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segunda-feira, dezembro 07, 2009

ANOS DE CHUMBO: AS VÍTIMAS ESQUECIDAS


No dia 19 de março de 1968, o estudante Orlando Lovecchio Filho estava passando em frente à biblioteca do consulado dos EUA em São Paulo, na Avenida Paulista, quando percebeu um pacote estranho. Ao aproximar-se do objeto, foi atingido por uma forte explosão. Levado ao hospital, teve a perna esquerda, dilacerada pelo choque e pelos fragmentos, amputada. Era o fim do sonho de Lovecchio, 22 anos, de tornar-se piloto de avião.

O pacote que mutilou Lovecchio era uma bomba. Quem a colocou foram militantes de uma organização clandestina de esquerda, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que pretendia assim "protestar" contra o "imperialismo ianque". Um dos que colocaram o petardo, Diógenes Carvalho de Oliveira, o "Diógenes do PT", foi recompensado com uma polpuda indenização do governo federal, como ex-preso político (há alguns anos, ele foi apanhado em flagrante tentando proteger bicheiros no Rio Grande do Sul, onde era secretário do governo). Quanto a Lovecchio, até hoje tem que conviver com as seqüelas do atentado que o incapacitou para o resto da vida, e é obrigado a sobreviver com uma magra pensão de R$ 500 mensais. Para cúmulo da desgraça, ele chegou a ser interrogado como suspeito da explosão que o vitimou, há mais de quarenta anos: somente em 1992, um dos participantes, o artista plástico Sergio Ferro, admitiu a autoria do atentado.

A história de Orlando Lovecchio é o tema do documentário "Reparação". Filmado em alta definição, sem nenhum apoio oficial (o que é raro, e, dado o tema, não é de se estranhar), o filme parte do caso de Lovecchio para fazer algo jamais visto, até agora, na cinematografia brasileira, em especial na produção cinematográfica sobre os "anos de chumbo" do regime militar: um debate sobre a violência e o terrorismo das organizações armadas de esquerda que, nos anos 60 e 70, praticaram dezenas de atentados, ataques à bomba e assassinatos em nome da "resistência contra a ditadura".

Com depoimentos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do historiador Marco Antonio Villa e do geógrafo e cientista político Demétrio Magnoli, além do próprio Lovecchio, o documentário vai direto na jugular, ajudando a demolir velhos mitos e falácias que persistem até hoje sobre o período. Em primeiro lugar, os "guerrilheiros" que pegaram em armas contra o regime de 64 eram, sim, terroristas, viam na violência e no terrorismo o caminho para uma revolução socialista no Brasil, e não somente para "resistir à ditadura". Mais: não lutavam pela democracia, como se tornou usual afirmar, mas por uma forma de ditadura revolucionária, inspirada em regimes totalitários como o de Cuba e o da Coréia da Norte (dos quais, aliás, recebiam apoio material e treinamento). Antes mesmo de 1964, como mostram a historiadora Denise Rollemberg e o jornalista Elio Gaspari, já havia luta armada no Brasil - o que prova que a esquerda era, ela também, golpista, como afirma Marco Antonio Villa. Enfim, uma visão completamente diferente e oposta à romântica (e inteiramente falsa) versão oficial da esquerda como defensora da democracia e dos guerrilheiros como lutadores da liberdade.

Mas o mais importante no filme está na maneira como resgata um dos aspectos menos conhecidos dos "anos de chumbo", coberto até hoje com uma cortina de silêncio. Diga as palavras "ditadura" e "vítimas" e o que lhe virá à cabeça? A associação automática será, provavelmente, com heróicos guerrilheiros, em sua maioria muito jovens (o que lhes dá um ar de pureza angelical), imolados em tiroteios ou assassinados sob tortura pelos "agentes da repressão". No máximo, se alguém lembrar que houve mortos e feridos também do outro lado, você pinçará o nome deste ou daquele militar ou empresário "justiçado" por um comando guerrilheiro por participar ou dar apoio à repressão. Nunca, jamais, as pessoas inocentes que foram vitimas das balas ou bombas da esquerda radical.

Pois é esse tabu que o documentário vem quebrar. Ao centralizar a atenção no caso de Orlando Lovecchio Filho, o filme crava o último prego no caixão da mitologia esquerdista sobre o período e mostra que, muito mais do que os "agentes da repressão", as maiores vítimas da luta armada de esquerda foram cidadãos comuns, simples transeuntes alheios à política, que tiveram a má sorte de estar no lugar errado, na hora errada. Pessoas como Lovecchio, que casualmente se encontrava no consulado norte-americano quando teve a perna arrancada por uma bomba assassina, ou que estavam em uma fila de banco quando se viram no meio do fogo cruzado entre agentes de segurança e os "guerrilheiros" que praticavam uma "expropriação revolucionária".

Para essas pessoas, vítimas inocentes de uma guerra suja, não houve até hoje qualquer homenagem. Nenhuma delas virou estátua, como a que se pretende erguer no sertão da Bahia para Carlos Lamarca, ou de rua, como Carlos Mariguella, cujo nome se pretende dar a uma praça no Rio de Janeiro, e que Frei Betto quer que vire nome do aeroporto de Salvador. Anônimas, sem rosto e, principalmente, sem o glamour da militância revolucionária, as vítimas da violência terrorista de esquerda não mereceram ainda sequer o reconhecimento oficial, ou um singelo pedido de desculpas. Muito menos indenizações milionárias, como as que a secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, não por acaso comandada por um ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Paulo Vanucchi, distribui fartamente para todos aqueles que aleguem ter passado algumas horas no DOPS. Inútil também procurar o nome de alguma dessas pessoas em algum livro sobre os mortos e desaparecidos políticos no Brasil desde 1964.

O que explica tamanha duplicidade de discurso, tão clara adoção de pesos e medidas diferentes para os mortos e feridos de cada lado, e até para os que não estavam em lado algum, durante o passado brasileiro recente? A resposta é simples: para a esquerda, hoje no poder no Brasil, os mortos só valem se fizerem parte de sua grei. Isso significa que um "guerrilheiro" morto em combate contra policiais vale muito mais do que suas vítimas, inocentes ou não. Um militar, por exemplo, mesmo um que não tivesse qualquer relação com o aparato repressivo, é, nessa visão, um alvo perfeitamente legítimo, ainda que "simbólico" - os "guerrilheiros" chegaram a metralhar um marinheiro inglês no Rio de Janeiro, em 1972, em "protesto" pela repressão britânica na Irlanda do Norte... Quanto aos civis, os pacatos cidadãos atingidos por bombas ou projéteis, esses seriam, de acordo com a esquerda, "danos colaterais" da luta pela revolução e pelo socialismo. Em outras palavras: apenas os que tombaram na luta merecem reverência e reparação estatal, inclusive monetária: todos os demais, ou eram malditos inimigos que mereciam morrer como cães ou pereceram porque estavam do lado errado. De qualquer maneira, de acordo com essa visão, somente os cadáveres de esquerda merecem homenagem: o fato de terem sido caçados pela repressão e muitos terem sofrido torturas funciona como um álibi para o terrorismo.

O documentário surge no momento certo, quando membros do governo Lula - ele mesmo, beneficiado como ex-preso político -, pretendem revisar a Lei de Anistia, a fim de punir somente um lado do conflito ideológico dos anos 60/70 - o lado dos militares, claro. Desnecessário dizer, mas nenhum nome de vítima da luta armada de esquerda foi lembrado pelos que querem rever a Lei, como o ministro da Justiça, Tarso Genro, que no entanto se mostra muito preocupado com os "direitos humanos" do terrorista Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos. Nomes como o de Orlando Lovecchio Filho, ou do jornalista Edson Régis e do almirante Nelson Fernandes, mortos em atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, em Recife (PE), em 1966 - dois anos antes do AI-5 -, entre tantos outros, não são mencionados. Nem mesmo de militantes da própria esquerda, assassinados pelos próprios companheiros de organização, em pleno auge da repressão política, como Márcio Leite de Toledo, fuzilado no centro de São Paulo em 1971 por discordar dos rumos da organização a que pertencia, a ALN - o que mostra que, mesmo cercados e perseguidos pela polícia, os terroristas brasileiros ainda encontravam tempo para se matarem uns aos outros.

Todos esses fatos são conhecidos. Basta pesquisar, e o interessado irá encontrar dezenas de casos semelhantes, alguns realmente estapafúrdios - segundo relato do jornalista Hugo Studart, um guerrilheiro do PCdoB no Araguaia foi "justiçado" por seus companheiros pelo "crime" de ter um caso amoroso com uma militante casada... No entanto, até agora, jamais tinham vindo à luz do grande público, nem muito menos haviam ganho as telas do cinema, pelo menos como fato principal. Até agora.

Como mostra o documentário "Reparação", os dias da hegemonia esquerdista na cinematografia brasileira sobre o período militar estão contados. As vítimas desconhecidas dos "anos de chumbo", finalmente, estão sendo resgatadas do limbo a que foram relegadas por décadas de propaganda ideológica marxista. Falta ainda receberem o mesmo tratamento dos heróis da esquerda. Se depender de gente como Paulo Vanucchi e Tarso Genro, porém, isso não vai acontecer tão cedo.

quinta-feira, novembro 19, 2009

ALGUMAS LIÇÕES DO CASO BATTISTI


Corpo do primeiro-ministro italiano Aldo Moro,
seqüestrado e assassinado
pelo grupo terrorista Brigadas Vermelhas, em 1978:
segundo Tarso Genro, isso NÃO é terrorismo
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O STF decidiu ontem, por 5 votos a 4, pela extradição do homicida italiano Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por diversos crimes, entre os quais quatro assassinatos no final dos anos 70. Ao mesmo tempo, porém, a Suprema Corte brasileira resolveu que a decisão final sobre a extradição ou não de Battisti não cabe a ela, mas ao presidente da República, Lula. Em outras palavras: o Supremo decidiu que não é Supremo na questão e entregou a batata quente a Lula. Assessorado por Tarso Genro, não é difícil imaginar qual será sua decisão.
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Creio que quem lê este blog já deve saber mais ou menos o que é o caso Battisti, então não vou entrar em minúcias. Vou apenas mencionar as lições mais importantes, até aqui, desse imbróglio. De acordo com o que dizem os defensores de Battisti (Tarso Genro, os parlamentares do PT e do PSOL etc.),

- a Itália era uma ditadura nos anos 70, e não um regime constitucional democrático;

- matar pessoas à bala ou em incêndios não é crime comum;

- não existe terrorismo de esquerda, em nome da ideologia comunista;

- a Itália de hoje é um Estado autoritário, e não um Estado Democrático de Direito, pois a Justiça italiana não garante o direito de defesa e o devido processo legal.

Em outras palavras, o que está dito aí em cima é o seguinte:

- Qualquer um que não gostar do governo de um país, ainda que seja uma democracia como a Itália, e que resolver matar pessoas e explodir bombas, terá a certeza de que, no Brasil, isso não será considerado crime comum.

- Qualquer um que matar pessoas e explodir bombas em outros países, em nome da ideologia comunista ou contra o "sistema", poderá fugir para o Brasil que será considerado refugiado político e não será extraditado para o país onde foi condenado por tais crimes.

Diante do que vai aí em cima, pergunto:

POR QUE RAIOS NÃO CONCEDER REFÚGIO POLÍTICO A OSAMA BIN LADEN?

quarta-feira, novembro 18, 2009

DUAS IMAGENS ASQUEROSAS


A foto acima foi tirada ontem. Ela mostra um grupo de parlamentares - por coincidência ou não, todos de partidos de esquerda - e o terrorista italiano Cesare Battisti (ao centro de camisa branca, sorrindo). São eles, da esquerda para a direita: Chico Alencar (PSOL-RJ), senador José Nery (PSOL-PA), Ivan Valente (PSOL-SP), senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e Luiz Couto (PT-PB). Battisti está atualmente preso em Brasília e aguardando o julgamento no STF de sua extradição para a Itália.
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Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália pelo assassinato de quatro pessoas no final dos anos 70, quando militava no grupo terrorista de extrema-esquerda "Proletários Armados para o Comunismo" (PAC), uma das várias organizações extremistas que queriam destruir o Estado democrático italiano e substituí-lo, como tentaram fazer Dilma Rousseff e Franklin Martins no Brasil, por uma ditadura comunista. Ele fugiu para o Brasil, onde, no começo do ano foi presenteado com o status de refugiado político pelo ministro da Justiça do governo Lula, Tarso Genro. Ao arvorar-se em corte revisora da Justiça italiana, Tarso alegou que Battisti corre risco de perseguição política na Itália (na Itália!). Battisti foi condenado, além dos quatro assassinatos, por outros crimes comuns, como roubo e atentado ao pudor. Mas não foi assim que entendeu o grande poeta e humanista Tarso Genro. O mesmo Tarso Genro que já despachou na calada da noite dois fugitivos da ditadura cubana de volta à ilha-prisão de Cuba e que deseja revogar a Lei de Anistia, pois considera tortura crime imprescritível, acha que matar pessoas em nome da ideologia comunista não é crime comum - na verdade, ele acha que não é crime de nenhum tipo.
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Há alguns dias, o humanista reformador do mundo Cesare Battisti declarou-se em greve de fome. Ele não quer ser extraditado para a Itália. Prefere ficar no Brasil, onde tem o apoio de Tarso Genro e dos parlamentares do PT e do PSOL.
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O caso de Battisti está sendo julgado no STF. A votação, no momento em que escrevo estas linhas, estava 4 a 4. O voto de minerva será dado pelo ministro Gilmar Mendes.
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Acharam a foto acima e a história de Battisti repugnantes? Então vejam a seguinte foto:
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A imagem mostra o cidadão italiano Virgilio Mattei, poucos minutos antes de morrer carbonizado em um incêndio criminoso provocado pelo terrorista de extrema-esquerda Achille Lollo, outro protegido do PSOL. Lollo, outro grande humanista, vive livre, leve e solto no Rio de Janeiro. Foi por ter praticado atos de amor à humanidade como o mostrado na foto acima que os parlamentares brasileiros não querem que Cesare Battisti seja extraditado e cumpra pena na Itália.
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Virgilio Mattei, assim como as quatro vítimas de Battisti, não merecia viver. Não era nem sequer um ser humano. É assim que pensam os senhores deputados e senadores esquerdistas que defendem Cesare Battisti.
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Qual das duas imagens é a mais asquerosa?

segunda-feira, novembro 16, 2009

UMA TRAGÉDIA POLITICAMENTE CORRETA


No último dia 6 de novembro, o major do Exército dos EUA Malik Nidal Hassan entrou calmamente, como fazia todos os dias, na base militar de Fort Hood, no Texas. Dirigiu-se a uma sala onde estavam vários soldados desarmados. Depois de sentar-se por alguns instantes, subitamente ele sacou duas pistolas semi-automáticas e descarregou-as contra todos os que se encontravam pela frente, gritando "Allahu Akhbar" ("Deus é grande", em árabe). Só parou depois que foi ferido a tiros e dominado por uma policial que, felizmente, estava no local. Mas não antes de ter promovido uma carnificina: 13 mortos, 30 feridos.

Imediatamente, uma gigantesca operação de desinformação e propaganda foi montada nos grandes meios de imprensa. Malik Nidal Hassan, filho de imigrantes palestinos, foi apresentado como um simples desequilibrado mental, embora seja psiquiatra do Exército. Seu ato tresloucado foi mostrado como o resultado do trauma dos relatos de guerra de veteranos que voltavam do Iraque e do Afeganistão que ele atendia e da possibilidade dele, Hassan, ser enviado para combater neste último país. Culpa da guerra, disseram, e muita gente comprou a tese.

No dia seguinte ao massacre no Texas, o noticiário mostrou um outro caso de atirador ensandecido, desta vez na Flórida, que matou uma pessoa ao invadir a empresa da qual fora despedido alguns meses antes. Tentou-se fazer uma conexão entre os dois massacres, que não tiveram nada a ver um com o outro. O objetivo: diluir o caráter evidentemente terrorista do ataque em Fort Hood, mostrando-o não como um atentado islamita, mas como mais um exemplo de insanidade isolada que permeia a sociedade norte-americana, motivado por problemas psicológicos ou por outras razões geralmente levantadas nessas horas, como a "cultura da violência", "a cultura das armas" etc. Enfim, como qualquer outra coisa, menos um atentado terrorista perpetrado por um fundamentalista islamita infiltrado nas Forças Armadas norte-americanas. A isso se somou Barack Hussein Obama, que, em discurso em homenagem aos mortos, repetiu pela enésima vez sua coleção de platitudes sobre o caráter pacífico e tolerante do Islã etc. etc.

Logo alguns fatos interessantes vieram à tona. Descobriu-se, por exemplo, o seguinte:

- Malik Nidal Hassan frequentava uma mesquita na Califórnia cujo imã é acusado de ter ligações com a Al-Qaeda. No dia seguinte ao massacre, o imã, hoje fora dos EUA, louvou em seu blog a matança.

- Malik Nidal Hassan não escondia de ninguém sua oposição às guerras no Iraque e no Afeganistão, pois não queria ser um "muçulmano matando muçulmanos".

- Mensagens de internet mostram Malik Nidal Hassan louvando os terroristas suicidas do Hamas e de outras organizações islamitas como "mártires".

- Malik Nidal Hassan costumava regozijar-se pelos atentados de 11 de setembro de 2001, não fazendo segredo a ninguém de seu antiamericanismo exacerbado.

- Malik Nidal Hassan, 39 anos, é um muçulmano devoto, que inclusive escolheu ficar solteiro, pois não achara, nos EUA, nenhuma mulher capaz de atender aos rígidos preceitos morais do Islã.

- Malik Nidal Hassan chegou a pedir baixa do Exército, mas teve seu pedido recusado.

Diante do que está aí em cima, apenas uma pergunta se impõe: Por que diabos as autoridades norte-americanas não prestaram atenção em Malik Nidal Hassan? Não perceberam que alguém como ele era uma bomba-relógio prestes a explodir? Nem Mr. Magoo faria pior.

Só existe uma resposta possível para tamanha cegueira voluntária e negligência diante do inimigo dentro de casa: o politicamente correto.

Foi a lógica ilógica do politicamente correto, com sua obsessão em apaziguar quem não quer a paz e em ignorar ou minimizar ameaças à liberdade e à democracia, que preparou o terreno para a matança em Fort Hood. E, desconfio cada vez mais, para outros massacres semelhantes ou piores no futuro.

O peso do politicamente correto - que pode ser traduzido, no caso do Islã, como "não fale, não veja, não ouça" - se fez sentir logo após as primeiras notícias de que 13 pessoas haviam sido assassinadas por um atirador louco no Texas. A primeira explicação a surgir na CNN dava conta de que o assassino só fizera o que fizera porque se sentia alvo de "preconceito" por ser muçulmano - preconceito que teria aumentado, passou-se a dizer, depois do 11 de setembro. Grande parte da imprensa, nos EUA e no exterior, endossou essa "explicação" para o massacre: Malik Nidal Hassan fuzilou à queima-roupa 13 inocentes porque era vítima de "preconceito", vejam só... "Preconceito" por ter chamado os terroristas de "mártires" e ter celebrado os atentados contra o World Trade Center. Só faltou botar a culpa nas vítimas, aqueles infiéis imperialistas...

Imaginem o seguinte: um soldado norte-americano perde a cabeça e abre fogo contra um grupo de muçulmanos. Não seria preciso esperar trinta segundos para ouvir a Al-Jazeera dizer que foram os EUA, o Ocidente, a civilização judaico-cristã etc., que cometeu o crime, e que se devem esperar represálias por esse crime. No caso de um fanático muçulmano, que já destilara várias vezes seu ódio ao país que acolheu seus pais e ao qual jurou servir, que dispara contra seus colegas de farda gritando "Allahu Akbar", a situação é bem diferente. As autoridades, longe de responsabilizarem as crenças do criminoso pelo ocorrido, enchem-se de cuidados e pedem cautela para que "não se tirem conclusões precipitadas" sobre a religião do assassino. Conclusões às quais seria fácil chegar: bastaria ter levado a sério as declarações do criminoso e mantê-lo sob monitoramento. Pisando em ovos, as autoridades norte-americanas temem, acima de tudo, melindrar a comunidade muçulmana, ainda que um de seus membros seja um ímã apaixonado por Osama Bin Laden. E o fazem mesmo sabendo que, se tal crime tivesse ocorrido no Irã ou na Arábia Saudita, já teria desencadeado uma jihad contra o Ocidente. É dificil conceber uma fórmula mais perfeita para o suicídio.

O massacre de Fort Hood deveria entrar para a História como um exemplo didático de como a obsessão pela "correção política", por não ferir suscetibilidades étnicas, raciais ou religiosas que tomou conta da política norte-americana, desarma as defesas e prepara o caminho para massacres cada vez mais terríveis promovidos pelos fanáticos islamitas e pelos inimigos da liberdade de todos os tipos. Paralisado pela propaganda politicamente correta, o governo dos EUA ignorou as mensagens inequívocas de ódio religioso que anunciavam um banho de sangue dentro da maior base militar do país. Poucas vezes se viu atentado mais premeditado, mais previsível e mais facilmente evitável. Isso significa que o governo norte-americano deveria reconhecer a negligência e desculpar-se por não ter tomado a tempo medidas de segurança, como pelo menos expulsar Malik Nidal Hassan do Exército, certo? Nada disso. Quando a tragédia finalmente aconteceu, em vez de reconhecer a necessidade de vigilância constante, o governo Obama, secundado pela grande imprensa, apelou mais uma vez para o palavrório oco multiculturalista, com exortações à tolerância para com quem é intolerante.

Se isso é verdade na política interna, é no plano internacional que a capitulação politicamente correta vem fazendo seus maiores estragos. Sob o governo do "negro pós-racial" Obama, os EUA vem substituindo a "guerra ao terror" de George W. Bush por uma atitude de condescendência criminosa para com terroristas e genocidas. Obama não tem feito mais do que se desculpar, diante de inimigos jurados dos EUA como Mahmoud Ahmadinejad, pelos "erros do passado", esperando com isso ganhar sua simpatia e prevenir novos atentados. Sua diplomacia, sobretudo no Oriente Médio, se baseia na seguinte premissa: eles nos odeiam pelo que nós fizemos a eles, não pelo que somos. Como se o terrorismo da Al-Qaeda e do Hamas fosse uma justa reação à política externa "imperialista" norte-americana! Enquanto isso, Ahmadinejad e Kim Jong-il se sentem cada vez mais ousados, deixando o mundo em suspense constante. Não é difícil entender por que Muamar Kadafi disse que Obama é "nosso filho" na ONU.

Desde 2001, os EUA - na verdade, todo o mundo civilizado - estão em guerra contra o terrorismo islamita. Mas é uma guerra que, ao que parece, ninguém, a não ser os terroristas, quer vencer. Do contrário, Obama não se esforçaria tanto em ignorar o que está diante de seus próprios olhos. O mundo ocidental é capaz de pedir desculpas a uma horda de fanáticos assassinos por algumas charges de Maomé, mas se recusa a enxergar fanatismo islamita onde ele se manifesta. Mais: ignora e, em nome da "tolerância" e da "diversidade", faz vista grossa para o terrorismo, a negação total de qualquer tolerância e diversidade. Como diz um velho ditado espanhol: "Cria cuervos que te le comerán los ojos".


quinta-feira, setembro 04, 2008

JUSTIÇA - E MEMÓRIA - SELETIVA (OU: COMO DISTORCER A HISTÓRIA PARA QUE ELA DIGA SÓ O QUE NOS CONVÉM)

Republicanos espanhóis treinam pontaria em uma estátua de Cristo, década de 30: para as esquerdas, apenas seus mortos contam


Leio hoje na imprensa: o juiz espanhol Baltazar Garzón ordenou nesta semana que se comece a reunir informações sobre os desaparecidos durante a Guerra Civil na Espanha e a subseqüente ditadura, com o objetivo de - abre aspas - "montar uma lista confiável de vítimas dos conflitos".
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Para quem não conhece o personagem citado acima, vou apresentá-lo: Baltazar Garzón é aquele juiz que, em 1998, causou uma onda de furor mundial ao mandar prender e tentar extraditar para a Espanha o ex-ditador do Chile Augusto Pinochet, falecido dois anos atrás. Desde então, ele, Garzón, tornou-se conhecido mundialmente como um perseguidor implacável de ex-ditadores, sobretudo generais sul-americanos, e um herói dos direitos humanos para os esquerdistas.
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O que quer o meritíssimo juiz? Cito mais uma vez a imprensa, no caso o portal Terra de hoje, 4 de setembro: "Garzon emitiu um pedido para que líderes religiosos, prefeitos e outras autoridades coletem informações sobre as pessoas mortas pelos exércitos do general Franco após a ascensão dele ao poder, em 17 de julho de 1936". Aparentemente, algo muito justo. Mesmo sabendo-se que Franco morreu trinta e três anos atrás, em 1975, e que desde então a Espanha é uma democracia. Aparentemente. Porque, se o objetivo do juiz Garzón fosse mesmo fazer justiça, ele não se cingiria a um lado somente da contenda. Leiam de novo a notícia. Lá está escrito, por acaso, que Garzón mandou que se investigassem as mortes causadas pelos dois lados do conflito, ou simplesmente os mortos na Guerra Civil Espanhola? Nada disso. O que ele quer são informações sobre as pessoas mortas - vou repetir, mais uma vez entre aspas - "PELOS EXÉRCITOS DO GENERAL FRANCO após a ascensão dele ao poder" etc.
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Perceberam a manobra? Entenderam a impostura? Captaram a tapeação, a empulhação, a mentira?
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A iniciativa do juiz Garzón não tem por objetivo fazer justiça coisa nenhuma. É mais uma malandragem retórica, uma tentativa espertalhona de distorcer a História travestida de humanitarismo jurídico. No caso, a História da Guerra Civil Espanhola, um conflito que resultou em cerca de meio milhão de mortos entre 1936 e 1939. Aqui, repete-se com esse episódio o mesmo sofisma que se tornou lugar-comum para outros fatos históricos do século XX, como a Guerra do Vietnã e as ditaduras militares sul-americanas: as vítimas foram de um lado apenas. Até hoje, quando se fala na Guerra Civil Espanhola, a primeira coisa que vem à mente é o bombardeio da cidade de Guernica pela Legião Condor de Hitler a serviço dos franquistas - fato imortalizado no célebre quadro de Pablo Picasso, que pintava coisas a soldo do Partido Comunista -, e não o que os dois lados fizeram. É preciso lembrar. O meio milhão de mortes no conflito que ensanguentou a Espanha e que o juiz Garzón deseja ver investigadas não se deveram unicamente aos "exércitos de Franco", como ele diz (ou seja, à frente de setores nacionalistas, conservadores e monarquistas que se rebelaram contra a Segunda República espanhola, proclamada em 1931), mas também - e isso não convém lembrar -, às forças republicanas, integradas por liberais, socialistas e, principalmente, comunistas. Estes últimos, na luta contra os franquistas, cometeram igualmente inúmeras atrocidades, chegando ao ponto de fuzilar centenas de padres católicos e incendiar igrejas. Além disso, grande parte das vítimas do lado republicano caíram sob as balas não dos exércitos nacionalistas de Franco, mas dos agentes da NKVD (a polícia política soviética, antecessora do KGB) do ditador Josef Stálin, que foram despachados para a Espanha não para combater os fascistas e defender a democracia, mas para liquidar os adversários da URSS nas fileiras republicanas, como os trotskistas e os anarquistas. E cumpriram essa missão, vale dizer, com dedicação canina e métodos científicos, como um bala na nuca. Para quem quiser saber mais como ocorreu esse banho de sangue, um dos massacres auto-infligidos menos conhecidos do século XX, recomendo a leitura de Lutando na Espanha, de George Orwell, e de A Batalha pela Espanha, de Antony Beevor. Será que o juiz Garzón vai pedir que se investiguem essas mortes também?
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De fato, o senso de justiça do sr. Garzón parece ser bem seletivo. Implacável para com generais de pijama sul-americanos, a ponto de compará-los aos nazistas e de reivindicar, para si, jurisdição universal para caçá-los onde quer que estejam, Garzón costuma ser bem tolerante, para dizer o mínimo, quando se trata de outras ditaduras. A de Fidel Castro em Cuba, por exemplo. Certa vez, perguntado por que não se mostrava tão implacável e inquiridor com o tiranossauro do Caribe, ele saiu-se com a seguinte pérola de valentia: disse que não podia fazer nada contra chefes de Estado ainda no exercício de suas funções. Ou seja: era preciso esperar o ditador aposentar-se, ou morrer, para pensar em fazer alguma coisa. Pois bem. No começo deste ano, após 49 anos de ditadura ininterrupta, Fidel renunciou - pelo menos foi o que se disse na imprensa - aos cargos que ocupava no Estado cubano. Tecnicamente, portanto, o barbudo não é mais um chefe de Estado, e, segundo o argumento do juiz Garzón, pode ser processado por seus crimes. Até o momento em que escrevo estas linhas, porém, o excelentíssimo juiz ainda não tinha iniciado o processo do ditador cubano, responsável, entre outras coisas, por 17 mil fuzilamentos e mais 78 mil afogados tentando fugir da ilha-prisão de Cuba desde 1959. Como diria o Capitão Nascimento: um verdadeiro fanfarrão, esse juiz Garzón.
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Alguns dias atrás, Garzón esteve no Brasil, em plena polêmica da revisão, ou não, da Lei de Anistia. Na ocasião, em entrevista para a Carta Capital, Garzón endossou a tese de Tarso Genro e defendeu a punição para os torturadores da época do regime militar. Afirmou que tortura é crime imprescritível. Estranhamente - ou não -, não disse nada sobre o terrorismo das organizações armadas de esquerda que mataram várias pessoas inocentes no mesmo período. Será que o terrorismo deixou de ser, também, um crime imprescritível? Ou será que - o mais provável - os mortos, nesse caso, estavam do lado errado?
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"Ah mas então você não quer que se investiguem as mortes". Não, nada disso. Não estou dizendo que não se deve investigar, nem que o melhor é esquecer. Mais uma vez: Não! É justamente o contrário: quero que se investigue sim, o destino dos mortos e desaparecidos, e que a História - TODA a História, e não parte dela - seja lembrada e esclarecida. Quero, inclusive, que os torturadores paguem por seus crimes, e que, se for para revisar a Lei de Anistia de 1979, que assim seja. Mas quero que os que mataram, feriram e torturaram - sim, torturaram! ou vai dizer que seqüestro não é uma forma de tortura? - do "outro lado", ou seja, do lado que hoje pede "justiça" e a revisão da Lei, paguem também. É isso, aliás, o que me distingue do sr. Baltazar Garzón, assim como de seus amigos esquerdistas: eu quero que a História seja desvendada por inteiro; eles querem que seja pela metade - a metade que lhes convém, claro.
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A manipulação da História pela esquerda não é um fato novo. É uma tática sistematicamente empregada, há décadas, para fazer todos acreditarem que ela é sempre vítima, jamais o lado agressor. Fazem isso para incutir nos espiritos ingênuos ou mal-informados (ou seja: na maioria das pessoas) a idéia de que seus crimes são virtuosos e que qualquer um que os denuncie é um salafrário e um bandido, um "reacionário", até mesmo um "fascista". Para atingir esse objetivo, os esquerdistas não hesitam em esconder uma parte da verdade, ou em se basear nela para propagar mentiras, ou em recorrer à mentira pura e simples. Um exemplo histórico é a falsa acusação feita pela URSS no Tribunal de Nuremberg, em 1946, segundo a qual os nazistas teriam sido os responsáveis pelo massacre de milhares de oficiais militares poloneses na floresta de Katyn, em 1940. Sabendo que os nazistas estavam na berlinda, universalmente execrados como autores de crimes horrendos contra a humanidade, e que qualquer delito que lhes fosse imputado teria uma boa probabilidade de ser considerado, os comunistas tentaram atribuir aos nazistas mais esse crime. Com esse ardil, buscaram encobrir sua própria participação no episódio - foram os comunistas, e não os nazistas, os autores da chacina, revelou-se depois - e, de quebra, fazer todos esquecerem sua aliança com os próprios nazistas - quando ocorreu o massacre, Stálin e Hitler tinham acabado de dividir entre si a Polônia, após a assinatura do infame Pacto de "não-agressão" entre os dois ditadores, em agosto de 1939. Esse é apenas um exemplo, entre tantos, de como as esquerdas se habituaram a distorcer a História para atender a seus próprios interesses.
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Algum tempo atrás escrevi aqui que o clube mais numeroso que existe é o dos inimigos das ditaduras passadas e amigos das ditaduras presentes. Se essas são de esquerda, então, viram não amigos, mas militantes das mesmas. Este é exatamente o caso do juiz Baltazar Garzón.

sexta-feira, agosto 01, 2008

A MARCHA DOS REVANCHISTAS

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TARSO, CUIDADO COM O QUE VOCÊ DESEJA! HÁ O RISCO DE CONSEGUIR...
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É realmente uma magnífica coincidência que tenha vindo a público a reportagem da revista Cambio — exibindo quantos são os valentes do governo Lula e do petismo que buscaram, como direi?, entender o universo das Farc — no dia em que o Ministério da Justiça deu largada à tentativa de jogar no lixo a Lei de Anistia, de 1979, que abriu o caminho, no país, para o fim da ditadura.
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De saída, cumpre afirmar uma coisa de maneira clara, transparente e insofismável: como sabemos, aqueles que, no passado, se comprometeram com a ditadura, ainda que nos porões — e o torturador, de fato, está no último degrau da cadeia alimentar da civilização —, desistiram do horror. Já alguns esquerdistas que, no passado, aderiram à luta armada e ao terrorismo, bem..., estes continuam a namorar com o totalitarismo até hoje. Um grupo de anistiados acatou a democracia. O outro ainda não. E justamente os que não acataram querem, agora, se vingar. Faz sentido! Jamais quiseram democracia: nem antes nem depois de 1964, nem antes nem depois do fim do regime militar.
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A tese de Tarso Genro é só uma malandragem retórica. Segundo diz, esse revisionismo — de fato, é revanchismo — não alcançaria aqueles que cumpriram as leis de então, ainda que fossem de exceção e próprias de um regime autoritário. Mas, argumenta Tarso, elas não permitiam a tortura.
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Além de ser uma estupidez política e uma estupidez histórica, trata-se também de uma estupidez lógica. Ora, não podendo punir seus adversários segundo o estado que temos hoje, democrático e de direito, Tarso apela ao estado que tínhamos então, de direito também, mas ditatorial. O homem ressuscita, se preciso, a, digamos, metafísica do estado de exceção para promover o que me parece ser um tentativa de vingança.
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E o terrorismo?
A pergunta óbvia se impõe: e o terrorismo? Que estado o suporta? Não o abrigava aquele, como não o abriga este de agora. Depreende-se da fala do ministro que os que agiram em nome das leis de exceção estão anistiados, mas ficam fora do perdão os que não encontravam naquela legislação abrigo para seus desatinos. E quem seqüestrou, assaltou bancos e matou civis e soldados? Alguns dos criminosos de então estão hoje no poder. Que lei os anistiou? Não é a mesma que, segundo ele, exclui os “torturadores”? Com isso, ele pretende que declaremos a tortura inaceitável e imprescritível — como se alguém a aceitasse hoje em dia. Quer dizer que devemos supor que aquela mesma lei estava, sem que soubéssemos, sendo leniente com o terrorismo? O espírito da Lei de Anistia declarava a superoridade moral do terrorista sobre o torturador?
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Ademais, não custa lembrar: outro promotor da revanche é ninguém menos do que Paulo Vannuchi, secretário nacional de Direitos Humanos, um dos homens que aparecem na reportagem da revista Cambio como muito compreensivos com a luta dos terroristas das Farc. Ele é dos "direitos humanos", e as Farc mantêm campos de concentração.
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A lei retroage?
Leiam o que escreve um leitor deste blog de modo irreparável e irrespondível:
“A imbecilidade em torno da discussão sobre a reabertura de processos da época da ditadura está (também) no fato de que, naquele tempo, não existia juridicamente o crime de tortura, que só foi criado no Brasil por meio da Lei n.º 9.455/97. Alguém precisa lembrar que as leis penais que criam novos crimes no cenário jurídico não são retroativas?
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Os atos de tortura praticados antes da Lei n.º 9.455/97 podiam ser punidos a título de abuso de autoridade (Lei n.º 4.898/65) e, conforme os resultados físicos dos atos de agressão, também a título de lesões corporais (art. 129 do Código Penal) e/ou homicídio (art. 121 do Código Penal).
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Ocorre que a lei brasileira não prevê um prazo de prescrição maior do que 20 (vinte) anos (art. 109, inciso I, do Código Penal), seja o crime qual for. Assim, se alguns pretendem discutir a possibilidade de punição a atos criminosos ocorridos até o ano de 1979, estão discutindo a (im)possibilidade de aplicação de sanções a fatos já prescritos até, no máximo, o ano de 1999.
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A grande questão que se põe é a seguinte: o papo do governo é para rir, chorar ou dar sono?”
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Causa finita est
A menos que Tarso consiga criar a Lei de Exceção da democracia, essa conversa não vai dar em nada e seria, obviamente, bombardeada no Supremo. O que ele quer com isso? Eis uma boa questão. Alguns leitores estão aventando uma hipótese um tanto conspiratória, é verdade, mas que tem a sua graça. Parece que Tarso, que se quer pré-candidato à Presidência, está disposto a (re)encruar os chamados Anos de Chumbo, em que ex-torturadores e ex-terroristas teriam de emergir do passado com nome e sobrenome, os reais. A turma do porão hoje veste pijama. Os que aderiram ao terror, no entanto, estão no poder. Um de seus membros destacados é Dilma Rousseff, a companheira Estela, adversária interna de Tarso no PT.
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Já imaginaram? Trinta anos depois da Lei da Anistia, alguns militares iriam em cana graças a uma revisão unilateral da lei, e a ex-companheira Estela se prepararia para um campanha eleitoral, candidata a comandante-em-chefe das Forças Armadas. Acho que não vai funcionar...
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“Se os ministros citados quiserem insistir na revanche, sempre é de bom tom lembrar um pensamento que diz: “É bom ter cuidado com o que você deseja; afinal, você pode conseguir”. O trecho foi enviado pelo leitor Paulo Boccato. Serve como uma luva para encerrar o texto.

quinta-feira, junho 26, 2008

ELES QUEREM REVANCHE, NÃO JUSTIÇA


Atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, Recife, 25/07/1966: violência não foi só da ditadura

Os "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil já renderam uma vasta literatura bastante desigual, vários filmes (alguns assistíveis, a maioria nem isso) e uma infinidade de mitos. Alguns deles já analisei aqui. A moda agora é defender a revisão da Lei de Anistia de 1979, que perdoou os crimes praticados tanto pela esquerda quanto pela repressão político-militar. O Secretário Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, já defendeu publicamente a idéia, colocando-se a favor da punição dos agentes da repressão que cometeram torturas e outras barbaridades. Que ponham as barbas de molho, advertiu.

Alguns órgãos da imprensa colocaram-se a serviço dessa causa. Um deles, a revista Carta Capital, publicou nesta semana reportagem de capa sobre o assunto. Talvez alguém se surpreenda ao me ver comentando matéria da Carta Capital, uma publicação chapa-branca, a qual já reservei aqui alguns comentários. Mas às vezes é preciso, como disse aquele ator da Globo que quis justificar o mensalão, meter a mão na merda. Antes eu tinha algumas dúvidas sobre as reais motivações da esquerda em querer reabrir algumas feridas do passado. Ao final da leitura da reportagem, não as tinha mais (a reportagem completa está aqui: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=1207).

Em resumo: a reportagem da Carta Capital informa que dois promotores do Ministério Publico Federal (MPF) encaminharam ação à Justiça Federal para responsabilizar civilmente torturadores e autoridades da época da ditadura militar no Brasil por crimes cometidos no DOI-Codi paulista, entre 1970 e 1976. A Procuradoria-Geral da República de São Paulo avalia que agentes públicos, “notadamente da União Federal”, praticaram abusos e atos criminosos contra opositores ao regime, e que as ilegalidades ocorridas naquela instituição militar, como as prisões ilegais, torturas, homicídios e desaparecimentos forçados, são consideradas pelo Ministério Público como crimes de “lesa-humanidade”. A ação lembra que o Comitê de Direitos Humanos da ONU recomendou ao governo brasileiro que torne públicos os documentos sobre violações aos direitos humanos no País e responsabilize os autores de todos esses crimes.

O.k. A tortura é mesmo horrível, um crime de lesa-humanidade. Quanto a isso creio que ninguém que regule bem das idéias pode discordar. Mas e o terrorismo, não é? Pendurar alguém no pau-de-arara, aplicar-lhe choques elétricos, espancar prisioneiros, é algo repulsivo e contrário à dignidade humana. Merece, pois, toda condenação. Explodir bombas em locais apinhados de gente como um aeroporto, executar friamente um militar aprisionado, colocar em risco a vida de civis inocentes em assaltos a bancos, também. Por que então o MP está exigindo a responsabilização penal de um lado apenas? A ONU, inclusive, já aprovou diversas declarações e resoluções condenando o terrorismo, assim como a tortura. Duplo padrão, viés ideológico, está claro. Adiante.

A política de repressão e perseguição ampla “mediante violência” partiu, naquele momento da história do País, da Presidência da República e do Ministério do Exército, avalia o procurador regional Marlon Alberto Weichert, autor da ação juntamente com a colega Eugênia Gonzaga Fávero. Assim, se os responsáveis pelas torturas não tiverem seus nomes execrados publicamente, por não estarem vivos, espera-se, pelo menos, que não continuem dando nomes a escolas, pontes e viadutos pelo País afora. Um dos mais sanguinários policiais do País, o delegado Sergio Paranhos Fleury, do antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), por exemplo, é nome de rua hoje na cidade de São Carlos (SP). O general Milton Tavares também foi agraciado com um viaduto acima do rio Tietê, em São Paulo. Seu nome está lá estampado.

Entendi. A idéia é expor os torturadores e seus mandantes. Ou, pelo menos, caso não estejam mais vivos, não permitir que seus nomes batizem ruas e outros locais públicos. Acho justo. Não gostaria nem um pouco de morar numa rua chamada Sérgio Paranhos Fleury, ou Milton Tavares, ou Emílio Garrastazu Médici (sei que existe uma cidade chamada Presidente Médici, se não me engano no Amazonas). Mas ficaria também muito incomodado se meu endereço fosse Rua Carlos Mariguella, ou avenida Carlos Lamarca... Afinal, esses não atuaram também, "mediante violência" como diz a denúncia do MP, no período? Mariguella, por sinal, não chegou mesmo a proclamar em vários documentos o orgulho de ser terrorista? E o terrorismo não é condenado pela ONU? Querem execrar todos os que fizeram uso da violência durante a ditadura militar, tudo bem, acho ótimo, não tenho nada a opor. E retirar seus nomes de ruas, escolas, pontes e outros locais públicos? Perfeito. Então, que se retirem os nomes de Carlos Mariguella e Carlos Lamarca das placas também. Lamarca, aliás, foi promovido postumamente a general, e sua família recebeu uma indenização do governo. Não me consta que o mesmo tenha acontecido aos parentes de Fleury ou de qualquer outro torturador. Por que execrar uns e louvar outros?

A ação de Weichert e Eugênia tem o objetivo de impedir que os abusos praticados no passado voltem a se repetir. Subscrita por outros quatro procuradores, ela foi encaminhada e aceita pela Justiça Federal no fim de maio. A Procuradoria pede a devolução para a União de todos os valores pagos em indenizações a 64 familiares de mortos e desaparecidos políticos. São presos mortos no DOI-Codi, reconhecidos oficialmente pelo governo brasileiro no documento Direito à Memória e à Verdade, produzido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. O total a ser devolvido aos cofres do governo, conforme a ação, ultrapassa 9 milhões de reais.

Estou entendendo cada vez mais. Não se trata apenas de expor os nomes dos torturadores à execração pública - coisa, aliás, que vem sendo feita há bastante tempo, e que a própria Carta Capital faz em sua capa desta semana, mostrando, com foto e legenda, o rosto de um policial do interior de SP acusado de ter sido torturador no DOI-CODI nos anos 70. A questão vai um pouco mais além. Trata-se, também, de exigir que os responsáveis pelas mortes e desaparecimentos de presos políticos desembolsem a quantidade gasta pela União com as indenizações. Que foram concedidas prodigamente, diga-se de passagem, às famílias de muitos que pegaram em armas contra o regime militar, e que em suas ações deixaram mortos e feridos. Mais uma vez: acho justíssimo. Só não consigo entender por que não propor que os remanescentes da luta armada façam o mesmo em relação aos familiares das pessoas que eles assassinaram, feriram e seqüestraram. Aliás, não entendi por que os familiares das pessoas que foram mortas pelas organizações armadas de esquerda, ao contrário das vítimas da repressão, ainda não receberam nenhuma indenização. O caso do cidadão que perdeu uma perna em um atentado à bomba em 1968 em São Paulo e que hoje vive com uma magra pensão de aposentadoria por invalidez, enquanto o autor do crime foi indenizado regiamente por ter sido preso e torturado, é emblemático disso. Isso é justiça?

"O Brasil não teve uma comissão de verdade para identificar os torturadores e afastá-los do exercício de funções públicas. O Exército sonega informações à sociedade brasileira”, observa Weichert. Ele diz ainda: "Manter hoje acusados de tortura em cargos públicos é um risco para a sociedade", assegura Weichert. “É preciso reconhecer que a tortura funciona. Uma pessoa que pratica tortura, que se acostumou com isso e exerce a função de delegado, traz um risco para a sociedade".

Mais uma vez, estou de pleno acordo com o procurador. É preciso identificar e afastar das funções públicas todos aqueles que participaram em torturas e outros crimes da repressão. Mantê-los em cargos públicos é um risco para a sociedade. Assim como é manter todos aqueles que tiveram algum envolvimento com grupos de luta armada e em atos de terrorismo e que foram, igualmente, beneficiados pela Anistia. Concordo, aliás, que não existe ex-torturador, assim como não existe ex-espião e ex-terrorista. Portanto, figuras como Dilma Rousseff (VAR-Palmares), Franklin Martins (MR-8), Carlos Minc (VAR-Palmares), José Dirceu (ALN, Molipo), José Genoíno (PCdoB - guerrilha do Araguaia), Marco Aurélio Garcia (POC) e Paulo Vanucchi (ALN) devem ser imediatamente expurgados do serviço público, e impedidos para sempre de ocupar qualquer cargo no Estado brasileiro. Aguardo o dia em que esse ato seja publicado no Diário Oficial da União.

Os nomes citados aí acima são de ministros do atual governo, deputados, políticos. O rosto deles está na mídia todos os dias. São algumas das personalidades mais respeitadas e influentes do Brasil na atualidade. E os ex-agentes da repressão, que influência exercem sobre a vida política do País? Resposta: ZERO. Nada mesmo.

Para Weichert, incutiu-se no imaginário nacional a idéia de que a Lei de Anistia implica o esquecimento integral de toda a violência ocorrida no País. “Isso não se sustenta nem judicialmente nem sociologicamente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos diz que não se faz reconciliação com esquecimento. Isso pressupõe verdade, transparência e justiça”, acredita o procurador.´

Corretíssimo. Também concordo que Anistia não quer dizer esquecimento. É preciso lembrar, por mais doloroso que seja, até para que nunca mais ocorra de novo. Daí porque não consigo entender o critério adotado pelo MP, de lembrar apenas uma parte da História. Aprendi que lembrar pela metade é esquecer pela metade. Que os crimes da repressão sejam lembrados e execrados. Que os crimes da esquerda também. Somente assim se vai alcançar alguma reconciliação com o passado.

O jurista Dalmo Dallari, professor aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), aponta como uma “contradição gritante” da Lei de Anistia a ampliação do indulto a todos aqueles que estavam a serviço do Estado. “Esses acusados não eram políticos, eram agentes públicos envolvidos em torturas. É uma legislação feita em causa própria, durante um governo ditatorial”, pontua.

Assim como os que praticaram torturas e outras atrocidades não eram políticos, os que praticaram ações armadas contra o regime também não o eram. E os delitos que eles cometeram, assim como a tortura, não foram crimes políticos, mas comuns. A menos que se considere assaltar bancos, seqüestrar diplomatas e explodir bombas crimes políticos. É verdade que a Anistia foi uma legislação em causa própria, pois beneficiou os agentes do próprio regime. Mas é verdade que perdoou também os que queriam derrubar o regime, e substituí-lo por uma ditadura comunista. A Lei de Anistia certamente não é perfeita, mas a situação por ela criada só permite duas soluções: ou se perdoa a todos ou não se perdoa ninguém. Nesse caso, não somente os torturadores, mas os terroristas, deveriam estar na cadeia.

É verdade que outros países seguiram pelo mesmo caminho durante um tempo. Era necessário evitar o conflito. Mas a Argentina e o Chile estão punindo seus repressores. Nós, 20 anos após a redemocratização, nem sequer abrimos os arquivos da ditadura. O brasileiro tem uma tradição de conciliação absolutamente exagerada.

Na Argentina, a ditadura caiu depois da desastrosa aventura das Malvinas. No Chile, alguns militares foram punidos por crimes cometidos fora de suas fronteiras, como o assassinato do ex-Chanceler de Allende nos EUA, em 1976. No Brasil, não houve nada disso. Além do mais, em ambos os países não foram apenas os militares, mas também integrantes de organizações armadas de esquerda, como os Montoneros e o MIR, que foram punidos após a redemocratização. Logo, não há analogia possível. Mas concordo que o brasileiro é exageradamente conciliador e evita os conflitos. Tanto que a ditadura militar aceitou perdoar, junto com seus agentes, aqueles que quiseram derrubá-la, inclusive pela violência. Alguém consegue imaginar o mesmo acontecendo em Cuba, por exemplo?

No Brasil, a situação está muito aquém dos exemplos dos vizinhos do Cone Sul. Até agora nem sequer conseguimos responsabilizar na área cível um único agente de repressão. Que dirá colocá-los na cadeia. A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, por exemplo, insiste há anos na abertura dos arquivos da ditadura. “Não precisa abrir tudo. Há documentos que podem comprometer a soberania nacional ou provocar incidentes diplomáticos. Como também existem pessoas que não estão dispostas a ver a vida de familiares devassada”, pondera o advogado Marco Antônio Barbosa, presidente da comissão. “Mas é necessário criar um critério justo e claro para revelar alguns documentos e avançar nesse trabalho de resgate da memória”, completa.
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Hummm... Não precisa abrir tudo, é? Por que será? Acho estranha essa seletividade. Como estudante da História nacional, e como cidadão brasileiro, gostaria que fossem abertos todos os arquivos, não somente uns. Quem vai definir os critérios? Será que vão fazer um comitê para estabelecer que documentos podem ser divulgados, e quais não podem, porque podem "comprometer a soberania nacional", "provocar incidentes diplomáticos" ou porque - meu argumento preferido - "existem pessoas que não estão dispostas a ver a vida de familiares devassadas"? Mas os torturadores, não têm sua vida devassada o tempo todo? Afinal, do que têm medo que venha a público? Será que é o destino dos dólares que Cuba deu a Brizola? Ou o nome de algum traidor? Os arquivos ainda nem foram abertos, e já desconfio que, se forem um dia, será mais para esconder do que para revelar...

Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da USP, não poupa argumentos para defender a punição exemplar a todos os que atuaram na repressão política. Autor da representação que levou o MPF a ajuizar a ação civil pública contra os antigos comandantes do DOI-Codi, ele atuou em outros três casos contra a União movidos por familiares de vítimas. Para Comparato, o recente processo “pode abrir caminho para punir tanto os executores como os mandantes dos crimes."

Embora considere difícil identificar todos os que ajudaram no aparato da repressão, até porque muitos documentos da época continuam sob sigilo de Estado, o advogado acredita ser possível, inclusive, estender esses processos aos colaboradores civis da ditadura. “Os empresários que ajudaram a financiar a repressão também devem ser punidos. É o princípio da co-autoria. E tem muita gente viva gozando dessa impunidade. Os filhos e netos deles têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: vocês foram responsáveis por mortes e torturas?”

Novamente: uma iniciativa justa, justíssima. Os colaboradores civis da repressão são co-autores dos crimes da ditadura. Devem portanto, ser responsabilizados por isso. Mas não só eles. O que dizer dos colaboradores civis, os "simpatizantes", das organizações armadas de esquerda? Muita gente, inclusive gente do meio artístico e empresarial, deu guarida e ajuda aos guerrilheiros. De acordo com o mesmo raciocínio, deveriam ser penalizados também. Seus filhos e netos, portanto, têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: papai, vovô, você foi responsável por mortes e assaltos a banco?

A reportagem inteira, como se vê, é, da primeira à última linha, pura peça de propaganda ideológica, proselitismo político disfarçado de jornalismo. A essa altura, quem chegou até aqui já deve ter percebido, e nem é preciso lembrar, mas eu vou dizer assim mesmo: com a exceção de um pequeno trecho em que se fala, de passagem, das torturas sofridas na OBAN por dois guerrilheiros, pai e filho, presos sob a acusação de terem executado um empresário em SP, NÃO HÁ QUALQUER MENÇÃO AO TERRORISMO DA ESQUERDA.

Certamente, punir quem torturou e assassinou friamente prisioneiros indefesos é uma mais que justa reivindicação, um ato de justiça. O problema é quando essa condenação vem acompanhada de uma manipulação muito peculiar e seletiva da memória histórica, como se apenas um dos lados tivesse feito uso da violência. Como se só houvesse algozes, de um lado, e vítimas, de outro.

A violência da esquerda não apenas precedeu a fase mais dura da repressão, e ajudou a desencadeá-la - sendo, portanto, co-responsável pelos piores crimes da ditadura -, como foi, em termos relativos, mais intensa do que a violência dos militares. Em números absolutos, estes mataram mais - no Brasil, 376 pessoas foram mortas pelo aparato da repressão durante a ditadura militar, de 1964 a 1985 -, mas, em números relativos, as guerrilhas foram mais mortíferas. Cerca de uma centena de pessoas, pelo menos, foi morta pelos grupos da esquerda armada entre 1965 e 1974. Um número que adquire especial importância, visto que tais grupos, ao contrário da ditadura, agiam sempre no limite da precariedade: dispunham para suas ações de algumas dezenas de militantes e, quando muito, um número um pouco maior de simpatizantes, algumas metralhadoras e, como arma padrão, um revólver ou uma pistola. E mesmo assim mataram mais de 100 brasileiros e alguns cidadãos estrangeiros, durante nove anos. A repressão, com toda a máquina do Estado - as três Forças Armadas, o SNI, os serviços militares de inteligência, a Polícia Federal, as polícias estaduais militares e civis -, fez 376 cadáveres em vinte e um anos. Basta fazer uma conta matemática rápida para saber quem foi mais letal. Os defensores da luta armada argumentam que os guerrilheiros não torturaram. Pergunto: por acaso manter alguém em cativeiro após seqüestro ou apontar uma arma para simples transeuntes apanhados na fila do banco durante um assalto não pode também ser considerado uma forma de tortura?

E não se trata apenas de uma questão numérica. Mesmo no momento mais duro da repressão, os grupos de esquerda achavam tempo para se matarem uns aos outros. Jacob Gorender, em seu livro Combate nas Trevas, fala em pelo menos quatro "justiçamentos" - o nome que os terroristas davam aos assassinatos de seus próprios companheiros -, todos por meras suspeitas de traição. Um outro caso bastante exemplar é de um guerrilheiro do Araguaia, assassinado a tiros por ter se envolvido amorosamente com a esposa de um companheitro - um crime passível da pena capital, pelos critérios bastante peculiares do "tribunal revolucionário" do PCdoB. Os nomes dessas vítimas da esquerda, que podem ser encontrados na internet, não constam de nenhuma lista e de nenhum livro sobre os mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, inclusive do que o governo lançou no ano passado, com pompa e circunstância. É como se essas pessoas nunca tivessem existido.

Não dou a mínima para os torturadores: os crimes que cometeram foram bárbaros, e acho mesmo que eles devem ter seus nomes execrados e ser punidos por isso. Mas nem por isso concordo que se deve fechar os olhos para um dos lados da violência, a ponto de negá-la completamente. Por que punir um dos lados somente? Isso não é justiça. É outra coisa. A palavra é feia, ninguém gosta, lembra discurso de milico. Mas é preciso dizê-la com todas as letras: é revanchismo.

Millôr Fernandes escreveu que a luta armada dos anos 60 e 70 era um investimento para o futuro. Depois do Bolsa-Terrorismo, a esquerda quer revisar a Lei de Anistia. O terrorismo compensa.

segunda-feira, junho 16, 2008

LUTA ARMADA - VELHAS E NOVAS FALÁCIAS



Capitão Charles Chandler, metralhado por um comando da ALN e da VPR em 12/10/1968: morto em nome da luta pela democracia, segundo a esquerda


No meu último post, reproduzi um artigo de Marco Antonio Villa publicado em 19/05 na Folha de S. Paulo sobre as falácias da esquerda a respeito da luta armada dos anos 60 e 70 no Brasil. O artigo é excelente. Com algumas exceções pontuais, que pretendo discutir em outro post, o texto de Villa é impecável.
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Agora, a mesma Folha publica um artigo assinado por dois professores, Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Benjamin Vieira, contestando as afirmações de Villa. Não por acaso, seus autores são ex-militantes de organizações armadas de esquerda (POLOP e VPR, respectivamente). No texto, que trascrevo a seguir em vermelho, os autores se esforçam para rechaçar a conclusão óbvia de que os terroristas queriam derrubar a ditadura para instaurar outra, comunista. Querem manter viva a lenda dourada criada em torno dos heróicos guerrilheiros que sacrificaram tudo altruisticamente em nome da... democracia (?!). O texto deles vai na íntegra. Meus comentários estão em azul. Os grifos também são meus.
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Luta armada a favor ou contra a ditadura?
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Artigo - Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Vieira
Folha de S. Paulo
16/6/2008


Superestimar critérios documentais tem levado alguns historiadores a dizer que a esquerda não lutou por uma causa democrática
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NO ARTIGO publicado nesta Folha em 19/05 ("Falácias sobre a luta armada na ditadura", "Tendências/Debates"), Marco Villa rediscute a ditadura, atribuindo responsabilidades pela emergência do autoritarismo em 1964 tanto à direita quanto à esquerda. A abordagem dissocia as esquerdas das conquistas democráticas.

Perceberam o tom de crítica ao autor que ousou "dissociar as esquerdas das conquistas democráticas"? Pois é. Esse pessoal da esquerda acha que democracia é só com eles, somente eles a defendem. Mais que isso: foram eles que a pariram. Isso fica claro no texto. Adiante.

A superestimação dos critérios documentais, em detrimento de conseqüências políticas democráticas que não constituíam proposta predominante no discurso da esquerda armada, tem levado alguns historiadores a afirmar que a esquerda lutou contra a ditadura, mas não por uma causa democrática. Ou seja, a direita e a esquerda eram antidemocráticas. A primeira defendia a ditadura militar, e a segunda, a do proletariado.

Antes de iniciar a crítica ao artigo propriamente dita, é bom apontar um lapso (?) no texto: nem toda a "direita" - no sentido que lhe dão os autores - defendia a ditadura militar. A menos que se considere alguém como o jurista Sobral Pinto, por exemplo, um radical esquerdista, o que está longe de ser verdade. Em 1964, a totalidade da direita - inclusive a imprensa - apoiou, sim, a derrubada do governo Goulart. Mas logo se desencantou com o regime, passando para a oposição. Um setor considerável, em especial a UDN, esperava que os militares devolvessem o poder rapidamente aos civis e restabelecessem a normalidade constitucional. Por se opor ao governo Castello Branco, o maior direitista brasileiro do período, Carlos Lacerda, foi cassado pelo regime, tendo de amargar o exílio. Logo, uma afirmação claramente falsa, logo no início. Continuemos.

A tese ignora que uma ação política pode gerar resultados não intencionais de grande repercussão. Assim, a luta armada contribuiu para o enfraquecimento da ditadura e o retorno da democracia, em que pese as intenções iniciais de seus agentes.

Esse pessoal não perde tempo. Diante de provas irrefutáveis, apresentadas pela própria esquerda armada, trata de refutar o que a História diz com todas as letras. Não sendo mais capazes de sustentar, com fontes e documentos, a mitologia criada em torno das esquerdas no período - derrubada pela simples leitura dos documentos das organizações armadas de esquerda, reunidos por Daniel Aarão Reis e Jair Ferreira de Sá em Imagens da Revolução, dos quais nenhum (nenhum!) fala sequer remotamente em restaurar a democracia -, os órfãos da ilusão marxista tentam tapar o sol com a peneira. Agora falam em "superestimação de fontes documentais" (?) - como se as fontes documentais não fossem a base de qualquer estudo histórico sério. Mais: apelam para os supostos "resultados não-intencionais" da luta armada no Brasil.
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Trocando em miúdos, a tese dos autores é a seguinte: os guerrilheiros não eram democratas, não queriam a democracia; eram autoritários, queriam a ditadura. Mas as suas ações, a luta armada em si, teve efeitos democráticos de longo prazo. É isso mesmo que você leu: não queriam saber de democracia, desprezavam-na, mas sua luta, apesar disso e deles próprios, teria contribuído para a volta da liberdade; era, portanto, uma luta democrática... É a velha teoria vanguardista, dos guerrilheiros como a "vanguarda da sociedade contra o arbítrio". Pura balela.

Assim como não era objetivo dos terroristas restaurar a democracia, e sim instaurar outra, comunista, em seu lugar, a conseqüência prática de suas ações não foi o enfraquecimento, mas o fortalecimento, da ditadura militar. Ou, usando um linguajar jurídico, inexiste liame causal entre uma coisa (a luta armada) e outra (a redemocratização).

Basta ver as datas. A luta armada ocorreu entre 1965 e 1974, quando então foi totalmente aniquilada. É justamente nesse período que o regime dos generais se consolida e, sobretudo após 1968, com o AI-5, atinge seu ponto culminante. É somente após a destruição dos grupos guerrilheiros, em 1974, que o regime começa a dar sinais de fraqueza, e começa o processo de abertura política. Esta não teve nada a ver com a luta armada, até porque esta já havia deixado de existir.

Muitos grupos de esquerda simpáticos à luta armada antes de 1968 não desprezavam a luta política e somente após o AI-5 escolheram o caminho militarista. A barbárie repressiva não foi uma resposta à luta armada, embora esta tenha sido utilizada como justificativa para o recrudescimento da política repressiva, que foi ampliada desde 1964 de acordo com a resistência da sociedade, da qual fizeram parte os grupos de esquerda.

Mentira. Nada disso inviabiliza a tese de Villa. O fato de haver grupos que optavam pela via política e não pelo caminho armado, como o PCB e a AP, não retira da luta desses o caráter totalitário. Podiam diferir dos grupos armados nos métodos, mas não no objetivo final, que era um regime comunista ou socialista, logo não-democrático. É verdade que as ações armadas se intensificaram depois de 1968, mas é uma mentira afirmar que foi somente após o AI-5 que a esquerda armada fez sua opção pelo caminho militarista: é no período 1964-1968 que surgem as principais dissidências armadas de esquerda, como a ALN (surgida em 1967), a VPR e o PCBR (ambos em 1968). Já em 1966, a AP realiza a primeira ação terrorista do período, o atentado à bomba contra o general Costa e Silva no aeroporto do Recife, em 25 de julho, que deixou dois mortos e dezenas de feridos. Além disso, como deixam claro autores inclusive ligados à esquerda, como Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg, o projeto guerrilheiro é anterior ao próprio golpe de 64: já em 1961 - em pleno regime democrático, portanto -, as Ligas Camponesas de Francisco Julião mantinham vários acampamentos de guerrilha espalhados pelo País, e muitos de seus integrantes iam regularmente fazer treinamento guerrilheiro em Cuba. Isso aconteceu - é bom lembrar - três anos antes do golpe de 64.

Aliás, é bom que se diga: a luta armada jamais esteve fora dos planos da esquerda, mesmo da mais moderada. O PCB de Luiz Carlos Prestes, por exemplo, mesmo duramente criticado como "reformista" e "pacifista" pelos que se lançaram à aventura da guerrilha, sempre deixou claro, em seus documentos e resoluções, que se opunha ao foquismo castro-guevarista por razões táticas, e não porque era contra, por princípio, a luta armada. Nunca é demais recordar que foi justamente ele, o partido de Prestes, que desencadeou a primeira tentativa de revolução armada comunista no Brasil, em 1935. Nos anos 50, em pleno governo constitucional, o partido estimulou uma guerrilha camponesa na região de Trombas e Formoso (GO). Sobretudo após 1958, com a perspectiva de assalto pacífico ao poder, o PCB adota uma linha cada vez mais legalista. Mas, a exemplo do que ocorre até hoje com partidos como o PT, a guerrilha jamais esteve fora de seus cálculos para a tomada do poder.
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Sobre a afirmação de que a repressão não veio como resposta à luta armada,mais uma mentira. Após a "limpeza" de 1964, a repressão política só atingiu seu ponto culminante a partir de 1968, justamente como reação aos atentados da esquerda. Pode-se discutir se o AI-5 foi ou não conseqüência direta da luta armada, mas é inegável que, não fosse essa, ele dificilmente teria ocorrido. Não é por acaso que os "anos de chumbo" do terrorismo, 1968-1974, coincidem perfeitamente com os de maior repressão política. A luta armada serviu tanto aos interesses da linha-dura militar, como fato ou como pretexto, que, mesmo quando o terror de esquerda já havia sido dominado, sempre que os milicos queriam justificar o endurecimento do regime, apelavam para o fantasma da guerrilha (leiam as memórias do ex-presidente Geisel, nas quais ele afirma claramente que foi o espectro da luta armada que alimentou a linha-dura e ajudou a prolongar a ditadura). Mesmo tendo desaparecido, o terrorismo de esquerda continuou colaborando para justificar a repressão sobre a sociedade - e não para abrir o regime.
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A ampliação do autoritarismo após 1968 foi antecedida por instabilidades políticas e crises nas Forças Armadas. O ambiente de contestação se expressou na Frente Ampla e na derrota do governo no caso Moreira Alves, nas greves operárias em Osasco (SP) e Contagem (MG) e nas passeatas estudantis e protestos da classe média liderados pela esquerda.

A violência sempre foi cultivada pelos dirigentes militares, situando-se no centro da estratégia para consolidar o autoritarismo, cujo propósito era desmobilizar e despolitizar a sociedade e impor um modelo econômico que privilegiasse a rápida acumulação capitalista naquele contexto de Guerra Fria.

Típica bobagem retórica esquerdóide para fazer a cabeça de alunos de oitava série. Passemos adiante.

A escolha da força para obter obediência levou os órgãos de segurança a uma posição de destaque. Os órgãos da polícia política eram um dos núcleos centrais do poder. Destacava-se o SNI, comandado por generais do Exército, entre eles Golbery, o seu criador em 1964 e idealizador da distensão posteriormente executada por Geisel, chefe da Casa Militar de Castelo Branco, que negou a existência de abusos cometidos pelo regime e primeiro presidente a admitir, após deixar o cargo, a tortura como meio necessário para obter confissões.

Os dirigentes buscaram ampliar as bases do regime com a liberalização, pois, além da eficácia econômica dos anos 70, emergia o problema da legitimidade. A distensão/abertura estava condicionada à institucionalização de um regime pós-autoritário com restrições democráticas. A retirada das Forças Armadas implicava sua substituição por um esquema civil de confiança baseado no partido do governo, de modo a preservar os interesses institucionais dos militares.

Idem. Prossigamos.

Um bom exemplo é a Lei da Anistia, aprovada em 1979, que não permitiu a revisão das ações do aparelho militar, protegeu sua autonomia e reforçou o sentimento de impunidade das Forças Armadas. A sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão, a instituição militar não foi colocada em debate sobre os papéis que vinha desempenhando na política e a opinião pública não discutiu os valores necessários à construção de uma democracia.

Independentemente da discussão sobre a justeza ou não da Lei de Anistia, o fato é que ela perdoou os crimes cometidos pelos dois lados, tanto da repressão como da luta armada. A impunidade, portanto, não foi unilateral. Não sei de onde os autores retiraram a afirmação de que "a sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão" - a quantidade de livros, artigos e depoimentos que citam os torturadores nominalmente, e os métodos da repressão política, são suficientes para, enfileirados, dar uma volta completa na Terra. Os nomes dos torturadores, e seus métodos, até mesmo pela hegemonização da História do período militar pela esquerda acadêmica, são de todos conhecidos. Ao contrário de muitas ações da esquerda armada no período, como os chamados "justiçamentos" - o assassinato a sangue-frio de militantes por seus próprios companheiros de luta armada, por simples suspeita de traição -, sobre os quais, até o momento, a esquerda prefere manter um silêncio de pedra. Do mesmo modo, a instituição militar, por causa dessa propaganda, jamais foi tão denegrida e vilipendiada. Concordo apenas com a última frase: de fato, a sociedade não discutiu os valores necessários à construção da democracia. Isso porque esse debate vem sendo monopolizado, há uns trinta anos, pela esquerda, que de democrática tem muito pouco, como a luta armada.

Todas as formas de luta contra a ditadura devem ser vistas como um direito legítimo contra a opressão política. Até Locke, o mais liberal dos liberais e um dos inspiradores das revoluções americana e francesa, sustenta que o povo tem o direito à resistência quando o Estado usa a força sem direito e sem justiça.

Todas as formas? Têm certeza? Inclusive o terrorismo? Inclusive fazer em pedaços o corpo de um recruta de 19 anos na explosão de um carro-bomba? Inclusive esfacelar a coronhadas o crânio de um tenente da PM capturado após render-se? Inclusive exterminar, a queima-roupa, um militar norte-americano pelo único crime de ele ser militar e norte-americano? Que vínculo existe entre esses atos de terror ensandecido e a volta das liberdades democráticas no Brasil?

Uma das teses preferidas da intelligentsia esquerdista é que a luta armada serviu para demonstrar a insatisfação da sociedade com a ditadura. A tese é furada, em primeiro lugar, porque a sociedade, pelo menos até o fim do "milagre" econômico, em meados dos anos 70, não estava descontente com o regime coisa nenhuma. Pelo contrário: embalada pelos altos índices de desenvolvimento econômico, ela, sobretudo a classe média, aplaudia a ditadura. O presidente Médici, por exemplo, era extremamente popular. Por isso que a luta armada não passou de uma luta isolada, sem apoio da população. Foi por isso, também, que a sociedade buscou outras formas de resistência ao arbítrio dos militares, todas legais, como bem explica Marco Antonio Villa. Desde quando explodir bombas e seqüestrar diplomatas estrangeiros era a única forma de expressar essa insatisfação, aliás inexistente? A luta armada não se fez sob a égide de Locke ou de qualquer outro pensador liberal. Seus referenciais eram outros: eram Lênin, Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro.

Alegar que a redemocratização teria alguma relação com a luta armada já é de uma desonestidade sem tamanho. Tentar usar Locke para justificar uma luta que era pela implantação, nestas terras, de uma ditadura totalitária, é simplesmente demais. Não tem nem como qualificar isso. É cascata da grossa. Pura safadeza.

As regras não eram legítimas, como hoje são as da democracia, reconquistada após os projetos dos militares serem derrotados no campo institucional, a partir da pressão de uma ampla mobilização de oposição que se formou entre 1974 e 1985 e da qual participaram os grupos de esquerda.

O fato de as regras políticas não serem legítimas em um regime autoritário não diz nada a favor dos que quiseram substituí-lo não pela democracia, mas por uma ditadura totalitária. Os próprios autores se contradizem, ao reconhecerem que a derrota da ditadura ocorreu no campo institucional, e não por qualquer outra via. Admitem que a mobilização da oposição que teria posto fim à ditadura ocorreu entre 1974 e 1985, o que é inegável. Justamente no período em que a luta armada já havia sido dizimada, não tendo, portanto, capacidade alguma de influir no processo político. Como, então, dizer que a luta armada teve, como uma de suas "consequências não-intencionais", o fim da ditadura?
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Esse é o método dos esquerdistas: baseiam-se em verdades para propagar mentiras. Baseiam-se no fato de que o Brasil vivia um regime autoritário (verdade) para dizer que todos que se opunham aos militares eram democratas (mentira). Daí, defendem que a luta armada, por ser contra a ditadura militar (verdade), era, no fundo, democrática (mentira). Com isso pretendem aparecer como os campeões da liberdade e da democracia, tolhendo o debate e rotulando qualquer um que denuncie suas imposturas, como Marco Antonio Villa, como um defensor da ditadura e do autoritarismo. Não conheço nada mais desonesto do que isso.

Se a esquerda reconhece os equívocos da luta armada após 1968, a ela não devem ser atribuídas certas responsabilidades políticas cujo objetivo primeiro é enfraquecê-la moralmente como aliada do atual governo.

Falso. O próprio texto é uma demonstração de que a esquerda - pelo menos a fração da esquerda nostálgica da guerrilha - não reconhece os equívocos do passado ("só" equívocos? não seriam crimes?). Pelo contrário: os enaltece e os reivindica.
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Restabelecer a verdade dos fatos, e não reforçar velhos mitos revolucionários, é uma questão de honestidade intelectual, e não de enfraquecer moralmente os aliados do atual governo. Até porque, convenhamos, este mesmo trata de criar, diariamente, farto material para se desmoralizar a si próprio.
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E, para isso, não precisa da ajuda de nenhum historiador.

Falácias sobre os "anos de chumbo" no Brasil

O texto a seguir, de autoria do historiador Marco Antonio Villa, foi publicado em 19/05/2008 na Folha de S. Paulo. Transcrevo-o na íntegra. No próximo post, vocês vão entender por quê.

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MARCO ANTONIO VILLA
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Militantes de grupos de luta armada criaram um discurso eficaz. Quem questiona "vira" adepto da ditadura. Assim, evitam o debate
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A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
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Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
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O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva. Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.
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Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
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Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
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Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
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Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
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Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo. O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
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O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão. Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
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MARCO ANTONIO VILLA, 51, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor, entre outros livros, de "Jango, um perfil".