segunda-feira, julho 23, 2007

A GRANDE CURRA LULISTA

Alguns anos atrás, quando eu ainda era estudante no Instituto Rio Branco, assisti a uma palestra de Marco Aurélio Garcia. O tema da palestra, se não me engano, era política internacional da América do Sul. Na ocasião, fiz a seguinte pergunta ao dignissímo ex-professor da Unicamp e assessor especial da presidência da República: por que o governo brasileiro não reconhecia os grupos armados que atuam há décadas na vizinha Colômbia (não citei especificamente nenhum deles), responsáveis por dezenas de milhares de mortes e pela instabilidade crônica na região, como terroristas?

Visivelmente incomodado, até mesmo irritado com pergunta tão inconveniente, ainda mais vinda de um mísero e insignificante terceiro-secretário, o professor Marco Aurélio Garcia respondeu mais ou menos assim: se o Brasil reconhecesse os grupos colombianos como terroristas, como gostaria o governo Bush e o próprio governo de Bogotá, iria certamente entrar numa encrenca danada, seria acusado de ingerência nos assuntos de um país vizinho, a guerra civil e o narcotráfico na Colômbia eram assunto exclusivo dos colombianos etc. etc. Em outras palavras: o Brasil não tinha nada a ver com aquilo e ponto final. Era a maneira de ele dizer que não gostou da pergunta e de me mandar calar a boca.

Quinta-feira passada Marco Aurélio Garcia foi pego em flagrante por uma câmera de TV fazendo o caractéristico gesto de top, top, top após ter visto reportagem do Jornal Nacional sobre o acidente do avião da TAM em São Paulo, que resultou em quase 200 mortos. A seu lado, um assessor fazia outro gesto bem conhecido, imitando uma curra. Estavam com isso, as imagens sugerem, comemorando a notícia, que dizia que o acidente poderia ter sido causado por um defeito no avião e, logo, o governo não teria nenhuma responsabilidade pelo ocorrido - o que, diga-se, só pode ser verdade em suas mentes fantasiosas. Assim acreditavam, é o que mostram as imagens, festejando que o governo não teria nada a ver com o desastre e estaria, assim, tirando o seu da reta. Pior para a companhia aérea, pensavam. Comemoravam. Celebravam. Top, top, top. Crau!

A cena ficará registrada para sempre como um dos momentos mais infelizes de um dos governos mais infelizes da História do Brasil. Quem melhor a definiu foi o senador Pedro Simon que, apesar de fazer parte do PMDB, que compõe a base política do governo, ao que parece ainda não perdeu o senso de decência. Em entrevista à TV, surpreendido com as imagens, Simon classificou a cena como grotesca e cruel, uma verdadeira afronta à dor que centenas de famílias brasileiras estão sentindo. Uma indecência, em todos os sentidos.

Observando as imagens, é impossível não concordar com Pedro Simon. A cena é realmente repugnante, nojenta, e expressa, em sua silenciosa eloqüência, todo o escárnio e deboche com que o governo Lula vem tratando a questão do caos aéreo. É semelhante, em grosseria e cinismo, ao "relaxa e goza" da embotocada Marta Suplicy. Ou às imagens revoltantes dos funcionários da ANAC rindo (!) a cem metros dos cadáveres calcinados e dos escombros do acidente do avião da TAM no aeroporto de Congonhas. Mas, ao contrário do ilustre senador, não fiquei nem um pouco surpreendido com o gesto de Marco Aurélio Garcia. Afinal, alguém que se nega a reconhecer os narcotraficantes das FARC como terroristas é perfeitamente capaz de fazer top, top, top com a desgraça alheia.

Também não fiquei nem um pouco surpreso com a reação destemperada e cretina do assessor especial de Lula, no dia seguinte à divulgação das imagens. Furibundo, Marco Aurélio Garcia chegou até a publicar uma nota oficial, em que se dizia "indignado" pela tentativa de "manipulação" de uma - foi o que disse - reação "privada", através de imagens captadas - afirmou - de "forma clandestina". Com isso, queria aparecer como vítima de uma armação, de um complô das elites e da mídia, tentando convencer a todos de que o que viram não foi nada daquilo. Mais ainda: o gesto - top, top, top - foi apenas uma reação "privada", gente... Que tenha sido feito por um funcionário de primeiro escalão do atual governo e - top, top, top - dentro de seu gabinete, a poucos metros da sala do presidente da República, é algo que parece não perturbar a lógica implacável do professor Marco Aurélio Garcia. Reação privada, rárárá.

É assim que os lulo-petistas tratam a coisa pública no Brasil. Infelizmente para eles, as câmeras da imprensa brasileira ainda não estão a seu serviço. Top, top, top pra você, Marco Aurélio Garcia.

P.S.: Pesquisando na rede, encontrei o texto a seguir, com informações bastante interessantes sobre Marco Aurélio Garcia. O texto, retirado de um site venezuelano, é de 27 de dezembro de 2002, e tem um título dos mais sugestivos: "El brasileño que gana tiempo para Chávez. Sus vínculos terroristas y con Saddam". Vale a pena dar uma olhada: http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://militaresdemocraticos.com/articulos/20021227-01.jpg&imgrefurl=http://militaresdemocraticos.com/articulos/sp/20021227-03.html&h=201&w=140&sz=8&hl=pt-BR&start=6&um=1&tbnid=qo6RZOVT5pk7IM:&tbnh=104&tbnw=72&prev=/images%3Fq%3DMarco%2BAur%25C3%25A9lio%2BGarcia%2B%26svnum%3D10%26um%3D1%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DG

sexta-feira, julho 20, 2007

A DOR E A FÚRIA


Muitas vezes faltam palavras para expressar toda a raiva e indignação que sentimos, diante de uma catástrofe como a que se abateu sobre o País nos últimos dias.

Tinha até pensado em colocar na tela do computador um pouco desse sentimento. Mas, depois de ler o texto que vai a seguir, percebi que outro já fez melhor do que eu poderia fazer.

Saiu no Jornal de Hoje, pequeno diário da pequena cidade que me serviu de berço, Natal/RN, edição digital de 20/07. Seu autor é o colunista Alex Medeiros, que a partir de hoje ganha um admirador à distância. É a minha singela homenagem às vítimas da incompetência assassina e do descaso irresponsável, transformados em política oficial de Estado na República Lulista do Brasil:
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"DROGA DE GOVERNO

A ministra do Interior da Inglaterra, Jacqui Smith, de 44 anos, pediu perdão aos ingleses por ter fumado maconha na juventude, durante os tempos de vida estudantil na Universidad de Oxford, lá pelos anos 80.

Ah, quem dera, se o único deslize do lulo-petismo fosse apenas as sessões de baseados que a turba hoje no poder participou em priscas eras. Quisera que o único erro dos petistas fosse só rodar uns fininhos numa discussão sobre Lênin ou filme de Godard.

A imprensa internacional, a mesma que repercute agora o pedido de perdão de Smith, também analisa a tragédia em São Paulo com o vôo da TAM. E como a mídia mundial não usa slogan do tipo “é mais Brasil”, oferece mais lúcido jornalismo.

Há, sim, uma ponte (aérea ou não) entre o trágico episódio de Congonhas e o acidental governo do senhor Luiz Inácio. Um governo que lançou uma nação inteira num apagão de proporções técnicas e morais. Um governo relaxado.

A administração Lula é um conjunto de ações apagadas, infelizmente acesas por luzes publicitárias de uma polpuda verba oficial que alimenta os cofres da grande imprensa e ilude cidadãos desavisados, alguns dispostos a se acumpliciar com as mentiras bem pagas.

Não consigo olhar para essa foto da família Cunha, estampada nas capas dos nossos jornais e na tela das TVs, sem lembrar com nojo o comentário imbecil e escroto da ministra do sexo-turismo, a beldade sexagenária Marta Suplicy.

Repugnância maior ainda ao lembrar do ministro Guido Mantega quando verto lágrimas como se fosse para um filho olhando os rostinhos de Caio Felipe e Ana Carolina, as crianças mortas no vôo da TAM e que estudam na mesma escola dos filhos de tantos leitores. ..."

Não pude ter acesso à íntegra do texto acima, restrita aos assinantes do jornal. Mas não é preciso. Não conheço Alex Medeiros. Mas ele já deu muito bem conta do recado. Parece que há uma luz no fim do túnel, afinal.

segunda-feira, julho 16, 2007

UM CONTO DE DUAS TRAIÇÕES



Em 26/01/1969, o capitão do exército Carlos Lamarca fugiu, juntamente com mais dois militares, do quartel de Quitaúna (SP), onde servia. Levou consigo uma Kombi com 63 fuzis, várias metralhadoras e farta munição, que foram entregues a duas organizações da esquerda radical que praticavam a luta armada contra o regime militar instaurado no Brasil em 1964.

Lamarca abandonou as Forças Armadas que jurara defender para se juntar à guerrilha, primeiro como militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), depois do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Como tal, participou de várias ações armadas, como assaltos a bancos, seqüestros de diplomatas e assassinatos, tendo sido o responsável direto, pelo menos, por três mortes: a de um guarda civil, de um tenente da PM/SP - executado a coronhadas de fuzil depois de ter sido capturado - e de um segurança do Embaixador da Suiça, fuzilado quando tentava impedir o seqüestro do mesmo. Em 17/09/1971, a trajetória de Lamarca, ou "Cid", ou "Daniel", ou "Cirilo" - nomes que usava na clandestinidade - chegou abruptamente ao fim, no sertão da Bahia, na forma de uma rajada de metralhadora desferida pelos agentes da repressão, a qual pôs termo à sua vida, juntamente com a do militante que o acompanhava.
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Recentemente, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça resolveu promover o ex-capitão Carlos Lamarca, "Cid", ou "Daniel", ou "Cirilo", à patente de coronel. Com isso, sua viúva passou a ter o direito de receber uma pensão equivalente a de general-de-brigada e seus filhos, que foram com ela para o exílio em Cuba após a deserção do marido, receberão a bolada de 100 mil reais cada, a título indenizatório. Em 1995, a Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça, criada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, já havia reconhecido que Lamarca fora morto sem chances de defesa, tendo concedido a sua família uma indenização de 150 mil reais, em valores da época, pelo ocorrido.

A indenização a seus familiares e a promoção póstuma de Lamarca causaram furor e indignação nas Forças Armadas, em particular entre antigos militares que participaram do combate às guerrilhas. Estes as consideram um acinte, um deboche às vítimas do terrorismo. Para eles, Lamarca é um traidor.
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José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, foi o líder da revolta dos marinheiros que, em 25/03/1964, ao marcar a quebra da hierarquia e da disciplina nas Forças Armadas, foi o estopim do golpe militar que derrubou o governo João Goulart, uma semana depois. Preso após o golpe, ele fugiu da prisão para exilar-se no Uruguai e depois em Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha. Ao retornar ao Brasil, depois do AI-5, foi novamente preso em 30/05/1971, desta vez pela equipe do delegado paulista Sérgio Fleury. Nessa ocasião, segundo seu depoimento ao jornalista Percival de Souza (Eu, Cabo Anselmo, São Paulo: Ed. Globo, 1999), Anselmo foi torturado e colocado diante de uma escolha: ou aceitava colaborar com as forças da repressão ou seria morto por seus captores. Ele aceitou a primeira opção, tornando-se um agente infiltrado na VPR, que ajudou a destruir, levando à morte vários de seus companheiros de luta armada, entre os quais sua própria mulher na época, a qual, dizem os sobreviventes da esquerda radical, estaria grávida dele. Desde então, Anselmo vive escondido, com novo rosto e identidade falsa, temendo por sua segurança.

Recentemente, o Cabo Anselmo voltou às manchetes, ao requerer junto à mesma Comissão que promoveu postumamente Lamarca o direito a ser indenizado, pois, como argumenta, foi também vítima da repressão, tendo sido expulso da Marinha em 1964 e perdido seus direitos políticos. Seu caso foi, inclusive, retratado no programa televisivo Linha Direta, da Rede Globo.

O pedido de indenização de Anselmo causou furor e indignação entre a esquerda, em particular entre os sobreviventes da guerrilha. Estes o consideram um acinte, um deboche às vítimas da ditadura. Para eles, Anselmo é um traidor.

Os casos de Lamarca e de Anselmo demonstram o viés claramente ideológico que tomou a disputa pela memória dos "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil, bem como da polêmica questão das indenizações às vítimas do regime de 64. Tal viés é demonstrado de forma cabal no tratamento diferenciado dado a cada um: Lamarca, o desertor e traidor do exército, que escolheu o terrorismo e o comunismo em vez da farda, o militar que se desiludiu com os rumos da ditadura no Brasil e se converteu em revolucionário pró-Cuba, é louvado pela esquerda como herói e mártir da luta pela democracia (sic); Anselmo, o traidor da VPR, o ex-marinheiro que se tornou guerrilheiro e então, após ter sido preso e também por desilusão ideológica, algoz de seus próprios camaradas de luta, é quase universalmente execrado como paradigma de traição vil, de canalhice e covardia abjeta. A ponto de, ao requerer indenização, ser tratado como um reles oportunista e não ousar, mesmo após a Lei de Anistia e a redemocratização, mostrar o rosto na rua.

Há muita hipocrisia nisso tudo. Primeiro, porque, sim, Anselmo foi um traidor, e foi responsável por várias mortes no meio da esquerda armada, mas não menos do que foi Lamarca em relação ao exército. Segundo, porque, pelos próprios critérios da esquerda, ele foi, sim, vítima da ditadura, pois teve os direitos políticos cassados em 64, logo tem também direito a ser indenizado. Terceiro, porque a Lei de Anistia de 1979 perdoou os crimes dos dois lados, e não somente os cometidos pela esquerda - pode-se criticar o caráter recíproco da Anistia, mas não se pode pretender, em são juízo, revogá-lo, sob pena de se demolir todo o arcabouço jurídico posterior, que deu origem à própria Lei dos Mortos e Desaparecidos Políticos (Lei 9.140/95), tão cara hoje às esquerdas, as mesmas que se enchem de indignação ao verem o Cabo Anselmo requerendo tratamento de ex-perseguido político.

Assim como Anselmo, há vários remanescentes da luta armada com sangue nas mãos, alguns deles hoje ocupando importantes cargos públicos, e nem por isso se ouve gritaria semelhante contra o tratamento favorável que lhes é dispensado. Não duvido que, caso fosse vivo, Lamarca estaria em algum ministério, como Marco Aurélio Garcia ou Dilma Rousseff. Outros militantes que participaram de ações violentas, como Fernando Gabeira e Carlos Mariguella, são reverenciados como símbolos ou heróis da resistência democrática, embora esteja claro que não lutavam pela democracia, mas por um tipo de ditadura revolucionária, como bem observou Elio Gaspari. Por que então essa indignação quanto ao Cabo Anselmo?

A verdade é que se confundiu, desde a Lei de 95, indenização com premiação por serviços prestados à causa esquerdista. Até o momento, somente foram agraciadas as famílias daqueles que lutaram contra ou foram, de alguma forma, vítimas da ditadura militar. Isso significa um duplo padrão ideológico, claramente discriminatório, baseado na falsa idéia bastante difundida de que a violência política dos anos 1964-1979 foi de mão única, ou seja, que só houve vítimas da repressão, de um lado, e seus algozes, os meganhas e torturadores, de outro. Ficaram de fora, assim, os cerca de 100 mortos em ações perpetradas pela esquerda armada, vários deles simples traunseuntes ou trabalhadores inocentes, como o guarda civil abatido a tiros por Lamarca. É o caso, também, das vítimas dos "justiçamentos" (assassinatos cometidos pela esquerda), algumas delas - pelo menos quatro, segundo levantamento feito por Jacob Gorender, mais um caso na chamada Guerrilha do Araguaia - militantes assassinados a sangue-frio por seus próprios companheiros de luta armada, em geral por mera suspeita de traição, jamais confirmada. Não por acaso, uma revista de grande circulação nacional batizou as indenizações de "Bolsa-Terrorismo".

O próprio Cabo Anselmo quase foi alvo de uma dessas ações homicidas. Só não foi fuzilado por seus companheiros de guerrilha porque estes foram todos capturados e mortos pela repressão, na chacina da Chácara São Bento, em Abreu e Lima (PE), em 1973. Nenhum desses "justiçados" - todos, ressalte-se, sem culpa formada - está incluído em nenhuma lista de mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar no Brasil, nem seus parentes foram até hoje indenizados por suas mortes.
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O fascínio pelos "anos de chumbo" no Brasil só não é maior do que a tendência a romantizar a luta armada e satanizar os militares. Na verdade, os militantes das organizações que pegaram em armas contra o regime militar não o fizeram por serem democratas, mas porque desejavam ir à desforra pela derrota de 1964. Não queriam a democracia, não lutavam pela liberdade; lutavam, isto sim, para substituir uma ditadura por outra, revolucionária e anticapitalista, certamente antiamericana, nos moldes de Cuba ou da China de Mao Tsé-Tung. Pretendiam conseguir pela violência o que não foram capazes de alcançar por meios legais e pacíficos. Se vencessem, não duvidem: em vez de um regime autoritário de direita, teríamos uma ditadura totalitária de esquerda. Em vez de anos de chumbo, rios de sangue, como afirmou Roberto Campos.
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O problema, nessa questão, é o maniqueísmo, a tendência a enxergar apenas um lado da moeda. Nem os guerrilheiros foram todos anjos de heroísmo e bravura, nem os militares foram todos monstros de crueldade e selvageria como são geralmente pintados pelas esquerdas, e vice-versa. A repressão foi feroz? Foi. Houve tortura? Houve. Prisioneiros foram massacrados e assassinados covardemente? Foram. Mas nada disso se compara, em alcance, intensidade e duração, ao que existiu nos países do bloco comunista, como a ex-URSS, a China, Cuba ou a Coréia do Norte, que eram vistos como modelos e fontes de inspiração - quando não de treinamento e recursos materiais - pela guerrilha. Isso significa que os crimes cometidos pelas ditaduras de direita, por terem sido comparativamente menores do que os das ditaduras de esquerda, devem ser justificados e esquecidos? Nada disso. Mas nenhuma pessoa séria e honesta, se não quiser passar por parcial e facciosa, pode dar-se ao luxo de ignorar essa diferença essencial quando se analisa a questão das indenizações às vítimas do período.
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Portanto, se a Comissão de Anistia houve por bem agraciar a família de Lamarca, não há razão alguma, sob pena de grave hipocrisia ou favorecimento ideológico, de deixar de fazer o mesmo em relação ao Cabo Anselmo. As vítimas deste último já foram, de certa forma, compensadas por sua traição. As de Lamarca, não. A Justiça está sendo feita pela metade.

sexta-feira, julho 13, 2007

REPÚBLICA DOS COITADINHOS

Renan Calheiros disse que está sendo vítima de preconceito porque é nordestino. Disse também que querem derrubá-lo porque não conseguiram derrubar o Presidente Lula, outro nordestino como ele. O senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), nordestino como Lula e Renan, em defesa de seu(s) conterrâneo(s) e aliado(s), foi mais além: quase ninguém no Senado tem autoridade para falar em ética, afirmou, querendo dizer com isso que só quem tem moral para falar no assunto é ele e Renan.

Quer se dar bem no Brasil lulista? Faça pose de vítima. Quer se livrar de acusações de corrupção, depois de ter sido pego com a boca na botija? Diga que é tudo preconceito por você pertencer a alguma minoria - geográfica, racial, sexual - e você terá uma boa chance de se safar. Aproveite e diga que ninguém é melhor do que você, atirando lama nos que o acusam. Desse modo, todos enlameados, ninguém vai ser capaz de lhe distinguir dos seus acusadores e tudo vai ficar como está.

Durante algum tempo resisti a escrever algo sobre o caso do senador Renan Calheiros. Por uma questão de higiene. Afinal, o assunto já está fedendo - literalmente -, sendo constantemente repetido na mídia. Por seus ingredientes, que incluem um lobista camarada, sempre disposto a pagar as contas pessoais do dito senador, uma ex-amante bonitona e uma filha fruto de uma pulada de cerca, o caso mais parece enredo de novelão mexicano. Mas diante dos argumentos utilizados pelo excelentíssimo senhor Presidente do Senado e por seus aliados, percebi que a coisa é um pouco mais complicada. Ou mais simples, dependendo do ponto de vista.

As desculpas de Renan são a culminação de toda uma mentalidade que tem sido imposta, diuturnamente, à sociedade brasileira desde a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, e mesmo antes disso. Embora ele não possa ser considerado um homem de esquerda - apenas para lembrar, foi um dos cabeças da tropa de choque de Collor -, suas justificativas para as relações promíscuas que mantinha com um lobista de empreiteira são retiradas de chavões incessantemente repetidos pelos esquerdistas, baseados na vitimização de certos setores da sociedade. Esse tipo de discurso está de tal forma entranhado em nosso subconsciente, de tal modo penetrou em nossas mentes embotadas por décadas de propaganda ideológica esquerdóide e politicamente correta, que hoje em dia basta repeti-lo que sempre haverá uma platéia disposta a levá-lo em conta. É exatamente esse o caso do "preconceito contra nordestinos" brandido por Renan para desviar a atenção de sua relação com o lobista, e também para tentar desqualificar o Mensalão ou o Valerioduto, que quase custaram a cadeira do Grande Molusco, o coitadinho-mor.

É esse o caso, também, das cotas raciais nas universidades e de leis específicas para beneficiar grupos como os homossexuais. O que isso tem a ver com as desculpas esfarrapadas de Renan? Muita coisa. Assim como no caso do senador alagoano, o sistema de cotas e a PLC 122/06, que está prestes a ser aprovada no Senado - o mesmo Senado de cuja presidência Renan não arreda pé nem sob tortura -, consagram um tratamento privilegiado a minorias supostamente injustiçadas ou alvo de preconceito e perseguição. As cotas, só para lembrar, reservam 20% das vagas nas universidades a estudantes "afro-descendentes", após um extremamente rigoroso e científico processo de seleção, o qual consiste no exame visual das... fotografias dos candidatos. Os que passarem por "afro-descendentes" têm a vaga garantida; aqueles cuja ascendência africana for considerada insuficiente ficam de fora e terão que entrar na universidade por outros meios mais difíceis, como o estudo. O caso da PLC 122/06 é um pouquinho mais complexo: cria uma lei especial que pune com prisão o crime de homofobia - a aversão a homossexuais -, o que significa a criação de uma categoria especial e privilegiada de cidadãos, ao punir com o rigor do monopólio estatal da violência todo e qualquer engraçadinho que tiver a ousadia de chamar alguém de veado ou boiola. Não por acaso, já se está propondo, a título de blague, a adoção de cotas para gays - só vai ficar complicado definir o critério adotado para a seleção, mas isso os examinadores, com toda sua sapiência, certamente saberão tirar de letra...

Esses exemplos não são aleatórios. Favorecer uma parcela da população, pintar seus membros como vítimas, como coitadinhos, tem sido o método empregado pelos lulistas para defender privilégios e escamotear a realidade. No caso de Lula e Renan, tal discurso tem também a finalidade de garantir a impunidade. Lula, como sabemos, baseia seu discurso numa toada só: nasceu no Nordeste, vem de família pobre, estudou só até o primário (porque quis, mas deixa pra lá), foi metalúrgico... Renan não pode dizer que vem do mesmo berço pobre, mas tem o trunfo da origem geográfica comum.
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Dizer que veio de uma região desfavorecida economicamente - ou que é afro-descendente, ou perseguido por gostar do mesmo sexo - tornou-se o álibi preferido dos inimigos da inteligência e do mérito. No Brasil lulista, políticos corruptos não precisam mais defender-se com provas e argumentos: basta dizer que são alvo de preconceito, e pronto. Lembremos o caso da ex-ministra Benedita da Silva, apelidada de "rainha de Sabá", que despontou para a política no Rio de Janeiro com o lema "mulher, negra e favelada". Ou de Celso Pitta, o enroladíssimo ex-prefeito de São Paulo, cria do incrível Paulo Maluf, que saiu disparando que só foi acusado de corrupção porque é negro, coitado... Do mesmo modo, vestibulandos não têm mais que queimar pestanas e conquistar uma vaga na universidade por seus próprios méritos - é suficiente dizer-se afro-descendente -, e minorias como os homossexuais podem ficar sossegados, pois poderão contar com uma lei criada só para eles. Simplesmente um luxo, como diria Ataíde Patrezzi.
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Curiosamente, o mesmo discurso vitimista de Renan em relação às suas raízes geográficas tem sido usado, por décadas, pelos coronéis nordestinos aboletados no Congresso, sempre ávidos por verbas para seus currais eleitorais. Desse modo desviam a atenção das verdadeiras causas do atraso e da pobreza da região, mostrada sempre como vítima de fatores externos, desde a seca até o imperialismo. Não é por acaso que os herdeiros de Lênin, como o senador Inácio Arruda, se converteram nos mais ferozes cães de guarda de Renan.

O espetáculo deprimente de vitimização lacrimosa e demagógica proporcionado por renans, cotistas e gayzistas tem suas raízes no próprio pensamento de esquerda. Este, como qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento sabe muito bem, está baseado numa visão dicotômica e maniqueísta da realidade: burgueses versus proletários, ricos contra pobres, nações centrais e nações periféricas etc. - sempre variações da mesma conversa mole, do mesmo conto-do-vigário feito para encobrir as reais causas da pobreza e dos problemas sociais. Estas sempre serão atribuídas, segundo essa visão míope da realidade, ao outro - o imperialismo, a burguesia, a direita elitista e preconceituosa etc. etc... Diante dessa gigantesca empulhação politicamente correta, o mérito pessoal, a honestidade, a igualdade perante a Lei, tudo isso não significa absolutamente - ou "abisolutamente", como gosta de dizer o Renan - nada. Nadinha. Neca de pitibiriba.

A propósito: para quem não sabe, sou nordestino. Mas se quiserem inventar algum sistema de cotas para quem veio do Nordeste, serei o primeiro a me opor a mais essa papagaiada. Não duvido que um dia teremos também cotas para gays e torcedores do Bonsucesso. No Brasil lulista, tudo é possível.

segunda-feira, julho 09, 2007

CONSPIRAÇÃO CONTRA A INTELIGÊNCIA


Sempre fui extremamente cético quanto a teorias conspiratórias. Principalmente aquelas do tipo "quem matou Kennedy" ou "11 de setembro", que não passam de variações sobre o mesmo tema da CIA-Pentágono-complexo industrial-militar norte-americano-querendo-dominar-o-mundo. Mas esse pessoal da esquerda politicamente correta me força a mudar de idéia. Eles exageram, em suas tentativas emburrecedoras de impor a todos sua visão ideológica, retirada de desbotadas cartilhas marxistas ou copiadas dos politicamente corretos de países que costumam atacar, como os EUA.

É o caso do que está acontecendo neste exato momento na Universidade de Brasília (UnB). Não sei se vocês estão a par da gravidade do que ocorre atualmente na instituição fundada por Darcy Ribeiro, um dos maiores apologistas da mestiçagem brasileira (inclusive, a meu ver, de forma completamente equivocada, mas isso não vem ao caso agora). Um professor do Departamento de Ciência Política da referida universidade, Paulo Kramer, acaba de ser punido com vários dias de suspensão pela diretoria da UnB. Motivo: numa aula, o referido professor teve a ousadia de usar a palavra "crioulada" para se referir ao movimento negro - perdão, afro-descendente - dos EUA. Um estudante, que vem a ser meu xará, não gostou do que ouviu e foi se queixar ao reitor, que agora passou um pito no mestre. O tal estudante, cujo nível de melanina na pele não é mais alto do que o meu, é militante do tal "movimento negro" que tanto barulho fez nos últimos anos em defesa do sistema de cotas raciais. Sistema este, como se sabe, adotado pela UnB, a partir de critérios que também todos conhecemos, e com resultados, digamos assim, também bastante conhecidos, vide o caso dos irmãos gêmeos idênticos, um declarado branco e outro, negro - ops, afro-descendente -, pelo tal sistema de cotas...

A punição ao professor Paulo Kramer é um desses fatos que, se não fossem trágicos por seu significado, seriam cômicos. Punir um professor pelo que ele diz em sala de aula, seja sobre o que for, não é apenas censura e intolerância. É burrice, pura e simplesmente. Puni-lo por ter usado uma expressão - "crioulada", "crioulo" - de uso corrente no vocabulário popular (a ponto de ter sido empregada, recentemente, por ninguém menos do que Sua Excelência em pessoa, o Grande Molusco, quando lembrava em discurso, pela enésima vez, sua infância pobre e sofrida, perante uma platéia de bem nutridos e embevecidos empresários), é mais do que simples obtusidade mental - é um alerta, um sinal de que caminhamos para um tipo de totalitarismo.

Além de constituir uma forma inequívoca de censura verbal - estúpida, cretina, grotesca como toda censura, além de seletiva -, a punição ao professor da UnB traz embutida a marca de uma verdadeira conspiração. No caso, uma conspiração contra a própria razão de ser da Universidade - o lugar do conhecimento e do debate por excelência. Mais que isso: trata-se de uma conspiração contra uma das poucas coisas boas que o Brasil (ainda) tem - a ausência de discriminação racial aberta, o legado de cinco séculos de mestiçagem, a convivência entre raças e grupos étnicos diversos, sem que isso tenha criado uma separação intransponível entre as mesmas. De acordo com a lógica inerente à punição, deveriam ser proibidas quase todas as marchinhas de carnaval, como aquela que diz, "o seu cabelo não nega a mulata...", ou músicas como "sarará crioulo" (aliás, uma celebração da negritude). Trocando em miúdos, o que se quer é impedir todos de manifestarem-se livremente. É proibir, enfim, o próprio Brasil.

Já afirmei e repito: o que se convencionou chamar de "movimento negro" no Brasil, em particular sua vertente mais radical incrustada nas universidades, é na verdade uma associação de mentes paranóicas e antidemocráticas, que, a pretexto de "corrigir uma injustiça histórica", têm por objetivo último a imposição de uma separação racial radical à sociedade. Na realidade, o que buscam é mesmo a criação de um outro país, bem diferente do Brasil: um país mais parecido com o sul dos EUA nos anos 60 ou com a África do Sul do apartheid, mas com o sinal invertido - um país bicolor, sem mestiços ou nuances entre as raças. Logo, um país imaginário, onde certamente suas mentes habitam e de onde retiram as estatísticas distorcidas que costumam brandir para "provar" a existência de racismo no Brasil (por exemplo, excluindo propositalmente os pardos, rotulados indistintamente como "negros"). A paranóia e a desonestidade desse pessoal já foram tão longe que até briga de estudantes por causa do barulho da música em festinhas acabou virando demonstração de perseguição racista... Tendo invertido por completo a realidade, tentando a todo custo adaptá-la a seu esquema (literalmente) branco-e-preto do mundo, não é de estranhar que acabem trabalhando por aquilo que dizem combater: em nome da luta contra o racismo, estão conseguindo institucionalizá-lo, com o sistema de cotas e, agora, com a instituição de uma polícia da linguagem nas salas de aulas. Um passo rumo a uma forma de doublespeak, de polícia do pensamento orwelliana.

Com punições arbitrárias e idiotas como a infligida ao professor Paulo Kramer, a UnB comprova aquilo de que eu desconfiava há tempos: tendo deixado há muito de ser ambientes de estudo sério e de pesquisa, as universidades brasileiras converteram-se em verdadeiras madrassas, em túmulos do pensamento crítico e paraísos de agitação política, em templos da empulhação ideológica e da vigarice intelectual. Uma assembléia de estudantes e professores durante a invasão e depredação - desculpem, ocupação - da reitoria da USP, por exemplo, terminou com os presentes entoando vivas ao Hezbollah e pregando a destruição do Estado de Israel... Isso demonstra a que ponto se chegou, e é apenas uma pequena amostra do que ainda poderá vir por aí.

Em outro lugar escrevi que denunciar as imposturas dos esquerdopatas é um dever cívico. Na verdade, é mais que isso: é uma questão de saúde pública. De saneamento básico.

P.S.: E antes que me proíbam de falar o que penso, da maneira que eu quiser, aproveito que - ainda - posso valer-me da liberdade de expressão que os "militantes negros" querem varrer do mapa para dizer com todas as letras: CRIOULADA! CRIOULADA!

sexta-feira, julho 06, 2007

TRIO LOS PANCHOS


Nunca fui muito admirador do autor do texto abaixo. Mas depois que ele escreveu isso, virei seu fã. No meio de tanta coisa insossa escrita sobre o assunto, eis que surge um raio de sol. Parece que ainda existe um resquício de vida inteligente no Brasil da era lulista, afinal. Confiram:

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Trio Los Panchos

Nelson Motta


Formado por Hugo Chavez, Evo Morales e Rafael Correa, o Trio Los Panchos bolivariano reúne política, circo, comédia, drama e tragédia e está cada vez mais divertido. O ultimato chavista ao Brasil foi tão ridículo que deu oportunidade até para nosso combalido Congresso tirar um pouco o pé da lama. Mas foi logo suplantado por Correa, autor de nova pérola do perfeito idiota latino-americano:

"Tradicionalmente, na América Latina, a imprensa sempre foi contra os governos progressistas".

Rarará, é o continente da piada pronta, diria o mestre Zé Simão, depois de pingar o seu colírio alucinógeno.

Claro: imprensa a favor de governo progressista só há em Cuba, rarará, esse Correa é mesmo do balacobaco, pobres equatorianos.

E já deve estar de olho na RCTV local. Em nome do povo. Pátria o muerte!, eles adoram dizer, dizem por qualquer motivo, faz parte do show cucaracho.

Para ver o que é uma imprensa progressista latino-americana, basta acessar www.granma.cu e morrer de rir, ou de chorar. Você vai ler com seus próprios olhos o modelo cubano de debate democrático, de respeito à diversidade e à liberdade de opinião, o compromisso com a notícia e a verdade, com a investigação imparcial, com a livre circulação de informação. Mas você pode não acreditar no que está lendo, pensando que é uma paródia do "Casseta e Planeta", mas é apenas o bom e velho "Granma" on line. Tem até versão em português, antecipando o modelo dos sonhos de "progressistas" brasileiros, de uma imprensa "independente" bancada pelo Estado. Pátria o muerte para nós também.

Para Lula, é uma maravilha: aos olhos do mundo, o estilo e conteúdo do Trio Los Panchos o fazem parecer um estadista moderno, culto, civilizado e equilibrado.

(Folha de S. Paulo, 6/07/2007, p. A2)

quarta-feira, julho 04, 2007

VIVA O IMPERIALISMO!


Você já foi um inimigo do povo? Quero dizer, já foi execrado, atacado, denunciado como o cúmplice de um crime nefando? Já se viu praticamente sozinho, remando contra a maré, acusado dos piores delitos de lesa-pátria e de lesa-humanidade? Já se tornou um pária, um proscrito, um Judas, por causa de uma opinião sua? Já viu as pessoas em sua volta se afastarem de você como se tivesse lepra ou alguma outra doença infecciosa? Já mereceu um dia ganhar o prêmio nacional de inconveniência e impopularidade? Eu já.

Aconteceu em 2003. O deflagrador de tudo foi a invasão anglo-americana do Iraque, em março daquele ano. Naquela ocasião, todos se recordam, o mundo inteiro pareceu estar contra os EUA, a começar pela ONU, que rejeitou categoricamente as justificativas da Casa Branca para invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein. O Conselho de Segurança, a União Européia, o Papa, o Greenpeace, Noam Chomsky, todos se levantaram contra esse gravíssimo desrespeito de Bush, Rumsfeld, Rice, Wolfowitz e Cia. pela ordem internacional, um atentado à independência de um país soberano. E o que era pior: por motivos falsos ("fictitious", como disse o Michael Moore naquela inesquecível cerimônia do Oscar), pois, afinal de contas, nunca se comprovou que o Iraque possuía armas de destruição em massa ou tinha qualquer ligação com a Al-Qaeda. Todos foram contra, menos eu. Todos denunciaram o imperialismo de Bush e dos neocons, menos eu. Naqueles dias, eu me senti um Tony Blair, um Aznar, um Berlusconi.

Aquele foi um momento decisivo para mim, um verdadeiro turning point. Desde então, meu isolamento opinativo só aumentou, com as notícias diárias das baixas norte-americanas e da guerra civil entre sunitas e xiitas no Iraque. Compreendo perfeitamente que as pessoas que se indignaram vendo-me aplaudir de forma entusiástica os tanques norte-americanos entrando em Bagdá e os marines derrubando a estátua de Saddam devem estar esfregando as mãos de satisfação ao verem, hoje, as previsões mais sombrias sobre o Iraque pós-invasão se realizarem. Acredito que imaginam que eu estaria mordendo a língua, arrependido e envergonhado pelas barbardidades que disse em favor da guerra. Se é esse o caso, sinto desapontá-las. Sim, o Iraque hoje é um campo de batalha, um inferno de morte e destruição. Nem por isso, porém, arredo pé de minha convicção de 2003, de que a guerra era, sim, justa e necessária.

Quê? Justa? Necessária? Isso mesmo. Apesar das mentiras do Bush, dos milhares de mortos, dos atentados diários, ainda espero ser convencido por alguém de que a guerra foi um crime ou um erro. Ainda aguardo me explicarem por que teria sido melhor não intervir militarmente e esperar o regime de Saddam Hussein - duas guerras nas costas, milhões de mortos em 24 anos de tirania, milhares de curdos massacrados com gás mostarda - cair por si só, e não ter o final que teve. Unilateralismo norte-americano? Ainda espero que alguém me esclareça por que razão o Conselho de Segurança da ONU, integrado por países como a China e a Rússia, com óbvios interesses na manutenção do regime de Saddam, aprovaria a invasão do Iraque. Armas de destruição em massa? Espero um dia alguém me convencer de que Saddam permitiria tranqüilamente aos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), depois de 12 anos e 17 resoluções não-cumpridas da ONU, descobrirem, sem nenhuma ação militar, o que ele fingia esconder, até como uma forma de dissuasão. Terrorismo? Aguardo os que se opuseram à invasão responderem onde morreu Abu Nidal, o terrorista mais procurado do mundo nos anos 80, e de onde vinham os 20 a 25 mil dólares pagos a cada família de homem-bomba palestino que levasse o maior número de israelenses consigo em atentados em Tel-Aviv e Jerusalém. Abu Ghraib? Após os americanos, virou um centro de torturas; sob Saddam, era um campo de extermínio, como bem lembrou Christopher Hitchens. A invasão estimulou o terrorismo e o antiamericanismo? Como se estes precisassem de algum estímulo. Fallujah? Hallabja.

Para alívio dos que acham que me vendi por um prato de lentilhas ao imperialismo ianque ou que entrei para a folha de pagamento da CIA, convertendo-me num americanófilo fã de John Wayne e de Ronald Reagan, esclareço que essa minha decisão não foi livre de dúvidas. Incomodou-me profundamente, por exemplo, o caráter unilateral da operação, pois sempre achei que era tarefa da ONU - ou seja, da comunidade internacional -, e não deste ou daquele país, defender a democracia e os direitos humanos, em qualquer parte do mundo. Quando percebi que da ONU não sairia nada mesmo, assim como ocorreu em Ruanda e ocorre hoje em Darfur, e que o único jeito de a humanidade se livrar de Saddam era pela via do unilateralismo de Bush, descobri que essa conversa de multilateralismo não passava de uma cortina de fumaça para justificar a perpetuação de uma tirania. Quando li que o Chávez e o pessoal do MR-8 estavam elogiando a ditadura do Saddam, então, não tive dúvida: apoiei abertamente a invasão.

Mas e a soberania? Sim, como fica a soberania de um país invadido, ainda que seja pelas mais nobres intenções? Essa questão insistiu em freqüentar os debates naqueles dias, e continua a se fazer ouvir hoje. A soberania, dogma maior das relações internacionais... Respondo com uma pergunta: onde está a soberania de um país submetido a uma ditadura brutal, sem eleições livres nem alternância de poder, sem pluralismo político nem qualquer respeito às normas mais elementares da democracia e aos direitos humanos? A soberania, num caso como esse, seria de quem, cara-pálida? Do povo, que se encontra acorrentado e não pode manifestar-se livremente? Ou do tirano no poder, de sua família e sua camarilha? A defesa da soberania, no caso do Iraque de Saddam, não seria um pretexto para justificar a manutenção da tirania, logo do oposto da soberania popular? Em nome da soberania, desse dogma imutável, estamos dispostos a aplaudir tiranos, a fechar os olhos para as brutalidades mais horrendas, desde que não venham dos EUA e seus aliados imperialistas, claro...

Tal raciocínio, está certo, não vale somente para o Iraque ou o Afeganistão. Fico pensando o que eu faria se fosse um preso político em Cuba ou na Coréia do Norte, por exemplo, ou uma mulher no Irã dos aiatolás. Certamente, não estaria muito preocupado com coisas abstratas como soberania ou multilateralismo, nem estaria interessado em escarafunchar os interesses ocultos do Pentágono e do Departamento de Estado. Para ficar num exemplo que nos é mais próximo, basta lembrar das ingerências do governo Jimmy Carter, nos anos 70, pedindo respeito aos direitos humanos no Brasil. Que preso político brasileiro do período colocou-se ao lado do general Ernesto Geisel contra os gringos imperialistas? Como disse certa vez o falecido escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, se não há outra maneira de derrubar ditaduras, que vengan los marines!

Sei que, ainda hoje, tais posições são controversas. Aliás, que bom que o são! Se existe uma questão que é camuflada no Brasil, se existe algo que é continuamente colocado debaixo do tapete, é o antiamericanismo. Ficar ao lado dos EUA, em um país como o Brasil, é sempre uma temeridade. E isso não é de hoje. É assim com Bush, assim como foi com Clinton, Bush pai, Reagan, Carter, Nixon... O misto aversão-admiração pelos EUA, o Blame America First, continua sendo uma força constante entre nós. Os EUA se calam diante do genocídio na Bósnia pelos sérvios? São omissos e coniventes. Mudam de idéia e bombardeiam a Sérvia? São imperialistas. Derrubam o regime Talibã no Afeganistão? Petróleo!, gritam os que se opõem à intervenção, ainda que o Afeganistão não produza uma gota do produto. Invadem o Iraque? Mais uma vez o petróleo. Querem estabelecer a democracia no Afeganistão? Alguém lembra do apoio da CIA a Osama Bin Laden contra os soviéticos nos anos 80. Desejam o mesmo no Iraque? Sacam do fundo do baú uma foto do Rumsfeld apertando a mão de Saddam, vinte e poucos anos atrás (além do mais, lembram os inimigos de Bush, os EUA são aliados de regimes autocráticos e obscurantistas, como a Arábia Saudita e o Paquistão... vêem assim como hipocrisia o que pode ser, no caso do Afeganistão e do Iraque, o início da revisão de sua política externa, um bom começo, afinal). No quesito antiamericanismo, somos muito pouco originais. Ainda copiamos o que diz a esquerda norte-americana e européia, servindo alegremente de papagaios de um Noam Chomsky ou um Ignácio Ramonet. Além do mais, parece que temos uma verdadeira ojeriza ao pensamento discordante, seja sobre o que for, cultuando a unanimidade, esse túmulo da razão. Daí porque, sempre que há unanimidade sobre qualquer assunto, vejo que alguma coisa ali não está certa e não resisto à tentação de bagunçar tudo.

Até hoje é difícil para mim dizer exatamente quando me descobri "do contra". Teria sido depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, quando minha caixa de correio eletrônico ficou lotada com mensagens de júbilo pela morte de quase 3.000 pessoas nos atentados? Teria sido quando li os textos de Leonardo Boff e de Celso Furtado sobre a queda das Torres Gêmeas? Não sei. Só sei que, sob o regime totalitário de Saddam, o Iraque não tinha nenhuma chance de dar certo. Hoje, pelo menos, tem uma remota chance de virar uma democracia caótica. Sei também que os e-mails com abaixo-assinados contra o tratamento brutal das mulheres afegãs pelo Talibã sumiram.
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É por isso que continuo a acreditar que as intervenções no Afeganistão e no Iraque foram justas e necessárias. Prefiro um milhão de vezes ser "do contra" e pagar o preço da impopularidade a ter de conviver com Saddam Hussein ou o Talibã. Desses já nos livramos. Graças a Bush. Graças ao imperialismo. Alguém pode negar-lhes esse mérito?
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Artigos interessantes:
"Abu Ghraib isn't Guernica"
"A War to be Proud of"
"Com Bush, contra a fé"

terça-feira, julho 03, 2007

O REI DA EMBROMAÇÃO


"Não se enfrenta bandido com pétalas de rosas".
(Presidente Luiz Inácio Lula da Silva)
"Não se pode ficar 70 dias sem trabalhar e depois querer receber o salário".
(idem)

As duas frases acima, pronunciadas com um intervalo de alguns dias uma da outra, referem-se, respectivamente, à mega-operação policial ora em curso contra traficantes no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e a uma manifestação de grevistas do serviço público que tirou momentaneamente do sério o atual mandatário da Nação, durante cerimônia no Palácio do Planalto.

À primeira vista, as duas frases seriam um divisor de águas, um turning point da trajetória política de Lula. Pela primeira vez, desde o início de sua ascensão política no final dos anos 70, ele estaria rompendo abertamente com a orientação do partido e da ideologia que o levaram ao poder, em dois pontos essenciais: a criminalidade e o abuso do direito de greve. Segundo essa visão, que já começa a ser voz corrente, Lula teria despertado para esses dois problemas, os quais sempre negligenciou, assumindo finalmente uma postura presidencial. Uma análise mais detida, porém, deixa claro que não é nada disso.

Há pelo menos duas outras maneiras de interpretar o que Lula disse. Ei-las:

1) Ao afirmar, alto e bom som, a necessidade de tratar de forma dura os criminosos que trocam tiros com a polícia nos morros do Rio de Janeiro e de enquadrar os grevistas que chantageiam a população com a suspensão de serviços públicos essenciais, Lula estaria fazendo a autocrítica de décadas de corpo mole em relação à questão da violência, bem como se redimindo de seu passado de agitador grevista. Seria uma forma de pedir desculpas ao povo brasileiro; ou

2) Lula estaria tão-somente realizando mais uma de suas famosas enbromações retóricas, tentando capitalizar o descontentamento popular com o avanço do crime e com as greves. Tendo descoberto, por fim, que a população não agüenta mais a rotina de tiroteios e de paralisações, ele estaria apenas usando as duas questões para fazer demagogia, coisa que mais sabe fazer.

Pelo que se viu até agora da teodicéia lulista, essa última opção é a mais próxima da verdade. Há motivos de sobra para se concluir que estamos diante de mais uma tentativa de enrolação, mais uma patacoada do Grande Molusco e da companheirada. Não pelo conteúdo das frases em si - diga-se de passagem, a coisa mais sensata que Lula já disse, em mais de quatro anos de (des)governo -, mas pelos antecedentes de quem as pronunciou.

Em toda sua carreira política, Lula e o PT se notabilizaram pela complacência com que sempre trataram os bandidos ("vítimas da sociedade") e os grevistas ("companheiros de luta"). Mesmo quando no governo - vide Rio Grande do Sul, por exemplo - os petistas sempre se opuseram a medidas de força para enfrentar a bandidagem, preferindo o discurso fácil e demagógico de que "o crime é o resultado da injustiça social", o que corresponde a considerar os pobres bandidos em potencial e a equiparar os narcotraficantes a vingadores sociais. Do mesmo modo, o direito de greve, com que muitas vezes se busca acobertar o corporativismo e a manutenção de privilégios, sempre foi algo sagrado para as esquerdas. Seria preciso acreditar em conversão damascena para crer que Lula, de fato, rendeu-se aos argumentos da razão e do bom senso.

Para ficarmos apenas na questão da criminalidade, seria preciso ser muito ingênuo ou idiota para cair na esparrela de que Lula enfim abriu os olhos para o problema, sobretudo depois de a tropa de choque do governo ter feito tudo para barrar no Congresso um projeto de lei que previa a redução da maioridade penal, medida autoritária já adotada em países fascistas como a Inglaterra, França e Japão. "Daqui a pouco vão querer prender o feto", disse Lula sobre o assunto, mostrando toda sua aguda percepção e sensibilidade social...
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Não é segredo para ninguém que a segurança pública jamais constituiu prioridade para as esquerdas. Basta lembrar a política do "socialista moreno" Leonel Brizola à frente do governo do estado do Rio, nos anos 80, quando a violência nas favelas tornou-se fora de controle, em grande parte devido ao discurso populista que evitava a repressão policial e fazia vista grossa ao narcotráfico. É público e notório o tipo de relação promíscua que muitas ONGs de "defesa dos direitos humanos" mantêm com bandos armados de traficantes de drogas nas favelas do Rio de Janeiro. Aliás, ainda nem chegou ao fim a operação policial nos morros cariocas e esse pessoal já se antecipou, acusando a polícia de cometer todo tipo de barbaridade e de massacrar indiscriminadamente a população civil, pega no meio do fogo cruzado entre policiais e bandidos. A questão dos direitos humanos, para os lulistas, sempre foi uma via de mão única, na qual qualquer ação enérgica do Estado para combater o crime é imediatamente rotulada como ação repressiva e excessiva, como se ainda vivêssemos sob ditadura militar.

Também seria preciso ter um acesso de amnésia para esquecer todos os anos de apologia da criminalidade pelos intelectuais de esquerda que se dedicaram a lapidar o culto lulista, desde o "seja marginal, seja herói" dos anos 60 até o tráfico de drogas da atualidade. Desde a década de 30, na verdade, as esquerdas, capitaneadas então pelo Partido Comunista, dedicam-se a um constante, sistemático culto da marginalidade como uma forma de "revolta social", um preparativo para a revolução comunista. Não foi por outra razão que o antigo PCB considerava os bandos de cangaceiros que então infestavam o sertão nordestino como "guerrilheiros" ou "bandidos sociais" - termo com que facínoras como Lampião foram consagrados nos livros didáticos de História. Também não foi por coincidência que grupos criminosos como a Falange Vermelha (atual Comando Vermelho) se tornaram o que são hoje depois de uma bastante didática convivência nas cadeias dos anos 70 com presos políticos - muitos dos quais, membros de organizações terroristas, que passaram para os presos comuns seu know-how em assaltos a bancos e seqüestros. Quem achar que estou exagerando, recomendo a leitura de CV-PCC: A Irmandade do Crime, de Carlos Amorim, que descreve em detalhes as origens e a forma como se deu essa simbiose.

O mesmo no caso dos grevistas no setor público. Aqui, não é preciso dizer muito para revelar a falta de sinceridade das palavras de Lula. Vale frisar, apenas, que a aparente mudança do discurso lulista em relação a esse tópico tem sua causa mais profunda não em qualquer preocupação com a qualidade dos serviços públicos (a título de exemplo, lembremos a famosa frase de Lula sobre a saúde brasileira à beira da perfeição...), mas com a lógica comum a todos os governos esquerdistas: tendo estabelecido para si mesmos a conquista e manutenção do poder como objetivo primordial, acima de todos os outros, não é de surpreender que mudem o discurso assim que o alcançam, atirando no lixo o que disseram antes. Mal saiu vencedor nas urnas, Lula disse para quem quisesse ouvir que, até aquele momento, não faria mais "bravatas" (dando a entender que fora somente isso que fizera até aquele momento: bravatear...). Do mesmo modo, os comunistas, onde quer que chegaram ao poder, proibiram as greves e fuzilaram como sabotadores quem se atrevesse a parar as fábricas. O Brasil ainda não é uma República Soviética, mas seus dirigentes não hesitam em usar o mesmo discurso dos tempos stalinianos.

O que se deduz disso tudo é que estamos diante de mais uma lorota, mais uma balela lulista. Em suas declarações, Lula parece até o personagem principal do filme Zelig, de Woody Allen: muda o discurso de acordo com a platéia, adaptando-se camaleonicamente a quem estiver na sua frente. Não é diferente dessa vez.
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P.S.: No mesmo discurso em que afirmou que não se pode combater os bandidos com pétalas de rosas, Lula cometeu mais uma de suas gafes. Na verdade, um ato falho: segundo ele, o Estado precisa "competir" com o crime organizado. Fiquei matutando... Primeiro, o Estado não tem que competir com a bandidagem coisa nenhuma. Tem que eliminá-la. Ponto. Segundo, ao dizer que deseja "competir" com a criminalidade, o Grande Molusco deu margem a muitas interpretações maliciosas. Estaria o governo querendo superar os traficantes cariocas em malandragem? Tendo em vista os antecedentes de mensalões, valeriodutos e renans calheiros, esta é uma interpretação bastante plausível...

segunda-feira, julho 02, 2007

TENTANDO DEBATER COM ESQUERDISTAS


Às vezes me perguntam por que gasto tanto do meu (escasso) tempo livre fustigando os esquerdistas. Vez ou outra eu também me pego fazendo-me essa pergunta. Afinal, meu objetivo, quando resolvi fazer este blog, foi suscitar um debate com os membros dessa estranha e irrequieta fauna, que ora está no poder no Brasil e em parte da América Latina. E uma das coisas que mais repugnam um esquerdista, seja de que matiz for, é o livre debate, o confronto honesto de idéias. Já mostrei meu blog a vários conhecidos meus que militam ou militaram um dia nas hostes de esquerda e até agora, por qualquer motivo, a maioria deles se recusou a tecer qualquer comentário, pelo menos a publicá-lo aqui. Logo, à primeira vista, eu estaria perseguindo um objetivo inalcançável.

No entanto, uma força maior me faz prosseguir nesse intento. Que os esquerdistas são refratários ao debate, já sei faz tempo, nem tenho mais qualquer ilusão a esse respeito. Mas nem por isso acho que se deve deixar de referir-se a eles. Por um motivo simples: ao se recusarem ao debate, ao buscarem desqualificar quem os refuta, muitas vezes apelando para a calúnia, para o não-debate, os esquerdistas não cansam de fornecer munição a seus detratores. Como sou um crítico impenitente da esquerda e como sempre fiz questão de debater, em vez de calar, não resisto à tentação de falar mal deles, mesmo correndo o risco de virar um chato.

Para que fique claro o que quero dizer, e para que não me acusem de preconceito ou falta de conhecimento de causa, dou aqui uma receita que considero útil para tratar com esquerdistas. É a única maneira de "debater" com eles.

A primeira coisa que se deve ter em mente, quando se trata de esquerdistas militantes, é a impossibilidade de esses senhores travarem um debate racional e civilizado, segundo as normas da lógica e até mesmo da etiqueta. Não adianta tentar: pela própria essência de suas idéias, eles são incapazes de sustentar seu pensamento com fatos e argumentos lógicos. Pela única e simples razão de que não querem o debate, o choque de opiniões contrárias. Querem o aplauso, a adesão incondicional e incontestável. E, para alcançar esse objetivo, estão dispostos a qualquer coisa, inclusive a lançar mão da calúnia e da intimidação física.

Não que os esquerdistas sejam todos canalhas ou idiotas - e muitos certamente o são -, não que o façam por pura e simples estupidez, mas porque sua condição ideológica de herdeiros de Marx e Lênin os impede de pensar e agir com um pingo de honestidade, de se comportarem com um mínimo de decência e de boa-fé. O que caracteriza o pensamento de esquerda atual, herdeiro do marxismo, é a certeza. Não a certeza decorrente da investigação racional da realidade, a certeza como conclusão ou veredicto, mas como princípio teológico, como pressuposto do próprio pensamento, sem a necessidade de fatos que o comprovem ou não. Tem sido assim desde pelo menos a publicação do Manifesto Comunista, desde que Marx e Engels proclamaram a verdade irrefutável da luta de classes e da necessidade da revolução proletária. Desde esse texto fundador, espécie de Evangelho sagrado dos esquerdistas, aqueles que professam as teses de esquerda se consideram membros de uma supra-humanidade, os únicos e legítimos depositários da Verdade revelada, a quem caberia a missão histórica de construir uma nova humanidade.

Para esses indivíduos iluminados, membros especialíssimos de um clube seleto, todo conhecimento que contrarie ou ponha em dúvida essa Revelação só pode ser falso, não merecendo sequer ser objeto de estudo. Conheci um militante trotskista, estudante de Ciência Política na Universidade, que só lia textos marxistas. Perguntado por que não se interessava por outros autores, ele me veio com a seguinte resposta: "para quê, se nenhum deles vai ajudar a fazer a Revolução?" É assim que "pensam" os esquerdistas. Não se trataria mais de debater, de trocar idéias, mas de impor, de empurrar goela abaixo os pressupostos do materialismo dialético para "fazer a revolução". Para que debater, para que buscar o conhecimento, se já se conhece A Verdade?

Uma vez que vêem a si mesmos como os detentores do monopólio da Verdade, os esquerdistas passam a enxergar o mundo com cores maniqueístas, sem espaço para a dúvida ou a discussão franca. Assim como os teólogos cristãos da Idade Média, acreditam que seus postulados estão isentos de provas racionais, afirmando a verdade de sua proposições pelo método performativo, segundo o qual uma afirmação torna-se verdadeira pelo simples fato de ter sido enunciada. Daí a que se considerem não só os donos da Verdade, mas também da Moral, da Ética, da Justiça, da Bondade, da Honestidade etc. Aqueles que não comungam de suas idéias, a "direita", só podem ser, segundo essa linha de raciocínio, representantes dos valores opostos, ou seja, da mentira, da imoralidade, da anti-ética, da injustiça, da maldade, da desonestidade etc. Para que pensar, para que colocar as idéias sob o teste da lógica e da racionalidade? A certeza ideológica - ou teológica - é muito mais útil, além de mais cômoda.

Segue-se daí que os esquerdistas são incapazes de abordar um argumento contrário sem lançar mão de argumentos ad hominem, o que demonstra sua falta essencial de honestidade. Experimente criticar o governo Lula ou a ditadura de Fidel Castro, por exemplo, e o esquerdista do outro lado dará pulinhos de raiva, cobrindo-o de uma cascata de insultos, que poderão variar dos tradicionais "elitista" e "reacionário", até os mais criativos e conspiratórios "lacaio do imperialismo" e "agente da CIA". Fundamente suas observações em fatos e argumentos sólidos, citando este ou aquele livro, e você receberá de volta não uma refutação racional do texto mencionado, mas imprecações contra a honra pessoal do autor, ou seja, ataques não contra a mensagem, mas contra o mensageiro ("é um conservador", um "direitista" - como se "conservador" e "direitista" fossem ofensas gravíssimas...). Prossiga em sua análise e você correrá o risco de ouvir, do lado oposto, palavras de baixo calão referentes à sua genitora ou a certa parte de sua anatomia, gritadas de forma histérica e a plenos pulmões (por alguma razão, esse pessoal acredita que a verdade de uma frase é diretamente proporcional aos decibéis), ou então alguma insinuação bem pouco sutil a respeito de sua sexualidade. Insista um pouco mais, apontando as incoerências e contradições de seus interlocutores, e você poderá perder algo mais precioso do que a liberdade de expressar-se, como os "revolucionários" do MR-8 sugeriram em relação ao Diogo Mainardi...

Também não se espere dos esquerdistas nenhum compromisso com a coerência. A recusa voluntária em pensar, o apego a dogmas pré-estabelecidos como verdades absolutas e irrefutáveis - características do pensamento mágico, pré-racional -, tornam irrelevante para os discípulos dessa religião secular chamar a atenção para suas próprias contradições. Uma vez que a finalidade, o objetivo último das esquerdas, não é alcançar a verdade - esta já foi alcançada, lembram? -, mas tomar e manter o poder, a coerência pode ser deixada de lado sem constrangimentos. Lula e o PT construiram cuidadosamente, durante décadas, a imagem de representantes da Honestidade e da Ética na política? Pois aí está o atual governo para demonstrar a falácia desse mito, gesticulando desesperadamente que "todos fazem igual". As esquerdas tomaram para si a defesa das liberdades civis e dos direitos humanos no Brasil? Pois não cansam de justificar as violações das liberdades civis e dos direitos humanos em países como Cuba, por exemplo. As esquerdas levantam hoje a bandeira do direito ao aborto em favor da liberdade de escolha para a mulher? Três décadas atrás opunham-se ao controle da natalidade como uma forma de imperialismo. Batem-se atualmente pelos direitos dos homossexuais, a ponto de defenderem um projeto de lei que torna crime qualquer demonstração de "homofobia"? Pois omitem que em Cuba os homossexuais chegaram a ser encerrados em campos de trabalhos forçados para "reeducação". Aparecem como os campeões da luta contra o racismo e pelos direitos das minorias? Pois tratam de pôr debaixo do tapete as perseguições movidas pelos regimes comunistas contra suas próprias minorias étnicas. E assim por diante.

Portanto, mesmo sabendo que essa gente não quer conversa, acredito que é um dever desmascarar suas imposturas, sua arrogância, sua estupidez, sua intolerância travestida de bom-mocismo, a irracionalidade e falsidade essenciais de seus slogans. Mais do que um passatempo, isso para mim é um serviço de utilidade pública. Um dever cívico.

sexta-feira, junho 29, 2007

A VOLTA DOS GUARDIÃES DA MORAL E DOS BONS COSTUMES


Esta é mais uma para o FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, versão 2007: o Governo Federal, por meio do Ministério da Justiça, quer baixar uma portaria estabelecendo a "classificação indicativa" dos programas de televisão, ou seja, determinando o horário em que cada programa deve ser transmitido, de acordo com a faixa etária do público. O que significa isso? Basicamente, a volta dela, a famigerada, a maldita censura governamental aos meios de comunicação, desta vez disfarçada de defesa do bom gosto e dos direitos das crianças e adolescentes.

Todas as minhas dúvidas sobre o caráter autoritário e paternalista do projeto do governo caíram por terra na última segunda-feira, depois de assistir a um debate sobre o assunto no programa Roda Viva, da TV Cultura. No debate, os defensores da medida, funcionários do governo, argumentavam que a iniciativa não era nenhuma forma de censura, mas unicamente um meio de regulamentar - "regulamentar", esta é a palavra mágica que utilizam os inimigos da liberdade de escolha - os horários dos programas, a fim de evitar abusos e coibir a baixaria. Além do mais, prosseguiam esses senhores iluminados, a decisão final de assistir ou não ao programa continuaria sendo do espectador, pois o governo apenas estabeleceria as bases dessa escolha (ou seja: o sujeito continua a ter o direito de escolher o que seus filhos vão assistir, mas quem determina o horário é o governo). Ao final do debate, convenci-me de que o que está em gestação é, sim, uma forma de censura, sutil e subreptícia, mas censura do mesmo jeito.

Por coincidência, no começo da semana, o governo voltou atrás na idéia de estabelecer a censura prévia - o exame, por um grupo de "especialistas" designados para a tarefa, do conteúdo da programação das emissoras, antes de esta ir ao ar. A simples idéia de que foi cogitado tal absurdo já é de dar calafrios. Por sua vez, a idéia da "classificação indicativa", da censura do horário, continua firme e forte. O que estabelece essa invenção maravilhosa? Simples: que o horário dos filmes ou programas, a grade das emissoras, deve adaptar-se aos altos padrões morais e estéticos de um punhado de excelências, pagos por você, contribuinte, para decidir que tal ou qual programa é adequado ou não para seu filho de oito anos assistir naquele horário. Em outras palavras, o que o governo está dizendo é o seguinte: você, espectador, não é capaz de decidir o que é bom para sua prole assistir na televisão, e portanto esta tarefa cabe ao Estado, ao paizinho Estado, que constitui, assim, o guia moral e espiritual da sociedade. O indivíduo, a família, estes não devem ter voz na escolha do que a meninada vê na telinha, nem quando; é somente a Ele, o Estado, que cabe esta árdua missão, em nome da preservação da moral e dos bons costumes.

Não há dúvida de que a programação das TVs privadas no Brasil, assim como em todo o mundo, não é nenhuma maravilha. Aliás, a maioria do que passa na TV não vale nada, é puro lixo. Não tenho paciência para porcarias como Domingão do Faustão ou Big Brother, por exemplo. Mas nem por isso aceito que o Estado se arvore em juiz da qualidade dessa programação, a ponto de decidir por mim sobre o que vai ou não ao ar, nem em que horário. Essa decisão cabe unicamente a quem assiste aos programas, a quem tem o controle remoto nas mãos.

Além do mais, tal decisão governamental, se vier a ser aplicada, será um desserviço à própria cultura. De acordo com a portaria do Ministério da Justiça, peças de Shakespeare repletas de cenas de sangue e sexo como MacBeth e Otelo só poderiam ser transmitidas depois das 23 horas. Contos infantis, como Chapeuzinho Vermelho, teriam de ser adaptados para passar de manhã ou à tarde, com a exclusão da cena em que o Lobo Mau devora a vovó. A idéia de intervir na programação das emissoras de televisão, na forma disfarçada e aparentemente anódina de uma "classificação indicativa", usando para tanto o monopólio da força pelo Estado, é sempre um tipo de censura, que abre caminho para outras formas mais explícitas de tutela governamental sobre os espiritos.

A justificativa apresentada pelos censores pagos pelo governo é sempre a mesma: é preciso "proteger" as crianças, livrá-las do lixo e da baixaria vomitados diariamente pela TV, que muitas vezes abusa de cenas violentas e até mesmo pornográficas. É assim que começa. Primeiro, o governo intervém na grade da programação, estabelecendo o que deve passar neste ou naquele horário. Depois, passa a dar cada vez mais palpite no conteúdo dos próprios programas, expurgando o que é considerado impróprio. Finalmente, passa a ditar o que deve e o que não deve ser transmitido, produzindo ele mesmo os programas que serão assistidos pela população - de preferência, em algum canal estatal. Daí a que se queira determinar o tema e o conteúdo de peças de teatro e de livros, ou simplesmente censurar as notícias, é um pequeno passo. Já vimos esse filme antes e, francamente, não vale a pena.
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O flerte do governo Lula com a censura é antigo. Está nos seus genes, na sua origem e vocação totalitária. Antes mesmo de chegar ao poder, o PT já dava mostras de sua relação tumultuada com a imprensa, elogiando-a sempre que lhe convinha, atacando-a ferozmente quando era criticado. Desde 2003, quando se instalaram no Palácio do Planalto, os companheiros já entraram em rota de colisão com a liberdade de expressão várias vezes: um dos primeiros casos de intolerância lulista foi a expulsão de um jornalista americano que teve a audácia de se referir, em um artigo de jornal, aos hábitos etílicos de nosso Presidente (infelizmente para Lula, não havia nenhum assessor por perto que o lembrasse do gosto pelo úísque de um Winston Churchill, por exemplo). Seguiu-se a malfadada e hoje quase esquecida iniciativa do governo de criar um Conselho Federal de Jornalismo, que outra coisa não seria senão um Conselho Federal de Censura, felizmente engavetada junto com outros programas inócuos, como o outrora badaladíssimo Fome Zero. Mas eles não desistem. A bola da vez é essa tal de "classificação indicativa", pela qual a companheirada pretende ressuscitar a tesoura da censura federal, criando uma espécie de polícia do bom gosto para decidir o que é melhor para seu filho, leitor.

Já tive a oportunidade de ver a propaganda do Ministério da Justiça em favor da "classificação indicativa" na televisão. Lembra muito uma propaganda veiculada pelo governo de Hugo Chávez na Venezuela, o qual fez aprovar medida semelhante anos atrás. Esta foi logo apelidada de "Lei Mordaça", pois na prática impôs o dever de as emissoras de televisão se autocensurarem, caso contrário correriam o risco de perderem a concessão do governo para continuarem funcionando. Essa mesma lei foi invocada por Chávez para fechar uma emissora que lhe fazia oposição, em maio passado. O governo já quis desarmar a população, retirando dela o direito de escolher defender-se ou não. Agora deseja controlar o que assistimos na TV, retirando do cidadão o direito de escolher o que seus filhos verão na telinha. Não há dúvida: estamos mesmo caminhando para o chavismo.

quinta-feira, junho 28, 2007

UM CLUBE QUE NÃO PÁRA DE CRESCER


Hoje não vou publicar nada meu. Creio que o texto a seguir, recolhido da internet, já diz (quase) tudo o que penso a respeito de mais esse absurdo da era Lula. Enjoy!

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OS NOVOS ALQUIMISTAS

Percival Puggina, escritor


A promoção de Lamarca a general de brigada, posto a que por certo jamais chegaria, ainda que tivesse permanecido no serviço ativo, é ato especial dentro dessa campanha do agasalho que os companheiros da luta armada conseguiram montar para benefício próprio. São os novos alquimistas, que transformaram em anos de ouro os anos de chumbo que provocaram.
Uma coisa é o clube em si mesmo, constituído para nadarem de braçada na piscina dos recursos públicos onde se derramam os impostos que todos pagamos e para cujo montante eles foram, ademais, dispensados do dever de contribuir. As indenizações e pensões que recebem, isentas de Imposto de Renda, são servidas no restaurante do clube limpas como filé de lagosta.

Certo líder metalúrgico, após liderar greve no ABC paulista em 1981, passou alguns dias na cadeia. O episódio lhe valeu uma loteria paga em prestações vitalícias de 3,3 mil reais. Bem sucedido jornalista gaúcho foi agraciado com pensão de 10,7 mil reais aos quais agregou bolada extra de um milhão e meio. Um engenheiro da mesma praça ganhou manchete com seu troféu: turbinou a pensão que já vinha recebendo, no valor de 4,4 mil reais, para 10,7 mil reais e foi premiado com mais 1,3 milhão. Conhecidíssimo jornalista carioca, alegando ter sido demitido em 1965 do jornal onde trabalhava, abiscoitou aposentadoria de 23 mil e um milhão de bônus. Já são mais de 10 mil os membros e passam de 50 mil os candidatos a sócio do clube que aguardam despacho da comissão constituída no Ministério da Justiça.

Não nego que certas indenizações sejam devidas, embora constituam uma novidade na política dos povos após conflitos internos sucedidos por anistia geral. Mas os montantes e critérios ferem a razoabilidade. Se a moda pega, teremos que promover ajustes com as vítimas do Estado Novo e com os familiares dos degolados de 1923. Faltaria papel no mundo para imprimir o dinheiro necessário a indenizar os cem milhões de mortos do comunismo e os pensionistas de seus cárceres. E eu frito no dedo se haveria anistia ampla geral, irrestrita e generosamente indenizatória se Lamarca e seus companheiros da luta armada, treinados para "defender a democracia" em Havana, Moscou e Pequim, tivessem sido vitoriosos em seus intentos revolucionários.

Como disse acima, isso é uma coisa. Outra, porém, é o caso Lamarca, porque a promoção de um desertor fere a carreira e a hierarquia militar. Trata-se, aqui, de um ato contra as Forças Armadas. Mas também isso vai passar batido no festival de escândalos urdidos para desmoralizar a alma nacional. Você talvez não perceba, leitor, mas são os seus valores e seus direitos que, a cada dia, estão sendo meticulosamente esfacelados.

Publicado em 25/06/2007

quarta-feira, junho 27, 2007

HETEROFÓBICOS E RACISTAS


Antes de qualquer coisa, é bom que fique bem claro: não tenho, nunca tive nem terei um dia nenhum sentimento negativo contra quem quer que seja por sua cor, raça, etnia, gênero ou orientação sexual. Do mesmo modo, desafio qualquer um a mostrar onde, quando e como eu já teria expressado, neste blog ou fora dele, qualquer opinião que possa ser remotamente associada a qualquer traço de racismo ou homofobia. Nunca tive nem terei nada a ver com nenhum grupo skinhead espancador de negros e nordestinos (até porque sou nordestino), ou com pastores evangélicos que em seus sermões condenam ao fogo do inferno os "sodomitas"(até porque não sou religioso). O simples fato de ter de fazer esse esclarecimento antes de entrar no tema deste texto demonstra a gravidade do ponto a que chegamos. Se, depois de ler o que escreverei aqui, você ainda tiver alguma dúvida quanto a isso, e insistir em considerar minhas opiniões eivadas de algum preconceito, alerto: o problema é todo seu.

Minha cisma com a política de cotas raciais nas universidades e no serviço público e com o projeto de lei "anti-homofóbico" ora em exame no Congresso (PLC 122/06) não tem nada a ver, ao contrário do que gostariam os militantes dos "movimentos" negro e gay, com nenhum viés discriminatório contra negros ou homossexuais. Tem a ver, isto sim, com o que considero uma clara violação de um dispositivo constitucional básico, segundo o qual todos - todos, sem, exceção - são considerados e tratados como iguais (frise-se: iguais!) perante a lei. Trata-se de um pilar do Estado de Direito Democrático, uma conquista da democracia e dos direitos humanos. É esse princípio fundamental da vida civilizada que está sendo ameaçado hoje, graças à ação de minorias antidemocráticas que, em nome da "correção de injustiças históricas" e da "ampliação dos direitos humanos" querem, na verdade, impingir à sociedade uma gravíssima injustiça e minar as próprias bases da democracia e dos direitos humanos.

Comecemos pelas cotas. Em 2003, após anos de pressão do chamado "movimento negro", foi aprovada uma lei que reserva 20% das vagas nas universidades públicas a pessoas que comprovarem ser afro-descendentes, ou seja, negros e pardos. Sob o rótulo politicamente correto de "ação afirmativa", a idéia seria permitir a negros e pardos - a parcela mais pobre da população, segundo estatísticas brandidas por esse "movimento" - o acesso à universidade, o que lhes estaria vedado por sua cor de pele, ou seja, por sua condição de negros e pardos. À parte o fato de que "afro-descendente", no sentido lato, constitui um conceito bastante elástico - tendo a humanidade, segundo as pesquisas arqueológicas mais recentes, surgido no continente africano, seríamos todos, portanto, por definição, afro-descendentes -, além de, culturalmente, como escreveu Gilberto Freyre, sermos mais africanos que europeus, aparentemente esqueceu-se que tal sistema, importado dos EUA, adapta-se muito bem a sociedades onde reinou, durante anos, a segregação racial, não sendo, pois, adaptável a países como o Brasil, onde a intensa miscigenação praticamente apagou as linhas que separam as raças. Isso, por si só, já seria motivo suficiente para demonstrar o caráter inócuo e demagógico dessa lei. O problema, no entanto, é muito mais grave, pois tal sistema, a pretexto de corrigir uma suposta divisão racial da sociedade - aliás, no caso do Brasil, inexistente -, acaba legitimando e institucionalizando o racismo, ao estabelecer, como critério para o acesso à universidade e a outros serviços públicos, não o mérito individual, mas única e simplesmente a cor da pele. Pior: através de um sistema risível de classificação racial, baseado, no caso da Universidade de Brasília, pelo exame - pasmem - das fotografias dos candidatos, no pior estilo do apartheid sul-africano ou do nazismo. Daí que dois irmãos gêmeos idênticos tenham sido considerados, por esse sistema absurdo, como um branco e o outro, negro, é algo que não deveria causar-nos nenhuma surpresa. Além da impossibilidade prática de definir-se quem, no Brasil, seria negro ou branco, criou-se, com essa lei, uma situação em que a imensa maioria da população, composta de mestiços, é alvo de antemão de uma política discriminatória e, sim, racista, para beneficiar uma minoria.

A PLC 122/06 consegue ser ainda mais absurda. De acordo com o texto atualmente em discussão na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, pretende-se igualar a homofobia a crimes já considerados inafiançáveis, como o racismo. Argumentam os defensores de tal medida que esta se faz necessária em virtude do elevado número de crimes, sobretudo assassinatos, supostamente cometidos contra homossexuais no Brasil. Sem falar que os assassinatos praticados por homossexuais não se encontram contemplados em nenhuma legislação específica (e alguém nega que estes também ocorrem?), o problema é que, assim como no caso da política de cotas raciais, a definição do que seria homofobia, por sua própria natureza vaga e imprecisa, serve às mais amplas interpretações. Estaria enquadrada nessa categoria aquela piada que os amigos costumam trocar no bar, sobre o jeito afeminado do amigo gay? Nesse caso, dever-si-a prender quase todos os humoristas brasileiros, que têm na imitação de trejeitos e desmunhecadas seu ganha-pão. Deveria ser jogada no xadrez, aliás, quase toda a população brasileira, que não cansa de usar, no dia-a-dia, expressões populares como "boiola", "baitola" etc. (a propósito: o que diria o povo brasileiro de uma lei que, a pretexto de não ferir as suscetibilidades de judeus e muçulmanos, banisse expressões como "judiar" e "mourejar"?). Quem for heterossexual - a maioria, creio eu - que tome muito cuidado e pense várias vezes antes de rejeitar polidamente uma cantada de alguém do mesmo sexo, pois poderá ser tachado como "homofóbico" e parar atrás das grades. No mesmo sentido, deveriam ser encarcerados sem direito a fiança (quase) todos os padres católicos e pastores protestantes do País, sempre e quando mencionassem a Bíblia para expor seu ponto de vista sobre homossexualidade. Aliás, mesmo antes da aprovação dessa lei idiota, já tivemos uma amostra do grau de arbitrariedade dessa iniciativa, com a decisão judicial que ordenou a retirada de outdoors espalhados em Campina Grande (PB), com os dizeres: "Homossexualismo" e a frase do Gênesis, "E Deus fez o homem e a mulher e viu que era bom", por considerá-los "homofóbicos". Se é homofobia citar a Bíblia para expor uma posição religiosa sobre esse tema - com a qual, aliás, ninguém é obrigado a concordar -, imaginem o que ocorrerá, caso essa lei seja aprovada, com quem ousar expor publicamente seu ponto de vista pessoal sobre o assunto. Onde fica a liberdade religiosa e de expressão?

Se havia alguma dúvida de que, sob a égide do lulismo, caminhamos para um tipo de totalitarismo politicamente correto, o sistema de cotas raciais e a PLC 122/06 demonstram isso de forma cabal e irrefutável. Em um país onde quase todos trazem a marca ou o sangue africano nas veias, e onde artistas, cantores e diretores de televisão são em grande parte gays assumidos e militantes, dizer que há racismo e perseguição generalizada a negros e homossexuais é de uma imbecilidade sem medida. Longe de significarem um avanço na luta pelos direitos de minorias oprimidas, tais iniciativas são obra de "movimentos" político-ideológicos que, amparados durante anos pelas esquerdas, visam a defender não direitos, mas privilégios. O que realmente querem é impor uma divisão racial e sexual na sociedade, instituindo uma casta de indivíduos intocáveis e acima das leis, que utilizarão a cor da pele ou a opção sexual como álibi para todo tipo de abuso - uma ditadura gay e racista.

No começo deste texto desafiei quem o lesse a demonstrar em que momento lanço mão de argumentos racistas e discriminatórios. É uma pena que não se possa dizer o mesmo das mentes brilhantes que estão por trás do sistema de cotas e da PLC 122/06.

sexta-feira, junho 22, 2007

COMO ME TORNEI UM REACIONÁRIO


Nunca fui muito fã de textos confessionais. Talvez por timidez, talvez por excesso de objetividade, sempre achei que, de tudo que se pode pôr no papel ou na tela de um computador, relatos da vida pessoal são o que há, talvez, de menos interessante. Afinal, escrever sobre si mesmo, sobre a própria vida, é sempre um exercício de cabotinismo, de vaidade narcísica e de futilidade, e aí está o Orkut e a maioria dos blogs para comprovar isso (na minha terra, a gente diz que quem fala muito de si próprio é um cabra muito amostrado. A internet está cheia de gente amostrada). Além do mais, não importa o quanto se tente ou aparente ser honesto, o sujeito sempre vai querer inflar o próprio ego, enaltecendo as próprias qualidades, ao mesmo tempo em que vai dar um jeitinho de esconder este ou aquele detalhe pouco lisonjeiro, esta ou aquela lembrança constrangedora de sua biografia. Apesar disso, creio ser necessário quebrar um pouco essa regra auto-imposta para relatar um caso acontecido comigo, o autor destas mal-traçadas linhas, tempos atrás.

Pouca gente que me conhece hoje sabe, e certamente alguns se surpreenderão com o que vou dizer, mas houve uma época em que participei de uma organização esquerdista. Aliás, esquerdista não: de ultra-esquerda, revolucionária (pelo menos assim se intitulavam seus membros), marxista-leninista (trotskista, para ser mais exato), anticapitalista, antiimperialista, antiliberal, antiglobalização - enfim, extremista, ferrabrás, porralouca, mucho doida.

Eu tinha uns 18 ou 19 anos e acabara de entrar na universidade. Universidade pública, federal, situada lá na província, onde nada acontece. O curso, inicialmente Direito, depois de alguns porres e de uma crise existencial passou a ser História (achava, com razão, que o estudo das leis não tinha nada a ver comigo). Época de escolhas radicais, de muitas dúvidas e incertezas (com exceção da minha opção sexual, desde cedo hetero com todo orgulho e sem concessões). De namoros fugazes e amizades idem. De muita festa, bebedeiras homéricas e muita experimentação, caracterizada, acima de tudo, pelo tédio e arrogância naturais da adolescência. Tédio e arrogância ainda mais intensificados quando se lê um pouco mais que a média e quando os horizontes não se limitam à mediocridade da rotina escola-balada-escola. Para um moleque assim, entediado, impaciente e bastante pretensioso, a atração por idéias radicais e extremistas, por fórmulas mágicas capazes de mudar o mundo e redesenhar a própria natureza humana, é quase irresistível.

Mas eu dizia que fiz parte de uma organização esquerdista. Esta era uma sigla ainda hoje inexpressiva, teoricamente com alcance nacional - até mesmo internacional, segundo diziam - mas na verdade um grupelho minúsculo (com o perdão da redundância), cujos integrantes cabiam - e, até onde eu sei, ainda cabem -, com certa folga, numa Kombi. Apesar disso, suas pretensões revolucionárias eram ilimitadas e não caberiam dentro de um Jumbo. Era um grupúsculo orgulhosamente sectário, que insistia no purismo ideológico como resposta àquilo que chamava de "oportunismo" e "reformismo" dos partidos de esquerda tradicionais, como o PT e o PCdoB. Mais que isso: seus membros viviam às turras com outras seitas de extrema-esquerda, sobretudo trotskistas (a capacidade centrífuga dos trotskistas parece ser infinita), pois cada uma delas reivindicava para si o legado de Trotsky, acusando a outra de traição aos verdadeiros ideais revolucionários bolcheviques (Trotsky é uma espécie de Dom Sebastião dos ultra-esquerdistas, que insistem em dizer que, se fosse ele, e não Stálin, o sucessor de Lênin, a história teria sido diferente). Para se ter uma idéia do grau de radicalidade da tal organização, basta dizer que, para seus militantes, a URSS nunca foi socialista e Fidel Castro era um burguês contra-revolucionário. Embora falasse em nome dos operários e proclamasse, em panfletos mal redigidos, a necessidade da revolução proletária, a maioria dos integrantes dessas organizações era de estudantes de classe média, e seu principal terreno de atuação era a universidade e o funcionalismo público (o "proletariado" das regiões periféricas, de escassa indústria).

No início, achei que tinha encontrado, finalmente, minha "galera". A aproximação foi, digamos, quase natural. Como dez em cada dez estudantes, eu não queria ser identificado como um direitista - o mal absoluto, na visão de muita gente. Além disso, mesmo antes eu já sentia uma antipatia quase instintiva pela esquerda tradicional, principalmente pelo PT, cujos militantes me pareciam - e continuam a me parecer - um bando de bundas-moles, nem tão à esquerda para falar abertamente em revolução, nem tão à direita para defender o liberalismo. Mas o mais importante, o que mais me atraía naquele círculo bizarro, era seu caráter voluntariamente clandestino e conspiratório, underground, pois eles condenavam violentamente o "legalismo" dos partidos esquerdistas tradicionais e optavam pela atuação clandestina e à margem da lei, adotando - vejam só - codinomes, como num romance barato de espionagem. Apesar de, hoje em dia, achar tudo isso ridículo, devo confessar que aquilo me fascinava. Em minhas fantasias juvenis, eu já me via guiando as massas e tomando de assalto o Palácio de Inverno, ou descendo a Sierra Maestra para expulsar o imperialismo. Via-me também - e custou-me muito reconhecer o caráter mórbido disso - mandando os burgueses para o paredón, em verdadeiras orgias de fuzilamentos para purificar a humanidade e preparar o caminho para o paraíso socialista (no meio desses contra-revolucionários que eu despacharia para o além em gloriosos banhos de sangue deveria constar, pelo menos, este ou aquele desafeto pessoal, mas é claro que, na época, eu não encarava a coisa desse jeito).

Com o tempo, porém, aquela repetição incessante de slogans e verborragia pseudo-revolucionária ficou cansativa. O que antes me pareceu firmeza e convicção ideológica passou a ser para mim apenas intransigência e dogmatismo, agravados por reuniões intermináveis e por sessões infindáveis de masturbação intelectual - um marxismo academicista, apenas um pouco menos primário do que a vulgata esquerdóide que até hoje domina o ambiente acadêmico. Acima de tudo, eu queria menos blablablá e mais ação. Não entendia como um grupo que se dizia revolucionário e socialista (as duas palavras mais repetidas em suas proclamações, segundo lembro) insistia em apostar todas as suas fichas numa coisa chamada "movimento estudantil" - uma verdadeira palhaçada, como demonstra a comédia da invasão do prédio da reitoria da USP, ora em curso. Por causa disso, passei a ver aquela pose de carbonários, toda aquela ênfase no trabalho clandestino, como simples paranóia ou como algo meio fake, um teatrinho para atrair outros jovens entediados e ansiosos para mudar o mundo como eu. Por causa disso, também, nunca passei da condição de simpatizante, jamais alcançando o nível de militante da dita organização. Fui-me afastando cada vez mais dos "camaradas" (pelo menos eles não se chamavam de "companheiros", o que sempre achei uma veadagem) e assumindo posições cada vez mais independentes. Creio que a gota d'água para mim foi quando passei duas horas debatendo com um dos membros do grupo tentando convencê-lo das possibilidades propagandísticas da internet, ao que ele replicava, com veemência cada vez mais maior, argumentando que esta era um instrumento da pequeno-burguesia, logo não-revolucionário. Finalmente, após muita discussão e várias cervejas, descobri que eu era um burguês e nunca mais falei com aquele pessoal.

Desde então, tornei-me, para meus ex-camaradas trotskistas, um reacionário, um traidor, um vendido. Pior que isso: sou um "perdido" - era assim que eles chamavam alguém que se afastava das idéias sagradas bolcheviques, como se fosse uma menina que perdera a virgindade de forma desonrosa. Concordo com eles. De fato, há muito estou perdido para as idéias totalitárias, seja de que tipo forem. Também já perdi a inocência faz tempo, inclusive em política. Escolhi deixar a revolução de lado e cuidar de minha própria vida, seguindo o conselho de Nelson Rodrigues aos jovens: "envelheçam, pelo amor de Deus!". Envelheci. Cresci.

A lição que tiro daquela época é que hoje, quase quinze anos depois, vejo como é fácil deixar-se enganar, iludir-se quando se é muito jovem. Percebo claramente por que os partidos e ideologias totalitárias exercem tanta atração e atribuem tanta importância à juventude, possuindo, todos eles, uma "ala jovem". Sei que parece conversa de velho - coisa, aliás, que ainda estou longe de ser -, mas a verdade é que, aos 18 anos, por mais inteligente que alguém seja, não tem ainda o discernimento e a vivência necessários a uma opção de vida responsável e conseqüente. Com essa idade, ninguém é capaz sequer de dizer onde estará em cinco ou dez anos, quanto mais mudar o mundo. O que se busca, quando se tem 18 anos, é a emoção do momento, a satisfação egóica dos instintos. Ao contrário do que dizem os aduladores, não há nada de "puro" na juventude: há, sim, muita imaturidade e irresponsabilidade, muita porralouquice, o que faz dos jovens entre os 15 e os 25 anos presas fáceis de aproveitadores políticos, que vêem nessa falsa "pureza" a argila em que possam moldar o que quiserem. Felizmente, meu instinto "do contra" falou mais alto, já naquela época.

De vez em quando, chega para mim alguma notícia de onde anda fulano ou beltrano, os ex-futuros Lênin ou Trotsky brasileiros, que se batiam com tanto ardor em defesa da revolução socialista internacional e do governo de operários e camponeses. Soube que dois deles, de quem eu era mais próximo, continuam com as mesmas idéias, exercendo a mesma profissão de professores em universidades estatais ou em escolas da rede pública de ensino, intervindo de vez em quando em assembléias de servidores públicos e conclamando a todos para a greve geral que irá derrubar o capitalismo e deflagrar a revolução comunista mundial. Diante disso, agradeço todo dia aos céus, pois me convenço de que tomei a decisão certa.