Republicanos espanhóis treinam pontaria em uma estátua de Cristo, década de 30: para as esquerdas, apenas seus mortos contam Este é um blog assumidamente do contra. Contra a burrice, a acomodação, o conformismo, o infantilismo, a ingenuidade, a abobalhação e a estupidez que ameaçam tomar conta do País e do Mundo. Seja livre. Seja do contra. - "A ingenuidade é uma forma de insanidade" (Graham Greene)
quinta-feira, setembro 04, 2008
JUSTIÇA - E MEMÓRIA - SELETIVA (OU: COMO DISTORCER A HISTÓRIA PARA QUE ELA DIGA SÓ O QUE NOS CONVÉM)
Republicanos espanhóis treinam pontaria em uma estátua de Cristo, década de 30: para as esquerdas, apenas seus mortos contam sexta-feira, agosto 01, 2008
A MARCHA DOS REVANCHISTAS
quinta-feira, junho 26, 2008
ELES QUEREM REVANCHE, NÃO JUSTIÇA

Alguns órgãos da imprensa colocaram-se a serviço dessa causa. Um deles, a revista Carta Capital, publicou nesta semana reportagem de capa sobre o assunto. Talvez alguém se surpreenda ao me ver comentando matéria da Carta Capital, uma publicação chapa-branca, a qual já reservei aqui alguns comentários. Mas às vezes é preciso, como disse aquele ator da Globo que quis justificar o mensalão, meter a mão na merda. Antes eu tinha algumas dúvidas sobre as reais motivações da esquerda em querer reabrir algumas feridas do passado. Ao final da leitura da reportagem, não as tinha mais (a reportagem completa está aqui: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=1207).
O.k. A tortura é mesmo horrível, um crime de lesa-humanidade. Quanto a isso creio que ninguém que regule bem das idéias pode discordar. Mas e o terrorismo, não é? Pendurar alguém no pau-de-arara, aplicar-lhe choques elétricos, espancar prisioneiros, é algo repulsivo e contrário à dignidade humana. Merece, pois, toda condenação. Explodir bombas em locais apinhados de gente como um aeroporto, executar friamente um militar aprisionado, colocar em risco a vida de civis inocentes em assaltos a bancos, também. Por que então o MP está exigindo a responsabilização penal de um lado apenas? A ONU, inclusive, já aprovou diversas declarações e resoluções condenando o terrorismo, assim como a tortura. Duplo padrão, viés ideológico, está claro. Adiante.
Entendi. A idéia é expor os torturadores e seus mandantes. Ou, pelo menos, caso não estejam mais vivos, não permitir que seus nomes batizem ruas e outros locais públicos. Acho justo. Não gostaria nem um pouco de morar numa rua chamada Sérgio Paranhos Fleury, ou Milton Tavares, ou Emílio Garrastazu Médici (sei que existe uma cidade chamada Presidente Médici, se não me engano no Amazonas). Mas ficaria também muito incomodado se meu endereço fosse Rua Carlos Mariguella, ou avenida Carlos Lamarca... Afinal, esses não atuaram também, "mediante violência" como diz a denúncia do MP, no período? Mariguella, por sinal, não chegou mesmo a proclamar em vários documentos o orgulho de ser terrorista? E o terrorismo não é condenado pela ONU? Querem execrar todos os que fizeram uso da violência durante a ditadura militar, tudo bem, acho ótimo, não tenho nada a opor. E retirar seus nomes de ruas, escolas, pontes e outros locais públicos? Perfeito. Então, que se retirem os nomes de Carlos Mariguella e Carlos Lamarca das placas também. Lamarca, aliás, foi promovido postumamente a general, e sua família recebeu uma indenização do governo. Não me consta que o mesmo tenha acontecido aos parentes de Fleury ou de qualquer outro torturador. Por que execrar uns e louvar outros?
Estou entendendo cada vez mais. Não se trata apenas de expor os nomes dos torturadores à execração pública - coisa, aliás, que vem sendo feita há bastante tempo, e que a própria Carta Capital faz em sua capa desta semana, mostrando, com foto e legenda, o rosto de um policial do interior de SP acusado de ter sido torturador no DOI-CODI nos anos 70. A questão vai um pouco mais além. Trata-se, também, de exigir que os responsáveis pelas mortes e desaparecimentos de presos políticos desembolsem a quantidade gasta pela União com as indenizações. Que foram concedidas prodigamente, diga-se de passagem, às famílias de muitos que pegaram em armas contra o regime militar, e que em suas ações deixaram mortos e feridos. Mais uma vez: acho justíssimo. Só não consigo entender por que não propor que os remanescentes da luta armada façam o mesmo em relação aos familiares das pessoas que eles assassinaram, feriram e seqüestraram. Aliás, não entendi por que os familiares das pessoas que foram mortas pelas organizações armadas de esquerda, ao contrário das vítimas da repressão, ainda não receberam nenhuma indenização. O caso do cidadão que perdeu uma perna em um atentado à bomba em 1968 em São Paulo e que hoje vive com uma magra pensão de aposentadoria por invalidez, enquanto o autor do crime foi indenizado regiamente por ter sido preso e torturado, é emblemático disso. Isso é justiça?
"O Brasil não teve uma comissão de verdade para identificar os torturadores e afastá-los do exercício de funções públicas. O Exército sonega informações à sociedade brasileira”, observa Weichert. Ele diz ainda: "Manter hoje acusados de tortura em cargos públicos é um risco para a sociedade", assegura Weichert. “É preciso reconhecer que a tortura funciona. Uma pessoa que pratica tortura, que se acostumou com isso e exerce a função de delegado, traz um risco para a sociedade".
Mais uma vez, estou de pleno acordo com o procurador. É preciso identificar e afastar das funções públicas todos aqueles que participaram em torturas e outros crimes da repressão. Mantê-los em cargos públicos é um risco para a sociedade. Assim como é manter todos aqueles que tiveram algum envolvimento com grupos de luta armada e em atos de terrorismo e que foram, igualmente, beneficiados pela Anistia. Concordo, aliás, que não existe ex-torturador, assim como não existe ex-espião e ex-terrorista. Portanto, figuras como Dilma Rousseff (VAR-Palmares), Franklin Martins (MR-8), Carlos Minc (VAR-Palmares), José Dirceu (ALN, Molipo), José Genoíno (PCdoB - guerrilha do Araguaia), Marco Aurélio Garcia (POC) e Paulo Vanucchi (ALN) devem ser imediatamente expurgados do serviço público, e impedidos para sempre de ocupar qualquer cargo no Estado brasileiro. Aguardo o dia em que esse ato seja publicado no Diário Oficial da União.
Os nomes citados aí acima são de ministros do atual governo, deputados, políticos. O rosto deles está na mídia todos os dias. São algumas das personalidades mais respeitadas e influentes do Brasil na atualidade. E os ex-agentes da repressão, que influência exercem sobre a vida política do País? Resposta: ZERO. Nada mesmo.
Para Weichert, incutiu-se no imaginário nacional a idéia de que a Lei de Anistia implica o esquecimento integral de toda a violência ocorrida no País. “Isso não se sustenta nem judicialmente nem sociologicamente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos diz que não se faz reconciliação com esquecimento. Isso pressupõe verdade, transparência e justiça”, acredita o procurador.´
O jurista Dalmo Dallari, professor aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), aponta como uma “contradição gritante” da Lei de Anistia a ampliação do indulto a todos aqueles que estavam a serviço do Estado. “Esses acusados não eram políticos, eram agentes públicos envolvidos em torturas. É uma legislação feita em causa própria, durante um governo ditatorial”, pontua.
Assim como os que praticaram torturas e outras atrocidades não eram políticos, os que praticaram ações armadas contra o regime também não o eram. E os delitos que eles cometeram, assim como a tortura, não foram crimes políticos, mas comuns. A menos que se considere assaltar bancos, seqüestrar diplomatas e explodir bombas crimes políticos. É verdade que a Anistia foi uma legislação em causa própria, pois beneficiou os agentes do próprio regime. Mas é verdade que perdoou também os que queriam derrubar o regime, e substituí-lo por uma ditadura comunista. A Lei de Anistia certamente não é perfeita, mas a situação por ela criada só permite duas soluções: ou se perdoa a todos ou não se perdoa ninguém. Nesse caso, não somente os torturadores, mas os terroristas, deveriam estar na cadeia.
Na Argentina, a ditadura caiu depois da desastrosa aventura das Malvinas. No Chile, alguns militares foram punidos por crimes cometidos fora de suas fronteiras, como o assassinato do ex-Chanceler de Allende nos EUA, em 1976. No Brasil, não houve nada disso. Além do mais, em ambos os países não foram apenas os militares, mas também integrantes de organizações armadas de esquerda, como os Montoneros e o MIR, que foram punidos após a redemocratização. Logo, não há analogia possível. Mas concordo que o brasileiro é exageradamente conciliador e evita os conflitos. Tanto que a ditadura militar aceitou perdoar, junto com seus agentes, aqueles que quiseram derrubá-la, inclusive pela violência. Alguém consegue imaginar o mesmo acontecendo em Cuba, por exemplo?
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Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da USP, não poupa argumentos para defender a punição exemplar a todos os que atuaram na repressão política. Autor da representação que levou o MPF a ajuizar a ação civil pública contra os antigos comandantes do DOI-Codi, ele atuou em outros três casos contra a União movidos por familiares de vítimas. Para Comparato, o recente processo “pode abrir caminho para punir tanto os executores como os mandantes dos crimes."
Embora considere difícil identificar todos os que ajudaram no aparato da repressão, até porque muitos documentos da época continuam sob sigilo de Estado, o advogado acredita ser possível, inclusive, estender esses processos aos colaboradores civis da ditadura. “Os empresários que ajudaram a financiar a repressão também devem ser punidos. É o princípio da co-autoria. E tem muita gente viva gozando dessa impunidade. Os filhos e netos deles têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: vocês foram responsáveis por mortes e torturas?”
Novamente: uma iniciativa justa, justíssima. Os colaboradores civis da repressão são co-autores dos crimes da ditadura. Devem portanto, ser responsabilizados por isso. Mas não só eles. O que dizer dos colaboradores civis, os "simpatizantes", das organizações armadas de esquerda? Muita gente, inclusive gente do meio artístico e empresarial, deu guarida e ajuda aos guerrilheiros. De acordo com o mesmo raciocínio, deveriam ser penalizados também. Seus filhos e netos, portanto, têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: papai, vovô, você foi responsável por mortes e assaltos a banco?
A reportagem inteira, como se vê, é, da primeira à última linha, pura peça de propaganda ideológica, proselitismo político disfarçado de jornalismo. A essa altura, quem chegou até aqui já deve ter percebido, e nem é preciso lembrar, mas eu vou dizer assim mesmo: com a exceção de um pequeno trecho em que se fala, de passagem, das torturas sofridas na OBAN por dois guerrilheiros, pai e filho, presos sob a acusação de terem executado um empresário em SP, NÃO HÁ QUALQUER MENÇÃO AO TERRORISMO DA ESQUERDA.
Certamente, punir quem torturou e assassinou friamente prisioneiros indefesos é uma mais que justa reivindicação, um ato de justiça. O problema é quando essa condenação vem acompanhada de uma manipulação muito peculiar e seletiva da memória histórica, como se apenas um dos lados tivesse feito uso da violência. Como se só houvesse algozes, de um lado, e vítimas, de outro.
E não se trata apenas de uma questão numérica. Mesmo no momento mais duro da repressão, os grupos de esquerda achavam tempo para se matarem uns aos outros. Jacob Gorender, em seu livro Combate nas Trevas, fala em pelo menos quatro "justiçamentos" - o nome que os terroristas davam aos assassinatos de seus próprios companheiros -, todos por meras suspeitas de traição. Um outro caso bastante exemplar é de um guerrilheiro do Araguaia, assassinado a tiros por ter se envolvido amorosamente com a esposa de um companheitro - um crime passível da pena capital, pelos critérios bastante peculiares do "tribunal revolucionário" do PCdoB. Os nomes dessas vítimas da esquerda, que podem ser encontrados na internet, não constam de nenhuma lista e de nenhum livro sobre os mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, inclusive do que o governo lançou no ano passado, com pompa e circunstância. É como se essas pessoas nunca tivessem existido.
Não dou a mínima para os torturadores: os crimes que cometeram foram bárbaros, e acho mesmo que eles devem ter seus nomes execrados e ser punidos por isso. Mas nem por isso concordo que se deve fechar os olhos para um dos lados da violência, a ponto de negá-la completamente. Por que punir um dos lados somente? Isso não é justiça. É outra coisa. A palavra é feia, ninguém gosta, lembra discurso de milico. Mas é preciso dizê-la com todas as letras: é revanchismo.
Millôr Fernandes escreveu que a luta armada dos anos 60 e 70 era um investimento para o futuro. Depois do Bolsa-Terrorismo, a esquerda quer revisar a Lei de Anistia. O terrorismo compensa.
quinta-feira, junho 19, 2008
COMO ACABOU A DITADURA

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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
A resistência de muitos setores em admitir isso se deve, em parte, ao fato de que a transição política, no Brasil, obedeceu a um paradoxo: foi o governo do presidente pessoalmente mais autoritário e centralizador do ciclo militar, o general Geisel, que enquadrou a linha-dura e deu início ao processo de abertura democrática. E isso não foi feito por meio de consulta popular, de forma democrática: foi com murro na mesa mesmo. O AI-5, por exemplo, passou a ser usado contra os próprios militares contrários à distensão política. Não foi o culto ecumênico na Praça da Sé pela morte de Vladimir Herzog, em 1975, mas o gesto autoritário do general Geisel, que levou à queda do comandante do II Exército e ao enquadramento da extrema direita militar. Por trás desse gesto, não estavam quaisquer considerações humanitárias por parte do general-presidente, mas única e simplesmente a defesa intransigente da hierarquia e da disciplina contra a anarquia militar. Ninguém quer admitir isso hoje em dia, pois seria reconhecer que a transição política, no Brasil, deveu-se mais a um conchavo de generais do que às "grandes manifestações populares", das quais todos se dizem os guias e mentores. Todos querem tirar uma casquinha da redemocratização.
Quando Geisel sai de cena e começa o governo do último presidente militar, o do general João Figueiredo (1979-1985), todas as condições estavam dadas para a redemocratização do País. Tanto que o governo Figueiredo, às voltas com a crise econômica, foi um anticlímax de desmoralização, terminando melancolicamente, pela porta dos fundos.
segunda-feira, junho 16, 2008
LUTA ARMADA - VELHAS E NOVAS FALÁCIAS

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Luta armada a favor ou contra a ditadura?
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16/6/2008
Antes de iniciar a crítica ao artigo propriamente dita, é bom apontar um lapso (?) no texto: nem toda a "direita" - no sentido que lhe dão os autores - defendia a ditadura militar. A menos que se considere alguém como o jurista Sobral Pinto, por exemplo, um radical esquerdista, o que está longe de ser verdade. Em 1964, a totalidade da direita - inclusive a imprensa - apoiou, sim, a derrubada do governo Goulart. Mas logo se desencantou com o regime, passando para a oposição. Um setor considerável, em especial a UDN, esperava que os militares devolvessem o poder rapidamente aos civis e restabelecessem a normalidade constitucional. Por se opor ao governo Castello Branco, o maior direitista brasileiro do período, Carlos Lacerda, foi cassado pelo regime, tendo de amargar o exílio. Logo, uma afirmação claramente falsa, logo no início. Continuemos.
A tese ignora que uma ação política pode gerar resultados não intencionais de grande repercussão. Assim, a luta armada contribuiu para o enfraquecimento da ditadura e o retorno da democracia, em que pese as intenções iniciais de seus agentes.
Assim como não era objetivo dos terroristas restaurar a democracia, e sim instaurar outra, comunista, em seu lugar, a conseqüência prática de suas ações não foi o enfraquecimento, mas o fortalecimento, da ditadura militar. Ou, usando um linguajar jurídico, inexiste liame causal entre uma coisa (a luta armada) e outra (a redemocratização).
Basta ver as datas. A luta armada ocorreu entre 1965 e 1974, quando então foi totalmente aniquilada. É justamente nesse período que o regime dos generais se consolida e, sobretudo após 1968, com o AI-5, atinge seu ponto culminante. É somente após a destruição dos grupos guerrilheiros, em 1974, que o regime começa a dar sinais de fraqueza, e começa o processo de abertura política. Esta não teve nada a ver com a luta armada, até porque esta já havia deixado de existir.
Mentira. Nada disso inviabiliza a tese de Villa. O fato de haver grupos que optavam pela via política e não pelo caminho armado, como o PCB e a AP, não retira da luta desses o caráter totalitário. Podiam diferir dos grupos armados nos métodos, mas não no objetivo final, que era um regime comunista ou socialista, logo não-democrático. É verdade que as ações armadas se intensificaram depois de 1968, mas é uma mentira afirmar que foi somente após o AI-5 que a esquerda armada fez sua opção pelo caminho militarista: é no período 1964-1968 que surgem as principais dissidências armadas de esquerda, como a ALN (surgida em 1967), a VPR e o PCBR (ambos em 1968). Já em 1966, a AP realiza a primeira ação terrorista do período, o atentado à bomba contra o general Costa e Silva no aeroporto do Recife, em 25 de julho, que deixou dois mortos e dezenas de feridos. Além disso, como deixam claro autores inclusive ligados à esquerda, como Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg, o projeto guerrilheiro é anterior ao próprio golpe de 64: já em 1961 - em pleno regime democrático, portanto -, as Ligas Camponesas de Francisco Julião mantinham vários acampamentos de guerrilha espalhados pelo País, e muitos de seus integrantes iam regularmente fazer treinamento guerrilheiro em Cuba. Isso aconteceu - é bom lembrar - três anos antes do golpe de 64.
A violência sempre foi cultivada pelos dirigentes militares, situando-se no centro da estratégia para consolidar o autoritarismo, cujo propósito era desmobilizar e despolitizar a sociedade e impor um modelo econômico que privilegiasse a rápida acumulação capitalista naquele contexto de Guerra Fria.
Típica bobagem retórica esquerdóide para fazer a cabeça de alunos de oitava série. Passemos adiante.
A escolha da força para obter obediência levou os órgãos de segurança a uma posição de destaque. Os órgãos da polícia política eram um dos núcleos centrais do poder. Destacava-se o SNI, comandado por generais do Exército, entre eles Golbery, o seu criador em 1964 e idealizador da distensão posteriormente executada por Geisel, chefe da Casa Militar de Castelo Branco, que negou a existência de abusos cometidos pelo regime e primeiro presidente a admitir, após deixar o cargo, a tortura como meio necessário para obter confissões.
Os dirigentes buscaram ampliar as bases do regime com a liberalização, pois, além da eficácia econômica dos anos 70, emergia o problema da legitimidade. A distensão/abertura estava condicionada à institucionalização de um regime pós-autoritário com restrições democráticas. A retirada das Forças Armadas implicava sua substituição por um esquema civil de confiança baseado no partido do governo, de modo a preservar os interesses institucionais dos militares.
Idem. Prossigamos.
Um bom exemplo é a Lei da Anistia, aprovada em 1979, que não permitiu a revisão das ações do aparelho militar, protegeu sua autonomia e reforçou o sentimento de impunidade das Forças Armadas. A sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão, a instituição militar não foi colocada em debate sobre os papéis que vinha desempenhando na política e a opinião pública não discutiu os valores necessários à construção de uma democracia.
Independentemente da discussão sobre a justeza ou não da Lei de Anistia, o fato é que ela perdoou os crimes cometidos pelos dois lados, tanto da repressão como da luta armada. A impunidade, portanto, não foi unilateral. Não sei de onde os autores retiraram a afirmação de que "a sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão" - a quantidade de livros, artigos e depoimentos que citam os torturadores nominalmente, e os métodos da repressão política, são suficientes para, enfileirados, dar uma volta completa na Terra. Os nomes dos torturadores, e seus métodos, até mesmo pela hegemonização da História do período militar pela esquerda acadêmica, são de todos conhecidos. Ao contrário de muitas ações da esquerda armada no período, como os chamados "justiçamentos" - o assassinato a sangue-frio de militantes por seus próprios companheiros de luta armada, por simples suspeita de traição -, sobre os quais, até o momento, a esquerda prefere manter um silêncio de pedra. Do mesmo modo, a instituição militar, por causa dessa propaganda, jamais foi tão denegrida e vilipendiada. Concordo apenas com a última frase: de fato, a sociedade não discutiu os valores necessários à construção da democracia. Isso porque esse debate vem sendo monopolizado, há uns trinta anos, pela esquerda, que de democrática tem muito pouco, como a luta armada.
Todas as formas de luta contra a ditadura devem ser vistas como um direito legítimo contra a opressão política. Até Locke, o mais liberal dos liberais e um dos inspiradores das revoluções americana e francesa, sustenta que o povo tem o direito à resistência quando o Estado usa a força sem direito e sem justiça.
Todas as formas? Têm certeza? Inclusive o terrorismo? Inclusive fazer em pedaços o corpo de um recruta de 19 anos na explosão de um carro-bomba? Inclusive esfacelar a coronhadas o crânio de um tenente da PM capturado após render-se? Inclusive exterminar, a queima-roupa, um militar norte-americano pelo único crime de ele ser militar e norte-americano? Que vínculo existe entre esses atos de terror ensandecido e a volta das liberdades democráticas no Brasil?
Uma das teses preferidas da intelligentsia esquerdista é que a luta armada serviu para demonstrar a insatisfação da sociedade com a ditadura. A tese é furada, em primeiro lugar, porque a sociedade, pelo menos até o fim do "milagre" econômico, em meados dos anos 70, não estava descontente com o regime coisa nenhuma. Pelo contrário: embalada pelos altos índices de desenvolvimento econômico, ela, sobretudo a classe média, aplaudia a ditadura. O presidente Médici, por exemplo, era extremamente popular. Por isso que a luta armada não passou de uma luta isolada, sem apoio da população. Foi por isso, também, que a sociedade buscou outras formas de resistência ao arbítrio dos militares, todas legais, como bem explica Marco Antonio Villa. Desde quando explodir bombas e seqüestrar diplomatas estrangeiros era a única forma de expressar essa insatisfação, aliás inexistente? A luta armada não se fez sob a égide de Locke ou de qualquer outro pensador liberal. Seus referenciais eram outros: eram Lênin, Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro.
O fato de as regras políticas não serem legítimas em um regime autoritário não diz nada a favor dos que quiseram substituí-lo não pela democracia, mas por uma ditadura totalitária. Os próprios autores se contradizem, ao reconhecerem que a derrota da ditadura ocorreu no campo institucional, e não por qualquer outra via. Admitem que a mobilização da oposição que teria posto fim à ditadura ocorreu entre 1974 e 1985, o que é inegável. Justamente no período em que a luta armada já havia sido dizimada, não tendo, portanto, capacidade alguma de influir no processo político. Como, então, dizer que a luta armada teve, como uma de suas "consequências não-intencionais", o fim da ditadura?
Se a esquerda reconhece os equívocos da luta armada após 1968, a ela não devem ser atribuídas certas responsabilidades políticas cujo objetivo primeiro é enfraquecê-la moralmente como aliada do atual governo.
Falso. O próprio texto é uma demonstração de que a esquerda - pelo menos a fração da esquerda nostálgica da guerrilha - não reconhece os equívocos do passado ("só" equívocos? não seriam crimes?). Pelo contrário: os enaltece e os reivindica.
Falácias sobre os "anos de chumbo" no Brasil
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sexta-feira, fevereiro 15, 2008
A VOLTA DOS CAÇA-FANTASMAS

Outro fator que trabalha a favor da legenda áurea esquerdista é o inegável fascínio que as teorias da conspiração exercem sobre o cérebro humano. De fato, nas últimas décadas surgiu uma verdadeira indústria sobre o tema. Com o detalhe de que, em quase todos os casos, os suspeitos são sempre, invariavelmente, representantes da "direita", do establishment, do imperialismo, da CIA etc. Décadas de propaganda nos tornaram todos predispostos, psicológica e ideologicamente, a aceitar as teses mais estapafúrdias, desde que o culpado seja, claro, a direita. Vejam o caso mais famoso do mundo: o assassinato de John F. Kennedy, em 1963. Já surgiram as teorias mais descabeladas sobre o assunto, apontando para a CIA (sempre ela!), a máfia, o complexo industrial-militar, os exilados cubanos anticastristas de Miami, os brancos racistas do sul dos EUA etc. (só faltou o Mickey Mouse e o Pernalonga). Quase ninguém se contentou com a conclusão óbvia, ou seja, que o autor dos tiros foi Lee Harvey Oswald, um sujeito estranho ("ruim de mira", disseram), e com o fato de que todos os indícios apontavam para o envolvimento de Cuba e da URSS no caso, pois Oswald era membro de um grupo pró-Castro, exilara-se na URSS alguns anos antes e requerera, inclusive, sua entrada em Cuba semanas antes dos tiros em Dallas ("era um agente duplo, um provocador a soldo da CIA" etc.). Mas, como sabem todos os que já assistiram ao filme de Oliver Stone sobre o assunto, o culpado só poderia ser alguém na, ou com conexões com, a Casa Branca... Ou seja: havia fortes motivos para aventar a participação não da CIA, da máfia ou de quem quer que seja, mas de um governo estrangeiro - o de Cuba -, com o qual os EUA estavam em guerra, numa trama para assassinar o presidente dos EUA, mas mesmo assim preferiu-se a tese do "atirador isolado e desequilibrado", ou então do "complô-das-forças-direitistas-e-reacionárias-descontentes-com-a-política-progressista-de-Kennedy". Hum...
O mesmo padrão conspiracionista se verificou logo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Quem não se lembra? Na ocasião, pipocaram teorias sobre quem teria sido o verdadeiro cérebro por trás dos ataques: a CIA (olha ela aí de novo!), as gigantes do petróleo norte-americano, Bush, o Mossad israelense... Só faltou dizer que foram os mesmos que mataram Odete Roittman e Salomão Ayala. Não faltou quem, como o renomado economista Celso Furtado, cogitou da possibilidade de ter sido o próprio governo estadunidense o autor da atrocidade. Quando ficou claro que os responsáveis pela tragédia foram fanáticos islâmicos, reunidos em torno de Osama Bin Laden, os conspiracionistas mudaram de tática: passaram a tentar justificar a morte de 3 mil pessoas como uma resposta legítima de um povo oprimido contra a opressão do imperialismo ocidental, ou como a revolta da criatura contra o criador... (ainda tenho vivos na memória os textos de Leonardo Boff e de Tariq Ali regozijando-se pela queda das Torres Gêmeas). Ou seja: culpe os EUA, nunca seus inimigos, esse é o caminho.
Tudo isso me dá o direito, creio eu, de desconfiar das "revelações" do suposto ex-araponga uruguaio sobre a morte de Jango. Principalmente quando acabo de ler que Hugo Chávez, o caudilho fanfarrão da Venezuela, declarou que quer exumar o cadáver de Simón Bolívar, que ele considera o "pai espiritual" de sua "revolução", para averiguar as "verdadeiras causas" de sua morte (supostamente, diz Chávez, por envenenamento). Chávez já disse várias vezes que o governo dos EUA planeja matá-lo. A se julgar pela forma como ele se apropriou da história de seu país para falsificá-la, e dos instrumentos da democracia para destruí-la, é de supor que ele é capaz de cometer suicídio somente para botar a culpa no Bush, ou de culpá-lo pela morte de Bolívar. Enquanto a História for vista como uma via de mão única, com os esquerdistas retratados sempre como vítimas e seus adversários, como cruéis vilões, seus fantasmas continuarão a nos assombrar.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
"HÉRCULES 56": A HISTÓRIA SEQÜESTRADA
