quarta-feira, abril 25, 2007

UM DITADOR INIMPUTÁVEL


Escrevi o texto a seguir em um momento de particular indignação, dois anos atrás. O tempo passou, e a situação que descrevo no texto não mudou em nada. A indignação também não. Leiam e digam o que acham.
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"A única coisa necessária para que o mal triunfe é que os homens de bem não façam nada" (Edmund Burke).

É um consenso internacional, consagrado em diversos tratados e convenções, que a democracia é um valor universal. Como universal é também a concepção de que as relações entre os Estados, além de pautarem-se pelos princípios de autodeterminação e de não-intervenção nos assuntos internos um do outro, não podem ser indiferentes ao caráter democrático ou não de cada regime político. Estes são princípios aceitos internacionalmente, inscritos nas Cartas da ONU e da OEA, e aos quais ninguém, se não quiser passar por simpatizante de tiranias, faz objeção.

Do mesmo modo, é um fato inegável que a maioria dos Estados da América Latina e do Hemisfério ocidental são democracias. Inegável também é – menos, talvez, para seus defensores mais fanáticos – que a ilha de Cuba constitui, nesse contexto, uma exceção.

Ninguém ignora que em Cuba vigora há quase meio século uma ditadura de partido único, sem possibilidade de alternância no poder. Lá não se respeita nenhuma das liberdades democráticas fundamentais – de expressão, de reunião, de associação –, bem como os direitos humanos dos que se atrevem a discordar do regime. É um Estado policial, uma ditadura totalitária com culto à personalidade do Líder, como o era a URSS de Stálin e Brejnev e o Iraque sob Saddam Hussein, e como ainda são a China e a Coréia do Norte. Disso não resta qualquer dúvida, como bem demonstram a observação impacial e a leitura de livros de autores cubanos exilados como Reinaldo Arenas, Guillermo Cabrera Infante, Norberto Fuentes e Carlos Alberto Montaner, entre outros, que revelam o frio cotidiano sob a opressão do castrismo. Como demonstram esses autores, há somente duas liberdades garantidas pelo Estado cubano: a de criticar os EUA e a de elogiar o Governo. Este, por sua vez, está democraticamente aberto ao monólogo.

Visto isso, seria de presumir-se que os governos dos países democráticos buscassem influir para a democratização de Cuba, fazendo gestões nesse sentido nos organismos e foros internacionais. No entanto, não é assim que procedem várias entidades e governos democráticos, como a União Européia (UE) e o Governo do Brasil. A condenação, em nível teórico, da ditadura e do totalitarismo não se reflete em medidas concretas no plano da realidade. O resultado é a eternização de uma ditadura pessoal e sanguinária, com a bênção desses governos.

A IDÉIA E A REALIDADE

A prova mais recente dessa contradição essencial entre a proclamação dos princípios democráticos no plano das idéias abstratas e os esforços práticos para implementá-los no caso de Cuba foi a decisão da UE, acompanhando a mudança de posição do Governo espanhol de Rodríguez Zapatero em relação ao Governo anterior, de levantar, em fins de 2004, as sanções decretadas contra o regime de Fidel Castro em março de 2003. Naquela ocasião, o ditador cubano mandou fuzilar três pessoas que haviam seqüestrado uma balsa em uma tentativa desesperada de fugir do paraíso socialista do Caribe e aproveitou para meter na cadeia, de cambulhada, 78 dissidentes políticos sob a acusação padrão a todos os que lutam pela liberdade na ilha: espiões dos EUA. Por mais brutal que tenha sido essa onda repressiva, é apenas uma pequena fração do total de sofrimento, morte e medo gerados pelo tirano do Caribe. Diante de mais essa violência contra os direitos humanos na ilha-prisão, a UE decidiu agir, à época, em defesa da democracia, enquanto o Brasil, mantendo-se fiel ao dogma auto-imposto de opor-se à "politização" da questão, preferiu agir como sempre fez, abstendo-se de condenar o regime de Havana na Comissão da ONU para os Direitos Humanos. Em 14 de abril de 2005, o Brasil repetiu essa atitude, ao lado de mais 18 países, entre os 53 que formam parte da referida comissão.

A postura adotada pela UE (que abandonou sua decisão de 2003) e pelo Brasil no tocante à tirania castrista é uma dessas atitudes que desafiam a lógica mais elementar do bom senso nas relações internacionais. A justificativa apresentada para o tratamento diferenciado de Cuba – de fato, um tratamento VIP – baseia-se na alegação de que o contato e o convívio da ilha com os governos democráticos irá trazer inexoravelmente o país para o seio da democracia. Tal idéia, aparentemente bem-intencionada, está baseada na interpretação corrente de que Cuba se tornou um Estado totalitário devido às pressões e ao isolamento imposto à ilha pelo Governo dos EUA, após a ascensão de Fidel Castro ao poder, no longínquo ano de 1959. Uma vez encerrado esse isolamento, Cuba voltaria a ser um membro da família democrática continental. Ambas as idéias são falsas.

A ILUSÃO DO CONVÍVIO DEMOCRÁTICO

Em primeiro lugar, a crença piedosa de que o regime comunista cubano irá abrir-se devido ao convívio com as democracias é um equívoco decorrente ou da ignorância em relação à História ou de má fé ideológica. O que Cuba importa dos países com os quais mantém relações não são as idéias de democracia e eleições livres, mas os produtos que garantem a sustentabilidade do regime e, de quebra, ajudam a manter a boa vida dos dirigentes (ver, por exemplo, recente reportagem da revista Forbes sobre a fortuna pessoal de Fidel Castro). Ademais, esse convívio já existe de longa data – desde 1975, pelo menos, TODOS os países latino-americanos, além do Canadá e de vários na Europa ocidental (inclusive a Espanha desde a época da ditadura franquista), estabeleceram e mantêm relações com Cuba – e, mesmo assim, isso não produziu nenhum avanço significativo no campo da democracia e dos direitos humanos na ilha.

A política da UE e das demais democracias ocidentais em relação à Cuba só faria algum sentido se, à abertura no campo diplomático e comercial correspondesse algum sinal de abertura política no campo interno. Mas não é isso o que acontece. Nos últimos anos, o regime de Fidel Castro vem mantendo a repressão e a perseguição a seus opositores internos, não deixando qualquer esperança de democratização à vista. As prisões ou o paredón continuam a ser o destino dos adversários do regime, como os pacíficos militantes liderados por Oswaldo Payá e pelo poeta Raúl Rivero, que vêm há anos pedindo, quixotescamente, que se realizem eleições democráticas no país. Em outras palavras, o ditador cubano apenas se fechou ainda mais para o mundo, ao passo que este, apesar disso, insiste em se abrir para a ditadura castrista, tratando-a a pão-de-ló. O que torna a política das democracias no tocante a Cuba unilateral e não-recíproca, para não dizer enviesada ideologicamente.

Essa teoria, segundo a qual Cuba se converteria à democracia por osmose, foi totalmente desacreditada pela realidade. Após o fim de seu patrono, a URSS, em 1991, é apenas a repressão interna e a cumplicidade dos governos democráticos, aliadas ao incondicional apoio de intelectuais saudosos do stalinismo, o que explica a perpetuação do totalitarismo cubano. A respeito desses últimos, o aval a Fidel Castro há muito já ultrapassou a linha do racional, pertencendo, hoje, ao reino do insondável. O Nobel português José Saramago, após romper publicamente com o regime de Cuba após os fuzilamentos e detenções de 2003, "descobrindo", somente então, que a ilha é uma ditadura, não conseguiu ficar mais do que dois anos longe de seus velhos companheiros de utopia, abjurando sua abjuração anterior. O regime castrista sempre contou com um poderoso lobby de intelectuais (como Saramago e o também Nobel colombiano Gabriel García Márquez) e de pseudo-intelectuais (como Frei Betto e Eduardo Galeano), extremamente zelosos quanto à defesa da democracia em seus países, enquanto se especializaram em defender e justificar a ditadura cubana com unhas e dentes.

Outro detalhe, em geral esquecido pelos defensores da abertura unilateral e não-recíproca a Cuba, é fornecido pela História. Até onde se sabe, nenhum regime comunista caiu, até hoje, devido à uma política mais complacente por parte das democracias. Muito pelo contrário: foi justamente quando os países ocidentais, encabeçados pelos EUA, resolveram endurecer sua posição no tocante à URSS e a seus satélites comunistas da Cortina de Ferro, no início da década de 80, que esses regimes começaram a mostrar sinais de esgotamento, culminando em seu colapso total em 1989-1991. Quando, ao contrário, o Ocidente decidiu-se por uma política mais branda para com o bloco comunista, como na distensão internacional ("détente") dos anos 1962-1980 e durante os acordos de Yalta em 1945, ocorreu precisamente o inverso, ou seja, o comunismo se expandiu com força renovada no mundo, atingindo amplas regiões na Europa oriental, Ásia, África e Oriente Médio. Por razão semelhante, não há como traçar um paralelo entre os efeitos da visita do Papa João Paulo II a Cuba, em 1998, e as que ele fez à Polônia a partir de 1979: ao contrário da Polônia de então, Cuba não estava nem está acossada interna ou externamente, com a oposição não nas ruas, mas atrás das grades ou sob forte vigilância policial. Nessas circunstâncias, a visita histórica do Santo Padre à ilha comunista teve o condão de ajudar a fortalecer ainda mais a ditadura local, com as bênçãos da Santa Madre Igreja Católica.

Também é uma ilusão supor que o incremento do comércio e mesmo das relações capitalistas na ilha irá conduzir à democracia. Se é correto que uma economia de mercado, para florescer livremente, pressupõe a existência de instituições democráticas sólidas, regimes tirânicos podem perfeitamente conviver e se beneficiar de um certo grau de liberdade econômica, desde que isso não ponha em risco os privilégios da elite no poder. É o que ocorre atualmente na China, por exemplo, e é o que também ocorre em Cuba. Acima de tudo, só há uma maneira de lidar com ditaduras como a de Fidel Castro: pressionar pela liberalização do regime, condicionar a abertura diplomática e comercial a reformas políticas efetivas. Exatamente o que não se vê hoje em Cuba.

Logo, é falsa a alegação de que Fidel Castro permitirá eleições livres e se converterá em um democrata porque os demais países resolveram fechar os olhos para o caráter totalitário do regime que ele lidera. A História do século XX demonstra que regimes totalitários são irreversíveis; ou seja: uma vez instalados, não podem ser reformados, melhorados ou "humanizados" (os exemplos da Hungria em 1956 e da Tchecoslováquia em 1968 estão aí para quem quiser ver). Exatamente por ser totalitário, como afirmou Jean-François Revel, o regime cubano só tem dois caminhos a seguir: ou se perpetua ou cai. E não será com afagos e aberturas diplomáticas da comunidade internacional que ele cairá.

"A CULPA É DO BLOQUEIO"

Em segundo lugar, quanto à tese de que Cuba foi "empurrada" para o totalitarismo comunista devido à pérfida ação dos EUA, que a teriam isolado dos demais países americanos, esta também não resiste a uma crítica séria. Ao contrário do que repete Fidel Castro, que responsabiliza o "bloqueio" norte-americano pela manutenção de sua ditadura pessoal, condicionando a retirada deste à concessão de qualquer reforma interna, a existência ou não de tal bloqueio é irrelevante para a eternização do regime castrista. Por um motivo muito simples: não existe bloqueio algum. O que há, isto sim, é um embargo norte-americano ao comércio com a ilha, ou seja, a proibição a empresas norte-americanas de comerciar com Cuba, o que só prejudica os empresários dos EUA que querem vender seus produtos à ilha, e que não a impede de ter um comércio bastante ativo com todos os demais países. Como já vimos, Cuba mantém relações diplomáticas e comerciais plenas e normais com a maioria dos Estados, logo está muito longe de ser um país isolado, e isso não a faz avançar um milímetro em direção à democracia. Apesar disso, o ditador cubano continua a usar o suposto bloqueio como uma desculpa para o retumbante fracasso de seu modelo stalinista.
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Na realidade, a idéia do "bloqueio", assim como a tese da conversão de Cuba ao marxismo-leninismo como o resultado do "isolamento" imposto pelos EUA desde 1960, é mais um dos mitos criados pela ditadura castrista, assim como o foi a teoria do "foco" guerrilheiro, baseada na falsa premissa de que a Revolução Cubana "surgiu do zero, do nada", a partir da ação heróica de um punhado de homens e seus fuzis, a qual já foi totalmente desmentida pelos fatos. O próprio Fidel Castro, aliás, gabando-se de sua esperteza, já admitiu que tinha uma concepção socialista e marxista-leninista antes mesmo de tomar o poder, e que as pressões dos EUA não foram o fator responsável por sua decisão, pessoal e intransferível, de transformar Cuba em um Estado comunista e em um porta-aviões soviético nas Américas (quem tiver alguma dúvida, que leia as entrevistas do próprio Fidel Castro a Roberto D´Ávila e Frei Betto, ambas em 1985, em que ele confessa isso desavergonhadamente).

Uma boa analogia a ser aplicada ao caso de Cuba é com a África do Sul sob o regime racista do apartheid. Claro, os incondicionais da ditadura castrista jamais vão admitir, mas a comparação demonstra claramente o viés ideológico da atitude complacente adotada para com o regime cubano. Não faz muito tempo, o Governo de Pretória, por sua política racista e segregacionista em relação à maioria negra, era um pária internacional. Sucessivas resoluções da ONU o condenaram por violações aos direitos humanos e à democracia, impondo uma série de sanções e exigindo, em troca da retirada destas, a plena garantia das liberdades para a população nativa. Até mesmo no campo esportivo a África do Sul foi alvo de um boicote. Finalmente, após anos de condenações internacionais, o regime do apartheid, encurralado, chegou ao fim. Pois bem: qual a razão de adotar uma atitude para a África do Sul, que era uma violadora contumaz dos direitos humanos, e outra, completamente diferente, para Cuba? Qual a razão desse duplo padrão? O Governo racista sul-africano não poderia alegar, com base nos argumentos dos que defendem a não-condenação de Cuba na Comissão de Direitos Humanos da ONU, que estaria sendo vítima de uma tentativa de "politização" da questão, e assim justificar a opressão da minoria branca sobre a maioria negra? Imaginem a onda de indignação que se levantaria no mundo inteiro diante de tão cínica e escrachada alegação! Por que, então, isso não se repete quando o acusado é Cuba? Recai sobre os que apóiam a omissão em condenar as violações dos direitos humanos pelo regime de Fidel Castro o ônus de responder essa questão.

Na verdade, a "politização" da questão cubana não advém de quem quer ver Cuba transformada em uma democracia, mas, pelo contrário, de quem se opõe a qualquer atitude mais firme nesse sentido. Não é preciso ser americanófilo ou membro da extrema-direita do Partido Republicano dos EUA para reconhecer que Cuba é uma ditadura. É um fato, que não tem nada a ver com qualquer "politização". Entretanto, toda crítica ao regime de Fidel Castro é imediatamente rotulada, por uma visão histérica e paranóica, como "propaganda a serviço dos EUA e do imperialismo", "falsificações de agentes da CIA" etc. Cobriu-se o regime cubano com um véu de condescendência e de impunibilidade que nunca foi concedido a nenhum outro Governo, em um favorecimento que só pode ser entendido como intenção deliberada de justificar e enaltecer a ditadura castrista. Com medo de parecer "pró-EUA", países como o Brasil decidiram fechar os olhos para as violações aos direitos humanos e a falta de democracia em Cuba.

EM DEFESA DAS TIRANIAS

Os defensores do não-isolamento de Fidel Castro – mas não do povo cubano, há mais de 40 anos mantido isolado do resto do mundo pela ditadura castrista – costumam confrontar a situação da (falta de) democracia na ilha com os tão decantados avanços na área social, sobretudo em saúde e educação. Deixando um pouco de lado a questão da qualidade, por exemplo, da educação em um país onde só se podem ler os livros permitidos pelo Estado, vale dizer que tal argumento, tão do agrado de nossas esquerdas, padece de um erro básico: em nenhum lugar está escrito que a ausência de liberdade é o preço a ser pago pela melhoria das condições sociais. Fosse assim, países como a Suécia ou a Finlândia deveriam ser ditaduras crudelíssimas. Além disso, regimes como o nazismo e o fascismo (sem esquecer, claro, o stalinismo), de acordo com essa visão, estariam plenamente justificados, pois também se gabavam de proporcionar esses serviços básicos à população – embora, saibamos hoje com abundância de detalhes, a que preço humano!. Não é difícil perceber, assim, quem Fidel Castro e seus simpatizantes tomam como exemplos.

Finalmente, demolidos todos esses pretextos e sofismas, sobra a seguinte pérola: "é verdade que Cuba é uma ditadura e que é preciso fazer alguma coisa para defender a democracia na ilha, mas esta deve ser uma tarefa dos próprios cubanos, sem nenhuma intervenção externa" .

Mais uma vez, o tratamento excepcional ao regime comunista, desta feita em nome da "soberania" . Mesma soberania, aliás, que foi roubada do povo cubano pelo ditador no poder há mais de quatro décadas. Temos visto como, ao longo da História, o argumento da soberania tem sido deturpado como um biombo para justificar as ditaduras mais sanguinárias, tanto à esquerda como à direita. Foi em nome da soberania e da não-intervenção que tiranos como Pinochet, Milosevic e Saddam Hussein massacraram milhares nas últimas décadas. Foi em nome dessa mesma soberania e não-intervenção que – para usar um exemplo caro às esquerdas – a República espanhola foi deixada sangrando até a morte nos anos 30, e assim por diante. Em todos esses casos a população massacrada não poderia sobreviver sem algum tipo de ajuda externa. Enfim, cruzar os braços em nome da não-intervenção, nesse caso, parece ser uma forma bastante eficaz de intervenção – a favor de Fidel Castro.

Aqueles que defendem o "direito soberano" de Fidel Castro de continuar encarcerando e fuzilando seus opositores, negando ao povo cubano a possibilidade de escolher livre e soberanamente sobre seu destino – separando, assim, a soberania da democracia, duas coisas indissociáveis – pertencem a uma categoria de indivíduos facilmente identifícável. São os mesmos que ontem defendiam o "direito" de Saddam Hussein de continuar massacrando impunemente curdos e xiitas e que hoje defendem o "direito" da Coréia do Norte de chantagear o mundo com a arma nuclear. São os mesmos que, sob as mais sutis alegações, recusam-se a chamar a associação entre terrorismo e narcotráfico na Colômbia pelo nome, e que aplaudem as fanfarronices de demagogos megalomaníacos como o coronel Hugo Chávez na Venezuela – não por acaso, hoje o maior amigo de Fidel Castro, indicado pelo próprio como seu "herdeiro ideológico" e que o supre de petróleo barato e abundante. São os mesmos que, por covardia, ignorância ou fanatismo, ficam cegos, surdos e mudos diante das contínuas e escandalosas violações dos direitos humanos em países como Líbia, Sudão, Síria e Irã (usando como desculpa, quase sempre, casos como os de Guantánamo e Abu Ghraib, como se dois erros fizessem um acerto), e que vêem com mal disfarçada simpatia, quando não com apoio aberto, o terrorismo religioso fundamentalista antiocidental da Al Qaeda, do Hamas e do Hizbollah. São os mesmos, enfim, que não hesitam um só instante em condenar como "racista" e "genocida" a política de defesa de Israel diante dos ataques de homens-bomba palestinos, ao mesmo tempo em que se "esquecem" dos objetivos e táticas realmente racistas e genocidas dos grupos radicais islâmicos, que querem destruir Israel e afogar sua população em um mar de sangue. São inocentes úteis, ou nem tão inocentes assim, mas sempre a serviço das formas mais obscurantistas de tirania e opressão. Iludidos ou não, são cúmplices de um crime que se repete há 48 anos contra 11 milhões de cubanos.

Não há clube mais numeroso do que o dos inimigos das ditaduras passadas e amigos das ditaduras presentes. Cuba é uma ditadura sustentada por democracias. Estas têm o dever moral e político de romper com essa cumplicidade e assumir um papel internacional ativo em favor dos direitos humanos. Até quando vai persistir essa cegueira voluntária? Chega.

quarta-feira, março 28, 2007

VÁ ESTUDAR, PRESIDENTE!


Peço desculpas por voltar a este assunto. Mas creio que se trata de algo da maior gravidade e importância para o Brasil. Na verdade, considero que é mesmo a coisa mais grave e importante a respeito deste governo que aí está. Mais do que o mensalão. Mais do que Marcos Valério. Mais do que o apagão aéreo. Mais do que os ataques do PCC em São Paulo. Mais do que a redução da maioridade penal. Mais do que as declarações racistas da Ministra da Igualdade Racial, para quem negro odiar branco não é racismo.

O Presidente Lula precisa voltar para a escola. Rápido. Urgente.

Antes que alguém diga que este é só mais um texto para malhar nosso Presidente, cujas poucas luzes são louvadas entre nós por intelectuais que acham bonito um Chefe de Estado proclamar as virtudes da própria ignorância, faço questão de deixar claro que não se trata de nada disso. Muito pelo contrário. O que desejo é ajudá-lo, fazê-lo abrir os olhos para algo preocupante. Algo que não diz respeito, enfim, a ele somente, mas a todos nós.

Não é segredo para ninguém que Lula estudou só até a 4a série primária. Também ninguém ignora que, por motivos materiais, teve de abandonar cedo a escola. Ele gosta de repetir isso em seus discursos. Até aí, sua trajetória é igual a de tantos brasileiros, migrantes pobres como um dia foi ele, cuja mãe, como ele disse certa vez, em mais uma de suas gafes lingüísticas, "nasceu analfabeta". Depois, virou Lula, o líder metalúrgico, e Lula, o dirigente do PT. Hoje é Sua Excelência, Luiz Inácio Lula da Silva, o Presidente da República. Até aí, nada de mais, todos conhecem essa história de cor. O problema é o que está no meio do caminho.

Entre o início de sua ascensão política como líder metalúrgico no ABC paulista, no final dos anos 70, e a eleição para a presidência em 2002, ou seja, durante cerca de 20 anos de sua existência neste planeta, Lula teve tempo e condições de sobra para correr atrás do tempo perdido e superar sua formação escolar deficiente. Em vez disso, preferiu a "escola da vida". Não estudou porque não quis. O motivo foi o seguinte: já uma celebridade nacional, o estudo para ele se tornou algo supérfluo, um artigo de luxo. Mais: cobrar dele um diploma, ou a pura e simples observância às regras da gramática, seria demonstração de "preconceito" e "elitismo" de quem não acreditava que um ex-metalúrgico sem instrução poderia um dia subir a rampa do Palácio do Planalto.

Agora, Lula é o Presidente da República. Como tal, não pode mais se dar ao luxo de desprezar o valor da educação, sobretudo a educação formal, bacharelesca. Mais que isso, como Presidente, ele tem o dever e a obrigação, política e moral, de dar o exemplo, pois cumpre também uma função didática. Isso significa deixar a preguiça de lado e, lápis e caderno na mão, voltar a estudar. Se retornasse aos bancos escolares, Lula estaria dando um exemplo de força de vontade e superação, semelhante ao de outros companheiros seus, como o deputado Vicentinho, que se formou em Direito depois dos 50 anos. Poderia demonstrar, assim, que aquela propaganda, "Sou brasileiro e não desisto nunca", era para valer, e não somente mais uma peça publicitária enganosa de Duda Mendonça e companhia. Com isso, nosso Presidente estaria dando também uma lição de humildade, algo caro para os brasileiros, pois estaria descendo do pedestal e se juntando a tantos milhares de cidadãos brasileiros, tão pobres quanto ele diz ter sido um dia, que, contra todas as adversidades, encaram uma sala de aula visando a ser alguém na vida. Para essas pessoas, ao contrário do Presidente, a educação não é artigo desnecessário, mas um direito inalienável; nem a ignorância é uma moeda política para fazer demagogia: é, isto sim, uma chaga social, uma indignidade.

Difícil imaginar maior incentivo à educação do que este simples gesto pessoal, num país de tantos analfabetos, voluntários ou não. Tenho certeza de que qualquer criança ou adolescente da periferia, ao ver o supremo mandatário da nação sentado no banco de uma sala de aula, se encheria de espírito cívico e seguiria seu exemplo, deixando de lado, como modelo de vida, os cantores sertanejos ou as celebridades instantâneas da TV ou, ainda, os traficantes de drogas. Valeria por muitos programas governamentais, com certeza. Além disso, se começasse por si mesmo, Lula teria muito mais cartaz quando tivesse de falar do assunto. Afinal, com que autoridade um Presidente pode defender, em discurso, a importância e o valor da educação se lhe foi oferecida durante anos a oportunidade de estudar, de se aprimorar intelectualmente, e ele a desprezou solenemente?

Outra coisa: ao voltar à escola, Lula estaria fazendo um grande favor a si mesmo. Além de poupar-se e aos outros de constrangimentos como dizer que o Brasil não faz fronteira com a Bolívia ou que Napoleão invadiu a China, nosso Presidente poderia tornar-se um excelente garoto-propaganda das vantagens da superação individual. Perceberia, com o tempo, que ler, afinal de contas, não é algo assim tão chato como andar de esteira, e que pode ser mesmo um prazer. Vencida a resistência inicial, Lula poderia perceber que a leitura, além de instrutiva, pode ser algo extremamente divertido. Mais interessante, certamente, do que os churrascos ou as peladas com os companheiros na Granja do Torto. Poderia, enfim, descobrir o deleite de ler e reler os clássicos, como Machado de Assis, aliás mulato, gago e epilético, filho de uma lavadeira e de um pintor de paredes. Se valesse o álibi utilizado por Lula de que sua ignorância decorre de sua infância pobre e sofrida, não existiria a Academia Brasileira de Letras.

Durante muito tempo se discutiu no Brasil o voto dos analfabetos. Os que se opunham a essa medida argumentavam que os mesmos não deveriam ter esse direito, pois careciam do discernimento necessário para fazer suas escolhas, sendo, portanto, facilmente manipuláveis por políticos demagogos e oportunistas. Era uma forma de dizer que o analfabetismo era um problema, e que não poderíamos atingir um certo nível de consciência política a menos que as pessoas tivessem acesso universal à educação. Tal argumento, por elitista, foi, como se sabe, derrubado, e hoje os analfabetos já podem votar. Já podem, inclusive, ser eleitos ao cargo mais alto da República. Lula derrubou esse tabu, assim como derrubou outro mito fortemente incrustado em nosso subconsciente: o de que a ignorância, no Brasil, decorre da pobreza e da falta de acesso à educação formal. Como se vê toda vez que ele abre a boca, a ignorância, no Brasil, pode muito bem ser voluntária.

O Presidente Lula está perdendo uma excelente oportunidade de calar a boca de seus críticos e prestar um serviço inestimável ao País. Está jogando no ralo uma chance de ouro de se redimir perante os milhões que votaram nele, e também perante os outros tantos milhões que, por um motivo ou outro, sempre torceram o nariz para o presidente-operário. Alguém precisa avisá-lo com urgência.

Portanto, correndo o risco de ficar repetitivo, é preciso dizer com todas as letras o seguinte: VÁ ESTUDAR, PRESIDENTE!

quarta-feira, março 21, 2007

DOIS TOTALITARISMOS


"Atrevo-me a dizer que as ditaduras de esquerda são piores, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto; quem o fizer contra as de esquerda acaba acusado de reacionário, vendido, traidor". (Jorge Amado)

Imaginem a seguinte situação: um grupo de jovens, empunhando suásticas e outros símbolos nazistas, marcha pelas ruas, entoando slogans xenófobos e racistas, venerando Hitler e pregando abertamente o ódio racial e a intolerância contra as minorias (judeus, migrantes, negros, gays etc). Ocupam espaços na mídia, criam sites na internet e conquistam simpatizantes em setores importantes da sociedade, como as artes e a universidade. Reúnem-se, organizam-se em partido político e lançam candidatos nas eleições. Enfim, crescem e agitam, preparando-se para o assalto ao poder.

Assustador, certo? Nenhum cidadão respeitável, cumpridor das leis e pagador de impostos, deixaria de se sentir perturbado ante cena semelhante. Acredito também que qualquer pessoa normal, se se considera verdadeiramente democrata, cogitaria da possibilidade de se proibir tais manifestações, ou, pelo menos, mantê-las sob estrita vigilância policial, como ocorre hoje, por exemplo, na Alemanha. Afinal, a democracia não pode se dar ao luxo de permitir que seus inimigos a utilizem para destruí-la. A serpente deve ser esmagada ainda no ovo.

Agora imaginem a seguinte situação: um grupo de jovens (embora manipulados por gente velha), empunhando bandeiras vermelhas com o símbolo da foice e do martelo (ou uma estrela vermelha, ou um sol amarelo) marcha pelas ruas, entoando slogans bolcheviques e anticapitalistas, venerando Lênin e pregando (abertamente ou não) o ódio entre as classes e a intolerância contra o pensamento discordante. Ocupam espaços na mídia, criam sites na internet e conquistam simpatizantes em setores importantes da sociedade, como as artes e a universidade. Reúnem-se, organizam-se em partido político e lançam candidatos nas eleições. Enfim, crescem e agitam, preparando-se para o assalto ao poder.

Terrível, certo?

Se você não hesitou em responder afirmativamente ao terminar de ler o primeiro parágrafo deste texto, mas vacilou em concordar com essa última conclusão, você não está só. Na verdade, você faz parte da imensa maioria dos que se recusam a ver qualquer equivalência entre duas ideologias totalitárias – o nazi-fascismo e o comunismo –, enxergando mesmo superioridade moral do segundo sobre o primeiro. E isso apesar de você se considerar (e provavelmente ser) um democrata. Como democrata, você sente uma repulsa instintiva pelo nazi-fascismo. Mas busca matizar sua ojeriza (se a tiver) pelas idéias bolcheviques, e crê mesmo que eles, os comunistas, têm afinal um papel a desempenhar para o "aperfeiçoamento" da democracia. Se for este o caso, sinto dizer, mas você está enganado. Terrivelmente enganado.

A nenhuma pessoa razoavelmente inteligente e com um mínimo de honestidade escapa o fato de que os crimes e atrocidades nazistas – como o extermínio de 6 milhões de judeus – constituíram um dos capítulos mais negros da História. No entanto, a mesma repulsa e indignação moral não costumam tomar conta do cidadão comum diante dos crimes igualmente monstruosos dos comunistas. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, quando as democracias do Ocidente se aliaram à URSS de Stálin contra Hitler, muitos levaram a aliança para além de seu significado tático, fechando os olhos voluntariamente para as atrocidades soviéticas. Mais recentemente, a mesma cegueira se revelou após a publicação, em 1997, do Livro Negro do Comunismo, que aponta para o número assombroso de 100 milhões de mortos pelas ditaduras comunistas no século XX – mais do que a soma total das vítimas das ditaduras de direita. Na ocasião, os comunistas e seus simpatizantes questionaram os números apresentados. Diante da avalanche de evidências históricas, porém, passaram a bater em outra tecla: os mortos pelo nazismo caíram vítimas de uma ideologia racista e assassina; já os que morreram sob o comunismo ou eram "burgueses" e "contra-revolucionários" (logo, mereceram a sorte que tiveram, como os camponeses da Ucrânia) ou eram inocentes, mas ainda assim tinham de morrer, pois o ideal que os torturava e matava era, afinal, belo e puro...

Entre nós, esta teoria do "totalitarismo preferido" (na feliz expressão de Jean-François Revel) lançou raízes profundas. Por estas plagas, os comunistas, ao contrário dos nazistas, ainda são levados a sério. Mais que isso: são mesmo considerados ardentes democratas e paladinos da liberdade. Como no Brasil, até 1985, os comunistas foram perseguidos, nos acostumamos a crer que sua luta é pela democracia, um erro crasso. Daí porque um "comunista histórico", como Oscar Niemeyer – um stalinista empedernido – ainda seja reverenciado por sua opção política, e não apesar dela (a propósito, alguém aí já viu uma homenagem pública a um "nazista histórico", por exemplo?). Aqui, comunistas, de carteirinha ou não, são tratados como celebridades, escrevem artigos auto-laudatórios e comparecem sorridentes a programas de TV, onde fazem juras de amor à democracia, e ninguém os questiona. Uma situação realmente surreal.

É preciso dar um basta a essa lengalenga. Os neonazistas são cúmplices morais dos crimes cometidos por Hitler e Goebbels. Os comunistas e seus simpatizantes são cúmplices morais dos crimes de Stálin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot e Fidel Castro. Esta é a realidade.

Qual a origem deste duplo padrão? Afinal, trata-se de duas ideologias totalitárias, baseadas no controle total do Partido-Estado sobre quaisquer aspectos da vida social e individual. Ambos os regimes, o nazi-fascista na Alemanha e Itália e o comunista na URSS e depois no Leste Europeu, China e Cuba, usaram e abusaram do terror e da repressão política, exterminaram populações inteiras em tentativas radicais de engenharia social (no caso do nazismo, visando à "pureza de raça"; no do comunismo, à sociedade comunista perfeita). Em ambos houve culto da personalidade, censura, tortura, campos de concentração. Ambos mataram, exterminaram, trucidaram. Constituíram, enfim, aquilo que Alain Besançon chamou de "A Infelicidade do Século". E, ainda assim, há quem veja virtude em um deles.
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O que explica o duplo padrão moral no tratamento dos dois tipos de totalitarismo? Vamos tentar desvendar este enigma.

Uma primeira explicação, de caráter ginasiano, é que nazismo e comunismo seriam ideologias inimigas. Isto seria evidenciado pela invasão da URSS pelas tropas hitleristas em 1941, pelos milhões de mortos na guerra que se seguiu, pela epopéia de Stalingrado etc. Sem mencionar o Pacto Hitler-Stálin de 1939, que dividiu a Polônia entre os dois ditadores e foi a causa imediata da Segunda Guerra Mundial, o qual revelou a cumplicidade tácita entre os dois regimes totalitários, é preciso lembrar sempre que o fato de serem ideologias concorrentes não elimina do nazismo e do comunismo suas características comuns. A principal delas, qualquer pessoa com um nível intelectual acima do amebiano poderá facilmente perceber, é o desprezo pela democracia, tida por ambos como uma mera formalidade burguesa. É esta, e não o totalitarismo rival, que constitui o inimigo principal das duas ideologias totalitárias. Em outras palavras, os comunistas, parafraseando Arthur Koestler, são antifascistas, mas não são antitotalitários. Logo, esta explicação não cola.

Mesmo assim, como os comunistas sempre dispuseram de um formidável aparato de propaganda a seu serviço, essa visão maniqueísta e simplória se enraizou na América Latina, graças à dicotomia Fidel Castro-Augusto Pinochet. Ambos os ditadores, o cubano e o chileno, se tornaram uma espécie de substitutos cucarachas de seus predecessores alemão e soviético. Como se sabe, Fidel matou muito mais que Pinochet e, ao contrário deste último, que já partiu desta para melhor (ou pior), ainda continua no poder. Entretanto, ainda há quem o considere um "bom ditador", assim como Stálin. Quando Pinochet morreu, no final do ano passado, milhares de pessoas, dentro e fora do Chile, celebraram nas ruas, e várias personalidades brasileiras fizeram declarações afirmando que o falecido não deixaria saudades. Vejamos o que dirão quando morrer Fidel.

Descartados esses argumentos, resta a seguinte explicação: ao contrário dos comunistas, os nazistas não escondem seus objetivos. Afirmam abertamente que querem destruir a democracia e substituí-la por uma ditadura da "raça", não deixando espaço para ambigüidades ou contemporização. Os comunistas, por sua vez, agem de maneira mais sutil, reivindicando mesmo o monopólio da virtude e dos valores democráticos. Ou seja, apresentando-se como aquilo que não são – como democratas, defensores da paz e da liberdade –, os comunistas buscam demarcar seu terreno da ideologia irmã nazi-fascista, ao mesmo tempo em que tentam instrumentalizar a democracia para atingir seus objetivos antidemocráticos. Enquanto estão na oposição, procuram utilizar ao máximo as facilidades da democracia, dizendo-se mesmo seus defensores ferrenhos. Onde quer que conquistaram o poder, porém, trataram sempre, no dia seguinte, de varrer a democracia do mapa, pois esta já tinha cumprido sua função, que era levá-los ao poder. Foi assim onde quer que os comunistas tenham chegado ao governo por meio de eleições, como na antiga Tchecoslováquia, ou mediante uma revolução inicialmente democrática, como em Cuba. E quase foi assim no Brasil e no Chile.

Além disso, ao apelarem para um ideal universal – uma sociedade justa e igualitária, ao contrário do ideal exclusivista de pureza racial dos nazistas – os comunistas dispõem de um álibi perfeito. Os nazistas falam coisas odiosas, como expulsar os imigrantes, limpeza étnica etc. Já os comunistas são mais simpáticos: falam em igualdade, justiça social... O nazismo é execrado – corretamente – por ser uma ideologia bárbara e genocida. O comunismo é igualmente bárbaro e genocida, mas é "romântico". Seus crimes, mesmo que em maior número do que os dos nazistas, serão sempre perdoados, pois estão cobertos pelo véu da utopia. O nazista é quase universalmente condenado - mais uma vez, corretamente - com adjetivos como "implacável" e "desumano". O comunista, por sua vez, é louvado por sua "perseverança" e "coerência". Ainda que tenha praticado roubos e assassinatos, o militante comunista será visto sempre com uma aura de respeitabilidade que o nazi-fascista jamais terá. Afinal de contas, ao contrário dos nazistas, seus crimes foram cometidos com as melhores das intenções... Assim, o assassino sempre terá uma boa desculpa, e poderá mesmo culpar a vítima, acusando-a de tê-lo obrigado a assassiná-la.

Da próxima vez que você deparar com um comunista ou simpatizante do comunismo falando em democracia e direitos humanos, saiba que você estará diante de um grande tolo ou de um grande ator, e que tudo que ele disser a respeito é apenas auto-engano ou fingimento. Puro teatro, nada mais.

quarta-feira, março 14, 2007

LULA É UM BUSH PIORADO


Passado o vendaval da visita-relâmpago – com o perdão da expressão meteorológica – do Presidente norte-americano George W. Bush, creio ser possível tirar algumas conclusões sobre o tipo de relacionamento que o Brasil mantém com os EUA. Mais particularmente, sobre o tipo de relacionamento que os dois Chefes de Governo – Lula e Bush – têm um com o outro. Melhor dizendo, sobre quem é cada um deles, à luz tanto da política quanto da psicologia.

Lula e Bush são almas gêmeas. Sei que a esquerda beata, que elevou aos píncaros da santidade o ex-torneiro mecânico de Garanhuns, enquanto se dedica a satanizar o Bush – a ponto de ostentar cartazes em que o próprio aparece com o indefectível bigodinho à la Hitler – jamais vai concordar com essa frase. Mas se trata de algo óbvio que, como tudo que é óbvio, como dizia Nelson Rodrigues, fica difícil, quase impossível, de admitir.

Foi o próprio Luiz Inácio que, em visita à Casa Branca em 2002, antes mesmo de tomar posse, tratou de anunciar aos quatro ventos a descoberta de uma inesperada (para os lulo-petistas, claro) afinidade entre ele e o Presidente estadunidense. De fato, os dois já viraram coleguinhas, quase amigos de infância. Agora, na última visita que fez ao Brasil, entre uma conversa ou outra sobre etanol, os dois presidentes se derramaram em afagos mútuos. Logo, não me baseio em ninguém mais do que em Sua Excelência em pessoa, o apedeuta-mor, para dizer o que se segue.

Lula e Bush, se irmãos fossem, seriam siameses. Basta atentar para os seguintes detalhes da biografia de cada um:

- Um e outro empregaram meios nem sempre lícitos para atingir seus objetivos: mentiram, enganaram, corromperam;

- Um e outro são conhecidos pelos parcos dotes intelectuais; e

- Um e outro se imbuíram de um papel messiânico.

Tais semelhanças, porém, não nos devem fazer esquecer algumas diferenças básicas. Ei-las:

- Bush é acusado de ter manipulado o resultado de sua primeira eleição, em 2000. Lula não precisa disso, pois se especializou em manipular corações e mentes de milhões de brasileiros por três décadas. No caso dos deputados, sempre ávidos por prebendas em troca de apoio, o mensalão dá conta do recado. E aqui a lógica jurídica se inverte: Lula e seu partido, o PT, são sempre inocentes, mesmo com prova em contrário.

- Dizem que Bush é o Presidente mais ignorante que os EUA já tiveram, e que seu QI seria de 81. Injustiça. Bush, creio eu, sabe onde fica a Bolívia. Além disso, ele arranha um espanhol até razoável. Já Lula não fala nenhuma língua estrangeira. Nem mesmo português.

- Quanto ao messianismo, Bush se atribuiu a missão histórica de transformar dois países – o Afeganistão e o Iraque – em democracias, mudando o mapa geopolítico do Oriente Médio. Lula não ficou atrás: entregou-se de corpo e alma às tarefas de fazer "o melhor governo da história deste país em 500 anos" e, de quebra, ainda mudar a "geografia comercial do mundo". Pelo menos Bush é mais modesto.

Além disso, Bush se tornou uma espécie de besta-fera mundial, principalmente depois de ter mandado invadir o Iraque, em 2003. Desde então, não passa um dia sem que alguém desça o pau no Presidente norte-americano, em especial na sua política externa, acusada de ser unilateral e de ignorar a ONU, que desaprovava a queda de Saddam, assim como desaprova qualquer mudança em regimes igualmente democráticos como o de Cuba e do Zimbábue... Nisso os presidentes brasileiro e norte-americano estão, ao que consta, em lados opostos. É que Lula, ao contrário de Bush, é amigo de Fidel Castro e de Hugo Chávez.

A principal diferença, porém, é que a popularidade de Bush não pára de cair, enquanto Lula está blindado por todos os lados: blindado contra o PT, contra o mensalão, contra o caixa dois, contra Zé Dirceu, Palocci, os dólares na cueca, os aloprados etc. Blindado, inclusive, contra sua própria ignorância, graças a décadas de enganação por parte de intelectuais que acham que criticar um Presidente que negligencia a própria educação é coisa de gente "preconceituosa" e "elitista". Rir das gafes do Bush, aí sim, isso pode.

Bush pode ser um idiota, arrogante, até mesmo um gângster, mas isso não importa. Idiotas, arrogantes e gângsteres, sem falar, claro, imperialistas, eram e serão sempre, nas nossas mentes impregnadas de antiamericanismo primário e terceiro-mundismo estéril, os presidentes da maior potência mundial. Não importa o que eles façam ou deixem de fazer, estarão sempre na berlinda. É assim com Bush, assim como foi com Clinton, com Reagan, Carter e Nixon, e assim será com todos os que um dia ocuparem a Casa Branca. Já Lula pode ser isso tudo também, e muito mais, mas sempre haverá quem o defenda com todas as armas. Bush já está condenado de antemão ao inferno. Lula, como demonstrou a última eleição, tem um lugar cativo no nosso coração.

Como se vê, Lula é um Bush piorado, assim como é um Collor piorado. Dessa vez superamos os gringos. Brasil-sil-sil!

quarta-feira, março 07, 2007

LULA E O CULTO DA IGNORÂNCIA


Já sei, vão dizer que eu sou "preconceituoso", "elitista" etc., pois já virou moda tachar com essas adjetivos qualquer um que desafie o vocabulário "politicamente correto" e aponte para um fato óbvio: que nosso Presidente é, sim, um apedeuta. Isto é: alguém que, tendo tido a oportunidade de estudar, optou, conscientemente, pela ignorância, desprezando solenemente a educação e orgulhando-se, mesmo, da própria incultura. O que é, no mínimo, um dessserviço num País com tantos analfabetos como o Brasil, e, no máximo, uma demonstração de incrível arrogância, pois desconsidera o esforço de tantas pessoas que, vindas de origem até mais humilde do que o próprio Lula, esforçam-se para romper o círculo de mendacidade mental a que supostamente estariam condenadas por sua origem social e batalham para estudar e ser alguém na vida. Essas pessoas, que Lula diz representar, certamente não se identificam com o exemplo de nosso Presidente. Para demonstrar isso, vou apenas reproduzir aqui um texto anônimo que catei na internet, que achei bastante interessante:

"Lulestupidez

Minutos antes do começo da gravação do "Roda Viva" no Palácio do Planalto, o jornalista Paulo Markun aproximou-se do presidente Lula para combinar um derradeiro detalhe. Em meio às palavras de encerramento, o "âncora" diria que estava entregando a Lula uma trilogia com as melhores entrevistas ocorridas desde a estréia do programa da TV Cultura, 18 anos atrás.

Com expressão curiosa, Lula apanhou os livros. Antes que se sentisse logrado, Markun informou que só o primeiro volume fora concluído. Os outros, ainda em preparação, paravam na capa. As páginas estavam em branco. Lula devolveu o que estava pronto e folheou os desprovidos de palavras. "Isso é que é livro bom", comentou. "A gente nem precisa ler". O entrevistado parecia feliz. Os entrevistadores exibiam sorrisos constrangidos.

Ninguém no estúdio improvisado aparentou surpresa. Todos conheciam a aversão de Lula à leitura - qualquer tipo de leitura. "Ler é pior que fazer exercício em esteira", confessou, há tempos, o presidente de um país atulhado de analfabetos, com um sistema educacional em frangalhos, incapaz de absorver multidões de crianças traídas.

Milhões de meninos no Brasil, tão pobres quanto Lula foi (ou ainda mais miseráveis que o filho do agreste pernambucano), enfrentam fome crônica e carências inverossímeis para assimilar conhecimentos. Essas crianças valentes não merecem ouvir do presidente o elogio da ignorância.

Lula nunca leu um livro. Não escreve uma só frase sem derrapar em erros graves de português. Mas os chefes do PT, amparados por intelectuais demagogos, decidiram que um migrante nordestino promovido a líder de massas deve ser dispensado de cobranças elitistas. Lula foi diplomado pela escola da vida. Ganhou o direito de, impunemente, maltratar o idioma e dizer tolices sobre tudo. Pensar o contrário é coisa de conservador, mania de preconceituoso.

Sem trabalhar há quase 30 anos, o presidente teve tempo de sobra para jogar algumas peladas também no campo do conhecimento. Não estudou porque não quis. Não aprendeu lições básicas por pura preguiça. Poderia ter seguido o bom exemplo de companheiros como o deputado Vicentinho. O ex-presidente da CUT, formou-se em Direito já quarentão. Lula não precisa de canudos. É um doutor de nascença. A bordo do Aero-Lula, recusa-se a passear os olhos por duas ou três páginas produzidas (com letras gigantescas) por assessores teimosos. São informações elementares sobre o país onde vai pousar horas mais tarde. Lula despreza até esse punhado de registros históricos, geográficos e econômicos. "Leitura é pior que exercício em esteira".

Já fomos mais rigorosos com gente que enuncia sandices ou escreve besteiras. Rimos do general Charles de Gaulle ao ouvi-lo declarar que "a China é um grande país habitado por milhões de chineses". Acompanhamos com merecidas gargalhadas a performance de Dan Quayle, vice-presidente americano entre 1989 e 1993, quando George Bush pai foi inquilino da Casa Branca. "A perda de vidas é irreversível", disse Quayle. "Minha mãe nasceu analfabeta", empatou recentemente Lula. E completou com mais umas pérola de ignorância: "Fiz uma viagem à América Latina e só lamentei não ter estudado latim com mais dedicação para poder conversar com aquelas pessoas". Quayle derrapounas coisas do sia-a dia. Lula espancou a História ao inventar uma invasão da China por tropas de Napoleão Bonaparte.

Debochamos do presidente Ronald Reagan quando o ilustre forasteiro saudou, em Brasília, o povo da Bolívia. Reagimos com a fleuma de lorde inglês ao discurso em que Lula incluiu a Bolívia entre os países que não mantêm fronteiras com o Brasil. Se tivesse perdido cinco minutos consultando manuais de História, saberia que o Acre foi subtraído à Bolívia. Se tivesse pescado no Rio Paraguai, teria visto logo ali a pátria do amigo Evo Morales.

A carreira política de Quayle terminou numa sala de aula. Ao visitar uma escola, teve a má idéia de ensinar aos alunos como se escreve "batata" em bom inglês. O certo é "potato". O vice de Bush rabiscou um desconcertante "potatoe" no quadro negro. E consolidou a imagem de quem não está preparado para governar coisa alguma. Quando encerraremos a carreira do nosso burro?

Há semanas, Lula chegou para uma reunião sobraçando uma folha de papel com anotações manuscritas. Os garranchos denunciavam que o autor fora o próprio presidente quem escrevera aquilo. Os fotógrafos capturaram os rabiscos com penosa nitidez. Comprovou-se que Lula ignora a grafia de palavras escritas corretamente por crianças de jardim da infância. A maioria dos jornais passou ao largo do escorregão.

Uma boa formação intelectual não faz, necesariamente, um grande estadista. Mas ter um estadista que mal sabe ler e escrever... bem, convenhamos, isso já é demais!
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P.S.: Agora, a pergunta que não quer calar: como um Presidente assim quer "destravar" o País, se é incapaz de destravar a própria língua?

segunda-feira, março 05, 2007

"SOU DE ESQUERDA"


O bafafá que tomou conta do Itamaraty nas últimas semanas por causa da entrevista do Embaixador Roberto Abdenur na qual ele critica a atual política externa brasileira e, principalmente, a resposta da chefia da Casa de Rio Branco, por meio de declarações do Chanceler Celso Amorim à revista Carta Capital, trouxeram à tona algumas questões interessantes. A mais importante delas, na humilde opinião deste que escreve estas linhas, diz respeito à discussão – para mim, bastante reveladora – sobre o caráter ideológico (nesse caso, de esquerda) que estaria sendo dado à diplomacia brasileira sob o governo Lula.

Como escrevi em artigo anterior sobre o assunto, o problema não está nos supostos ou reais motivos que levaram o Embaixador Abdenur a botar a boca no trombone, mas nos argumentos utilizados pelo Chanceler Celso Amorim para descartar qualquer viés antiamericano na atual orientação diplomática brasileira. Mais precisamente, o centro do problema está no fato de ele ter dito, em resposta às críticas que lhe foram feitas, a seguinte frase: "sou de esquerda".

A frase é reveladora, não porque seja exatamente uma surpresa ou algo inusitado – um Ministro do governo Lula, ou qualquer pessoa no Brasil, dizer-se de direita, isto sim, seria algo estranho e surpreendente –, mas porque, se levada a sério, vai contra tudo aquilo que o Chanceler Celso Amorim quer provar – que a política externa brasileira, enfim, não é antiamericana, nem esquerdista. Vou tentar explicar melhor o que quero dizer.

O que caracteriza o esquerdista não é o que ele diz de si mesmo, mas o que ele diz dos seus críticos. Um verdadeiro esquerdista, por mais radical que seja, jamais se dirá antiamericano, e sempre terá uma palavra bondosa para dizer, por exemplo, sobre o povo dos EUA, tentando dissociá-lo do governo de Washington ("sou contra o governo dos EUA, não contra o povo norte-americano" etc.). Basta levantar a menor suspeita de antiamericanismo em suas palavras e atitudes, porém, e a máscara de bom-moço cai por terra: tal acusação só pode vir de "mentes colonizadas", "americanófilos", "indivíduos a soldo do imperialismo" etc. Insista um pouco mais nessa acusação, mostrando fatos e argumentos, e você será brindado com uma saraivada de adjetivos carinhosos, como "lacaio de Wall Street" e "agente da CIA" para baixo.

Pelo mesmo motivo, nenhum esquerdista que se preze ousará falar mal das regras do regime democrático: na verdade, buscará mesmo reivindicar para si a paternidade da própria democracia, posando de paladino das liberdades. Quando essas mesmas regras se voltam contra eles, porém, logo mudam de discurso: o que antes era visto como "defesa da democracia" (por exemplo, a ampliação das liberdades de imprensa e de associação, entre outras), vira "resistências dos setores conservadores e reacionários". Para chegarem ao poder, os esquerdistas não hesitam em usar as facilidades da democracia; uma vez nele, tentam a todo custo miná-la. Foi o que fizeram os comunistas sempre e onde tiveram a oportunidade de fazê-lo.

O que isso demonstra? Apenas uma coisa: que a mente esquerdista, por mais "light" ou moderada que se apresente, funciona em termos ideológicos, de "nós" (o proletariado, o Terceiro Mundo) contra "eles" (a burguesia, os imperialistas ianques). Exatamente o oposto do que diz Celso Amorim a respeito da política externa brasileira.

Portanto, ao se declarar de esquerda, Celso Amorim minou a credibilidade de seus argumentos. Primeiro, porque usou um critério claramente ideológico para classificar as críticas a ele dirigidas. Segundo, porque parece ignorar o que significa ser de esquerda, principalmente em vista dos 100 milhões de mortos pelo comunismo no século XX (não custa nada lembrar: Stálin era de esquerda, assim como Mao, assim como Pol Pot). Tivesse dito que a dicotomia esquerda/direita é uma visão maniqueísta ultrapassada pela História, ou que, em política internacional, o esquerdismo, plagiando Lênin, é uma doença infantil do terceiro-mundismo (como de fato é), então se poderia dizer que são infundadas as acusações de antiamericanismo no Itamaraty. Em vez disso, porém, ele preferiu cerrar fileiras com as hostes esquerdistas.

Pode-se dizer, assim, que Celso Amorim perdeu uma oportunidade de pôr uma pá de cal sobre a suspeita de viés ideológico no Ministério das Relações Exteriores. Suspeita que se reforça ainda mais quando o governo atual mostra tanta má vontade em relação à ALCA e tanta compreensão por ditaduras comunistas como a de Fidel Castro em Cuba, e a candidatos a ditador como Hugo Chávez e Evo Morales, outros notórios esquerdistas. Diante disso, convenhamos, fica difícil não dar ouvidos às críticas do Embaixador Abdenur.

quinta-feira, março 01, 2007

DIPLOMACIA IDEOLÓGICA, SIM


Pela primeira vez desde o governo Jânio Quadros, a política externa brasileira é objeto de intenso debate público. Tudo começou por causa de uma entrevista bombástica do Embaixador Roberto Abdenur, ex-titular da Embaixada em Washington, à revista Veja, há algumas semanas. Resumidamente, as afirmações do Embaixador Abdenur na entrevista foram as seguintes:

a) a política externa do atual governo petista é marcadamente ideológica e esquerdista ("vagamente antiglobalização, anticapitalista e antiamericana");
b) por causa desse viés ideológico, que privilegia as relações "Sul-Sul", o Brasil tem colecionado fracassos, deixando de fazer bons negócios com os países mais ricos;
c) também por esse motivo, há um nítido declínio na qualidade dos quadros do Itamaraty: as promoções estariam sendo decididas pelo critério da afinidade ideológica com a atual direção, e não pela competência profissional. Além disso, os diplomatas estariam sendo constrangidos a se submeter a leituras obrigatórias, de caráter doutrinário de esquerda – uma situação vexatória, principalmente para diplomatas mais antigos.

A repercussão da entrevista foi imediata, provocando, claro, um verdadeiro terremoto na Casa de Rio Branco, um lugar geralmente avesso a polêmicas de todo tipo. Os defensores da atual linha itamaratiana não perderam tempo: a revista Carta Capital (No 433, 28/02/2007), espécie de porta-voz oficioso do governo, apressou-se em publicar reportagem de capa rebatendo as acusações do Embaixador Abdenur, a qual incluiu uma entrevista com o Chanceler Celso Amorim. Subjacente à defesa protocolar dos – supostos ou reais – êxitos da atual orientação diplomática brasileira, incluindo a tão decantada "democratização" do acesso à carreira, o Chanceler baseia seus argumentos na seguinte linha de pensamento:

a) a política externa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva não é antiamericana, nem tem viés ideológico: é, isto sim, uma política altiva e autônoma. Não há doutrinação de qualquer espécie, e a resistência às leituras obrigatórias seria por simples comodismo;
b) as críticas à linha geral do Itamaraty são demonstrações de "certos setores" da diplomacia brasileira ligados à administração anterior (leia-se: ao PSDB), refratários à qualquer mudança. Coisa de "conservadores", portanto;
c) tais críticas e acusações decorrem do descontentamento desses setores com a perda de privilégios e regalias profissionais, de que gozavam no governo anterior. Logo, tudo não passaria de egos feridos e ressentimentos pessoais.

Quem está certo? Pelo que se viu até aqui, ambas as partes parecem ter suas doses de razão. Tirando um certo exagero em dizer que as promoções estariam sendo feitas por afinidade ideológica – se isso for verdade, já tenho pronta minha carta de demissão do Itamaraty, pois prefiro voltar a comer giz em sala de aula a desfilar em alguma parada, seja de esquerda ou de direita –, o Embaixador Abdenur está certo ao dizer que há, sim, uma certa inflexão ideológica da diplomacia brasileira no governo Lula, como demonstra a má vontade com que o atual governo encarou a proposta da ALCA, entre outras razões. Por sua vez, a afirmação de Celso Amorim de que os setores descontentes estariam inconformados com a perda de privilégios, como viagens aos EUA e ao México, também não parece descabida (quem quer que esteja minimamente familiarizado com a realidade do Itamaraty sabe perfeitamente que se trata de uma das maiores – senão a maior – concentração de egos e vaidades da administração pública brasileira). Mas a questão é outra.

A questão é que, ao apontar a ideologização da política externa brasileira sob o governo petista, o Embaixador Abdenur tocou numa ferida profunda da atual administração federal, e provocou um debate que há muito vinha sendo – por medo, timidez, ou falta de oportunidade – postergado. De fato, imprimiu-se, na gestão Lula-Amorim, uma indisfarçável tendência ideológica esquerdista ou, pelo menos, terceiro-mundista, na diplomacia brasileira. Isso fica claro na questão das leituras a que eram submetidos os diplomatas em Brasília: não consigo ver a escolha de um dos livros listados como obrigatórios, o de Moniz Bandeira, como algo dissociado de uma visão ideológica herdada das velhas platitudes marxistas (a menos que se tenha escolhido o título com o objetivo oposto, ou seja, para demonstrar até que ponto vai a paranóia antiamericana). Quem tiver alguma dúvida, recomendo que leia o prefácio do livro, assinado pelo Secretário-Geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, o qual dispensa comentários. A própria direção da Casa tratou de admitir tacitamente esse viés, ao decidir retirar, logo em seguida à entrevista de Abdenur, a obrigatoriedade das leituras, "para encerrar a discussão", segundo Celso Amorim. (algo, aliás, desnecessário: bastaria, na minha opinião, retirar o livro de Moniz Bandeira da lista).

Para complicar ainda mais as coisas, na mesma entrevista à Carta Capital, o Chanceler Amorim acaba dando mais munição a seus críticos. Por exemplo, quando responde a uma pergunta sobre a Venezuela, afirma que, no governo Lula, a aproximação com Caracas "aumentou e foi usada, deliberadamente, para ajudar a consolidar o processo democrático" naquele país vizinho. Visto que Hugo Chávez já anunciou o cancelamento da concessão de funcionamento de uma das principais redes de TV que lhe fazem oposição e acabou de receber poderes praticamente totais da Assembléia Nacional venezuelana (aliás, 100% chavista), a afirmação de Amorim soa, no mínimo, esquisita. Se, por consolidar a democracia venezuelana, o Chanceler entende ajudar Chávez a se reeleger indefinidamente, preparando o terreno para impor aos poucos uma ditadura pessoal, a ponto de até inauguração de ponte ter sido transformada em palanque para que Lula fizesse campanha eleitoral para seu "companheiro" – como de fato ocorreu ano passado –, então, realmente, estamos ajudando a democracia na Venezuela.

Ainda na entrevista à revista, Amorim, perguntado sobre a relação do Brasil com regimes não-democráticos (um eufemismo para totalitários) como o de Cuba, saiu-se com a seguinte frase, usando o exemplo do Oriente Médio: "não basta conversar com os amigos, tem que conversar também com os adversários". Aí é que está. Fosse a ditadura comunista de Fidel Castro um regime "adversário" ou, pelo menos, exótico, como o são, por exemplo, os da China e da Coréia do Norte, vá lá, se poderia falar de pragmatismo. Mas o problema é que Fidel não é bem um adversário de Lula, muito pelo contrário: é um de seus mais íntimos "companheiros", quase um mentor, e o atual Presidente brasileiro não esconde sua admiração pelo regime cubano. A ponto de, sempre que Fidel manda prender dissidentes ou fuzilar alguém, o Brasil adota a política de tapar os olhos na Comissão de Direitos Humanos da ONU (justiça seja feita: essa política é anterior ao governo Lula). O fato de o Chanceler Amorim ter dito, após certa relutância inicial, ser "de esquerda", em nada ajuda a dissipar a impressão de viés ideológico na atual política exterior. Ter Marco Aurélio Garcia como Assessor Internacional da Presidência da República, certamente também não.

Essa última afirmação do Chanceler Celso Amorim – "sou de esquerda" – merece uma análise um pouco mais atenciosa. Ao fazer tal declaração, ele parece querer se distanciar ideologicamente de seus críticos, revestindo-se – e a sua política externa – de uma aura de "progressismo", ao passo que, como ele mesmo diz, "ninguém se diz de direita no Brasil". O próprio Embaixador Roberto Abdenur, segundo a mesma Carta Capital, também engrossa a legião dos que se dizem de esquerda.

Eis algo que sempre me intrigou. No Brasil, dizer-se "de esquerda" virou quase que uma exigência moral, um atestado de pureza e santidade, enquanto que, do lado oposto, "conservador" e "direitista" continuam a ser, entre nós, insultos gravíssimos, verdadeiras ofensas à honra e à dignidade pessoal. Nisso os dois embaixadores não fogem ao lugar-comum historicamente incrustado em nossa mentalidade. Apesar de todas as mudanças que ocorreram no mundo nos últimos vinte anos, dos inumeráveis crimes e atrocidades dos regimes comunistas e do fracasso total do socialismo, ainda é charmoso se dizer "gauche" no Brasil. Mesmo se de instâncias mais altas vierem sinais retóricos de que tal associação automática – esquerda é bom, direita, é mau – é uma construção mental sem base na realidade. O Presidente Lula, como se sabe, já disse publicamente que não é de esquerda. No fim do ano passado, num afago público a Delfim Netto, chegou mesmo a dizer que quem continua de esquerda depois dos 60 anos, certamente tem problemas. Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia têm mais de 60 anos.

Como se sabe, os esquerdistas são pródigos em tentar desqualificar seus críticos, não seus argumentos. Nesse sentido, Celso Amorim, embora recuse a existência de qualquer viés ideológico na diplomacia brasileira, parece seguir à risca a cartilha da esquerda leninista. Não que nosso Chanceler seja algum sinistro capa-preta ou militante bolchevique pronto para saltar das sombras e pular no pescoço do primeiro burguês que encontrar pela frente, nada disso. Mas, ao se declarar de esquerda, em meio a uma polêmica em que a política externa por ele conduzida está sob forte crítica de antiamericanismo, ele se comprometeu com uma visão, sim, ideológica, e não pragmática, do mundo. Uma percepção caolha da realidade, levada a efeito por pessoas que, ao contrário do que dizem Marx e Engels no Manifesto Comunista, costumam esconder seus reais propósitos, camuflando-se debaixo de camadas e camadas de retórica aparentemente anódina e de causas supostamente neutras – os comunistas, por exemplo, tinham por hábito dissimular seus objetivos revolucionários disfarçando-os de defesa da "paz" e da "democracia", quando, como a História do Século XX demonstrou de forma cabal, eram seus maiores inimigos.
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É sobretudo nos adjetivos escolhidos para contrarrestar seus adversários que o discurso esquerdista se revela: ao mesmo tempo em que defende o suposto caráter ideologicamente neutro da política externa do governo Lula, Celso Amorim não hesita em atribuir a seus críticos motivações ideológicas ("é uma reação conservadora"). Ou seja: para defender uma política externa que afirma não ter caráter ideológico, acaba sacando da gaveta velhos chavões esquerdistas – só faltam os indefectíveis "agente da CIA" e "lacaio do imperialismo". Ou, então, busca reduzir as críticas a um simples gesto de ressentimento pessoal de alguém que se acha preterido. Desse modo, tenta-se desviar o foco da questão, atribuindo todo o debate sobre a diplomacia brasileira a uma mera questão de ciúmes. O que é uma forma também de desqualificar o adversário, sem precisar analisar mais a fundo a pertinência, ou não, de suas críticas. É a velha tática de atacar o mensageiro, não a mensagem.

As duas táticas – acusar os críticos de reacionarismo e atribuir a estes inconfessáveis motivações particulares – estão de acordo com a lógica esquerdista: o rótulo ideológico é sempre de quem acusa, não de quem é acusado. As motivações egoístas, também. Como se vê, o passado insiste em bater à nossa porta.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

A ESQUERDA NÃO SABE GOVERNAR


O texto a seguir, como o leitor inteligente e ainda não lobotomizado pela máquina de propaganda lulo-petista e politicamente correta poderá facilmente perceber, foi escrito bem antes do aluvião de escândalos que tomou conta do atual governo (?), dois anos atrás. Mas não há como negar que, assim como seu tema - a sempiterna burrice e incompetência de nossas hostes esquerdistas - continua atualíssimo. Divirtam-se!

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Diz a lenda que o primeiro-ministro de um país socialista, ao ser obrigado a deixar o cargo, em um dos inúmeros expurgos, entregou ao seu sucessor duas cartas. A primeira, ele recomendou que deveria ser aberta quando aquele assumisse o posto; a outra, somente quando passasse por sérias dificuldades. O sucessor agradeceu o conselho e abriu o primeiro envelope, no qual havia a seguinte mensagem:

– Culpe seu antecessor.

O zeloso burocrata cumpriu escrupulosamente o conselho, atirando a responsabilidade por todos os problemas do país no governante anterior, tachando-o dos piores adjetivos: revisionista, traidor, agente do imperialismo etc. Durante algum tempo, as coisas andaram bem. Alguns anos depois, o dedicado apparatchik se achava em sérios problemas. Lembrou-se, então, do conselho e abriu o segundo envelope. Lá dizia:

– Escreva uma carta.

Esta pequena anedota serve para ilustrar uma situação que já se tornou corrente em vários países, e que agora se repete no Brasil: a esquerda – e aqui entendo por "esquerda" a todos os partidos e agremiações que se apresentam como tal – simplesmente não sabegovernar. Sua atitude, quando no governo, mostra-se ora diametralmente contraditória a de quando está na oposição, ora leva a tragédias históricas. Em qualquer dos casos, sua atitude se assemelha à piada, na sua recusa em admitir os próprios erros e em sua obstinação em atribui-los a outros.

O maior exemplo dessa crônica inaptidão para conduzir os negócios do Estado nos está sendo dado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Não, não digo isso porque quero achincalhar o nosso presidente, assim como seu partido, o PT. Tanto um como o outro já têm detratores demais, e a cada dia o Planalto produz matéria-prima para críticas ferozes e sarcásticas. Faço-o porque, sem cinismo e com toda sinceridade, quero ajudá-los. Por isso aí vão algumas observações que, espero humildemente e sem qualquer pretensão, sejam úteis a algum assessor do nosso companheiro-presidente.

Em primeiro lugar, o pior que poderia acontecer ao próprio Lula e ao PT foi terem chegado ao poder. Este foi, sem dúvida, o maior erro que poderia ter cometido o nosso querido ex-metalúrgico e seu partido. Explico. Lula, quando na oposição, funcionava melhor. Ex-dirigente sindical, líder das greves do ABC paulista no final dos anos 70, encarnava como poucos a luta da sociedade civil contra a ditadura militar em sua fase terminal. Com sua carranca e barba desgrenhada, sua voz rouca, seu jeitão messiânico de Antônio Conselheiro e vocabulário de peão, era uma esperança para muitos. Era, digamos assim, um símbolo, pairando acima do bem e do mal. NaPresidência da República, barba aparada e terno sob medida (o vocabulário, infelizmente, não pôde ser melhorado por nenhum marqueteiro), ele não convence. Aquilo que antes era uma virtude eleitoral, como a aura de ex-operário e os constantes erros de concordância, que lhe davam um ar simpático de autêntico líder popular, de homem "vindo do povo", acaba pegando mal em um estadista. O Lula-operário e o Lula-presidente não são a mesma pessoa.

O Lula de hoje parece mais uma paródia de si mesmo, na época em que empunhava um microfone em assembléias de trabalhadores suarentos. Como candidato derrotado (em 1989, 1994 e 1998), ainda mantinha um certo ar digno de combatente, de vítima dos eternos "donos do poder". Podia culpar os outros à vontade pelos seus fracassos, a Rede Globo, as multinacionais, a CIA. Agora, como presidente, a história é outra. Não pode mais fazer uma oposição estridente e irresponsável, como nos anos FHC. O próprio Lula reconheceu isso, ao afirmar, pouco depois da eleição, que a partir daquele momento não faria mais "bravatas", como vinha fazendo até então. Fosse outro, seria acusado de farsante. Uma vez no governo, não há a quem culpar, a não ser que se apele – como fez nos primeiros meses – à suposta "herança maldita" de FHC, herança esta que o governo Lula vem mantendo religiosamente, na forma da política financeira de Palocci, Meirelles e companhia. Não pode tampouco dizer que lhe falta apoio – não após dois anos de lua-de-mel, o maior crédito dado a um chefe de Estado em toda a História do país.

Lula deveria ter aprendido com sua derrota de 1989, quando ainda defendia coisas como moratória, o que o impediu de transformar o Brasil numa Nicarágua. Ou com a de 1994, quando dizia que o Plano Real era um estelionato como fora o Cruzado na época do Sarney. Se tivesse se aposentado da política em 2002, antes de ser eleito, iria manter imaculada sua biografia. Passaria para os livros de História como uma espécie de Rui Barbosa, a consciência moral da República Velha, ou como um Ulysses Guimarães, políticos que jamais tiveram o infortúnio de virarem alvos de críticas dos "de baixo" porque jamais chegaram à presidência. Poderia até mesmo aspirar ao altar da santidade, juntando-se a Tancredo Neves, que teve a sorte de morrer antes de tomar posse, poupando os brasileiros da oportunidade de se desiludirem com ele como presidente. Como oposicionista, Lula era um líder e uma referência. Como o supremo mandatário da nação, será lembrado de maneira bem menos condescendente. Definitivamente, a eleição fez mal a Lula.

Em segundo lugar, o PT, que nasceu para ser pedra, simplesmente não se encaixa no papel de vidraça. Nascido para derrubar o capitalismo, teve que moldar-se a este, ao longo do tempo, assumindo para si a missão de administrá-lo, tarefa que não faz de maneira melhor que o PSDB ou o PFL. A experiência das prefeituras e governos estaduais conquistados pelo PT, como em São Paulo e Rio Grande do Sul, não parecem muito animadoras. Além disso, se governar, em uma definição clássica, é administrar conflitos, o PT vai mal, muito mal. Porque, antes de tudo, seria necessário resolver seus próprios confrontos internos, que não são poucos. É difícil administrar um país imenso e complexo como o Brasil se o partido governante está cortado em diversas facções, desde "moderados" até admiradores confessos de Fidel Castro e defensores impenitentes da luta armada.


A exemplo de Lula, o poder faz mal ao PT. Se tivesse continuado na oposição, o partido – que já se orgulhou de ser o maior partido de esquerda da América Latina, e um dos maiores do mundo – desempenharia um papel muito mais produtivo pela igualdade e justiça social, fiscalizando, cobrando e denunciando. Não precisaria passar pelo espetáculo deprimente das vaias recebidas por Lula no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, nem ver aclamado pelos freqüentadores dessa mistura de Woodstock com feira de produtos ideológicos (a maioria com data de validade vencida), como o novo guia genial dos povos, a figura grotesca e histriônica de Hugo Chávez. Certamente, não haveria a revoada de dissidentes, que abandonam o barco petista para criar siglas como o P-SOL da senadora Heloísa Helena e do deputado Babá. Estes, sim, estão no bem-bom, livres de qualquer meio-termo: não precisam passar pela provação de governar, podendo posar de palmatória do mundo. É difícil para um partido que passou 25 anos esbravejando contra o "sistema" se ver subitamente colocado à frente deste e sair sem um arranhão.

Os petistas sempre apresentaram essa proliferação de frações internas como uma prova de que o PT é um partido democrático e pluralista. Desse modo, pensam encontrar uma justificativa para a ambigüidade em que este sempre navegou. Partido que se diz socialista, mas que rejeita, pelo menos oficialmente, o marxismo radical e a social-democracia. Dos trabalhadores, mas dominado por intelectuais, muitos deles saudosos do stalinismo. Verdadeira salada (indigesta) de correntes as mais antagônicas: reformistas, ex-comunistas, trotskistas etc. Anti-neoliberal e inclinado ao estatismo e ao dirigismo, mas aliado do PL. Integrado ao sistema eleitoral, mas crítico da "democracia burguesa". Não, o PT não é democrático. É confuso.

O último exemplo da confusão do PT no poder foi dado pelo presidente do partido, José Genoíno, quando tentou justificar a derrota acachapante dos candidatos petistas à presidência da Câmara dos Deputados, que acabou abocanhada pelo impagável deputado pernambucano Severino Cavalcanti. Genoíno disse que a derrota tinha sido do PT, não do governo. Falso. O PT é governo, e se tivesse ganho a eleição na Câmara, iria dizer que foi uma vitória do governo. Lula e José Dirceu iriam aparecer na TV sorrindo de orelha à orelha, e certamente iriam comemorar o feito como uma vitória do PT – e do governo. Estranha lógica esta, que faz o presidente nacional do partido oficialista tentar separar o mesmo do governo do qual faz parte...

Como se vê, não são apenas as já incontáveis gafes presidenciais ou o desgaste natural que todo governo, seja qual for, acaba inevitavelmente sofrendo com o passar do tempo, o que tornou a eleição de Lula em 2002 um mau negócio para o mesmo e para o PT. Tampouco o loteamento do Estado entre os companheiros de partido e de campanha, uma política externa capenga com traços de terceiro-mundismo ou mesmo casos de corrupção como o de Valdomiro Diniz. A questão é bem mais profunda. Diz respeito à desorientação geral da esquerda, incapaz de formular uma proposta política viável, sobretudo após a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS. No Brasil, esta questão passou em branco nos últimos anos. O resultado é o governo de Lula e do PT.

Claro, há uma saída para tudo isso, mas sinceramente não acredito que o PT a seguirá: repetir o gesto de humildade dos partidos socialistas e comunistas europeus, que após 1989 reviram profundamente suas teses e renunciaram, pública e oficialmente, ao marxismo, em todas as suas formas. Para não dizerem que este é um texto só de críticas, que se locupleta na oposição – como o PT, antes de assumir as rédeas do Estado –, sem apresentar nenhuma sugestão, é este o conselho que dou aos petistas e seus simpatizantes para sair do dilema em que sua ascensão ao poder os colocou: sejam mais humildes, menos soberbos, e revejam suas idéias. Acima de tudo, abandonem a postura arrogante de donos da verdade. É hora de admitir a própria incompetência. Quem sabe, assim, um dia, aprenderão a governar. E não precisarão abrir a segunda carta.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

O DITADOR PREFERIDO


Outro dia, estava eu conversando com dois colegas meus, numa dessas cerimônias aborrecidas do Itamaraty, quando surgiu, de repente, a questão de Cuba (um dos colegas com quem eu conversava está de mudança para Havana). Confesso que o tema me é particularmente fascinante, e minhas opiniões sobre o assunto, em especial sobre a ditadura de Fidel Castro, não são segredo para ninguém (alguns me acham até meio obsessivo em relação ao tema). Mesmo assim, devido à ocasião não ser propícia, e também porque eu não estava muito a fim de polemizar naquele dia e naquela hora, resolvi não me contrapor às opiniões de um outro meu colega que, tendo estado na ilha recentemente, fez alguns comentários elogiosos ao regime cubano, ou melhor, buscou minimizar o que dizem do mesmo por aí, sobretudo no terreno econômico. Mesmo calado, não deixei de me surpreender por uma afirmação em particular: a de que o povo cubano, por ser orgulhosamente nacionalista, estaria profundamente melindrado e indignado com as demonstrações de júbilo dos EUA e de seus patrícios exilados pela notícia do afastamento, por doença, do amado líder e comandante Fidel Castro Ruz, em agosto passado.

Como diz a música, “calada a boca, ainda resta o peito”, e fiquei matutando sobre a conversa. Por respeito ao meu colega, não vou dizer seu nome aqui, até porque sei muito bem que é um direito do indivíduo não se ver envolvido em polêmicas quando não o deseja (creio ser este o caso dele). Mas quem faz uma afirmação como essa deve saber que o preço de ter uma opinião é que sempre haverá uma outra discordante. Assim, peço vênia para dizer algumas palavras sobre o assunto.

A primeira questão é a seguinte: por que celebrar o falecimento de Fidel Castro seria uma ofensa aos brios nacionalistas cubanos? Deixando de lado a discussão teórica sobre o nacionalismo – o último refúgio do velhaco, segundo uma definição bem conhecida –, por que se deveria considerar gesto de lesa-pátria comemorar a morte de um ditador?

Segunda pergunta: por que festejar o passamento do tirano em questão, Fidel Castro, seria algo menos nacionalista ou patriótico do que comemorar a morte de outros tiranos igualmente odiosos? Há poucos dias, milhares de chilenos manifestaram toda sua alegria pelo falecimento do general Augusto Pinochet, ex-ditador do Chile, e ninguém os acusou de falta de patriotismo por causa disso. Por que sair às ruas cantando e dançando pela morte de um déspota assassino como Pinochet seria algo correto, louvável até, mas não no caso de Fidel? De acordo com a afirmação de meu colega, os cubanos exilados celebrarem a doença do ditador caribenho é uma ofensa à bandeira, uma traição à pátria. Os chilenos ou espanhóis felicitarem-se pela morte de Pinochet ou de Franco – cuja longa agonia e morte foi também festejada pelos democratas e patriotas espanhóis – é uma alta demonstração de espírito cívico.

Uma resposta possível a ambas as questões seria que Fidel, ao contrário de Pinochet, Franco ou Salazar, é inimigo dos EUA. De esquerda, portanto. Nesse caso, fica demonstrado que todos os ditadores merecem um lugar no inferno, mas – ainda segundo o raciocínio acima exposto – os ditadores que se antagonizaram com os EUA deveriam estar no paraíso ou, pelo menos, num círculo menos escaldante que os demais. Não é preciso ir muito longe para perceber que, nesse círculo infernal, Fidel teria a companhia de outros tiranos igualmente antiamericanos, como Stálin, Mao, Hitler ou Mussolini, para citar apenas os mais célebres.

Claro está que, por trás da afirmação de meu colega, a quem estimo bastante, está, na verdade, a velha distinção entre ditaduras “boas” e “más”, comum tanto à direita quanto à esquerda (embora muito mais utilizada por esta do que por aquela). Ou, na expressão de Jean-François Revel, a teoria do “totalitarismo preferido”, embora, nesse caso, a escolha não seja entre dois totalitarismos (Revel falava da preferência de muitos intelectuais franceses pelo comunismo em relação ao fascismo), mas entre o totalitarismo cubano e o autoritarismo militar chileno (para quem acha que a diferença é pequena ou sutil, poderei estender-me depois sobre o tema). Em outras palavras, a preferência ideológica por um regime tirânico em vez de outro, pura e simplesmente.

Vejamos a primeira questão. Meu colega disse, embora não com essas mesmas palavras, que os cubanos que se alegram pela aproximação da morte de Fidel são impatriotas. Tal afirmação só é aceitável se concordarmos com a lógica dos regimes totalitários, que identificam a figura do “líder” (Duce, Führer etc.) com o próprio Estado, e este, com a própria Nação. Isso significa chancelar plenamente toda e qualquer determinação do regime cubano, visto como o único e legítimo defensor das aspirações do povo. Trocando em miúdos, trata-se tão-somente da defesa apaixonada e a-crítica da ditadura castrista.

A segunda questão decorre diretamente da primeira. Se Fidel é o supra-sumo do nacionalismo cubano, e, por conseguinte, todos aqueles que se rejubilam com a perspectiva de sua morte não passam de “gusanos”, de mercenários e lacaios do imperialismo ianque, é lícito e correto contentar-se pelo fim de outros ditadores, desde que estejam na trincheira ideológica oposta. O desaparecimento do ditador inimigo é sempre bem-vindo; a do ditador preferido, porém, é sempre lamentável. A morte de Hitler é motivo de júbilo; a de Stálin, uma tragédia.

Dessas duas questões resulta uma terceira, mais creio que aqui meu colega não teria coragem de avançar, ao menos publicamente. Se condenar Fidel é antipatriótico, e se se deve desejar a morte de ditadores, mas somente se forem inimigos de Fidel, o ditador preferido, a conclusão lógica é que Fidel, o símbolo-vivo da Pátria, o verdadeiro e legítimo representante da nacionalidade cubana, não é um ditador. Ou seja: que todo esse papo de condenar o regime cubano pelos fuzilamentos, violações dos direitos humanos, prisões de dissidentes, partido único, censura etc., não passa de mera propaganda imperialista da mídia burguesa e contrarrevolucionária etc. Inclusive seria falsa toda e qualquer comparação entre Fidel, que está no poder há 47 anos e mandou exterminar milhares de opositores (estima-se em cerca de 17 mil mortos, sem falar dos que morreram tentando fugir da ilha desde 1959) e Pinochet, que governou 17 anos, 30 a menos que Fidel, matou 3 mil e aceitou deixar voluntariamente o poder há 16. Mais: seria uma cínica manobra propagandística essa comparação, pois, mesmo que Fidel tenha despachado para o além muito mais gente do que Pinochet, e que Stálin e Mao tenham matado muito mais do que todas as ditaduras de direita juntas, uma morte é uma morte e a dor é imensurável (curioso como somente os que têm os maiores crimes em sua conta são sempre os que se opõem a qualquer comparação). O mesmo para qualquer analogia entre a situação econômica e social em que cada ditador deixou seu respectivo país: o Chile, um país próspero e estável, o mais promissor da América Latina; Cuba, um ex-país, uma ruína econômica (outro golpe de propaganda imperialista, segundo a teoria do “totalitarismo preferido”, nova versão).

Como se vê, esses cubanos de Miami que celebram a doença de Fidel são mesmo uns canalhas, uns entreguistas, uns pró-imperialistas.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

LULA E O “CAMINHO DO MEIO”


"Se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque ela tem problemas. Se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, é porque também tem problemas. Então, quando a gente está com 60 anos (...), é a idade do ponto de equilíbrio (...), a gente se transforma no caminho do meio."

A frase acima foi pronunciada pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando recebia um prêmio da revista Istoé, em 12 de dezembro. Como não poderia deixar de ser, muitos articulistas, apressados ou de rabo preso, ou ambas as coisas, trataram de anunciar uma mudança de atitude por parte de Lula, como se o atual ocupante do Palácio do Planalto, após décadas de militância no campo esquerdista, estivesse se desvencilhando de seus companheiros ideológicos e tivesse, enfim, alcançado o justo equilíbrio que só a sabedoria vinda com o tempo pode proporcionar.

É óbvio que é mais um auto-engano, mais uma tentativa de engabelar a todos por parte do chefão da quadrilha petista.

Creio que, a essa altura, já está mais que evidente, exceto para quem for totalmente cego, surdo, mudo e aleijado para a realidade, que qualquer afirmação do Presidente do Mensalão (“todos fazem igual”, “fui traído”, “não vi nada”) não vale uma meia pataca do Fome Zero. Mais que isso: traz embutida uma dose cavalar de cinismo e de vigarice política, além da mais profunda indigência mental.

Tentar aparecer como “equilibrado”, como o legítimo representante do “centro”, é mais um truque dos lulo-petistas para enganar os incautos. A principal arma dessa nova intentona contra a inteligência alheia é a política econômica, tocada pelo governo lulo-petista no mesmo ritmo e com os mesmos instrumentos do governo anterior. A um observador menos avisado ou ingênuo poderia parecer que aqui houve uma “evolução”, uma genuína e sincera conversão de Lula e do PT ao mercado e à democracia representativa. Parece, mas não é.

Em primeiro lugar, para que haja conversão, é preciso que haja confissão e arrependimento. Isto significa abjurar a crença anterior, em que Lula e o PT se ancoraram durante mais de 25 anos. Pois bem. Não há, até agora, um único documento oficial em que o PT renuncia, abertamente e sem ambigüidades, à utopia marxista. Tudo o que há é a cínica, cretina afirmação de Lula, feita logo após ser eleito em 2002, e sem nenhum sinal de pudor ou retratação pública, de que a partir daquele momento não faria mais “bravatas”. Ou seja, que tudo que dissera até então, todas as denúncias e promessas, era puro fingimento, era tudo de mentirinha. Sem os imprescindíveis confissão e arrependimento, qualquer conversão, seja do islamismo ao cristianismo ou do comunismo ao capitalismo, não passa de uma farsa grotesca, uma cínica e patética mise-en-scène, um golpe teatral de marketing.

Que a política econômica seja brandida como uma prova de “maturidade” do atual governo é mais uma prova, isto sim, do grau de cinismo e de dissimulação a que chegou a patota lulo-petista. O governo atual não manteve a mesma linha econômica que antes esconjurava por causa de um “amadurecimento” natural, como querem acreditar muitos, mas por absoluta falta de idéias. Para ser coerente com sua frase, Lula teria de deixar de comparecer ao Foro de São Paulo, organização da qual é fundador e que agrupa ditadores e narcotraficantes das FARC colombianas, assim como condenar abertamente a ditadura de Fidel Castro e as estripulias de seus hermanos Hugo Chávez e Evo Morález. Teria que reconhecer que o “caminho do meio”, no qual afirma ter-se transformado, nada mais é do que a social-democracia, corrente política à qual ele e o PT continuam a se opor com todas as forças, negando qualquer associação com seu representante no Brasil, o PSDB de José Serra e Geraldo Alckmin. Teria que abandonar de uma vez por todas as ridículas tentativas de desqualificar seus acusadores, apelando para velhos chavões esquerdizóides e conspiracionistas, que constituem o jeito par excellence pelo qual os lulo-petistas tentam desviar a atenção de suas maracutaias e posar de vítimas das “elites”. Teria que admitir, alto e bom som, que seu partido, o PT, jamais teve uma proposta clara e coerente para administrar o Brasil e que ele, Lula, é o maior mito – no sentido do dicionário, como sinônimo de mentira, de falsificação – que já apareceu em terras tupiniquins. Teria, enfim, que confessar seu total despreparo e de seus acólitos para governar o que quer que seja, assim como sua absoluta irresponsabilidade no passado e incompetência no presente.

Finalmente, ao invocar a idade como fator de amadurecimento ideológico, Lula tentou fazer mais uma graça, aliando filosofia de boteco com insulto à inteligência, no que já se tornou um mestre rematado. Primeiro, porque há petistas de alto coturno, como Marco Aurélio Garcia, mais velhos do que Lula, e que continuam esquerdistas (aqui estou de pleno acordo com a frase de Lula). Segundo, porque Lula não é a pessoa mais indicada para ilustrar a evolução – aqui, sem aspas – de milhares de indivíduos, entre os quais me incluo, que quando mais jovens se deixaram ludibriar pelos slogans esquerdistas mas que perceberam, com a idade e a experiência, que quase entraram numa roubada. Na juventude, ao que consta, Luiz Inácio não era nenhum perigoso agitador comunista, preferindo uma pelada com os amigos à política (ele só se tornaria Lula já adulto, na esteira das greves do ABC paulista, já bem entrado na casa dos 30 anos). Ao contrário de Zé Dirceu e de outros, que ainda pensam estar em 1968, lutando de armas e mensalões na mão contra o imperialismo ianque e pelo socialismo.

O próprio Lula, aliás, em plena época em que era considerado um esquerdista radical, deixou claro para quem quisesse ouvir que jamais se identificou ideologicamente com corrente alguma. Certa vez, perguntado por um entrevistador se seria de esquerda ou de direita, ele respondeu singelamente que não era nada disso, apenas “um torneiro mecânico”. Sua única ideologia é o poder ou, em petistês, o “pudê”. O discurso lulo-petista, na verdade, serve a esse propósito, adaptando-se camaleonicamente à qualquer platéia. A retórica esquerdista, condenada por Lula ao receber o prêmio da Istoé, é retomada quando lhe convém, sendo utilizada como uma espécie de arma de reserva para responder a seus detratores. Experimente, por exemplo, criticar Lula por sua falta (voluntária) de instrução ou a política externa petista por sua condescendência com ditaduras e seu excessivo terceiro-mundismo e você será brindado com uma ladainha de adjetivos retirados de algum compêndio bolchevique, indo do “elitista” e “preconceituoso” até os tradicionais “mente colonizada” e “lacaio do imperialismo”.

Se você conhecer um lulo-petista sincero o bastante para admitir o que está escrito acima, é porque não é lulo-petista. Novo ou velho.

quinta-feira, novembro 23, 2006

UM PARTIDO CONSERVADOR PARA O BRASIL


Finalmente alguém tocou no cerne da questão. Finalmente alguém botou o dedo na ferida. Em entrevista à Folha de S. Paulo (20/11/2006), o professor inglês Kenneth Maxwell, diretor do programa de estudos brasileiros da Universidade Harvard, disse aquilo que nenhum político brasileiro teve, até hoje, a coragem de dizer. Eis o que afirmou o professor:

O que o Brasil precisaria mesmo era de um partido conservador moderno, que fosse honesto ao defender o liberalismo e que assuma suas crenças. Seria uma grande revolução. Já existe um partido de centro-esquerda, que é o PT. O que faltou na última eleição era: quem é a centro-direita?”.

Kenneth Maxwell está coberto de razão. Mais uma vez, fomos humilhados pela lucidez e racionalidade de um observador estrangeiro. Como de costume, foi preciso um gringo meter o bedelho e nos dizer o que é certo. Marcou um golaço.

Parece incrível, mas não há, no Brasil, um partido conservador. Há partidos de todos os tipos – de esquerda, social-democratas, de centro, comunistas, socialistas, trabalhistas, dinheiristas... –, mas não há, na paisagem, um mísero partido conservador! Isso ficou claro como água na última eleição presidencial. Nela, se enfrentaram, tanto no primeiro como no segundo turno, candidatos identificados com teses “de esquerda” – para usar a palavrinha maldita –, que competiam entre si para saber quem era mais estatista, mais nacionalista, mais adversário da diminuição do Estado e da eficiência administrativa. O candidato governista, representante disso que aí está, manteve-se firme e forte na sua devoção ao Estado-patrão, ao Estado-pai e mãe, enquanto o candidato da oposição, quando instado a fazê-lo, preferiu fugir do debate sobre as privatizações, recusando-se a defender o legado do governo FHC, como se de pecado grave se tratasse. No final, tudo virou uma competição entre quem era mais contrário às privatizações, inclusive – e aí entrou também um elemento paranóico bem nosso – da Amazônia (!?). Em suma, entre quem era mais ou menos “de esquerda”.

A afirmação do professor Maxwell atinge em cheio um dos pontos nevrálgicos de nosso imobilismo, de nossa inércia, de nossa falta de honestidade intelectual, de nosso marasmo e pasmaceira ideológicas. Sua lógica, de tão simples, é implacável. Falta, no Brasil, uma verdadeira alternativa política, de verniz conservador, capaz de se contrapor ao predomínio absoluto da vulgata esquerdizóide que, há décadas, se incrustou em nossos subconscientes como uma berne, como um parasita, e nos impede de sairmos da situação de atraso mental em que nos colocamos. Isso significa uma agremiação corajosa o suficiente para defender, alto e bom som e sem ambigüidades, as idéias conservadoras, vale dizer: a globalização econômica, a liberalização dos mercados, a reforma do Estado, a diminuição de impostos, a democracia representativa, o progresso científico e tecnológico, as liberdades individuais etc. Algo inexistente no cenário político-partidário brasileiro. Algo, aliás, inexistente em toda nossa História.

É claro que uma idéia assim, de tão radical, não poderá ser aplicada sem dificuldades. A primeira delas diz respeito à própria carga pejorativa que a palavra “conservador” tem entre nós. Chamar alguém de conservador, no Brasil, é lançar um anátema, um verdadeiro insulto, uma ofensa gravíssima. Ser “de direita”, então, é um palavrão. Remete imediatamente aos tempos da ARENA e da velha UDN, com suas beatas histéricas de rosário na mão. Ainda vivemos, pensamos, falamos e agimos segundo os moldes mentais pré-queda do Muro de Berlim. Conservador, no Brasil, é ACM. É Jorge Bornhausen.

Confunde-se conservadorismo, uma doutrina política de duzentos anos, que começou com Edmund Burke e outros pensadores, com reacionarismo e fisiologismo, o que é burrice. Os reacionários, todos sabemos, são contra qualquer mudança no status quo. Em termos brasileiros, isso significa ser contra qualquer mudança nas relações entre o Estado e a sociedade. Significa ser a favor do que aí está desde, pelo menos, 1930 (e mesmo antes, desde 1500). Já o ideário conservador, por defender essa mudança, seria uma verdadeira revolução no Brasil. Quanto ao fisiologismo, aí está o governo Lula-PT para mostrar para quem quiser ver que a corrupção não escolhe sigla nem partido. Reacionárias, nessa visão, são as esquerdas, o PT, o PCdoB, que se apegaram ao modelo estatal varguista e acham que abertura econômica é um complô do Pentágono para anexar a América Latina. Estas, sim, são a vanguarda do atraso.

O que é ser “de direita”? Em países como os EUA ou a Alemanha, esta questão está mais ou menos clara: é ser liberal em economia e conservador em assuntos políticos e sociais. Pois bem. Se formos analisar os partidos brasileiros “de direita”, como o PFL ou o PP, perceberemos facilmente que eles podem ser qualquer coisa, menos partidos americanos ou alemães de direita clássica. Os partidos brasileiros, quando não são meros amontoados de interesses particulares – caso, aliás, de sua quase totalidade – têm suas raízes no velho estatismo do regime militar, mostrando-se em geral a favor de quem está no poder, seja quem for. Do PFL, aliás, já se disse que, se um dia houver uma revolução comunista no Brasil, ele terá pelo menos um dos ministérios, ocupado, provavelmente, por ACM. Há, inclusive, um Partido Liberal, mas que é aliado do... governo Lula!. Outro dia li que Delfim Netto, o velho ex-czar da economia durante a ditadura militar, foi convidado para ser ministro no segundo mandato do atual governo petista. Não fiquei surpreso.

Se os direitistas brasileiros, assim como os esquerdistas, são anti-liberais em matéria econômica, os esquerdistas se mostram extremamente conservadores – no mau sentido da palavra, como sinônimo de reacionário mesmo – em assuntos de liberdade pessoal, como aborto, união civil de homossexuais, pesquisas genéticas e outros. Não é de se admirar, pois grande parte da intelligentsia lulo-petista, por exemplo, é formada por padres católicos da Teologia da Libertação, bastante revolucionários quando se trata de condenar o capitalismo e os EUA, mas extremamente tímidos em assuntos como uso da camisinha e celibato. Sem falar no MST, com sua cruzada contra os transgênicos. O PT, nesse sentido, é um partido da ultra-direita republicana norte-americana.

Alguém poderia argumentar que já tivemos um Partido Conservador, na época do Império. Ledo engano. Esse partido só mereceria esse nome se o Brasil fosse a Inglaterra, coisa que está muito longe de ser. Conservadores e liberais, no Brasil do século XIX, eram como petistas e tucanos hoje em dia: se brigavam nas eleições, vinham do mesmo berço, e trocavam de discurso à medida que passavam da oposição ao governo. Não por acaso, ficou famosa a frase de que nada mais parecido com um liberal do que um conservador no poder, e vice-versa. Houve casos de ministros importantes que passaram tranqüilamente de um partido para outro, tal como ocorre hoje em dia, sem nenhum pudor nem arrependimento. Tanto o conservadorismo como o liberalismo atendiam, entre nós, a interesses particulares de grandes oligarcas, significando, na verdade, a manutenção de velhos privilégios patrimonialistas – o contrário do que preconizam as idéias clássicas conservadoras e liberais. Algo semelhante ao que o PT faz hoje em dia, aliando-se a Sarney e a Jader Barbalho.

Não dá para negar que, em comparação com os demais partidos e ideologias políticas, um partido genuinamente conservador teria que rebolar para conquistar um eleitorado fiel no Brasil. Primeiro, porque uma tal proposta iria contra toda a nossa cultura política. Ouso dizer que seria mesmo uma operação de choque, uma verdadeira mutação genética. Está nos nossos genes, no nosso DNA, acreditar que qualquer coisa que não seja a favor do nacional-desenvolvimentismo e contra o “imperialismo” é a encarnação do maligno. Como demonstrou a última eleição, está fortemente arraigada em nossas (in)consciências a idéia de que a “esquerda” é o “bem” e a “direita” – ou seja, tudo o que não se encaixa na primeira categoria – é o “mal”, o cramulhão, o dito-cujo, o coisa-ruim, o rabudo. Desde o berço, somos educados na crença de que o lucro é mal, que é preciso distribuir a renda, não produzi-la, e que o Estado deve dar dinheiro aos pobres. O Brasil é, nesse sentido, uma república soviética.

Segundo, as teses conservadoras teriam dificuldade de se impor entre nós porque falta ao conservadorismo, como doutrina política, o toque teatral, o sex-appeal que torna as esquerdas tão atraentes para os revoltados, frustrados, ingênuos e entediados de todos os tipos. Principalmente para nós, latino-americanos, tão afeitos a políticos demagogos e a caudilhismos populistas. Por ser essencialmente anti-totalitário, falta-lhe o apelo mobilizador. Alguém já viu uma passeata, por exemplo, a favor da responsabilidade fiscal ou da boa administração do dinheiro público?

Por tudo isso, a proposta do professor Kenneth Maxwell corre o risco de já nascer condenada ao fracasso. Mas é inegável que constitui a melhor idéia, talvez a única boa idéia, a surgir no panorama político nacional nos últimos anos. Provavelmente, uma proposta assim tão ousada não vingará. Mas certamente seria uma revolução. Talvez a única revolução possível nessa terra de mensalões e bolsas-família.