quinta-feira, agosto 09, 2007

VOTANDO COM OS PÉS


Quem lê jornais e acompanha o noticiário já sabe da história dos dois pugilistas cubanos que, aproveitando-se da vinda ao Rio de Janeiro para os Jogos Pan-Americanos, resolveram desertar e foram apanhados pela Polícia Federal no litoral do estado, sendo imediatamente deportados de volta a Cuba. Ao caso dos dois boxeadores, soma-se o de mais dois atletas cubanos, que também fugiram da vila olímpica e foram para São Paulo. A delegação de Cuba, inclusive, temerosa diante de um rumor de deserção em massa, e obedecendo às ordens de um furioso Fidel Castro, tratou de antecipar-se às outras delegações e embarcou às pressas de volta à ilha caribenha, deixando de participar da cerimônia de encerramento dos Jogos e, em alguns casos, até mesmo de receber as merecidas medalhas.

O caso dos dois boxeadores mandados de volta à ilha de Fidel - e, quando digo ilha de Fidel, não o digo de forma figurada, metafórica, mas literal: é a ilha dele, Fidel Castro, sua propriedade particular - é paradigmático para se compreender o tipo de relação que o atual governo brasileiro mantém com o regime cubano, a única ditadura comunista do hemisfério ocidental.

Em nota, o Ministério da Justiça, comandado pelo comissário Tarso Genro, chegou a dizer que os dois atletas cubanos teriam se apresentado voluntariamente à PF, e que desejavam retornar a seu país. Que estavam com saudades de casa, enfim. Estavam tão ansiosos para voltar que, inclusive, não lhes foi permitido sequer falar com a imprensa, e as autoridades brasileiras, ansiosas para despachar os dois fujões, nem se preocuparam em seguir os trâmites burocráticos necessários para a deportação. Agora, chega a notícia de que o Comandante Fidel Castro os proibirá de participar em competições fora de Cuba, encerrando para sempre a carreira internacional dos dois. Fica a pergunta: se queriam mesmo voltar a Cuba, como alega o governo, desejavam igualmente jogar suas carreiras no lixo? Seriam masoquistas?

O fato é que a Polícia Federal do companheiro Tarso Genro e do governo Lula, nesse caso, agiu como uma extensão da polícia política cubana, a G-2. Pior ainda: atuou como um capitão do mato*, correndo atrás de fugitivos de uma tirania totalitária para entregá-los de bandeja a seus algozes. Agiu de forma semelhante à ditadura de Getúlio Vargas, que entregou, nos anos 30, a judia e comunista alemã Olga Benario, mulher de Luiz Carlos Prestes, ao regime nazista para ser assassinada num campo de concentração na Alemanha. Ou como a ditadura militar brasileira que, nos anos 70, seqüestrou e deportou secretamente dois estudantes, Lilian Celiberti e Universindo Díaz, que viviam exilados no Brasil, fugidos da ditadura militar no Uruguai.

Uma diferença, porém, separa o caso dos boxeadores cubanos dos de Olga Benario e dos estudantes uruguaios: estes últimos eram acusados da prática de atos terroristas e subversivos - Olga, aliás, fora enviada ao Brasil pelo Comintern, a Internacional Comunista controlada por Moscou, para ajudar na preparação da malfadada insurreição comunista de 1935, a famosa intentona. Ainda que não tivessem cometido crime algum, eram pelo menos acusados dos mesmos em seus países de origem, o que em tese justificaria a deportação. E os atletas cubanos, que crime cometeram? De que delito eram acusados? Queriam fugir de uma ditadura. A conclusão lógica é que, para os companheiros no poder no Brasil hoje, abandonar uma tirania e tentar uma vida melhor no exterior é um crime passível de deportação imediata. Enquanto isso, o ex-padre Olivério Medina, o homem das FARC no Brasil, continua leve e solto, participando, dizem, de animados convescotes com os companheiros petistas.

O erro dos pugilistas cubanos foi terem acreditado que, ao decidirem não retornar à ilha-prisão, permaneceriam num país livre e democrático. Num país cujo governo coloca os direitos humanos e a democracia acima das simpatias ideológicas por uma ditadura falida e brutal. Erraram de país. No Brasil lulista, as autoridades não se contentam em justificar as peripécias de um Evo Morales ou de um Hugo Chávez: agora se prestam também a servir de capitão do mato de um tirano senil e assassino.

Privado há quase 50 anos do direito elementar de escolher livremente seus governantes, obrigado a aplaudir em bem orquestradas manifestações "espontâneas" as arengas intermináveis de um ditador, vigiados de perto pela polícia política, sufocados em seus direitos fundamentais, reduzidos à mais abjeta pobreza e submissão, não restou outra alternativa ao povo cubano senão escapulir na primeira oportunidade. Desde 1959, cerca de 2 milhões de cubanos e seus descendentes escolheram o caminho do exílio, numa população total de 11 milhões. Com isso, não fogem apenas da tirania mais antiga do planeta, nem buscam somente escapar da penúria em que vivem: estão votando com os pés. Ou com os remos. Deus nos livre de destino tão triste.
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* Capitão do mato - nome que se dava, na época do Brasil-Colônia e do Brasil-Império, ao sujeito, geralmente um escravo liberto, que se dedicava a caçar e aprisionar escravos fugidos, devolvendo-lhes, a troco de dinheiro, a seus donos. Um dos serviços mais degradantes a que um indivíduo pode dedicar-se, agora reproduzido, em nível internacional, pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

terça-feira, agosto 07, 2007

CANSEI DO LULA


Acreditem, acho um saco escrever sobre política. Se dependesse unicamente de minha vontade, eu estaria gastando neurônios com coisas mais amenas, como cinema ou literatura. Mas Lula não deixa. Os lulistas não deixam. Marco Aurélio Garcia não deixa. Tarso Genro não deixa. Renan Calheiros não deixa. Por mais que eu não queira, sou obrigado a ocupar-me neste espaço de assuntos desagradáveis, como mensalões, Hugo Chávez e cotas raciais. Já estava prestes a começar um texto sobre um dos meus filmes preferidos, Casablanca, quando fui novamente chamado à dura e feia realidade.

A última dos companheiros, depois de terem tentado "despolitizar" o acidente da TAM, causado exatamente pela politização da ANAC e da INFRAERO, e de terem entregue em tempo record os cubanos fugidos no Pan a Fidel Castro, lembrando assim casos como o de Olga Benario e de Lilian Celiberti, é minimizar a importância dos arremedos de movimentos de oposição que estão surgindo no país, como esse tal de movimento "Cansei", surgido em São Paulo. A estratégia agora é tachar a todos como movimentos de setores da classe média, descontentes por não terem sido contemplados pela cornucópia da política oficial lulista. A grande imprensa já mordeu a isca direitinho, reproduzindo, talvez sem o saber, o discurso oficial, ao mesmo tempo em que acredita estar agindo de forma independente de preconceitos ideológicos.

Há dois objetivos subjacentes a essa estratégia dos lulo-petistas: primeiro, incutir na mente de todos que o governo Lula é um governo voltado para os mais pobres; segundo, desqualificar qualquer crítica vinda da classe média, como uma demonstração de setores acomodados que estão se lixando para o aumento do nível de vida dos mais humildes.

Ambos os objetivos, claro, são falsos como uísque paraguaio. Primeiro, porque - foi o próprio Lula que disse em discurso recente -, se alguém deveria estar vaiando o governo, são os pobres, porque "nunca na história deste país" os ricos ganharam tanto, o que não deixa de ser verdade (vide a farra com dinheiro público que foram as obras do Pan no Rio de Janeiro, por exemplo). Segundo, porque, ao rotular todos que se lhe opõem como membros da classe média, o que os lulistas fazem é retomar a velha discurseira ideológica bolchevique, segundo a qual a legitimidade de uma demanda é determinada não por critérios subjetivos como honestidade, integridade etc., mas objetivos como a origem de classe de quem as faz.

Qualquer pessoa com um nível de inteligência acima do dos protozoários já deve ter percebido que os dois objetivos citados acima são completamente contraditórios. Afinal, se quem deve vaiá-lo são os pobres, como afirmou o Apedeuta, o que diabos seus defensores estão fazendo ao querer desqualificar a classe média? Sem querer, o Grande Molusco confessou em público seu fracasso, ao dizer que seu governo encheu as burras das elites, enquanto tratou de distribuir esmolas aos miseráveis. Trocando em miúdos, Lula e sua curriola conseguiram uma proeza: aumentaram ainda mais a desigualdade social no Brasil, o que contraria frontalmente toda a lengalenga sobre "o governo que mais fez pelos pobres" etc.

Não engulo a falácia de que a oposição a Lula deve ser desqualificada por causa da origem social dos que estão tentando se mobilizar, aliás em váo, porque as ruas já estão ganhas pelo monopólio esquerdista há pelo menos quatro décadas. Que o "Cansei" reúne principalmente pessoas oriundas da classe média, entre as quais familiares dos mortos no acidente da TAM, está mais que claro. Mas desde quando uma crítica é menos pertinente porque vem da classe média? Esta, como disse o Reinaldo Azevedo, é o negro do Brasil de hoje: não tem, para defendê-la, nenhum partido, nenhum sindicato, nenhuma ONG. E ainda por cima tem que ouvir cretinices como a pronunciada pelo ex-governador de São Paulo, o ridículo Claudio Lembo, que disse que "Cansei" está mais para dondocas entendiadas... (certamente, as madames dos ricos citados pelo Grande Molusco, que devem estar fazendo a festa). Se não podem rebater as críticas de seus adversários, os lulo-petistas os condenam por sua origem social, como nos tempos de Stálin. Pelo menos numa coisa o velho Marx tinha razão: a História realmente se repete. Sempre como farsa.

segunda-feira, agosto 06, 2007

UMA CATÁSTROFE INEVITÁVEL

"Qualquer pessoa é criminosa quando promove uma guerra evitável; e também o é, quando não promove uma guerra inevitável". (José Martí)


Em 3 de julho passado, o Ministro da Defesa do Japão, Fumio Kyuma, renunciou após ter provocado uma avalanche de críticas, por sua declaração de que o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, ao término da Segunda Guerra Mundial, foi inevitável. Kyuma foi obrigado a deixar o cargo, sob uma chuva de protestos dos sobreviventes e de entidades pacifistas, os quais, de forma muito compreensível, acusaram-no de insensibilidade diante da dor de tantos milhares de pessoas, sacrificadas no altar do maior conflito de todos os tempos. Além do mais, um Ministro da Defesa justificar publicamente o lançamento de duas bombas atômicas sobre seu próprio país, convenhamos, é algo inadmissível.

A renúncia de Kyuma demonstra que, ainda hoje, os fantasmas do passado insistem em assombrar países como o Japão e, também, todos nós. É impossível mencionar os nomes Hiroshima e Nagasaki sem sentir um frio na espinha. Os números dos mortos - mais de 200 mil -, a devastação causada pelas explosões, os relatos de pessoas vaporizadas pelo calor ou devoradas lentamente pela radiação, o fato de as vítimas terem sido quase todas civis, o assustador cogumelo atômico erguendo-se sobre as duas cidades, assombram e assombrarão a consciência da humanidade por muitos anos ainda. Afinal, matar civis, e ainda por cima aos milhares de uma vez, utilizando uma tecnologia até então desconhecida, parece e é um crime indefensável. O fato de terem sido os EUA os autores da façanha, então, torna-a ainda mais revoltante, fazendo levantar em todo o mundo vozes de repúdio e condenação.

Indignações à parte, e analisando-se a História com frieza - ou mesmo sem frieza, à quente -, sou obrigado, entretanto, a concordar com o Ministro demissionário japonês. As bombas e a tragédia humana sem precedentes que provocaram foram mesmo inevitáveis. Por mais doloroso que seja admitir isso, trata-se de um dever de honestidade, de sinceridade perante a História. Sem as duas explosões sobre Hiroshima e Nagasaki, o Japão dificilmente se renderia, a guerra, que até aquele momento já ceifara a vida de mais de 50 milhões de pessoas, se arrastaria por vários meses ainda, talvez anos. A quantidade de mortos, o sofrimento de ambos os lados, seria sem dúvida muito maior.

Você deve estar se perguntando: não havia outro jeito de pôr fim à guerra? Certamente havia, mas as conseqüências seriam muito piores. Vejamos o contexto. Em agosto de 1945, EUA e Japão já estavam em guerra havia quatro anos, e as forças nipônicas, embora batidas no campo de batalha, não davam mostras de que iriam render-se. Aliás, a rendição ao inimigo, no código de guerra japonês (bushido), era considerada uma indignidade, algo pior do que a morte. Não por acaso, os militares japoneses ficaram célebres pela brutalidade com que tratavam os prisioneiros, chegando ao ponto de treinar tiro-ao-alvo e praticar ataques de baioneta em alvos humanos. Cidades inteiras, como Nanking, tiveram sua população exterminada pelas forças nipônicas. Milhares de civis chineses foram usados como cobaias em experiências biológicas, semelhantes às que os nazistas praticaram contra os judeus na Europa. Os soldados japoneses lutaram literalmente até o fim em Iwo Jima e Okinawa, e muitos civis se suicidaram para não cair nas mãos do inimigo em Saipan e Tiniam. A simples idéia de rendição era um anátema para o povo nipônico, que, fanatizado pela tradição e por uma ideologia racista e militarista, idolatrava o imperador como um deus vivo - não o representante de Deus na terra, não um intermediário entre os homens e a divindade, mas a encarnação mesma do Todo-Poderoso. Nessas condições, a idéia dos marines desembarcando na baía de Tóquio sem um banho de sangue infernal era simplesmente impensável. O governo norte-americano calculara em cerca de 1 milhão o número de mortos, civis e militares, caso os EUA tentassem uma invasão do arquipélago japonês.

Tendo saído de um isolamento de séculos, o Japão jamais havia perdido uma guerra, tendo derrotado, sucessivamente, chineses, coreanos e russos, antes de lançar-se à conquista militar do Leste da Ásia e das ilhas do Pacífico. Nesse processo, os japoneses foram responsáveis por algumas das maiores atrocidades e crimes de guerra da história da humanidade, só comparáveis aos dos nazistas, os quais incluíram o uso de armas químicas e biológicas, bombardeios indiscriminados e a escravização sexual de milhares de mulheres nos países ocupados - tema freqüente de atritos diplomáticos, ainda hoje, com países como a China e a Coréia do Sul. Não havia perspectiva de paz à vista, a curto ou médio prazo. O mundo já estava cansado da carnificina e da insanidade da guerra. A Alemanha já fora devastada pelos bombardeios aliados - somente em Dresden, morreram mais civis do que em Hiroshima e Nagasaki - e Tóquio já fora alvo de devastadores ataques dos B-29. Foi então que os EUA tiveram a idéia da bomba. Aquela foi uma decisão essencialmente militar. Foi a mais difícil decisão que um presidente - Harry S. Truman - teve que tomar até hoje. Uma duríssima necessidade, tornada inevitável pela obstinação do inimigo.

Não faltou quem dissesse, terminado o pesadelo da guerra, que as bombas atômicas sobre o Japão não influíram de forma decisiva para a decisão japonesa de render-se. Que tudo não teria passado de uma demonstração de força dos norte-americanos para impressionar o verdadeiro inimigo, que então começava a despontar sobre as ruínas do Eixo nazi-fascista: a URSS. Há vários motivos para discordar dessa tese. Em primeiro lugar, pelas razões já apontadas, que demonstram que, apesar da derrota em ferozes batalhas, o Japão estava longe de aceitar a rendição. Em segundo lugar, e o mais importante, tal interpretação constitui um anacronismo, sendo um produto da Guerra Fria. É preciso lembrar: a URSS não condenou o lançamento das bombas, logo após o ocorrido. Só começou a fazê-lo alguns anos depois, já iniciada a disputa ideológico-militar com os EUA e o mundo ocidental. Logo, a verdadeira motivação dessas críticas não era a indignação moral diante de um assassinato em massa - até porque de assassinatos em massa os líderes da URSS entendiam bastante -, mas um objetivo político-propagandístico.

Há um outro aspecto pouco lembrado na tragédia de Hiroshima. Quando o Enola Gay despejou sua carga mortal sobre a cidade, quase ninguém, nem mesmo os cientistas do Projeto Manhattan, sabiam ao certo seus efeitos. O gesto de lançar a bomba foi, assim, uma ação calculada para terminar a guerra, mas também um ato de desespero. Nada que possa ser comparado aos argumentos cínicos de países como o Irã e a Coréia do Norte, os quais, sob a alegação de que é necessário "quebrar o monopólio nuclear das superpotências", insistem em seus programas atômicos clandestinos. Ao contrário dos EUA quando bombardearam o Japão, os líderes desses países conhecem perfeitamente do que uma explosão nuclear é capaz. Não desejam adquirir essa tecnologia para acabar com alguma guerra, para forçar um inimigo obstinado à rendição, mas para chantagear o mundo. Isso retira qualquer legitimidade a seus propósitos.

Hoje, 6 de agosto, faz 62 anos que o primeiro artefato nuclear caiu sobre Hiroshima. Desde então, a data passou para a História como o marco inicial da era atômica. Crescemos, todos aqueles que nasceram após 1945, sob a sombra da ameaça da aniquilação total, primeiro nos anos da Guerra Fria entre EUA e URSS e, hoje, na forma da proliferação nuclear, representada por organizações terroristas como a Al Qaeda e governos imprevisíveis como os de Teerã e de Pyongyang. Hiroshima continuará a ser um símbolo da loucura humana. Mas, é forçoso admitir, se não quisermos ter uma visão unidimensional da História, que a loucura, nesse caso, não se restringe àqueles que tomaram a decisão de lançar a bomba. Nem está ausente dos cálculos de muitos que se acostumaram a condená-la.

sexta-feira, agosto 03, 2007

A QUESTÃO É POLÍTICA, SIM!


Ontem à noite, quem teve, como eu, a pachorra de assistir até o fim o programa político do PT (sim, eles ainda têm a cara-de-pau...), viu uma das cenas mais cínicas e revoltantes dos últimos tempos: ao fim da lengalenga de sempre, que incluiu minutos intermináveis de picaretagem marqueteira e louvação ao governo "que mais fez pelos pobres na história deste país" etc. etc., e sem que se tocasse em momento algum no assunto ética ou corrupção, o PT divulgou uma nota em que dizia "solidarizar-se" com as famílias das quase 200 vítimas fatais da tragédia em Congonhas. Como se não bastasse, na mesma nota, os companheiros disseram "repudiar as tentativas de politizar" o episódio.

Que conversa mole é essa de que o desastre de Congonhas não tem nada a ver com política? Que papo furado é esse de não querer politizar a queda do avião da TAM? É claro que a questão é política! É claro que a tragédia de Congonhas precisa e deve ser politizada!

Foi o próprio PT que politizou a morte de duas centenas de brasileiros, ao tentar transformar a apuração das responsabilidades pelo desastre numa simples disputa eleitoreira com o PSDB (vejam a nota no site oficial do PT). Foram os lulo-petistas que politizaram a questão, ao tentar a todo custo esconder o que só cego ainda não viu: que o desastre do avião da TAM foi o resultado não somente da negligência da companhia aérea, conhecida por sua ganância e pela pouca preocupação com a segurança, mas também - e principalmente - da irresponsabilidade e do descaso governamental. O avião não se espatifou apenas porque estava com o reverso travado, ou porque o manete estava fora de posição, mas sobretudo porque a ANAC, a INFRAERO, os órgãos encarregados de fiscalizar e cuidar da infra-estrutura aérea do Brasil viraram verdadeiros valhacoutos de polítização e ideologização do serviço público, em que os companheiros se locupletam.

Sob o (des)governo do Grande Molusco, assistiu-se a um verdadeiro loteamento ideológico das agências estatais, para atender a objetivos partidários da companheirada. O resultado desse aparelhamento é que, no setor aéreo, a segurança tornou-se um item secundário, com a INFRAERO torrando uma montanha de dinheiro em azulejos novos para os aeroportos enquanto se esquecia de fazer as ranhuras nas pistas, por exemplo. Ou um alto funcionário da ANAC, pago pelos contribuintes para fiscalizar as empresas aéreas, viajando para alegres temporadas em Nova York às custas da empresa que se deliciava fazendo overbooking, certa de que a ANAC não faria nada a respeito. Não é preciso ser nenhum especialista em aviação para deduzir que disso não poderia vir coisa boa mesmo. Deu no que deu.

"Não politizar a questão", francamente... Se há um partido político que se especializou em partidarizar e politizar a gestão pública no Brasil, é o PT. Onde quer que tenham colocado a mão em um governo - federal, estadual, municipal - os companheiros petistas transformaram o aparelhamento da máquina pública, da coleta de lixo ao setor aéreo, em sua marca registrada. Pouco antes do acidente da TAM, os jornais anunciavam, em suas manchetes, a criação de mais de 600 cargos comissionados no governo federal, um verdadeiro sorvedouro de dinheiro público para acolher militantes, a maioria dos quais sem nenhuma outra qualificação para exercer um cargo público que não a carteirinha de filiação ao partido. E agora querem que simplesmente deixemos isso de lado?

Também quando era oposição, o PT fazia questão de partidarizar tudo que dissesse respeito à administração pública, de incêndios florestais em Roraima até a dengue em São Paulo. Os petistas politizaram o apagão elétrico, politizaram a violência urbana, politizaram o desemprego. Com que direito, depois de terem promovido um festival de patrulhamento ideológico e de partidarização da vida brasileira por quase trinta anos, desejam convencer-nos de que o que o que houve em Congonhas não tem nada a ver com o caos aéreo por eles criado? Com que direito ainda têm a coragem de pedir que acreditemos que é tudo culpa da TAM e de insinuar que quem não engole essa balela é um tucano empedernido?

É de se lamentar que quase 200 pessoas tenham tido que perder a vida para que toda a lambança dos companheiros petistas viesse à tona. E ainda querem falar em "não politizar" a questão? Esses petistas não têm mesmo a menor vergonha na cara.

quarta-feira, agosto 01, 2007

A CULPA É DO GOVERNO


Começou o jogo de empurra. As investigações sobre a tragédia do avião da TAM em Congonhas, um desastre há muito anunciado, viraram um espetáculo grotesco em que todos os envolvidos só querem fazer uma coisa: tirar o seu da reta. O "top, top, top" de Marco Aurélio Garcia deu o tom do que será visto nos próximos dias, semanas e meses: um festival de pilantragem, com os culpados tratando a todo custo de esconder sua culpa, misturando às suas desculpas esfarrapadas uma dose de sentimentalismo barato, vertendo lágrimas de crocodilo pelos quase 200 brasileiros que perderam a vida por causa da incompetência e da irresponsabilidade oficial, que agora tentam de todo jeito disfarçar.

Engana-se quem acha que da CPI do Apagão Aéreo ou de qualquer outra instância oficial sairá a verdade sobre o trágico acidente. Ninguém ali está interessado em apurar responsabilidades, em definir a culpa de quem quer que seja, em saber a verdade. A verdade está na cara, só não vê quem não quer.

De quem é a culpa?

A culpa é da TAM, que já deu mostras suficientes de sua irresponsabilidade movida à ganância, fazendo overbooking de suas passagens aéreas e descuidando da manutenção de suas aeronaves, entre outras práticas ilícitas.

A culpa é da ANAC, aparelhada pelo atual (des) governo lulista com companheiros mais interessados em suas relações perigosas com as empresas aéreas - entre as quais a TAM - do que com a segurança dos vôos ou das pistas.

A culpa é da INFRAERO, que, sob a batuta lulista, despejou milhões em reformas que incluíram a transformação dos aeroportos em verdadeiros shopping-centers, mas não se preocupou em colocar as ranhuras nas pistas ou em aumentá-las, dotando-as, por exemplo, de uma área de escape.

Finalmente, A CULPA É DO GOVERNO, que permitiu toda essa bandalheira, literalmente debaixo de suas barbas, e que, depois da morte de 200 pessoas, ainda tripudia das vítimas, regozijando-se, com gestos obscenos, com a notícia de que tudo pode ter sido causado por um defeito no reverso do avião ou por erro do piloto (o que, mesmo sendo verdade, não elimina sua responsabilidade principal pelo ocorrido). Ainda por cima, condecorando (!) o pessoal da ANAC, por seus supostos - para não dizer inexistentes - serviços prestados à aviação brasileira.

Não se espere, portanto, que alguém seja punido, que alguém venha a ser responsabilizado por mais esse crime. Sim, crime! Pois não se pode dar outro nome ao resultado totalmente evitável da negligência do Estado, que gerou a atual crise aérea, a qual já dura mais de dez meses. Só pode ser criminosa a omissão governamental diante da situação insustentável criada pelos controladores aéreos, assim como é digno de um Al Capone o deboche demonstrado por um Marco Aurelio Garcia ou uma Marta Suplicy. O governo é culpado, no mínimo, de assassinato. No caso, nem sequer de homicídio culposo, aquele sem intenção de matar, pois um governo que se acumplicia com as empresas aéreas e deixa de fazer o necessário para evitar o que ocorreu em Congonhas não pode alegar em sua defesa que agia sem a consciência da fatalidade de seus atos.

É esta a verdade, a pura e simples verdade, meus senhores e minhas senhoras. O Brasil está entregue a um bando de larápios e assassinos, a criminosos que, embalados por um delírio ideológico, por um anacronismo idiota, só querem salvar a própria cara, enquanto o povo, a classe média, a classe nem tão média, enfim, a população que se dane! Ou relaxe e goze, como disse cinicamente Titia Marta. Mas não esperem que nada disso apareça no relatório final da atual CPI do Congresso. Não esperem ver Lula, MAG ou quem quer que seja aparecendo na TV pedindo desculpas às famílias das vítimas e ao povo brasileiro, como faria qualquer funcionário do governo num país decente. Lula e seus comparsas já estão blindados contra tais inconvenientes, não fazendo outra coisa senão rir da cara dos trouxas que os elegeram e fugir de qualquer responsabilidade para preservar sua imagem. Deputados, governo e TAM já estão mancomunados, como sempre estiveram, para que no final tudo dê em nada: uma gigantesca pizza aérea. Com gosto de sangue.

segunda-feira, julho 30, 2007

POR QUE NÃO SOU NACIONALISTA


Quando eu era criança e estava na escola, era obrigado a participar de uma encenação que, com o tempo, aprendi a detestar. Todas as quintas-feiras à tarde, íamos, os alunos, em fila indiana até o pátio do colégio para assistir ao hasteamento da bandeira e cantar, com o peito estufado e a cabeça erguida, o hino nacional. Era uma época, em pleno governo do general João Figueiredo, último presidente do ciclo militar iniciado em 1964, de forte civismo. Lembro bem das aulas de Educação Moral e Cívica, disciplina criada para instilar nas crianças e adolescentes o amor à Pátria e o orgulho pelas próprias raízes (embora àquela altura já tivesse adquirido outros contornos, haja visto que a escola em que eu estudava adotava, para a matéria, um livro de Frei Betto). Tive que decorar a letra não só do hino de Osório Duque Estrada, com sua ordem invertida e seus floreios parnasianos, suas margens plácidas e raios fúlgidos, mas também, se bem me lembro, o da Bandeira, o da Independência e o da República (o meu favorito, pois era o único que falava em Liberdade)...

Naquela mesma época - para ser mais exato, em 1982 -, o Brasil viveu um dos momentos de maior exaltação patriótica de que se tem notícia, graças à Copa do Mundo na Espanha. Era uma época em que os grandes craques do futebol brasileiro - Zico, Sócrates, Júnior, Éder, Falcão - não pediam dispensa da seleção por causa de contratos milionários com times europeus. O "amor à camisa" falava mais alto do que os cifrões, e os jogadores eram mais famosos pelos gols que faziam do que pelos carrões de luxo ou pelas namoradas glamourosas que colecionavam. Foi num clima assim, de elevado espírito nacionalista, que assisti ao escrete canarinho comandado por Telê Santana encantar o mundo com um futebol que, desde então, jamais se repetiu e, desconfio, jamais se repetirá.

Foi a primeira vez que eu me lembro de ter sentido no peito aquilo que se convencionou chamar de orgulho patríótico. Assim como dez em cada dez brasileiros, de todas as idades, eu estava, naqueles dias, encantado: a seleção dava show nos gramados espanhóis, a taça do mundo, depois de doze anos de espera, parecia enfim ao alcance da mão (aos oito anos incompletos, eu não sabia ainda o que era ser campeão do mundo). O País inteiro estava embalado pela perspectiva de vitória. Éramos 120 mihões em ação, pra frente Brasil, um só coração, como dizia a música.

Então veio aquele jogo fatídico com uma desacreditada Itália, no estádio Sarriá. Um tal de Paolo Rossi fez três gols contra o Brasil, que só marcou dois, e aí acabou o sonho. Se alguma vez uma nação inteira caiu do cavalo, se um país chorou amargurado por uma derrota (aliás, imerecida), foi naquele dia. Como todos os meninos brasileiros, fiquei extremamente frustrado. Passei a odiar aquele italiano estraga-prazer, que havia tido a audácia de roubar o titúlo à melhor seleção brasileira que eu já vi jogar. Como todos os meninos brasileiros, fiquei uns dois dias chorando de raiva, totalmente inconsolável. Até hoje, a "tragédia de Sarriá" é assunto de conversa em muita mesa de bar, em rodas de amigos que já passaram dos trinta.

Com o tempo, à medida que se passavam os anos e as Copas do Mundo, comecei a enxergar a coisa com olhos mais críticos. Hoje, acredito que Paolo Rossi e a seleção italiana, com seu feio futebol de resultados, prestaram um serviço inestimável ao Brasil e aos brasileiros. Creio que, ao nos retirar da disputa pelo título mundial, os italianos cumpriram um papel importantíssimo para a elevação da consciência nacional: ao nos privar da cobiçada Copa do Mundo, a Itália impediu que, tal como ocorreu em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, os brasileiros ficassem anestesiados, entorpecidos, embotados por mais uma patriotada. A conquista da Copa seria apenas mais uma orgia narcísico-nacionalista embalada por sonhos de grandeza, a superdimensionar nossas supostas virtudes e esconder nossos inúmeros e graves defeitos. Ao nos fazer descer do salto e atingir profundamente nossa auto-estima, o revés de 82 teve um efeito extremamente benéfico para a consciência crítica do brasileiro. A derrota nos fez bem. Grazie, amici.
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Cheguei a essa conclusão depois de ter analisado a fundo o sentido do nacionalismo. Tenho pelo menos dois grandes motivos para não ser nacionalista. Um deles é político-filosófico; o outro é, se preferirem, estético.

Do ponto de vista político-filosófico, ir contra a maré do nacionalismo no Brasil significa contestar uma visão de mundo que insiste em transferir a fatores externos - a exploração das empresas multinacionais, o imperialismo etc. - a responsabilidade última de todos os nossos males. No decorrer do século XX, esta foi a ideologia oficial do Estado brasileiro, baseada na concepção varguista e terceiro-mundista que sempre associou desenvolvimento a intervencionismo e dirigismo estatal. Uma teoria evidentemente falsa, vide os exemplos dos ex-países socialistas do Leste Europeu ou da Etiópia, um dos países mais miseráveis do mundo e que, no entanto, jamais foi colônia de ninguém. Embora um pouco enfraquecida nos anos 90, essa visão voltou com força no governo Lula, estando profundamente arraigada em nosso subconsciente. O nacionalismo brasileiro tornou-se uma forma bastante conveniente de esconder as verdadeiras causas de nossos problemas e negar nossas responsabilidades. Logo, contestá-lo é contestar uma visão que está na base do nosso atraso.

Além disso, não ser nacionalista traz a vantagem de preservar o senso crítico, a capacidade de pensar independentemente da crença geral e da multidão. Há algo de imbecilizante, de inegavelmente infantil e irracional, na idéia de deixar-se levar irrefletidamente pelo entusiasmo da multidão por um símbolo ou um pedaço de pano, ainda mais se a única razão para tanto é o orgulho pelas próprias raízes. Ora, o orgulho pelas próprias raízes é um sentimento altamente excludente e deletério, que está na origem das piores tragédias e genocídios da história da humanidade. Foi em nome do orgulho pelas próprias raízes que sérvios, bósnios e croatas se massacraram nos anos 90. Foi em nome desse mesmo sentimento que ocorreram as duas grandes guerras mundiais. Sem falar na idéia de uniformidade, inerente ao discurso nacionalista, a qual praticamente elimina qualquer possibilidade de pensamento discordante e dissensão, a base mesma da democracia. Não é à-toa que todos os regimes totalitários são extremamente nacionalistas. O nacionalismo traz sempre embutida a idéia de superioridade, de que se é melhor que o outro, o que não raro leva a assassinatos em massa. Paradoxalmente, por trás desse sentimento de superioridade esconde-se, quase sempre, um indisfarçável complexo de inferioridade - afinal, se somos mesmo melhores, por que sentimos tanta necessidade de proclamar que o somos? A superioridade, como a liderança, não se proclama; exerce-se.

Esteticamente, há também fortes motivos para não ser nacionalista no Brasil. A começar pela bandeira nacional. Falando sério, já viram bandeira mais feia? Aquele losango amarelo, sob um fundo verde, com um círculo azul no meio... existe combinação mais esdrúxula? Não por acaso, nenhum outro país seguiu esse modelo em seu pavilhão nacional. E as cores? Os brasileiros adoram a bandeira brasileira, vestem-se com ela, beijam-na, mas quase ninguém conhece o verdadeiro significado do verde e amarelo. Pergunte a qualquer pessoa, mesmo as mais instruídas, e elas responderão que o verde simboliza as matas, e o amarelo, o ouro, forma bastante romântica de esconder a própria ignorância. Que matas, que ouro, que nada. Consultem os livros de História e lá encontrarão: o verde é a cor da Dinastia de Bragança, última Casa Real a governar Portugal, a qual pertencia D. Pedro I. O amarelo é a cor da Casa de Habsburgo, ramo ao qual pertencia a esposa austríaca do primeiro Imperador. O brasileiro só louva o que desconhece. E aquele lema, "Ordem e Progresso"? Nada mais positivista, nada mais autoritário. Sobra o azul e as estrelas, mas, aqui, a combinação não funciona: olhando-se de permeio, tem-se a impressão de que a bandeira nacional é uma rosca de parafuso, ou um exercício preliminar de geometria.

E o hino? Sim, o que dizer do nosso glorioso hino nacional? Acaso alguém sabe o que significa "garrida" ou "fúlgido"? E o "penhor dessa igualdade"? Não admira que quase nenhum brasileiro saiba a letra dessa canção estapafúrdia. Se ao menos ela dissesse alguma coisa inteligível... Por mais nacionalista que alguém seja, não poderá negar que, do ponto de vista estético, o hino brasileiro é um desastre, uma aberração, com letra incompreensível e acordes de ópera bufa italiana. Nada que se compare ao esplendor guerreiro da Marselhesa ou aos acordes, verdadeiramente belos, do hino norte-americano. Definitivamente, nossos bosques não têm mais vida. Nem nossas vidas mais amores.

Pode-se argumentar que o nacionalismo brasileiro é diferente, manifestando-se principalmente no esporte, em especial o futebol. Seria, portanto, um sentimento salutar, de congraçamento. Respondo que não há nacionalismo salutar, pois, mesmo no esporte - aliás, principalmente no esporte -, o que está em jogo não são algumas cervejas numa tarde de domingo, mas algo muito mais sinistro e irracional. Quando ouço a gritaria histérica de um Galvão Bueno por causa de um gol da seleção brasileira ou a insuportável choradeira por causa de um Ayrton Senna, me convenço que há algo intrinsecamente ruim nesse sentimento. Não raramente, ele degenera em briga e confusão. Foi uma partida de futebol, por exemplo, que deflagrou uma guerra inútil entre Honduras e El Salvador nos anos 60. Não há nada de bom nisso, assim como não pode haver nada de positivo em dividir a humanidade entre corintianos e palmeirenses, ou entre vascaínos e flamenguistas.

É claro que não ser nacionalista não significa renunciar a alguma forma de vínculo com a terra natal. Sentimentalmente, continuo ligado à cidade e à província em que nasci, mesmo morando longe há vários anos. Mas reconheço que, apesar de algumas qualidades, o lugar padece de sérios problemas, de graves vícios de formação, que um discurso ufanista apenas agravaria. Apontar esses vícios e essas deficiências é a minha maneira de desejar vê-los superados, tal como na famosa frase de Dostoievsky (ou seria de Gogol?): "se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia".

Há uma outra razão para não ser nacionalista. A época da Copa de 82 foi também de grande crise no Brasil. De recessão econômica e inflação galopante. Desconfio que, num clima assim, os governantes de plantão se aproveitariam de uma eventual conquista brasileira para colher os louros da vitória e fazer demagogia. Como fizeram em 1970. Como fizeram no Pan. O nacionalismo é uma praga. Não por acaso, segundo uma definição clássica, é o último refúgio do velhaco.

sexta-feira, julho 27, 2007

É A IDEOLOGIA, ESTÚPIDO!


A onda de indignação que tomou conta do País desde que vieram à tona as primeiras denúncias de corrupção na administração federal, e que atingiu o auge no apagão aéreo, poderia ser o começo de uma tomada de consciência cívica por parte do povo brasileiro, tão afeito a líderes populistas e tão avesso a coisas sérias. Poderia. Porque, infelizmente, é doloroso admitir, estamos diante de mais uma onda passageira de hipocrisia e farisaísmo, travestida de indignação moralista.

Convenci-me disso depois de ver, na abertura da cerimônia do Pan, as vaias ao Presidente da República. Aquele poderia ter sido um momento fatal para o atual (des) governo lulista. Poderia. Porque, na mesma cerimônia, os mesmos quase 90 mil indignados cidadãos que vaiaram estrepitosamente o Apedeuta bateram palmas entusiasmadas quando viram entrar a delegação de Cuba, ao mesmo tempo em que uivaram de reprovação à entrada da delegação norte-americana.

Aquilo me deixou encafifado, como se diz em minha terra. Como a mesma multidão que quase pôs o Maracanã abaixo quando foi anunciada a presença do Grande Molusco no estádio, a ponto de tê-lo impedido de ir ao microfone e anunciar oficialmente a abertura dos Jogos, aplaudiu até fazer calo na mão os representantes da ilha-prisão de Fidel Castro, enquanto vaiava os atletas de Tio Sam? Logo acendeu-se a luz de alerta. Tem algo estranho aí, pus-me a pensar. Não precisei queimar muitos neurônios para concluir: o problema é a ideologia, estúpido!

Sim, o problema é a ideologia. O que isso quer dizer? Quer dizer que os que vaiaram Lula e os atletas dos EUA ainda ignoram completamente - e, desconfio, continuarão a ignorar - um detalhe fundamental. Na verdade, mais que um detalhe, a própria essência desse (des) governo que está aí: que a corrupção lulista, os escândalos do Mensalão e do Valerioduto, o caos aéreo, o "relaxa e goza", o "top, top, top" de Marco Aurélio Garcia, as contínuas demonstrações de incompetência e de desrespeito ao povo brasileiro pelos companheiros, tudo isso não ocorre de forma isolada, não são fatos aleatórios. São, isto sim, produto de décadas de um elaborado, paciente, minucioso trabalho de infiltração e preparação ideológica por parte de um diligente e dedicado exército de intelectuais, jornalistas, artistas, empresários, políticos e ongueiros que, durante cerca de trinta anos, prepararam o terreno para a tomada do aparelho de Estado, a começar pela chamada "sociedade civil".

O objetivo desse trabalho de décadas não é outro senão transformar o Brasil e a América Latina num substituto da falecida URSS, de acordo com os pressupostos revolucionários do marxismo-leninismo (gramsciano). Tais objetivos estão consubstanciados no Foro de São Paulo, organização criada em 1990 por Lula e Fidel Castro para articular a ação dos partidos e grupos comunistas da América Latina, desde o PT até os narcotraficantes das FARC, e cuja simples existência é até hoje sistematicamente negada e camuflada pelos órgãos de comunicação (TV, rádio, revistas e jornais) - alguns deles até posam de oposição, mas na verdade trabalham para o governo (eu mesmo, até pouco tempo atrás, achava que essa conversa de Foro de São Paulo era só invenção paranóica do Olavo de Carvalho. Mas, depois de o próprio Lula em pessoa ter-se referido ao supostamente inexistente Foro, em discurso na cerimônia de formatura de minha turma no Itamaraty, em 2005, mudei de idéia e passei a dar mais atenção ao fato). Se a multidão que vaiou Lula soubesse disso, certamente não teria vaiado a delegação dos EUA. Muito menos aplaudido a de Cuba.

Os brasileiros ainda não se deram conta de que a roubalheira e a incompetência demonstradas diariamente pelos lulistas não ocorrem no vácuo, não vêm do nada. Vêm de um esquema político muito maior, do qual Lula e o PT são apenas uma peça, a qual pode ser facilmente substituída. É isso que explica a corrupção reinante nos altos e baixos escalões da administração lulista. Para atingir seus objetivos políticos, os petistas e seus aliados não hesitaram em levar ao pé da letra o lema "os fins justificam os meios". É isso também o que explica a ausência total de manifestações de massa contra o governo. É que, graças a esse trabalho de infiltração e de propaganda, os lulo-petistas conseguiram o monopólio das ruas, controlando as principais instituições da chamada "sociedade civil" (partidos, sindicatos, igrejas, ONGs etc.), às quais se soma, agora, o controle do aparelho estatal. Isso foi feito por anos a fio, de forma quase silenciosa, sem que nos déssemos conta. Tudo seguindo à risca os ensinamentos de Lênin e de Gramsci.

Os aplausos a Cuba e as vaias aos EUA, na mesma noite e na mesma ocasião das vaias a Lula, demonstram que o povo brasileiro (e não só a classe média) está totalmente confuso e desorientado diante do (des) governo Lula. Revelam que ainda não relacionou a corrupção e incompetência lulistas a suas raízes ideológicas. Sem fazer essa associação, sem ligar causa e efeito, a indignação ficará restrita a episódios de menor importância, como as frases de Tia Marta e o "top, top, top" de Marco Aurélio Garcia que, retirados de seu contexto ideológico, não passam de demonstrações de grosseria e de falta de educação. Enquanto a população não tomar consciência do que lhe vem sendo sistematicamente escondido há pelo menos dezessete anos, nenhuma vaia ou editorial indignado será capaz de abalar o curso desse esquema previamente montado. Em vez de se denunciar o plano totalitário levado a cabo há décadas, escolheu-se criticar os maus modos dos governantes. É o mesmo que criticar o carrasco por cuspir no chão.

SOB O DOMÍNIO DO DR. MABUSE


Estou ficando preocupado. Quando já me preparava para escrever mais um texto sobre o atual apagão aéreo, político e moral reinante no país, eis que esbarro no texto a seguir, que já diz tudo que eu queria dizer e ainda mais um pouco. Os que se importam com o mensageiro e não com a mensagem dirão que o texto foi retirado de um site "de direita" e que o autor é um comunista arrependido (como se reconhecer que esteve errado fosse demérito). Os que se interessam pelo conteúdo e consideram que mudar de idéia é sinal de inteligência ficarão gratificados. Transcrevo o texto, com alegria e com uma pontinha de inveja por não ter escrito antes algo tão incisivo.

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Oposição sentimentalóide


por Heitor De Paola em 23 de julho de 2007


Resumo: O Comandante da Força Aérea homenagear um dos maiores responsáveis pelo caos, poucas horas depois da maior catástrofe aérea da história defte paíf, enquanto a "oposição" se prende a detalhes absolutamente irrelevantes no grave contexto nacional, é um dos exemplos de como a realidade brasileira imita a ficção mais assustadora. © 2007 MidiaSemMascara.org


“Quando a humanidade, subjugada pelo terror do crime, for levada à insanidade pelo medo e pelo horror, e quando o caos se tornar a suprema lei, então terá chegado o momento para o império do crime”. Dr. MABUSE

Em 1933, o genial Fritz Lang usou estas palavras para definir sua idéia de um moderno terrorista, Dr. Mabuse. Lang concebeu este filme, “O Testamento do Dr. Mabuse”, baseado na iminente tomada do poder por Hitler e seus asseclas. O personagem, concebido pelo novelista Norbert Jacques, foi transposto para o cinema por Lang em 1924, quando produziu o primeiro filme da série, “Dr. Mabuse, o Jogador”, em duas partes, a segunda denominada “O Inferno do Crime”. Dizia Mabuse então: “Só resta uma coisa de interessante: jogar com as pessoas e seus destinos”. Quando seu império do crime desmorona, Mabuse enlouquece e é internado num manicômio em estado catatônico. Nove anos depois sai da catatonia e passa a escrever freneticamente milhares de folhas. O Diretor do manicômio, Herr Professor Doktor Baum, lê com grande interesse e aos poucos vai assumindo as idéias de Mabuse como suas, formando até mesmo uma quadrilha para executar suas ordens. Quando morre Mabuse, assume sua personalidade. Lang, um dos maiores mestres da cinematografia de todos os tempos, assim como sua roteirista e esposa Thea von Harbou, inclui uma memorável cena com o espectro de Mabuse incorporando no Dr. Baum.
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Era o louco tomando conta do hospício mas, diferentemente de Simão Bacamarte, seu interesse está definido na frase em epígrafe. Há método por trás da loucura; há planos traçados pela insanidade. Assim era o nazismo; assim é o comunismo; assim é o petismo. Mabuse foi profético.
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Enquanto o plano insano vai sendo implantado com método, o que faz a, a meu ver inexistente, oposição? Sentimentalóide e lacrimejante protesta indignada contra gestos obscenos de Marco Aurélio e seu capanga, e o “relaxa e goza” da Martinha! Que por ser sexóloga deve entender do que diz. Ora, por favor, senhoras e senhores que se dizem antipetistas! Querem combater o comunismo que já está em fase acelerada de implantação como nunca antes nefte paíf com pruridos moralistas pequeno-burgueses? Há aqueles que não sabem da missa a metade, vá lá, fazem por inocência mesmo. Mas quem conhece o método por trás de tudo isto e que se auto-proclama oposicionista, pretende derrubar a insanidade comunista exigindo educação e boas maneiras dos loucos que tomaram de assalto o hospício e o estão dirigindo?
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Esta é a oposição que o PT pediu a Deus! MAG, Marta e seus asseclas devem estar rindo, relaxando e gozando, depois dos pedidos de desculpas falsas, comemorando também as vaias do Maracanã onde quase 90.000 imbecis – o “quase” é porque certamente havia exceções – vaiaram a delegação americana e aplaudiram de pé a cubana. E as vaias ao Lula? Não têm a mínima importância porque o militante, mesmo sendo Presidente, não vale nada para eles; a causa está acima de tudo. E os aplausos aos cubanos revelam que o plano por trás da loucura está dando certíssimo: o Dr. Mabuse de Havana foi aplaudido e é isto que interessa. A oposição comemorou as vaias ao Lula? Ótimo, fiquem lavando a alma com estas besteiras – finalmente era a classe média mesmo porque os pobres que votam e continuarão votando no Lula não têm dinheiro para pagar os ingressos caríssimos cobrados para estar lá – enquanto nós vamos ampliando nosso poder. E com o apoio das Forças Armadas, pois num gesto muito mais revelador, a medalha ao Zuanazzi, demonstra claramente que a insanidade também tomou conta delas. O Comandante da Força Aérea homenagear um dos maiores responsáveis pelo caos, poucas horas depois da maior catástrofe aérea da história defte paíf, isto sim é de preocupar, assim como o aplauso ao Mabuse de Havana.
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Estes dois gestos são os mais significativos da semana que passou e não os de MAG e seu capanga que, convenhamos, quantos dos críticos já não os fizeram en petit comité? Não é à toa que a imprensa capacho está relaxando e gozando: a falsa indignação no Globo de hoje (21 de julho) do serviçal Merval Pereira e do comunista Zuenir Ventura – certamente multiplicada por todos os demais defte paíf – reflete muito bem como estes protestos estão sendo recebidos pela mídia chapa branca.
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Fui possivelmente o primeiro a alertar, aqui neste veículo eletrônico, de que o grande perigo não estava em Lula, nem em Dirceu, nem em Berzoini, nem em Palocci, mas no verdadeiro poder por trás de tudo: Marco Aurélio Garcia. Nas listas de discussão às quais eu pertencia à época das revelações bombásticas do Roberto Jefferson, quando as pessoas exultavam que “agora o Lula cai”, eu fazia diariamente a pergunta: cadê o MAG? Devo ter enchido a paciência de muita gente com a repetição ad nauseam deste estribilho, Cadê o MAG? Não é por birra, é porque conheço o MAG desde a época em que eu era um idiota útil da Ação Popular lá no sul, em 1963. Talvez até o tenha encontrado pessoalmente alguma vez, não sei, mas seu nome era bem conhecido desde então.
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Exilado no Chile e participante ativo do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), organização terrorista chilena, foi o intermediário entre Allende e Fidel Castro no contrabando de armas cubanas para “defender a revolução socialista” no Chile (Estado de São Paulo, 6/1/2000). Em 1990, por ordem de Castro, convocou para um encontro em São Paulo todos os grupos esquerdistas da América Latina e do Caribe. Compareceram representantes de 48 partidos comunistas e grupos terroristas que se reuniram no Hotel Danúbio, na Capital. Estava fundado o Foro de São Paulo, organização que desde então coordena toda a esquerda na região com a finalidade precípua e declarada de retomar na AL o que foi perdido no Leste Europeu. Os co-Presidentes são Fidel Castro e Lula; MAG é o Secretário Executivo e ocupa um dos principais gabinetes vizinhos ao de Lula no Palácio do Planalto, de onde controla e coordena todos os grupos guerrilheiros e terroristas desde o Rio Grande até a Patagônia. Declarou em entrevista ao Le Monde que “as eleições democráticas são uma farsa, unicamente um passo para a tomada do poder de uma nação”. Além de ativista é um teórico respeitado nos círculos comunistas internacionais. Um dos seus artigos corre mundo: “O Manifesto e a Refundação do Comunismo” (in Teoria e Debate, 26/01/2001) onde declara expressamente: “Nossa agenda é clara. Se o novo horizonte que buscamos ainda é chamado de comunismo, é hora de reconstruí-lo”.
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E querem censurá-lo por gestos obscenos e pela insensibilidade em relação às 200 vítimas do Airbus da TAM, logo um cúmplice do assassinato de 100 milhões de pessoas? Ora, façam-me o favor. Assim Mabuse completará a profecia: já está sendo instalado no Brasil os Mil Olhos do Dr. Mabuse, último filme da trilogia: os mil olhos da PF, da Receita, das leis anti-homofóbicas e anti qualquer coisa que sirva para amarrar as mãos de todos, como nunca antes nefte paíf.
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O caos reinante nefte paíf não é fruto da incompetência, mas do plano bem urdido para chegar ao estado em que o Dr. Mabuse e sua gang tomarão o poder. A explicação para todos os estados caóticos que vêm ocorrendo está lá em cima, na epígrafe. Lá, também, as pessoas bem educadas lastimavam os “maus modos” das Sturm Abteilungen (Tropas de Assalto Nazista). Pois a mensagem que a “oposição” está mandando, ao reclamar dos maus modos, é: com vaselina pode!
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O autor é escritor e comentarista político, membro da International Psychoanalytical Association e Clinical Consultant, Boyer House Foundation, Berkeley, Califórnia, e Membro do Board of Directors da Drug Watch International. Possui trabalhos publicados no Brasil e exterior. E é ex-militante da organização comunista clandestina, Ação Popular (AP).

quarta-feira, julho 25, 2007

LIÇÕES DE UMA VAIA, OU O INCRÍVEL PRESIDENTE QUE SUMIU


A monumental vaia ao Grande Molusco no estádio do Maracanã, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, assim como a reação apalermada de Lula ao acidente da TAM em Congonhas, alguns dias depois, trazem lições bastante valiosas para compreender isso que aí está e que, na falta de palavra melhor, convencionou-se chamar de governo.

Primeiro, a vaia. Tornou-se comum dizer que a popularidade de Lula repousaria no assistencialismo e no paternalismo estatal às camadas mais pobres, felizes em sua ignorância, contentes por ganharem 60 reais por mês de esmola do, vá lá, governo. Nesse sentido, os apupos ao supremo mandatário da nação, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos, teriam sido uma demonstração da classe média, de gente que lê jornal e viaja de avião. Outros, como o ministro do Esporte, preferem o caminho mais fácil e dizem que foi tudo uma coisa orquestrada, culpando o César Maia. Além do mais, no Maracanã, dizem, vaia-se até minuto de silêncio.

Tais explicações, obviamente, não procedem. Pelo simples motivo de que a popularidade de Lula não se deve somente aos miseráveis, que pelo menos podem dizer que têm um, vá lá, governo chefiado por um indivíduo ainda mais ignorante do que eles. Deve-se, acima de tudo, a décadas de trabalho minucioso de preparação ideológica, do qual fizeram parte também setores importantes da mídia e das elites - sim, da mesma "zelite" que Lula durante tanto tempo fustigou como culpada de todos os males defte paif. Foram esses mesmos companheiros que deram corda ao mito do ex-metalúrgico, o qual durante trinta anos acostumou-se a ser elogiado, adulado, bajulado, afagado de todas as maneiras possíveis pela mesma burguesia oportunista que sempre mamou nas tetas do Estado-patrão, do Estado-provedor, do Estado-empresário brasileiro. São os empreiteiros que fizeram a festa com os trabalhos do Pan, superfaturando milhões com a construção de megaestádios e vilas olímpicas. São os seus cortesãos, aqueles que sempre sentam na frente nas cerimônias oficiais, que aplaudem com mais entusiasmo cada palavra do Apedeuta como se fosse a Verdade revelada saída da boca do messias encarnado. Esses setores da classe alta estão felicíssimos com o, vá lá, governo Lula.

Para além das explicações simplistas, padrão luta de classes, dos lulistas, o que me chamou a atenção foi o jeito como Lula e seus asseclas encararam o episódio. Mais especificamente, como Lula empalideceu diante da vaia gigantesca. Quem assistiu à cena na TV sabe: Lula estava lívido. Ele simplesmente não podia acreditar que aquelas vaias, aqueles assovios de reprovação, eram para ele, Luiz Inácio. O rosto encrispado de Lula, o sorriso amarelo, o constrangimento, dele e de seus assessores, lembraram-me a cena do ditador romeno Nicolae Ceaucescu, diante daquela manifestação inesperada da oposição, que deflagrou o movimento popular que resultou em sua queda e fuzilamento, em 1989. Assim como Ceaucescu, Lula foi pego totalmente de surpresa. Assim como o ditador romeno, ele esperava ir para uma festa, oficial e bem-comportada, onde seria protocolarmente ovacionado, e não estrepitosamente vaiado. "Por que não me amam?", deveria estar pensando Lula, assim como Ceaucescu, quase vinte anos antes. Lula estava paralisado pelas vaias, tanto que desistiu de ir ao microfone e declarar abertos os Jogos. Com medo de que a cena se repita, também já anunciou que não vai à festa de encerramento. Acovardou-se. Amarelou.

Agora, o acidente da TAM. Todos viram, ou melhor, não viram, a reação do, vá lá, governo após o avião espatifar-se em Congonhas. A reação de Lula foi semelhante a que teve no Maracanã: recolheu-se, escondido, só se pronunciando sobre o desastre três dias depois. Aconselhado por seus marqueteiros, fez um discurso chocho, vazio como todos os seus pronunciamentos, virando o rostinho para cá e para lá, para melhor enquadrar na câmera e tentar dar mais ênfase àquilo que dizia: nada. E só. No resto do tempo, escolheu o caminho mais fácil. Sumiu. Desapareceu. Escafedeu-se.

Essas demonstrações explícitas de tibieza e de covardia por parte de quem supostamente deveria estar no comando do País, assim como o "top, top, top" de Marco Aurélio Garcia, não me causaram surpresa. Lula já demonstrou em diversas ocasiões sua incapacidade de suportar críticas e enfrentar situações adversas. É assim hoje, com as vaias no Maracanã e com o apagão aéreo, assim como foi sempre. Nas últimas eleições presidenciais, lembremos, ele fugiu o quanto pôde do debate com os demais candidatos. Antes, em 2002, dera mostras claras de nervosismo, sempre que instado a responder alguma pergunta mais embaraçosa. Já como presidente, adiou até não mais poder a primeira entrevista coletiva de imprensa. Sem falar nas várias tentativas de controlar a mídia, que vão desde a expulsão de um jornalista estrangeiro até querer impor a censura aos meios de comunicação. Não por acaso, o verbo que mais se aplicou a Lula nesses últimos tempos foi "blindar" - depois de décadas de endeusamento de sua personalidade, que resultou na criação do maior mito político da História nacional, Lula cercou-se de assessores e marqueteiros, que trataram de a todo custo blindá-lo contra qualquer crítica, isto é, de preservar o mito contra a realidade. O que Lula e sua turma querem não é o debate, não é enfrentar responsabilidades. É aplauso. Como os ditadores, querem ser amados, não cobrados ou contestados.

Daí a surpresa de Lula diante das vaias no Maracanã e a paralisia que o acometeu após a tragédia em Congonhas, à qual se soma a falta de ação do, vá lá, governo desde que surgiram os primeiros escândalos de corrupção. Daí também que os discursos de Lula soem tão ocos, tão vazios de significado. Já tive a oportunidade - o.k., oportunidade não é bem a palavra, mas vá lá - de assistir ao vivo a alguns discursos de Lula. É sempre a mesma ladainha, a mesma lengalenga, o mesmo arrastar infinito de chavões e lugares-comuns. Quando, em alguma cerimônia oficial, tem que ler algum texto cuidadosamente preparado por algum assessor, tarefa que considera tão penosa quanto caminhar de esteira, Luiz Inácio mostra um enfado e um tédio gigantescos, falando monotonamente, esbarrando nesta ou naquela palavra mais complicada. Quando, diante de um microfone, fala de improviso, mostra um desembaraço surpreendente: agita-se, transforma-se, gesticula, esbraveja, arregala os olhos, eleva a voz, como um pastor num púlpito, dando-se o direito até mesmo de distribuir conselhos sobre a vida sexual dos cidadãos. Observando com mais atenção, pode-se mesmo vislumbrar um fio de saliva escorrendo no canto de sua boca. Há algo de intrinsecamente neurótico, de essencialmente histérico, nesses rompantes verborrágicos, nos cacoetes verbais, nos "sabe" e "ou seja", nas expressões às vezes chulas, nas caras e bocas que faz nosso presidente. É a contrapartida carismática da blindagem populista, o disfarce retórico da incompetência e da fraude.
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Certa ocasião, Winston Churchill, que acabava de assumir o cargo de primeiro-ministro, foi vaiado pela multidão. Sem se deixar abater, mostrando toda sua fleuma e presença de espírito, ele respondeu: "Grande é o povo que pode vaiar seu primeiro-ministro. Grande é o povo cujo primeiro-ministro vem a público prestar contas do seu governo e é vaiado". Logo as vaias se converteram em aplausos. Também pudera. Aquelas eram palavras de um estadista. Não de um arrivista despreparado e covarde.
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P.S.: Ainda não cheguei ao ponto de afirmar, como Olavo de Carvalho, que a destruição das instituições do Estado a que estamos assistindo - inclusive da infra-estrutura aérea - é parte deliberada e inseparável do esquema gramsciano-comunista de tomada e manutenção do poder. Mas, diante de tantas mostras explícitas de incompetência e descaso, assim como das repetidas fugas à responsabilidade de Lula e seus asseclas, estou começando a pensar em mudar de idéia.

segunda-feira, julho 23, 2007

A GRANDE CURRA LULISTA

Alguns anos atrás, quando eu ainda era estudante no Instituto Rio Branco, assisti a uma palestra de Marco Aurélio Garcia. O tema da palestra, se não me engano, era política internacional da América do Sul. Na ocasião, fiz a seguinte pergunta ao dignissímo ex-professor da Unicamp e assessor especial da presidência da República: por que o governo brasileiro não reconhecia os grupos armados que atuam há décadas na vizinha Colômbia (não citei especificamente nenhum deles), responsáveis por dezenas de milhares de mortes e pela instabilidade crônica na região, como terroristas?

Visivelmente incomodado, até mesmo irritado com pergunta tão inconveniente, ainda mais vinda de um mísero e insignificante terceiro-secretário, o professor Marco Aurélio Garcia respondeu mais ou menos assim: se o Brasil reconhecesse os grupos colombianos como terroristas, como gostaria o governo Bush e o próprio governo de Bogotá, iria certamente entrar numa encrenca danada, seria acusado de ingerência nos assuntos de um país vizinho, a guerra civil e o narcotráfico na Colômbia eram assunto exclusivo dos colombianos etc. etc. Em outras palavras: o Brasil não tinha nada a ver com aquilo e ponto final. Era a maneira de ele dizer que não gostou da pergunta e de me mandar calar a boca.

Quinta-feira passada Marco Aurélio Garcia foi pego em flagrante por uma câmera de TV fazendo o caractéristico gesto de top, top, top após ter visto reportagem do Jornal Nacional sobre o acidente do avião da TAM em São Paulo, que resultou em quase 200 mortos. A seu lado, um assessor fazia outro gesto bem conhecido, imitando uma curra. Estavam com isso, as imagens sugerem, comemorando a notícia, que dizia que o acidente poderia ter sido causado por um defeito no avião e, logo, o governo não teria nenhuma responsabilidade pelo ocorrido - o que, diga-se, só pode ser verdade em suas mentes fantasiosas. Assim acreditavam, é o que mostram as imagens, festejando que o governo não teria nada a ver com o desastre e estaria, assim, tirando o seu da reta. Pior para a companhia aérea, pensavam. Comemoravam. Celebravam. Top, top, top. Crau!

A cena ficará registrada para sempre como um dos momentos mais infelizes de um dos governos mais infelizes da História do Brasil. Quem melhor a definiu foi o senador Pedro Simon que, apesar de fazer parte do PMDB, que compõe a base política do governo, ao que parece ainda não perdeu o senso de decência. Em entrevista à TV, surpreendido com as imagens, Simon classificou a cena como grotesca e cruel, uma verdadeira afronta à dor que centenas de famílias brasileiras estão sentindo. Uma indecência, em todos os sentidos.

Observando as imagens, é impossível não concordar com Pedro Simon. A cena é realmente repugnante, nojenta, e expressa, em sua silenciosa eloqüência, todo o escárnio e deboche com que o governo Lula vem tratando a questão do caos aéreo. É semelhante, em grosseria e cinismo, ao "relaxa e goza" da embotocada Marta Suplicy. Ou às imagens revoltantes dos funcionários da ANAC rindo (!) a cem metros dos cadáveres calcinados e dos escombros do acidente do avião da TAM no aeroporto de Congonhas. Mas, ao contrário do ilustre senador, não fiquei nem um pouco surpreendido com o gesto de Marco Aurélio Garcia. Afinal, alguém que se nega a reconhecer os narcotraficantes das FARC como terroristas é perfeitamente capaz de fazer top, top, top com a desgraça alheia.

Também não fiquei nem um pouco surpreso com a reação destemperada e cretina do assessor especial de Lula, no dia seguinte à divulgação das imagens. Furibundo, Marco Aurélio Garcia chegou até a publicar uma nota oficial, em que se dizia "indignado" pela tentativa de "manipulação" de uma - foi o que disse - reação "privada", através de imagens captadas - afirmou - de "forma clandestina". Com isso, queria aparecer como vítima de uma armação, de um complô das elites e da mídia, tentando convencer a todos de que o que viram não foi nada daquilo. Mais ainda: o gesto - top, top, top - foi apenas uma reação "privada", gente... Que tenha sido feito por um funcionário de primeiro escalão do atual governo e - top, top, top - dentro de seu gabinete, a poucos metros da sala do presidente da República, é algo que parece não perturbar a lógica implacável do professor Marco Aurélio Garcia. Reação privada, rárárá.

É assim que os lulo-petistas tratam a coisa pública no Brasil. Infelizmente para eles, as câmeras da imprensa brasileira ainda não estão a seu serviço. Top, top, top pra você, Marco Aurélio Garcia.

P.S.: Pesquisando na rede, encontrei o texto a seguir, com informações bastante interessantes sobre Marco Aurélio Garcia. O texto, retirado de um site venezuelano, é de 27 de dezembro de 2002, e tem um título dos mais sugestivos: "El brasileño que gana tiempo para Chávez. Sus vínculos terroristas y con Saddam". Vale a pena dar uma olhada: http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://militaresdemocraticos.com/articulos/20021227-01.jpg&imgrefurl=http://militaresdemocraticos.com/articulos/sp/20021227-03.html&h=201&w=140&sz=8&hl=pt-BR&start=6&um=1&tbnid=qo6RZOVT5pk7IM:&tbnh=104&tbnw=72&prev=/images%3Fq%3DMarco%2BAur%25C3%25A9lio%2BGarcia%2B%26svnum%3D10%26um%3D1%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DG

sexta-feira, julho 20, 2007

A DOR E A FÚRIA


Muitas vezes faltam palavras para expressar toda a raiva e indignação que sentimos, diante de uma catástrofe como a que se abateu sobre o País nos últimos dias.

Tinha até pensado em colocar na tela do computador um pouco desse sentimento. Mas, depois de ler o texto que vai a seguir, percebi que outro já fez melhor do que eu poderia fazer.

Saiu no Jornal de Hoje, pequeno diário da pequena cidade que me serviu de berço, Natal/RN, edição digital de 20/07. Seu autor é o colunista Alex Medeiros, que a partir de hoje ganha um admirador à distância. É a minha singela homenagem às vítimas da incompetência assassina e do descaso irresponsável, transformados em política oficial de Estado na República Lulista do Brasil:
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"DROGA DE GOVERNO

A ministra do Interior da Inglaterra, Jacqui Smith, de 44 anos, pediu perdão aos ingleses por ter fumado maconha na juventude, durante os tempos de vida estudantil na Universidad de Oxford, lá pelos anos 80.

Ah, quem dera, se o único deslize do lulo-petismo fosse apenas as sessões de baseados que a turba hoje no poder participou em priscas eras. Quisera que o único erro dos petistas fosse só rodar uns fininhos numa discussão sobre Lênin ou filme de Godard.

A imprensa internacional, a mesma que repercute agora o pedido de perdão de Smith, também analisa a tragédia em São Paulo com o vôo da TAM. E como a mídia mundial não usa slogan do tipo “é mais Brasil”, oferece mais lúcido jornalismo.

Há, sim, uma ponte (aérea ou não) entre o trágico episódio de Congonhas e o acidental governo do senhor Luiz Inácio. Um governo que lançou uma nação inteira num apagão de proporções técnicas e morais. Um governo relaxado.

A administração Lula é um conjunto de ações apagadas, infelizmente acesas por luzes publicitárias de uma polpuda verba oficial que alimenta os cofres da grande imprensa e ilude cidadãos desavisados, alguns dispostos a se acumpliciar com as mentiras bem pagas.

Não consigo olhar para essa foto da família Cunha, estampada nas capas dos nossos jornais e na tela das TVs, sem lembrar com nojo o comentário imbecil e escroto da ministra do sexo-turismo, a beldade sexagenária Marta Suplicy.

Repugnância maior ainda ao lembrar do ministro Guido Mantega quando verto lágrimas como se fosse para um filho olhando os rostinhos de Caio Felipe e Ana Carolina, as crianças mortas no vôo da TAM e que estudam na mesma escola dos filhos de tantos leitores. ..."

Não pude ter acesso à íntegra do texto acima, restrita aos assinantes do jornal. Mas não é preciso. Não conheço Alex Medeiros. Mas ele já deu muito bem conta do recado. Parece que há uma luz no fim do túnel, afinal.

segunda-feira, julho 16, 2007

UM CONTO DE DUAS TRAIÇÕES



Em 26/01/1969, o capitão do exército Carlos Lamarca fugiu, juntamente com mais dois militares, do quartel de Quitaúna (SP), onde servia. Levou consigo uma Kombi com 63 fuzis, várias metralhadoras e farta munição, que foram entregues a duas organizações da esquerda radical que praticavam a luta armada contra o regime militar instaurado no Brasil em 1964.

Lamarca abandonou as Forças Armadas que jurara defender para se juntar à guerrilha, primeiro como militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), depois do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Como tal, participou de várias ações armadas, como assaltos a bancos, seqüestros de diplomatas e assassinatos, tendo sido o responsável direto, pelo menos, por três mortes: a de um guarda civil, de um tenente da PM/SP - executado a coronhadas de fuzil depois de ter sido capturado - e de um segurança do Embaixador da Suiça, fuzilado quando tentava impedir o seqüestro do mesmo. Em 17/09/1971, a trajetória de Lamarca, ou "Cid", ou "Daniel", ou "Cirilo" - nomes que usava na clandestinidade - chegou abruptamente ao fim, no sertão da Bahia, na forma de uma rajada de metralhadora desferida pelos agentes da repressão, a qual pôs termo à sua vida, juntamente com a do militante que o acompanhava.
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Recentemente, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça resolveu promover o ex-capitão Carlos Lamarca, "Cid", ou "Daniel", ou "Cirilo", à patente de coronel. Com isso, sua viúva passou a ter o direito de receber uma pensão equivalente a de general-de-brigada e seus filhos, que foram com ela para o exílio em Cuba após a deserção do marido, receberão a bolada de 100 mil reais cada, a título indenizatório. Em 1995, a Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça, criada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, já havia reconhecido que Lamarca fora morto sem chances de defesa, tendo concedido a sua família uma indenização de 150 mil reais, em valores da época, pelo ocorrido.

A indenização a seus familiares e a promoção póstuma de Lamarca causaram furor e indignação nas Forças Armadas, em particular entre antigos militares que participaram do combate às guerrilhas. Estes as consideram um acinte, um deboche às vítimas do terrorismo. Para eles, Lamarca é um traidor.
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José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, foi o líder da revolta dos marinheiros que, em 25/03/1964, ao marcar a quebra da hierarquia e da disciplina nas Forças Armadas, foi o estopim do golpe militar que derrubou o governo João Goulart, uma semana depois. Preso após o golpe, ele fugiu da prisão para exilar-se no Uruguai e depois em Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha. Ao retornar ao Brasil, depois do AI-5, foi novamente preso em 30/05/1971, desta vez pela equipe do delegado paulista Sérgio Fleury. Nessa ocasião, segundo seu depoimento ao jornalista Percival de Souza (Eu, Cabo Anselmo, São Paulo: Ed. Globo, 1999), Anselmo foi torturado e colocado diante de uma escolha: ou aceitava colaborar com as forças da repressão ou seria morto por seus captores. Ele aceitou a primeira opção, tornando-se um agente infiltrado na VPR, que ajudou a destruir, levando à morte vários de seus companheiros de luta armada, entre os quais sua própria mulher na época, a qual, dizem os sobreviventes da esquerda radical, estaria grávida dele. Desde então, Anselmo vive escondido, com novo rosto e identidade falsa, temendo por sua segurança.

Recentemente, o Cabo Anselmo voltou às manchetes, ao requerer junto à mesma Comissão que promoveu postumamente Lamarca o direito a ser indenizado, pois, como argumenta, foi também vítima da repressão, tendo sido expulso da Marinha em 1964 e perdido seus direitos políticos. Seu caso foi, inclusive, retratado no programa televisivo Linha Direta, da Rede Globo.

O pedido de indenização de Anselmo causou furor e indignação entre a esquerda, em particular entre os sobreviventes da guerrilha. Estes o consideram um acinte, um deboche às vítimas da ditadura. Para eles, Anselmo é um traidor.

Os casos de Lamarca e de Anselmo demonstram o viés claramente ideológico que tomou a disputa pela memória dos "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil, bem como da polêmica questão das indenizações às vítimas do regime de 64. Tal viés é demonstrado de forma cabal no tratamento diferenciado dado a cada um: Lamarca, o desertor e traidor do exército, que escolheu o terrorismo e o comunismo em vez da farda, o militar que se desiludiu com os rumos da ditadura no Brasil e se converteu em revolucionário pró-Cuba, é louvado pela esquerda como herói e mártir da luta pela democracia (sic); Anselmo, o traidor da VPR, o ex-marinheiro que se tornou guerrilheiro e então, após ter sido preso e também por desilusão ideológica, algoz de seus próprios camaradas de luta, é quase universalmente execrado como paradigma de traição vil, de canalhice e covardia abjeta. A ponto de, ao requerer indenização, ser tratado como um reles oportunista e não ousar, mesmo após a Lei de Anistia e a redemocratização, mostrar o rosto na rua.

Há muita hipocrisia nisso tudo. Primeiro, porque, sim, Anselmo foi um traidor, e foi responsável por várias mortes no meio da esquerda armada, mas não menos do que foi Lamarca em relação ao exército. Segundo, porque, pelos próprios critérios da esquerda, ele foi, sim, vítima da ditadura, pois teve os direitos políticos cassados em 64, logo tem também direito a ser indenizado. Terceiro, porque a Lei de Anistia de 1979 perdoou os crimes dos dois lados, e não somente os cometidos pela esquerda - pode-se criticar o caráter recíproco da Anistia, mas não se pode pretender, em são juízo, revogá-lo, sob pena de se demolir todo o arcabouço jurídico posterior, que deu origem à própria Lei dos Mortos e Desaparecidos Políticos (Lei 9.140/95), tão cara hoje às esquerdas, as mesmas que se enchem de indignação ao verem o Cabo Anselmo requerendo tratamento de ex-perseguido político.

Assim como Anselmo, há vários remanescentes da luta armada com sangue nas mãos, alguns deles hoje ocupando importantes cargos públicos, e nem por isso se ouve gritaria semelhante contra o tratamento favorável que lhes é dispensado. Não duvido que, caso fosse vivo, Lamarca estaria em algum ministério, como Marco Aurélio Garcia ou Dilma Rousseff. Outros militantes que participaram de ações violentas, como Fernando Gabeira e Carlos Mariguella, são reverenciados como símbolos ou heróis da resistência democrática, embora esteja claro que não lutavam pela democracia, mas por um tipo de ditadura revolucionária, como bem observou Elio Gaspari. Por que então essa indignação quanto ao Cabo Anselmo?

A verdade é que se confundiu, desde a Lei de 95, indenização com premiação por serviços prestados à causa esquerdista. Até o momento, somente foram agraciadas as famílias daqueles que lutaram contra ou foram, de alguma forma, vítimas da ditadura militar. Isso significa um duplo padrão ideológico, claramente discriminatório, baseado na falsa idéia bastante difundida de que a violência política dos anos 1964-1979 foi de mão única, ou seja, que só houve vítimas da repressão, de um lado, e seus algozes, os meganhas e torturadores, de outro. Ficaram de fora, assim, os cerca de 100 mortos em ações perpetradas pela esquerda armada, vários deles simples traunseuntes ou trabalhadores inocentes, como o guarda civil abatido a tiros por Lamarca. É o caso, também, das vítimas dos "justiçamentos" (assassinatos cometidos pela esquerda), algumas delas - pelo menos quatro, segundo levantamento feito por Jacob Gorender, mais um caso na chamada Guerrilha do Araguaia - militantes assassinados a sangue-frio por seus próprios companheiros de luta armada, em geral por mera suspeita de traição, jamais confirmada. Não por acaso, uma revista de grande circulação nacional batizou as indenizações de "Bolsa-Terrorismo".

O próprio Cabo Anselmo quase foi alvo de uma dessas ações homicidas. Só não foi fuzilado por seus companheiros de guerrilha porque estes foram todos capturados e mortos pela repressão, na chacina da Chácara São Bento, em Abreu e Lima (PE), em 1973. Nenhum desses "justiçados" - todos, ressalte-se, sem culpa formada - está incluído em nenhuma lista de mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar no Brasil, nem seus parentes foram até hoje indenizados por suas mortes.
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O fascínio pelos "anos de chumbo" no Brasil só não é maior do que a tendência a romantizar a luta armada e satanizar os militares. Na verdade, os militantes das organizações que pegaram em armas contra o regime militar não o fizeram por serem democratas, mas porque desejavam ir à desforra pela derrota de 1964. Não queriam a democracia, não lutavam pela liberdade; lutavam, isto sim, para substituir uma ditadura por outra, revolucionária e anticapitalista, certamente antiamericana, nos moldes de Cuba ou da China de Mao Tsé-Tung. Pretendiam conseguir pela violência o que não foram capazes de alcançar por meios legais e pacíficos. Se vencessem, não duvidem: em vez de um regime autoritário de direita, teríamos uma ditadura totalitária de esquerda. Em vez de anos de chumbo, rios de sangue, como afirmou Roberto Campos.
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O problema, nessa questão, é o maniqueísmo, a tendência a enxergar apenas um lado da moeda. Nem os guerrilheiros foram todos anjos de heroísmo e bravura, nem os militares foram todos monstros de crueldade e selvageria como são geralmente pintados pelas esquerdas, e vice-versa. A repressão foi feroz? Foi. Houve tortura? Houve. Prisioneiros foram massacrados e assassinados covardemente? Foram. Mas nada disso se compara, em alcance, intensidade e duração, ao que existiu nos países do bloco comunista, como a ex-URSS, a China, Cuba ou a Coréia do Norte, que eram vistos como modelos e fontes de inspiração - quando não de treinamento e recursos materiais - pela guerrilha. Isso significa que os crimes cometidos pelas ditaduras de direita, por terem sido comparativamente menores do que os das ditaduras de esquerda, devem ser justificados e esquecidos? Nada disso. Mas nenhuma pessoa séria e honesta, se não quiser passar por parcial e facciosa, pode dar-se ao luxo de ignorar essa diferença essencial quando se analisa a questão das indenizações às vítimas do período.
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Portanto, se a Comissão de Anistia houve por bem agraciar a família de Lamarca, não há razão alguma, sob pena de grave hipocrisia ou favorecimento ideológico, de deixar de fazer o mesmo em relação ao Cabo Anselmo. As vítimas deste último já foram, de certa forma, compensadas por sua traição. As de Lamarca, não. A Justiça está sendo feita pela metade.

sexta-feira, julho 13, 2007

REPÚBLICA DOS COITADINHOS

Renan Calheiros disse que está sendo vítima de preconceito porque é nordestino. Disse também que querem derrubá-lo porque não conseguiram derrubar o Presidente Lula, outro nordestino como ele. O senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), nordestino como Lula e Renan, em defesa de seu(s) conterrâneo(s) e aliado(s), foi mais além: quase ninguém no Senado tem autoridade para falar em ética, afirmou, querendo dizer com isso que só quem tem moral para falar no assunto é ele e Renan.

Quer se dar bem no Brasil lulista? Faça pose de vítima. Quer se livrar de acusações de corrupção, depois de ter sido pego com a boca na botija? Diga que é tudo preconceito por você pertencer a alguma minoria - geográfica, racial, sexual - e você terá uma boa chance de se safar. Aproveite e diga que ninguém é melhor do que você, atirando lama nos que o acusam. Desse modo, todos enlameados, ninguém vai ser capaz de lhe distinguir dos seus acusadores e tudo vai ficar como está.

Durante algum tempo resisti a escrever algo sobre o caso do senador Renan Calheiros. Por uma questão de higiene. Afinal, o assunto já está fedendo - literalmente -, sendo constantemente repetido na mídia. Por seus ingredientes, que incluem um lobista camarada, sempre disposto a pagar as contas pessoais do dito senador, uma ex-amante bonitona e uma filha fruto de uma pulada de cerca, o caso mais parece enredo de novelão mexicano. Mas diante dos argumentos utilizados pelo excelentíssimo senhor Presidente do Senado e por seus aliados, percebi que a coisa é um pouco mais complicada. Ou mais simples, dependendo do ponto de vista.

As desculpas de Renan são a culminação de toda uma mentalidade que tem sido imposta, diuturnamente, à sociedade brasileira desde a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, e mesmo antes disso. Embora ele não possa ser considerado um homem de esquerda - apenas para lembrar, foi um dos cabeças da tropa de choque de Collor -, suas justificativas para as relações promíscuas que mantinha com um lobista de empreiteira são retiradas de chavões incessantemente repetidos pelos esquerdistas, baseados na vitimização de certos setores da sociedade. Esse tipo de discurso está de tal forma entranhado em nosso subconsciente, de tal modo penetrou em nossas mentes embotadas por décadas de propaganda ideológica esquerdóide e politicamente correta, que hoje em dia basta repeti-lo que sempre haverá uma platéia disposta a levá-lo em conta. É exatamente esse o caso do "preconceito contra nordestinos" brandido por Renan para desviar a atenção de sua relação com o lobista, e também para tentar desqualificar o Mensalão ou o Valerioduto, que quase custaram a cadeira do Grande Molusco, o coitadinho-mor.

É esse o caso, também, das cotas raciais nas universidades e de leis específicas para beneficiar grupos como os homossexuais. O que isso tem a ver com as desculpas esfarrapadas de Renan? Muita coisa. Assim como no caso do senador alagoano, o sistema de cotas e a PLC 122/06, que está prestes a ser aprovada no Senado - o mesmo Senado de cuja presidência Renan não arreda pé nem sob tortura -, consagram um tratamento privilegiado a minorias supostamente injustiçadas ou alvo de preconceito e perseguição. As cotas, só para lembrar, reservam 20% das vagas nas universidades a estudantes "afro-descendentes", após um extremamente rigoroso e científico processo de seleção, o qual consiste no exame visual das... fotografias dos candidatos. Os que passarem por "afro-descendentes" têm a vaga garantida; aqueles cuja ascendência africana for considerada insuficiente ficam de fora e terão que entrar na universidade por outros meios mais difíceis, como o estudo. O caso da PLC 122/06 é um pouquinho mais complexo: cria uma lei especial que pune com prisão o crime de homofobia - a aversão a homossexuais -, o que significa a criação de uma categoria especial e privilegiada de cidadãos, ao punir com o rigor do monopólio estatal da violência todo e qualquer engraçadinho que tiver a ousadia de chamar alguém de veado ou boiola. Não por acaso, já se está propondo, a título de blague, a adoção de cotas para gays - só vai ficar complicado definir o critério adotado para a seleção, mas isso os examinadores, com toda sua sapiência, certamente saberão tirar de letra...

Esses exemplos não são aleatórios. Favorecer uma parcela da população, pintar seus membros como vítimas, como coitadinhos, tem sido o método empregado pelos lulistas para defender privilégios e escamotear a realidade. No caso de Lula e Renan, tal discurso tem também a finalidade de garantir a impunidade. Lula, como sabemos, baseia seu discurso numa toada só: nasceu no Nordeste, vem de família pobre, estudou só até o primário (porque quis, mas deixa pra lá), foi metalúrgico... Renan não pode dizer que vem do mesmo berço pobre, mas tem o trunfo da origem geográfica comum.
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Dizer que veio de uma região desfavorecida economicamente - ou que é afro-descendente, ou perseguido por gostar do mesmo sexo - tornou-se o álibi preferido dos inimigos da inteligência e do mérito. No Brasil lulista, políticos corruptos não precisam mais defender-se com provas e argumentos: basta dizer que são alvo de preconceito, e pronto. Lembremos o caso da ex-ministra Benedita da Silva, apelidada de "rainha de Sabá", que despontou para a política no Rio de Janeiro com o lema "mulher, negra e favelada". Ou de Celso Pitta, o enroladíssimo ex-prefeito de São Paulo, cria do incrível Paulo Maluf, que saiu disparando que só foi acusado de corrupção porque é negro, coitado... Do mesmo modo, vestibulandos não têm mais que queimar pestanas e conquistar uma vaga na universidade por seus próprios méritos - é suficiente dizer-se afro-descendente -, e minorias como os homossexuais podem ficar sossegados, pois poderão contar com uma lei criada só para eles. Simplesmente um luxo, como diria Ataíde Patrezzi.
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Curiosamente, o mesmo discurso vitimista de Renan em relação às suas raízes geográficas tem sido usado, por décadas, pelos coronéis nordestinos aboletados no Congresso, sempre ávidos por verbas para seus currais eleitorais. Desse modo desviam a atenção das verdadeiras causas do atraso e da pobreza da região, mostrada sempre como vítima de fatores externos, desde a seca até o imperialismo. Não é por acaso que os herdeiros de Lênin, como o senador Inácio Arruda, se converteram nos mais ferozes cães de guarda de Renan.

O espetáculo deprimente de vitimização lacrimosa e demagógica proporcionado por renans, cotistas e gayzistas tem suas raízes no próprio pensamento de esquerda. Este, como qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento sabe muito bem, está baseado numa visão dicotômica e maniqueísta da realidade: burgueses versus proletários, ricos contra pobres, nações centrais e nações periféricas etc. - sempre variações da mesma conversa mole, do mesmo conto-do-vigário feito para encobrir as reais causas da pobreza e dos problemas sociais. Estas sempre serão atribuídas, segundo essa visão míope da realidade, ao outro - o imperialismo, a burguesia, a direita elitista e preconceituosa etc. etc... Diante dessa gigantesca empulhação politicamente correta, o mérito pessoal, a honestidade, a igualdade perante a Lei, tudo isso não significa absolutamente - ou "abisolutamente", como gosta de dizer o Renan - nada. Nadinha. Neca de pitibiriba.

A propósito: para quem não sabe, sou nordestino. Mas se quiserem inventar algum sistema de cotas para quem veio do Nordeste, serei o primeiro a me opor a mais essa papagaiada. Não duvido que um dia teremos também cotas para gays e torcedores do Bonsucesso. No Brasil lulista, tudo é possível.

segunda-feira, julho 09, 2007

CONSPIRAÇÃO CONTRA A INTELIGÊNCIA


Sempre fui extremamente cético quanto a teorias conspiratórias. Principalmente aquelas do tipo "quem matou Kennedy" ou "11 de setembro", que não passam de variações sobre o mesmo tema da CIA-Pentágono-complexo industrial-militar norte-americano-querendo-dominar-o-mundo. Mas esse pessoal da esquerda politicamente correta me força a mudar de idéia. Eles exageram, em suas tentativas emburrecedoras de impor a todos sua visão ideológica, retirada de desbotadas cartilhas marxistas ou copiadas dos politicamente corretos de países que costumam atacar, como os EUA.

É o caso do que está acontecendo neste exato momento na Universidade de Brasília (UnB). Não sei se vocês estão a par da gravidade do que ocorre atualmente na instituição fundada por Darcy Ribeiro, um dos maiores apologistas da mestiçagem brasileira (inclusive, a meu ver, de forma completamente equivocada, mas isso não vem ao caso agora). Um professor do Departamento de Ciência Política da referida universidade, Paulo Kramer, acaba de ser punido com vários dias de suspensão pela diretoria da UnB. Motivo: numa aula, o referido professor teve a ousadia de usar a palavra "crioulada" para se referir ao movimento negro - perdão, afro-descendente - dos EUA. Um estudante, que vem a ser meu xará, não gostou do que ouviu e foi se queixar ao reitor, que agora passou um pito no mestre. O tal estudante, cujo nível de melanina na pele não é mais alto do que o meu, é militante do tal "movimento negro" que tanto barulho fez nos últimos anos em defesa do sistema de cotas raciais. Sistema este, como se sabe, adotado pela UnB, a partir de critérios que também todos conhecemos, e com resultados, digamos assim, também bastante conhecidos, vide o caso dos irmãos gêmeos idênticos, um declarado branco e outro, negro - ops, afro-descendente -, pelo tal sistema de cotas...

A punição ao professor Paulo Kramer é um desses fatos que, se não fossem trágicos por seu significado, seriam cômicos. Punir um professor pelo que ele diz em sala de aula, seja sobre o que for, não é apenas censura e intolerância. É burrice, pura e simplesmente. Puni-lo por ter usado uma expressão - "crioulada", "crioulo" - de uso corrente no vocabulário popular (a ponto de ter sido empregada, recentemente, por ninguém menos do que Sua Excelência em pessoa, o Grande Molusco, quando lembrava em discurso, pela enésima vez, sua infância pobre e sofrida, perante uma platéia de bem nutridos e embevecidos empresários), é mais do que simples obtusidade mental - é um alerta, um sinal de que caminhamos para um tipo de totalitarismo.

Além de constituir uma forma inequívoca de censura verbal - estúpida, cretina, grotesca como toda censura, além de seletiva -, a punição ao professor da UnB traz embutida a marca de uma verdadeira conspiração. No caso, uma conspiração contra a própria razão de ser da Universidade - o lugar do conhecimento e do debate por excelência. Mais que isso: trata-se de uma conspiração contra uma das poucas coisas boas que o Brasil (ainda) tem - a ausência de discriminação racial aberta, o legado de cinco séculos de mestiçagem, a convivência entre raças e grupos étnicos diversos, sem que isso tenha criado uma separação intransponível entre as mesmas. De acordo com a lógica inerente à punição, deveriam ser proibidas quase todas as marchinhas de carnaval, como aquela que diz, "o seu cabelo não nega a mulata...", ou músicas como "sarará crioulo" (aliás, uma celebração da negritude). Trocando em miúdos, o que se quer é impedir todos de manifestarem-se livremente. É proibir, enfim, o próprio Brasil.

Já afirmei e repito: o que se convencionou chamar de "movimento negro" no Brasil, em particular sua vertente mais radical incrustada nas universidades, é na verdade uma associação de mentes paranóicas e antidemocráticas, que, a pretexto de "corrigir uma injustiça histórica", têm por objetivo último a imposição de uma separação racial radical à sociedade. Na realidade, o que buscam é mesmo a criação de um outro país, bem diferente do Brasil: um país mais parecido com o sul dos EUA nos anos 60 ou com a África do Sul do apartheid, mas com o sinal invertido - um país bicolor, sem mestiços ou nuances entre as raças. Logo, um país imaginário, onde certamente suas mentes habitam e de onde retiram as estatísticas distorcidas que costumam brandir para "provar" a existência de racismo no Brasil (por exemplo, excluindo propositalmente os pardos, rotulados indistintamente como "negros"). A paranóia e a desonestidade desse pessoal já foram tão longe que até briga de estudantes por causa do barulho da música em festinhas acabou virando demonstração de perseguição racista... Tendo invertido por completo a realidade, tentando a todo custo adaptá-la a seu esquema (literalmente) branco-e-preto do mundo, não é de estranhar que acabem trabalhando por aquilo que dizem combater: em nome da luta contra o racismo, estão conseguindo institucionalizá-lo, com o sistema de cotas e, agora, com a instituição de uma polícia da linguagem nas salas de aulas. Um passo rumo a uma forma de doublespeak, de polícia do pensamento orwelliana.

Com punições arbitrárias e idiotas como a infligida ao professor Paulo Kramer, a UnB comprova aquilo de que eu desconfiava há tempos: tendo deixado há muito de ser ambientes de estudo sério e de pesquisa, as universidades brasileiras converteram-se em verdadeiras madrassas, em túmulos do pensamento crítico e paraísos de agitação política, em templos da empulhação ideológica e da vigarice intelectual. Uma assembléia de estudantes e professores durante a invasão e depredação - desculpem, ocupação - da reitoria da USP, por exemplo, terminou com os presentes entoando vivas ao Hezbollah e pregando a destruição do Estado de Israel... Isso demonstra a que ponto se chegou, e é apenas uma pequena amostra do que ainda poderá vir por aí.

Em outro lugar escrevi que denunciar as imposturas dos esquerdopatas é um dever cívico. Na verdade, é mais que isso: é uma questão de saúde pública. De saneamento básico.

P.S.: E antes que me proíbam de falar o que penso, da maneira que eu quiser, aproveito que - ainda - posso valer-me da liberdade de expressão que os "militantes negros" querem varrer do mapa para dizer com todas as letras: CRIOULADA! CRIOULADA!