terça-feira, junho 12, 2007

O TRAMBIQUE DO SÉCULO

Se houvesse um concurso para escolher o maior trambiqueiro dos últimos cem anos, o maior vigarista, o maior farsante, o maior 171 da parada, eu não hesitaria na minha escolha. Não, o troféu mundial de picaretagem não iria para Lula (embora o Grande Molusco seja forte candidato a um prêmio nacional na categoria). Também não iria para Bush, como certamente sugeriria algum engraçadinho, para quem os EUA são sempre o lado mal da humanidade, ainda que do outro lado esteja o Irã ou a Coréia do Norte. Nem mesmo o Hugo Chávez, esse cover falsificado de Simón Bolívar, versão tropical e ainda mais acanalhada de Mussolini. Todos esses, perto de quem eu escolheria, são café pequeno.

Meu indicado para o prêmio de maior mentiroso dos últimos tempos tem 80 anos e está à beira da morte. Seu nome: Fidel Castro. A maior mentira de todas: a Revolução Cubana.

Provavelmente alguém vai achar que é cisma ou fixação de minha parte. Pudera. Não há palavras nem blogs suficientes para fazer frente ao volume e à magnitude de falsidades, invenciones e mistificações produzidas pelo regime do ditador cubano e por seus inúmeros admiradores e simpatizantes (a última delas é a discurseira demagógica e oportunista contra o etanol). Praticamente não há um único aspecto da ditadura caribenha que não seja falso, que não traga a marca da propaganda e da manipulação.
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De tão repetidos, os clichês sobre a tirania cubana assumiram ares de verdades reveladas e irrefutáveis. Até mesmo seus inimigos, vez ou outra, acabam repetindo, mecanicamente e sem se darem conta, velhos chavões do regime. Estamos diante de uma situação em que, tal como na famosa frase do Dr. Goebbels, uma mentira, de tão repetida, acaba passando por verdade. Aqui, uma mentira acaba gerando outra, que gera outra, que gera outra, e assim indefinidamente. Fidel deixou Goebbels no chinelo. Perto dele, o Ministro da Propaganda nazista era um aprendiz.

Acham que é exagero? Que é tudo intriga da CIA e do Pentágono? Propaganda imperialista? Então façamos um exercício simples. Comparemos a versão divulgada pelo regime castrista e seus defensores com os fatos:
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O MITOAntes de 1959, Cuba era um país pobre e atrasado, uma colônia dos EUA e um verdadeiro bordel dos ianques, governado por um ditador apoiado incondicionalmente pela Casa Branca. Sua população era composta, na maioria, de camponeses miseráveis, desnutridos e analfabetos. Foi a insatisfação com a situação social do país que levou à revolução.
OS FATOS – Antes da subida de Fidel Castro ao poder, a desigualdade social em Cuba era grande, mas a situação da economia cubana, em comparação com a de outros países latino-americanos, estava longe de ser má. Embora estatísticas possam ser enganosas – e aí está o regime cubano para demonstrar isso –, creio ser importante citar alguns números. Segundo Carlos Alberto Montaner, que cita estatísticas da ONU, Cuba vivia, nos anos 50, um período de bonança econômica, com níveis de prosperidade semelhantes, à época, aos da Itália. A ilha estava classificada como a terceira nação mais desenvolvida da América Latina, atrás apenas da Argentina e do Uruguai. No plano mundial, o país estava em 25o lugar, tanto nos aspectos puramente econômicos, como nos sociais (níveis de alfabetização, escolaridade, alimentação, consumo de eletricidade, cimento, periódicos etc.), possuía uma imprensa ágil e dinâmica e tinha o maior número de aparelhos de TV per capita de todo o continente latino-americano (Viaje al Corazón de Cuba, Barcelona: Plaza & Janés, 1999, pp. 59-60). Até mesmo autores simpáticos ao regime de Fidel Castro, como Hugh Thomas, observam que Cuba tinha a terceira renda per capita da América Latina, abaixo apenas da Argentina e da Venezuela (Cuba: La Lucha por la Libertad, Madrid: Debate, 2004, pp. 880-883).

Cuba não era, definitivamente, um país pobre. Era, aliás, mais rica do que a Espanha, sua antiga metrópole. Embora seus números destoem um pouco dos apresentados por Hugh Thomas, Richard Gott apresenta dados que põem uma pá de cal na tese da ilha pobre e atrasada: segundo ele, o país detinha a segunda renda per capita da América Latina, inferior apenas à da Venezuela; era, também, um dos cinco países mais desenvolvidos da região em uma série de indicadores sociais (urbanização, alfabetização, mortalidade infantil, expectativa de vida). Os índices de saúde – uma conquista da revolução, segundo o discurso oficial castrista – estavam entre os mais positivos das Américas, pouco abaixo dos EUA e Canadá, e o país ocupava o 11o lugar no mundo todo na relação médico-pessoa (terceiro na América Latina, atrás apenas de Uruguai e Argentina) (Cuba: Uma Nova História, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, p. 191). Cuba era mais urbana que rural, com níveis de alfabetização e saúde bem superiores aos de seus vizinhos latino-americanos, como atestam vários outros autores, como Theodore Draper (A Revolução de Fidel Castro: Mitos e Verdades, Rio de Janeiro: GRD, 1962) e Antônio Rangel Bandeira (Sombras do Paraíso: A Crise da Revolução Cubana, Rio de Janeiro: Record, 1994) – este último, um esquerdista desiludido com a monumental farsa castrista. Não era o paraíso, mas estava longe de ser o inferno de penúria e opressão que é hoje.
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O tamanho da fraude perpetrada em Cuba pode ser medido pelo seguinte fato: longe de ser motivado pela pobreza do país ou pela miséria dos camponeses, o movimento liderado por Fidel Castro tinha por objetivos básicos a queda da ditadura de Batista, a realização de eleições livres e a restauração da Constituição democrática de 1940 (foi o cancelamento das eleições, aliás, que motivou o ataque ao quartel de Moncada, em 1953, a primeira ação revolucionária castrista). Batista caiu, apenas para ser substituído por uma ditadura mil vezes pior, de caráter totalitário. Quanto às eleições livres e à democracia, até hoje os cubanos as desconhecem por completo. Sem falar que, nos quesitos pobreza e desenvolvimento, estão hoje em situação muitíssimo pior do que há cinqüenta anos.
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Com relação à influência dos EUA na ilha, a importância das empresas norte-americanas na economia de Cuba estava em franco declínio. Segundo dados compilados por Jorge I. Domínguez, 36,7% da produção de açúcar em Cuba saía de usinas pertencentes a norte-americanos em 1958, contra 62,5% em 1927. Quanto ao total dos investimentos privados diretos dos EUA em Cuba, quase não houvera crescimento: de US$ 919 milhões em 1929, passara para US$ 533 milhões em 1946 e US$ 1,001 bilhão em 1958. (Jorge I. Domínguez, To Make a World Safe for Revolution: Cuba’s Foreign Policy, Cambridge: Harvard University Press, 1985, pp. 9-10). Como qualquer outra metrópole turística e cosmopolita, Havana tinha um número elevado de prostitutas, situação que de forma alguma se estendia a toda a ilha, que não poderia ser classificada de modo algum como um "bordel" dos EUA. Mas se é de prostituição que se fala, a Cuba de hoje, com seus milhares de jineteras se vendendo ao primeiro turista estrangeiro por uma lata de leite em pó ou uma calça jeans, não deixa nada a desejar ao mito criado em torno da realidade da ilha antes de Fidel.

Sobre o tão alardeado apoio dos EUA a Batista, lembremos apenas dois fatos: a) praticamente toda a opinião pública norte-americana, e o próprio governo Eisenhower, eram favoráveis a Fidel Castro antes da queda de Batista. Aliás, foi o New York Times, com a famosa entrevista de Fidel a Herbert Mathews, em fevereiro de 1957, a principal tribuna dos revolucionários nos EUA (ver, a propósito, o livro de Anthony DePalma, O Homem que Inventou Fidel: Cuba, Fidel e Herbert L. Mathews do New York Times, São Paulo: Companhia das Letras, 2006); b) em pleno auge da luta contra Batista, em abril de 1958, os EUA cancelaram o envio de armamento ao governo cubano, retirando, assim, o apoio militar à ditadura. Os norte-americanos não viam a hora de se livrarem de Batista, e enxergavam em Fidel e em seu Movimento 26 de Julho (M-26-7) uma alternativa "democrática" e "anticomunista" (como o barbudo fazia questão de se apresentar então). Que belo "apoio incondicional" este, heim?
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O MITOInsurgindo-se contra a situação do país, um punhado de jovens idealistas, dispostos a pôr fim à tirania e às gritantes injustiças sociais, desembarcou na costa oriental da ilha e depois se embrenhou na mata. Este pequeno grupo logo conquistou o apoio do povo e botou o ditador para correr, tendo conseguido derrotar, com seus parcos recursos, um Exército fortemente armado e treinado, provando ser possível fazer uma revolução mediante a guerra de guerrilhas.
OS FATOS – Aqui não é preciso dizer muito. A idéia da revolução "surgida do nada, do zero", graças à ação heróica de um punhado de guerrilheiros - sintetizada em livros como o de Che Guevara, Guerra de Guerrilhas (1960) e de Régis Debray, Revolução na Revolução? (1967) -, conhecida como teoria do "foco" ou foquismo, que fez a cabeça de muita gente na esquerda radical nos anos 60, já foi totalmente desmentida pelos fatos e, hoje em dia, só meia dúzia de malucos a defendem. Mesmo assim, a influência dessa teoria continua a se fazer sentir, na forma da versão oficial da Revolução Cubana brandida por Fidel Castro e seus asseclas para justificar o regime. À parte as falsificações factuais óbvias (por exemplo, a lenda divulgada por Fidel de que a guerra civil teria custado 20 mil vidas em Cuba, quando não chegou nem perto disso), o mito foquista teve por objetivo desviar a atenção da existência de uma importante rede revolucionária nas cidades, representada por grupos como o Diretório Revolucionário e outros, de modo a atribuir todas as glórias pela vitória da revolução aos guerrilheiros de Sierra Maestra e a seu líder, Fidel Castro (ver Julia Sweig, Inside the Revolution: Fidel Castro and the Urban Underground, Cambridge: Harvard University Press, 2002). Não é difícil perceber como essa estória da carochinha caiu como uma luva para Fidel e seus companheiros, servindo para afastar os representantes das outras tendências e concentrar todo o poder em suas mãos.
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Para que não paire qualquer dúvida sobre esse ponto, vou transcrever aqui as palavras de um ex-militante da luta armada brasileiro, que viveu vários anos em Cuba. A citação é longa, mas vale a pena:

"Fidel não tomou o poder com um punhado de combatentes, havia um descontentamento geral de todos os setores da população cubana contra o corrupto e opressor Fulgencio Batista, militar de baixa patente e origem humilde. Grupos de estudantes lutavam nas cidades; nas montanhas proliferavam pequenos destacamentos de combatentes rebelados que, espontaneamente e sem linha política ou estratégia, já lutavam de armas na mão. Os desmandos de Batista eram tais que até os Estados Unidos apoiavam as lutas contra a ditadura. Não por grandes interesses econômicos ou humanitários, mas porque os milionários americanos queriam um mínimo de tranqüilidade para gastar seus dólares e jogar em paz.
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Quando os barbudos desembarcaram e instalaram-se na Sierra Maestra, adicionaram o tempero que faltava ao caldeirão político que era a Cuba dos anos 50: um foco de convergência e aglutinação de forças. Excelente político, Fidel soube escolher as alianças e o momento de esconder-se e de atacar. A descida das montanhas e invasão do llano, encontrou um poder em decomposição, os combates acabavam com a rendição em massa dos desmoralizados soldados do tirano. Houve escaramuças em vários pontos da ilha, mas quando nos deparamos com as baixas e destruição causadas, verificamos que não houve uma guerra civil em Cuba, a guerrilha desempenhou um papel evidentemente político, dentro de um cenário pré-insurrecional. Com a fuga de Batista, num avião cheio de dinheiro roubado, o exército guerrilheiro finalmente desempenhou função militar preponderante, pois era a única força armada e organizada em Cuba, o contingente oficial desertara ou aderira. [...].
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Muitas ilusões foram estimuladas em nossa juventude pelo mito do punhado de barbudos que, graças ao domínio das táticas guerrilheiras e à vontade inquebrantável de seus líderes, tomou o poder numa ilha localizada a noventa milhas náuticas de Miami.
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Balelas, falsificações... não por má-fé pura e simples, mas por aplicação do princípio maquiavélico de que os fins justificam os meios, o poder socialista instituiu a censura, impediu a livre circulação de idéias e impôs a versão oficial. Os textos encontrados sobre a Revolução Cubana são meros panfletos de propaganda ou relatos fatuais, carentes de honestidade e aprofundamento teórico; temos de completá-los com informações orais coletadas aqui e ali por nossos companheiros que, estabelecidos há mais tempo em Havana, travaram relações com pessoas que não pertencem à S2 [o serviço secreto militar cubano]". (Carlos Eugênio Paz, Nas Trilhas da ALN, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, pp. 178-9).
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O MITOUma vez conquistado o poder, o líder dos revolucionários, motivado pelo desejo de realizar o Bem Comum e alcançar a verdadeira independência do país, começou a implementar algumas reformas sociais (agrária, habitacional, educacional etc.) que atraíram o ódio e a desconfiança dos setores reacionários da sociedade e, em especial, dos EUA, que logo passaram a boicotar seu governo, impondo sanções que visaram a sufocar a economia da ilha. Como resultado da política de pressões e de agressão imperialista dos EUA contra a pequena e indefesa Cuba, não restou outra saída a Fidel Castro senão aliar-se à URSS, aceitando a oferta de ajuda econômica e militar que esta lhe ofereceu, e declarando-se, por fim, um marxista-leninista "até a morte".
OS FATOS – Esta é, certamente, a mãe de todas as mentiras castristas. Muito antes que os EUA começassem a pensar em derrubar Fidel Castro do poder e que a CIA planejasse qualquer atentado contra ele, o dirigente cubano dava mostras de sua intenção de romper com Washington. Hugh Thomas lembra que, durante visita à Venezuela, em 22 de janeiro de 1959, ele teria tido uma conversa "algo estranha" com o Presidente venezuelano Rómulo Betancourt (mais tarde, um de seus mais ferrenhos adversários na América Latina), na qual Fidel disse que estava pensando em "desafiar os gringos" e pediu a ajuda do governo venezuelano para tanto, na forma de 300 milhões de dólares e petróleo. (2004, p. 871). Nas palavras de Richard Gott: "Logo no primeiro dia, o líder revolucionário desafiou os Estados Unidos" (2006, p. 190). Embora a política posterior dos EUA reforçasse as posições de Fidel Castro - e dificilmente seria diferente, visto que ele enganou a todos, inclusive a Casa Branca - a iniciativa da aliança Cuba-URSS partiu de Havana, não de Washington ou de Moscou.
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O próprio ditador cubano, em entrevista ao jornalista brasileiro Roberto D´Ávila, em 1985, reconheceu que não foi a política norte-americana que levou Cuba para o lado do bloco soviético: "Não vou jogar a culpa nos norte-americanos pelo socialismo em Cuba. O socialismo em Cuba é produto de nosso povo, da nossa revolução, das nossas idéias. Os Estados Unidos criaram obstáculos, dificultaram a construção da nossa sociedade. Mas eles não são culpados de que haja socialismo em Cuba, do contrário, deveríamos agradecer-lhes" (Roberto D’Ávila, Fidel em Pessoa, Porto Alegre: L&PM, 1986, p. 62). Sem querer, ele põs por terra um dos mitos mais fortes sobre a Revolução Cubana. O peixe morre pela boca.
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Outra prova contundente de que a ruptura com a Casa Branca não deveu nada à política dos EUA data de antes da tomada do poder. Em carta à sua secretária pessoal, Celia Sánchez, em 5 de junho de 1958, quando ainda estava em Sierra Maestra, Fidel Castro escreveu: "Quando esta guerra acabar, vou começar uma guerra muito mais longa e maior [contra os EUA]. Acredito que este será meu verdadeiro destino" (Citado em Ignacio Ramonet, Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes, São Paulo: Boitempo Editorial, 2006, p. 528).
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Ainda hoje, há quem acredite que Cuba se voltou para o marxismo-leninismo e para a URSS porque os EUA teriam se recusado a auxiliar o país economicamente, ou porque essa ajuda teria sido oferecida em termos inaceitáveis. Esta versão é enterrada por Jorge I. Domínguez, que lembra que, durante sua visita a Washington, em abril de 1959, Fidel Castro rejeitou uma oferta de ajuda econômica do Governo Eisenhower. Na verdade, os EUA desejavam ajudar Cuba; os termos da ajuda econômica nunca foram discutidos porque o Governo cubano impediu que isso acontecesse. (1985, p. 18)
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O que pretendia Fidel ao se aliar à URSS? Apenas uma coisa: poder. Na verdade, é somente por esse prisma que se pode compreender sua "conversão" ao comunismo. Ele sabia que, para garantir sua posição incerta após a queda de Batista, precisava de um aliado poderoso, tanto interna quanto externamente. Esse aliado era, do ponto de vista interno, o Partido Comunista Cubano – que até então desconfiava dele, Fidel Castro, considerando-o um aventureiro, e que já fizera parte, inclusive, do primeiro governo Batista, nos anos 40 – e, externamente, a URSS. Desse modo, ele conseguiu alijar os demais setores da revolução, inclusive muitos companheiros de armas, como Huber Matos, que protestaram contra essa guinada comunista, tendo pago por essa ousadia com longas penas de prisão ou no paredón. Em outras palavras, Fidel Castro prometeu uma revolução e fez outra. Um enorme conto-do-vigário.
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O MITOCuba tornou-se um exemplo de resistência ao imperialismo e de dignidade, conseguindo edificar um eficiente sistema de saúde e de educação, de fazer inveja mesmo a muitos países do Primeiro Mundo. Desde então, o país tem buscado sobreviver, tendo seu desenvolvimento impedido pelo criminoso e genocida bloqueio imposto pelos EUA há mais de quarenta anos.
OS FATOS – Finalmente, a mentira derradeira: tendo transformado Cuba numa ditadura totalitária comunista e num porta-aviões soviético nas Américas, Fidel Castro implementou um gigantesco projeto de reengenharia social, bancado com gordos subsídios do Kremlin. Este projeto incluiu uma tentativa desastrosa de industrialização forçada no começo dos anos 60, a total subordinação da economia cubana à URSS e milhares de presos políticos, inclusive homossexuais, enviados aos magotes para campos de trabalhos forçados para "reeducação". Em alguns setores, como a saúde e a educação, os milhões investidos pelo defunto bloco socialista geraram uma ilusão de progresso (como se pode falar de educação de qualidade, por exemplo, se não se pode ler o que se quer?). Com o colapso da URSS em 1991, o sistema ruiu, e não sobrou ninguém para culpar pelo desastre. A solução? Blame America, culpe os EUA, claro. Mais especificamente: culpe o "bloqueio" econômico a Cuba, que já dura mais de quarenta anos, pelo descalabro gerado pela falência do modelo comunista. Mesmo que o tal "bloqueio" (na verdade, um embargo) não exista, pois a ilha tem relações comerciais normais com 173 países, e mesmo que o comunismo tenha ruído no Leste Europeu sem a necessidade de nenhum bloqueio, real ou imaginário.

Na realidade, é irônico que Fidel Castro culpe o "bloqueio" dos EUA pela situação de penúria da ilha, gerada única e simplesmente pela incapacidade do regime, desejando, com isso, restabelecer as relações comerciais normais com Tio Sam. Afinal, não foi justamente para romper esses laços de "dependência" com os EUA que o ditador cubano se voltou para a URSS? Pelo visto, Fidel virou um adepto do livre comércio e da economia de mercado, descobrindo, enfim, as vantagens do imperialismo ianque.
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Em suma, esta é a realidade que o regime de Havana se esforça em esconder: antes de 1959, Cuba era um país próspero com ricos e pobres, dominado por uma ditadura. Hoje, é um país depauperado, onde todos – com exceção de Fidel e seus sequazes – são muito pobres, e dominado por uma ditadura totalitária. Um grande avanço, sem dúvida...
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Claro que sempre haverá quem negue credibilidade aos fatos acima citados, ao mesmo tempo em que se recusa a refutá-los, afirmando que é tudo propaganda, meras análises subjetivas, estertores de exilados ressentidos contra o glorioso regime socialista de Fidel e companhia etc. Nesse caso, os advogados do totalitarismo castrista deverão concordar que todos os escritos de exilados políticos, como foi um dia o próprio José Martí, não devem ser levados a sério. Deverão concordar, ainda, que nenhum dos inumeráveis panegíricos escritos em louvor à ditadura castrista deve ser também levado a sério, pois estes trazem, também, a marca da subjetividade. Enquanto não o fizerem, não terão o direito de proclamarem-se os donos da verdade sobre este ou qualquer assunto.

Certa vez, George Orwell disse que escrevia porque havia uma mentira a ser denunciada. É por isso que perco tanto tempo escrevendo sobre Cuba e Fidel Castro.

segunda-feira, junho 11, 2007

O GANDHI DE GARANHUNS


Em viagem à Índia, país que certamente acreditava ser habitado por índios, o Presidente Luiz Inácio, ao deixar flores no mausoléu do principal líder da independência do país, o Mahatma Gandhi, novamente surpreendeu a todos. Perante os jornalistas, fez a seguinte declaração assombrosa: depois de ter lido um livro sobre Gandhi, adotou-o como a grande inspiração de sua vida política.

Imediatamente uma questão veio à mente deste que escreve estas linhas: que livro - sim, Lula confessou ter lido um livro! - nosso Grande Molusco leu sobre o Mahatma? Teria sido a biografia escrita por Arthur Koestler, na qual ele desnuda por completo o mito criado em torno do asceta indiano, que tinha por hábito, entre outras coisas, maltratar a esposa e dormir com suas sobrinhas adolescentes para "resistir à tentação" (na qual ele sempre caía)? Nesse caso, em que aspecto exatamente da vida do Mahatma nosso líder se inspirou mais: nas greves de fome - coisa de que Lula está muito distante de ser um adepto, haja vista sua silhueta -, ou na mania de exigir que todos usassem roupas de linho, mais caras do que os ternos bem cortados que costuma usar?

"Nada disso, seu elitista preconceituoso", certamente diria algum defensor ferrenho de nosso Presidente, que sempre os haverá em grande número, assim como as baratas. O que fez com que Lula dissesse ter em Gandhi uma fonte de inspiração política e intelectual é algo muito mais etéreo e imaterial, algo muito mais, digamos, simbólico do que real.
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Gandhi é quase universalmente louvado como um símbolo da paz, causa a que todos dizem aspirar e da qual Lula, com seus fomes zero e bolsas família, considera-se um paladino. Aliás, ele já teve seu nome indicado pelos companheiros petistas, há alguns anos, para disputar o Prêmio Nobel da Paz. Além disso, a inspiração gandhiana serviria para contrabalançar a admiração - esta sim, muito mais concreta e palpável - de Lula e seus companheiros por figuras não muito pacifistas, como Fidel Castro e Hugo Chávez, aquele que insultou o Congresso brasileiro, que Lula com tanto carinho comprou.
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É preciso reconhecer: Gandhi e Lula formariam um par perfeito. O líder indiano, cuja imagem é tão famosa quanto desconhecidas são suas idéias, seria um parceiro ideal para nosso santo homem, o Gandhi de Garanhuns, com seu discurso messiânico e abilolado. Como a imagem vale mais do que mil palavras - e, no caso de Lula e dos lulistas, palavras não valem muito mesmo -, a associação entre os dois tem fortes raízes na mentalidade popular, o que significa mentalidade mágica, pré-racional, com um toque de religiosidade mística. Lula e Gandhi são, para milhões de pessoas no Brasil e no mundo, o Gordo e o Magro das utopias.
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A imagem de Gandhi - ascética, as canelas finas de anacoreta -, tal qual um Antônio Conselheiro subnutrido, é um dos ícones mais fortes do Século XX. Com sua barba e linguajar de peão, suas metáforas futebolísiticas e culto da ignorância, Lula simboliza, para as elites instruídas, o Brasil real, o outro Brasil, do qual sempre mantiveram distância e com o qual, em suas consciências pesadas de filhos e netos da burguesia, gostariam de se redimir. Em nome desse mito cuidadosamente construído em décadas, estão dispostos mesmo a esquecer ou a fazer vista grossa para alguns deslizes, como o Mensalão e o Valerioduto, nos quais Lula, certamente, estava também sob inspiração divina - nesse caso, de S. Francisco de Assis, aquele do "é dando que se recebe".
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Para quem já se comparou a Tiradentes e a Jesus Cristo, dizer que se inspira em Gandhi é café pequeno. O poder realmente faz coisas incríveis na cabeça dos homens. Não duvidem: logo, logo, nosso Apedeuta vai aparecer com a mão no bolso do paletó, o olho vidrado e um chapeuzinho engraçado, imitando Napoleão. Aquele, que invadiu a China.

quarta-feira, junho 06, 2007

O PT E A CENSURA CHAVISTA


É inacreditável. Quando parecia que todo tipo de sandice já tinha sido dito pelos cães de guarda do populismo latino-americano, em sua defesa da decisão tresloucada de Hugo Chávez de fechar a RCTV - inclusive por parte do Apedeuta, que insiste em chamá-lo de "parceiro" e "aliado" -, vem o PT e consegue superar-se, demonstrando ser mesmo ilimitada a capacidade humana para o engano e o auto-engano.

Esses petistas são incríveis. Não contentes com as declarações do Grande Molusco, que só faltou pedir desculpas em nome do Brasil pelas ofensas grosseiras do coronel venezuelano ao Legislativo brasileiro, agora os dirigentes do partido do Presidente da República Federativa do Brasil - sim, não nos esqueçamos disso - publicam uma nota oficial em que justificam esse atentado à liberdade de expressão na Venezuela. Para não me alongar muito, vou direto aos "argumentos" da referida nota petista:

"a) a Venezuela é um país democrático, com um Presidente escolhido pelo voto popular, em eleições livres, disputadas por uma oposição ativa, que recebe apoio de importantes meios de comunicação;

b) a não-renovação da concessão da RCTV seguiu todos os trâmites previstos pela legislação venezuelana;

c) é público e notório que a RCTV envolveu-se abertamente com o golpe fracassado contra o governo Chávez, atitude que em qualquer país do mundo justificaria o questionamento da concessão pública a uma rede de televisão.

Portanto, reiteramos a posição do PT, em defesa da liberdade de expressão em geral, particularmente da liberdade de imprensa, motivo pelo qual nos opomos ao monopólio da comunicação por grandes empresas, que se utilizam de concessões públicas para a defesa dos interesses privados de uma minoria.

Brasília, 4 de junho de 2007.
Secretaria de Relações Internacionais do PT (SRI)"

Analisemos cada ponto exposto acima. Trata-se, cada um deles, de verdadeiras pérolas de vigarice política e indigência mental. Pior: são a demonstração cabal da incapacidade de seus autores de conviverem com o pluralismo político e a liberdade de pensamento.

a) em primeiro lugar, caros senhores, a Venezuela de hoje está muito longe de ser um país democrático. Nesse ponto, os companheiros adotaram como critério de democracia o fato de Chávez ter sido eleito ("escolhido pelo voto popular, em eleições livres, disputadas por uma oposição ativa etc"). Aqui, parece que se esquecem de dois dados fundamentais: 1) o fato de ser eleito não significa que um governo agirá democraticamente, pois o que importa não é tanto como chegou lá, mas como se comporta, uma vez no poder. Basta ver o exemplo de regimes ditatoriais que foram estabelecidos mediante o voto, inclusive por meio de referendos e consultas populares (um certo Adolf conseguiu tomar o poder na Alemanha assim, há uns setenta anos), e 2) as eleições na Venezuela, desde que Chávez chegou ao poder, têm-se transformado numa verdadeira farsa, um jogo de cartas marcadas, com intimidações aos opositores do chavismo e pesadas acusações de fraude, reforçadas pelo controle na prática do governo sobre o órgão encarregado de organizar as eleições. Assim, a afirmação da nota só pode ser o resultado de má-fé ou ignorância do que ocorre naquele país vizinho - no caso dos petistas, é bem provável que seja as duas coisas.

b) dizer que o fim da concessão é um ato legal não retira dele seu caráter autoritário. Novamente, basta lembrar aqui que a legislação venezuelana está inteiramente a serviço do chavismo. Teoricamente, as concessões de rádio e TV pertencem ao Estado, que pode, sob determinadas circunstâncias, cancelá-las a qualquer momento. Isso não significa que um governo - um governo, não o Estado - possa fechar canais a seu bel-prazer, apenas por não gostar das críticas que estes lhe dirigem. No caso da Venezuela, há muito se apagou a linha que separa o governo, um ente necessariamente provisório num regime democrático, do Estado, uma instituição permanente, acima e além de partidos ou lideranças carismáticas. Mais uma prova de que o país está descambando para a ditadura.

c) é público e notório que o que houve em abril de 2002 - golpe, renúncia, contra-golpe, não se sabe - ainda está para ser explicado. Ainda assim, mesmo que se considere que a RCTV foi uma das promotoras do "golpe" mal-sucedido, é preciso prestar atenção a dois pontos: 1) se a emissora foi fechada porque, como Chávez diz, era "golpista", então por que outra emissora que igualmente se envolveu nos acontecimentos, a Venevisión do empresário Gustavo Cisneros, não se tornou até agora alvo da fúria chavista? Será que é porque a Venevisión, ao contrário da RCTV, fez um acordo com Chávez para garantir que o governo não tomará sua concessão, em troca de um abrandamento das críticas à tal "revolução bolivariana"?, e 2) se ter apoiado um golpe - se for este mesmo o caso da RCTV - é razão suficiente para fechar retroativamente uma emissora de TV, então a primeira tarefa de Tancredo Neves, ao ser eleito para a presidência da República em 1985, deveria ter sido fechar todos os canais de TV e jornais que haviam apoiado o golpe de 64 no Brasil, já que 99,9% da imprensa brasileira da época apoiou ativamente a derrubada do governo João Goulart. Em qualquer país do mundo, isso seria uma ação revanchista e autoritária, típica de quem está se lixando para a democracia.

A nota do PT revela claramente a vocação antidemocrática do partido do Presidente da República. Mais que isso, desnuda toda sua desfaçatez, quando afirma defender "a liberdade de expressão em geral, particularmente a liberdade de imprensa", e falar em nome de uma pretensa maioria - maioria que, no caso da Venezuela, nada menos que 80% da população, tomou as ruas de Caracas em protesto contra essa ação descabida de um candidato a ditador -, contra o "monopólio da comunicação das grandes empresas, que se utilizam de concessões públicas para defender o interesse privado de minorias". Quem diz isso é o mesmo partido do mesmo governo que já tentou ressuscitar a censura, na forma de uma agência reguladora para calar a imprensa, e que agora se dedica a cooptar jornalistas para sua rede estatal de TV. É o mesmo partido do mesmo governo que, após ter-se arvorado para si o monopólio da ética e da virtude, tentou aparelhar o Estado, sonhando instituir seu monopólio do poder.
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Os petistas já deram provas de seu compromisso com a honestidade e a democracia, ao meter os pés pelas mãos em Valeriodutos e Mensalões. Agora se prestam ao lamentável papel de porta-vozes de um governo que deseja instituir o monopólio estatal dos meios de comunicação, ao mesmo tempo em que proclamam sua devoção à liberdade de imprensa. É muita cara-de-pau.

segunda-feira, junho 04, 2007

O PAPAGAIO DE CHÁVEZ


Se havia alguma dúvida de que o atual governo brasileiro anda a reboque de Hugo Chávez, agindo como o advogado e porta-voz de suas investidas antidemocráticas, os acontecimentos dos últimos dias a enterraram para sempre. Nunca ficou tão claro o perigo que o aprendiz de tirano de Caracas representa para a estabilidade e a democracia na América Latina. Também nunca ficou tão evidente que o governo Lula insiste em negar a realidade, fechando-se numa concha de omissão e cumplicidade.

Recapitulemos. A última crise deflagrada pelo bufão caraquenho começou quando este, ao reagir a uma moção do Congresso brasileiro contrária ao fechamento da RCTV, chamou os parlamentares brasileiros de "papagaios" do Congresso norte-americano. Atingidos em seus brios nacionalistas, os deputados e senadores reagiram com discursos inflamados e indignados a essa insinuação de que seriam interlocutores do Tio Sam (curiosa indignação: se os senhores parlamentares fossem acusados de servirem de papagaios de Chávez e de Fidel Castro, como de fato agem alguns deputados e senadores de esquerda, será que reagiriam da mesma forma? Mas deixemos isso de lado, por enquanto). Foi um deus-nos-acuda. Aparentemente, o Congresso brasileiro, em geral mergulhado numa rotina de CPIs, mensalões e renans calheiros, acordou, com nove anos de atraso, para o que ocorre na vizinha Venezuela.

Como sempre indiferente, nosso mandatário supremo, em visita à Inglaterra, limitou-se a declarar que chamaria o Embaixador venezuelano para bater um papo quando voltasse ao Brasil (quando, espera, todos tenham-se esquecido do episódio). Fiel a seu estilo, porém, o Grande Molusco não deixou passar batida sua opinião pessoal sobre o caudilho bolivariano. Eis o que ele disse, em entrevista à BBC:

"Chávez tem sido um parceiro do Brasil (...) Eu não acredito que Chávez represente um perigo para a América Latina."

A fala de Lula é exemplar em sua tentativa de tapar o sol com a peneira. Chávez não é parceiro do Brasil. É parceiro de Lula. Ambos têm atuado de forma conjunta, por afinidade pessoal e ideológica, inclusive contra os interesses nacionais brasileiros. O companheiro Chávez, por exemplo, já disse que os soldados brasileiros no Haiti fazem o serviço sujo dos "imperialistas ianques" e se opõe à presença do Brasil naquele país - um dos trampolins, acredita o Itamaraty, para uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas, verdadeira obsessão da diplomacia brasileira. Chávez também foi, como somente Lula parece não saber, o grande mentor da nacionalização das refinarias brasileiras na Bolívia. Inclusive, planeja estabelecer uma série de bases militares na fronteira da Bolívia com o Brasil. Sem falar na sua oposição ao programa do etanol, a menina dos olhos do governo brasileiro, pois, segundo ele, este vai "aumentar a fome no mundo". Como se vê, um grande "parceiro" do Brasil, um "muy amigo", sem dúvida...

Prossegue o Grande Molusco:

"Chávez tem suas razões para brigar com os Estados Unidos. E os Estados Unidos têm suas razões para brigar com a Venezuela. O Brasil não tem nenhuma razão para brigar com os Estados Unidos ou a Venezuela."

O Brasil não tem razão para brigar com ninguém. E Chávez não tem razão alguma de chamar quem quer que seja de "papagaio" - ainda mais porque o Congresso venezuelano, como se sabe, é um verdadeiro poleiro de louros que dão o pé sempre que seu dono, Chávez, ordena. Lula não tem razão de querer justificar as insanidades chavistas. O Brasil não tem razão para engolir mais essa patacoada.

"Nós temos que aprender a respeitar a lógica legal de cada país. Eu não dou palpite nas políticas internas de nenhum país".

Lula está-se referindo ao cancelamento da concessão da RCTV por Chávez, um ato autoritário, condenado por dez em cada dez defensores da democracia no continente. Um gesto que não tem nada a ver com qualquer "lógica legal", mas com autoritarismo puro e simples. Para Lula, protestar contra essa medida, que abre o caminho à instauração da ditadura na Venezuela, é "dar palpite" nos assuntos internos de outro país. Não é de surpreender, visto que, para Lula, pedir democracia em países como Cuba é se imiscuir na política interna cubana. Alguém precisa avisá-lo que liberdade de expressão não é assunto interno de nenhum país. É um direito humano fundamental, portanto universal.
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Outra coisa: se Lula está mesmo tão interessado em não "dar palpite" sobre a política de outros países, o que ele estava fazendo pedindo votos para Chávez, em plena campanha eleitoral venezuelana, num comício chavista durante a inauguração de uma ponte (sobre o rio Orinoco, em território venezuelano), no ano passado? Esses lulistas têm uma noção muita estranha do que seja não interferir ("não dar palpite") nos assuntos de outros países. Vai ver o único palpite aceitável, para eles, seja o a favor.

"No Brasil nós fazemos um esforço incomensurável para que a liberdade de imprensa seja exercida em sua plenitude."

Deixando de lado, por ora, as tentativas dos lulistas de calar ("regularizar" é a palavra que usam) os meios de comunicação, inclusive na forma de uma "classificação indicativa" que cheira ao que o chavismo vem fazendo, bem como a expulsão, alguns anos atrás, de um jornalista do The New York Times que escreveu que nosso Presidente é chegado nuns gorós, a afirmação do apedeuta parece querer brincar com a inteligência alheia. Não é o próprio Lula que minimiza o silenciamento da imprensa livre na Venezuela, por não querer "dar palpite" num "assunto interno" de outro país? Então qual a razão dessa sua declaração de amor à liberdade de imprensa? O motivo só pode ser um: para Lula, a liberdade de imprensa no Brasil só existe porque ele quer, porque ele assim determinou. É ele, e não a sociedade, o grande responsável por termos uma imprensa livre. Na cabeça de Lula, a própria democracia é uma invenção lulista. Já que ele não considera que liberdade de expressão é um direito universal, esta é a única explicação possível.
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Tem mais. Na mesma entrevista, Lula negou que a decisão recente do governo de Evo Morales, um discípulo de Chávez, de nacionalizar a indústria de exploração de gás e petróleo, tenha sido tomada por influência de Hugo Chávez. Disse ainda que o Brasil tem "a responsabilidade de ajudar os países mais pobres da América do Sul a se desenvolver." Nisso é preciso concordar com nosso Presidente. Sob sua batuta, o governo brasileiro vem ajudando imensamente alguns governos vizinhos. A começar pelo do falso índio Evo Morales, a quem entregou de presente duas refinarias de petróleo. Sem falar, claro, no Chávez, a quem o Brasil deu um presentão dando-lhe o MERCOSUL como palco de suas papagaiadas antiamericanas.

A frase final de Lula na entrevista é um primor de eloqüência. Ei-la:

"O sonho da América Latina é que todos os países cresçam economicamente, façam distribuição de renda e melhorem a vida do povo. É assim que pensa o presidente Kirchner, é assim que pensa o presidente Chávez, é assim que pensa o presidente Lula."
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Aqui nem é preciso comentário. Para Lula, Chávez quer melhorar a vida do povo venezuelano. Para ele, as misiones são projetos de "promoção e inclusão social", e não de reprodução da pobreza para garantir a clientela chavista. O aumento da inflação e da criminalidade devem ser, nesse sentido, ilusão de ótica ou propaganda imperialista. Creio que não é preciso dizer mais nada. Depois dessa afirmação do Grande Molusco, qualquer coisa que se disser será supérflua.
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É bom repetir: Chávez não é parceiro do Brasil. É parceiro de Lula. Este é, na verdade, um de seus maiores defensores. Um verdadeiro papagaio.

quinta-feira, maio 31, 2007

PICARDIAS ESTUDANTIS

Já tinha começado a escrever um texto sobre o cancelamento da concessão da RCTV pelo governo Chávez na Venezuela e outro sobre a monumental farsa que foi a Revolução Cubana – assunto que, por seu alcance e significado práticos para a realidade atual, mereceria vários livros – quando tive a atenção voltada para um fato que insiste em ocupar as manchetes nesses últimos dias. Refiro-me ao fenomenal circo midiático criado em torno da invasão da reitoria da USP por um bando de autoproclamados "estudantes", que já completou vinte dias.

Às vezes é preciso dar um tempo e deixar de lado assuntos mais importantes para mergulhar na vala comum do besteirol cotidiano. Isso porque um fato aparentemente banal muitas vezes pode encerrar preciosos ensinamentos, revelando até que ponto vai, ou melhor, a falta de limites, da babaquice e estupidez humanas.

O motivo que me chamou a atenção para mais essa patacoada foi um debate a que assisti numa rede estatal de televisão. Às vezes perco tempo vendo esse tipo de programa. Embora irremediavelmente chatos, podem ser bem instrutivos.

No debate, além do moderador, havia dois professores – um deles, autor de um livro sobre o "poder jovem", claramente a favor, e outro, timidamente contra, quase pedindo desculpas por suas observações – e um representante da "classe estudantil" (sic), um dos líderes do tal "movimento", apresentado como estudante de filosofia da USP.

Este último, com cara e jeito de nerd e fala empolada de leitor voraz de orelhas de livros de Gramsci e Lukács, foi o que teve mais tempo para falar, aproveitando cada minuto da ribalta para desfiar um extenso rol de divagações filosóficas, em tom triunfalista, sobre a emergência de um "novo padrão", "avesso às instituições oficiais", saudando o "revigoramento" das "lutas dos estudantes" etc.
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Sobre a justeza ou não das reivindicações do referido movimento, bem como sua utilização por partidos políticos que não têm nenhum interesse específico por elas, pouco se falou. A maior parte do tempo foi gasta com as ponderações gramscianas do nerd de óculos e cabelos revoltos, entrecortada por uma ou outra comparação do professor a favor com as agitações dos anos 60. Enquanto isso, o que deveria fazer o papel "do contra", meio acabrunhado, limitava-se a esta ou aquela observação sobre a ilegalidade de invadir prédios públicos, ao mesmo tempo em que confessava sua falta de "capacidade analítica" para interpretar melhor os acontecimentos da USP e elogiava a notável inteligência do tal estudante de filosofia uspiano, a vedete do programa.

Findo este, pus-me a pensar no que acabara de ver. Um "debate", transmitido por uma rede pública de televisão, em que se faz de tudo, menos debater, ou seja, polemizar, argumentar, discutir, e em que os "debatedores" tudo fazem para justificar e enaltecer uma ação ilegal já é uma coisa grave o suficiente para causar preocupação. Usar um canal pertencente ao Estado para louvar o suposto aparecimento de um "movimento" com claras motivações anacrônicas e patrimonialistas, na maior universidade do Brasil, seria motivo para uma CPI. Mas o buraco, como se verá, é mais embaixo.

Chamar a "ocupação" – é assim que são chamadas a invasão e depredação de prédios públicos no Brasil – por uma horda de militantes travestidos em acadêmicos de baderna e desrespeito, assim como o suposto "movimento estudantil" de "movimento" e "estudantil", seria por demais caridoso. Trata-se de uma ação de grupelhos radicalóides que usam os estudantes (com ou sem aspas) para atingir seus objetivos políticos revolucionários. No caso em questão, o catalisador foi a reação contra um decreto do governo do Estado de São Paulo (encabeçado, aliás, por um ex-dirigente nacional da UNE), que prevê maior transparência nas finanças de uma instituição pertencente ao Estado.

Sob o disfarce da defesa da "autonomia" universitária, e acobertados por reivindicações oportunistas ("melhores alojamentos", "melhor comida nos restaurantes" etc) e pela leniência oficial, o que os "estudantes" querem, na verdade, é a conservação de um modelo falido e patrimonialista que, ironicamente, só beneficia aquela parcela da população mais abonada procedente das melhoras escolas particulares, a qual se apossou das universidades estatais (os mais pobres, como se sabe, têm o estranho hábito de preferir as universidades pagas). Em nome do ensino universitário público, o que se defende, na realidade, é o império do interesse privado de quem pode pagar, mas prefere continuar mamando nas generosas e maternais tetas estatais.

Nesse sentido, falar em mais verbas em defesa da "universidade pública, gratuita e de qualidade", é até piada de mau gosto. Se dependesse do gasto com as universidades públicas, o Brasil seria líder mundial em diversas áreas do conhecimento. Entretanto, não é o que se verifica, o investimento estatal não se traduz em resultados concretos na área de pesquisa. Excetuando-se algumas raras ilhas de excelência – em geral, devido à parceria com a iniciativa privada – o que impera é o reino da mediocridade, no qual professores fingem que ensinam e os alunos fingem que estudam. O que os "estudantes" uspianos que invadiram a reitoria querem não é um ensino de qualidade, mas a preservação desse lamentável estado de coisas.
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Nas faculdades de ciências humanas, por exemplo, vigora não o estudo e a pesquisa, mas uma forma de doutrinação político-ideológica, eivada de vulgata marxista ou "politicamente correta", que há muito substituiu o estudo sério por palavras de ordem para agitar as "massas" contra o "sistema", o "capitalismo", a "globalização" etc. De tempos em tempos, estoura uma greve - a principal ocupação acadêmica de muitos "estudantes" -, o que leva sempre a atrasos no ano letivo e serve apenas para agravar ainda mais o já calamitoso estado do ensino (mas isso não é problema para esses "estudantes", pois esta é a menor de suas preocupações). Sem falar no sistema de cotas raciais – importado dos EUA, onde, ao contrário do Brasil, quase não houve miscigenação –, esta invenção do lulismo, já vigente na Universidade de Brasília, uma imposição ("conquista" é o nome que usam) do "movimento negro" incrustado nas faculdades de antropologia.
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Em suma, nas universidades públicas do Brasil, não há lugar para o mérito e o ensino de verdade. Daí porque, apesar dos milhões gastos todo ano pelo governo, quase não há pesquisadores importantes brasileiros citados em publicações científicas internacionais. Mostrem-me um, somente um, filósofo ou cientista político brasileiro famoso mundialmente, por exemplo. A busca será em vão.

Sob o manto do patrocínio oficial, as universidades viraram locais de festa ou substitutos do jardim-de-infância, em que jovens ou nem tão jovens assim, certos de que sempre haverá quem passe a mão em suas cabecinhas ocas, fazem de tudo, menos estudar de verdade. Não surpreende, portanto, que falar em ensino pago nas universidades públicas brasileiras – o que já ocorre nos EUA e até na China Comunista, para citar apenas alguns exemplos – seja anátema. O que esses privilegiados desejam mesmo é manter a boa vida de filhos da classe média e da burguesia, sustentados e mimados pelos cofres públicos para "estudar" (leia-se: farrear entre uma aula e outra, isso para a minoria que freqüenta as salas de aula). Bastou neguinho ter falado em obrigar as universidades a prestar contas à sociedade – ou seja, a nós, otários, que pagamos impostos – e a molecada, correndo o risco de perder a mesada oficial, revoltou-se – ó, que absurdo – contra essa tentativa "arbitrária" de acabar com esse sacrossanto "direito".

Não falo isso por ouvir dizer, mas por experiência própria. Estudei em universidade pública e, lá, pude ver e sentir o que é o chamado "movimento estudantil". A palavra mais adequada para descrevê-lo – na verdade, não consigo achar outra melhor – é palhaçada. Os estudantes, com a UNE à frente, contentam-se em ser massa de manobra das infindáveis disputas entre partidos de esquerda como o PT e o PCdoB, sem falar nos incontáveis grupelhos trotskistas, anarquistas ou simplesmente oportunistas que povoam os DCEs. Eu mesmo, nos meus 19 ou 20 anos, talvez por tédio juvenil, quase caí na besteira de entrar num desses grupos, mas felizmente a razão falou mais alto.
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Duvido que a garotada que faz parte desse "movimento" saiba o que está fazendo. O que a atrai é a festa, o agito, o oba-oba, além da mania, bem adolescente, de seguir a maré, apenas para não ficar de fora da galera. Entre uma farra e outra, regada a muita cerveja e maconha, namoricos e pileques homéricos, de tempos em tempos um dos "líderes" acaba se sobressaindo e termina sendo eleito por alguma legenda de esquerda, apenas para ser esquecido depois, como o Lindbergh Farias (lembram dele?) e agora aquela gatinha gaúcha, eleita – a contragosto, segundo diz – a musa do Congresso.
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A origem disso tudo está na mitologia criada em torno da "geração 68". Há mitos difíceis de erradicar. Um deles, que foi prontamente apropriado pelo "movimento estudantil", é o da juventude idealista que lutou, alguns com armas na mão e o sacrifício da própria vida, contra a malvada ditadura militar e a favor da democracia e da liberdade. Que muitos desses estudantes fossem, na verdade, militantes de organizações terroristas, manipulados por gente velha, e que sua luta não tivesse nada a ver com democracia ou liberdade, mas com ditadura e opressão (basta lembrar que o modelo de quase todos era a Cuba de Fidel Castro), é algo que se tratou de botar debaixo do tapete. Também que remanescentes dessa época, como Zé Dirceu, tenham acabado como paradigmas de corrupção, é algo que não parece incomodá-los muito. O importante é ser "rebelde", ainda que a rebeldia, aqui, esteja direcionada contra a transparência nas contas públicas e para a conservação de privilégios corporativos e patrimonialistas.

O teatro da invasão da reitoria da USP é apenas isso: teatro. Nesse e em outros casos, nossos "rebeldes" estudantis estão mais para aquele grupinho musical infanto-juvenil mexicano do que para Lênin ou Gramsci.
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P.S.: Já tinha terminado de escrever este texto quando irromperam as manifestações de protesto na Venezuela contra a decisão de Chávez de fechar a RCTV. Os estudantes venezuelanos estão dando uma lição a seus colegas brasileiros. Após pintarem a cara contra Collor, em 92, estes viraram uma espécie de papagaios do lulismo, dominados que estão há décadas pela retórica marxistóide-esquerdista. Enquanto os estudantes em Caracas vão às ruas enfrentar a polícia chavista em defesa da democracia e da liberdade de expressão, os estudantes brazucas se calaram diante da tempestade de corrupção que avassalou o país nos últimos anos, servindo de megafone do governo e prestando-se ao ridículo papel de invadir reitorias para manter privilégios. Lamentável!

sexta-feira, maio 25, 2007

O LULISMO AVACALHA O BRASIL


O Brasil é o país da bagunça. É a terra da esculhambação. Até aí, nenhuma novidade. Você, certamente, já ouviu isso antes. Sempre foi assim e, provavelmente, sempre será. É algo de que não podemos fugir: é nosso destino nacional, está no nosso código genético, no nosso DNA.

Sim, mas e daí?, você deve estar se perguntando. Daí que o atual governo brasileiro conseguiu uma proeza quase inacreditável: o lulismo avacalhou o Brasil, esculhambou a própria esculhambação, levando-a a níveis nunca dantes alcançados na terra papagalis. Parafraseando Lula, "nunca antes neste país", roubou-se tanto, tão descaradamente, tão alegremente, tão impunemente.

A cada dia, o Grande Molusco surpreende a todos, superando todos os recordes na área. Sob o lulismo, os índices de deboche e de escracho atingiram um ponto além da imaginação. Antes dele, éramos malandros (ou metidos a malandro), pândegos, esculhambados, corruptos. Com ele, descobrimos que podemos ser muito mais, que não há limites para a embromação humana. Afinal, somos brasileiros e não desistimos nunca, lembram?

A crônica do lulismo pode ser contada em rápidas pinceladas. Primeiro, foi o deslumbramento com a vitória do "presidente-operário", a festa da posse, as multidões extasiadas atirando-se aos pés da Grande Divindade, jogando-se histericamente em direção ao carro presidencial, tal como índios em transe, possuídos de enlevo supersticioso diante de um totem. Depois, os primeiros sinais de desgaste, e então... decepção! Veio Bob Jefferson, das entranhas do governo, e chutou o pau da barraca. Um a um, caiu toda a cúpula petista: Zé Dirceu, Genoíno, Silvinho, Delúbio... Para muitos, foi o fim do petismo, o desmascaramento de um mito, algo comparável apenas ao mar de lama que tomou conta do governo Collor, quinze anos atrás. No entanto...

No entanto – surpresa! –, eis que Lula sobreviveu à crise, livrou-se de seus incômodos aliados esquerdistas, fez novos aliados ("novos" é maneira de falar, se é que se pode dizer que Sarney, Collor e Jader Barbalho são algo "novo" na política brasileira), e – para espanto de muitos, que já o julgavam um lame duck, um pato manco, como se diz nos EUA – conseguiu reeleger-se com grande votação. Mesmo com o barco governista fazendo água, e mais um escândalo – mais um! – estourando às vésperas da eleição, o lulismo levou o bicampeonato. Quanto á corrupção, nem adianta insistir: Lula já disse que isso não tem nada a ver com ele, que não está nem aí – e muita gente, sem querer contrariar o Grande Pai, diz amém.

Confirmado no poder, Lula está se sentindo o tal, com a corda toda. Algum marqueteiro a seu serviço inventou um tal de PAC – do verbo empacar – para tentar vender a idéia, é o que diz o governo, de "destravar" o País em quatro anos (destravar a própria língua, coisa que Lula teve mais de vinte anos para fazer, ele não fez, mas não sejamos preconceituosos...), prometendo, como sempre, mundos e fundos. De tão confiante na amnésia nacional, nosso mandatário supremo já se acha no direito de dar lições até mesmo à Sua Santidade em pessoa. Na campanha, Lula beijou a mão do companheiro Jader Barbalho, mas se recusou, em nome do Estado "laico" – palavrinha cujo significado ele aprendeu recentemente, e que acrescentou às duas dúzias que já domina no idioma português – a beijar a do Papa quando este visitou o Brasil, semanas atrás.

Agora, um novo escândalo – mais um! – explode sobre o Palácio do Planalto, e lá se vai mais um ministro, cujo nome em breve esqueceremos, apanhado na roubalheira, e nem nos importamos mais. Enquanto isso, surgem sinais de que a Polícia Federal – subordinada ao comissário Tarso Genro, o pai daquela louquinha de voz infantil e cabelo encaracolado – anda se comportando como uma NKVD tropical, vazando de propósito informações para prejudicar quem não dança de acordo com o governo. Estamos todos como que submetidos a algum estranho encanto, a algum sortilégio misterioso, capaz de anestesiar as mentes e embotar a razão. Desde a ascensão do lulismo ao poder, o País entrou em estado de letargia, de hipnose coletiva, como se a perplexidade e a falta de senso crítico – ou de vergonha na cara – tivesse tomado conta de tudo e de todos. A maioria dos brasileiros, diante da corrupção lulista, comporta-se como o marido traído que, tendo pego a esposa em flagrante de adultério, recusa-se a acreditar nos próprios olhos. A verdade é simplesmente dura demais, feia demais, para que a encaremos sem cair das nuvens, sem acordar de nossos sonhos cor-de-rosa.

Mas o que é o lulismo?

O lulismo não é uma ideologia, nem uma teoria, nem mesmo uma corrente política, como o foram, em sua época, outros ismos semelhantes: o marxismo, o fascismo, o lacerdismo, o janismo, o ademarismo, o malufismo. Não. O lulismo é algo mais, uma força muito mais profunda e sinistra, algo muito mais entranhado na psique coletiva nacional. O lulismo é a avacalhação do Brasil porque eleva à máxima potência e leva às últimas conseqüências do caradurismo (outro ismo!) aquilo que há de pior no Brasil e nos brasileiros: a ambigüidade moral, a desonestidade, a malandragem, o – olha os ismos aí de novo – clientelismo, o fisiologismo, o compadrismo, o puxa-saquismo, o patrimonialismo. Em bom português: o levar vantagem, a cafajestice, a indolência, a sem-vergonhice, a safadeza.

Um exemplo: a economia vai bem, mas isso não é obra dos lulistas. Pelo contrário: estes já pegaram o bonde andando, tendo-se beneficiado de reformas – incompletas, aliás – iniciadas no governo anterior, contra as quais se opuseram, à época, com todas as forças, assim como do bom momento por que passa a economia mundial – a famigerada globalização contra a qual berram sem parar muitos lulistas. Mesmo sendo contra, os lulistas se apropriaram dos frutos dessas reformas e dessa mesma globalização, sem qualquer pudor ou arrependimento – afinal, se você não tem uma idéia melhor que a de seu adversário, por que não roubá-la? O importante, no final das contas, é o "poder" – e, para conservá-lo, vale de tudo, até copiar e aproveitar-se do que sempre se criticou. Confissão? Arrependimento? Honestidade? Para quê?

Engana-se quem acha que o lulismo é um fenômeno de esquerda, ou que se circunscreve ao PT e seus simpatizantes. Há lulistas em todos os partidos, em todas as tendências políticas. Há lulistas no PT, no PMDB, no PSDB, no ex-PFL (agora DEM), em partido nenhum. Lulistas católicos, evangélicos, espíritas, budistas, ateus. Lulistas governistas e de oposição. Do contra e do a favor. Lulistas pró-Lula e até mesmo contra Lula. Há lulistas de esquerda, mas também de centro e de direita, sem falar, claro, do principal exemplar da política nacional – o político sem cor política, sem ideologia, sem caráter e sem-vergonha, faminto por verbas e interessado apenas em "se dar bem", seja de que lado for (de preferência no lado do governo, pois é sempre melhor ficar do lado de quem tem as chaves do cofre).

Assim como extravasa o PT, o lulismo vai além do próprio Lula, impregnando tudo, contaminando qualquer coisa que estiver a seu alcance, cada porção da sociedade, como uma bolha assassina. Não importa o que se faça, é impossível ficar imune a ele. O lulismo entrou em cada casa, em cada sala, contagiando a todos, deixando sua marca, como o mosquito da malária ou uma febre tropical. Faça um teste e veja se você se enquadra no figurino:

Você está indignado com a corrupção do governo Lula, mas no final dá de ombros, pois "todos fazem igual"? Então você é lulista.
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Você crê que Lula é um governante corrupto e incapaz, além de incompetente e ignorante, mas acha que, no fundo, ele tem boas intenções e está fazendo um governo voltado para os mais pobres e para corrigir as injustiças sociais? Você é lulista, com certeza.
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Você indignou-se com a sucessão de escândalos, como o caso Waldomiro, Zé Dirceu, os dólares na cueca, Genoíno, o dossiêgate etc., e, como o professor Mangabeira Unger, até defendeu o impeachment de Lula em 2005, mas hoje pensa que a hora de tirá-lo do poder passou, e que no final o tempo tratará de apagar tudo da memória? Você é lulista, pode apostar.

Você esfregou as mãos com os escândalos, vendo neles uma oportunidade de "deixar Lula sangrar" nas eleições de 2006, para que outro candidato pudesse vencer nas urnas, reduzindo a corrupção a uma mera questão eleitoral, e não penal? Você é lulista também.

Você considera Lula um "traidor do povo e do PT" e um corrupto por ter adotado as mesmas políticas "neoliberais" de FHC, e votou em Heloísa Helena ou em outro maluco de extrema esquerda? Não tenha dúvidas: ainda que ache que não, você é o maior dos lulistas.

Você prefere ver Lula no poder, embora mal o suporte, porque afinal você prefere um governo "popular" a um "de direita"? Você é um lulista de primeira hora.

Você discorda de tudo no governo, acha-o um desastre, mas aplaude sua política externa "altiva" e "independente"? Você é lulista, sim senhor.

Você torce o nariz para Lula e seus ministros, mas ainda assim o considera um antídoto contra a atual onda de populismo na América Latina? Acredite, você é um lulista de carteirinha.

Atualmente, uma exposição fotográfica no Conjunto Nacional, o shopping center mais popular de Brasília, dedica-se a louvar a figura de Lula, mostrando-o em poses ao lado de seus eleitores, segurando criancinhas etc. O título da exposição: "Somos milhões de Lulas". E somos mesmo. O lulismo não só vai além de Lula, como é anterior a ele. É, aliás, anterior ao próprio PT, á própria esquerda. Ele estava representado no Grito do Ipiranga, na Primeira Missa, nas Caravelas de Cabral. Em tudo que de pior Portugal trouxe para o Brasil. Em tudo que somos e não queremos admitir. É a quintessência do Brasil.

sexta-feira, maio 18, 2007

"NOSSOS" F.D.P. E OS "DELES"


O cubano Luís Posada Carriles é um assassino frio e sanguinário. Em 1976, ele foi o autor de um crime monstruoso: fez explodir, em pleno ar, um avião de passageiros da empresa Cubana de Aviación, matando todos seus 73 passageiros e tripulantes. Em 1997, ele confessou a autoria dessa atrocidade, assim como a de uma série de atentados à bomba em vários hotéis em Cuba, que resultaram na morte de um turista italiano e em onze feridos. Durante uma reunião da Cúpula Ibero-Americana no Panamá, em 2000, ele foi detido e condenado a oito anos de prisão (tendo sido indultado pelo governo panamenho em 2001) por ter entrado no país com documentos falsos e explosivos, supostamente para tramar contra a vida de Fidel Castro.

Luís Posada Carriles é um terrorista, um cão raivoso, um monstro. É o Osama Bin Laden de Cuba.

Esta semana, o quase octogenário Posada Carriles foi libertado nos EUA, depois de pagar uma fiança de 350 mil dólares. Desde que ele foi preso em 2005, por entrar ilegalmente no país, os governos de Cuba e da Venezuela, que querem sua extradição, acusam os EUA de estarem protegendo um perigoso criminoso internacional. Nesse mister, foram acompanhados por vários órgãos de imprensa, inclusive conservadores, que não tardaram em comparar a posição dos EUA no "caso Posada Carriles" com a atitude norte-americana em relação a outros terroristas procurados, como Osama Bin Laden, e aos detidos na base de Guantánamo. Nessa visão, o terrorista cubano parece comprovar, aos olhos de muitos, aquilo que se convencionou chamar de "duplo padrão" dos EUA no tratamento da questão do terrorismo. Como escreveu, em editorial, o jornal El Tiempo, da Colômbia, em 14/05/2007:

"Posada Carriles se converteu no símbolo de que ser qualificado de terrorista depende da agenda exterior dos EUA. Com muito menos evidência, mantêm-se em Guantánamo centenas de muçulmanos ‘suspeitos’ de terrorismo, aos que se negam os mesmos direitos que deixaram livre o cubano. Dupla moral que tira autoridade ao campeão da guerra global contra o terrorismo".

E, finalmente:

"Washington parece estar parodiando neste caso o que Theodore Roosevelt disse uma vez sobre o ditador nicaragüense Anastasio Somoza (pai): ‘É um f.d.p., mas é nosso f.d.p" (Grifo no original).

As duras palavras do editorial transcrito acima trazem uma parcela importante de verdade. Uma parcela significativa, mas que nem por isso compreende a verdade integral, toda a verdade.
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Refiro-me à forma claramente oportunista e demagógica com que governos tirânicos costumam utilizar a questão do terrorismo como uma arma retórica para reforçar seu poder e criminalizar qualquer oposição. No caso específico de Posada Carriles – um, repito, perigoso terrorista, que deve ser detido, julgado e condenado por seus crimes –, a manipulação, levada a cabo pelo regime que ele quer destruir – a ditadura de Fidel Castro – é explícita e chega a extremos de cinismo.

Para muitas pessoas, ingênuas ou mal-informadas, poderia parecer que o regime de Havana estaria sinceramente preocupado em tirar de circulação facínoras e criminosos contra a humanidade. Uma análise honesta, porém, deixa claro que não é nada disso. É tudo mais uma mise-en-scène, mais uma encenação do ditador cubano, nos mesmos moldes das gigantescas manifestações "espontâneas" orquestradas pela polícia da ditadura para mostrar a "unidade" do povo cubano em torno do Líder e louvar as glórias do regime na Plaza de la Revolución.

A manipulação da questão pelo regime castrista ocorre em duas frentes: uma interna, e outra, externa. Vejamos cada uma delas, começando pelo plano interno.

Há, como se sabe, vários grupos de oposição à ditadura de Fidel Castro, sobretudo entre os dois milhões de exilados cubanos que vivem hoje no exterior, tangidos pela Revolução que, tendo começado democrática, terminou comunista. A maioria deles, tendo à frente figuras da resistência como Oswaldo Payá e Raúl Rivero, é pacífica e se opõe terminantemente ao terrorismo, não só por razões políticas – como forma de luta contra ditaduras, o terrorismo é, como se verá a seguir, uma tática ineficaz e contraproducente –, mas também, e sobretudo, morais. Posada Carriles não tem nada a ver com esses grupos, assim como Carlos Mariguella e Carlos Lamarca não tinham nada a ver com Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Mesmo assim, para o regime de Havana, todos esses grupos, todos os que se opõem a ele, são gusanos – literalmente "vermes", traidores, bandidos, espiões da CIA, mercenários a soldo do imperialismo, criminosos que não merecem nenhuma consideração ou qualquer direito –, assim como, para a ditadura militar brasileira (1964-1985), todos os que se opunham a ela eram tachados com o rótulo bastante elástico de "subversivos". Em Cuba, basta ser a favor de eleições livres, dizer qualquer palavra que não agrade ao Líder, e se estará carimbando um passaporte para a cadeia.

O terrorismo é o maior aliado das ditaduras, tanto de direita quanto de esquerda. Não apenas o terrorismo de Estado – o terrorismo apoiado e patrocinado pelos serviços secretos de países como Irã, Síria, Líbia, Coréia do Norte e, também, Cuba –, mas também e, quiçá principalmente, o terrorismo contra o Estado, contra esses regimes. Tanto aquele quanto este atendem aos objetivos do tirano de plantão: aquele, por razões óbvias; este, por fornecer um pretexto para a intensificação da repressão e, assim, justificar a própria tirania. Foi assim em todas as ditaduras – absolutamente todas – que se viram um dia sob ataque de grupos terroristas, e a ditadura cubana não é exceção. E isso não é de hoje: foi justamente um atentado contra Lênin, em 1918, que desencadeou o terror bolchevique, que descambaria, anos mais tarde, nos grandes expurgos stalinistas na ex-URSS.

Assim como o regime militar brasileiro usou os atentados de grupos revolucionários – apoiados, entre outros, por Cuba – para apertar ainda mais o nó da repressão, estendendo-a a toda a população civil, os ataques de Posada Carriles e de organizações como a Alpha 66 acabam servindo aos propósitos do sistema político que querem atingir. Do mesmo modo que, durante a ditadura militar no Brasil, os generais no poder utilizavam a luta armada de extrema-esquerda como uma justificativa para o endurecimento da repressão, sufocando assim toda e qualquer oposição política, a ditadura comunista de Fidel Castro se vale de gente como Posada Carriles para reforçar a perseguição a seus opositores, inclusive os mais pacíficos (de quebra, o ditador ainda posa de vítima de uma agressão, perpetrada por um "agente do imperialismo ianque" – e muitos parvos, intoxicados pela propaganda castrista, assinam embaixo). Mais uma vez, comprova-se a teoria da ferradura, segundo a qual os dois extremos, cedo ou tarde, terminam se encontrando, usando, além dos mesmos métodos, os mesmos argumentos.

Um exemplo recente desse tipo de manipulação ocorreu em março de 2003, quando o ditador cubano se aproveitou do seqüestro de uma balsa por três pobres-diabos que queriam fugir da ilha-prisão para meter na cadeia, de cambulhada, 78 dissidentes políticos pelo crime de, entre outras coisas, emprestarem livros considerados "subversivos". A cada ação desse tipo, o regime cubano responde com mais repressão, mais censura. Nesse sentido, assim como o tão falado "bloqueio" dos EUA contra a ilha, Posada Carriles é uma verdadeira bênção para Fidel Castro – é mesmo um dos maiores advogados do totalitarismo castrista. Graças a tipos como ele, o regime continua a negar à sociedade qualquer vislumbre de democracia, como se esta fosse incapaz de enfrentar a ameaça terrorista – algo, aliás, desmentido por exemplos como o da antiga Alemanha Ocidental e da Itália nos anos 70 e 80, as quais não tiveram de abrir mão das liberdades e garantias constitucionais para derrotar o Baader-Meinhof e as Brigate Rosse.

O segundo front de manipulação, o externo, se manifesta da seguinte maneira: como ambos os lados são acusados da prática de atos terroristas e de violarem os direitos humanos, não faria sentido acusar o regime de Cuba por esses crimes, pois seus inimigos – os EUA – "fazem o mesmo". É a velha tese da "equivalência moral" entre os terroristas e os que os combatem, defendida por luminares do antiamericanismo e da idiotice esquerdista como Noam Chomsky e Ignácio Ramonet. Ao contrário, porém, do que dizem esses faróis da sabedoria anticapitalista, anti-EUA e antiglobalização, não há equivalência moral entre o terror de grupos como o Hamas e a Al Qaeda e o contraterror de Israel e dos EUA. Pelo mesmo motivo de que seria preciso ser um sicofanta e um completo canalha para enxergar qualquer equivalência moral entre um serial killer que mata de forma intencional e indiscriminada e o policial que, na tentativa de detê-lo, mata ou fere acidentalmente pessoas inocentes.

Diferentemente das democracias, como os EUA e Israel, que se vêem obrigadas a lançar mão de táticas semelhantes a dos terroristas para caçá-los e puni-los, enfrentando assim um duro dilema moral e político - e tornando-se alvo de duras críticas por causa disso -, as ditaduras estão livres desses escrúpulos de consciência. Apóiam abertamente o terror como forma de luta, e justificam esse apoio usando o terrorismo oposto como desculpa. Mais: fornecem refúgio e até mesmo consideram como heróis os terroristas a seu serviço. Sob o pretexto de denunciar o "duplo padrão" dos países ocidentais na luta contra o terrorismo, o que pretendem é justificar o próprio terrorismo contra os EUA e o Ocidente – ou seja, uma forma bastante sutil e oportunista de duplo padrão e de dupla moral. Aqui também, os que aplaudem a ditadura cubana se revelam grandes tolos ou excelentes atores, seguindo fielmente o ensinamento de Lênin, o pai espiritual de todos os ditadores do século XX: "Acuse-os do que você faz; xingue-os do que você é".

Assim como ocorre com a questão do terrorismo, a "politização" dos direitos humanos – uma queixa contumaz de regimes como o de Fidel Castro, sempre que é chamado a responder pela falta de liberdade na ilha – parte de governos como o dele, não de seus adversários. A tirania cubana já encontrou a fórmula para desviar a atenção das contínuas violações dos direitos humanos na ilha – basta olhar para o outro lado. Para que se preocupar com coisas como democracia e liberdade de expressão, essas formalidades burguesas, se os EUA não fazem sua parte? Para que pedir liberdade para os presos políticos e o fim da repressão e da censura, se os EUA têm Guantánamo e Abu Ghraib etc.? (curiosamente, Fidel Castro e sua camarilha justificam esse discurso sob a alegação da defesa da "soberania" de Cuba – soberania que, pelo visto, depende de que política seguirá Washington...). Em suma, tal fórmula pode ser assim resumida: se os gringos podem, então tudo é permitido. Algo muito conveniente, sem dúvida!

Há um outro elemento de manipulação no caso de Posada Carriles, malandramente explorado pela ditadura castrista: como os EUA e Cuba estão rompidos há mais de quarenta anos – desde 1977, há um escritório de representação de interesses em cada país, mas não há relações diplomáticas – e como, por conseguinte, os dois Estados não têm acordo de extradição, os EUA ficam com uma batata quente nas mãos. Como Fidel sabe que eles não podem, mesmo que quisessem, entregar Posada Carriles, pois este não duraria cinco minutos em Cuba, aproveita para fazer demagogia, apresentando os EUA como "protetores" de um terrorista cruel. Isso porque o sistema judicial cubano, qualquer pessoa razoavelmente informada sabe perfeitamente, não é nenhum modelo de justiça e imparcialidade: basta lembrar os inúmeros casos de interferência do "Comandante" em julgamentos de "contra-revolucionários", para garantir a condenação dos mesmos, ainda que não houvesse prova alguma contra eles. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Huber Matos e Pedro Díaz Lanz, revolucionários de primeira hora, falsamente acusados por toda sorte de crimes por se oporem à guinada comunista da Revolução Cubana.

É irônico que um regime como o de Fidel Castro ainda queira erguer a voz para falar de terrorismo. Logo ele, que desde 1959 vêm apoiando guerrilhas e terroristas em praticamente todos os cantos do mundo, desde os Tupamaros uruguaios até grupos radicais palestinos e separatistas canadenses de Quebec. Sem falar, claro, naqueles que são certamente os maiores terroristas que já apareceram no continente latino-americano: as FARC colombianas, que tiveram durante anos na ditadura cubana, juntamente com o narcotráfico, seu principal esteio e fonte de inspiração ideológica. A falta de pudor do tirano do Caribe o leva a atirar às favas qualquer sentimento de humanidade, ao mandar explodir no ar, em 1996, um avião civil de um grupo de exilados que sobrevoava o litoral de Cuba, por exemplo. Certamente, ele se sente acima do bem e do mal, pois sabe que sempre contará com os préstimos daqueles que preferem desviar o olhar – afinal, estão ocupados demais apontando os podres, reais ou não, dos EUA.

Quando as torres gêmeas do World Trade Center ruíram, em 11 de setembro de 2001, não faltou quem dissesse que os ataques teriam sido parte de um grande complô arquitetado pelo próprio governo dos EUA para provocar uma "guerra contra o Islã" e se apossar dos poços de petróleo do Oriente Médio. Ainda hoje, há pessoas inteligentes que acreditam piamente nisso. É estranho, portanto, que quase ninguém pense algo parecido quando se trata de terroristas como Posada Carriles e da ditadura totalitária de Fidel Castro em Cuba, o único a se beneficiar desses atentados – ainda mais porque a informação em Cuba, ao contrário dos EUA, é totalmente controlada pelo Estado onipresente e onisciente. Ou seja: pelo próprio Fidel Castro.

Os EUA são freqüentemente acusados de usar "dois pesos e duas medidas" na questão do terrorismo e dos direitos humanos. Afirma-se que Posada Carriles, assim como Somoza, Pinochet e outros, é, para os norte-americanos, um "son of a bitch", mas é "our son of a bitch". De qualquer maneira, figuras como ele são universalmente execradas, tanto por seus inimigos como por seus supostos protetores. Já os que cometem atrocidades contra os EUA são louvados e tratados como heróis ou, como no caso dos homens-bomba palestinos, mártires – um passo para a santidade –, por esses mesmos regimes que acusam os EUA de double standards. Basta olhar para os exemplos cultuados pelas esquerdas, como Che Guevara – um dos assassinos mais frios de que se tem notícia, responsável por centenas de fuzilamentos no paredón em Cuba – e Carlos, o Chacal, o pen pal de Hugo Chávez, que o considera um "combatente da liberdade". No caso dos EUA e seus aliados, pode-se alegar um cínico pragmatismo. No desses últimos, porém, o que há é um fanatismo cego – ou safadeza ideológica mesmo.

"El sueño de la razón produce monstruos...", "o sono da razão produz monstros", é o título de uma célebre gravura de Goya. A instrumentalização do terrorismo e dos direitos humanos por ditaduras como a de Fidel Castro é um dos exemplos mais evidentes de como a sublimação da razão em favor de uma tirania leva ao entorpecimento político e moral de pessoas que, em nome do antiamericanismo, estão dispostas a justificar ou a fazer vista grossa ao terrorismo e à ditadura, desde que sejam "de esquerda". Em geral, são os mesmos que aplaudem o regime comunista cubano, mas que, estranhamente, não desejam governos semelhantes para seus próprios países.

Fidel Castro prometeu uma revolução democrática em Cuba e fez outra, comunista e totalitária. Para tanto, exilou, encarcerou e mandou fuzilar milhares de pessoas, muitas das quais antigos companheiros de revolução, que ousaram protestar contra essa colossal impostura. Não satisfeito em enganar a todos e em impor a mais longa ditadura pessoal do planeta, arrastou seu país, que era um dos mais prósperos das Américas, a uma situação de miséria e indigência totais. Hoje, ele se utiliza do terrorismo, em todas as suas vertentes, para continuar enganando os incautos e manter-se para sempre no poder, negando ao povo cubano a possibilidade de escolher sobre seu próprio destino. Agiu e age, portanto, como aquilo de que acusa seus adversários. Enfim, um autêntico filho-da-puta.

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P.S.: Agradeço ao meu colego Evandro Araújo por ter-me enviado o editorial citado acima, que me deu a idéia de escrever este texto. Ele me pediu para acrescentar que ele não necessariamente corrobora minha análise. Nem precisaria dizer isso, pois caso concordassem comigo eu não justificaria o nome deste blog. Mas aí está o registro. Obrigado, Evandro!

sábado, maio 12, 2007

A GRANDE ILUSÃO


Tem gente que insiste em manter a esperança diante de qualquer desastre, por pior que seja. Se estão num navio e ele bate num iceberg, preferem acreditar que foi só um esbarrão. Se o navio começa a fazer água e afundar, pensam que ele vai afundar só um pouquinho, não até o fundo do oceano. Se o casco empina e não há botes salva-vidas suficientes para todos, acreditam que podem escapar nadando. Se a água é fria demais para nadar ou o mar está coalhado de tubarões e a morte é certa, têm pelo menos o consolo de que vão para o céu, congelados e em pedacinhos.

É essa a atitude adotada por muitas pessoas tidas por "progressistas", diante da atual onda de governos populistas na América Latina, o do histrião Hugo Chávez da Venezuela à frente. Como se sabe, esses governos são um desastre monumental, uma verdadeira fórmula para o fracasso. Diante disso, muita gente boa, não querendo sair de vez do jardim-de-infância esquerdista nem passar por "de direita" - a encarnação do mal, segundo uma visão idiota há muito estabelecida -, termina caindo numa cilada mental, agarrando-se à primeira ilusão que aparecer como sua tábua de salvação.

Na América Latina, essa cilada responde atualmente pelo nome de teoria das "duas esquerdas" - uma, furibunda e "carnívora", adepta do nacional-estatismo mais atrasado; outra, racional e "vegetariana", que, pelo menos aparentemente, reconhece a importância da democracia e as regras da economia de mercado. São representantes da primeira os governos de Hugo Chávez na Venezuela, do índio fajuto Evo Morales na Bolívia e do enfant terrible Rafael Correa no Equador, sem falar, claro, no patrono de todos os perfeitos idiotas latino-americanos, o tirano Fidel Castro. A segunda corrente seria representada, por sua vez, pelos governos esquerdistas mais light de Lula, Michelle Bachelet no Chile e Tabaré Vázquez no Uruguai, com o argentino Néstor Kirchner esquizofrenicamente espremido em algum lugar entre as duas vertentes.

Essa teoria gastronômica das "duas esquerdas" vem sendo elaborada por pessoas que sempre militaram nas hostes esquerdistas, como o venezuelano Teodoro Petkoff (autor, aliás, de um livro chamado Dos Izquierdas), um ex-guerrilheiro e veterano dirigente comunista. Diante do caráter burlesco e histriônico do fenômeno chavista, Petkoff passou-se para a oposição a Chávez, a quem chama de legítimo expoente da esquerda "borbônica" (a que não esquece nem aprende). Até mesmo os autores do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano e de El Regreso del Idiota, livros fundamentais para se compreender a onda de idiotice esquerdizóide que vem tomando conta do hemisfério, endossaram essa tese. No Brasil, a revista Veja (até ela!) também parece ter-se deixado iludir, ao afirmar recentemente que a melhor forma de lidar com as presepadas de Chávez e companhia seria simplesmente ignorá-los, deixá-los de lado, pois contaríamos aqui com um governo - o de Luiz Inácio Lula da Silva - que, apesar dos pesares, estaria fechado com a democracia e com a estabilidade econômica, sendo, portanto, um mal menor, ou mesmo um antídoto contra o neopopulismo castro-chavista-indigenista.

Trata-se de um grande erro, evidentemente. A chamada esquerda "vegetariana", representada entre nós por Lula, não passa de uma escada para a esquerda "carnívora" de Chávez, Fidel, Morales e Correa. Ambas se completam, se complementam. A esquerda "carnívora", para sobreviver, precisa de cúmplices, de simpatizantes. A ditadura de Fidel Castro em Cuba, por exemplo, certamente não existiria nem continuaria prendendo e fuzilando dissidentes se não fosse a complacência com que foi e continua a ser tratada pelos governos "vegetarianos" do continente e de fora dele, como o de Rodríguez Zapatero na Espanha. Do mesmo modo, a semi-ditadura de Chávez e as estripulias "indigenistas" do índio de araque Evo Morales só são possíveis porque há governos - como o do "vegetariano" Lula no Brasil - que preferem virar o rosto e justificar suas ações, mesmo que estas, como no caso da nacionalização das refinarias da PETROBRAS na Bolívia, prejudiquem os interesses nacionais brasileiros.

A idéia de que os "vegetarianos" seriam inofensivos e representariam o juste milieu, o caminho do meio, é uma das maiores empulhações que já surgiram sob o sol. Se estes proclamam seu amor à democracia e ao mercado, não o fazem por convicção ou compromisso filosófico, mas por conveniência política ou falta de opção. A diferença é que os "carnívoros" não se dão sequer a esse trabalho, proclamando abertamente seus propósitos totalitários. Como disse certa vez o Diogo Mainardi, refrigerante light engorda menos, mas também engorda. Assim como não existe socialismo democrático, não existe esquerda light, existe esquerda ingênua ou dissimulada.

A divisão entre "carnívoros" e "vegetarianos", "radicais" e "reformistas","xiitas" e "moderados", "jurássicos" e "modernos", não é de hoje. Sua origem remonta, pelo menos, à Segunda Internacional, fundada por Karl Marx e Friedrich Engels no final do século XIX, onde se digladiavam "revolucionários" (que dariam origem aos comunistas) e "evolucionistas" (que se tornariam, depois, os sociais-democratas). Durante a Revolução de 1917 na Rússia, essa divisão se expressou na cisão entre "bolcheviques" e "mencheviques". Mais tarde, as duas correntes se juntaram, após 1935, na política de "frentes populares", baseada na aliança entre os comunistas e os setores democráticos da burguesia "contra o fascismo". Essa política foi aplicada, com resultados desastrosos, na Espanha e na França, tornando-se, durante a Segunda Guerra Mundial, a base da aliança da ex-URSS com os países democráticos contra o Eixo nazi-fascista. Ao mesmo tempo, a tática revolucionária comunista passou a apoiar-se cada vez mais na simpatia de importantes setores das artes e ciências nos países do Ocidente, como atores, diretores de teatro e cinema, músicos, pintores, professores etc. - enfim, a intelligentsia, de acordo com a visão gramsciana de conquistar cada vez mais espaço("hegemonia") na superestrutura da sociedade capitalista para miná-la por dentro, sempre usando uma máscara de bom-moço, de defensor da liberdade e da democracia.

De lá para cá, a política de "frentes populares" só mudou de nome, conservando, em sua essência, o caráter tático de caminho para a tomada do poder pelos "carnívoros", os comunistas. Foi assim, por exemplo, na antiga Tchecoslováquia, onde os vermelhos impuseram sua ditadura logo depois de vencerem as eleições, em 1948, com o apoio da esquerda "vegetariana" -socialistas, sociais-democratas, liberais etc. -, a qual foi logo recompensada pelos novos donos do poder, sendo enviada aos magotes para mofar em campos de concentração. Vinte anos depois, em 1968, o que restou dessa esquerda "vegetariana", anti-totalitária, resolveu manifestar-se na famosa "Primavera de Praga", defendendo um "socialismo com liberdade". O resultado foi uma dura lição, na qual ela foi novamente calada, dessa vez pelos tanques da ex-URSS que invadiram o país, em nome do socialismo e para enterrar a liberdade.

E isso também na América Latina. Aqui, os "vegetarianos" sempre serviram de escada ou de trampolim para os "carnívoros". Assim como os comunistas, nos países desenvolvidos, passaram a se esconder atrás de palavras de ordem aparentemente inofensivas, como "paz" e "democracia", para ocultar seus verdadeiros objetivos (guerra e ditadura), por essas plagas nunca faltaram companheiros de viagem e inocentes úteis do comunismo. Estes, a pretexto de defender teses nacionalistas ou conciliar o inconciliável - socialismo e liberdade -, apenas prepararam o caminho para o assalto comunista ao poder. Em nome de slogans aparentemente democráticos, o que se planejava, na verdade, era a implantação de regimes totalitários.

O exemplo clássico desse tipo de manipulação é, claro, Cuba. Lá, Fidel Castro e seus barbudos tomaram o poder, em 1959, prometendo democracia e eleições livres. Bastaram pouco mais de dois anos, porém, para que a revolução castrista mostrasse sua verdadeira face, transformando a ilha numa ditadura comunista vitalícia e num porta-aviões soviético nas Américas. Em outras palavras: prometeu-se uma revolução e fez-se outra. Quanto ao motivo verdadeiro da rebelião contra a ditadura anterior, o restabelecimento da democracia e das eleições livres, até hoje os cubanos esperam por elas.

Isso quase ocorreu em outros países da região, como a Guatemala sob o coronel Arbenz em 1950-1954, passando pelo governo da Unidade Popular no Chile em 1970-1973 e pelo fracasso sandinista na Nicarágua nos anos 80. O Brasil, claro, não passou incólume a essa onda histórica - basta lembrar as palavras de Luiz Carlos Prestes, então Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro (e, se a revolução triunfasse, futuro Líder Máximo da República Soviética do Brasil), às vésperas do golpe que derrubou o governo de João Goulart - protótipo do esquerdista "vegetariano" -, as quais não deixam dúvidas: "nós, os comunistas, já estamos no governo; só não estamos ainda no poder".

Hoje em dia, com o comunismo morto e enterrado, muitos acham que esse tipo de análise não mais procede, sendo tudo paranóia de um punhado de"direitistas" e "reacionários", saudosos da Guerra Fria. É assim que pensam aqueles, que constituem a imensa maioria, que são simplesmente indiferentes à política e à História. É outro erro, certamente induzido por décadas de infiltração marxista na mídia e nas universidades. Basta olhar, por exemplo, para os muçulmanos "moderados"("vegetarianos"), diante do terrorismo dos fundamentalistas ("carnívoros"). Que líder muçulmano "moderado" se atreve a condenar abertamente, perante os fiéis, os atentados do Hamas e da Al-Qaeda (ao contrário, sempre estarão dispostos a dizer alguma palavrinha contra Israel e os EUA)? Em que momento Lula e Zapatero condenaram abertamente regimes como o de Chávez e Fidel? Nem precisa ir muito longe: mostrem-me quando Lula resolveu enquadrar os "carnívoros" do MST, por exemplo. Sem a cumplicidade ou, pelo menos, o silêncio dos "vegetarianos", os "carnívoros" não teriam como existir. Aqueles são seus melhores relações-públicas.

Assim como durante décadas se alimentou o mito de que o socialismo pudesse ser compatível com a democracia, muitos mantém hoje a falsa esperança de que uma esquerda "boa", vegetariana, com Lula à frente, possa contrabalançar o furor populista da esquerda "má", carnívora, na América Latina. E, assim como aquela, esta é uma esperança vã, dramaticamente desmentida pelos fatos todos os dias: nos últimos anos, a força e influência dos "carnívoros" só aumentou, de forma inversamente proporcional a qualquer suposta capacidade moderadora dos seus colegas "vegetarianos". Em vez de servir-lhes de contrapartida, estes têm-se limitado a dizer amém a suas sandices, o que apenas os estimula a ir adiante. Caso haja alguma dúvida quanto a isso, sugiro dar uma olhada na maneira vergonhosa e acabrunhada como o Governo do Brasil se curvou à monumental tunga das refinarias brasileiras na Bolívia pelo índio de butique Evo Morales.

Não há solução para a América Latina dentro do campo esquerdista. Assim como os nacionalistas e outros exemplares da esquerda "vegetariana" na época de Prestes e Goulart, os "vegetarianos" de hoje são instrumentos dos "carnívoros". Para usar uma metáfora futebolística, tão na moda nestes tempos de muita lábia e poucos neurônios, aqueles passam a bola, enquanto estes a chutam. O que se pretende, com essa falsa dicotomia, é salvar o próprio conceito de "esquerda", cobrindo-o com uma aura de racionalidade, atribuindo-lhe virtudes contra as quais sempre lutou. Se é de forma consciente ou não, por malandragem ou ingenuidade, não faz a menor diferença. De um jeito ou de outro, o navio acaba afundando.

terça-feira, maio 08, 2007

"BATISMO DE SANGUE", A HISTÓRIA TORTURADA


O que acontece quando um dos livros mais desonestos já escritos sobre o período da luta armada no Brasil durante os anos 60 e 70, de autoria de um frade católico adepto da Teologia da Libertação e admirador incondicional de Fidel Castro, é adaptado para as telas do cinema? A resposta é: um filme também desonesto, cuja vítima, além da boa fé da platéia, é a verdade histórica.

É esse o caso de Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, atualmente em cartaz nas salas de exibição do País. Trata-se de uma obra que aposta na ingenuidade e na ignorância do espectador para tentar vender uma versão ideologicamente enviesada e factualmente mentirosa de um dos episódios mais marcantes dos chamados "anos de chumbo" no Brasil: a morte, em uma emboscada policial em São Paulo, em 4 de novembro de 1969, do ex-deputado federal e dirigente comunista Carlos Mariguella, chefe da Ação Libertadora Nacional (ALN), que defendia a revolução armada para derrubar a ditadura militar que se instalara no Brasil em 1964.

Como fica claro pelo título e pelos créditos iniciais, o filme é baseado no livro homônimo do dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, publicado originalmente em 1982 (e que se encontra atualmente em sua 14a edição). O livro conta a história em parte autobiográfica do envolvimento de frades da Ordem dos Dominicanos em São Paulo com a ALN de Mariguella (seu subtítulo original, aliás, era Os Dominicanos e a Morte de Carlos Mariguella, alterado na edição mais recente para Guerrilha e Morte de Carlos Mariguella).

Na versão de Frei Betto, que passou à história como a "verdadeira", Mariguella foi vítima de uma operação de infiltração da CIA, a agência de espionagem norte-americana, dentro da ALN. O livro sustenta essa tese, sem qualquer base factual, a fim de inocentar os dois frades dominicanos que, presos dias antes no Rio de Janeiro e brutalmente torturados pela equipe do DOPS paulista liderada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, entregaram a data e o local de um encontro clandestino com o líder guerrilheiro, na alameda Casa Branca, além da senha utilizada para marcar tais encontros por telefone ("Aqui é da parte do Ernesto. Esteja hoje na gráfica", telefonava um emissário de Mariguella para a livraria onde um dos frades trabalhava).

Na versão fantasiosa do livro de Frei Betto, todo o episódio da prisão e tortura dos dois dominicanos teria sido apenas uma "encenação" montada pelos serviços de repressão da ditadura para incriminá-los pela morte de Mariguella, de modo a indispor a ala "progressista" da Igreja Católica com os grupos que faziam oposição violenta ao regime militar. Nessa visão, Mariguella teria sido emboscado e morto com ou sem a delação dos dominicanos, cuja presença no local do tiroteio teria servido apenas ao propósito de forjar a versão oficial da delação.

Para dar lustre a sua teoria de infiltração da CIA, o livro de Frei Betto insinua que a agência estadunidense teria tido conhecimento dos planos da guerrilha brasileira de seqüestrar um avião, mas não tomou nenhuma providência no sentido de informar o Governo brasileiro e impedir a ação, para não prejudicar a operação contra a ALN e Mariguella - prova irrefutável, segundo Frei Betto, de que havia um espião da agência infiltrado na organização. Mais que isso, a "prova" definitiva de que os dominicanos não teriam tido qualquer responsabilidade na morte do líder terrorista foi que este teria sido abatido a tiros no meio da rua, do lado de fora do Fusca onde se encontravam os frades, e somente depois seu corpo teria sido colocado no banco de trás do automóvel, para simular uma traição dos dominicanos.

Coube a um outro representante da esquerda brasileira, o historiador marxista Jacob Gorender, ex-dirigente do PCB e fundador do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), outra sigla da luta armada, desmontar a farsa de Frei Betto, agora exposta em filme. Em seu livro Combate nas Trevas, publicado originalmente em 1987, 6a edição, Gorender, que está muito longe de ser um direitista ou um simpatizante da ditadura militar (ele mesmo foi preso e vítima de torturas nas mãos do delegado Fleury), escreveu o seguinte a respeito da morte do líder da ALN, no capítulo "Assim mataram Mariguella":

"Às vinte horas, Mariguella apareceu subindo a alameda Casa Branca. Como de costume, aproximou-se do Fusca azul, abriu a porta e sentou no banco de trás. Instantaneamente, conforme instruções recebidas, Fernando e Yves escapuliram do carro, deram alguns passos e se jogaram ao solo" (p. 195. Grifo meu).

A respeito da teoria geral do assassinato de Mariguella inventada por Frei Betto, Gorender é incisivo:

"Frei Betto preferiu a meia verdade, o que é igual a meia falsidade. Sua versão reconhece que, sob tortura, Fernando e Yves (hoje, ex-frade) denunciaram o dispositivo de ligação com o líder da ALN. (...) Mas sua versão acumula invencionices, cujo desmentido já está na exposição acima. Devo referir-me, contudo, a uma delas: a de que o comparecimento de Mariguella ao ponto da alameda Casa Branca não se deveu exclusivamente (sic) aos dominicanos. Com ou sem o telefonema à Livraria Duas Cidades, ele iria até lá atraído por agentes da CIA infiltrados na ALN. O telefonema teria visado tão-somente a uma encenação (sic), que comprometesse a Igreja e a Ordem dos Dominicanos com o movimento subversivo". (p. 198. Grifos no original)

Em suma, o que Gorender afirma em seu livro - com base em depoimentos e sólida documentação, como está lá para quem quiser comprovar com os próprios olhos - é o seguinte: sob tortura, os dominicanos entregaram o local, a data e a senha do ponto com Mariguella. Na hora marcada, coagidos pelos policiais, esperaram o líder da ALN entrar no Fusca em que o estavam esperando. Quando este entrou, eles se afastaram rapidamente do carro. Os policiais então fuzilaram Mariguella. Não havia nenhum agente da CIA infiltrado na ALN. Nenhum espião norte-americano. Nada.

Como se não fosse suficiente, Gorender põe a pá de cal sobre a tese do livro de Frei Betto e do filme de Helvécio Ratton, ao se referir a um documento recentemente descoberto: o plano de captura de Mariguella pelo DOPS paulista, cujo primeiro ponto diz o seguinte, textualmente:

"Aguardar entrada Mariguella no carro dos padres; acionar os outros; dar voz de prisão". (p. 199. Grifo meu.)

Gorender conta ainda que ouviu de um dos dominicanos, quando estava preso com este no Presídio Tiradentes, a verdadeira história da morte de Mariguella. No entanto, em 1996, quando estavam sendo discutidas as indenizações às famílias dos mortos e desaparecidos políticos durante o regime militar, o frade misteriosamente voltou atrás, em depoimento perante a Comissão Especial da Câmara dos Deputados criada para essa finalidade. Desde então, os dois dominicanos que estiveram presentes na alameda Casa Branca têm mantido silêncio tumular sobre o episódio, endossando com isso a versão de Frei Betto, que agora se transforma em filme.

Pela análise de Gorender, fica claro que a versão de Frei Betto teve por objetivo não esclarecer a verdade, mas isentar seus irmãos de batina de qualquer culpa pelo ocorrido. De quebra, ainda inventou uma esdrúxula teoria conspiratória, baseada tão-somente em um livro - A CIA e o Culto da Inteligência, dos norte-americanos Victor Marchetti e John D. Marks - que só ligeiramente faz menção a uma suposta infiltração da CIA na ALN, e que já se encontra totalmente desacreditada pela pesquisa criteriosa de Gorender.

A bem da verdade, deve-se reconhecer que o filme de Helvécio Ratton é menos desonesto do que o livro de Frei Betto no qual é inspirado. A tese do agente infiltrado da CIA na ALN, por exemplo, não é encampada pelo filme, pelo menos não abertamente, talvez por ser algo improvável ou absurdo demais, até mesmo para seus realizadores (mesmo assim, em algumas pinceladas, o filme se permite algumas insinuações mais ou menos sutis. Após a morte de Mariguella, por exemplo, os dominicanos presos se perguntam várias vezes, em tom de perplexidade, como a repressão sabia do encontro entre eles e o líder da ALN, se nem eles próprios sabiam que estava programado tal encontro - uma clara falsificação, já que os torturadores, sabedores da ligação dos dominicanos com a ALN, desejavam saber apenas quando e onde seria o próximo encontro dos frades com Mariguella). Mas onde o filme copia ao pé da letra a versão historicamente fictícia do livro de Frei Betto é na cena da morte de Mariguella - no meio da rua, antes de entrar no carro com os dominicanos (versão esta apresentada, também, em recente episódio do programa policialesco Linha Direta, da Rede Globo de Televisão). Poderia ter optado pela reconstrução fidedigna dos fatos, tal como está na obra de Gorender, mas optou pela meia verdade - ou meia falsidade.

Além disso, Batismo de Sangue, o filme, mantém-se fiel ao livro de Frei Betto em outros aspectos importantes - o que, nesse caso, depõe contra sua credibilidade como obra de referência para se entender um período crucial da história nacional. Assim como o livro, o filme se exime de uma visão mais crítica e menos romantizada da opção dos dominicanos pela violência revolucionária, na forma do envolvimento com a ALN, uma delirante organização terrorista apoiada por Cuba, responsável por dezenas de mortes e assaltos a bancos e supermercados. Em nenhum momento de seus 110 minutos, o filme faz qualquer referência às idéias extremistas de Mariguella, que em seus escritos da época chegou a justificar abertamente o terrorismo como forma de luta, tornando-se após sua morte uma espécie de ideólogo do terror, cuja obra mais conhecida, o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, tornou-se referência indispensável para grupos terroristas europeus como as Brigadas Vermelhas italianas e o Baader-Meinhof alemão ocidental. Também não há nenhuma referência crítica, por menor que seja, aos objetivos dos terroristas, que, como bem observaram Daniel Aarão Reis Filho e Elio Gaspari, não tinham nada a ver com democracia, mas com a implantação no Brasil, em última instância, de uma ditadura revolucionária, nos moldes da de Cuba ou da Coréia do Norte.

Tal abordagem maniqueísta acaba prejudicando a composição dos personagens, transformando-os em meros estereótipos em vez de seres de carne e osso. Assim, os dominicanos, estudantes e militantes da luta armada, sem falar no próprio Mariguella, são apresentados como figuras heróicas e idealistas, quase angelicais, enquanto os agentes da repressão, como o delegado Fleury, são interpretados de forma histérica e caricatural. Tudo denota uma clara e indisfarçável simpatia pelos padres-guerrilheiros, armados da Bíblia e de O Capital nas mãos, como na cena, que beira o piegas, em que os dominicanos celebram um arremedo de missa na prisão com suco de uva e biscoitos de maizena.

Como cinema, Batismo de Sangue tem algumas qualidades - as cenas de tortura, por exemplo, são as mais realistas e angustiantes já mostradas em um filme nacional - mas, como registro de um pedaço da história recente do Brasil, está a anos-luz da verdade dos fatos. Algo ainda mais grave diante dos incentivos financeiros à produção recebidos de empresas estatais, como a PETROBRAS e o BNDES, o que significa que o imposto do contribuinte está financiando uma versão falsa de acontecimentos históricos.

A segunda metade do filme, a exemplo do livro, descreve o longo calvário de Frei Tito de Alencar Lima, que enlouquece nas torturas e termina se suicidando no exílio na França. Ao final do filme, porém, fica-se com a impressão de que as vítimas da tortura não foram apenas os presos políticos nas celas do DOPS e do DOI-CODI - A exemplo de outros filmes apologéticos da luta armada e do comunismo, como o chatíssimo Cabra-Cega e o insuportável Olga, a principal vítima, aqui, é a própria História.