sábado, maio 12, 2007

A GRANDE ILUSÃO


Tem gente que insiste em manter a esperança diante de qualquer desastre, por pior que seja. Se estão num navio e ele bate num iceberg, preferem acreditar que foi só um esbarrão. Se o navio começa a fazer água e afundar, pensam que ele vai afundar só um pouquinho, não até o fundo do oceano. Se o casco empina e não há botes salva-vidas suficientes para todos, acreditam que podem escapar nadando. Se a água é fria demais para nadar ou o mar está coalhado de tubarões e a morte é certa, têm pelo menos o consolo de que vão para o céu, congelados e em pedacinhos.

É essa a atitude adotada por muitas pessoas tidas por "progressistas", diante da atual onda de governos populistas na América Latina, o do histrião Hugo Chávez da Venezuela à frente. Como se sabe, esses governos são um desastre monumental, uma verdadeira fórmula para o fracasso. Diante disso, muita gente boa, não querendo sair de vez do jardim-de-infância esquerdista nem passar por "de direita" - a encarnação do mal, segundo uma visão idiota há muito estabelecida -, termina caindo numa cilada mental, agarrando-se à primeira ilusão que aparecer como sua tábua de salvação.

Na América Latina, essa cilada responde atualmente pelo nome de teoria das "duas esquerdas" - uma, furibunda e "carnívora", adepta do nacional-estatismo mais atrasado; outra, racional e "vegetariana", que, pelo menos aparentemente, reconhece a importância da democracia e as regras da economia de mercado. São representantes da primeira os governos de Hugo Chávez na Venezuela, do índio fajuto Evo Morales na Bolívia e do enfant terrible Rafael Correa no Equador, sem falar, claro, no patrono de todos os perfeitos idiotas latino-americanos, o tirano Fidel Castro. A segunda corrente seria representada, por sua vez, pelos governos esquerdistas mais light de Lula, Michelle Bachelet no Chile e Tabaré Vázquez no Uruguai, com o argentino Néstor Kirchner esquizofrenicamente espremido em algum lugar entre as duas vertentes.

Essa teoria gastronômica das "duas esquerdas" vem sendo elaborada por pessoas que sempre militaram nas hostes esquerdistas, como o venezuelano Teodoro Petkoff (autor, aliás, de um livro chamado Dos Izquierdas), um ex-guerrilheiro e veterano dirigente comunista. Diante do caráter burlesco e histriônico do fenômeno chavista, Petkoff passou-se para a oposição a Chávez, a quem chama de legítimo expoente da esquerda "borbônica" (a que não esquece nem aprende). Até mesmo os autores do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano e de El Regreso del Idiota, livros fundamentais para se compreender a onda de idiotice esquerdizóide que vem tomando conta do hemisfério, endossaram essa tese. No Brasil, a revista Veja (até ela!) também parece ter-se deixado iludir, ao afirmar recentemente que a melhor forma de lidar com as presepadas de Chávez e companhia seria simplesmente ignorá-los, deixá-los de lado, pois contaríamos aqui com um governo - o de Luiz Inácio Lula da Silva - que, apesar dos pesares, estaria fechado com a democracia e com a estabilidade econômica, sendo, portanto, um mal menor, ou mesmo um antídoto contra o neopopulismo castro-chavista-indigenista.

Trata-se de um grande erro, evidentemente. A chamada esquerda "vegetariana", representada entre nós por Lula, não passa de uma escada para a esquerda "carnívora" de Chávez, Fidel, Morales e Correa. Ambas se completam, se complementam. A esquerda "carnívora", para sobreviver, precisa de cúmplices, de simpatizantes. A ditadura de Fidel Castro em Cuba, por exemplo, certamente não existiria nem continuaria prendendo e fuzilando dissidentes se não fosse a complacência com que foi e continua a ser tratada pelos governos "vegetarianos" do continente e de fora dele, como o de Rodríguez Zapatero na Espanha. Do mesmo modo, a semi-ditadura de Chávez e as estripulias "indigenistas" do índio de araque Evo Morales só são possíveis porque há governos - como o do "vegetariano" Lula no Brasil - que preferem virar o rosto e justificar suas ações, mesmo que estas, como no caso da nacionalização das refinarias da PETROBRAS na Bolívia, prejudiquem os interesses nacionais brasileiros.

A idéia de que os "vegetarianos" seriam inofensivos e representariam o juste milieu, o caminho do meio, é uma das maiores empulhações que já surgiram sob o sol. Se estes proclamam seu amor à democracia e ao mercado, não o fazem por convicção ou compromisso filosófico, mas por conveniência política ou falta de opção. A diferença é que os "carnívoros" não se dão sequer a esse trabalho, proclamando abertamente seus propósitos totalitários. Como disse certa vez o Diogo Mainardi, refrigerante light engorda menos, mas também engorda. Assim como não existe socialismo democrático, não existe esquerda light, existe esquerda ingênua ou dissimulada.

A divisão entre "carnívoros" e "vegetarianos", "radicais" e "reformistas","xiitas" e "moderados", "jurássicos" e "modernos", não é de hoje. Sua origem remonta, pelo menos, à Segunda Internacional, fundada por Karl Marx e Friedrich Engels no final do século XIX, onde se digladiavam "revolucionários" (que dariam origem aos comunistas) e "evolucionistas" (que se tornariam, depois, os sociais-democratas). Durante a Revolução de 1917 na Rússia, essa divisão se expressou na cisão entre "bolcheviques" e "mencheviques". Mais tarde, as duas correntes se juntaram, após 1935, na política de "frentes populares", baseada na aliança entre os comunistas e os setores democráticos da burguesia "contra o fascismo". Essa política foi aplicada, com resultados desastrosos, na Espanha e na França, tornando-se, durante a Segunda Guerra Mundial, a base da aliança da ex-URSS com os países democráticos contra o Eixo nazi-fascista. Ao mesmo tempo, a tática revolucionária comunista passou a apoiar-se cada vez mais na simpatia de importantes setores das artes e ciências nos países do Ocidente, como atores, diretores de teatro e cinema, músicos, pintores, professores etc. - enfim, a intelligentsia, de acordo com a visão gramsciana de conquistar cada vez mais espaço("hegemonia") na superestrutura da sociedade capitalista para miná-la por dentro, sempre usando uma máscara de bom-moço, de defensor da liberdade e da democracia.

De lá para cá, a política de "frentes populares" só mudou de nome, conservando, em sua essência, o caráter tático de caminho para a tomada do poder pelos "carnívoros", os comunistas. Foi assim, por exemplo, na antiga Tchecoslováquia, onde os vermelhos impuseram sua ditadura logo depois de vencerem as eleições, em 1948, com o apoio da esquerda "vegetariana" -socialistas, sociais-democratas, liberais etc. -, a qual foi logo recompensada pelos novos donos do poder, sendo enviada aos magotes para mofar em campos de concentração. Vinte anos depois, em 1968, o que restou dessa esquerda "vegetariana", anti-totalitária, resolveu manifestar-se na famosa "Primavera de Praga", defendendo um "socialismo com liberdade". O resultado foi uma dura lição, na qual ela foi novamente calada, dessa vez pelos tanques da ex-URSS que invadiram o país, em nome do socialismo e para enterrar a liberdade.

E isso também na América Latina. Aqui, os "vegetarianos" sempre serviram de escada ou de trampolim para os "carnívoros". Assim como os comunistas, nos países desenvolvidos, passaram a se esconder atrás de palavras de ordem aparentemente inofensivas, como "paz" e "democracia", para ocultar seus verdadeiros objetivos (guerra e ditadura), por essas plagas nunca faltaram companheiros de viagem e inocentes úteis do comunismo. Estes, a pretexto de defender teses nacionalistas ou conciliar o inconciliável - socialismo e liberdade -, apenas prepararam o caminho para o assalto comunista ao poder. Em nome de slogans aparentemente democráticos, o que se planejava, na verdade, era a implantação de regimes totalitários.

O exemplo clássico desse tipo de manipulação é, claro, Cuba. Lá, Fidel Castro e seus barbudos tomaram o poder, em 1959, prometendo democracia e eleições livres. Bastaram pouco mais de dois anos, porém, para que a revolução castrista mostrasse sua verdadeira face, transformando a ilha numa ditadura comunista vitalícia e num porta-aviões soviético nas Américas. Em outras palavras: prometeu-se uma revolução e fez-se outra. Quanto ao motivo verdadeiro da rebelião contra a ditadura anterior, o restabelecimento da democracia e das eleições livres, até hoje os cubanos esperam por elas.

Isso quase ocorreu em outros países da região, como a Guatemala sob o coronel Arbenz em 1950-1954, passando pelo governo da Unidade Popular no Chile em 1970-1973 e pelo fracasso sandinista na Nicarágua nos anos 80. O Brasil, claro, não passou incólume a essa onda histórica - basta lembrar as palavras de Luiz Carlos Prestes, então Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro (e, se a revolução triunfasse, futuro Líder Máximo da República Soviética do Brasil), às vésperas do golpe que derrubou o governo de João Goulart - protótipo do esquerdista "vegetariano" -, as quais não deixam dúvidas: "nós, os comunistas, já estamos no governo; só não estamos ainda no poder".

Hoje em dia, com o comunismo morto e enterrado, muitos acham que esse tipo de análise não mais procede, sendo tudo paranóia de um punhado de"direitistas" e "reacionários", saudosos da Guerra Fria. É assim que pensam aqueles, que constituem a imensa maioria, que são simplesmente indiferentes à política e à História. É outro erro, certamente induzido por décadas de infiltração marxista na mídia e nas universidades. Basta olhar, por exemplo, para os muçulmanos "moderados"("vegetarianos"), diante do terrorismo dos fundamentalistas ("carnívoros"). Que líder muçulmano "moderado" se atreve a condenar abertamente, perante os fiéis, os atentados do Hamas e da Al-Qaeda (ao contrário, sempre estarão dispostos a dizer alguma palavrinha contra Israel e os EUA)? Em que momento Lula e Zapatero condenaram abertamente regimes como o de Chávez e Fidel? Nem precisa ir muito longe: mostrem-me quando Lula resolveu enquadrar os "carnívoros" do MST, por exemplo. Sem a cumplicidade ou, pelo menos, o silêncio dos "vegetarianos", os "carnívoros" não teriam como existir. Aqueles são seus melhores relações-públicas.

Assim como durante décadas se alimentou o mito de que o socialismo pudesse ser compatível com a democracia, muitos mantém hoje a falsa esperança de que uma esquerda "boa", vegetariana, com Lula à frente, possa contrabalançar o furor populista da esquerda "má", carnívora, na América Latina. E, assim como aquela, esta é uma esperança vã, dramaticamente desmentida pelos fatos todos os dias: nos últimos anos, a força e influência dos "carnívoros" só aumentou, de forma inversamente proporcional a qualquer suposta capacidade moderadora dos seus colegas "vegetarianos". Em vez de servir-lhes de contrapartida, estes têm-se limitado a dizer amém a suas sandices, o que apenas os estimula a ir adiante. Caso haja alguma dúvida quanto a isso, sugiro dar uma olhada na maneira vergonhosa e acabrunhada como o Governo do Brasil se curvou à monumental tunga das refinarias brasileiras na Bolívia pelo índio de butique Evo Morales.

Não há solução para a América Latina dentro do campo esquerdista. Assim como os nacionalistas e outros exemplares da esquerda "vegetariana" na época de Prestes e Goulart, os "vegetarianos" de hoje são instrumentos dos "carnívoros". Para usar uma metáfora futebolística, tão na moda nestes tempos de muita lábia e poucos neurônios, aqueles passam a bola, enquanto estes a chutam. O que se pretende, com essa falsa dicotomia, é salvar o próprio conceito de "esquerda", cobrindo-o com uma aura de racionalidade, atribuindo-lhe virtudes contra as quais sempre lutou. Se é de forma consciente ou não, por malandragem ou ingenuidade, não faz a menor diferença. De um jeito ou de outro, o navio acaba afundando.

terça-feira, maio 08, 2007

"BATISMO DE SANGUE", A HISTÓRIA TORTURADA


O que acontece quando um dos livros mais desonestos já escritos sobre o período da luta armada no Brasil durante os anos 60 e 70, de autoria de um frade católico adepto da Teologia da Libertação e admirador incondicional de Fidel Castro, é adaptado para as telas do cinema? A resposta é: um filme também desonesto, cuja vítima, além da boa fé da platéia, é a verdade histórica.

É esse o caso de Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, atualmente em cartaz nas salas de exibição do País. Trata-se de uma obra que aposta na ingenuidade e na ignorância do espectador para tentar vender uma versão ideologicamente enviesada e factualmente mentirosa de um dos episódios mais marcantes dos chamados "anos de chumbo" no Brasil: a morte, em uma emboscada policial em São Paulo, em 4 de novembro de 1969, do ex-deputado federal e dirigente comunista Carlos Mariguella, chefe da Ação Libertadora Nacional (ALN), que defendia a revolução armada para derrubar a ditadura militar que se instalara no Brasil em 1964.

Como fica claro pelo título e pelos créditos iniciais, o filme é baseado no livro homônimo do dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, publicado originalmente em 1982 (e que se encontra atualmente em sua 14a edição). O livro conta a história em parte autobiográfica do envolvimento de frades da Ordem dos Dominicanos em São Paulo com a ALN de Mariguella (seu subtítulo original, aliás, era Os Dominicanos e a Morte de Carlos Mariguella, alterado na edição mais recente para Guerrilha e Morte de Carlos Mariguella).

Na versão de Frei Betto, que passou à história como a "verdadeira", Mariguella foi vítima de uma operação de infiltração da CIA, a agência de espionagem norte-americana, dentro da ALN. O livro sustenta essa tese, sem qualquer base factual, a fim de inocentar os dois frades dominicanos que, presos dias antes no Rio de Janeiro e brutalmente torturados pela equipe do DOPS paulista liderada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, entregaram a data e o local de um encontro clandestino com o líder guerrilheiro, na alameda Casa Branca, além da senha utilizada para marcar tais encontros por telefone ("Aqui é da parte do Ernesto. Esteja hoje na gráfica", telefonava um emissário de Mariguella para a livraria onde um dos frades trabalhava).

Na versão fantasiosa do livro de Frei Betto, todo o episódio da prisão e tortura dos dois dominicanos teria sido apenas uma "encenação" montada pelos serviços de repressão da ditadura para incriminá-los pela morte de Mariguella, de modo a indispor a ala "progressista" da Igreja Católica com os grupos que faziam oposição violenta ao regime militar. Nessa visão, Mariguella teria sido emboscado e morto com ou sem a delação dos dominicanos, cuja presença no local do tiroteio teria servido apenas ao propósito de forjar a versão oficial da delação.

Para dar lustre a sua teoria de infiltração da CIA, o livro de Frei Betto insinua que a agência estadunidense teria tido conhecimento dos planos da guerrilha brasileira de seqüestrar um avião, mas não tomou nenhuma providência no sentido de informar o Governo brasileiro e impedir a ação, para não prejudicar a operação contra a ALN e Mariguella - prova irrefutável, segundo Frei Betto, de que havia um espião da agência infiltrado na organização. Mais que isso, a "prova" definitiva de que os dominicanos não teriam tido qualquer responsabilidade na morte do líder terrorista foi que este teria sido abatido a tiros no meio da rua, do lado de fora do Fusca onde se encontravam os frades, e somente depois seu corpo teria sido colocado no banco de trás do automóvel, para simular uma traição dos dominicanos.

Coube a um outro representante da esquerda brasileira, o historiador marxista Jacob Gorender, ex-dirigente do PCB e fundador do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), outra sigla da luta armada, desmontar a farsa de Frei Betto, agora exposta em filme. Em seu livro Combate nas Trevas, publicado originalmente em 1987, 6a edição, Gorender, que está muito longe de ser um direitista ou um simpatizante da ditadura militar (ele mesmo foi preso e vítima de torturas nas mãos do delegado Fleury), escreveu o seguinte a respeito da morte do líder da ALN, no capítulo "Assim mataram Mariguella":

"Às vinte horas, Mariguella apareceu subindo a alameda Casa Branca. Como de costume, aproximou-se do Fusca azul, abriu a porta e sentou no banco de trás. Instantaneamente, conforme instruções recebidas, Fernando e Yves escapuliram do carro, deram alguns passos e se jogaram ao solo" (p. 195. Grifo meu).

A respeito da teoria geral do assassinato de Mariguella inventada por Frei Betto, Gorender é incisivo:

"Frei Betto preferiu a meia verdade, o que é igual a meia falsidade. Sua versão reconhece que, sob tortura, Fernando e Yves (hoje, ex-frade) denunciaram o dispositivo de ligação com o líder da ALN. (...) Mas sua versão acumula invencionices, cujo desmentido já está na exposição acima. Devo referir-me, contudo, a uma delas: a de que o comparecimento de Mariguella ao ponto da alameda Casa Branca não se deveu exclusivamente (sic) aos dominicanos. Com ou sem o telefonema à Livraria Duas Cidades, ele iria até lá atraído por agentes da CIA infiltrados na ALN. O telefonema teria visado tão-somente a uma encenação (sic), que comprometesse a Igreja e a Ordem dos Dominicanos com o movimento subversivo". (p. 198. Grifos no original)

Em suma, o que Gorender afirma em seu livro - com base em depoimentos e sólida documentação, como está lá para quem quiser comprovar com os próprios olhos - é o seguinte: sob tortura, os dominicanos entregaram o local, a data e a senha do ponto com Mariguella. Na hora marcada, coagidos pelos policiais, esperaram o líder da ALN entrar no Fusca em que o estavam esperando. Quando este entrou, eles se afastaram rapidamente do carro. Os policiais então fuzilaram Mariguella. Não havia nenhum agente da CIA infiltrado na ALN. Nenhum espião norte-americano. Nada.

Como se não fosse suficiente, Gorender põe a pá de cal sobre a tese do livro de Frei Betto e do filme de Helvécio Ratton, ao se referir a um documento recentemente descoberto: o plano de captura de Mariguella pelo DOPS paulista, cujo primeiro ponto diz o seguinte, textualmente:

"Aguardar entrada Mariguella no carro dos padres; acionar os outros; dar voz de prisão". (p. 199. Grifo meu.)

Gorender conta ainda que ouviu de um dos dominicanos, quando estava preso com este no Presídio Tiradentes, a verdadeira história da morte de Mariguella. No entanto, em 1996, quando estavam sendo discutidas as indenizações às famílias dos mortos e desaparecidos políticos durante o regime militar, o frade misteriosamente voltou atrás, em depoimento perante a Comissão Especial da Câmara dos Deputados criada para essa finalidade. Desde então, os dois dominicanos que estiveram presentes na alameda Casa Branca têm mantido silêncio tumular sobre o episódio, endossando com isso a versão de Frei Betto, que agora se transforma em filme.

Pela análise de Gorender, fica claro que a versão de Frei Betto teve por objetivo não esclarecer a verdade, mas isentar seus irmãos de batina de qualquer culpa pelo ocorrido. De quebra, ainda inventou uma esdrúxula teoria conspiratória, baseada tão-somente em um livro - A CIA e o Culto da Inteligência, dos norte-americanos Victor Marchetti e John D. Marks - que só ligeiramente faz menção a uma suposta infiltração da CIA na ALN, e que já se encontra totalmente desacreditada pela pesquisa criteriosa de Gorender.

A bem da verdade, deve-se reconhecer que o filme de Helvécio Ratton é menos desonesto do que o livro de Frei Betto no qual é inspirado. A tese do agente infiltrado da CIA na ALN, por exemplo, não é encampada pelo filme, pelo menos não abertamente, talvez por ser algo improvável ou absurdo demais, até mesmo para seus realizadores (mesmo assim, em algumas pinceladas, o filme se permite algumas insinuações mais ou menos sutis. Após a morte de Mariguella, por exemplo, os dominicanos presos se perguntam várias vezes, em tom de perplexidade, como a repressão sabia do encontro entre eles e o líder da ALN, se nem eles próprios sabiam que estava programado tal encontro - uma clara falsificação, já que os torturadores, sabedores da ligação dos dominicanos com a ALN, desejavam saber apenas quando e onde seria o próximo encontro dos frades com Mariguella). Mas onde o filme copia ao pé da letra a versão historicamente fictícia do livro de Frei Betto é na cena da morte de Mariguella - no meio da rua, antes de entrar no carro com os dominicanos (versão esta apresentada, também, em recente episódio do programa policialesco Linha Direta, da Rede Globo de Televisão). Poderia ter optado pela reconstrução fidedigna dos fatos, tal como está na obra de Gorender, mas optou pela meia verdade - ou meia falsidade.

Além disso, Batismo de Sangue, o filme, mantém-se fiel ao livro de Frei Betto em outros aspectos importantes - o que, nesse caso, depõe contra sua credibilidade como obra de referência para se entender um período crucial da história nacional. Assim como o livro, o filme se exime de uma visão mais crítica e menos romantizada da opção dos dominicanos pela violência revolucionária, na forma do envolvimento com a ALN, uma delirante organização terrorista apoiada por Cuba, responsável por dezenas de mortes e assaltos a bancos e supermercados. Em nenhum momento de seus 110 minutos, o filme faz qualquer referência às idéias extremistas de Mariguella, que em seus escritos da época chegou a justificar abertamente o terrorismo como forma de luta, tornando-se após sua morte uma espécie de ideólogo do terror, cuja obra mais conhecida, o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, tornou-se referência indispensável para grupos terroristas europeus como as Brigadas Vermelhas italianas e o Baader-Meinhof alemão ocidental. Também não há nenhuma referência crítica, por menor que seja, aos objetivos dos terroristas, que, como bem observaram Daniel Aarão Reis Filho e Elio Gaspari, não tinham nada a ver com democracia, mas com a implantação no Brasil, em última instância, de uma ditadura revolucionária, nos moldes da de Cuba ou da Coréia do Norte.

Tal abordagem maniqueísta acaba prejudicando a composição dos personagens, transformando-os em meros estereótipos em vez de seres de carne e osso. Assim, os dominicanos, estudantes e militantes da luta armada, sem falar no próprio Mariguella, são apresentados como figuras heróicas e idealistas, quase angelicais, enquanto os agentes da repressão, como o delegado Fleury, são interpretados de forma histérica e caricatural. Tudo denota uma clara e indisfarçável simpatia pelos padres-guerrilheiros, armados da Bíblia e de O Capital nas mãos, como na cena, que beira o piegas, em que os dominicanos celebram um arremedo de missa na prisão com suco de uva e biscoitos de maizena.

Como cinema, Batismo de Sangue tem algumas qualidades - as cenas de tortura, por exemplo, são as mais realistas e angustiantes já mostradas em um filme nacional - mas, como registro de um pedaço da história recente do Brasil, está a anos-luz da verdade dos fatos. Algo ainda mais grave diante dos incentivos financeiros à produção recebidos de empresas estatais, como a PETROBRAS e o BNDES, o que significa que o imposto do contribuinte está financiando uma versão falsa de acontecimentos históricos.

A segunda metade do filme, a exemplo do livro, descreve o longo calvário de Frei Tito de Alencar Lima, que enlouquece nas torturas e termina se suicidando no exílio na França. Ao final do filme, porém, fica-se com a impressão de que as vítimas da tortura não foram apenas os presos políticos nas celas do DOPS e do DOI-CODI - A exemplo de outros filmes apologéticos da luta armada e do comunismo, como o chatíssimo Cabra-Cega e o insuportável Olga, a principal vítima, aqui, é a própria História.

HUGO CHÁVEZ, OU O TOTALITARISMO DO SÉCULO XXI*


É triste o destino das esquerdas. Depois de mergulharem de cabeça na ilusão marxista, que intoxicou milhões de corações e mentes no mundo todo após a Revolução de outubro de 1917 na Rússia - tornando-se portanto cúmplices dos milhões de mortos gerados pelo comunismo no século XX -, estas se deixaram enganar por ditaduras como a de Fidel Castro em Cuba e por empulhações como o "pós-modernismo" e outras idiotices semelhantes, que geraram o discurso "politicamente correto". Agora, nossos esquerdistas, órfãos de qualquer referência após a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS, encontraram outro ícone da revolução mundial para idolatrar, outro "líder de novo tipo"(como gosta de dizer o editor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet). Enfim, outro guia genial dos povos, o herói dos fracos e oprimidos. Quem? Ele, o Presidente da República Bolivariana da Venezuela, o Coronel Hugo Rafael Chávez Frías.

Tendo estagiado na Embaixada do Brasil em Caracas de 2004 a 2005, tive a oportunidade de ver de perto a tal "revolução bolivariana" que o Comandante - é assim que ele é chamado por seus seguidores - Hugo Chávez vem implantando na Venezuela. Pude constatar até que ponto vai a manipulação da História e da vida política da nação, em favor de um projeto pessoal e narcisista de poder, chancelado pelo plebiscito de 15/08/2004, que confirmou a permanência de Chávez na presidência da República. Pude verificar, também, o grau de ingenuidade e ignorância (para ser caridoso) com que muitos dos intelectuais brazucas enxergam nosso vizinho problemático. Para se ter uma idéia do que digo, vou contar apenas uma história, que mais parece uma anedota.

Às vésperas do plebiscito que confirmou a permanência de Chávez no Palácio de Miraflores, um grupo de intelectuais brasileiros (dos quais fazia parte, ao lado de figurinhas carimbadas do esquerdismo tupiniquim, nomes como o de Chico Buarque de Holanda, certamente sem nada melhor para fazer no momento) resolveu publicar um manifesto, em que enaltecia a "iniciativa" do Presidente Hugo Chávez de "se submeter, voluntariamente" ao escrutínio popular em um referendo, coisa inédita na história mundial. Desse modo, buscavam apresentá-lo como um governante magnânimo e um verdadeiro democrata, que estaria colocando seu próprio cargo em jogo em favor da livre manifestação da vontade do povo.

Acontece que a tal iniciativa a que o manifesto se referia não partiu de Chávez coisa nenhuma. Partiu, isto sim, da oposição a ele que, utilizando-se de um dispositivo constitucional, durante mais de um ano lutou na Justiça para conseguir validar os milhares de assinaturas que pediam a convocação do plebiscito. Enquanto isso, Chávez e sua tropa de choque fizeram literalmente de tudo para impedir a realização da consulta popular! (E como, mesmo assim, ele se saiu vitorioso? A resposta a esta pergunta deve ser buscada nos estranhos mecanismos que comandaram o processo eleitoral... mas isso é outra história). Assim, os autores do manifesto, ao louvarem a realização do plebiscito, estavam, na realidade, enaltecendo a oposição a Chávez, e não o próprio.

Isso é apenas uma pequena mostra, embora significativa, do nível de confusão e de auto-engano a que se submeteram os defensores do Coronel fora da Venezuela. Dentro do país, por sua vez, o que existe é uma situação de crise permanente, provocada pelo desmoronamento das instituições republicanas, em função da ação de Chávez e de seus asseclas. A Venezuela de hoje, se não é ainda uma ditadura com todas as letras, está muito longe de ser uma democracia. Chávez recebeu carta-branca do Parlamento - controlado por ele - para governar do jeito que quiser, como quiser, e até quando quiser. A clássica separação de poderes, condição sine qua non do Estado de Direito Democrático, há muito deixou de existir. Existem hoje na Venezuela não três, mas cinco - cinco! - poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário, Cidadão e Eleitoral), todos meras fachadas para garantir o poder do "Comandante". Para dar um lustre, digamos, popular à sua ditadura de facto, o coronel venezuelano apela constantemente à máquina política do Estado, mediante a ação de seus seguidores do Movimento Quinta República (MVR) e dos "círculos bolivarianos" espalhados nos bairros pobres, e chama isso de "democracia participativa e protagônica". Pior: tudo isso a serviço de um modelo ideológico falido, uma mistura de nacionalismo, estatismo e militarismo que, à falta de uma definição clara e precisa, foi apelidado pomposamente de "socialismo do século XXI" - na verdade um simples rótulo para classificar o velho populismo e o caudilhismo latino-americanos. É o totalitarismo do século XXI, que não ousa dizer o nome.

Por toda parte a que se vá no país, sente-se um clima de déjà vu, de paródia; respira-se um ar de tapeação, como na célebre frase de Marx sobre a História repetindo-se primeiro como tragédia, depois como farsa. Cartazes com o rosto de Chávez, sozinho ou ao lado de ditadores como Fidel Castro - seu mentor político - ou de heróis nacionais como o onipresente Simón Bolívar são vistos em vários lugares de Caracas, no melhor figurino totalitário, como um Stálin ou um Mussolini tropical. Hábil comunicador, Chávez costuma desfilar seus impropérios contra Bush e o "império" em linguagem de cortiço. Para tanto, ele tem até um programa dominical de TV, no qual anuncia as decisões de seu governo, entre um e outro interminável monólogo contra os EUA, o imperialismo, a globalização etc., para o delírio de claques especialmente selecionadas de perfeitos idiotas latino-americanos.

A utilização da mídia, aliás, tem lugar de destaque na chamada "revolução" chavista. Além da farta propaganda oficial, ultimamente Chávez vem investindo pesado contra as redes e jornais que lhe fazem oposição, mandando fechar, por exemplo, a mais antiga rede de TV do país, acusada por ele de "golpista". Além disso, o governo já baixou um decreto de censura aos meios de comunicação - apelidado de "Lei Mordaça" -, impondo uma série de limites à liberdade de expressão. Em lugar de uma imprensa livre, Chávez resolveu patrocinar, juntamente com a Bolívia, o Brasil, a Argentina e o Uruguai, a criação de um canal de TV chapa-branca, a Telesul, para fazer concorrência, segundo ele, às grandes redes norte-americanas como a CNN e a Fox News e divulgar a "verdadeira" versão dos fatos. Desnecessário dizer que se trata, na verdade, de mais um veículo de propaganda ideológica oficial a serviço do chavismo.

A ASCENSÃO DO CAUDILHO

Mas como um indivíduo tão escancaradamente desqualificado, com um discurso tão anacrônico e intenções claramente autoritárias, para não dizer totalitárias, conseguiu alçar-se à condição de principal fator de instabilidade na América Latina? A resposta para essa indagação, evidentemente, deve ser buscada na trajetória de Chávez, que se confunde com a da própria Venezuela em anos recentes. País rico em petróleo - é o quinto maior produtor mundial do produto -, com uma tradição de quarenta anos de democracia e estabilidade política de 1958 a 1998 (quando, tirando algumas tentativas de guerrilha patrocinadas por Cuba nos anos 60, predominou um sistema na prática bipartidário), a Venezuela era, até meados dos anos 80, uma exceção na América Latina dominada por ditaduras militares e líderes populistas. A "Venezuela saudita", como se dizia então, ostentava alguns dos melhores índices econômicos e sociais do continente, graças à fartura do ouro negro. A vida política, dominada por dois partidos que se alternavam no governo - a AD e a COPEI -, transcorria com previsibilidade e monotonia quase suíças.

Entretanto, como sói acontecer com países que dependem de um único produto de exportação, não foi dada a devida atenção ao desenvolvimento de uma base industrial sólida. Assim, quando o boom do petróleo, que atingiu seu auge nos anos 70, chegou ao fim, o resultado foi uma explosão de descontentamento social. Este se refletiu de maneira trágica no famoso Caracazo de 1989, quando centenas de pessoas morreram em protestos nas ruas da capital contra um aumento do preço da gasolina, durante o segundo governo de Carlos Andrés Pérez (1989-1992).

Com os partidos e os políticos tradicionais desacreditados, estavam criadas as condições para o surgimento de líderes demagógicos e de um salvador da pátria. Este veio, finalmente, da única instituição que ainda não era considerada contaminada pelo descrédito e pela corrupção reinantes, as Forças Armadas, na forma de uma tentativa sangrenta de golpe militar, em fevereiro de 1992 (seguida de outra, igualmente sangrenta, alguns meses depois). À frente dessa primeira intentona putschista, estava um até então desconhecido tenente-coronel do Exército, vindo de um lugar obscuro no interior. Seu nome: Hugo Chávez.

Desde então, Chávez apenas colheu os frutos do esfacelamento do sistema político venezuelano, à medida que a crise econômica e social se agravava. Precisava apenas de um referencial histórico (Bolívar, certamente se revirando no túmulo) e de um suporte ideológico. Este veio, finalmente, de outro regime cambaleante, o de Fidel Castro em Cuba, com quem Chávez foi buscar conselhos e inspiração logo após sair da prisão, em 1994. Ao contrário do moribundo regime democrático de Caracas, porém, o de Fidel Castro tinha algo a oferecer ao recém-libertado coronel golpista venezuelano: uma fórmula para conquistar e - principalmente - manter o poder, um projeto político de caráter ditatorial - e os meios para isso.

Outra fonte de inspiração, menos conhecida, para as parlapatices chavistas foram os escritos de Norberto Ceresole, idéologo fascista argentino, já falecido, que entre suas façanhas contava a de ter assessorado a ditadura militar do general Viola na Argentina nos anos 70, e para o qual a derrota das forças de Hitler e Mussolini na 2a Guerra "foi uma tragédia para a América Latina". De Ceresole - que foi mesmo, ao lado do ditador de Cuba, o guru de Chávez nos anos que se seguiram à sua soltura da prisão -, o coronel venezuelano aproveitou a tese do "Exército-Caudilho-Povo", segundo a qual estas três forças juntas deveriam constituir a base da "revolução" pretendida - ou seja, uma mistura de militarismo, caudilhismo e populismo, com uma pitada de fascismo e de anti-semitismo. Dele extraiu também o antiamericanismo visceral, base da idéia de criar um eixo latino-americano de oposição aos EUA - usando, para tanto, a arma do petróleo. Daí os modelos políticos adotados por Chávez serem todos ditaduras - a de Fidel Castro em Cuba, a de Velasco Alvarado no Peru, a do coronel Muamar Kadafi na Líbia etc -, o que faz dele um personagem que está muito mais para Mussolini do que para Marx. Ao que parece, a multidão de idiotas úteis esquerdistas que ora idolatra o histrião de Caracas desconhece esse detalhe ou, então, prefere ignorá-lo.

Chávez não perdeu tempo. Ancorado no partido por ele criado, o MVR, e em sua crescente popularidade, principalmente - mas não exclusivamente - entre os setores mais pobres da população, foi fácil para ele chegar à presidência, em 1998. Na ocasião, ele tinha um discurso anódino, certamente inspirado na experiência de Fidel Castro em Cuba antes de impor sua ditadura, quando este jurava de pés juntos que era um democrata e anticomunista. Assim que botou os pés no palácio presidencial, porém, Chávez deu início a seu plano autoritário. O primeiro passo foi convocar uma Assembléia Constituinte para estabelecer uma nova Constituição, que lhe deu poderes ampliados. Em seguida, a composição do Supremo Tribunal também foi modificada, com a nomeação de juízes sintonizados com o novo governante. E, como que para marcar definitivamente uma ruptura com o passado, mudou-se o nome oficial do país, agora rebatizado de República Bolivariana da Venezuela (algo tão significativo quanto rebatizar o Brasil de República Tiradentina ou coisa que o valha). Com isso, o novo Presidente tratou de consolidar seu poder, sobretudo após os acontecimentos de abril de 2002, quando chegou a ser deposto (ou renunciou, não se sabe) por dois dias, antes de ser reconduzido ao governo por obra dos mesmos militares que o haviam apeado do cargo, em um episódio ainda hoje não esclarecido - e cuja versão oficial, claro, vem sendo desde então explorada ad nauseam pelo governo para fins de propaganda.

Ao mesmo tempo em que montava o aparato institucional necessário à sua perpetuação no poder, o "Comandante" tratou de ampliar sua base de sustentação política entre as camadas mais desfavorecidas da sociedade, mediante as chamadas misiones - programas improvisados de cunho assistencialista, como a Misión Robinson (de alfabetização) e a Misión Barrio Adentro (saúde), ambas levadas a cabo, respectivamente, por professores e médicos cubanos. Como em política não há vácuo, as comunidades assistidas por esses programas, agradecidas, passaram a fornecer o grosso da militância chavista, e tais programas, a despeito de sua eficiência bastante duvidosa, tornaram-se um importante instrumento para garantir a lealdade política ao chavismo: aqueles que assinaram a petição a favor do referendo contra Chávez, por exemplo, tiveram seus nomes incluídos numa lista e ficam de fora dos supostos ou reais benefícios desses programas. Como se vê, uma democracia verdadeiramente "participativa e protagônica".

OS BONS COMPANHEIROS

De todos os regimes com os quais o coronel venezuelano se identifica, o principal é a ditadura comunista de Fidel Castro em Cuba. A "revolução" de Chávez, aliás, não seria possível se não fosse pela candura e condescendência com que até hoje é tratada por muitos governos da região a ditadura castrista. É dela que Chávez retira a inspiração diária para impor sua ditadura pessoal, acumulando poderes, calando a oposição, estabelecendo aos poucos seu próprio culto à personalidade.

É patente a influência cubana nas medidas adotadas pelo regime de Chávez. Um exemplo: em 2005, os governos de Caracas e de Havana assinaram um acordo de cooperação policial que praticamente concede a agentes cubanos o privilégio da extraterritorialidade, ao permitir-lhes deter qualquer pessoa de nacionalidade cubana que viva na Venezuela e extraditá-la para Cuba, por delitos só existentes na legislação cubana (por exemplo: falar mal de Fidel Castro). Como a Venezuela tem uma população de exilados cubanos relativamente grande, tal medida tem um caráter claramente unilateral.

Também no terreno econômico o Comandante venezuelano parece ter buscado inspiração na ilha do Caribe: de 1999 para cá, o PIB da Venezuela vem despencando ladeira abaixo, o nível de vida da população só caiu, e os índices de criminalidade e de inflação crescem sem parar. (Exemplo quase cômico do descalabro do país sob Chávez foi a queda do viaduto que liga o aeroporto de Caracas à capital. É quase uma metáfora da situação do país desde que ele assumiu o poder). Mesmo assim, a Venezuela veio em socorro à ditadura cubana, tendo assumido hoje o papel que um dia já foi da ex-URSS, na forma de 100 mil barris diários de petróleo fornecidos praticamente de graça à ilha, em troca dos tais professores e médicos para as misiones.

Em todas as suas ações, é clara a intenção de Chávez de fazer da Venezuela uma cópia xerox de Cuba, assim como, em épocas passadas, Fidel Castro tentou transformar Cuba em um papel carbono da ex-URSS. Em consonância com esse fim, Chávez já anunciou, de uma penada, uma reforma agrária tão pirotécnica quanto fajuta e a criação de uma nova doutrina militar, baseada no conceito de "guerra assimétrica" - recentemente, ele comprou um lote de caças supersônicos russos e instalou uma fábrica de fuzis AK-103 no país. Além disso, ele já anunciou sua intenção de formar uma milícia com 2 milhões de cidadãos armados. Para quê? Para resistir à "invasão imperialista ianque", claro, no que fica evidente mais uma vez a inspiração cubana (assim como seu ídolo Fidel, Chávez não cansa de denunciar conspirações dos EUA e da CIA para invadir o país e assassiná-lo, o que demonstra uma clara tendência paranóica-esquizóide). Inclusive os famigerados "Comitês de Defesa da Revolução" (CDRs) - cuja função é espionar a vida dos indivíduos em cada quarteirão de Cuba para garantir a fidelidade ao regime - ele vem emulando, criando suas próprias "Unidades de Defesa da Revolução" (UDRs).

Esse outro traço comum com o regime comunista cubano, a militarização da sociedade, caminha de mãos dadas com a exportação da "revolução bolivariana". Assim como Fidel Castro tentou exportar sua revolução, apoiando abertamente grupos guerrilheiros e subversivos na América Latina nos anos 60 - e não só contra regimes ditatoriais, como se tornou um lugar-comum afirmar desde então -, Chávez vem usando os petrodólares para interferir nos países da região e promover a instabilidade no continente. Nos últimos anos, utilizando o dinheiro advindo dos lucros do petróleo, Chávez imiscuiu-se descaradamente nos assuntos internos de vários países vizinhos, tendo apoiado, por exemplo, uma tentativa de golpe militar no Peru em 2005 e comprado briga com o Chile, ao declarar que adoraria molhar os pés "no mar da Bolívia". Chávez já entrou em bate-bocas públicos com os presidentes da Colômbia (Álvaro Uribe), do Peru (Alan García) e do México (o ex Vicente Fox), além de ter sido, como sabemos, o verdadeiro cérebro por trás da decisão recente do governo de Evo Morales de encampar as refinarias da PETROBRAS na Bolívia. Suas fanfarronices já começaram a fazer escola, tendo surgido êmulos seus na Bolívia (Evo Morales) e Equador (Rafael Correa), todos regiamente apoiados pelos petrodólares bolivarianos, generosamente depositados em seus cofres de campanha. Pelo visto, a defesa da soberania nacional, no jargão chavista, vale apenas para criticar os EUA.

Se a chamada "revolução" de Chávez se limitasse à Venezuela, talvez seu governo não passasse de uma excentricidade, um exotismo inofensivo, colorido pelo caráter folclórico de seu líder. Certamente, esta é a visão de muitos no Brasil, que o vêem como um paladino do orgulho terceiromundista ou que, pelo menos, divertem-se com suas palhaçadas. No entanto, por suas próprias características, o regime chavista só pode sobreviver estendendo seus tentáculos aos países vizinhos. Chávez não faz segredo de suas intenções expansionistas, baseadas na idéia megalomaníaca de recriar o sonho de Bolívar. Seu objetivo, na verdade sua obsessão, é a formação de um eixo latino-americano, que, além da Venezuela, já abrangeria Cuba, Bolívia, Equador, Argentina e Nicarágua, além de, relutantemente, Brasil e Uruguai, com ele, Chávez, obviamente como guia e líder. A finalidade de tal eixo político é uma só: enfrentar os EUA. Para tanto, Chávez comemorou a não-implementação da ALCA - o que ele se vangloria de ser um de seus maiores triunfos -, propondo, em lugar desta, uma certa "Alternativa Bolivariana das Américas" (ALBA), e conseguiu, com a complacência do governo brasileiro, transformar o MERCOSUL num palco para suas arengas antiamericanas.

Nesse quesito, aliás, ele perde para poucos, fazendo questão de aparecer como o campeão do antiamericanismo no continente. Basta dizer que ele já chegou a afirmar que a Secretária de Estado norte-americana Condoleeza Rice é apaixonada por ele, e, num célebre discurso na Assembléia Geral da ONU - o palco por excelência de todos os déspostas e carniceiros do mundo, de Yasser Arafat a Idi Amim - chamou o Presidente George W. Bush de "diabo", em um gesto teatralmente ensaiado. Chávez fez questão de ser o último governante a visitar Saddam Hussein antes de sua queda pela invasão anglo-americana de 2003, e foi um dos poucos a defender os testes nucleares norte-coreanos ano passado. Entre seus amigos, figura um louco, o Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e o venezuelano Illich Ramírez Sánchez, mais conhecido como "Carlos, o Chacal", antiga estrela do terrorismo internacional, atualmente preso e condenado à prisão perpétua na França, que compartilha com Chávez o gosto narcísico pela publicidade e com quem costuma trocar calorosas mensagens de fim de ano. Como se não bastasse, ele tomou de assalto o Fórum Social Mundial, transformando-o num palanque para destilar suas platitudes anti-EUA, e muita gente no Brasil acha o máximo.

O antiamericanismo de Chávez provoca às vezes situações esdrúxulas. Até pouco tempo atrás, por exemplo, o governo da Venezuela era um firme defensor da pesquisa e produção de combustíveis alternativos, como o etanol. Bastou que Bush se interessasse pela idéia, realizando uma visita ao Brasil em março passado, e o mandatário venezuelano mudou radicalmente seu discurso. Para tanto, valeu-se de seu amigão do peito Fidel Castro, que, do leito de morte, publicou um artigo no jornal oficial cubano condenando o etanol, pois este iria "provocar mais fome no mundo"...

Tudo isso torna imperativo não se deixar iludir pela retórica chavista, falsamente integracionista. Tudo que Chávez faz ou diz, todas as suas iniciativas de "integração" com os países vizinhos, seja no terreno econômico ou energético, obedecem tão-somente a um cálculo político, são um instrumento a serviço de seu projeto populista de poder continental. Governar, para ele, é polemizar, é buscar o confronto: com os EUA, com a oposição interna, com quem quer que se coloque no caminho de seu objetivo narcisista de poder absoluto e de liderança continental. Contemporizar, aqui, significa apenas reforçar as ambições de um dirigente autoritário e megalomaníaco, que em nada favorecem a integração latino-americana. Muito pelo contrário.

RUMO À DITADURA

Este é um fato a que alguns governos sul-americanos, como o do Brasil, infelizmente ainda parecem não terem se dado conta. O governo Lula insiste em tratar Chávez, assim como Morales na Bolívia, como um amigo e aliado (Chávez é um "aliado excepcional", declarou recentemente Lula), quando este já deu mostras mais que suficientes de seu caráter funesto e pernicioso. Isso mostra que Chávez, além de tudo, é um político de sorte: para construir sua base de poder, ele contou não apenas com sua própria esperteza e com a incompetência e mediocridade da oposição venezuelana - até hoje incapaz de apresentar uma alternativa viável ao Coronel -, mas também com a cumplicidade dos governos dos países vizinhos, que insistem em fechar os olhos ou em minimizar a ameaça que ele representa para o continente.

A Venezuela caminha para a ditadura. Não há dúvida quanto a isso. No início do ano, a Assembléia Nacional venezuelana, composta por 100% de deputados favoráveis a Chávez, concedeu-lhe poderes ditatoriais, e outra lei permitiu-lhe reeleger-se indefinidamente, quantas vezes quiser (ele já declarou para quem quiser ouvir que pretende ficar no poder, pelo menos, até 2030). É verdade que, na Venezuela atual, ainda não há fuzilamentos nem presos políticos em campos de concentração, ao contrário da ilha de Cuba ou da Coréia do Norte. Também é verdade que, diferentemente desses países, a imprensa, apesar das restrições crescentes à liberdade de expressão, ainda funciona livremente. Ainda. Pois, a julgar pelo andar da carruagem, é só uma questão de tempo até que o Coronel repita o gesto de seu mestre e mentor Fidel Castro, e, empoleirado no poder, proclame aos quatro ventos, com a cara mais lavada do mundo: "Eleições? Eleições para quê?". Se algo não for feito, tal dia, cedo ou tarde, vai chegar. Podem apostar.

Há muito de bufonaria e de chanchada, de caricatura, na tal "revolução" de Chávez e no "socialismo" por ele preconizado. Todavia, é um erro não lhe dar a devida atenção. Chávez certamente é um demagogo, um palhaço e um político primitivo em suas palavras e ações, mas está longe de ser inofensivo. Com seus petrodólares abundantes, suas incursões na política dos países vizinhos e suas armas recém-adquiridas, ele é um perigo para a saúde da democracia na América Latina.

Que o povão da Venezuela, há muito abandonado pelas elites do país, enxergue em Chávez uma espécie de Messias ou um herói vingador, assim como o povo alemão via Hitler na década de 20 como um redentor da nação humilhada e empobrecida, é algo até compreensível. Que tantas pessoas tidas por inteligentes, porém, deixem-se voluntariamente cair em mais esse conto-do-vigário, prestando-se ao papel de porta-vozes do fanfarrão de Caracas e de sua "revolução bolivariana", é um desses mistérios insondáveis da humanidade, que apenas comprovam aquilo que Raymond Aron chamou de "ópio dos intelectuais" e Jean-François Revel, de "tentação totalitária". É algo que desafia a razão, parecendo provar que uma certa categoria de seres humanos sente-se irremediavelmente atraída por políticos histriônicos e demagogos, que usam e abusam da retórica vazia e de gestos teatrais para atingir seus objetivos personalistas. Na América Latina, nos últimos cem anos, tivemos uma safra bastante prolífica desses tipos: Perón na Argentina, Vargas e Lula no Brasil, Fidel Castro em Cuba... Com a diferença de que estes, pelo menos, eram/são grandes atores. Ao contrário de Chávez, um deslavado canastrão. Mas atores canastrões, assim como os cantores bregas, sempre terão um público cativo. E, como este, os admiradores de Chávez, Fidel Castro, Morales et caterva são atraídos não pela qualidade do espetáculo, mas por sua escrachada histrionice, por seu caráter farsesco e absurdo. É triste, muito triste mesmo o destino das esquerdas.


* Texto publicado originalmente em 27/04/2007, e republicado por motivos de melhor editoração.

sábado, maio 05, 2007

MANGABEIRA UNGER, O PROFESSOR ALOPRADO*


Ex-brizolista, ex-mentor de Ciro Gomes e professor de Direito na Universidade Harvard, Roberto Mangabeira Unger é um dos intelectuais mais esquisitos que já apareceram debaixo do Equador. Com cara enfezada de poucos amigos, discurso pernóstico e um estranhíssimo sotaque gringo (embora seja brasileiro), ele era até há pouco tempo um dos críticos mais ferozes do governo petista. Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 15/11/2005, sob o título "Pôr fim ao governo Lula", o professor Mangabeira Unger escreveu o seguinte:

"AFIRMO que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.

Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. (...) Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas.(...)

Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou. (...)"

Poucos dias atrás, o autor das linhas reproduzidas acima, o mesmo Roberto Mangabeira Unger que queria o impedimento de Lula, recebeu um convite para integrar o governo, como titular da recém-criada "Secretaria Especial de Ações a Longo Prazo" – já jocosamente apelidada de SEALOPRA –, com status de Ministro de Estado. Mangabeira Unger aceitou o convite na hora. Pouco depois, como que por encanto, seu artigo desapareceu de sua página de internet.

Qual a causa de tão súbita e radical transformação, verdadeiro giro de 180 graus? A resposta última para essa pergunta, claro, só pode ser encontrada na mente misteriosa desse estranho personagem. Uma coisa, porém, é certa: ao se lançar tão açodadamente para apanhar o rosbife atirado pelo governo que antes execrava com tanto furor, Mangabeira Unger provou pelo próprio exemplo pessoal aquilo que denunciava tão ferozmente em seu artigo de 2005: que o governo Lula é, de fato, o mais corrupto da história nacional, integrado por oportunistas e desonestos de todo tipo. Por isso, resolvi escrever o texto a seguir em sua homenagem:

AFIRMO que Mangabeira Unger aderiu ao governo mais corrupto de nossa história nacional. Adesão tanto mais nefasta por demonstrar a falta de honestidade, o oportunismo e a avacalhação de um intelectual que se pretendia sério e respeitado, mas que, no final, mostrou sua verdadeira face, abraçando aquilo que antes esconjurava em troca de uma parcela de poder.

Afirmo que, no artigo que publicou em 15/11/2005, no qual defendia o
impeachment de Lula, Mangabeira Unger não estava sendo sincero e que ele jogou no lixo todos seus anos de ensino e todos os livros que escreveu. De agora em diante, tudo que ele vier a dizer ou escrever não merece ser levado a sério.

Afirmo que Mangabeira Unger é um dos intelectuais mais desonestos que já apareceram no Brasil, o que não é coisa fácil, sendo capaz de sacrificar a própria reputação para usufruir as vantagens e benesses do poder.

Afirmo que Mangabeira Unger, ao deixar-se cooptar pelo lulismo, comprometeu-se para sempre com um presidente que, como ele mesmo afirmou, desde o primeiro dia de seu mandato desrespeitou as instituições republicanas.

Afirmo que Mangabeira Unger e seu partido, o PRB, não passam de instrumentos da avacalhação geral que tomou conta do país desde que o lulismo chegou ao poder.

Afirmo que, ao rejeitar tão descaradamente o que escreveu, Mangabeira Unger revelou-se não apenas desonesto e oportunista, mas leviano. Ele se mostrou o maior dos lulistas, pois segue à risca os ensinamentos do apedeuta, que confessou ter vivido de bravatas até sua chegada ao poder.

Afirmo que Mangabeira Unger deve desculpas não a Lula, por tê-lo definido, corretamente aliás, como um governante omisso e preguiçoso, mas ao povo brasileiro, que ele, Mangabeira Unger, tão desavergonhadamente enganou.

Afirmo que Mangabeira Unger, ao retirar seu artigo com ataques a Lula de sua página na internet, revelou não apenas oportunismo, mas covardia intelectual, repetindo o método stalinista de tentar "reescrever" a história, simplesmente fazendo desaparecer dos registros oficiais imagens ou textos considerados inconvenientes (infelizmente para ele, hoje existe a internet).

Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, no coração dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo - e do qual Mangabeira Unger aceitou fazer parte, como mais um de seus aloprados.

Afirmo que, menos de dois anos depois de seu artigo na
Folha de S. Paulo, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de Mangabeira Unger de querer engabelar a todos novamente, tentando justificar sua adesão aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas, apelando para lugares-comuns como "a situação mudou" e "Lula não teve nada a ver com a crise". Tais alegações são um insulto à inteligência, um atentado contra a razão.

É coisa, enfim, de um verdadeiro aloprado.


P.S.: Se quiserem ler a íntegra do artigo de 15/11/2005 de Mangabeira Unger, acessem o site http://www.estadaocom.br/ultimas/nacional/noticias/2007/abr/24/347.htm.



* Texto publicado neste blog originalmente em 27/04/2007, e republicado por motivos de melhor editoração.

quarta-feira, abril 25, 2007

UM DITADOR INIMPUTÁVEL


Escrevi o texto a seguir em um momento de particular indignação, dois anos atrás. O tempo passou, e a situação que descrevo no texto não mudou em nada. A indignação também não. Leiam e digam o que acham.
---

"A única coisa necessária para que o mal triunfe é que os homens de bem não façam nada" (Edmund Burke).

É um consenso internacional, consagrado em diversos tratados e convenções, que a democracia é um valor universal. Como universal é também a concepção de que as relações entre os Estados, além de pautarem-se pelos princípios de autodeterminação e de não-intervenção nos assuntos internos um do outro, não podem ser indiferentes ao caráter democrático ou não de cada regime político. Estes são princípios aceitos internacionalmente, inscritos nas Cartas da ONU e da OEA, e aos quais ninguém, se não quiser passar por simpatizante de tiranias, faz objeção.

Do mesmo modo, é um fato inegável que a maioria dos Estados da América Latina e do Hemisfério ocidental são democracias. Inegável também é – menos, talvez, para seus defensores mais fanáticos – que a ilha de Cuba constitui, nesse contexto, uma exceção.

Ninguém ignora que em Cuba vigora há quase meio século uma ditadura de partido único, sem possibilidade de alternância no poder. Lá não se respeita nenhuma das liberdades democráticas fundamentais – de expressão, de reunião, de associação –, bem como os direitos humanos dos que se atrevem a discordar do regime. É um Estado policial, uma ditadura totalitária com culto à personalidade do Líder, como o era a URSS de Stálin e Brejnev e o Iraque sob Saddam Hussein, e como ainda são a China e a Coréia do Norte. Disso não resta qualquer dúvida, como bem demonstram a observação impacial e a leitura de livros de autores cubanos exilados como Reinaldo Arenas, Guillermo Cabrera Infante, Norberto Fuentes e Carlos Alberto Montaner, entre outros, que revelam o frio cotidiano sob a opressão do castrismo. Como demonstram esses autores, há somente duas liberdades garantidas pelo Estado cubano: a de criticar os EUA e a de elogiar o Governo. Este, por sua vez, está democraticamente aberto ao monólogo.

Visto isso, seria de presumir-se que os governos dos países democráticos buscassem influir para a democratização de Cuba, fazendo gestões nesse sentido nos organismos e foros internacionais. No entanto, não é assim que procedem várias entidades e governos democráticos, como a União Européia (UE) e o Governo do Brasil. A condenação, em nível teórico, da ditadura e do totalitarismo não se reflete em medidas concretas no plano da realidade. O resultado é a eternização de uma ditadura pessoal e sanguinária, com a bênção desses governos.

A IDÉIA E A REALIDADE

A prova mais recente dessa contradição essencial entre a proclamação dos princípios democráticos no plano das idéias abstratas e os esforços práticos para implementá-los no caso de Cuba foi a decisão da UE, acompanhando a mudança de posição do Governo espanhol de Rodríguez Zapatero em relação ao Governo anterior, de levantar, em fins de 2004, as sanções decretadas contra o regime de Fidel Castro em março de 2003. Naquela ocasião, o ditador cubano mandou fuzilar três pessoas que haviam seqüestrado uma balsa em uma tentativa desesperada de fugir do paraíso socialista do Caribe e aproveitou para meter na cadeia, de cambulhada, 78 dissidentes políticos sob a acusação padrão a todos os que lutam pela liberdade na ilha: espiões dos EUA. Por mais brutal que tenha sido essa onda repressiva, é apenas uma pequena fração do total de sofrimento, morte e medo gerados pelo tirano do Caribe. Diante de mais essa violência contra os direitos humanos na ilha-prisão, a UE decidiu agir, à época, em defesa da democracia, enquanto o Brasil, mantendo-se fiel ao dogma auto-imposto de opor-se à "politização" da questão, preferiu agir como sempre fez, abstendo-se de condenar o regime de Havana na Comissão da ONU para os Direitos Humanos. Em 14 de abril de 2005, o Brasil repetiu essa atitude, ao lado de mais 18 países, entre os 53 que formam parte da referida comissão.

A postura adotada pela UE (que abandonou sua decisão de 2003) e pelo Brasil no tocante à tirania castrista é uma dessas atitudes que desafiam a lógica mais elementar do bom senso nas relações internacionais. A justificativa apresentada para o tratamento diferenciado de Cuba – de fato, um tratamento VIP – baseia-se na alegação de que o contato e o convívio da ilha com os governos democráticos irá trazer inexoravelmente o país para o seio da democracia. Tal idéia, aparentemente bem-intencionada, está baseada na interpretação corrente de que Cuba se tornou um Estado totalitário devido às pressões e ao isolamento imposto à ilha pelo Governo dos EUA, após a ascensão de Fidel Castro ao poder, no longínquo ano de 1959. Uma vez encerrado esse isolamento, Cuba voltaria a ser um membro da família democrática continental. Ambas as idéias são falsas.

A ILUSÃO DO CONVÍVIO DEMOCRÁTICO

Em primeiro lugar, a crença piedosa de que o regime comunista cubano irá abrir-se devido ao convívio com as democracias é um equívoco decorrente ou da ignorância em relação à História ou de má fé ideológica. O que Cuba importa dos países com os quais mantém relações não são as idéias de democracia e eleições livres, mas os produtos que garantem a sustentabilidade do regime e, de quebra, ajudam a manter a boa vida dos dirigentes (ver, por exemplo, recente reportagem da revista Forbes sobre a fortuna pessoal de Fidel Castro). Ademais, esse convívio já existe de longa data – desde 1975, pelo menos, TODOS os países latino-americanos, além do Canadá e de vários na Europa ocidental (inclusive a Espanha desde a época da ditadura franquista), estabeleceram e mantêm relações com Cuba – e, mesmo assim, isso não produziu nenhum avanço significativo no campo da democracia e dos direitos humanos na ilha.

A política da UE e das demais democracias ocidentais em relação à Cuba só faria algum sentido se, à abertura no campo diplomático e comercial correspondesse algum sinal de abertura política no campo interno. Mas não é isso o que acontece. Nos últimos anos, o regime de Fidel Castro vem mantendo a repressão e a perseguição a seus opositores internos, não deixando qualquer esperança de democratização à vista. As prisões ou o paredón continuam a ser o destino dos adversários do regime, como os pacíficos militantes liderados por Oswaldo Payá e pelo poeta Raúl Rivero, que vêm há anos pedindo, quixotescamente, que se realizem eleições democráticas no país. Em outras palavras, o ditador cubano apenas se fechou ainda mais para o mundo, ao passo que este, apesar disso, insiste em se abrir para a ditadura castrista, tratando-a a pão-de-ló. O que torna a política das democracias no tocante a Cuba unilateral e não-recíproca, para não dizer enviesada ideologicamente.

Essa teoria, segundo a qual Cuba se converteria à democracia por osmose, foi totalmente desacreditada pela realidade. Após o fim de seu patrono, a URSS, em 1991, é apenas a repressão interna e a cumplicidade dos governos democráticos, aliadas ao incondicional apoio de intelectuais saudosos do stalinismo, o que explica a perpetuação do totalitarismo cubano. A respeito desses últimos, o aval a Fidel Castro há muito já ultrapassou a linha do racional, pertencendo, hoje, ao reino do insondável. O Nobel português José Saramago, após romper publicamente com o regime de Cuba após os fuzilamentos e detenções de 2003, "descobrindo", somente então, que a ilha é uma ditadura, não conseguiu ficar mais do que dois anos longe de seus velhos companheiros de utopia, abjurando sua abjuração anterior. O regime castrista sempre contou com um poderoso lobby de intelectuais (como Saramago e o também Nobel colombiano Gabriel García Márquez) e de pseudo-intelectuais (como Frei Betto e Eduardo Galeano), extremamente zelosos quanto à defesa da democracia em seus países, enquanto se especializaram em defender e justificar a ditadura cubana com unhas e dentes.

Outro detalhe, em geral esquecido pelos defensores da abertura unilateral e não-recíproca a Cuba, é fornecido pela História. Até onde se sabe, nenhum regime comunista caiu, até hoje, devido à uma política mais complacente por parte das democracias. Muito pelo contrário: foi justamente quando os países ocidentais, encabeçados pelos EUA, resolveram endurecer sua posição no tocante à URSS e a seus satélites comunistas da Cortina de Ferro, no início da década de 80, que esses regimes começaram a mostrar sinais de esgotamento, culminando em seu colapso total em 1989-1991. Quando, ao contrário, o Ocidente decidiu-se por uma política mais branda para com o bloco comunista, como na distensão internacional ("détente") dos anos 1962-1980 e durante os acordos de Yalta em 1945, ocorreu precisamente o inverso, ou seja, o comunismo se expandiu com força renovada no mundo, atingindo amplas regiões na Europa oriental, Ásia, África e Oriente Médio. Por razão semelhante, não há como traçar um paralelo entre os efeitos da visita do Papa João Paulo II a Cuba, em 1998, e as que ele fez à Polônia a partir de 1979: ao contrário da Polônia de então, Cuba não estava nem está acossada interna ou externamente, com a oposição não nas ruas, mas atrás das grades ou sob forte vigilância policial. Nessas circunstâncias, a visita histórica do Santo Padre à ilha comunista teve o condão de ajudar a fortalecer ainda mais a ditadura local, com as bênçãos da Santa Madre Igreja Católica.

Também é uma ilusão supor que o incremento do comércio e mesmo das relações capitalistas na ilha irá conduzir à democracia. Se é correto que uma economia de mercado, para florescer livremente, pressupõe a existência de instituições democráticas sólidas, regimes tirânicos podem perfeitamente conviver e se beneficiar de um certo grau de liberdade econômica, desde que isso não ponha em risco os privilégios da elite no poder. É o que ocorre atualmente na China, por exemplo, e é o que também ocorre em Cuba. Acima de tudo, só há uma maneira de lidar com ditaduras como a de Fidel Castro: pressionar pela liberalização do regime, condicionar a abertura diplomática e comercial a reformas políticas efetivas. Exatamente o que não se vê hoje em Cuba.

Logo, é falsa a alegação de que Fidel Castro permitirá eleições livres e se converterá em um democrata porque os demais países resolveram fechar os olhos para o caráter totalitário do regime que ele lidera. A História do século XX demonstra que regimes totalitários são irreversíveis; ou seja: uma vez instalados, não podem ser reformados, melhorados ou "humanizados" (os exemplos da Hungria em 1956 e da Tchecoslováquia em 1968 estão aí para quem quiser ver). Exatamente por ser totalitário, como afirmou Jean-François Revel, o regime cubano só tem dois caminhos a seguir: ou se perpetua ou cai. E não será com afagos e aberturas diplomáticas da comunidade internacional que ele cairá.

"A CULPA É DO BLOQUEIO"

Em segundo lugar, quanto à tese de que Cuba foi "empurrada" para o totalitarismo comunista devido à pérfida ação dos EUA, que a teriam isolado dos demais países americanos, esta também não resiste a uma crítica séria. Ao contrário do que repete Fidel Castro, que responsabiliza o "bloqueio" norte-americano pela manutenção de sua ditadura pessoal, condicionando a retirada deste à concessão de qualquer reforma interna, a existência ou não de tal bloqueio é irrelevante para a eternização do regime castrista. Por um motivo muito simples: não existe bloqueio algum. O que há, isto sim, é um embargo norte-americano ao comércio com a ilha, ou seja, a proibição a empresas norte-americanas de comerciar com Cuba, o que só prejudica os empresários dos EUA que querem vender seus produtos à ilha, e que não a impede de ter um comércio bastante ativo com todos os demais países. Como já vimos, Cuba mantém relações diplomáticas e comerciais plenas e normais com a maioria dos Estados, logo está muito longe de ser um país isolado, e isso não a faz avançar um milímetro em direção à democracia. Apesar disso, o ditador cubano continua a usar o suposto bloqueio como uma desculpa para o retumbante fracasso de seu modelo stalinista.
.
Na realidade, a idéia do "bloqueio", assim como a tese da conversão de Cuba ao marxismo-leninismo como o resultado do "isolamento" imposto pelos EUA desde 1960, é mais um dos mitos criados pela ditadura castrista, assim como o foi a teoria do "foco" guerrilheiro, baseada na falsa premissa de que a Revolução Cubana "surgiu do zero, do nada", a partir da ação heróica de um punhado de homens e seus fuzis, a qual já foi totalmente desmentida pelos fatos. O próprio Fidel Castro, aliás, gabando-se de sua esperteza, já admitiu que tinha uma concepção socialista e marxista-leninista antes mesmo de tomar o poder, e que as pressões dos EUA não foram o fator responsável por sua decisão, pessoal e intransferível, de transformar Cuba em um Estado comunista e em um porta-aviões soviético nas Américas (quem tiver alguma dúvida, que leia as entrevistas do próprio Fidel Castro a Roberto D´Ávila e Frei Betto, ambas em 1985, em que ele confessa isso desavergonhadamente).

Uma boa analogia a ser aplicada ao caso de Cuba é com a África do Sul sob o regime racista do apartheid. Claro, os incondicionais da ditadura castrista jamais vão admitir, mas a comparação demonstra claramente o viés ideológico da atitude complacente adotada para com o regime cubano. Não faz muito tempo, o Governo de Pretória, por sua política racista e segregacionista em relação à maioria negra, era um pária internacional. Sucessivas resoluções da ONU o condenaram por violações aos direitos humanos e à democracia, impondo uma série de sanções e exigindo, em troca da retirada destas, a plena garantia das liberdades para a população nativa. Até mesmo no campo esportivo a África do Sul foi alvo de um boicote. Finalmente, após anos de condenações internacionais, o regime do apartheid, encurralado, chegou ao fim. Pois bem: qual a razão de adotar uma atitude para a África do Sul, que era uma violadora contumaz dos direitos humanos, e outra, completamente diferente, para Cuba? Qual a razão desse duplo padrão? O Governo racista sul-africano não poderia alegar, com base nos argumentos dos que defendem a não-condenação de Cuba na Comissão de Direitos Humanos da ONU, que estaria sendo vítima de uma tentativa de "politização" da questão, e assim justificar a opressão da minoria branca sobre a maioria negra? Imaginem a onda de indignação que se levantaria no mundo inteiro diante de tão cínica e escrachada alegação! Por que, então, isso não se repete quando o acusado é Cuba? Recai sobre os que apóiam a omissão em condenar as violações dos direitos humanos pelo regime de Fidel Castro o ônus de responder essa questão.

Na verdade, a "politização" da questão cubana não advém de quem quer ver Cuba transformada em uma democracia, mas, pelo contrário, de quem se opõe a qualquer atitude mais firme nesse sentido. Não é preciso ser americanófilo ou membro da extrema-direita do Partido Republicano dos EUA para reconhecer que Cuba é uma ditadura. É um fato, que não tem nada a ver com qualquer "politização". Entretanto, toda crítica ao regime de Fidel Castro é imediatamente rotulada, por uma visão histérica e paranóica, como "propaganda a serviço dos EUA e do imperialismo", "falsificações de agentes da CIA" etc. Cobriu-se o regime cubano com um véu de condescendência e de impunibilidade que nunca foi concedido a nenhum outro Governo, em um favorecimento que só pode ser entendido como intenção deliberada de justificar e enaltecer a ditadura castrista. Com medo de parecer "pró-EUA", países como o Brasil decidiram fechar os olhos para as violações aos direitos humanos e a falta de democracia em Cuba.

EM DEFESA DAS TIRANIAS

Os defensores do não-isolamento de Fidel Castro – mas não do povo cubano, há mais de 40 anos mantido isolado do resto do mundo pela ditadura castrista – costumam confrontar a situação da (falta de) democracia na ilha com os tão decantados avanços na área social, sobretudo em saúde e educação. Deixando um pouco de lado a questão da qualidade, por exemplo, da educação em um país onde só se podem ler os livros permitidos pelo Estado, vale dizer que tal argumento, tão do agrado de nossas esquerdas, padece de um erro básico: em nenhum lugar está escrito que a ausência de liberdade é o preço a ser pago pela melhoria das condições sociais. Fosse assim, países como a Suécia ou a Finlândia deveriam ser ditaduras crudelíssimas. Além disso, regimes como o nazismo e o fascismo (sem esquecer, claro, o stalinismo), de acordo com essa visão, estariam plenamente justificados, pois também se gabavam de proporcionar esses serviços básicos à população – embora, saibamos hoje com abundância de detalhes, a que preço humano!. Não é difícil perceber, assim, quem Fidel Castro e seus simpatizantes tomam como exemplos.

Finalmente, demolidos todos esses pretextos e sofismas, sobra a seguinte pérola: "é verdade que Cuba é uma ditadura e que é preciso fazer alguma coisa para defender a democracia na ilha, mas esta deve ser uma tarefa dos próprios cubanos, sem nenhuma intervenção externa" .

Mais uma vez, o tratamento excepcional ao regime comunista, desta feita em nome da "soberania" . Mesma soberania, aliás, que foi roubada do povo cubano pelo ditador no poder há mais de quatro décadas. Temos visto como, ao longo da História, o argumento da soberania tem sido deturpado como um biombo para justificar as ditaduras mais sanguinárias, tanto à esquerda como à direita. Foi em nome da soberania e da não-intervenção que tiranos como Pinochet, Milosevic e Saddam Hussein massacraram milhares nas últimas décadas. Foi em nome dessa mesma soberania e não-intervenção que – para usar um exemplo caro às esquerdas – a República espanhola foi deixada sangrando até a morte nos anos 30, e assim por diante. Em todos esses casos a população massacrada não poderia sobreviver sem algum tipo de ajuda externa. Enfim, cruzar os braços em nome da não-intervenção, nesse caso, parece ser uma forma bastante eficaz de intervenção – a favor de Fidel Castro.

Aqueles que defendem o "direito soberano" de Fidel Castro de continuar encarcerando e fuzilando seus opositores, negando ao povo cubano a possibilidade de escolher livre e soberanamente sobre seu destino – separando, assim, a soberania da democracia, duas coisas indissociáveis – pertencem a uma categoria de indivíduos facilmente identifícável. São os mesmos que ontem defendiam o "direito" de Saddam Hussein de continuar massacrando impunemente curdos e xiitas e que hoje defendem o "direito" da Coréia do Norte de chantagear o mundo com a arma nuclear. São os mesmos que, sob as mais sutis alegações, recusam-se a chamar a associação entre terrorismo e narcotráfico na Colômbia pelo nome, e que aplaudem as fanfarronices de demagogos megalomaníacos como o coronel Hugo Chávez na Venezuela – não por acaso, hoje o maior amigo de Fidel Castro, indicado pelo próprio como seu "herdeiro ideológico" e que o supre de petróleo barato e abundante. São os mesmos que, por covardia, ignorância ou fanatismo, ficam cegos, surdos e mudos diante das contínuas e escandalosas violações dos direitos humanos em países como Líbia, Sudão, Síria e Irã (usando como desculpa, quase sempre, casos como os de Guantánamo e Abu Ghraib, como se dois erros fizessem um acerto), e que vêem com mal disfarçada simpatia, quando não com apoio aberto, o terrorismo religioso fundamentalista antiocidental da Al Qaeda, do Hamas e do Hizbollah. São os mesmos, enfim, que não hesitam um só instante em condenar como "racista" e "genocida" a política de defesa de Israel diante dos ataques de homens-bomba palestinos, ao mesmo tempo em que se "esquecem" dos objetivos e táticas realmente racistas e genocidas dos grupos radicais islâmicos, que querem destruir Israel e afogar sua população em um mar de sangue. São inocentes úteis, ou nem tão inocentes assim, mas sempre a serviço das formas mais obscurantistas de tirania e opressão. Iludidos ou não, são cúmplices de um crime que se repete há 48 anos contra 11 milhões de cubanos.

Não há clube mais numeroso do que o dos inimigos das ditaduras passadas e amigos das ditaduras presentes. Cuba é uma ditadura sustentada por democracias. Estas têm o dever moral e político de romper com essa cumplicidade e assumir um papel internacional ativo em favor dos direitos humanos. Até quando vai persistir essa cegueira voluntária? Chega.

quarta-feira, março 28, 2007

VÁ ESTUDAR, PRESIDENTE!


Peço desculpas por voltar a este assunto. Mas creio que se trata de algo da maior gravidade e importância para o Brasil. Na verdade, considero que é mesmo a coisa mais grave e importante a respeito deste governo que aí está. Mais do que o mensalão. Mais do que Marcos Valério. Mais do que o apagão aéreo. Mais do que os ataques do PCC em São Paulo. Mais do que a redução da maioridade penal. Mais do que as declarações racistas da Ministra da Igualdade Racial, para quem negro odiar branco não é racismo.

O Presidente Lula precisa voltar para a escola. Rápido. Urgente.

Antes que alguém diga que este é só mais um texto para malhar nosso Presidente, cujas poucas luzes são louvadas entre nós por intelectuais que acham bonito um Chefe de Estado proclamar as virtudes da própria ignorância, faço questão de deixar claro que não se trata de nada disso. Muito pelo contrário. O que desejo é ajudá-lo, fazê-lo abrir os olhos para algo preocupante. Algo que não diz respeito, enfim, a ele somente, mas a todos nós.

Não é segredo para ninguém que Lula estudou só até a 4a série primária. Também ninguém ignora que, por motivos materiais, teve de abandonar cedo a escola. Ele gosta de repetir isso em seus discursos. Até aí, sua trajetória é igual a de tantos brasileiros, migrantes pobres como um dia foi ele, cuja mãe, como ele disse certa vez, em mais uma de suas gafes lingüísticas, "nasceu analfabeta". Depois, virou Lula, o líder metalúrgico, e Lula, o dirigente do PT. Hoje é Sua Excelência, Luiz Inácio Lula da Silva, o Presidente da República. Até aí, nada de mais, todos conhecem essa história de cor. O problema é o que está no meio do caminho.

Entre o início de sua ascensão política como líder metalúrgico no ABC paulista, no final dos anos 70, e a eleição para a presidência em 2002, ou seja, durante cerca de 20 anos de sua existência neste planeta, Lula teve tempo e condições de sobra para correr atrás do tempo perdido e superar sua formação escolar deficiente. Em vez disso, preferiu a "escola da vida". Não estudou porque não quis. O motivo foi o seguinte: já uma celebridade nacional, o estudo para ele se tornou algo supérfluo, um artigo de luxo. Mais: cobrar dele um diploma, ou a pura e simples observância às regras da gramática, seria demonstração de "preconceito" e "elitismo" de quem não acreditava que um ex-metalúrgico sem instrução poderia um dia subir a rampa do Palácio do Planalto.

Agora, Lula é o Presidente da República. Como tal, não pode mais se dar ao luxo de desprezar o valor da educação, sobretudo a educação formal, bacharelesca. Mais que isso, como Presidente, ele tem o dever e a obrigação, política e moral, de dar o exemplo, pois cumpre também uma função didática. Isso significa deixar a preguiça de lado e, lápis e caderno na mão, voltar a estudar. Se retornasse aos bancos escolares, Lula estaria dando um exemplo de força de vontade e superação, semelhante ao de outros companheiros seus, como o deputado Vicentinho, que se formou em Direito depois dos 50 anos. Poderia demonstrar, assim, que aquela propaganda, "Sou brasileiro e não desisto nunca", era para valer, e não somente mais uma peça publicitária enganosa de Duda Mendonça e companhia. Com isso, nosso Presidente estaria dando também uma lição de humildade, algo caro para os brasileiros, pois estaria descendo do pedestal e se juntando a tantos milhares de cidadãos brasileiros, tão pobres quanto ele diz ter sido um dia, que, contra todas as adversidades, encaram uma sala de aula visando a ser alguém na vida. Para essas pessoas, ao contrário do Presidente, a educação não é artigo desnecessário, mas um direito inalienável; nem a ignorância é uma moeda política para fazer demagogia: é, isto sim, uma chaga social, uma indignidade.

Difícil imaginar maior incentivo à educação do que este simples gesto pessoal, num país de tantos analfabetos, voluntários ou não. Tenho certeza de que qualquer criança ou adolescente da periferia, ao ver o supremo mandatário da nação sentado no banco de uma sala de aula, se encheria de espírito cívico e seguiria seu exemplo, deixando de lado, como modelo de vida, os cantores sertanejos ou as celebridades instantâneas da TV ou, ainda, os traficantes de drogas. Valeria por muitos programas governamentais, com certeza. Além disso, se começasse por si mesmo, Lula teria muito mais cartaz quando tivesse de falar do assunto. Afinal, com que autoridade um Presidente pode defender, em discurso, a importância e o valor da educação se lhe foi oferecida durante anos a oportunidade de estudar, de se aprimorar intelectualmente, e ele a desprezou solenemente?

Outra coisa: ao voltar à escola, Lula estaria fazendo um grande favor a si mesmo. Além de poupar-se e aos outros de constrangimentos como dizer que o Brasil não faz fronteira com a Bolívia ou que Napoleão invadiu a China, nosso Presidente poderia tornar-se um excelente garoto-propaganda das vantagens da superação individual. Perceberia, com o tempo, que ler, afinal de contas, não é algo assim tão chato como andar de esteira, e que pode ser mesmo um prazer. Vencida a resistência inicial, Lula poderia perceber que a leitura, além de instrutiva, pode ser algo extremamente divertido. Mais interessante, certamente, do que os churrascos ou as peladas com os companheiros na Granja do Torto. Poderia, enfim, descobrir o deleite de ler e reler os clássicos, como Machado de Assis, aliás mulato, gago e epilético, filho de uma lavadeira e de um pintor de paredes. Se valesse o álibi utilizado por Lula de que sua ignorância decorre de sua infância pobre e sofrida, não existiria a Academia Brasileira de Letras.

Durante muito tempo se discutiu no Brasil o voto dos analfabetos. Os que se opunham a essa medida argumentavam que os mesmos não deveriam ter esse direito, pois careciam do discernimento necessário para fazer suas escolhas, sendo, portanto, facilmente manipuláveis por políticos demagogos e oportunistas. Era uma forma de dizer que o analfabetismo era um problema, e que não poderíamos atingir um certo nível de consciência política a menos que as pessoas tivessem acesso universal à educação. Tal argumento, por elitista, foi, como se sabe, derrubado, e hoje os analfabetos já podem votar. Já podem, inclusive, ser eleitos ao cargo mais alto da República. Lula derrubou esse tabu, assim como derrubou outro mito fortemente incrustado em nosso subconsciente: o de que a ignorância, no Brasil, decorre da pobreza e da falta de acesso à educação formal. Como se vê toda vez que ele abre a boca, a ignorância, no Brasil, pode muito bem ser voluntária.

O Presidente Lula está perdendo uma excelente oportunidade de calar a boca de seus críticos e prestar um serviço inestimável ao País. Está jogando no ralo uma chance de ouro de se redimir perante os milhões que votaram nele, e também perante os outros tantos milhões que, por um motivo ou outro, sempre torceram o nariz para o presidente-operário. Alguém precisa avisá-lo com urgência.

Portanto, correndo o risco de ficar repetitivo, é preciso dizer com todas as letras o seguinte: VÁ ESTUDAR, PRESIDENTE!

quarta-feira, março 21, 2007

DOIS TOTALITARISMOS


"Atrevo-me a dizer que as ditaduras de esquerda são piores, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto; quem o fizer contra as de esquerda acaba acusado de reacionário, vendido, traidor". (Jorge Amado)

Imaginem a seguinte situação: um grupo de jovens, empunhando suásticas e outros símbolos nazistas, marcha pelas ruas, entoando slogans xenófobos e racistas, venerando Hitler e pregando abertamente o ódio racial e a intolerância contra as minorias (judeus, migrantes, negros, gays etc). Ocupam espaços na mídia, criam sites na internet e conquistam simpatizantes em setores importantes da sociedade, como as artes e a universidade. Reúnem-se, organizam-se em partido político e lançam candidatos nas eleições. Enfim, crescem e agitam, preparando-se para o assalto ao poder.

Assustador, certo? Nenhum cidadão respeitável, cumpridor das leis e pagador de impostos, deixaria de se sentir perturbado ante cena semelhante. Acredito também que qualquer pessoa normal, se se considera verdadeiramente democrata, cogitaria da possibilidade de se proibir tais manifestações, ou, pelo menos, mantê-las sob estrita vigilância policial, como ocorre hoje, por exemplo, na Alemanha. Afinal, a democracia não pode se dar ao luxo de permitir que seus inimigos a utilizem para destruí-la. A serpente deve ser esmagada ainda no ovo.

Agora imaginem a seguinte situação: um grupo de jovens (embora manipulados por gente velha), empunhando bandeiras vermelhas com o símbolo da foice e do martelo (ou uma estrela vermelha, ou um sol amarelo) marcha pelas ruas, entoando slogans bolcheviques e anticapitalistas, venerando Lênin e pregando (abertamente ou não) o ódio entre as classes e a intolerância contra o pensamento discordante. Ocupam espaços na mídia, criam sites na internet e conquistam simpatizantes em setores importantes da sociedade, como as artes e a universidade. Reúnem-se, organizam-se em partido político e lançam candidatos nas eleições. Enfim, crescem e agitam, preparando-se para o assalto ao poder.

Terrível, certo?

Se você não hesitou em responder afirmativamente ao terminar de ler o primeiro parágrafo deste texto, mas vacilou em concordar com essa última conclusão, você não está só. Na verdade, você faz parte da imensa maioria dos que se recusam a ver qualquer equivalência entre duas ideologias totalitárias – o nazi-fascismo e o comunismo –, enxergando mesmo superioridade moral do segundo sobre o primeiro. E isso apesar de você se considerar (e provavelmente ser) um democrata. Como democrata, você sente uma repulsa instintiva pelo nazi-fascismo. Mas busca matizar sua ojeriza (se a tiver) pelas idéias bolcheviques, e crê mesmo que eles, os comunistas, têm afinal um papel a desempenhar para o "aperfeiçoamento" da democracia. Se for este o caso, sinto dizer, mas você está enganado. Terrivelmente enganado.

A nenhuma pessoa razoavelmente inteligente e com um mínimo de honestidade escapa o fato de que os crimes e atrocidades nazistas – como o extermínio de 6 milhões de judeus – constituíram um dos capítulos mais negros da História. No entanto, a mesma repulsa e indignação moral não costumam tomar conta do cidadão comum diante dos crimes igualmente monstruosos dos comunistas. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, quando as democracias do Ocidente se aliaram à URSS de Stálin contra Hitler, muitos levaram a aliança para além de seu significado tático, fechando os olhos voluntariamente para as atrocidades soviéticas. Mais recentemente, a mesma cegueira se revelou após a publicação, em 1997, do Livro Negro do Comunismo, que aponta para o número assombroso de 100 milhões de mortos pelas ditaduras comunistas no século XX – mais do que a soma total das vítimas das ditaduras de direita. Na ocasião, os comunistas e seus simpatizantes questionaram os números apresentados. Diante da avalanche de evidências históricas, porém, passaram a bater em outra tecla: os mortos pelo nazismo caíram vítimas de uma ideologia racista e assassina; já os que morreram sob o comunismo ou eram "burgueses" e "contra-revolucionários" (logo, mereceram a sorte que tiveram, como os camponeses da Ucrânia) ou eram inocentes, mas ainda assim tinham de morrer, pois o ideal que os torturava e matava era, afinal, belo e puro...

Entre nós, esta teoria do "totalitarismo preferido" (na feliz expressão de Jean-François Revel) lançou raízes profundas. Por estas plagas, os comunistas, ao contrário dos nazistas, ainda são levados a sério. Mais que isso: são mesmo considerados ardentes democratas e paladinos da liberdade. Como no Brasil, até 1985, os comunistas foram perseguidos, nos acostumamos a crer que sua luta é pela democracia, um erro crasso. Daí porque um "comunista histórico", como Oscar Niemeyer – um stalinista empedernido – ainda seja reverenciado por sua opção política, e não apesar dela (a propósito, alguém aí já viu uma homenagem pública a um "nazista histórico", por exemplo?). Aqui, comunistas, de carteirinha ou não, são tratados como celebridades, escrevem artigos auto-laudatórios e comparecem sorridentes a programas de TV, onde fazem juras de amor à democracia, e ninguém os questiona. Uma situação realmente surreal.

É preciso dar um basta a essa lengalenga. Os neonazistas são cúmplices morais dos crimes cometidos por Hitler e Goebbels. Os comunistas e seus simpatizantes são cúmplices morais dos crimes de Stálin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot e Fidel Castro. Esta é a realidade.

Qual a origem deste duplo padrão? Afinal, trata-se de duas ideologias totalitárias, baseadas no controle total do Partido-Estado sobre quaisquer aspectos da vida social e individual. Ambos os regimes, o nazi-fascista na Alemanha e Itália e o comunista na URSS e depois no Leste Europeu, China e Cuba, usaram e abusaram do terror e da repressão política, exterminaram populações inteiras em tentativas radicais de engenharia social (no caso do nazismo, visando à "pureza de raça"; no do comunismo, à sociedade comunista perfeita). Em ambos houve culto da personalidade, censura, tortura, campos de concentração. Ambos mataram, exterminaram, trucidaram. Constituíram, enfim, aquilo que Alain Besançon chamou de "A Infelicidade do Século". E, ainda assim, há quem veja virtude em um deles.
.
O que explica o duplo padrão moral no tratamento dos dois tipos de totalitarismo? Vamos tentar desvendar este enigma.

Uma primeira explicação, de caráter ginasiano, é que nazismo e comunismo seriam ideologias inimigas. Isto seria evidenciado pela invasão da URSS pelas tropas hitleristas em 1941, pelos milhões de mortos na guerra que se seguiu, pela epopéia de Stalingrado etc. Sem mencionar o Pacto Hitler-Stálin de 1939, que dividiu a Polônia entre os dois ditadores e foi a causa imediata da Segunda Guerra Mundial, o qual revelou a cumplicidade tácita entre os dois regimes totalitários, é preciso lembrar sempre que o fato de serem ideologias concorrentes não elimina do nazismo e do comunismo suas características comuns. A principal delas, qualquer pessoa com um nível intelectual acima do amebiano poderá facilmente perceber, é o desprezo pela democracia, tida por ambos como uma mera formalidade burguesa. É esta, e não o totalitarismo rival, que constitui o inimigo principal das duas ideologias totalitárias. Em outras palavras, os comunistas, parafraseando Arthur Koestler, são antifascistas, mas não são antitotalitários. Logo, esta explicação não cola.

Mesmo assim, como os comunistas sempre dispuseram de um formidável aparato de propaganda a seu serviço, essa visão maniqueísta e simplória se enraizou na América Latina, graças à dicotomia Fidel Castro-Augusto Pinochet. Ambos os ditadores, o cubano e o chileno, se tornaram uma espécie de substitutos cucarachas de seus predecessores alemão e soviético. Como se sabe, Fidel matou muito mais que Pinochet e, ao contrário deste último, que já partiu desta para melhor (ou pior), ainda continua no poder. Entretanto, ainda há quem o considere um "bom ditador", assim como Stálin. Quando Pinochet morreu, no final do ano passado, milhares de pessoas, dentro e fora do Chile, celebraram nas ruas, e várias personalidades brasileiras fizeram declarações afirmando que o falecido não deixaria saudades. Vejamos o que dirão quando morrer Fidel.

Descartados esses argumentos, resta a seguinte explicação: ao contrário dos comunistas, os nazistas não escondem seus objetivos. Afirmam abertamente que querem destruir a democracia e substituí-la por uma ditadura da "raça", não deixando espaço para ambigüidades ou contemporização. Os comunistas, por sua vez, agem de maneira mais sutil, reivindicando mesmo o monopólio da virtude e dos valores democráticos. Ou seja, apresentando-se como aquilo que não são – como democratas, defensores da paz e da liberdade –, os comunistas buscam demarcar seu terreno da ideologia irmã nazi-fascista, ao mesmo tempo em que tentam instrumentalizar a democracia para atingir seus objetivos antidemocráticos. Enquanto estão na oposição, procuram utilizar ao máximo as facilidades da democracia, dizendo-se mesmo seus defensores ferrenhos. Onde quer que conquistaram o poder, porém, trataram sempre, no dia seguinte, de varrer a democracia do mapa, pois esta já tinha cumprido sua função, que era levá-los ao poder. Foi assim onde quer que os comunistas tenham chegado ao governo por meio de eleições, como na antiga Tchecoslováquia, ou mediante uma revolução inicialmente democrática, como em Cuba. E quase foi assim no Brasil e no Chile.

Além disso, ao apelarem para um ideal universal – uma sociedade justa e igualitária, ao contrário do ideal exclusivista de pureza racial dos nazistas – os comunistas dispõem de um álibi perfeito. Os nazistas falam coisas odiosas, como expulsar os imigrantes, limpeza étnica etc. Já os comunistas são mais simpáticos: falam em igualdade, justiça social... O nazismo é execrado – corretamente – por ser uma ideologia bárbara e genocida. O comunismo é igualmente bárbaro e genocida, mas é "romântico". Seus crimes, mesmo que em maior número do que os dos nazistas, serão sempre perdoados, pois estão cobertos pelo véu da utopia. O nazista é quase universalmente condenado - mais uma vez, corretamente - com adjetivos como "implacável" e "desumano". O comunista, por sua vez, é louvado por sua "perseverança" e "coerência". Ainda que tenha praticado roubos e assassinatos, o militante comunista será visto sempre com uma aura de respeitabilidade que o nazi-fascista jamais terá. Afinal de contas, ao contrário dos nazistas, seus crimes foram cometidos com as melhores das intenções... Assim, o assassino sempre terá uma boa desculpa, e poderá mesmo culpar a vítima, acusando-a de tê-lo obrigado a assassiná-la.

Da próxima vez que você deparar com um comunista ou simpatizante do comunismo falando em democracia e direitos humanos, saiba que você estará diante de um grande tolo ou de um grande ator, e que tudo que ele disser a respeito é apenas auto-engano ou fingimento. Puro teatro, nada mais.

quarta-feira, março 14, 2007

LULA É UM BUSH PIORADO


Passado o vendaval da visita-relâmpago – com o perdão da expressão meteorológica – do Presidente norte-americano George W. Bush, creio ser possível tirar algumas conclusões sobre o tipo de relacionamento que o Brasil mantém com os EUA. Mais particularmente, sobre o tipo de relacionamento que os dois Chefes de Governo – Lula e Bush – têm um com o outro. Melhor dizendo, sobre quem é cada um deles, à luz tanto da política quanto da psicologia.

Lula e Bush são almas gêmeas. Sei que a esquerda beata, que elevou aos píncaros da santidade o ex-torneiro mecânico de Garanhuns, enquanto se dedica a satanizar o Bush – a ponto de ostentar cartazes em que o próprio aparece com o indefectível bigodinho à la Hitler – jamais vai concordar com essa frase. Mas se trata de algo óbvio que, como tudo que é óbvio, como dizia Nelson Rodrigues, fica difícil, quase impossível, de admitir.

Foi o próprio Luiz Inácio que, em visita à Casa Branca em 2002, antes mesmo de tomar posse, tratou de anunciar aos quatro ventos a descoberta de uma inesperada (para os lulo-petistas, claro) afinidade entre ele e o Presidente estadunidense. De fato, os dois já viraram coleguinhas, quase amigos de infância. Agora, na última visita que fez ao Brasil, entre uma conversa ou outra sobre etanol, os dois presidentes se derramaram em afagos mútuos. Logo, não me baseio em ninguém mais do que em Sua Excelência em pessoa, o apedeuta-mor, para dizer o que se segue.

Lula e Bush, se irmãos fossem, seriam siameses. Basta atentar para os seguintes detalhes da biografia de cada um:

- Um e outro empregaram meios nem sempre lícitos para atingir seus objetivos: mentiram, enganaram, corromperam;

- Um e outro são conhecidos pelos parcos dotes intelectuais; e

- Um e outro se imbuíram de um papel messiânico.

Tais semelhanças, porém, não nos devem fazer esquecer algumas diferenças básicas. Ei-las:

- Bush é acusado de ter manipulado o resultado de sua primeira eleição, em 2000. Lula não precisa disso, pois se especializou em manipular corações e mentes de milhões de brasileiros por três décadas. No caso dos deputados, sempre ávidos por prebendas em troca de apoio, o mensalão dá conta do recado. E aqui a lógica jurídica se inverte: Lula e seu partido, o PT, são sempre inocentes, mesmo com prova em contrário.

- Dizem que Bush é o Presidente mais ignorante que os EUA já tiveram, e que seu QI seria de 81. Injustiça. Bush, creio eu, sabe onde fica a Bolívia. Além disso, ele arranha um espanhol até razoável. Já Lula não fala nenhuma língua estrangeira. Nem mesmo português.

- Quanto ao messianismo, Bush se atribuiu a missão histórica de transformar dois países – o Afeganistão e o Iraque – em democracias, mudando o mapa geopolítico do Oriente Médio. Lula não ficou atrás: entregou-se de corpo e alma às tarefas de fazer "o melhor governo da história deste país em 500 anos" e, de quebra, ainda mudar a "geografia comercial do mundo". Pelo menos Bush é mais modesto.

Além disso, Bush se tornou uma espécie de besta-fera mundial, principalmente depois de ter mandado invadir o Iraque, em 2003. Desde então, não passa um dia sem que alguém desça o pau no Presidente norte-americano, em especial na sua política externa, acusada de ser unilateral e de ignorar a ONU, que desaprovava a queda de Saddam, assim como desaprova qualquer mudança em regimes igualmente democráticos como o de Cuba e do Zimbábue... Nisso os presidentes brasileiro e norte-americano estão, ao que consta, em lados opostos. É que Lula, ao contrário de Bush, é amigo de Fidel Castro e de Hugo Chávez.

A principal diferença, porém, é que a popularidade de Bush não pára de cair, enquanto Lula está blindado por todos os lados: blindado contra o PT, contra o mensalão, contra o caixa dois, contra Zé Dirceu, Palocci, os dólares na cueca, os aloprados etc. Blindado, inclusive, contra sua própria ignorância, graças a décadas de enganação por parte de intelectuais que acham que criticar um Presidente que negligencia a própria educação é coisa de gente "preconceituosa" e "elitista". Rir das gafes do Bush, aí sim, isso pode.

Bush pode ser um idiota, arrogante, até mesmo um gângster, mas isso não importa. Idiotas, arrogantes e gângsteres, sem falar, claro, imperialistas, eram e serão sempre, nas nossas mentes impregnadas de antiamericanismo primário e terceiro-mundismo estéril, os presidentes da maior potência mundial. Não importa o que eles façam ou deixem de fazer, estarão sempre na berlinda. É assim com Bush, assim como foi com Clinton, com Reagan, Carter e Nixon, e assim será com todos os que um dia ocuparem a Casa Branca. Já Lula pode ser isso tudo também, e muito mais, mas sempre haverá quem o defenda com todas as armas. Bush já está condenado de antemão ao inferno. Lula, como demonstrou a última eleição, tem um lugar cativo no nosso coração.

Como se vê, Lula é um Bush piorado, assim como é um Collor piorado. Dessa vez superamos os gringos. Brasil-sil-sil!

quarta-feira, março 07, 2007

LULA E O CULTO DA IGNORÂNCIA


Já sei, vão dizer que eu sou "preconceituoso", "elitista" etc., pois já virou moda tachar com essas adjetivos qualquer um que desafie o vocabulário "politicamente correto" e aponte para um fato óbvio: que nosso Presidente é, sim, um apedeuta. Isto é: alguém que, tendo tido a oportunidade de estudar, optou, conscientemente, pela ignorância, desprezando solenemente a educação e orgulhando-se, mesmo, da própria incultura. O que é, no mínimo, um dessserviço num País com tantos analfabetos como o Brasil, e, no máximo, uma demonstração de incrível arrogância, pois desconsidera o esforço de tantas pessoas que, vindas de origem até mais humilde do que o próprio Lula, esforçam-se para romper o círculo de mendacidade mental a que supostamente estariam condenadas por sua origem social e batalham para estudar e ser alguém na vida. Essas pessoas, que Lula diz representar, certamente não se identificam com o exemplo de nosso Presidente. Para demonstrar isso, vou apenas reproduzir aqui um texto anônimo que catei na internet, que achei bastante interessante:

"Lulestupidez

Minutos antes do começo da gravação do "Roda Viva" no Palácio do Planalto, o jornalista Paulo Markun aproximou-se do presidente Lula para combinar um derradeiro detalhe. Em meio às palavras de encerramento, o "âncora" diria que estava entregando a Lula uma trilogia com as melhores entrevistas ocorridas desde a estréia do programa da TV Cultura, 18 anos atrás.

Com expressão curiosa, Lula apanhou os livros. Antes que se sentisse logrado, Markun informou que só o primeiro volume fora concluído. Os outros, ainda em preparação, paravam na capa. As páginas estavam em branco. Lula devolveu o que estava pronto e folheou os desprovidos de palavras. "Isso é que é livro bom", comentou. "A gente nem precisa ler". O entrevistado parecia feliz. Os entrevistadores exibiam sorrisos constrangidos.

Ninguém no estúdio improvisado aparentou surpresa. Todos conheciam a aversão de Lula à leitura - qualquer tipo de leitura. "Ler é pior que fazer exercício em esteira", confessou, há tempos, o presidente de um país atulhado de analfabetos, com um sistema educacional em frangalhos, incapaz de absorver multidões de crianças traídas.

Milhões de meninos no Brasil, tão pobres quanto Lula foi (ou ainda mais miseráveis que o filho do agreste pernambucano), enfrentam fome crônica e carências inverossímeis para assimilar conhecimentos. Essas crianças valentes não merecem ouvir do presidente o elogio da ignorância.

Lula nunca leu um livro. Não escreve uma só frase sem derrapar em erros graves de português. Mas os chefes do PT, amparados por intelectuais demagogos, decidiram que um migrante nordestino promovido a líder de massas deve ser dispensado de cobranças elitistas. Lula foi diplomado pela escola da vida. Ganhou o direito de, impunemente, maltratar o idioma e dizer tolices sobre tudo. Pensar o contrário é coisa de conservador, mania de preconceituoso.

Sem trabalhar há quase 30 anos, o presidente teve tempo de sobra para jogar algumas peladas também no campo do conhecimento. Não estudou porque não quis. Não aprendeu lições básicas por pura preguiça. Poderia ter seguido o bom exemplo de companheiros como o deputado Vicentinho. O ex-presidente da CUT, formou-se em Direito já quarentão. Lula não precisa de canudos. É um doutor de nascença. A bordo do Aero-Lula, recusa-se a passear os olhos por duas ou três páginas produzidas (com letras gigantescas) por assessores teimosos. São informações elementares sobre o país onde vai pousar horas mais tarde. Lula despreza até esse punhado de registros históricos, geográficos e econômicos. "Leitura é pior que exercício em esteira".

Já fomos mais rigorosos com gente que enuncia sandices ou escreve besteiras. Rimos do general Charles de Gaulle ao ouvi-lo declarar que "a China é um grande país habitado por milhões de chineses". Acompanhamos com merecidas gargalhadas a performance de Dan Quayle, vice-presidente americano entre 1989 e 1993, quando George Bush pai foi inquilino da Casa Branca. "A perda de vidas é irreversível", disse Quayle. "Minha mãe nasceu analfabeta", empatou recentemente Lula. E completou com mais umas pérola de ignorância: "Fiz uma viagem à América Latina e só lamentei não ter estudado latim com mais dedicação para poder conversar com aquelas pessoas". Quayle derrapounas coisas do sia-a dia. Lula espancou a História ao inventar uma invasão da China por tropas de Napoleão Bonaparte.

Debochamos do presidente Ronald Reagan quando o ilustre forasteiro saudou, em Brasília, o povo da Bolívia. Reagimos com a fleuma de lorde inglês ao discurso em que Lula incluiu a Bolívia entre os países que não mantêm fronteiras com o Brasil. Se tivesse perdido cinco minutos consultando manuais de História, saberia que o Acre foi subtraído à Bolívia. Se tivesse pescado no Rio Paraguai, teria visto logo ali a pátria do amigo Evo Morales.

A carreira política de Quayle terminou numa sala de aula. Ao visitar uma escola, teve a má idéia de ensinar aos alunos como se escreve "batata" em bom inglês. O certo é "potato". O vice de Bush rabiscou um desconcertante "potatoe" no quadro negro. E consolidou a imagem de quem não está preparado para governar coisa alguma. Quando encerraremos a carreira do nosso burro?

Há semanas, Lula chegou para uma reunião sobraçando uma folha de papel com anotações manuscritas. Os garranchos denunciavam que o autor fora o próprio presidente quem escrevera aquilo. Os fotógrafos capturaram os rabiscos com penosa nitidez. Comprovou-se que Lula ignora a grafia de palavras escritas corretamente por crianças de jardim da infância. A maioria dos jornais passou ao largo do escorregão.

Uma boa formação intelectual não faz, necesariamente, um grande estadista. Mas ter um estadista que mal sabe ler e escrever... bem, convenhamos, isso já é demais!
"

---

P.S.: Agora, a pergunta que não quer calar: como um Presidente assim quer "destravar" o País, se é incapaz de destravar a própria língua?