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sábado, maio 25, 2013

OS QUE SE ORGULHAM E OS QUE NEGAM


Quando foi criada, a assim chamada "Comissão da Verdade" foi bastante criticada por alguns jornalistas e historiadores não-alinhados com o projeto de poder lulopetista. Disseram, então, que a coisa seria uma inutilidade, um desperdício de dinheiro público. Mais que isso: seria uma tentativa de revanche, dirigida para rever a Lei de Anistia. Uma grande bobagem a serviço de interesses ideológicos, enfim.

Também compartilhei desse ponto de vista, e inclusive escrevi alguns textos a respeito. Neles, busquei mostrar que a Comissão - da qual, estranhamente, não faz parte nenhum historiador - não passaria de uma omissão da verdade, uma forma de escamotear os crimes da esquerda para impor a memória seletiva dos fatos e uma versão ideologicamente conveniente. Uma óbvia empulhação, destinada a reescrever cinicamente a História para que se adapte à propaganda esquerdista.  

Pois bem, faço aqui um mea culpa. Eu estava (parcialmente) enganado. Mais de um ano após sua criação, não é que a tal comissão mostrou que tem alguma utilidade? Vejamos.

Há alguns dias, falou perante a Comissão em Brasília o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. Na verdade, "falou" é maneira de dizer. Ele estava lá para depor, ou melhor, para ser massacrado por seus interrogadores, cumprindo o papel de homem mau, de rosto do porão da ditadura. Comandante do temido DOI-COI do II Exército em São Paulo entre 1970 e 1974, o período mais duro dos chamados "anos de chumbo" no Brasil, quando era então major, Ustra é acusado de ter ordenado e participado pessoalmente de torturas e assassinatos de vários militantes de esquerda. Um dos que passou por suas mãos, hoje vereador, estava presente em seu depoimento para apontar-lhe o dedo e chamá-lo de torturador, assassino etc.  Ustra, mesmo protegido por uma liminar que lhe dava o direito de permanecer calado, confrontou seus acusadores. Entregou-lhes, inclusive, um livro que escreveu, A Verdade Sufocada, no qual conta sua versão da História (o que inclui numerosos fatos que a esquerda gostaria que fossem esquecidos). Aproveitou para lembrar que a atual presidente da República participou de várias organizações terroristas (o que é, diga-se, um fato). Como esperado, houve bate-boca. Um verdadeiro circo, que logo desandou para o grotesco e o ridículo.

Se houve algo que o depoimento de Ustra comprovou é que a Comissão da Verdade, de "da Verdade", não tem nada. Desde o início, ficou clara sua finalidade revanchista: seus integrantes não perdem a chance de lembrar que querem rever a Lei de Anistia para punir os agentes da repressão - e somente estes. Além disso, o objetivo irrealista a que se propôs - investigar as violações dos direitos humanos ocorridas no Brasil de 1946 a 1988 - fez com que ela, previsivelmente, caísse na irrelevância, o que seus membros tentam compensar apelando para a criação de factóides. A "convocação" de Ustra para depor veio comprovar tal fato.

Paradoxalmente, isso já serviu para alguma coisa: desmascarar o caráter parcial e revanchista de tal iniciativa, que, a pretexto do repúdio a torturas passadas, visa, na verdade, a atender a interesses inconfessáveis do presente (José Dirceu e José Genoíno que o digam...). Mas os membros da comissão, ao convocar Ustra para depor, sem querer lhe deram ainda outra finalidade.    

Ustra é um torturador. Ou ex-torturador, como queiram. Seus crimes, que incluem, além de tortura, assassinatos e desaparecimentos, são por demais conhecidos e estão por demais documentados para serem ignorados. Mesmo assim - e aqui entro na questão central deste texto -, seu depoimento foi importante, principalmente por um detalhe: ele negou cada acusação que lhe foi feita. Negou que tenha torturado algum prisioneiro. Negou que tenha assassinado alguém. Negou, apesar da montanha de evidências em contrário, que o DOI-CODI era um centro de torturas. Negou que os militantes presos eram trucidados no pau-de-arara e na cadeira-do-dragão. Enfim, negou. Negou tudo.   

Chamo a atenção para esse fato - a recusa pertinaz de Ustra em admitir o que fez. Trata-se de algo da maior importância, que faz toda a diferença para o tema de que estamos tratando. Por quê? Porque, visto em comparação com o que dizem os remanescentes da esquerda armada, que praticaram atos de terrorismo como assassinatos ("justiçamentos"), sequestros e assaltos a banco, tal fato revela uma diferença fundamental entre os dois lados da disputa ideológica no Brasil de quarenta e tantos anos atrás. Ustra nega ter cometido qualquer delito. Já os ex-terroristas que ele combateu não somente não negam, como - notem bem! - se orgulham do que fizeram.   

Em outras palavras: Ustra, um ex-torturador, sabe que tortura, assassinato e ocultação de cadáver são crimes terríveis, e por isso nega tê-los cometido. Em seu íntimo, ele sente vergonha pelo que fez. Bem diferente de seus inimigos, que sentem não vergonha, mas orgulho de terem matado e ferido pessoas, muitas delas inocentes. Tanto que, não contentes em vangloriar-se por tais atos de barbárie, fazem questão de falsificar a História, tratando como "luta pela democracia" o que era, na verdade, a tentativa de instaurar, pela força das armas, uma ditadura marxista no Brasil. É isso o que faz, por exemplo, Dilma Vana Rousseff sempre que se pronuncia sobre o assunto.

Desse modo, os ex-militantes da esquerda armada (muitos dos quais, aliás, não abandonaram a militância) rejeitam qualquer sentimento de vergonha, emprestando ares heróicos a uma luta que foi, em essência, antidemocrática. Ao contrário dos ex-agentes da repressão, que ou se escondem ou, como Ustra, negam o que fizeram. Estes últimos, pelo menos, têm consciência de que tortura é algo moralmente errado e inaceitável. Os ex-terroristas, por sua vez, não demonstram qualquer sinal de arrependimento. Para eles, todos os meios - matar, sequestrar, jogar bombas, arrebentar a coronhadas o crânio de um prisioneiro - eram válidos para alcançar a revolução socialista. Mais que válidos, tais métodos eram louváveis. Revelam, assim, não possuírem qualquer senso moral. E ainda posam de democratas, exigindo ser - e são! - indenizados pelo Erário...

Essa diferença fica ainda mais marcante quando se compara a natureza dos regimes políticos pelos quais cada lado se batia. Como sabe qualquer pessoa que já leu algum documento de qualquer organização terrorista de esquerda atuante no Brasil de 1961 a 1979, o modelo da luta armada não era a Suécia ou a Dinamarca, mas países como Cuba, China ou a Coréia do Norte. Ou seja: ditaduras totalitárias, de partido único. Já a ditadura militar brasileira era um regime autoritário, que se auto-intitulava "de exceção", e chegou ao fim há mais de 25 anos. Bem diferente da ditadura comunista cubana, que já dura 54 anos, sem dar qualquer sinal de que vai acabar um dia (já tinha cinco anos de existência quando os militares derrubaram o governo de João Goulart, em 1964, e 26 quando o regime militar chegou ao fim, em 1985). Sem contar o número de mortos de cada lado: em Cuba, foram cerca de 17 mil fuzilados até agora (além de uma quantidade incontável de afogados ao tentar fugir da ilha-prisão, o que pode elevar o número de vítimas do castrismo para estratosféricos 100 mil cadáveres). No Brasil, foram 424 mortos pelos órgãos de segurança da ditadura militar (muitos deles, em tiroteios com agentes da repressão). Não são números que devem ser desprezados. Tampouco o objetivo dos militares de impedir que o Brasil se transformasse numa nova Cuba parece ter sido mero delírio ou paranóia (ao contrário do alegado caráter democrático da luta armada, na verdade um mito criado pela esquerda).

Ao negar fatos sobejamente conhecidos, Ustra certamente mentiu, mas demonstrou, pelo menos, algum resquício de vergonha. Colocou-se, assim, um degrau acima de seus acusadores na escala de valores da humanidade. Demonstrou, portanto, superioridade moral em relação aos ex-terroristas.  Com isso, a Comissão da Verdade, de forma involuntária, prestou um serviço ao esclarecimento da verdade histórica. Por vias tortas, já justificou sua existência.

sexta-feira, abril 06, 2012

OS FALSOS TOLERANTES

Na foto acima, o momento em que um grupo de democratas e progressistas da esquerda argumenta com militares aposentados sobre o movimento de 1964, em frente ao Clube Militar no Rio de Janeiro: notem o alto nível do debate, o amor à democracia, a tolerância...

Há alguns dias, dois tarados foram presos no Sul por usarem a internet para incitar o ódio - racial, sexual, ideológico etc. - contra estudantes da UnB. Em mensagens explícitas, pregavam (e, parece, planejavam) um massacre no local. A polícia investiga, inclusive, se eles tinham algum tipo de relação com o assassino de 12 crianças no ano passado numa escola em Realengo, no Rio de Janeiro.

Nem precisa ir muito longe para perceber que se trata de dois imbecis, dois débeis mentais, que merecem mofar na cadeia ou numa instituição psiquiátrica. Mas a esquerda - sempre ela! - insiste em faturar em cima desse tipo de coisa. Aqui e ali aparece algum espertinho afirmando que os dois malucos seriam representantes da "direita", seja lá o que isso signifique no Brasil - país onde, como se sabe, todos são esquerdistas (é o mesmo tipo de gente que chama quem discorda deles de "proto-fascista", por aí se vê...).

Não é a primeira vez, e - podem anotar - não será a última, que casos como esse serão usados e abusados pelo pessoal da sinistra para promover uma empulhação. Basta lembrar, para citar um exemplo recente, de Anders B. Breivik, o assassino serial da Noruega apresentado como "extremista de direita" que, em seus delírios megalômanos, misturava Cavaleiros Templários com militância pró-gay (e que, descobriu-se depois, tinha feito treinamento militar na Rússia, mas isso também foi abafado). Outro caso, este mais recente, foi o do soldado americano que, num surto de loucura, chacinou 16 civis no Afeganistão. Ninguém parece se importar muito com o fato de que ele está preso e corre sério risco de ser sentenciado à morte - o importante, para fins propagandísticos, é que era um "imperialista ianque" matando mulheres e crianças indefesas. E a verdade? Ora, a verdade...

Em todos esses casos, o que menos importa para os esquerdóides e arautos do politicamente correto (o novo nome para a velha "linha justa" dos partidos comunistas) são os fatos. O importante, o que realmente os leva a escrever o que escrevem e a dizer o que dizem, é o "gancho" para destilar sua idiotia ideológica, ora tácita, ora escancarada.  E nisso eles são insuperáveis.

Para que os intelectualóides que, num laivo provavelmente masoquista, gostam de fustigar o capitalismo e o Ocidente, fossem considerados tolerantes seria necessário, em primeiro lugar, que viessem a público renegar o marxismo, uma ideologia genocida por natureza. Seria preciso que condenassem, de forma clara e sem meias palavras, o comunismo - o regime mais assassino da História, perto do qual o Terceiro Reich era uma confraria de amadores. 

Apresentam a realidade como se houvesse um bando de skinheads ou de tropas das SA espreitando em cada esquina, falando em "renascimento do fascismo" etc. e tal, mas se esquecem (será que é esquecimento mesmo?) que nazismo e comunismo foram ALIADOS antes de serem inimigos (já ouviram falar no pacto Molotov-Ribbentrop de 1939?).

Além disso, como considerar tolerante quem se recusa a dizer uma palavra sobre os presos políticos na ilha-prisão de Cuba? Ou sobre os enforcamentos de opositores no Irã? 

E quanto ao terrorismo islamita: quando vão parar de atacar Israel e de se colocar, na prática, ao lado dos genocidas do Hamas e do Hezbollah, verdadeiros - aqui sim o termo se aplica - fascistas islâmicos?  

Quando vão parar de tentar achar desculpas e "explicações" para atentados terroristas como os cometidos por Mohammed Merah na França (que já está sendo considerado uma "vítima", vejam só...)?  

Eis a verdade inconveniente, que os esquerdistas fazem de tudo para esconder: eles e seus simpatizantes não têm o direito de abrir a boca para falar em tolerância. Não enquanto continuarem silenciando sobre regimes totalitários e criminosos genocidas.

Para que tivessem esse direito, deveriam primeiro se livrar do ranço ideológico que os faz bater palmas ou ficar indiferentes à falta de liberdade em países como Cuba. Deveriam, antes de mais nada, adotar uma postura clara de defesa da democracia e dos direitos humanos como valores universais e inegociáveis. Em vez disso, enchem-se de indignação contra ditaduras passadas, como a dos militares brasileiros ou a de Pinochet no Chile, mas não dizem uma palavra sobre a ditadura presente dos irmãos Castro (a não ser para pedir "equilíbrio" aos que a criticam...). 

Ainda por cima, aplaudem uma "comissão da verdade" feita por revanchistas que querem rasgar a Lei de Anistia e punir os que os perseguiram, enquanto escondem deliberadamente os crimes da esquerda armada, repetindo a mentira de que os "guerrilheiros" não eram terroristas e lutavam por democracia. Não contentes, não vêem nenhum problema em um bando de fascistas de esquerda impedir, na base do sopapo e da cusparada, um debate - sim, um debate! - de militares reformados sobre 1964. E ainda falam em democracia!

Enquanto os "intelequituais" da esquerda aguada e pró-dilmista não tiverem a hombridade de admitirem o que está aí em cima, qualquer palavra deles sobre tolerância terá tanto valor quanto uma nota de 25 reais. São tão tolerantes quanto os que veneram e sobre os quais silenciam.
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E o pior é que esses mesmos adoradores do ódio e da morte, que NEGAM A PLURALIDADE, ainda fazem pose de "progressistas" e de "humanistas". É muita cara de pau!
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Tão nocivo quanto o militante esquerdopata e raivoso é o intelequitual da esquerda aguada e nenhumladista. Aliás, este último é pior, porque mais dissimulado e, portanto, mais desonesto. Para esse tipo de charlatão, assim como para todos os inimigos da democracia, não se deve ter nenhuma tolerância.

quarta-feira, maio 12, 2010

ANOS DE CHUMBO: DESMASCARANDO UMA IMPOSTURA HISTÓRICA




O texto a seguir é bem longo. Mas não poderia ser diferente. Conto com a paciência do leitor.

A propósito: desafio qualquer intelectual de esquerda, inclusive o autor do texto que analiso, a provar que o que digo em seguida não é verdade. Está lançado o desafio.


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Tenho o costume – alguns diriam o mau hábito – de ler o que os esquerdistas escrevem. A tarefa é árdua, sei bem, mas pode ser bem instrutiva. Um dos textos que li e que me chamou a atenção nesses dias foi do Professor Vladimir Safatle, do Departamento de Filosofia da USP. O título do artigo é “Do uso da violência contra o Estado ilegal”, e está numa coletânea organizada por Edson Teles e pelo próprio Vladimir Safatle, O que resta da ditadura (São Paulo: Boitempo, 2010, páginas 237-252). Resolvi analisar o texto, pois percebi que muitos dos, digamos, argumentos utilizados pela esquerda brasileira para justificar uma certa visão – infelizmente, bastante difundida – sobre a História brasileira recente encontram-se lá.
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O autor inicia o texto com uma epígrafe retirada do romance 1984, de George Orwell – “Ele expulsou a cena da memória. Era uma lembrança falsa” –, que não poderia ser mais inadequada. A citação de Orwell faz referência à prática costumeira nos regimes totalitários de apagar fatos considerados inconvenientes ao poder. E é exatamente isso que o texto faz, ao criticar o “apagamento da História” pelos militares brasileiros, apenas para apagar, ele mesmo, a parte da História que não convém lembrar à esquerda.
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Já no começo, Safatle usa um exemplo que remete à Lei de Godwin – aquela que diz que, quando se acusa alguém de nazista, é porque já não é mais possível qualquer debate. Ele menciona Auschwitz e os nazistas para condenar aquilo que chama de “desejo de desaparecimento” que estaria presente na Lei de Anistia de 1979, que perdoou ambos os lados dos “anos de chumbo” no Brasil. Ele considera que esse processo de manipulação dos fatos está no cerne “de todo totalitarismo” etc.


À parte o uso equivocado, para dizer o mínimo, do conceito de totalitarismo aplicado à realidade política do regime militar brasileiro – regime que pode ser considerado autoritário, mas não totalitário, como pode constatar facilmente qualquer estudante de Ciência Política ainda não contaminado pelo vírus do marxismo vulgar –, Safatle ignora, em todo o texto, as ações praticadas pela esquerda terrorista no período. Ele nega mesmo essa definição, “terrorismo”, atribuindo-a a uma designação dos militares, e não aos fatos. Os termos “subversivo” e “terrorista”, longe de se referirem a atos concretos, seriam apenas o produto da manipulação semântica daqueles que detêm a soberania (ou seja, o poder). Assim, citando autores como Carl Schmitt, ele considera um uso extensivo e pouco rigoroso do termo em um contexto inacreditável chamar-se, por exemplo, de terroristas os integrantes do MST, ignorando as ações e o culto à violência revolucionária desse movimento pretensamente social, que recebe dinheiro do Estado para invadir e depredar propriedades e intimidar pessoas. .

A idéia central do texto de Safatle é que o Estado surgido após 1964 no Brasil, e que perdurou até 1985, era ilegal e, portanto, a luta contra ele era necessariamente legal e uma forma de resistência democrática. É nesse sentido que ele aborda a questão dos desaparecidos políticos, cujo não-reconhecimento pelo Estado, ou a não punição dos torturadores e assassinos, equivaleria a uma segunda morte: “o Estado deixa de ter qualquer legitimidade quando mata pela segunda vez aqueles que foram mortos fisicamente”, diz ele, esquecendo-se, aparentemente, de que tal processo de assassinato/desaparecimento/esquecimento foi levado às últimas conseqüências nos países socialistas como a ex-URSS e também pelos militantes da luta armada no Brasil.

Após criticar o que seria o pouco rigor conceitual no trato de termos como “terrorista” aplicado aos revolucionários do MST, Safatle não revela qualquer pejo em associar a ditadura militar brasileira ao nazismo, afirmando que “algo de fundamental do projeto nazista e de todo e qualquer totalitarismo alcançou sua realização plena na América do Sul”. Tal associação, se pode ter algum sentido no caso da Argentina, perde completamente a razão de ser no caso brasileiro. Não somente pelo fato – ignorado por Safatle – de que o conceito de totalitarismo (e, por extensão, de nazismo, uma de suas variantes) é inseparável da idéia do Partido-Estado (o regime de 64, ao contrário, extinguiu os partidos políticos), mas sobretudo porque os militares agiram para impedir a transformação do Brasil num Estado totalitário de corte socialista ou soviético. Algo que nem mesmo historiadores marxistas, como Jacob Gorender, ousam negar.

Depois de identificar o regime de 64 com o totalitarismo nazista, Safatle lança suas baterias contra a Lei de Anistia, comparando a situação brasileira ao que aconteceu na Argentina e no Chile, onde os generais foram julgados e condenados. Ele parece se esquecer de que, nesses países, terroristas de esquerda que lutaram contra o regime também tiveram o mesmo destino que os militares. É aqui aonde ele quer chegar: o que ele quer é que somente os crimes de um lado, “da direita”, sejam condenados.

Para ele, “o único país que realizou de maneira bem-sucedida as palavras dos carrascos nazistas foi o Brasil”. E isso porque, no Brasil, houve anistia, que beneficiou igualmente quem torturou e quem pegou em armas contra o regime. Em outras palavras: para Safatle, a anistia, uma conquista da sociedade brasileira, resultado de longa negociação política para viabilizar a redemocratização do País, é uma causa... nazista!

*

Rejeitando categoricamente a idéia de que “toda violência se equivale”, Safatle rejeita a tese de que o esquecimento dos “excessos” do passado é o preço a ser pago para garantir a estabilidade democrática. O problema é que os “excessos” que ele não quer que sejam esquecidos são os praticados pelos agentes do regime militar, e somente esses, como se a violência política tivesse vindo de uma única fonte. É como se a luta armada contra o regime militar simplesmente não tivesse existido. O que revela um forte traço de esquecimento de sua própria parte – no caso, dos “excessos” e violências da esquerda armada. Ao se referir unicamente à “amnésia sistemática em relação a crimes de um Estado ilegal”, ele acaba incorrendo na amnésia sistemática em relação aos crimes cometidos pela esquerda armada. Ele é, enfim, um membro do “Partido da Amnésia” que ele critica, apenas com o sinal ideológico invertido.

Ao analisar dois argumentos contraditórios utilizados por alguns defensores do regime militar – “não houve tortura” e “houve tortura e assassinato, mas era uma guerra” – Safatle acaba caindo, ele mesmo, numa série de contradições, resultantes, em parte, de desconhecimento dos fatos históricos. Primeiro, ele agride a verdade quando diz que a idéia de que os militares tomaram o poder de forma preventiva contra um Estado comunista que estava sendo posto em marcha com a complacência de João Goulart é “um claro revisionismo histórico delirante”. (Os próprios comunistas, como o já citado Jacob Gorender, deveriam, portanto, ser acusados de revisionistas históricos delirantes[1].) Em seguida, envereda num debate jurídico com o Supremo Tribunal Federal, que recentemente decidiu pela não revisão (ou não “modificação de interpretação”, como diz Safatle) da Lei de Anistia. Ele se refere à Lei n. 6.683, em que se lê: “Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal”, concluindo que, como esses crimes nunca foram objeto de anistia, os militares que os cometeram não podem ser anistiados, sequer na lei que eles mesmos se “autoconcederam” (o que é errado: a Anistia foi negociada com a sociedade). A conclusão é a seguinte: somente os delitos praticados pelos militares e agentes da repressão configuram “terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal”. Quanto aos que a esquerda cometeu, nenhuma palavra.

Em sua crítica ao STF, Safatle ataca um dos expoentes da “ala conservadora” do tribunal, que, a fim de justificar que, caso militares fossem julgados, antigos membros da luta armada deveriam ter o mesmo destino (como se não fosse, precisamente, o caso), “chegou ao limite”, afirma ele, de invocar o artigo 5, inciso 44, da Constituição Federal, que diz o seguinte: “Constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis e militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático”. Seu argumento é que o regime de 64 era um Estado ilegal, logo a luta armada contra ele não pode ser colocada no mesmo patamar do terrorismo contra um Estado democrático. Aparentemente, ele tem razão, mas se esquece de um detalhe: a luta armada dos anos 60 e 70 não era uma luta pelo restabelecimento da ordem constitucional e democrática (veremos isso mais adiante). Também esquece que já existia guerrilha no Brasil antes de 1964 (retomarei esse ponto).

Safatle afirma que o Brasil é o único país onde a Anistia serve para acobertar “crimes contra a humanidade, como o terrorismo de Estado [e o terrorismo de esquerda não é terrorismo?], a tortura [militantes de esquerda também torturaram prisioneiros] e a ocultação de cadáveres [idem], o único país onde as Forças Armadas não fizeram um mea-culpa sobre o regime militar [e por que deveriam? os militares deixaram o poder muito bem avaliados pela população em geral; além disso, somente uma parcela ínfima dos militares esteve diretamente envolvida na repressão política], onde os corpos de desaparecidos ainda não foram identificados porque o Exército teima em não dar informações [o Exército está subordinado ao Presidente da República; logo, se informações não são divulgadas sobre onde estão os restos mortais dos desaparecidos – os “arquivos da ditadura” –, isso se deve à incapacidade, ou à má vontade, do governo]”. Isso explica por que ele acha absurdo o STF decidir que, caso a anistia a um lado seja suspensa, o outro lado – os militantes da luta armada – deveriam também ser condenados. É que, para Safatle, terrorismo de esquerda não é terrorismo, e tortura de esquerda não é tortura.

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Não contente em tentar “reinterpretar” a Lei a seu talante, por um critério ideológico, Safatle avança sobre a História. Ao tentar rebater o que até as paredes do STF já sabem – que “os dois lados têm crimes contra a humanidade” –, ele pergunta: “qual o caso de tortura feito por ‘terroristas’?” Eu poderia citar os seqüestros de diplomatas estrangeiros, ou as ameaças a inocentes civis em filas de banco durante “expropriações revolucionárias”, ou o adolescente retalhado pelos guerrilheiros do PCdoB no Araguaia, mas acho que isso não iria fazer diferença para Safatle. Para ele, chamar os seqüestros de crimes contra a humanidade é um “argumento de circunstância”, pois crimes contra a humanidade são aqueles “praticados pelo Estado contra seus cidadãos”. (Segundo esse raciocínio, os assassinatos de judeus poloneses ou bielorrussos por alemães durante a Segunda Guerra não foram crimes contra a humanidade, pois afinal não se tratava de cidadãos alemães assassinados pelo Estado alemão...) Sem falar que sua afirmação de que o seqüestro do embaixador norte-americano no Brasil, Charles B. Elbrick, em 1969, não caracterizou tortura porque, ao ser solto, Elbrick “não procurou um hospital por algum tipo de seqüela”, tendo-se resumido a dizer: “Ser embaixador nem sempre é um mar de rosas”, prova tanto seu ponto de vista quanto afirmar que não houve tortura contra guerrilheiros porque eles, ao serem soltos, também não procuraram um hospital – alguns deles, mesmo, passaram-se para o lado da repressão após terem sido capturados. Isso prova que não houve tortura? (A propósito: não consta que ser guerrilheiro também fosse algum mar de rosas.) .

Safatle não economiza sofismas e meias-verdades para tentar convencer de seu argumento de que somente um lado cometeu crimes e que, portanto, a reciprocidade não vale no caso brasileiro. Após agredir a História do Brasil, ele investe sobre a de outros países. No caso, a França do regime colaboracionista de Vichy (1940-1944). Ele pergunta: “por que o Tribunal de Nuremberg não condenou os resistentes franceses contra o governo de Vichy?” Eu poderia responder: pelo mesmo motivo por que os pilotos de bombardeiros aliados que destruíram as cidades alemãs ou japonesas não foram condenados após a guerra. Mas prefiro essa outra explicação: porque os maquis franceses, ao contrário dos “guerrilheiros” brasileiros, argentinos ou chilenos (assim como as FARC colombianas hoje) não lutaram para implantar uma ditadura comunista na França (embora houvesse comunistas em suas fileiras), mas para libertar o país da ocupação nazista e restaurar, numa frente com outras forças políticas, o regime democrático. (Aliás, vale lembrar: os comunistas franceses só se engajaram na resistência após 1941, quando Hitler invadiu a URSS - até então, eram aliados dos nazistas.) Mas isso para Safatle não tem importância: o que vale para ele é que o princípio jurídico adotado no caso de Vichy consistiu em dizer que “a violência sistemática do Estado contra o cidadão em hipótese alguma equivale à violência do cidadão [sic] contra um Estado ilegal e seus aliados”. Como se 1) a violência do regime de 64 no Brasil tivesse sido “contra o cidadão”, e não contra grupos organizados que se opunham ao regime com armas na mão; e 2) como se a violência terrorista, que visava a derrubar o regime vigente para substituí-lo por uma forma de ditadura socialista, fosse a “do cidadão” contra um “Estado ilegal”. Não foi.

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Como se não bastassem a má utilização dos conceitos e os erros e omissões históricas, Safatle insiste num argumento que só pode ser interpretado como má-fé ideológica: a fim de justificar o terrorismo de esquerda dos anos 60 e 70, ele menciona o “direito de resistência” presente na tradição política liberal, desde John Locke. Trata-se da mais pura impostura intelectual. Ele afirma que “essa [a luta armada dos anos 60/70 no Brasil] é uma batalha que não separa esquerda e liberais, mas que se fundamenta no reconhecimento de uma espécie de campo comum entre as duas posições”. E arremata: “toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal”. (grifo dele)

O argumento é falacioso, por duas razões. Primeiro, pela instrumentalização da tradição liberal para justificar uma luta que visava, em última instância, à implantação de um regime totalitário, de perfil socialista ou comunista – o exato oposto do liberalismo. Segundo, porque os terroristas brasileiros não buscaram, em momento algum, formar uma frente única com setores liberais de oposição legal ao regime militar. Pelo contrário: como demonstra Elio Gaspari, a luta armada desprezava o apoio dos setores moderados da oposição, como o MDB de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães(2). Isso mostra, por si só, como os objetivos da luta armada e da oposição legal ao regime militar eram diferentes (eu diria mesmo incompatíveis).

Safatle afirma ainda que, “do ponto de vista estritamente jurídico-normativo, o regime militar brasileiro era mais ilegal que o Estado nazista alemão”. Ele tem certa razão nesse ponto: afinal, Hitler foi eleito democraticamente, ao contrário dos militares. Mas isso não muda a essência da questão. Afinal, Fidel Castro também não foi eleito por ninguém, e nesse sentido o regime cubano também é mais ilegal do que o de Hitler. Hugo Chávez, por sua vez, foi eleito democraticamente, e no entanto comanda um regime que caminha gradativamente para tornar-se uma ditadura. Além do mais, desde quando a luta armada no Brasil se orientou por considerações jurídico-normativas?

Safatle afirma uma grande verdade quando diz que “um governo só é legítimo quando se funda sobre a vontade soberana de um povo livre para fazer valer a multiplicidade de interpretações a respeito da própria noção de ‘liberdade’. Um governo marcado por eliminação de partidos, atemorização sistemática de setores organizados da sociedade civil, censura, eleições de fachada marcadas por casuísmos infinitos, além de assassinato e exílio de adversários como política de Estado certamente não cabe neste caso”. Poucas vezes li definição mais precisa do que é e como funciona um regime totalitário, como o nazismo e o comunismo (que a esquerda armada pretendia emular no Brasil – o que demonstra a inexistência de qualquer compromisso democrático por parte dos “guerrilheiros”). Praticamente, Safatle corrobora o que certa vez disse Roberto Campos, refletindo sobre o que ocorreria caso a luta armada fosse vitoriosa no Brasil: “Em vez de anos de chumbo, teríamos rios de sangue”. Provavelmente por isso, ele tem a precaução de ressalvar o seguinte: “diga-se de passagem, isto vale tanto para ditaduras de direita quanto para revoluções populares em estado de degenerescência, regimes totalitários burocráticos ou despotismo oriental travestido de esquerda”. Se você trocar o que está acima por “ditaduras comunistas”, acertará na mosca. Mas Safatle não pode dizer isso: em vez de chamar as coisas pelo nome, ele prefere fórmulas evasivas como "revolucões populares em estado de degenerescência", "regimes totalitários burocráticos" ou "despotismo oriental travestido [sic] de esquerda". Ele faz parte da legião de marxistas acadêmicos que ainda insistem, contra a própria História, que o “ideal socialista” é puro e imaculado; apenas os homens não estão à altura dele...

Insistindo na identificação do direito de resistência do cidadão com a luta armada para implantar o comunismo no Brasil, o que o leva até mesmo a invocar a Declaração de Independência dos EUA (!) para justificar a violência terrorista de esquerda, Safatle escreve: “o direito fundamental de todo cidadão é o direito à rebelião [para acabar com as liberdades e implantar o comunismo?]. Quando o Estado se transforma em Estado ilegal, a resistência por todos os meios é um direito [por todos os meios? assassinato de inocentes, inclusive?]. Neste sentido, eliminar o direito à violência contra uma situação ilegal gerida pelo Estado significa retirar o fundamento substantivo da democracia” [e por acaso os terroristas queriam democracia? qual documento de organização armada de esquerda fala em restaurar as liberdades democráticas? Lamarca e Mariguella, democratas?].

Em uma nota de rodapé, Safatle admite que o caso brasileiro não pode ser colocado no mesmo nível do terrorismo de grupos como Brigadas Vermelhas, Baader-Meinhof, PAC etc., que ensangüentou a Alemanha e a Itália nos anos 70 (e que tiveram no Minimanual do guerrilheiro urbano escrito por Carlos Mariguella sua obra de referência). Seu argumento é que as ações no Brasil foram contra um Estado ilegal, enquanto a Alemanha e a Itália eram países democráticos. Ele está certo nesse último ponto, no qual se distancia da posição oficial do governo brasileiro, via Tarso Genro (caso Cesare Battisti). Mas, como sempre, comete uma meia-verdade, quando nega que os terroristas brasileiros, embora lutassem contra um “Estado ilegal”, desejavam implantar outro Estado ilegal. Sem perder o cacoete esquerdista, ele atribui à tentativa de confundir as duas lutas, a dos terroristas brasileiros e a dos terroristas europeus, a “setores conservadores”. Ele chega a cometer erros factuais crassos, que só podem ser creditados à ignorância em relação à História. É somente isso que explica sua afirmação de que “nenhum grupo armado brasileiro sequestrou aviões, implementou política de atemorização sistemática da população civil ou absurdos do gênero”.

A afirmação é totalmente falsa. Eis os fatos:

- De 1968 a 1972, houve oito seqüestros de aviões comerciais no Brasil por terroristas de esquerda – dois deles, em julho de 1970 e em maio de 1972, terminaram com a morte e/ou prisão dos seqüestradores em operações de resgate das Forças Armadas.

- Quanto à implementação de uma política de atemorização sistemática da população civil, basta folhear o Minimanual de Mariguella para constatar que esse era um objetivo da luta armada de esquerda: mediante ações ousadas, como explosão de bombas, seqüestros e assassinatos, os terroristas visavam a provocar uma reação autoritária do regime, que se abateria sobre toda a população, a qual, então, se colocaria do lado dos “guerrilheiros”. E isso através do clima de caos e de insegurança generalizada que as ações terroristas provocariam.

- Essa política de intimidação pelo terror foi implementada não somente contra a população civil – como no Araguaia, onde os guerrilheiros do PCdoB estabeleceram uma “zona liberada” maoísta, com suas próprias leis (inclusive pena de morte) –, mas contra os próprios militantes da luta armada suspeitos de traição ou que, por qualquer motivo, discordavam dos demais companheiros ou pretendiam abandonar a luta – os chamados “justiçamentos”, que Safatle prudentemente se omite de comentar.

Em um trecho, Safatle quase deixa transparecer o verdadeiro objetivo da luta armada que defende: “não devemos compreender a idéia fundamental deste direito à resistência simplesmente como o núcleo de defesa contra a dissolução dos conjuntos liberais de valores (direito à propriedade, afirmação do individualismo etc.)”. Ou seja: o “direito à resistência” invocado por Safatle, embora beba na fonte da tradição liberal, deve orientar-se para sua superação, isto é: para o socialismo ou o comunismo. Usa-se, assim, o liberalismo para negá-lo. Uma prática recorrente da esquerda, diga-se de passagem.

O mito da luta armada “pela democracia” está presente em trechos como este: “os jovens que entraram na luta armada aplicaram o direito mais elementar: o direito de levantar armas contra um Estado ilegal, fundado por meio da usurpação pura e simples do poder graças a um golpe de Estado e ao uso sistemático da violência estatal. Desconhecer este direito é, este sim, o ato totalitário por excelência”. Como se a finalidade da luta armada não fosse o estabelecimento de outro Estado ilegal, mil vezes mais autocrático do que a ditadura militar... E como se esse Estado sonhado pelos terroristas de esquerda não fosse a quintessência do totalitarismo(3).

Mas o essencial do texto de Safatle, de sua tese da legalidade intrínseca do terror contra um “Estado ilegal”, encontra-se no seguinte parágrafo:

“Neste sentido, não devemos tolerar o argumento de que nos países socialistas também havia terrorismo de Estado e era isto que a luta armada procurava implantar no Brasil. Os nazistas tentaram desqualificar seus oponentes como serviçais da ordem bolchevique. Galtieri, Videla, Contreras também tentaram. No entanto todos eles foram ou estão presos. O que mostra como o Brasil deve ser o único país no mundo [sic] onde este argumento vale. Pois o resto do mundo sabe que aqueles que lutam contra um Estado ilegal são vistos inicialmente como exercendo um direito maior que é o fundamento de toda democracia real: o direito de dizer ‘não’, nem que seja por meio das armas. Não é por outra razão que países como a França tratam comunistas que participaram da resistência, como Jean Cavaillès e Guy Moquet, como heróis nacionais”.

Primeiro: a existência de terrorismo de Estado nos países socialistas, assim como a intenção da luta armada de implantar isso no Brasil, não é um “argumento”: é um fato. Está abundamentemente comprovado por milhares de depoimentos, assim como por dezenas de documentos das organizações clandestinas de esquerda do período, bem como por suas ações.

Segundo: assim como os nazistas, os comunistas tentaram desqualificar seus oponentes – na verdade, ainda o fazem –, chamando-os de "fascistas", e isso não faz qualquer diferença para a questão em pauta.

Terceiro: assim como Galtieri, Videla e outros generais latino-americanos foram presos, terroristas de esquerda na Argentina e no Chile, como os Montoneros e os membros do MIR, também foram encarcerados, o que mostra a validade do princípio da reciprocidade.

Quarto: a que “resto do mundo” o autor se refere? Certamente, não a parte da humanidade que condena o terrorismo, seja que roupagem tiver – sobretudo se vier disfarçado de “resistência democrática” contra um Estado ilegal para instaurar, em lugar deste, o comunismo.

Quinto: É por esse motivo que a resistência francesa é louvada, mas os terroristas de esquerda latino-americanos, não (pelo menos pelos que têm a democracia em alta conta). Os comunistas franceses só são tratados como heróis porque participaram da resistência em frente com outras forças políticas, como os liberais e inclusive conservadores. Se não fosse o anticomunista general De Gaulle, que tomou a frente do movimento de resistência e impediu o Partido Comunista Francês de tomar o poder, a História seria diferente.

Em seguida, Safatle incorre em mais uma desinformação histórica:

“Devemos lembrar aqui de um dado claro e fundamental. Não havia luta armada de esquerda antes do golpe militar de 1964. Não há nenhum caso registrado de grupo guerrilheiro atuante antes do golpe”. (grifo dele)

E mais: “nenhum historiador até hoje indicou o registro de alguma forma qualquer de ação armada antes do golpe militar”.

Não sei por qual livro de História Safatle estudou o período pré-64 no Brasil. Certamente, ele jamais ouviu falar de Jacob Gorender, Daniel Aarão Reis Filho e Denise Rollemberg, além de Elio Gaspari, todos autores que esmiúçam o projeto guerrilheiro da esquerda anterior à tomada do poder pelos militares, como é comprovado pela existência de focos guerrilheiros das Ligas Camponesas de Francisco Julião, anos antes do golpe de 64. Ele provavelmente desconhece os Grupos dos Onze de Leonel Brizola, que tinham em A Guerra de Guerrilhas, pequeno manual subversivo de Che Guevara, sua obra de referência. Desconhece também o fato, amplamente conhecido, de que, já em 1961 – no governo de Jânio Quadros! –, militantes das Ligas Camponesas (organização antecessora do MST) tinham ido treinar guerrilha em Cuba, sob os auspícios de Fidel Castro. Assim como ignora, ou finge ignorar, que a luta armada jamais esteve ausente dos planos e da ação do Partido Comunista, mesmo em seu período semi-legal, como demonstra a eclosão de guerrilhas camponesas na região de Porecatu, no Paraná, na década de 50. Sem falar, obviamente, na quartelada de 1935, a chamada intentona comunista(4). Enfim, ele, Safatle, não sabe nada de História. Ou sabe, e por isso tenta reescrevê-la, como fazia Stálin.
*
É o desconhecimento dos fatos relacionados acima, assim como uma boa dose de desonestidade intelectual, o que explica o mito da luta armada como “resistência democrática”, que perpassa todo o texto de Safatle, e é retomado nesse trecho: “a luta armada esteve vinculada primeiramente à recusa legítima ao regime militar, ao caráter insuportável que ele adquiriu para vários setores da população nacional” (grifo dele). Mentira. A luta armada, como vimos, já surge em embrião antes de 1964, nas Ligas Camponesas e nos Grupos de Onze. O projeto guerrilheiro é anterior à ruptura constitucional de 64. As primeiras ações terroristas ocorrem em 1966 (atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, Recife), mais de dois anos antes do fechamento autoritário do AI-5, quando o regime militar ainda mantinha intactas várias liberdades políticas. Mesmo quando a repressão atingiu o auge, em 1969-1974, o conjunto da população nacional esteve muito longe de simpatizar com os guerrilheiros, que sempre estiveram isolados da sociedade (ao contrário, a popularidade do governo era altíssima). O que levou, primeiramente, à luta armada não foi a recusa legítima a um regime discricionário, nem a reação à falta de liberdades, mas a idéia da revolução socialista, presente na esquerda brasileira desde 1922, e que tomou impulso, no começo dos anos 60, após a Revolução Cubana.

Prossegue Safatle: “De toda forma, a multiplicidade política de trajetórias de ex-membros da luta armada (encontramos vários deles em partidos cujo espectro vai do Psol ao PSDB) mostra retrospectivamente como eles eram unidos principalmente pela recusa, e não pela partilha, de um projeto positivo claramente delimitado. Vale a pena insistir nesse ponto: o que unia todos os que entraram na luta armada não era um projeto comum, mas uma recusa comum”. O que o fato de alguns ex-militantes da luta armada terem aderido ao PSDB prova? Nada! Mostra apenas que alguns trocaram a revolução socialista pela social-democracia, enquanto outros (PSOL), nem isso (Aliás, Safatle fala como se o PSDB fosse um partido "de direita"...) Ora, na Alemanha, alguns terroristas do Baader-Meinhof ingressaram, depois, no Partido Verde. Outros, por sua vez, cerraram fileiras com os social-democratas. Isso torna menos terroristas suas ações do passado? A “recusa comum” de que fala Safatle era a recusa da democracia, o projeto socialista. Nada mais que isso.

Safatle cita os casos de pessoas “que absolutamente nada tinham a ver com grupos comunistas”, como Rubens Paiva e Vladimir Herzog, para tentar mostrar que o argumento central dos militares (“era uma guerra”) não tem validade, logo não há por que eles terem sido anistiados. Nesse caso, ele seria obrigado a reconhecer que os crimes da esquerda também não podem ficar impunes, pois afinal esta também assassinou inocentes, muitos deles simples transeuntes, sem qualquer vinculação político-partidária (o que não era o caso de Paiva e Herzog – este último, aliás, militava no Partido Comunista). O fato de haver vítimas inocentes de um lado não elimina a existência de vítimas inocentes de outro. Mais uma vez: ou se punem todos, ou não se pune ninguém.

(Aliás, é bom lembrar: as famílias das vítimas da repressão política no Brasil - e alguns nem tão vítimas assim - já foram regiamente indenizadas pelo Estado. E os que tombaram sob as balas e bombas da esquerda armada, quando receberão o mesmo tratamento de seus algozes?)

Ao final, Safatle faz uma análise meio lírica do governo João Goulart, que ele nega, contra todas as evidências históricas, ter sido um governo que caminhava para alguma forma de golpismo esquerdista, pois ele “demonstraria a viabilidade de uma esquerda, ao mesmo tempo, profundamente transformadora e capaz de assumir processos próprios às democracias parlamentares, modificando seu sentido ‘por dentro’” etc. Como se o estímulo oficial à quebra da disciplina e da hierarquia nas Forças Armadas, sem falar no apoio a um movimento revolucionário no campo, com o avanço de setores descompromissados com as liberdades em diversas áreas, fossem sinais de uma “verdadeira democracia”... Algo, aliás, em que muita gente no governo Lula acredita.
*
Textos como o de Vladimir Safatle demonstram que a luta pela memória dos “anos de chumbo” do regime militar ainda não acabou. Pelo contrário, a visão de esquerda, parcial e mistificadora, teima em se impor aos fatos, insistindo na revogação – ou na “reinterpretação”, como queiram – da Lei de Anistia, inclusive apelando para argumentos pseudo-humanitários e pseudo-humanistas.

Não cabe dúvida de que o regime político instalado no Brasil após 1964 era um Estado autoritário baseado na coação e na força. Era, portanto, um Estado ilegal. Também não se discute que a repressão político-militar foi selvagem e empregou sistematicamente a tortura e o assassinato, e que isso é condenável sob qualquer ponto de vista. Mas nada disso elimina o fato de que a luta armada de esquerda contra esse Estado era, ela também, ilegal e contrária aos princípios universais da democracia e da civilização. Seu objetivo, claro está pelos documentos e proclamações das organizações de esquerda atuantes no período, não era o retorno da ordem liberal-democrática anterior ao golpe, nem tampouco a instalação de uma forma de estado de direito constitucional, mas a substituição do regime provisório e excepcional dos generais por outro regime, permanente, de força, provavelmente socialista e certamente autoritário, quando não totalitário, como bem demonstrou Elio Gaspari. Não há qualquer razão para considerar as ações da guerrilha urbana e rural – assassinatos, seqüestros, assaltos a bancos etc. – como formas de luta democrática ou como expressões do direito legítimo à resistência nos moldes liberais, assim como não há qualquer razão em não considerar tais ações como terrorismo, a não ser a ânsia em falsificar a História para preservar antigos mitos políticos.

Nem toda ação contra um Estado ilegal é necessariamente legal. Do contrário, toda ação – explodir prédios cheios de gente e assassinar inocentes, por exemplo – estaria justificada, em nome da luta pela “liberdade”. No caso brasileiro, a luta armada nasceu não da resistência à repressão, ou do endurecimento do regime autoritário, mas de uma opção política feita por setores radicais de esquerda pela revolução violenta e pelo socialismo, opção esta que é anterior à tomada do poder pelos militares. Não reconhecer essa realidade é falsear a História, em nome de uma visão mistificadora com objetivos partidários.

A Lei de Anistia de 1979 perdoou a todos, torturadores e guerrilheiros, tendo surgido de um pacto entre o governo militar, já sem os instrumentos autoritários do AI-5, e a sociedade civil, que começava a reorganizar-se depois de anos de arbítrio. Tratou-se de uma solução negociada, certamente não a ideal, mas a que foi possível alcançar naquelas circunstâncias. O fato de torturadores e assassinos terem sido anistiados não significa que a anistia foi “autoconcedida” pelos militares, visto que os que praticaram crimes de sangue do lado da esquerda também foram agraciados com o benefício do perdão e do esquecimento. Foi isso, bem ou mal, o que permitiu a reconciliação nacional e a redemocratização do País, em última instância.

Isso significa que a redemocratização, no Brasil, foi “extorquida” pelos militares? Não. Novamente: houve um pacto político, um acordo em que ambas as partes concordaram em deixar de lado as feridas do passado e em anular os crimes de cada um. A anistia seria extorquida se tivesse sido unilateral, ou seja, se não tivesse sido concedida também aos opositores do regime. Criada essa situação, porém, qualquer tentativa de rever ou “reinterpretar” a Lei de Anistia para que puna apenas um dos lados só pode ser entendida como revanchismo e levaria, inevitavelmente, a uma situação de anomia jurídica, que teria, certamente, sérias implicações para a ordem democrática. Não há outra solução: ou se mantém a Anistia tal como está, ou ela é revogada e, nesse caso, todos – torturadores e guerrilheiros – devem parar na cadeia.

Todas essas considerações, obviamente, não farão calar o coro dos que, sob a alegação de que tortura é crime contra a humanidade, logo imprescritível, desejam ver a Lei de Anistia revogada ou modificada para punir apenas um dos lados dos “anos de chumbo” – em geral, generais octogenários e nonagenários, já sem nenhuma influência política. Para essas pessoas, o único acerto de contas possível com o passado é o que resulte de uma ruptura revolucionária da ordem política e social - situação em que costuma vigorar não a anistia, mas o paredón. Ruptura esta que foi perseguida pelos que pegaram em armas contra o regime de 64, sob inspiração de regimes políticos em que os opositores jamais tiveram o benefício de qualquer anistia, como o de Cuba. Ao contrário dos militares brasileiros que os combateram, os revolucionários marxistas não conhecem o perdão.

***

(1) "Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse." GORENDER, Jacob, Combate nas trevas (5a edição São Paulo: Ática, 1998, p. 73).

(2) "Ao contrário do que sucedeu nas resistências francesa e italiana ao nazismo e mesmo na Revolução Cubana, onde conservadores e anticomunistas se integraram na luta contra a tirania, as organizações armadas brasileiras não tiveram, nem buscaram, adesões fora da esquerda. A sociedade podia não estar interessada em sustentar a ditadura militar, mas interessava-se muito menos pela chegada à ditadura do proletariado ou de qualquer grupo político ou social que se auto-intitulasse sua vanguarda. A natureza intrinsecamente revolucionária das organizações armadas retirou-lhes o apoio, ainda que tênue, do grosso das forças que se opunham ao regime. Eles viam na estrutura da Igreja católica e na militância oposicionista de civis como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães um estorvo no caminho da revolução. Eles, por seu lado, viam na luta armada um estorvo para a redemocratização." GASPARI, Elio, A ditadura escancarada (São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 194).

(3) "A luta armada fracassou porque o objetivo final das organizações que a promoveram era transformar o Brasil numa ditadura, talvez socialista, certamente revolucionária. Seu projeto não passava pelo restabelecimento das liberdades democráticas. Como informou o PCBR: 'Ao lutarmos contra a ditadura devemos colocar como objetivo a conquista de um Governo Popular Revolucionário e não a chamada ´redemocratização´'. Documentos de dez organizações armadas, coletados por Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá, mostram que quatro propunham a substituição da ditadura militar por um 'governo popular revolucionário' (PCdoB, Colina, PCBR e ALN). Outras quatro (Ala Vermelha, PCR, VAR e Polop) usavam sinônimos ou demarcavam etapas para chegar àquilo que, em última instância, seria uma ditadura da vanguarda revolucionária. Variavam nas propostas intermediárias, mas, no final, de seu projeto resultaria um 'Cubão'." Ibid., pp. 193-4.

(4) "Os grupos armados não pretendiam opor, só e fundamentalmente, uma resistência à ditadura. O projeto de guerra de guerrilhas no Brasil era anterior ao golpe de 64; vinha, desde o princípio daquela década, estimulado pelo exemplo da revolução em Cuba. Para não falar nas propostas de revolução armada que vinham de muito antes, na tradição bolchevique, como o levante comunista de 1935, como a linha política do PCB no início dos anos 50 ou, ainda, como os projetos revolucionários comunistas de tendência trotskista." RIDENTI, Marcelo, O fantasma da revolução brasileira (São Paulo: Unesp, 1993, pp. 63-4).

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

COMISSÃO DA VERDADE OU DA MEIA-VERDADE?


Vítima de atentado à bomba por terroristas de esquerda, Recife, 25.07.66:
a "Comissão da Verdade" do governo Lula vai tratar de casos assim?
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Assisti, um dia desses, a um debate interessante na TV Câmara. TV Câmara? Pois é. É raro, mas às vezes acontece de passar alguma coisa que vale a pena ver ali, além de documentários soporíferos sobre o bumba-meu-boi e discursos analfabetos de deputados idem. O assunto do debate era a tal "Comissão da Verdade" que o governo quer criar para, em suas palavras, "investigar as violações aos direitos humanos durante a ditadura militar de 1964", como parte do pacote chamado 3o Plano Nacional de Direitos Humanos - ou Plano Nacional-Socialista dos Direitos Humanos, como já está sendo chamado.

Preparei-me para mudar de canal ou desligar a TV e ler um livro, mas, como o tema me interessa e é bastante polêmico, já tendo até levado à demissão de general que se pronunciou contra a coisa, resolvi insistir. Frente a frente, havia dois deputados, um a favor e outro "mais ou menos contra" o projeto tal como está, além de dois professores universitários e um coronel, representante do Exército. Um dos deputados, aliás do PT, ficou balbuciando o tempo todo platitudes como "a ditadura foi terrível" e "é preciso apurar a verdade", lembrando seu passado de militante e perseguido político etc. O que era "mais ou menos contra", do PSDB, ficou calado a maior parte do tempo, quebrando o silêncio apenas para falar que era contra a Comissão "do jeito que está". Um dos professores, creio eu uma socióloga, tentou articular um discurso militante em defesa da revisão da Lei de Anistia de 1979, colocando-se contra o que chamou de "lógica da Guerra Fria" ou "lógica de ameaças" dos que se opõem à iniciativa dos ministros Paulo Vanucchi e Tarso Genro. Aproveitou e tascou que os militares "deveriam pedir desculpas" por 1964 e pelo que se seguiu...

Imaginei que iria presenciar um monólogo esquerdista, desses que passam, no Brasil, por "debate", mas nada disso! Tive uma grata surpresa. O coronel do Exército, representante das Forças Armadas, não se intimidou por estar em minoria. Pelo contrário. De maneira firme, porém ponderada, calma, didática, ele deu uma verdadeira aula aos esquerdistas presentes, principalmente à tal professora que queria que os militares se flagelassem em público. Sua superioridade intelectual e moral sobre os demais debatedores ficou claríssima. Ele explicou que a Anistia não teve nada a ver com "justiça", tendo sido, antes, um pacto político para viabilizar a democracia. Como tal, tratou-se de um ato que extinguiu os crimes e a punibilidade dos mesmos. Não foi, como disse a professora, uma anistia "auto-imposta" para garantir a impunidade dos agentes da repressão política, mas uma conquista da sociedade brasileira, inclusive da esquerda, que se organizou, na época, em vários Comitês pela Anistia (um dos deputados presentes tinha sido membro de um desses comitês). Respondeu, ainda, que, se a Anistia não vale e deve ser revogada porque o regime era de exceção (portanto, "ilegítimo"), então toda a legislação produzida após 1964, como a que criou o FGTS, deveria ser anulada. Finalmente, deixou claro que, entre tratados internacionais e a legislação nacional, é esta que vale.

Quanto à "lógica da Guerra Fria" ou "lógica de ameaças" a que se referiu a professora, o coronel (cujo nome, infelizmente, não retive) poderia ter dito mais. Poderia ter dito, por exemplo, que, por trás desse discurso aparentemente anódino, esconde-se um claro viés ideológico. A lógica da Guerra Fria se expressa, por exemplo, na forma da tentativa de revogar a Anistia a fim de punir apenas um dos lados - o dos militares, claro -, enquanto deixa de fora os terroristas de esquerda, que mataram, assaltaram e seqüestraram. Aliás, em todo o debate os que interpelaram o coronel não falaram em momento algum as palavras "terrorista" e "terrorismo". Já o coronel não se furtou em falar de tortura, lembrando, inclusive, que ela também foi praticada pela esquerda radical - e citou um caso específico, ocorrido na chamada guerrllha do Araguaia, em que um adolescente de 17 anos foi retalhado a facão pelos "guerrilheiros" na frente de sua família.

"A repressão foi uma opção dos militares", repetia a professora revanchista, como se isso invalidasse o fato de que a luta armada também foi uma escolha consciente da esquerda radical, que desejava derrubar o governo para instalar, em seu lugar, uma ditadura comunista (e isso, como bem lembrou o coronel, antes já de 1964). "Os militares têm que pedir desculpas", insistia - como se a corporação militar como um todo, que saiu do regime extremamente bem avaliada pela maioria da população (o que não inclui, obviamente, os esquerdistas), e cujos generais acreditam, não sem razão, que salvaram o Brasil do comunismo em 1964, devesse alguma desculpa. Quanto a isso, aliás, o coronel recordou o que quase ninguém, ali, queria lembrar: as vítimas e mesmo não tão vítimas assim do regime de 64 estão sendo agraciadas com fartas indenizações do Erário público. Já aqueles que caíram vitimados por balas e bombas da esquerda armada, muitos deles cidadãos comuns, sem qualquer relação com a luta política travada então, quando é que receberão pelo menos um pedido de desculpas de seus algozes? Se é de perdão que se está falando, por que os esquerdistas não se desculpam perante eles e suas famílias? Por que, em vez disso, endeusam terroristas?

As observações do coronel, claro, ficaram sem resposta. E não poderia ser diferente. Sua análise do regime de 64 e da luta armada, assim como da Anistia, foi impecável. Seu desmascaramento do revanchismo esquerdista, agora travestido de "Comissão da Verdade", foi total e irrefutável. Ficou claro que, qualquer tentativa de rever a Anistia não passa de uma forma de duplo padrão ideológico a fim de beneficiar a esquerda. Além do mais, a idéia de que os militares deveriam "pedir desculpas" pelo que fizeram é ridícula: primeiro, porque em 1964 eles não tomaram o poder sozinhos (tratou-se de um golpe, ou contra-golpe, civil-militar); segundo, porque tiveram amplo apoio popular; terceiro, porque os terroristas de esquerda eram uma ínfima minoria, não representando, de maneira alguma, os anseios da sociedade; e quarto, porque no Brasil, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, na Argentina, não houve um confronto entre a instituição militar como um todo e a população, e os militares que estiveram diretamente envolvidos nas atividades da repressão política foram uma fração pequeníssima das Forças Armadas. Finalmente, os militares concordaram em perdoar os terroristas e em devolver o poder aos civis, retirando-se da vida política - pode-se imaginar o mesmo acontecendo em Cuba, por exemplo? Os militares, com a exceção da minoria de torturadores e assassinos, não fizeram nada de que possam se envergonhar. Por que deveriam pedir desculpas?

Das observações certeiras do representante dos militares no debate da TV Câmara, e dos argumentos toscos de seus contendores, ficou claro para mim o seguinte: se fosse constituída eqüitativamente por representantes dos dois lados, com o objetivo de apurar as circunstâncias da repressão e da luta armada (e não somente da repressão, como se pretende), a tal "Comissão da Verdade" seria, de fato, uma oportunidade de restaurar a verdade histórica e, de certo modo, fazer justiça à memória e à História nacionais. Como não é esse o intento de seus idealizadores, a conclusão óbvia é que ela não passa de um palco para julgar o regime de 64 e impor a "justiça dos vencidos", isto é, o revanchismo. Não será, portanto, uma Comissão da Verdade, mas da meia-verdade. Ou da meia-mentira.

sábado, janeiro 02, 2010

EU TAMBÉM QUERO TER DIREITO À MEMÓRIA E À VERDADE - A TODA ELA


Interrompo minhas férias para fazer, como sempre, um desabafo. Esse tipo de interrupção, aliás, é uma constante na vida de quem se mete a escrever contra a esquerda e o politicamente correto (ou, como prefiro dizer, o ideologicamente estúpido). Afinal, como diz o ditado, pessoas de bem podem descansar e tirar férias; os canalhas, porém, nunca o fazem, estão sempre ativos, planejando novas canalhices.
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Vocês já devem ter lido ou ouvido a respeito: no apagar das luzes de 2009, quando Brasília está às moscas e todos só estão pensando em panetone e nas festas de fim de ano, o secretário de direitos humanos do Aiatolula, o ex-guerrilheiro da ALN Paulo Vanucchi, bolou um decreto que prevê, entre outras coisas, a criação de uma tal "comissão da verdade" para investigar os crimes praticados durante a ditadura militar no Brasil. Com um detalhe interessante: somente os crimes cometidos pelos agentes da repressão política, como tortura, seriam investigados. Se você pensou que o objetivo da estrovenga é rever a Lei de Anistia de 1979, que perdoou a todos, não fazendo distinção entre quem foi preso e quem prendeu, você acertou em cheio. A idéia, aliás, já gerou um começo de crise com as Forças Armadas - totalmente desnecessária, como toda crise artificialmente criada.
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Já escrevi aqui, neste blog - essa frase, de tão repetida, já está virando um clichê - sobre as tentativas revanchistas dos paulos vanucchis e tarsos genros da vida, sempre disfarçadas com rótulos pomposos como "punição dos torturadores" e - o meu preferido - "direito à memória e à verdade" (aliás, nome do livro que a dita secretaria de direitos humanos lançou há dois anos sobre os mortos e desaparecidos políticos da esquerda durante o regime de 64, e que não faz qualquer referência aos que a esquerda armada matou). De modo que não vou repetir, desta vez, os mesmos argumentos apresentados anteriormente. Não vou lembrar, aqui, que o argumento da tortura como crime imprescritível e de lesa-humanidade, aparentemente justo, é, na verdade, uma falácia de quem acha que terrorismo não é. Nem vou desmascarar novamente a mentira segundo a qual o que as organizações de ultra-esquerda de que participaram gente como Paulo Vanucchi, Dilma Rousseff, Franklin Martins e José Dirceu praticaram não foi terrorismo, mas "luta contra a ditadura" ou "resistência ao autoritarismo".

Já tratei de tudo isso, das lendas e balelas inventadas pela esquerda sobre a luta armada, em outros posts. Vou me limitar a dizer, desta feita, apenas isso: eu concordo inteiramente com a idéia de rever a Lei de Anistia. Mais: sou totalmente a favor de jogá-la na lata do lixo. Mais ainda: desejo que os torturadores sejam todos - todos, sem exceção - responsabilizados criminalmente e punidos exemplarmente, na forma da Lei. Quero mais é que eles se danem. Se quiserem aplicar aos meganhas brasileiros que torturaram e assassinaram prisioneiros políticos os princípios do direito internacional humanitário, aliás, quero dizer que eu sou a favor. Para mim, não existe ex-torturador. E lugar de torturador é mesmo a cadeia.

Isso significa que sou a favor do projeto da dupla Vanucchi/Genro de rever a Lei de Anistia, certo? Aí é que está: ERRADO! Por um motivo muito prosaico: assim como eles, eu acho que não existe ex-torturador. Mas, ao contrário deles, acredito que também não existe ex-terrorista. Quem jogou bomba em aeroporto ou em quartel, quem assaltou banco, sequestrou e matou em nome da "revolução" deve, também, responder pelo que fez. Ou, então, que se mantenha o status quo atual. A meu ver, os esquerdistas têm tanto direito à Anistia quanto quem estava do outro lado da trincheira, defendendo o regime. Falando mais claramente: EU QUERO QUE TERRORISTAS E TORTURADORES, E NÃO SOMENTE UM LADO OU OUTRO, PAGUEM POR SEUS CRIMES. OU QUE, PELO MENOS, OS ASSUMAM PUBLICAMENTE. Qualquer outra coisa que não seja isso é apenas a imposição de um tribunal ideológico por parte dos derrotados de ontem que querem, agora que estão por cima, ir à forra. Ou seja: revanchismo, puro e simples. EU TAMBÉM QUERO TER DIREITO À MEMÓRIA E À VERDADE - A TODA ELA, E NÃO SOMENTE À PARTE QUE CONVÉM A QUEM ESTÁ, HOJE, NO PODER. Acho, aliás, que esse não é um direito só meu: é de toda a população brasileira.

Em outras palavras, o projeto da tal secretaria de direitos humanos não passa de uma tremenda vigarice intelectual, um passo a mais na gigantesca impostura e na obra de mistificação político-histórica sem paralelos que é a versão esquerdista dos "anos de chumbo" no Brasil - versão na qual só teria havido heróicos guerrilheiros idealistas, de um lado, e cruéis torturadores, de outro. Terroristas - e excluo deliberadamente o "ex" da palavra - não têm o direito de julgar e condenar torturadores, assim como estes não têm o direito de julgar e condenar aqueles. E isso não é porque eu tenha qualquer simpatia por um lado ou por outro. É pura lógica. Ou, se preferirem, por decência.

O regime militar, cujos agentes torturaram e mataram, anistiou a estes e também àqueles que pegaram em armas para derrubá-lo e substituí-lo por uma ditadura comunista (ainda estou à espera de que me provem que as organizações de esquerda armada, e mesmo não-armada, como o PCB, se batiam pela democracia e pela liberdade no Brasil, e não por um regime inspirado em Cuba, na ex-URSS ou na China maoísta). Esperava, com isso, botar uma pedra sobre o período e pacificar o País, levando ao esquecimento dos delitos de ambos os lados. Pode-se discordar desse objetivo, pode-se, inclusive, achar que o perdão aos torturadores foi um erro, uma aberração, mas não se pode negar um fato fundamental: ao anistiar seus inimigos, os militares foram bem mais benevolentes do que o atual governo esquerdista brasileiro, que já canonizou seus mortos, enquanto tenta de todas as maneiras revogar a Anistia aos que os perseguiram.
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O nome disso, na novilíngua esquerdista que está aos poucos tomando o lugar da língua portuguesa, é duplo padrão moral ou viés ideológico. Em linguagem sem frescuras, é cinismo e hipocrisia mesmo. Uma tremenda empulhação, mais uma, de um governo que não se contenta em refundar a nação - quer também reescrever a História.

quarta-feira, novembro 19, 2008

ELES NÃO DESISTEM - MAIS FALÁCIAS DOS REVANCHISTAS

Antes, queriam Anistia; hoje, querem revanche - e chamam isso de justiça


Segue um vermelho-e-azul com o texto "Terrorismo de Estado", publicado na seção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo de hoje, 19 de novembro, de autoria da "jurista" Deisy Ventura, professora da USP (onde mais?). Quem ainda tiver neurônios para pensar não vai ter dificuldades para perceber que, por debaixo do trololó aparentemente humanitário e do "juridiquês" de araque, se esconde um raciocínio bastante tortuoso, que serve apenas para justificar o revanchismo de Tarso Genro e assemelhados. Ela em vermelho; eu em azul.
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Terrorismo de Estado
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DEISY VENTURA
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Urge repelir a idéia de que a anistia "vale para os dois lados". Primeiro, pelo descalabro técnico. Depois, pela infâmia política
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Esquentam as mãos do ministro Eros Grau, no Supremo Tribunal Federal, dois processos que marcarão a cultura política e a imagem internacional do Brasil.Como relator da ação em que a OAB questiona a interpretação da Lei de Anistia, Grau pediu vista dos pedidos argentino e uruguaio de extradição do general Manuel Cordero, um dos protagonistas da iniciativa supranacional de repressão política denominada Operação Condor.Caberá, então, ao STF decidir não apenas sobre a possibilidade de julgar agentes públicos pelos crimes contra a humanidade praticados durante a ditadura militar brasileira, mas também exercer a espúria faculdade de impedir que países vizinhos façam o mesmo em relação aos seus acusados.
Logo de início, a desonestidade intelectual mais descarada. Não há qualquer termo de comparação entre a ditadura militar no Brasil e as ditaduras militares argentina e uruguaia. No Brasil, morreram 376 pessoas (segundo contagem do próprio governo) nas mãos de agentes da repressão durante 21 anos (mais as 119 assassinadas pelos terroristas de esquerda). Nesses outros dois países, a repressão foi muito mais feroz. Na Argentina, houve cerca de 30 mil mortos. No Uruguai, em certo momento praticamente um em cada cinqüenta (1/50) uruguaios estava na cadeia, um record mundial. A participação de militares brasileiros na chamada "Operação Condor" foi mínima. Qualquer comparação entre o que aconteceu no Brasil e nos países vizinhos é pura forçação de barra.
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E antes que digam: não, isso não significa justificar nada do que aconteceu nesses países. Significa repor as coisas em seu devido lugar. Não há comparação possível entre 376 mortos e 30 mil, ou entre 376 e 100 milhões. Não há comparação possível entre anos de chumbo e rios de sangue. Adiante.
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Num Brasil gravemente acometido de amnésia seletiva, o debate encontra-se turbado pela estapafúrdia tese do "vale para os dois lados" -isto é, rever a anistia dos militares implicaria necessariamente rever a dos subversivos, ditos "terroristas". Urge, portanto, repelir a idéia de que a anistia vale tanto para torturados quanto para torturadores.
Concordo totalmente com a afirmação sobre a amnésia coletiva do brasileiro. A começar pela própria autora, que insiste em retratar os "anos de chumbo" de forma unilateral, "esquecendo-se" de mencionar a violência da esquerda no período. Aliás, é exatamente isso o que faz Tarso Genro e Paulo Vanucchi: querem "rever" a Lei de Anistia de 1979 para punir apenas um dos lados - o lado, justamente, da repressão. O "vale para os dois lados", minha senhora, não é uma "tese", muito menos "estapafúrdia"; é um fato - a Lei, goste-se ou não dela, perdoou a todos. Querer revogá-la é, portanto, querer punir a todos, e não uma parte somente. Repito: o perdão não é uma tese - é um fato histórico, que a esquerda quer agora que seja revogado a seu favor.
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Primeiro, pelo descalabro técnico.Há quem reconheça como jurista só aquele que o defende. Porém, o direito aqui é cristalino. O Estado detém o monopólio da violência legítima. Dele apropriando-se ilegitimamente e agindo em seu nome, "autoridades" dispuseram de recursos estatais para promover sistematicamente a tortura, que resultou, em numerosos casos, na execução sumária, agravada pela ocultação de cadáver.Depois, o poder estatal garantiu-lhes acordo leonino, pelo qual crimes comuns, entre eles o estupro, foram interpretados como se políticos fossem.
Analisemos a questão tecnicamente, então. De fato, há quem reconheça como jurista somente quem o defenda - os "juristas" que defendem o terrorismo como legítimo, por exemplo. Estes não dão a mínima para os males causados pelos terroristas, pois só se importam com um lado da questão. Aqui, também, o direito é cristalino: a Constituição Federal de 1988, por exemplo, deixa claro em seu texto que terrorismo e tortura - e não somente um ou outro - são crimes inafiançáveis. Ou seja: a Lei determina que ambos são crimes contra a humanidade, como está também em várias convenções internacionais, aceitas pelo Brasil. Além disso, explodir bombas e matar pessoas inocentes, bem como seqüestrar diplomatas e assaltar bancos, assim como estupro, são também crimes comuns, e não políticos. Ou o monopólio da violência legítima, nesse caso, mudou de mãos e passou para as organizações de esquerda que matavam, roubavam e seqüestravam? Isso, sim, me parece um descalabro.
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Ademais, quem se opõe à violação da ordem constitucional não é terrorista, é resistente. O direito à resistência é vigente no Brasil desde os anos 1950, por força do direito humanitário, que igualmente veda a tortura e a execução, mesmo durante a guerra.
Ahá! Viram só? Coloquei a frase em negrito de propósito. Ela revela o próprio cerne do texto. Segundo a autora, o terrorismo da esquerda não era terrorismo. Não era terrorista, mas "resistente", quem explodia bombas e arrebentava a coronhadas a cabeça de prisioneiros... E isso por quê, meus senhores e minhas senhoras? Porque os bravos "resistentes" estavam lutando contra a "violação da ordem constitucional"... Eram, portanto, lutadores pela democracia e pela liberdade. Uma resistência democrática, enfim. Desculpem a falta de jeito, mas nessa questão é preciso ser o mais claro possível: ISSO É SIMPLESMENTE MENTIRA!
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A autora parece desconhecer completamente o que os próprios terroristas (perdão, "resistentes") diziam a respeito de si mesmos. Como Carlos Mariguella, o principal ideólogo da luta armada e dirigente da organização de Paulo Vanucchi, a ALN, que em seu Minimanual do Guerrilheiro Urbano enalteceu explicitamente o terrorismo ("ser terrorista é uma condição que enobrece qualquer homem de bem"...). Assim como ignora por completo que não há nenhum documento de organização da esquerda armada no período que defenda a democracia contra a "violação da ordem constitucional" pelos militares no poder. Ao contrário, o que valentes como Mariguella e Paulo Vanucchi queriam não era restaurar a democracia coisa nenhuma, mas simplesmente trocar de ditadura - no caso, a ditadura militar por uma ditadura de esquerda, socialista ou comunista, nos moldes de Cuba ou da China maoísta. Sem falar que o projeto guerrilheiro - a luta armada como caminho para a tomada do poder - já existia muito antes do golpe de 64 (logo, antes da "violação da ordem constitucional"). Não dá para deixar de dizer: Vai estudar, dona Deisy! Vai se instruir!
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Segundo, pela infâmia política.Há quem defina como ideologia somente a dos outros. É o primeiro passo para criminalizá-la. Ora, nunca houve risco real de implantação de um regime comunista no Brasil. A ampla maioria dos cassados, torturados e desaparecidos jamais praticou qualquer violência. Contudo, impunes aves de rapina não cessam de difamá-los, argüindo que tiveram o que mereciam, como se as vítimas estivessem a jogar o queixo contra os punhos dos algozes. Vocês percebem como eu sou paciente com essa gente? Eles distorcem a História descaradamente, acintosamente, e mesmo assim eu me dou ao trabalho de refutá-los com fatos e argumentos. Parafraseando a própria autora: há quem defina como História somente o que lhe convém. É o primeiro passo para deturpá-la.
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Coloquei o trecho em negrito também de propósito. Hoje, no distanciamento histórico, é fácil dizer que os grupos armados de esquerda não representavam perigo para o regime militar. Mas a percepção da época - e, principalmente, da esquerda - era bem diferente. Leia-se qualquer texto produzido pela esquerda na época e fica claro o triunfalismo, a sensação de que a vitória da revolução e do socialismo estava ao alcance da mão, estava bem ali, na esquina... Os militares levaram a sério esse perigo, e cometeram muitos abusos. Mas certamente menores, diga-se, do que os que a esquerda praticaria, caso chegasse ao poder (basta ver a campanha de Tarso Genro para revisar a Lei de Anistia para perceber que dificilmente a esquerda anistiaria seus inimigos).
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Além disso, em 1964, houve sim o risco de o Brasil se transformar numa ditadura comunista ou, pelo menos, sindicalista. Quem diz isso não sou eu, nem é qualquer militar golpista: são os próprios comunistas. Pouco antes do golpe, Luiz Carlos Prestes declarou de forma clara que os comunistas já estavam no governo, e preparavam apenas o assalto ao poder. Jacob Gorender, num livro que tem o mérito da honestidade (Combate nas Trevas, Ed. Ática, 1987), afirma claramente que, em 1961-1964, o Brasil vivia uma situação "pré-revolucionária", e que o golpe dos militares, portanto, foi "preventivo". Basta correr os olhos rapidamente sobre qualquer livro (sério) de História sobre o período que se perceberá que a esquerda radical caminhava a passos largos para a tomada do poder, o que significaria a destruição da democracia. Quando os militares derrubaram o governo Goulart, há muito este fizera sua opção pela ilegalidade. Não foram somente os milicos que acabaram com a democracia em 1964: simplesmente ninguém a queria. Tendo perdido a parada, a esquerda, desde então, tem se apresentado como democrata. É um engodo. Uma verdadeira infâmia política..

Outra coisa. Sim, é verdade que vários cassados, torturados e mortos (não "a ampla maioria", como diz a autora) pela repressão no Brasil não tinham nada a ver com a luta armada. Mas isso não torna o terrorismo menos sanguinário e criminoso. Não justifica os seqüestros e assassinatos cometidos em nome de Lênin, Fidel e Mao. Até porque, como a própria autora afirma, nem todos que se opuseram à ditadura optaram pela luta armada - o que demonstra que esta não era a única forma de luta possível contra o regime militar. Entretanto, para a doutora Deisy, lembrar esses fatos é difamar os mortos. Ela não parece preocupada com o fato de que, ao classificar os terroristas como "resistentes", ela está, isso sim, difamando suas vítimas, muitas das quais simples transeuntes. Não venha me dizer que a luta armada não era terrorismo e era uma forma de resistência democrática, por favor!
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Diante de tal (in)cultura, não surpreende que, na atualidade, jovens favelados já nasçam suspeitos, esgueirando-se nas ruas diante dos temidos agentes do Estado.
Como é que é? Então os favelados são vistos como suspeitos pelos meganhas por causa da Lei da Anistia? É isso mesmo? Essa senhora é incrível...
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Aliás, é curioso: Tarso Genro e Paulo Vanucchi parecem muito preocupados em revisar a Lei para punir crimes de quarenta anos atrás, enquanto não demonstram o mesmo entusiasmo em impedir o mesmo crime de tortura e coisas piores nas cadeias brasileiras hoje em dia. Deve ser porque os torturados de hoje não têm o mesmo pedigree ideológico...
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É preciso também refutar o enganoso argumento da prescrição.Farta e unânime jurisprudência internacional, inclusive da Corte Interamericana de Direitos Humanos, cuja jurisdição é aceita pelo Brasil, sustenta a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade. Não se trata de imposição, eis que o direito internacional consiste justamente no exercício da soberania nacional em foro externo. Construído pelo consenso entre as nações, aplicá-lo é tarefa constitucional de cada Estado.
Bom... Nesse ponto, dona Deisy, acho que estamos de acordo. Sim, porque, assim como a senhora, também considero imprescritível e crime contra a humanidade a tortura. Tenho os torturadores na mesma conta que amebas ou protozoários. Mas, ao contrário da senhora, estendo essa mesma classificação para o crime de terrorismo, seja de esquerda ou de direita ou de centro (supondo que haja terrorismo de centro). Além disso, temos um problema aí. Ainda que a CIDH diga que tortura seja crime imprescritível, e mesmo eu não sendo especialista em Leis (deixei o curso de Direito no segundo ano), não vejo como revogar uma Lei de 1979, que se refere a crimes cometidos de 1961 até aquela data, com base numa legislação de 1988 (a Constituição Federal). Convenhamos que isso seria meio complicado, não acha? Então, das duas uma: ou se mantém a Lei como está, garantindo a anistia ampla, geral e irrestrita - como queria, aliás, a esquerda na época de sua aprovação -, ou se revoga a Lei, e, nesse caso, se pune todo mundo: torturadores e terroristas. A senhora concorda com isso?
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Contudo, orgulhoso por sua retumbante inserção comercial internacional, o Brasil está cada vez mais isolado do mundo no que tange à memória e à justiça. Cumpridor do direito do comércio, o país ainda engatinha quanto à aplicação do direito internacional dos direitos humanos.
Confesso que esse pessoal me deixa cada vez mais confuso... O que tem a ver o "direito do comércio" - do qual o Brasil, aliás, ainda está longe de ser um cumpridor fiel - com memória e justiça e direitos humanos? Vai ver que para que o Brasil se torne realmente um país de primeiro mundo é preciso, antes de mais nada, revogar (seletivamente) a Lei de Anistia e voltarmos à situação pré-1979, apenas com o sinal ideológico invertido... Esquerdistas são esquisitos mesmo.
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Uma recente audiência pública da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o anúncio de que uma vítima de Cordero levará o Brasil à corte interamericana auspiciam que a responsabilidade internacional do Estado poderá ser invocada em caso de omissão. Por outro lado, por força do princípio da jurisdição penal universal, outros países já deflagraram ações contra torturadores brasileiros.Apesar de tudo, o governo brasileiro está dividido. No julgamento da ação bravamente movida pelo Ministério Público Federal contra o general Ustra, a atuação da Advocacia Geral da União foi constrangedora.
Por que a atuação da AGU foi constrangedora? Teria sido porque cumpriu o que está na Lei? Mesma Lei, aliás, que anistiou muitos dos que Ustra prendeu e, dizem, torturou? teria sido porque não fez um julgamento político, e sim jurídico, da questão? Afinal, Lei se cumpre, e ponto. A propósito: parabéns para a AGU!
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Ou será que agora existem duas leis, uma para a esquerda, que está hoje no poder, e outra, para ser "bravamente" aplicada somente para punir milicos de pijama, sem mais qualquer influência na vida nacional? Isso mostra apenas uma coisa: para a doutora Deisy, a aplicação da justiça deve obedecer a um critério ideológico. Se o mal foi cometido contra a esquerda, é um crime contra a humanidade. Se foi a esquerda que cometeu... é outra coisa.
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Além do mais, sendo o terrorismo um crime contra a humanidade, assim como a tortura, o mesmo critério poderia ser adotado para pedir a punição dos responsáveis pelas mortes de cidadãos estrangeiros no País por organizações armadas de esquerda. Gente como o capitão norte-americano Charles Chandler, por exemplo, metralhado na frente de sua família por um grupo de fogo da ALN e da VPR (um dos assassinos recebeu uma gorda indenização do Estado como "perseguido político"), ou o major alemão Westerhnagen, morto por engano por um comando terrorista no Rio de Janeiro. Será que a doutora Deisy aprovaria a punição dos que cometeram essas ações, em nome do princípio da jurisdição penal internacional? Cuidado, doutora, vai que a senhora consegue o que deseja...
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Os políticos favoráveis ao julgamento levam a pecha de revanchistas.Seria também revanche o sentimento a mover os 400 juristas que assinaram o manifesto em prol do debate público nacional sobre a Lei de Anistia, lançado em 28/8/08, no pátio da Faculdade de Direito da USP? E as 3.500 pessoas de 38 diferentes países que se somaram à Campanha Internacional pela Extradição de Cordero?
"Na falta de argumentos sólidos, apelemos para a força dos números..." É a velha tática esquerdista em ação: tantas pessoas puseram seus nomes num manifesto, logo o manifesto só pode expressar algo certo e justo... Ainda espero um dia esse mesmo critério matemático ser utilizado para pedir indenização ao Estado pelas 119 vítimas (muitas delas, inocentes) da esquerda armada no Brasil de 1964 a 1979. Ou será que esses mortos escolheram o lado errado?
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No programa para crianças que anima na rádio Justiça ("Aprendendo Direitinho"), o ministro Eros apresenta-se como vovô Grau. Em breve, ele terá de contar aos netinhos-ouvintes uma história sobre terríveis condores, disfarçados de cordeiros e passarinhos. Que seja bem contada e sem páginas arrancadas, que a trama não se passe numa ilha e que, ao final, prevaleça a justiça.
Titia Deisy: venho aqui dizer que assisto ao programa do Vovô Grau. Só queria que a senhora me dissesse quando é que vai me contar aquela historinha, aquela sobre terríveis guevarinhas e maozinhos, disfarçados de bonzinhos combatentes da liberdade. Queria que ela fosse bem contada e sem páginas arrancadas, sem esconder nada, e que a trama se passe aqui mesmo, embora a senhora pareça morrer de amores por uma certa ilha, onde um velhinho barbudo manda há 50 anos e já despachou 95 mil para o além. Talvez seja lá, nessa ilha da fantasia, com seu paredón, que se alcançou, para a doutora Deisy e para Tarso Genro e Paulo Vanucchi, a verdadeira justiça...