the hell is this about?
quinta-feira, agosto 16, 2007
INOCENTES ÚTEIS

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É curioso que aqueles que ousam apontar os altos índices de crescimento econômico durante as ditaduras militares no Brasil ou no Chile são imediatamente tachados de simpatizantes desses regimes. O mesmo não ocorre com quem repete batidos chavões sobre saúde e educação em Cuba. Hitler acabou com o desemprego na Alemanha e Mussolini fez os trens chegarem na hora, e no entanto não se vê ninguém que se diz democrata lembrar esses fatos sobre as tiranias nazista e fascista para dizer que fizeram "um bom trabalho". Já os que se deixaram seduzir pela ditadura cubana, a ponto de buscar minimizar seu caráter totalitário com base em supostos "avanços sociais", enquanto fingem horror pelas repetidas violações aos direitos humanos, contam-se aos milhares. Com a diferença de que, no caso dos regimes militares brasileiro e chileno, assim como no nazista e fascista, pode-se dizer que essas conquistas foram reais, e não mero produto de falsificação histórica e propaganda ideológica. Ao contrário de Cuba, uma ditadura totalitária que só gerou opressão e pobreza.
quarta-feira, agosto 15, 2007
MEDO DA RESPONSABILIDADE

quinta-feira, agosto 09, 2007
VOTANDO COM OS PÉS

terça-feira, agosto 07, 2007
CANSEI DO LULA

segunda-feira, agosto 06, 2007
UMA CATÁSTROFE INEVITÁVEL
"Qualquer pessoa é criminosa quando promove uma guerra evitável; e também o é, quando não promove uma guerra inevitável". (José Martí)Há um outro aspecto pouco lembrado na tragédia de Hiroshima. Quando o Enola Gay despejou sua carga mortal sobre a cidade, quase ninguém, nem mesmo os cientistas do Projeto Manhattan, sabiam ao certo seus efeitos. O gesto de lançar a bomba foi, assim, uma ação calculada para terminar a guerra, mas também um ato de desespero. Nada que possa ser comparado aos argumentos cínicos de países como o Irã e a Coréia do Norte, os quais, sob a alegação de que é necessário "quebrar o monopólio nuclear das superpotências", insistem em seus programas atômicos clandestinos. Ao contrário dos EUA quando bombardearam o Japão, os líderes desses países conhecem perfeitamente do que uma explosão nuclear é capaz. Não desejam adquirir essa tecnologia para acabar com alguma guerra, para forçar um inimigo obstinado à rendição, mas para chantagear o mundo. Isso retira qualquer legitimidade a seus propósitos.
Hoje, 6 de agosto, faz 62 anos que o primeiro artefato nuclear caiu sobre Hiroshima. Desde então, a data passou para a História como o marco inicial da era atômica. Crescemos, todos aqueles que nasceram após 1945, sob a sombra da ameaça da aniquilação total, primeiro nos anos da Guerra Fria entre EUA e URSS e, hoje, na forma da proliferação nuclear, representada por organizações terroristas como a Al Qaeda e governos imprevisíveis como os de Teerã e de Pyongyang. Hiroshima continuará a ser um símbolo da loucura humana. Mas, é forçoso admitir, se não quisermos ter uma visão unidimensional da História, que a loucura, nesse caso, não se restringe àqueles que tomaram a decisão de lançar a bomba. Nem está ausente dos cálculos de muitos que se acostumaram a condená-la.
sexta-feira, agosto 03, 2007
A QUESTÃO É POLÍTICA, SIM!

"Não politizar a questão", francamente... Se há um partido político que se especializou em partidarizar e politizar a gestão pública no Brasil, é o PT. Onde quer que tenham colocado a mão em um governo - federal, estadual, municipal - os companheiros petistas transformaram o aparelhamento da máquina pública, da coleta de lixo ao setor aéreo, em sua marca registrada. Pouco antes do acidente da TAM, os jornais anunciavam, em suas manchetes, a criação de mais de 600 cargos comissionados no governo federal, um verdadeiro sorvedouro de dinheiro público para acolher militantes, a maioria dos quais sem nenhuma outra qualificação para exercer um cargo público que não a carteirinha de filiação ao partido. E agora querem que simplesmente deixemos isso de lado?
Também quando era oposição, o PT fazia questão de partidarizar tudo que dissesse respeito à administração pública, de incêndios florestais em Roraima até a dengue em São Paulo. Os petistas politizaram o apagão elétrico, politizaram a violência urbana, politizaram o desemprego. Com que direito, depois de terem promovido um festival de patrulhamento ideológico e de partidarização da vida brasileira por quase trinta anos, desejam convencer-nos de que o que o que houve em Congonhas não tem nada a ver com o caos aéreo por eles criado? Com que direito ainda têm a coragem de pedir que acreditemos que é tudo culpa da TAM e de insinuar que quem não engole essa balela é um tucano empedernido?
É de se lamentar que quase 200 pessoas tenham tido que perder a vida para que toda a lambança dos companheiros petistas viesse à tona. E ainda querem falar em "não politizar" a questão? Esses petistas não têm mesmo a menor vergonha na cara.
quarta-feira, agosto 01, 2007
A CULPA É DO GOVERNO
