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quinta-feira, setembro 04, 2008

JUSTIÇA - E MEMÓRIA - SELETIVA (OU: COMO DISTORCER A HISTÓRIA PARA QUE ELA DIGA SÓ O QUE NOS CONVÉM)

Republicanos espanhóis treinam pontaria em uma estátua de Cristo, década de 30: para as esquerdas, apenas seus mortos contam


Leio hoje na imprensa: o juiz espanhol Baltazar Garzón ordenou nesta semana que se comece a reunir informações sobre os desaparecidos durante a Guerra Civil na Espanha e a subseqüente ditadura, com o objetivo de - abre aspas - "montar uma lista confiável de vítimas dos conflitos".
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Para quem não conhece o personagem citado acima, vou apresentá-lo: Baltazar Garzón é aquele juiz que, em 1998, causou uma onda de furor mundial ao mandar prender e tentar extraditar para a Espanha o ex-ditador do Chile Augusto Pinochet, falecido dois anos atrás. Desde então, ele, Garzón, tornou-se conhecido mundialmente como um perseguidor implacável de ex-ditadores, sobretudo generais sul-americanos, e um herói dos direitos humanos para os esquerdistas.
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O que quer o meritíssimo juiz? Cito mais uma vez a imprensa, no caso o portal Terra de hoje, 4 de setembro: "Garzon emitiu um pedido para que líderes religiosos, prefeitos e outras autoridades coletem informações sobre as pessoas mortas pelos exércitos do general Franco após a ascensão dele ao poder, em 17 de julho de 1936". Aparentemente, algo muito justo. Mesmo sabendo-se que Franco morreu trinta e três anos atrás, em 1975, e que desde então a Espanha é uma democracia. Aparentemente. Porque, se o objetivo do juiz Garzón fosse mesmo fazer justiça, ele não se cingiria a um lado somente da contenda. Leiam de novo a notícia. Lá está escrito, por acaso, que Garzón mandou que se investigassem as mortes causadas pelos dois lados do conflito, ou simplesmente os mortos na Guerra Civil Espanhola? Nada disso. O que ele quer são informações sobre as pessoas mortas - vou repetir, mais uma vez entre aspas - "PELOS EXÉRCITOS DO GENERAL FRANCO após a ascensão dele ao poder" etc.
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Perceberam a manobra? Entenderam a impostura? Captaram a tapeação, a empulhação, a mentira?
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A iniciativa do juiz Garzón não tem por objetivo fazer justiça coisa nenhuma. É mais uma malandragem retórica, uma tentativa espertalhona de distorcer a História travestida de humanitarismo jurídico. No caso, a História da Guerra Civil Espanhola, um conflito que resultou em cerca de meio milhão de mortos entre 1936 e 1939. Aqui, repete-se com esse episódio o mesmo sofisma que se tornou lugar-comum para outros fatos históricos do século XX, como a Guerra do Vietnã e as ditaduras militares sul-americanas: as vítimas foram de um lado apenas. Até hoje, quando se fala na Guerra Civil Espanhola, a primeira coisa que vem à mente é o bombardeio da cidade de Guernica pela Legião Condor de Hitler a serviço dos franquistas - fato imortalizado no célebre quadro de Pablo Picasso, que pintava coisas a soldo do Partido Comunista -, e não o que os dois lados fizeram. É preciso lembrar. O meio milhão de mortes no conflito que ensanguentou a Espanha e que o juiz Garzón deseja ver investigadas não se deveram unicamente aos "exércitos de Franco", como ele diz (ou seja, à frente de setores nacionalistas, conservadores e monarquistas que se rebelaram contra a Segunda República espanhola, proclamada em 1931), mas também - e isso não convém lembrar -, às forças republicanas, integradas por liberais, socialistas e, principalmente, comunistas. Estes últimos, na luta contra os franquistas, cometeram igualmente inúmeras atrocidades, chegando ao ponto de fuzilar centenas de padres católicos e incendiar igrejas. Além disso, grande parte das vítimas do lado republicano caíram sob as balas não dos exércitos nacionalistas de Franco, mas dos agentes da NKVD (a polícia política soviética, antecessora do KGB) do ditador Josef Stálin, que foram despachados para a Espanha não para combater os fascistas e defender a democracia, mas para liquidar os adversários da URSS nas fileiras republicanas, como os trotskistas e os anarquistas. E cumpriram essa missão, vale dizer, com dedicação canina e métodos científicos, como um bala na nuca. Para quem quiser saber mais como ocorreu esse banho de sangue, um dos massacres auto-infligidos menos conhecidos do século XX, recomendo a leitura de Lutando na Espanha, de George Orwell, e de A Batalha pela Espanha, de Antony Beevor. Será que o juiz Garzón vai pedir que se investiguem essas mortes também?
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De fato, o senso de justiça do sr. Garzón parece ser bem seletivo. Implacável para com generais de pijama sul-americanos, a ponto de compará-los aos nazistas e de reivindicar, para si, jurisdição universal para caçá-los onde quer que estejam, Garzón costuma ser bem tolerante, para dizer o mínimo, quando se trata de outras ditaduras. A de Fidel Castro em Cuba, por exemplo. Certa vez, perguntado por que não se mostrava tão implacável e inquiridor com o tiranossauro do Caribe, ele saiu-se com a seguinte pérola de valentia: disse que não podia fazer nada contra chefes de Estado ainda no exercício de suas funções. Ou seja: era preciso esperar o ditador aposentar-se, ou morrer, para pensar em fazer alguma coisa. Pois bem. No começo deste ano, após 49 anos de ditadura ininterrupta, Fidel renunciou - pelo menos foi o que se disse na imprensa - aos cargos que ocupava no Estado cubano. Tecnicamente, portanto, o barbudo não é mais um chefe de Estado, e, segundo o argumento do juiz Garzón, pode ser processado por seus crimes. Até o momento em que escrevo estas linhas, porém, o excelentíssimo juiz ainda não tinha iniciado o processo do ditador cubano, responsável, entre outras coisas, por 17 mil fuzilamentos e mais 78 mil afogados tentando fugir da ilha-prisão de Cuba desde 1959. Como diria o Capitão Nascimento: um verdadeiro fanfarrão, esse juiz Garzón.
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Alguns dias atrás, Garzón esteve no Brasil, em plena polêmica da revisão, ou não, da Lei de Anistia. Na ocasião, em entrevista para a Carta Capital, Garzón endossou a tese de Tarso Genro e defendeu a punição para os torturadores da época do regime militar. Afirmou que tortura é crime imprescritível. Estranhamente - ou não -, não disse nada sobre o terrorismo das organizações armadas de esquerda que mataram várias pessoas inocentes no mesmo período. Será que o terrorismo deixou de ser, também, um crime imprescritível? Ou será que - o mais provável - os mortos, nesse caso, estavam do lado errado?
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"Ah mas então você não quer que se investiguem as mortes". Não, nada disso. Não estou dizendo que não se deve investigar, nem que o melhor é esquecer. Mais uma vez: Não! É justamente o contrário: quero que se investigue sim, o destino dos mortos e desaparecidos, e que a História - TODA a História, e não parte dela - seja lembrada e esclarecida. Quero, inclusive, que os torturadores paguem por seus crimes, e que, se for para revisar a Lei de Anistia de 1979, que assim seja. Mas quero que os que mataram, feriram e torturaram - sim, torturaram! ou vai dizer que seqüestro não é uma forma de tortura? - do "outro lado", ou seja, do lado que hoje pede "justiça" e a revisão da Lei, paguem também. É isso, aliás, o que me distingue do sr. Baltazar Garzón, assim como de seus amigos esquerdistas: eu quero que a História seja desvendada por inteiro; eles querem que seja pela metade - a metade que lhes convém, claro.
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A manipulação da História pela esquerda não é um fato novo. É uma tática sistematicamente empregada, há décadas, para fazer todos acreditarem que ela é sempre vítima, jamais o lado agressor. Fazem isso para incutir nos espiritos ingênuos ou mal-informados (ou seja: na maioria das pessoas) a idéia de que seus crimes são virtuosos e que qualquer um que os denuncie é um salafrário e um bandido, um "reacionário", até mesmo um "fascista". Para atingir esse objetivo, os esquerdistas não hesitam em esconder uma parte da verdade, ou em se basear nela para propagar mentiras, ou em recorrer à mentira pura e simples. Um exemplo histórico é a falsa acusação feita pela URSS no Tribunal de Nuremberg, em 1946, segundo a qual os nazistas teriam sido os responsáveis pelo massacre de milhares de oficiais militares poloneses na floresta de Katyn, em 1940. Sabendo que os nazistas estavam na berlinda, universalmente execrados como autores de crimes horrendos contra a humanidade, e que qualquer delito que lhes fosse imputado teria uma boa probabilidade de ser considerado, os comunistas tentaram atribuir aos nazistas mais esse crime. Com esse ardil, buscaram encobrir sua própria participação no episódio - foram os comunistas, e não os nazistas, os autores da chacina, revelou-se depois - e, de quebra, fazer todos esquecerem sua aliança com os próprios nazistas - quando ocorreu o massacre, Stálin e Hitler tinham acabado de dividir entre si a Polônia, após a assinatura do infame Pacto de "não-agressão" entre os dois ditadores, em agosto de 1939. Esse é apenas um exemplo, entre tantos, de como as esquerdas se habituaram a distorcer a História para atender a seus próprios interesses.
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Algum tempo atrás escrevi aqui que o clube mais numeroso que existe é o dos inimigos das ditaduras passadas e amigos das ditaduras presentes. Se essas são de esquerda, então, viram não amigos, mas militantes das mesmas. Este é exatamente o caso do juiz Baltazar Garzón.

sexta-feira, agosto 01, 2008

A MARCHA DOS REVANCHISTAS

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TARSO, CUIDADO COM O QUE VOCÊ DESEJA! HÁ O RISCO DE CONSEGUIR...
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É realmente uma magnífica coincidência que tenha vindo a público a reportagem da revista Cambio — exibindo quantos são os valentes do governo Lula e do petismo que buscaram, como direi?, entender o universo das Farc — no dia em que o Ministério da Justiça deu largada à tentativa de jogar no lixo a Lei de Anistia, de 1979, que abriu o caminho, no país, para o fim da ditadura.
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De saída, cumpre afirmar uma coisa de maneira clara, transparente e insofismável: como sabemos, aqueles que, no passado, se comprometeram com a ditadura, ainda que nos porões — e o torturador, de fato, está no último degrau da cadeia alimentar da civilização —, desistiram do horror. Já alguns esquerdistas que, no passado, aderiram à luta armada e ao terrorismo, bem..., estes continuam a namorar com o totalitarismo até hoje. Um grupo de anistiados acatou a democracia. O outro ainda não. E justamente os que não acataram querem, agora, se vingar. Faz sentido! Jamais quiseram democracia: nem antes nem depois de 1964, nem antes nem depois do fim do regime militar.
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A tese de Tarso Genro é só uma malandragem retórica. Segundo diz, esse revisionismo — de fato, é revanchismo — não alcançaria aqueles que cumpriram as leis de então, ainda que fossem de exceção e próprias de um regime autoritário. Mas, argumenta Tarso, elas não permitiam a tortura.
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Além de ser uma estupidez política e uma estupidez histórica, trata-se também de uma estupidez lógica. Ora, não podendo punir seus adversários segundo o estado que temos hoje, democrático e de direito, Tarso apela ao estado que tínhamos então, de direito também, mas ditatorial. O homem ressuscita, se preciso, a, digamos, metafísica do estado de exceção para promover o que me parece ser um tentativa de vingança.
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E o terrorismo?
A pergunta óbvia se impõe: e o terrorismo? Que estado o suporta? Não o abrigava aquele, como não o abriga este de agora. Depreende-se da fala do ministro que os que agiram em nome das leis de exceção estão anistiados, mas ficam fora do perdão os que não encontravam naquela legislação abrigo para seus desatinos. E quem seqüestrou, assaltou bancos e matou civis e soldados? Alguns dos criminosos de então estão hoje no poder. Que lei os anistiou? Não é a mesma que, segundo ele, exclui os “torturadores”? Com isso, ele pretende que declaremos a tortura inaceitável e imprescritível — como se alguém a aceitasse hoje em dia. Quer dizer que devemos supor que aquela mesma lei estava, sem que soubéssemos, sendo leniente com o terrorismo? O espírito da Lei de Anistia declarava a superoridade moral do terrorista sobre o torturador?
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Ademais, não custa lembrar: outro promotor da revanche é ninguém menos do que Paulo Vannuchi, secretário nacional de Direitos Humanos, um dos homens que aparecem na reportagem da revista Cambio como muito compreensivos com a luta dos terroristas das Farc. Ele é dos "direitos humanos", e as Farc mantêm campos de concentração.
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A lei retroage?
Leiam o que escreve um leitor deste blog de modo irreparável e irrespondível:
“A imbecilidade em torno da discussão sobre a reabertura de processos da época da ditadura está (também) no fato de que, naquele tempo, não existia juridicamente o crime de tortura, que só foi criado no Brasil por meio da Lei n.º 9.455/97. Alguém precisa lembrar que as leis penais que criam novos crimes no cenário jurídico não são retroativas?
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Os atos de tortura praticados antes da Lei n.º 9.455/97 podiam ser punidos a título de abuso de autoridade (Lei n.º 4.898/65) e, conforme os resultados físicos dos atos de agressão, também a título de lesões corporais (art. 129 do Código Penal) e/ou homicídio (art. 121 do Código Penal).
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Ocorre que a lei brasileira não prevê um prazo de prescrição maior do que 20 (vinte) anos (art. 109, inciso I, do Código Penal), seja o crime qual for. Assim, se alguns pretendem discutir a possibilidade de punição a atos criminosos ocorridos até o ano de 1979, estão discutindo a (im)possibilidade de aplicação de sanções a fatos já prescritos até, no máximo, o ano de 1999.
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A grande questão que se põe é a seguinte: o papo do governo é para rir, chorar ou dar sono?”
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Causa finita est
A menos que Tarso consiga criar a Lei de Exceção da democracia, essa conversa não vai dar em nada e seria, obviamente, bombardeada no Supremo. O que ele quer com isso? Eis uma boa questão. Alguns leitores estão aventando uma hipótese um tanto conspiratória, é verdade, mas que tem a sua graça. Parece que Tarso, que se quer pré-candidato à Presidência, está disposto a (re)encruar os chamados Anos de Chumbo, em que ex-torturadores e ex-terroristas teriam de emergir do passado com nome e sobrenome, os reais. A turma do porão hoje veste pijama. Os que aderiram ao terror, no entanto, estão no poder. Um de seus membros destacados é Dilma Rousseff, a companheira Estela, adversária interna de Tarso no PT.
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Já imaginaram? Trinta anos depois da Lei da Anistia, alguns militares iriam em cana graças a uma revisão unilateral da lei, e a ex-companheira Estela se prepararia para um campanha eleitoral, candidata a comandante-em-chefe das Forças Armadas. Acho que não vai funcionar...
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“Se os ministros citados quiserem insistir na revanche, sempre é de bom tom lembrar um pensamento que diz: “É bom ter cuidado com o que você deseja; afinal, você pode conseguir”. O trecho foi enviado pelo leitor Paulo Boccato. Serve como uma luva para encerrar o texto.

quinta-feira, junho 26, 2008

ELES QUEREM REVANCHE, NÃO JUSTIÇA


Atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, Recife, 25/07/1966: violência não foi só da ditadura

Os "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil já renderam uma vasta literatura bastante desigual, vários filmes (alguns assistíveis, a maioria nem isso) e uma infinidade de mitos. Alguns deles já analisei aqui. A moda agora é defender a revisão da Lei de Anistia de 1979, que perdoou os crimes praticados tanto pela esquerda quanto pela repressão político-militar. O Secretário Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, já defendeu publicamente a idéia, colocando-se a favor da punição dos agentes da repressão que cometeram torturas e outras barbaridades. Que ponham as barbas de molho, advertiu.

Alguns órgãos da imprensa colocaram-se a serviço dessa causa. Um deles, a revista Carta Capital, publicou nesta semana reportagem de capa sobre o assunto. Talvez alguém se surpreenda ao me ver comentando matéria da Carta Capital, uma publicação chapa-branca, a qual já reservei aqui alguns comentários. Mas às vezes é preciso, como disse aquele ator da Globo que quis justificar o mensalão, meter a mão na merda. Antes eu tinha algumas dúvidas sobre as reais motivações da esquerda em querer reabrir algumas feridas do passado. Ao final da leitura da reportagem, não as tinha mais (a reportagem completa está aqui: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=1207).

Em resumo: a reportagem da Carta Capital informa que dois promotores do Ministério Publico Federal (MPF) encaminharam ação à Justiça Federal para responsabilizar civilmente torturadores e autoridades da época da ditadura militar no Brasil por crimes cometidos no DOI-Codi paulista, entre 1970 e 1976. A Procuradoria-Geral da República de São Paulo avalia que agentes públicos, “notadamente da União Federal”, praticaram abusos e atos criminosos contra opositores ao regime, e que as ilegalidades ocorridas naquela instituição militar, como as prisões ilegais, torturas, homicídios e desaparecimentos forçados, são consideradas pelo Ministério Público como crimes de “lesa-humanidade”. A ação lembra que o Comitê de Direitos Humanos da ONU recomendou ao governo brasileiro que torne públicos os documentos sobre violações aos direitos humanos no País e responsabilize os autores de todos esses crimes.

O.k. A tortura é mesmo horrível, um crime de lesa-humanidade. Quanto a isso creio que ninguém que regule bem das idéias pode discordar. Mas e o terrorismo, não é? Pendurar alguém no pau-de-arara, aplicar-lhe choques elétricos, espancar prisioneiros, é algo repulsivo e contrário à dignidade humana. Merece, pois, toda condenação. Explodir bombas em locais apinhados de gente como um aeroporto, executar friamente um militar aprisionado, colocar em risco a vida de civis inocentes em assaltos a bancos, também. Por que então o MP está exigindo a responsabilização penal de um lado apenas? A ONU, inclusive, já aprovou diversas declarações e resoluções condenando o terrorismo, assim como a tortura. Duplo padrão, viés ideológico, está claro. Adiante.

A política de repressão e perseguição ampla “mediante violência” partiu, naquele momento da história do País, da Presidência da República e do Ministério do Exército, avalia o procurador regional Marlon Alberto Weichert, autor da ação juntamente com a colega Eugênia Gonzaga Fávero. Assim, se os responsáveis pelas torturas não tiverem seus nomes execrados publicamente, por não estarem vivos, espera-se, pelo menos, que não continuem dando nomes a escolas, pontes e viadutos pelo País afora. Um dos mais sanguinários policiais do País, o delegado Sergio Paranhos Fleury, do antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), por exemplo, é nome de rua hoje na cidade de São Carlos (SP). O general Milton Tavares também foi agraciado com um viaduto acima do rio Tietê, em São Paulo. Seu nome está lá estampado.

Entendi. A idéia é expor os torturadores e seus mandantes. Ou, pelo menos, caso não estejam mais vivos, não permitir que seus nomes batizem ruas e outros locais públicos. Acho justo. Não gostaria nem um pouco de morar numa rua chamada Sérgio Paranhos Fleury, ou Milton Tavares, ou Emílio Garrastazu Médici (sei que existe uma cidade chamada Presidente Médici, se não me engano no Amazonas). Mas ficaria também muito incomodado se meu endereço fosse Rua Carlos Mariguella, ou avenida Carlos Lamarca... Afinal, esses não atuaram também, "mediante violência" como diz a denúncia do MP, no período? Mariguella, por sinal, não chegou mesmo a proclamar em vários documentos o orgulho de ser terrorista? E o terrorismo não é condenado pela ONU? Querem execrar todos os que fizeram uso da violência durante a ditadura militar, tudo bem, acho ótimo, não tenho nada a opor. E retirar seus nomes de ruas, escolas, pontes e outros locais públicos? Perfeito. Então, que se retirem os nomes de Carlos Mariguella e Carlos Lamarca das placas também. Lamarca, aliás, foi promovido postumamente a general, e sua família recebeu uma indenização do governo. Não me consta que o mesmo tenha acontecido aos parentes de Fleury ou de qualquer outro torturador. Por que execrar uns e louvar outros?

A ação de Weichert e Eugênia tem o objetivo de impedir que os abusos praticados no passado voltem a se repetir. Subscrita por outros quatro procuradores, ela foi encaminhada e aceita pela Justiça Federal no fim de maio. A Procuradoria pede a devolução para a União de todos os valores pagos em indenizações a 64 familiares de mortos e desaparecidos políticos. São presos mortos no DOI-Codi, reconhecidos oficialmente pelo governo brasileiro no documento Direito à Memória e à Verdade, produzido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. O total a ser devolvido aos cofres do governo, conforme a ação, ultrapassa 9 milhões de reais.

Estou entendendo cada vez mais. Não se trata apenas de expor os nomes dos torturadores à execração pública - coisa, aliás, que vem sendo feita há bastante tempo, e que a própria Carta Capital faz em sua capa desta semana, mostrando, com foto e legenda, o rosto de um policial do interior de SP acusado de ter sido torturador no DOI-CODI nos anos 70. A questão vai um pouco mais além. Trata-se, também, de exigir que os responsáveis pelas mortes e desaparecimentos de presos políticos desembolsem a quantidade gasta pela União com as indenizações. Que foram concedidas prodigamente, diga-se de passagem, às famílias de muitos que pegaram em armas contra o regime militar, e que em suas ações deixaram mortos e feridos. Mais uma vez: acho justíssimo. Só não consigo entender por que não propor que os remanescentes da luta armada façam o mesmo em relação aos familiares das pessoas que eles assassinaram, feriram e seqüestraram. Aliás, não entendi por que os familiares das pessoas que foram mortas pelas organizações armadas de esquerda, ao contrário das vítimas da repressão, ainda não receberam nenhuma indenização. O caso do cidadão que perdeu uma perna em um atentado à bomba em 1968 em São Paulo e que hoje vive com uma magra pensão de aposentadoria por invalidez, enquanto o autor do crime foi indenizado regiamente por ter sido preso e torturado, é emblemático disso. Isso é justiça?

"O Brasil não teve uma comissão de verdade para identificar os torturadores e afastá-los do exercício de funções públicas. O Exército sonega informações à sociedade brasileira”, observa Weichert. Ele diz ainda: "Manter hoje acusados de tortura em cargos públicos é um risco para a sociedade", assegura Weichert. “É preciso reconhecer que a tortura funciona. Uma pessoa que pratica tortura, que se acostumou com isso e exerce a função de delegado, traz um risco para a sociedade".

Mais uma vez, estou de pleno acordo com o procurador. É preciso identificar e afastar das funções públicas todos aqueles que participaram em torturas e outros crimes da repressão. Mantê-los em cargos públicos é um risco para a sociedade. Assim como é manter todos aqueles que tiveram algum envolvimento com grupos de luta armada e em atos de terrorismo e que foram, igualmente, beneficiados pela Anistia. Concordo, aliás, que não existe ex-torturador, assim como não existe ex-espião e ex-terrorista. Portanto, figuras como Dilma Rousseff (VAR-Palmares), Franklin Martins (MR-8), Carlos Minc (VAR-Palmares), José Dirceu (ALN, Molipo), José Genoíno (PCdoB - guerrilha do Araguaia), Marco Aurélio Garcia (POC) e Paulo Vanucchi (ALN) devem ser imediatamente expurgados do serviço público, e impedidos para sempre de ocupar qualquer cargo no Estado brasileiro. Aguardo o dia em que esse ato seja publicado no Diário Oficial da União.

Os nomes citados aí acima são de ministros do atual governo, deputados, políticos. O rosto deles está na mídia todos os dias. São algumas das personalidades mais respeitadas e influentes do Brasil na atualidade. E os ex-agentes da repressão, que influência exercem sobre a vida política do País? Resposta: ZERO. Nada mesmo.

Para Weichert, incutiu-se no imaginário nacional a idéia de que a Lei de Anistia implica o esquecimento integral de toda a violência ocorrida no País. “Isso não se sustenta nem judicialmente nem sociologicamente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos diz que não se faz reconciliação com esquecimento. Isso pressupõe verdade, transparência e justiça”, acredita o procurador.´

Corretíssimo. Também concordo que Anistia não quer dizer esquecimento. É preciso lembrar, por mais doloroso que seja, até para que nunca mais ocorra de novo. Daí porque não consigo entender o critério adotado pelo MP, de lembrar apenas uma parte da História. Aprendi que lembrar pela metade é esquecer pela metade. Que os crimes da repressão sejam lembrados e execrados. Que os crimes da esquerda também. Somente assim se vai alcançar alguma reconciliação com o passado.

O jurista Dalmo Dallari, professor aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), aponta como uma “contradição gritante” da Lei de Anistia a ampliação do indulto a todos aqueles que estavam a serviço do Estado. “Esses acusados não eram políticos, eram agentes públicos envolvidos em torturas. É uma legislação feita em causa própria, durante um governo ditatorial”, pontua.

Assim como os que praticaram torturas e outras atrocidades não eram políticos, os que praticaram ações armadas contra o regime também não o eram. E os delitos que eles cometeram, assim como a tortura, não foram crimes políticos, mas comuns. A menos que se considere assaltar bancos, seqüestrar diplomatas e explodir bombas crimes políticos. É verdade que a Anistia foi uma legislação em causa própria, pois beneficiou os agentes do próprio regime. Mas é verdade que perdoou também os que queriam derrubar o regime, e substituí-lo por uma ditadura comunista. A Lei de Anistia certamente não é perfeita, mas a situação por ela criada só permite duas soluções: ou se perdoa a todos ou não se perdoa ninguém. Nesse caso, não somente os torturadores, mas os terroristas, deveriam estar na cadeia.

É verdade que outros países seguiram pelo mesmo caminho durante um tempo. Era necessário evitar o conflito. Mas a Argentina e o Chile estão punindo seus repressores. Nós, 20 anos após a redemocratização, nem sequer abrimos os arquivos da ditadura. O brasileiro tem uma tradição de conciliação absolutamente exagerada.

Na Argentina, a ditadura caiu depois da desastrosa aventura das Malvinas. No Chile, alguns militares foram punidos por crimes cometidos fora de suas fronteiras, como o assassinato do ex-Chanceler de Allende nos EUA, em 1976. No Brasil, não houve nada disso. Além do mais, em ambos os países não foram apenas os militares, mas também integrantes de organizações armadas de esquerda, como os Montoneros e o MIR, que foram punidos após a redemocratização. Logo, não há analogia possível. Mas concordo que o brasileiro é exageradamente conciliador e evita os conflitos. Tanto que a ditadura militar aceitou perdoar, junto com seus agentes, aqueles que quiseram derrubá-la, inclusive pela violência. Alguém consegue imaginar o mesmo acontecendo em Cuba, por exemplo?

No Brasil, a situação está muito aquém dos exemplos dos vizinhos do Cone Sul. Até agora nem sequer conseguimos responsabilizar na área cível um único agente de repressão. Que dirá colocá-los na cadeia. A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, por exemplo, insiste há anos na abertura dos arquivos da ditadura. “Não precisa abrir tudo. Há documentos que podem comprometer a soberania nacional ou provocar incidentes diplomáticos. Como também existem pessoas que não estão dispostas a ver a vida de familiares devassada”, pondera o advogado Marco Antônio Barbosa, presidente da comissão. “Mas é necessário criar um critério justo e claro para revelar alguns documentos e avançar nesse trabalho de resgate da memória”, completa.
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Hummm... Não precisa abrir tudo, é? Por que será? Acho estranha essa seletividade. Como estudante da História nacional, e como cidadão brasileiro, gostaria que fossem abertos todos os arquivos, não somente uns. Quem vai definir os critérios? Será que vão fazer um comitê para estabelecer que documentos podem ser divulgados, e quais não podem, porque podem "comprometer a soberania nacional", "provocar incidentes diplomáticos" ou porque - meu argumento preferido - "existem pessoas que não estão dispostas a ver a vida de familiares devassadas"? Mas os torturadores, não têm sua vida devassada o tempo todo? Afinal, do que têm medo que venha a público? Será que é o destino dos dólares que Cuba deu a Brizola? Ou o nome de algum traidor? Os arquivos ainda nem foram abertos, e já desconfio que, se forem um dia, será mais para esconder do que para revelar...

Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da USP, não poupa argumentos para defender a punição exemplar a todos os que atuaram na repressão política. Autor da representação que levou o MPF a ajuizar a ação civil pública contra os antigos comandantes do DOI-Codi, ele atuou em outros três casos contra a União movidos por familiares de vítimas. Para Comparato, o recente processo “pode abrir caminho para punir tanto os executores como os mandantes dos crimes."

Embora considere difícil identificar todos os que ajudaram no aparato da repressão, até porque muitos documentos da época continuam sob sigilo de Estado, o advogado acredita ser possível, inclusive, estender esses processos aos colaboradores civis da ditadura. “Os empresários que ajudaram a financiar a repressão também devem ser punidos. É o princípio da co-autoria. E tem muita gente viva gozando dessa impunidade. Os filhos e netos deles têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: vocês foram responsáveis por mortes e torturas?”

Novamente: uma iniciativa justa, justíssima. Os colaboradores civis da repressão são co-autores dos crimes da ditadura. Devem portanto, ser responsabilizados por isso. Mas não só eles. O que dizer dos colaboradores civis, os "simpatizantes", das organizações armadas de esquerda? Muita gente, inclusive gente do meio artístico e empresarial, deu guarida e ajuda aos guerrilheiros. De acordo com o mesmo raciocínio, deveriam ser penalizados também. Seus filhos e netos, portanto, têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: papai, vovô, você foi responsável por mortes e assaltos a banco?

A reportagem inteira, como se vê, é, da primeira à última linha, pura peça de propaganda ideológica, proselitismo político disfarçado de jornalismo. A essa altura, quem chegou até aqui já deve ter percebido, e nem é preciso lembrar, mas eu vou dizer assim mesmo: com a exceção de um pequeno trecho em que se fala, de passagem, das torturas sofridas na OBAN por dois guerrilheiros, pai e filho, presos sob a acusação de terem executado um empresário em SP, NÃO HÁ QUALQUER MENÇÃO AO TERRORISMO DA ESQUERDA.

Certamente, punir quem torturou e assassinou friamente prisioneiros indefesos é uma mais que justa reivindicação, um ato de justiça. O problema é quando essa condenação vem acompanhada de uma manipulação muito peculiar e seletiva da memória histórica, como se apenas um dos lados tivesse feito uso da violência. Como se só houvesse algozes, de um lado, e vítimas, de outro.

A violência da esquerda não apenas precedeu a fase mais dura da repressão, e ajudou a desencadeá-la - sendo, portanto, co-responsável pelos piores crimes da ditadura -, como foi, em termos relativos, mais intensa do que a violência dos militares. Em números absolutos, estes mataram mais - no Brasil, 376 pessoas foram mortas pelo aparato da repressão durante a ditadura militar, de 1964 a 1985 -, mas, em números relativos, as guerrilhas foram mais mortíferas. Cerca de uma centena de pessoas, pelo menos, foi morta pelos grupos da esquerda armada entre 1965 e 1974. Um número que adquire especial importância, visto que tais grupos, ao contrário da ditadura, agiam sempre no limite da precariedade: dispunham para suas ações de algumas dezenas de militantes e, quando muito, um número um pouco maior de simpatizantes, algumas metralhadoras e, como arma padrão, um revólver ou uma pistola. E mesmo assim mataram mais de 100 brasileiros e alguns cidadãos estrangeiros, durante nove anos. A repressão, com toda a máquina do Estado - as três Forças Armadas, o SNI, os serviços militares de inteligência, a Polícia Federal, as polícias estaduais militares e civis -, fez 376 cadáveres em vinte e um anos. Basta fazer uma conta matemática rápida para saber quem foi mais letal. Os defensores da luta armada argumentam que os guerrilheiros não torturaram. Pergunto: por acaso manter alguém em cativeiro após seqüestro ou apontar uma arma para simples transeuntes apanhados na fila do banco durante um assalto não pode também ser considerado uma forma de tortura?

E não se trata apenas de uma questão numérica. Mesmo no momento mais duro da repressão, os grupos de esquerda achavam tempo para se matarem uns aos outros. Jacob Gorender, em seu livro Combate nas Trevas, fala em pelo menos quatro "justiçamentos" - o nome que os terroristas davam aos assassinatos de seus próprios companheiros -, todos por meras suspeitas de traição. Um outro caso bastante exemplar é de um guerrilheiro do Araguaia, assassinado a tiros por ter se envolvido amorosamente com a esposa de um companheitro - um crime passível da pena capital, pelos critérios bastante peculiares do "tribunal revolucionário" do PCdoB. Os nomes dessas vítimas da esquerda, que podem ser encontrados na internet, não constam de nenhuma lista e de nenhum livro sobre os mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, inclusive do que o governo lançou no ano passado, com pompa e circunstância. É como se essas pessoas nunca tivessem existido.

Não dou a mínima para os torturadores: os crimes que cometeram foram bárbaros, e acho mesmo que eles devem ter seus nomes execrados e ser punidos por isso. Mas nem por isso concordo que se deve fechar os olhos para um dos lados da violência, a ponto de negá-la completamente. Por que punir um dos lados somente? Isso não é justiça. É outra coisa. A palavra é feia, ninguém gosta, lembra discurso de milico. Mas é preciso dizê-la com todas as letras: é revanchismo.

Millôr Fernandes escreveu que a luta armada dos anos 60 e 70 era um investimento para o futuro. Depois do Bolsa-Terrorismo, a esquerda quer revisar a Lei de Anistia. O terrorismo compensa.

quinta-feira, junho 19, 2008

COMO ACABOU A DITADURA


Ernesto Geisel, Sylvio Frota e João Figueiredo: ditadura acabou por suas contradições internas


Comentei aqui, alguns posts atrás, um artigo de dois professores universitários sobre a luta armada nos "anos de chumbo" da ditadura militar no Brasil. O artigo, só para lembrar, era uma réplica chinfrim e rastaqüera a um outro artigo, do historiador Marco Antonio Villa, publicado na Folha de S. Paulo em 19/05. No artigo em questão, Villa desmonta eficientemente, e de maneira brilhante, um dos maiores mitos criados pela esquerda sobre o período: o de que a luta armada dos anos 60 e 70 teria contribuído, de certo modo, para "enfraquecer" o regime de 64.

Já refutei essa balela, que serve apenas para tentar incutir nas mentes incautas a falsa idéia de que a democracia brasileira é filha da esquerda armada - e de que todos nós, portanto, devemos prestar-lhe reverência. Agora vou me concentrar mais no artigo de Marco Antonio Villa.

O texto de Villa é, como já afirmei, excelente. Isso não me impede, porém, de fazer algumas observações ou reparações a ele. Não vou me referir à sua análise sobre a luta armada, que é perfeita. O que me chamou a atenção e, a meu ver, merece um tratamento mais crítico são os dois parágrafos que aqui transcrevo. Neles, ao refutar a tese esquerdista de que a luta armada ajudou a enfraquecer a ditadura, ele afirma:

[...] A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.

Tenho algumas ressalvas a fazer ao que está dito acima. Embora eu concorde com a opinião de Villa exposta em seu artigo, de que a luta armada não teve qualquer importância na restauração da democracia, creio ser um erro atribuir o mérito por isso aos movimentos ditos "legais" de oposição ao regime militar. Isso porque, se há um fator que não deve ser superestimado para explicar o fim da ditadura, são as pressões da chamada "sociedade civil organizada". Explico-me.

A ditadura militar não chegou ao fim por causa de nenhuma mobilização popular, mas devido às contradições do próprio regime dos generais. Seu término não ocorreu como resultado de nenhuma sublevação das massas, mesmo que de forma ordeira e pacífica, contra o arbítrio: foi, isto sim, o produto da própria evolução do regime, dividido, desde o primeiro dia do golpe, em "duros" e "moderados". Foram os primeiros, a "linha-dura", representados sobretudo nos governos Costa e Silva (1967-1969) e Emílio Médici (1969-1974), os principais responsáveis - com a ajuda da esquerda armada - pelo prolongamento da ditadura por mais de vinte anos. Por sua vez, foram os "moderados", organizados em torno da Escola Superior de Guerra (ESG) e nos governos Castello Branco (1964-1967) e Ernesto Geisel (1974-1979), os principais responsáveis pela abertura política.

A idéia de devolver o poder aos civis e restabelecer a normalidade constitucional estava presente já no próprio movimento que derrubou o governo esquerdista e populista de João Goulart, em 1964. Naquele momento, é bom lembrar, a totalidade da direita brasileira apoiou o golpe, inclusive a Igreja, a grande imprensa e a classe média. Tratava-se de afastar um governo subversivo e corrupto, que arrastava o País rumo a alguma forma de regime ditatorial de esquerda, e depois retomar a vida. O presidente Castello Branco assumiu prometendo eleições presidenciais em 1965 e deixar o governo em 31 de janeiro de 1966. Após o AI-2, porém, que extinguiu os partidos políticos e anulou as eleições, prorrogando o mandato de Castello, a situação mudou. Em 1967, com a subida ao poder de Costa e Silva, a linha-dura se instala no poder, obrigando-o a decretar, em 1968, o AI-5, que inaugura o período mais sombrio da repressão político-militar. Foi preciso esperar até o aniquilamento da luta armada de esquerda e a ascensão de Ernesto Geisel, em 1974, para que o regime, combalido pela crise do "milagre" econômico que lhe dava sustentação, começasse a dar sinais de esgotamento.

Foi a partir daí que teve início, de fato, a chamada abertura política "lenta, gradual e segura", controlada e levada adiante, desde o primeiro momento, pelo governo. De forma negociada, institucional, planejada, sem qualquer participação popular. É assim que ocorrem os principais avanços democráticos do período: fim da censura (1976), revogação do AI-5 (1978), Anistia (1979), reforma eleitoral (1979), eleições diretas para governadores de estados (1982), até culminar, em 1984-85, na campanha das diretas-já e na eleição - indireta - de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral.

Todos esses avanços, todas essas manifestações, só foram possíveis porque os militares as permitiram, em primeiro lugar. Se quisessem, poderiam ter mantido a censura e a repressão, assim como as eleições indiretas. Se não o fizeram, não foi porque estivessem acuados por nenhuma revolta popular generalizada, mas porque a redemocratização era um projeto há muito adiado, que já estava presente no próprio movimento de 64.

Quem contribuiu mais para o fim da ditadura no Brasil: os deputados Marcos Freire, Alencar Furtado e Lisâneas Maciel ou o general Ernesto Geisel, que em 1977 peitou e demitiu no ato o então Ministro do Exército, general Sylvio Frota, que queria manter a repressão e estava articulando um golpe? Quem teve um papel mais relevante: Ulysses Guimarães ou o general Golbery do Couto e Silva?

A resistência de muitos setores em admitir isso se deve, em parte, ao fato de que a transição política, no Brasil, obedeceu a um paradoxo: foi o governo do presidente pessoalmente mais autoritário e centralizador do ciclo militar, o general Geisel, que enquadrou a linha-dura e deu início ao processo de abertura democrática. E isso não foi feito por meio de consulta popular, de forma democrática: foi com murro na mesa mesmo. O AI-5, por exemplo, passou a ser usado contra os próprios militares contrários à distensão política. Não foi o culto ecumênico na Praça da Sé pela morte de Vladimir Herzog, em 1975, mas o gesto autoritário do general Geisel, que levou à queda do comandante do II Exército e ao enquadramento da extrema direita militar. Por trás desse gesto, não estavam quaisquer considerações humanitárias por parte do general-presidente, mas única e simplesmente a defesa intransigente da hierarquia e da disciplina contra a anarquia militar. Ninguém quer admitir isso hoje em dia, pois seria reconhecer que a transição política, no Brasil, deveu-se mais a um conchavo de generais do que às "grandes manifestações populares", das quais todos se dizem os guias e mentores. Todos querem tirar uma casquinha da redemocratização.

Quando Geisel sai de cena e começa o governo do último presidente militar, o do general João Figueiredo (1979-1985), todas as condições estavam dadas para a redemocratização do País. Tanto que o governo Figueiredo, às voltas com a crise econômica, foi um anticlímax de desmoralização, terminando melancolicamente, pela porta dos fundos.

Mais importante ainda: o fim da ditadura militar no Brasil deve-se ao próprio caráter político do regime. Sendo um regime autoritário, que manteve pelo menos uma aparência de legalidade e de alternância política, não tendo criado nenhum partido político (pelo contrário: extinguiu todos, instituindo em seu lugar o bipartidarismo), o regime de 1964 pôde evoluir, embora de forma atabalhoada e não sem obstáculos, rumo à democracia parlamentar. Assim como evoluíram, de uma maneira ou de outra, todas as ditaduras militares sul-americanas. Em um regime totalitário, baseado no domínio do partido único e na repressão absoluta sobre todos os aspectos da sociedade, como o de Cuba ou o da ex-URSS, ao contrário, não existe essa possibilidade: ou ele desaparece, ou se perpetua. Os militares brasileiros, chilenos e uruguaios concordaram em sair de cena e em devolver o poder à sociedade. E Fidel e Raúl Castro, quando farão isso?

As denúncias de tortura, os discursos dos parlamentares da ala autêntica do MDB, as publicações da imprensa de oposição e as manifestações populares tiveram certamente um papel, e um papel importante, no processo de distensão política, e nada disso deve ser desprezado. Mas tudo isso está longe de ter sido o principal fator responsável pela restauração das liberdades democráticas. Mais determinante do que todos esses fatores foi, sem dúvida, o jogo político verificado no interior do próprio sistema repressivo criado a partir de 1964, com a cisão entre "duros" e "moderados". Mais ainda, foi o próprio caráter do regime militar - autoritário, e não totalitário - que trouxe consigo o germe de sua própria dissolução.

Repetindo, caso não tenha ficado claro: as manifestações da oposição legal foram importantes. Algumas delas, heróicas até. Mas não foram o fator decisivo. Não teria havido Anistia, nem diretas-já, nem qualquer outra manifestação de protesto, não tivesse sido o fim da censura e a revogação do AI-5. E isso só ocorreu devido à própria evolução do regime, de cima para baixo, e não de baixo para cima.

Certamente, não é muito edificante, nem algo muito positivo para a auto-estima de muitos políticos brasileiros, admitir o que está escrito acima. Mas é preciso dizê-lo, para o bem da honestidade intelectual e da verdade histórica. Nem o MDB, nem o movimento estudantil, nem os sindicatos, nem os intelectuais, nem a Igreja dita "progressista", nem o PT, nem, muito menos, a luta armada foram responsáveis pela redemocratização do Brasil. A democracia brasileira não tem pai nem dono. A História também não.

segunda-feira, junho 16, 2008

LUTA ARMADA - VELHAS E NOVAS FALÁCIAS



Capitão Charles Chandler, metralhado por um comando da ALN e da VPR em 12/10/1968: morto em nome da luta pela democracia, segundo a esquerda


No meu último post, reproduzi um artigo de Marco Antonio Villa publicado em 19/05 na Folha de S. Paulo sobre as falácias da esquerda a respeito da luta armada dos anos 60 e 70 no Brasil. O artigo é excelente. Com algumas exceções pontuais, que pretendo discutir em outro post, o texto de Villa é impecável.
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Agora, a mesma Folha publica um artigo assinado por dois professores, Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Benjamin Vieira, contestando as afirmações de Villa. Não por acaso, seus autores são ex-militantes de organizações armadas de esquerda (POLOP e VPR, respectivamente). No texto, que trascrevo a seguir em vermelho, os autores se esforçam para rechaçar a conclusão óbvia de que os terroristas queriam derrubar a ditadura para instaurar outra, comunista. Querem manter viva a lenda dourada criada em torno dos heróicos guerrilheiros que sacrificaram tudo altruisticamente em nome da... democracia (?!). O texto deles vai na íntegra. Meus comentários estão em azul. Os grifos também são meus.
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Luta armada a favor ou contra a ditadura?
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Artigo - Aloysio Castelo de Carvalho e Liszt Vieira
Folha de S. Paulo
16/6/2008


Superestimar critérios documentais tem levado alguns historiadores a dizer que a esquerda não lutou por uma causa democrática
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NO ARTIGO publicado nesta Folha em 19/05 ("Falácias sobre a luta armada na ditadura", "Tendências/Debates"), Marco Villa rediscute a ditadura, atribuindo responsabilidades pela emergência do autoritarismo em 1964 tanto à direita quanto à esquerda. A abordagem dissocia as esquerdas das conquistas democráticas.

Perceberam o tom de crítica ao autor que ousou "dissociar as esquerdas das conquistas democráticas"? Pois é. Esse pessoal da esquerda acha que democracia é só com eles, somente eles a defendem. Mais que isso: foram eles que a pariram. Isso fica claro no texto. Adiante.

A superestimação dos critérios documentais, em detrimento de conseqüências políticas democráticas que não constituíam proposta predominante no discurso da esquerda armada, tem levado alguns historiadores a afirmar que a esquerda lutou contra a ditadura, mas não por uma causa democrática. Ou seja, a direita e a esquerda eram antidemocráticas. A primeira defendia a ditadura militar, e a segunda, a do proletariado.

Antes de iniciar a crítica ao artigo propriamente dita, é bom apontar um lapso (?) no texto: nem toda a "direita" - no sentido que lhe dão os autores - defendia a ditadura militar. A menos que se considere alguém como o jurista Sobral Pinto, por exemplo, um radical esquerdista, o que está longe de ser verdade. Em 1964, a totalidade da direita - inclusive a imprensa - apoiou, sim, a derrubada do governo Goulart. Mas logo se desencantou com o regime, passando para a oposição. Um setor considerável, em especial a UDN, esperava que os militares devolvessem o poder rapidamente aos civis e restabelecessem a normalidade constitucional. Por se opor ao governo Castello Branco, o maior direitista brasileiro do período, Carlos Lacerda, foi cassado pelo regime, tendo de amargar o exílio. Logo, uma afirmação claramente falsa, logo no início. Continuemos.

A tese ignora que uma ação política pode gerar resultados não intencionais de grande repercussão. Assim, a luta armada contribuiu para o enfraquecimento da ditadura e o retorno da democracia, em que pese as intenções iniciais de seus agentes.

Esse pessoal não perde tempo. Diante de provas irrefutáveis, apresentadas pela própria esquerda armada, trata de refutar o que a História diz com todas as letras. Não sendo mais capazes de sustentar, com fontes e documentos, a mitologia criada em torno das esquerdas no período - derrubada pela simples leitura dos documentos das organizações armadas de esquerda, reunidos por Daniel Aarão Reis e Jair Ferreira de Sá em Imagens da Revolução, dos quais nenhum (nenhum!) fala sequer remotamente em restaurar a democracia -, os órfãos da ilusão marxista tentam tapar o sol com a peneira. Agora falam em "superestimação de fontes documentais" (?) - como se as fontes documentais não fossem a base de qualquer estudo histórico sério. Mais: apelam para os supostos "resultados não-intencionais" da luta armada no Brasil.
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Trocando em miúdos, a tese dos autores é a seguinte: os guerrilheiros não eram democratas, não queriam a democracia; eram autoritários, queriam a ditadura. Mas as suas ações, a luta armada em si, teve efeitos democráticos de longo prazo. É isso mesmo que você leu: não queriam saber de democracia, desprezavam-na, mas sua luta, apesar disso e deles próprios, teria contribuído para a volta da liberdade; era, portanto, uma luta democrática... É a velha teoria vanguardista, dos guerrilheiros como a "vanguarda da sociedade contra o arbítrio". Pura balela.

Assim como não era objetivo dos terroristas restaurar a democracia, e sim instaurar outra, comunista, em seu lugar, a conseqüência prática de suas ações não foi o enfraquecimento, mas o fortalecimento, da ditadura militar. Ou, usando um linguajar jurídico, inexiste liame causal entre uma coisa (a luta armada) e outra (a redemocratização).

Basta ver as datas. A luta armada ocorreu entre 1965 e 1974, quando então foi totalmente aniquilada. É justamente nesse período que o regime dos generais se consolida e, sobretudo após 1968, com o AI-5, atinge seu ponto culminante. É somente após a destruição dos grupos guerrilheiros, em 1974, que o regime começa a dar sinais de fraqueza, e começa o processo de abertura política. Esta não teve nada a ver com a luta armada, até porque esta já havia deixado de existir.

Muitos grupos de esquerda simpáticos à luta armada antes de 1968 não desprezavam a luta política e somente após o AI-5 escolheram o caminho militarista. A barbárie repressiva não foi uma resposta à luta armada, embora esta tenha sido utilizada como justificativa para o recrudescimento da política repressiva, que foi ampliada desde 1964 de acordo com a resistência da sociedade, da qual fizeram parte os grupos de esquerda.

Mentira. Nada disso inviabiliza a tese de Villa. O fato de haver grupos que optavam pela via política e não pelo caminho armado, como o PCB e a AP, não retira da luta desses o caráter totalitário. Podiam diferir dos grupos armados nos métodos, mas não no objetivo final, que era um regime comunista ou socialista, logo não-democrático. É verdade que as ações armadas se intensificaram depois de 1968, mas é uma mentira afirmar que foi somente após o AI-5 que a esquerda armada fez sua opção pelo caminho militarista: é no período 1964-1968 que surgem as principais dissidências armadas de esquerda, como a ALN (surgida em 1967), a VPR e o PCBR (ambos em 1968). Já em 1966, a AP realiza a primeira ação terrorista do período, o atentado à bomba contra o general Costa e Silva no aeroporto do Recife, em 25 de julho, que deixou dois mortos e dezenas de feridos. Além disso, como deixam claro autores inclusive ligados à esquerda, como Daniel Aarão Reis e Denise Rollemberg, o projeto guerrilheiro é anterior ao próprio golpe de 64: já em 1961 - em pleno regime democrático, portanto -, as Ligas Camponesas de Francisco Julião mantinham vários acampamentos de guerrilha espalhados pelo País, e muitos de seus integrantes iam regularmente fazer treinamento guerrilheiro em Cuba. Isso aconteceu - é bom lembrar - três anos antes do golpe de 64.

Aliás, é bom que se diga: a luta armada jamais esteve fora dos planos da esquerda, mesmo da mais moderada. O PCB de Luiz Carlos Prestes, por exemplo, mesmo duramente criticado como "reformista" e "pacifista" pelos que se lançaram à aventura da guerrilha, sempre deixou claro, em seus documentos e resoluções, que se opunha ao foquismo castro-guevarista por razões táticas, e não porque era contra, por princípio, a luta armada. Nunca é demais recordar que foi justamente ele, o partido de Prestes, que desencadeou a primeira tentativa de revolução armada comunista no Brasil, em 1935. Nos anos 50, em pleno governo constitucional, o partido estimulou uma guerrilha camponesa na região de Trombas e Formoso (GO). Sobretudo após 1958, com a perspectiva de assalto pacífico ao poder, o PCB adota uma linha cada vez mais legalista. Mas, a exemplo do que ocorre até hoje com partidos como o PT, a guerrilha jamais esteve fora de seus cálculos para a tomada do poder.
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Sobre a afirmação de que a repressão não veio como resposta à luta armada,mais uma mentira. Após a "limpeza" de 1964, a repressão política só atingiu seu ponto culminante a partir de 1968, justamente como reação aos atentados da esquerda. Pode-se discutir se o AI-5 foi ou não conseqüência direta da luta armada, mas é inegável que, não fosse essa, ele dificilmente teria ocorrido. Não é por acaso que os "anos de chumbo" do terrorismo, 1968-1974, coincidem perfeitamente com os de maior repressão política. A luta armada serviu tanto aos interesses da linha-dura militar, como fato ou como pretexto, que, mesmo quando o terror de esquerda já havia sido dominado, sempre que os milicos queriam justificar o endurecimento do regime, apelavam para o fantasma da guerrilha (leiam as memórias do ex-presidente Geisel, nas quais ele afirma claramente que foi o espectro da luta armada que alimentou a linha-dura e ajudou a prolongar a ditadura). Mesmo tendo desaparecido, o terrorismo de esquerda continuou colaborando para justificar a repressão sobre a sociedade - e não para abrir o regime.
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A ampliação do autoritarismo após 1968 foi antecedida por instabilidades políticas e crises nas Forças Armadas. O ambiente de contestação se expressou na Frente Ampla e na derrota do governo no caso Moreira Alves, nas greves operárias em Osasco (SP) e Contagem (MG) e nas passeatas estudantis e protestos da classe média liderados pela esquerda.

A violência sempre foi cultivada pelos dirigentes militares, situando-se no centro da estratégia para consolidar o autoritarismo, cujo propósito era desmobilizar e despolitizar a sociedade e impor um modelo econômico que privilegiasse a rápida acumulação capitalista naquele contexto de Guerra Fria.

Típica bobagem retórica esquerdóide para fazer a cabeça de alunos de oitava série. Passemos adiante.

A escolha da força para obter obediência levou os órgãos de segurança a uma posição de destaque. Os órgãos da polícia política eram um dos núcleos centrais do poder. Destacava-se o SNI, comandado por generais do Exército, entre eles Golbery, o seu criador em 1964 e idealizador da distensão posteriormente executada por Geisel, chefe da Casa Militar de Castelo Branco, que negou a existência de abusos cometidos pelo regime e primeiro presidente a admitir, após deixar o cargo, a tortura como meio necessário para obter confissões.

Os dirigentes buscaram ampliar as bases do regime com a liberalização, pois, além da eficácia econômica dos anos 70, emergia o problema da legitimidade. A distensão/abertura estava condicionada à institucionalização de um regime pós-autoritário com restrições democráticas. A retirada das Forças Armadas implicava sua substituição por um esquema civil de confiança baseado no partido do governo, de modo a preservar os interesses institucionais dos militares.

Idem. Prossigamos.

Um bom exemplo é a Lei da Anistia, aprovada em 1979, que não permitiu a revisão das ações do aparelho militar, protegeu sua autonomia e reforçou o sentimento de impunidade das Forças Armadas. A sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão, a instituição militar não foi colocada em debate sobre os papéis que vinha desempenhando na política e a opinião pública não discutiu os valores necessários à construção de uma democracia.

Independentemente da discussão sobre a justeza ou não da Lei de Anistia, o fato é que ela perdoou os crimes cometidos pelos dois lados, tanto da repressão como da luta armada. A impunidade, portanto, não foi unilateral. Não sei de onde os autores retiraram a afirmação de que "a sociedade deixou de conhecer os agentes e as engrenagens da repressão" - a quantidade de livros, artigos e depoimentos que citam os torturadores nominalmente, e os métodos da repressão política, são suficientes para, enfileirados, dar uma volta completa na Terra. Os nomes dos torturadores, e seus métodos, até mesmo pela hegemonização da História do período militar pela esquerda acadêmica, são de todos conhecidos. Ao contrário de muitas ações da esquerda armada no período, como os chamados "justiçamentos" - o assassinato a sangue-frio de militantes por seus próprios companheiros de luta armada, por simples suspeita de traição -, sobre os quais, até o momento, a esquerda prefere manter um silêncio de pedra. Do mesmo modo, a instituição militar, por causa dessa propaganda, jamais foi tão denegrida e vilipendiada. Concordo apenas com a última frase: de fato, a sociedade não discutiu os valores necessários à construção da democracia. Isso porque esse debate vem sendo monopolizado, há uns trinta anos, pela esquerda, que de democrática tem muito pouco, como a luta armada.

Todas as formas de luta contra a ditadura devem ser vistas como um direito legítimo contra a opressão política. Até Locke, o mais liberal dos liberais e um dos inspiradores das revoluções americana e francesa, sustenta que o povo tem o direito à resistência quando o Estado usa a força sem direito e sem justiça.

Todas as formas? Têm certeza? Inclusive o terrorismo? Inclusive fazer em pedaços o corpo de um recruta de 19 anos na explosão de um carro-bomba? Inclusive esfacelar a coronhadas o crânio de um tenente da PM capturado após render-se? Inclusive exterminar, a queima-roupa, um militar norte-americano pelo único crime de ele ser militar e norte-americano? Que vínculo existe entre esses atos de terror ensandecido e a volta das liberdades democráticas no Brasil?

Uma das teses preferidas da intelligentsia esquerdista é que a luta armada serviu para demonstrar a insatisfação da sociedade com a ditadura. A tese é furada, em primeiro lugar, porque a sociedade, pelo menos até o fim do "milagre" econômico, em meados dos anos 70, não estava descontente com o regime coisa nenhuma. Pelo contrário: embalada pelos altos índices de desenvolvimento econômico, ela, sobretudo a classe média, aplaudia a ditadura. O presidente Médici, por exemplo, era extremamente popular. Por isso que a luta armada não passou de uma luta isolada, sem apoio da população. Foi por isso, também, que a sociedade buscou outras formas de resistência ao arbítrio dos militares, todas legais, como bem explica Marco Antonio Villa. Desde quando explodir bombas e seqüestrar diplomatas estrangeiros era a única forma de expressar essa insatisfação, aliás inexistente? A luta armada não se fez sob a égide de Locke ou de qualquer outro pensador liberal. Seus referenciais eram outros: eram Lênin, Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro.

Alegar que a redemocratização teria alguma relação com a luta armada já é de uma desonestidade sem tamanho. Tentar usar Locke para justificar uma luta que era pela implantação, nestas terras, de uma ditadura totalitária, é simplesmente demais. Não tem nem como qualificar isso. É cascata da grossa. Pura safadeza.

As regras não eram legítimas, como hoje são as da democracia, reconquistada após os projetos dos militares serem derrotados no campo institucional, a partir da pressão de uma ampla mobilização de oposição que se formou entre 1974 e 1985 e da qual participaram os grupos de esquerda.

O fato de as regras políticas não serem legítimas em um regime autoritário não diz nada a favor dos que quiseram substituí-lo não pela democracia, mas por uma ditadura totalitária. Os próprios autores se contradizem, ao reconhecerem que a derrota da ditadura ocorreu no campo institucional, e não por qualquer outra via. Admitem que a mobilização da oposição que teria posto fim à ditadura ocorreu entre 1974 e 1985, o que é inegável. Justamente no período em que a luta armada já havia sido dizimada, não tendo, portanto, capacidade alguma de influir no processo político. Como, então, dizer que a luta armada teve, como uma de suas "consequências não-intencionais", o fim da ditadura?
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Esse é o método dos esquerdistas: baseiam-se em verdades para propagar mentiras. Baseiam-se no fato de que o Brasil vivia um regime autoritário (verdade) para dizer que todos que se opunham aos militares eram democratas (mentira). Daí, defendem que a luta armada, por ser contra a ditadura militar (verdade), era, no fundo, democrática (mentira). Com isso pretendem aparecer como os campeões da liberdade e da democracia, tolhendo o debate e rotulando qualquer um que denuncie suas imposturas, como Marco Antonio Villa, como um defensor da ditadura e do autoritarismo. Não conheço nada mais desonesto do que isso.

Se a esquerda reconhece os equívocos da luta armada após 1968, a ela não devem ser atribuídas certas responsabilidades políticas cujo objetivo primeiro é enfraquecê-la moralmente como aliada do atual governo.

Falso. O próprio texto é uma demonstração de que a esquerda - pelo menos a fração da esquerda nostálgica da guerrilha - não reconhece os equívocos do passado ("só" equívocos? não seriam crimes?). Pelo contrário: os enaltece e os reivindica.
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Restabelecer a verdade dos fatos, e não reforçar velhos mitos revolucionários, é uma questão de honestidade intelectual, e não de enfraquecer moralmente os aliados do atual governo. Até porque, convenhamos, este mesmo trata de criar, diariamente, farto material para se desmoralizar a si próprio.
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E, para isso, não precisa da ajuda de nenhum historiador.

Falácias sobre os "anos de chumbo" no Brasil

O texto a seguir, de autoria do historiador Marco Antonio Villa, foi publicado em 19/05/2008 na Folha de S. Paulo. Transcrevo-o na íntegra. No próximo post, vocês vão entender por quê.

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MARCO ANTONIO VILLA
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Militantes de grupos de luta armada criaram um discurso eficaz. Quem questiona "vira" adepto da ditadura. Assim, evitam o debate
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A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
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Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
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O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva. Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.
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Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
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Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
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Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
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Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
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Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
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Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo. O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
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O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão. Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
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MARCO ANTONIO VILLA, 51, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor, entre outros livros, de "Jango, um perfil".

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A VOLTA DOS CAÇA-FANTASMAS


Os caçadores de conspirações estão de volta. Apareceu um sujeito no sul, preso por crimes comuns, dizendo-se ex-agente secreto da ditadura militar uruguaia (1973-1985), e afirmando ter provas de que o ex-presidente brasileiro João Goulart, o Jango, foi assassinado pelos órgãos de repressão política dos países do Cone Sul. No Congresso, já está rolando um pedido de CPI para apurar o caso. Os saudosistas da esquerda, que ainda têm Jango em alta conta, já começaram a se mexer, felizes por terem algo em que se agarrar, em meio a tantos escândalos.

Ai, ai. Sente-se cheiro de empulhação no ar... Não, não tenho nada contra investigações desse tipo. Aliás, pelo contrário: acho-as bem-vindas e necessárias. Não sei se Jango morreu de causas naturais ou se foi mesmo morto por algum sicário dos milicos, como estão dizendo. Não é impossível que tenha sido morto, assim como não é impossível que as mortes de Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, para citar outros líderes da oposição que morreram na mesma época, não tenham ocorrido exatamente da maneira como relata a História. Não é impossível, embora seja pouco provável, que essas mortes tenham alguma relação com a chamada Operação Condor, o plano secreto dos regimes militares da América do Sul para eliminar seus opositores no final dos anos 70. Jango, como se sabe, era cardíaco, e faleceu em 1976, ao que parece, por uma falha no consumo dos medicamentos que usava, que provavelmente foram trocados. Intencionalmente ou não, ninguém sabe. Além disso, os procedimentos post-mortem foram no mínimo apressados, com um laudo necroscópico repleto de falhas (oficialmente, sua causa mortis foi "enfermedad", escreveu o médico argentino que viu seu corpo). Tudo isso, a meu ver, deve ser investigado, até que não paire nenhuma dúvida sobre o caso. Mas a questão não é essa. A questão verdadeira, em meu ponto de vista, é que o resultado da investigação, se esta vier a ocorrer, já foi alcançado antes de esta ter começado. Em outras palavras: para todos os efeitos, independentemente de quais conclusões chegar a CPI, Jango foi uma vítima de uma conspiração, e ponto final.

Há muito mais por trás desse exercício mórbido de necrologia do que o simples e elementar desejo de descobrir a verdade. A verdade, para as esquerdas, é uma só: Jango foi assassinado pelos militares. Trata-se da única conclusão possível, para os sacerdotes da mitologia e do martirológio esquerdista. Não importa o que digam os resultados das investigações, sempre será aventada essa hipótese. A fabricação de mártires, de líderes elevados à quase-santidade depois de mortos em circunstâncias misteriosas, ou tornadas misteriosas diante da determinação de torná-los mártires e santos, é uma caracterítica inseparável do método esquerdista. É uma forma de compensar os defeitos dos personagens (no caso de Jango, inúmeros) e, também, de manter acesa a chama da "causa", seja lá o que isso for hoje em dia. Além disso, é uma maneira de reforçar o papel histórico preferido que as esquerdas, seja lá com que autoridade moral para tanto, auto-atribuíram-se: o de eternas vítimas dos lobos maus capitalistas (representados, nesse caso, pelos governos militares). Com isso, ao mesmo tempo em que posam de mártires e heróis, desviam a atenção de seus próprios esqueletos no armário, que não são poucos.

Para as esquerdas, a abertura de casos como o da morte de Jango só traz vantagens. Trata-se, afinal, de um investimento com retorno garantido. Isso porque, de acordo com uma visão há muito estabelecida como verdade irrefutável e artigo de fé, esquerdistas são sempre vítimas. Se um deles morre, ainda que tenha sido após cair e bater a cabeça no banheiro, é porque foi vítima de uma conspiração maléfica do imperialismo, ou que outro nome tenha o inimigo de plantão, que deixou cair o sabonete para que ele escorregasse. Pouco importa se a investigação comprova as suspeitas ou não. Feita a investigação, apurados os fatos, ouvidas as testemunhas, o resultado é de somenos importância. Se a investigação comprovar as suspeitas de morte não-acidental, ótimo, as esquerdas têm um mártir em suas mãos. Se, em vez disso, não se descobre nada, fica a suspeita. E é de suspeitas, de paranóias e mistificações, de vitimismos e complexos persecutórios, que vivem as esquerdas. As leis da natureza, ou o simples acaso, simplesmente não se aplicam a elas. As denúncias de corrupção contra os petralhas no governo hoje, por exemplo, só podem ser o produto de alguma conspiração golpista, não importa as provas. E por aí vai.

Outro fator que trabalha a favor da legenda áurea esquerdista é o inegável fascínio que as teorias da conspiração exercem sobre o cérebro humano. De fato, nas últimas décadas surgiu uma verdadeira indústria sobre o tema. Com o detalhe de que, em quase todos os casos, os suspeitos são sempre, invariavelmente, representantes da "direita", do establishment, do imperialismo, da CIA etc. Décadas de propaganda nos tornaram todos predispostos, psicológica e ideologicamente, a aceitar as teses mais estapafúrdias, desde que o culpado seja, claro, a direita. Vejam o caso mais famoso do mundo: o assassinato de John F. Kennedy, em 1963. Já surgiram as teorias mais descabeladas sobre o assunto, apontando para a CIA (sempre ela!), a máfia, o complexo industrial-militar, os exilados cubanos anticastristas de Miami, os brancos racistas do sul dos EUA etc. (só faltou o Mickey Mouse e o Pernalonga). Quase ninguém se contentou com a conclusão óbvia, ou seja, que o autor dos tiros foi Lee Harvey Oswald, um sujeito estranho ("ruim de mira", disseram), e com o fato de que todos os indícios apontavam para o envolvimento de Cuba e da URSS no caso, pois Oswald era membro de um grupo pró-Castro, exilara-se na URSS alguns anos antes e requerera, inclusive, sua entrada em Cuba semanas antes dos tiros em Dallas ("era um agente duplo, um provocador a soldo da CIA" etc.). Mas, como sabem todos os que já assistiram ao filme de Oliver Stone sobre o assunto, o culpado só poderia ser alguém na, ou com conexões com, a Casa Branca... Ou seja: havia fortes motivos para aventar a participação não da CIA, da máfia ou de quem quer que seja, mas de um governo estrangeiro - o de Cuba -, com o qual os EUA estavam em guerra, numa trama para assassinar o presidente dos EUA, mas mesmo assim preferiu-se a tese do "atirador isolado e desequilibrado", ou então do "complô-das-forças-direitistas-e-reacionárias-descontentes-com-a-política-progressista-de-Kennedy". Hum...

O mesmo padrão conspiracionista se verificou logo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Quem não se lembra? Na ocasião, pipocaram teorias sobre quem teria sido o verdadeiro cérebro por trás dos ataques: a CIA (olha ela aí de novo!), as gigantes do petróleo norte-americano, Bush, o Mossad israelense... Só faltou dizer que foram os mesmos que mataram Odete Roittman e Salomão Ayala. Não faltou quem, como o renomado economista Celso Furtado, cogitou da possibilidade de ter sido o próprio governo estadunidense o autor da atrocidade. Quando ficou claro que os responsáveis pela tragédia foram fanáticos islâmicos, reunidos em torno de Osama Bin Laden, os conspiracionistas mudaram de tática: passaram a tentar justificar a morte de 3 mil pessoas como uma resposta legítima de um povo oprimido contra a opressão do imperialismo ocidental, ou como a revolta da criatura contra o criador... (ainda tenho vivos na memória os textos de Leonardo Boff e de Tariq Ali regozijando-se pela queda das Torres Gêmeas). Ou seja: culpe os EUA, nunca seus inimigos, esse é o caminho.

O afã dos esquerdopatas em acusar os EUA e o "neoliberalismo" por tudo de ruim que acontece no mundo, desde a morte de Jango até o aquecimento global e a falta de vergonha dos políticos, só tem paralelo com sua disposição em não falar dos crimes do comunismo. É claro que não estou sugerindo que recordemos dos podres de um lado e fechemos os olhos para os de outro, nada disso. Quem faz isso, e muito bem, são os esquerdistas, como estão comprovando os petralhas no caso dos cartões corporativos. Trata-se apenas de comparar. Enquanto existiu, a URSS foi responsável por alguns dos piores crimes já cometidos contra a humanidade, inclusive intervindo militarmente em outros países e assassinando líderes estrangeiros, como Jan Masaryk (atirado de uma janela por se opor ao golpe comunista na Tchecoslováquia, em 1948), Imre Nagy (fuzilado como responsável pela revolta húngara de 1956), Hafizullah Amin (metralhado por páraquedistas soviéticos durante a invasão do Afeganistão, em 1979), e tantos outros. Sem falar no apoio ao terrorismo internacional, em assassinatos de dissidentes exilados etc. O atentado ao papa João Paulo II em 1981, por exemplo, ao que parece, foi obra dos serviços secretos búlgaros, em conluio com a KGB. Um livro publicado em 2005 na França, Cuba Nostra, do jornalista Alain Ammar, afirma, com base no depoimento de um ex-espião cubano hoje exilado, que o presidente chileno Salvador Allende foi morto por seus próprios seguranças cubanos, no Palácio La Moneda, durante o golpe de estado de 11 de setembro de 1973, quando deu mostras de que se renderia aos militares. Mas quem se importa?

Tudo isso me dá o direito, creio eu, de desconfiar das "revelações" do suposto ex-araponga uruguaio sobre a morte de Jango. Principalmente quando acabo de ler que Hugo Chávez, o caudilho fanfarrão da Venezuela, declarou que quer exumar o cadáver de Simón Bolívar, que ele considera o "pai espiritual" de sua "revolução", para averiguar as "verdadeiras causas" de sua morte (supostamente, diz Chávez, por envenenamento). Chávez já disse várias vezes que o governo dos EUA planeja matá-lo. A se julgar pela forma como ele se apropriou da história de seu país para falsificá-la, e dos instrumentos da democracia para destruí-la, é de supor que ele é capaz de cometer suicídio somente para botar a culpa no Bush, ou de culpá-lo pela morte de Bolívar. Enquanto a História for vista como uma via de mão única, com os esquerdistas retratados sempre como vítimas e seus adversários, como cruéis vilões, seus fantasmas continuarão a nos assombrar.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

"HÉRCULES 56": A HISTÓRIA SEQÜESTRADA


Tudo bem que o cinema brasileiro nunca foi lá essas coisas. Tudo bem que alguns gêneros específicos, como o documentário, costumam trair um claro viés ideológico de esquerda. Tudo bem que nossos cineastas não são assim uns Fellinis ou Antonionis, apesar de pretensão não lhes ser artigo escasso. Tudo bem até que eles sejam quase todos uns comunas enrustidos e que não possam viver sem mamar nas gordas tetas estatais, sonhando com o dia em que irão competir de igual para igual com Hollywood. Tudo isso eu posso entender, e até tolerar. O problema é quando resolvem "reescrever" a história, na tentativa de impingir-nos uma versão mitificada e falsificada de eventos ocorridos há nem tanto tempo assim. Quando isso ocorre, o que fazem não merece nem ser chamado de cinema. É melhor chamar de propaganda ideológica pura e simples.

Hércules 56, documentário dirigido por Sílvio Da-Rin, se encaixa exatamente nesse perfil. Assisti ao filme há alguns dias. O assunto é o destino dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador dos EUA no Brasil, Charles Burke Elbrick, seqüestrado por duas organizações da esquerda armada em setembro de 1969, na primeira ação do gênero bem-sucedida da História.

Basicamente, Hércules 56 - o nome do filme é uma referência ao avião militar em que os prisioneiros embarcaram para o México e o exílio - é uma série de depoimentos dos ex-militantes de esquerda (alguns, como Zé Dirceu, nem tão "ex" assim) sobreviventes, entremeada por imagens de arquivo e por uma conversa informal entre os participantes da ação, hoje senhores grisalhos, em volta de uma mesa de bar. Enquanto os que foram libertados em troca da vida do embaixador desfiam suas reminiscências diante da câmera, lembrando passo a passo os momentos de tensão que precederam o embarque no avião e a chegada ao México e a Cuba - aonde a maioria se dirigiu, alguns para receber treinamento em guerrilhas -, os que tomaram parte direta no seqüestro relembram, em conversa bastante animada, os detalhes da operação espetacular. Em certo momento, confessam, às gargalhadas, que, caso o governo dos generais não atendesse suas reivindicações - a soltura dos 15 prisioneiros e a divulgação de um manifesto na imprensa - estavam, sim, dispostos a executar o embaixador. À certa altura, chegam mesmo a esboçar uma autocrítica sobre os erros da operação, que não foram poucos, e discutem se ela própria foi ou não um erro. Quanto a isso, as opiniões são discordantes - o próprio Zé Dirceu, além de Vladimir Palmeira e Flávio Tavares, três dos libertados no seqüestro, admitem que a ação foi equivocada desde o início, tendo contribuído para intensificar a repressão.

Dos que estão reunidos na mesa de bar, o atual Ministro da Comunicação Social do governo Lula, Franklin Martins, é o mais falante. Ele teve papel de destaque, como integrante da Dissidência Estudantil da Guanabara (que daria origem ao MR-8) no episódio do seqüestro, tendo sido um dos redatores do manifesto dos sequëstradores (que muitos até hoje acreditam erroneamente, por causa do filme de Bruno Barreto, O Que é Isso, Companheiro?, ter sido obra do Fernando Gabeira). O filme termina com uma frase dele. Ao discutir a questão de se o seqüestro foi ou não um erro, Franklin Martins afirma mais ou menos o seguinte (escrevo de memória): o seqüestro não pode ser considerado uma ação errada, assim como a própria luta armada, pois tanto esta como aquele contribuíram significativamente para a derrota da ditadura e o restabelecimento da democracia no Brasil. Como fica claro pelos extras do DVD, o diretor do filme, Sílvio Da-Rin, tem opinião semelhante.

Foi aqui que me convenci daquilo que coloquei nos dois primeiros parágrafos deste texto. A tese da luta armada "democrática", de resistência à ditadura, é uma das mais presentes na literatura e na produção cinematográfica sobre o período do regime militar no Brasil. E é também uma das falsificações mais grosseiras e escandalosas de que se tem notícia. Não se pode sequer alegar falta de informações sobre o assunto: há uma vasta bibliografia que trata do tema, dentre a qual a série de quatro livros de Elio Gaspari, por exemplo, que não deixa qualquer dúvida sobre os verdadeiros objetivos dos revolucionários brasileiros. Ao contrário do que reza a lenda, estes não queriam saber de democracia, eleições livres e outras "formalidades burguesas", mas, sim, substituir um regime autoritário por outro, totalitário e comunista, transformando o Brasil não numa Suécia ou numa Finlândia, mas num "Cubão". Um dos que participaram do seqüestro de Elbrick, o hoje professor universitário Daniel Aarão Reis, também está presente no filme, ao lado de Franklin Martins. Ao contrário deste, Aarão Reis é um crítico honesto da luta armada dos anos 60 e 70, já tendo afirmado, em diversas ocasiões, seu caráter totalitário e não-democrático, inspirado em ditaduras comunistas como a de Cuba. Estranhamente, ele fala muito pouco no documentário. Deve ter sentido que estava em minoria. Ou que não estava no script.

Durante as últimas três décadas, a versão fantasiosa dos guerrilheiros como heróicos combatentes da liberdade contra os cruéis torturadores militares foi repetida à exaustão nos livros didáticos. Agora, com filmes como Hércules 56 e Batismo de Sangue, essa versão adquire enfim um formato cinematográfico, com apoio oficial (um dos patrocinadores do filme é a onipresente PETROBRAS). Que os militares foram cruéis e torturadores, não resta dúvida. Agora, que os guerrilheiros-terroristas foram heróicos combatentes da liberdade, e que sua luta visava a restaurar a democracia no Brasil, como sugere o filme de Sílvio Da-Rin, são outros quinhentos.

Um dia, num futuro distante, os que pegaram em armas contra o regime militar no Brasil vão admitir, finalmente, que sua luta não era por democracia coisa nenhuma. Que estavam lutando para instaurar aqui um regime muito mais brutal e sanguinário do que o que queriam derrubar e que, caso fossem vitoriosos, teríamos não três centenas de mortos em vinte anos de arbítrio, mas milhares ou milhões de cadáveres. Um dia, também, quem sabe, algum cineasta brasileiro fará um filme honesto sobre os "anos de chumbo" no Brasil. Desconfio, porém, que isso só ocorrerá quando for descoberta a cura para o mau-caratismo e a idiotice, três anos depois de fundarmos nossa primeira colônia na terceira lua de Júpiter.
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P.S.: Na foto acima, os presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano sendo recebidos em Havana, embevecidos, pelo grande democrata e humanista, "El Comandante" Fidel Castro. A prova viva de que o objetivo dos guerrilheiros ("terroristas" é a palavra, mas o bom-tom não permite) era mesmo a democracia, os direitos humanos, a liberdade, eleições livres e pluralismo...