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quarta-feira, março 05, 2008

ENTRE A COLÔMBIA E O TERRORISMO, O BRASIL ESCOLHEU O SEGUNDO

Correa e Lula: aliados de Chávez contra Uribe - e a favor das FARC
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Rafael Correa, o filhote de Hugo Chávez que ora ocupa a presidência do Equador, está no Brasil. Veio para agradecer o apoio do seu companheiro Lula da Silva, que condenou a "violação da soberania" do território equatoriano pela Colômbia, que lá matou há alguns dias o número dois das FARC, o facínora Raúl Reyes. Nada poderia demonstrar de forma mais eloqüente qual lado o governo do Brasil escolheu na atual crise político-diplomática na América do Sul: entre a Colômbia e o terrorismo das FARC, os petralhas escolheram o último. Em vez de apoiar uma democracia que se defende, optou por cerrar fileiras ao lado dos terroristas que a atacam e dos governos que os apóiam e protegem.

Correa, já está sobejamente demonstrado, é parceiro e cúmplice das FARC. Foi o que os militares colombianos revelaram ao mundo ao abrir a caixa-preta dos laptops de Raúl Reyes. O mesmo no caso de Chávez. A narcoguerrilha colombiana, que o governo brasileiro se recusa a chamar de organização terrorista - terrorismo, pelo visto, para os companheiros petistas, é só o de direita -, usam há anos o território do Equador e da Venezuela como refúgio e base para atacar o território colombiano. Correa e Chávez sabem disso, e fazem vistas grossas - quando não, apóiam abertamente, inclusive com dinheiro, os narcobandoleiros, como demontram os documentos apreendidos de Raúl Reyes. Ao fazer isso, cometem uma clara violação do direito internacional, inclusive de várias resoluções da ONU, que condenam quem dá abrigo a terroristas. Mas, para o governo Lula, a soberania violada foi a do Equador, não a da Colômbia. É o mesmo que dizer que, após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, a intervenção norte-americana no Afeganistão, cujo governo dava refúgio a Al Qaeda, foi um "atentado à soberania" dos Talibãs...
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A posição do governo Lula em relação à atual crise entre os três países é uma das páginas mais vergonhosas, senão a mais vergonhosa, da história da diplomacia brasileira. O que diria o Barão do Rio Branco ao ver o conceito de soberania nacional, princípio basilar das relações internacionais, prostituído de maneira tão covarde e leviana? O que diria ele ao presenciar o triste espetáculo de o Chanceler brasileiro se perfilando ao lado de um governo, o de Correa, que dá guarida a narcoterroristas, contra outro, o de Uribe, que há anos luta para se defender dos ataques contra ele lançados pelas FARC a partir das fronteiras? Tenho certeza de que o Barão deve estar se revirando no túmulo com tamanha degradação de seu legado.
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Nem tudo parece estar perdido, porém. Diante de tão grotesca pantomima dos companheiros Correa, Chávez e das FARC, parte da imprensa brasileira, ainda não cooptada pela propaganda e verbas oficiais, pelo visto parece acordar para o que está acontecendo. Em editorial, O Estado de S. Paulo de hoje, 5/03, resume, de forme didática, a atual crise, afirmando que o apoio de governos a grupos terroristas como as FARC é algo tão ou mais grave do que a invasão do território equatoriano. Recorda a cumplicidade de Correa e Chávez com os narcoterroristas colombianos, e que tal aliança é parte fundamental da estratégia "bolivariana" do caudilho de Caracas. Lembra, inclusive, que o Equador já extraditou membros das FARC para a Colômbia em outro governo. Refere-se, até mesmo, embora de forma um tanto acanhada, ao Foro de São Paulo, verdadeiro instrumento de "articulação estratégica" dos grupos esquerdistas da América Latina - inclusive as FARC -, criado por Lula e Fidel Castro em 1990. É pouco, mas já é alguma coisa. Se tivéssemos o costume de ligar os pontos, perceberíamos sem dificuldade por que o atual governo do Brasil não perde a oportunidade de se colocar ao lado dos populistas Chávez e Correa - e das FARC - contra Uribe.

"Presenciar um crime em silêncio é cometê-lo", dizia o poeta e patriota cubano José Martí (hoje transformado em ícone prostituído de uma ditadura fracassada, a de Fidel Castro). No caso da crise entre Colômbia, Equador e Venezuela, o Brasil nem sequer se recolheu ao silêncio envergonhado. Anunciou, abertamente, seu apoio a quem protege e ajuda terroristas, contra um governo que tenta há anos extirpar essa chaga da América do Sul. Colocou-se, enfim, do lado do mal, confundindo, propositadamente ou não, defesa da soberania com abrigo a terroristas. Diante do crime, nem sequer se cala: apóia abertamente o criminoso. Nunca pensei que o Brasil desceria tão baixo.

terça-feira, março 04, 2008

O BRASIL PRECISA PARAR DE FAZER CORPO MOLE PARA TERRORISTAS E NARCOTRAFICANTES

Do blog de Reinaldo Azevedo, comentário postado ontem. Há um outro, sobre o mesmo assunto, de hoje. Escolhi o mais light (em azul, meus comentários em seguida):
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O governo brasileiro já tem uma posição: de joelhos para o terror

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A reação do ministro Celso Amorim, que traz a posição oficial do governo brasileiro — e a posição oficial do governo brasileiro é de joelhos para o terrorismo — é qual? Censura à Colômbia. Isto mesmo: o Equador abriga terroristas; há evidências de que um acordo estava em curso, mas Amorim quer falar da invasão de fronteira.

Um governo que dá guarida a terroristas reconhece fronteiras? Dizer o quê? O Itamaraty, nesse caso, repete aquela que tem sido a sua política constante: apoio a delinqüentes.

Segundo Amorim, o tema principal a ser debatido pela OEA não é a proteção ao terror garantida pelo Equador ou a ameaça de guerra de Chávez. Não, não. O tema principal é a invasão da fronteira equatoriana. Ele também disse que o Brasil quer uma solução para a crise. Não se disse uma miserável palavra de censura às Farc. Nada!Rafael Correa abriga terroristas, mas Amorim quer que a Colômbia peça desculpas sem condicionantes.

Querem saber de uma coisa? O comportamento do governo brasileiro consegue ser mais asqueroso do que o do Beiçola de Caracas.

A diplomacia brasileira nunca desceu tão baixo.

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Sei que corro um risco danado ao dizer o que se segue, pois afinal o personagem citado aí acima é ninguém menos do que meu patrão. Mas não é pelo fato de eu ser funcionário de carreira do Itamaraty - concursado, portanto - que eu vou deixar de ter opinião. Não estava escrito em nenhum lugar quando eu prestei o concurso para o MRE, em 2002, que uma das condições da profissão seria deixar de pensar por conta própria. Além disso, sempre achei que opinião que não se expõe fica encalavrada na garganta e pode gerar úlcera. Vamos lá, tentarei ser diplomático.

Vi a entrevista de nosso Chanceler na TV. Foi uma coisa, como direi?, difícil de engolir. Os motivos estão citados acima. Ele praticamente responsabilizou a Colômbia - e não as FARC - pela atual crise política na região, dizendo que Uribe deve desculpar-se mais uma vez junto ao Equador por ter matado um terrorista que se escondia atrás de suas fronteiras. Não houve nenhuma menção ao apoio de Chávez e de Correa aos narcoterroristas colombianos. Aliás, não houve nenhuma menção às FARC. Nada. Celso Amorim pareceu mesmo descer ao nível vocabular de seu chefe, o Apedeuta, usando as mesmas metáforas vulgares, coisa lamentável num diplomata tão gabaritado. "Imaginem se seu vizinho entrasse em sua casa sem pedir licença" etc., disse ao se referir à incursão das forças colombianas contra as FARC no Equador. E se o vizinho em questão abrigasse bandidos que começassem a seqüestrar meus parentes e atirar bombas em direção à minha casa, o que eu deveria fazer?, poderia perguntar, usando o mesmo tipo de linguagem.
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A fala de Amorim foi ainda mais revoltante pelo fato de que o governo do Brasil, sob Lula da Silva, é há anos parceiro das FARC no Foro de São Paulo, que durante muitos anos a imprensa brasileira se ocupou em esconder do público. Já falei do tal foro aqui. É algo que está longe de ser uma associação inofensiva, um clube de senhoras bebedoras de chá ou de filatelistas. Seu coordenador até 2001 foi ninguém mais, ninguém menos do que Marco Aurélio Garcia, atual ghost-chancellor do Brasil. Pergunto: um governo, que se diz democrático, perfilar-se ao lado de uma organização criminosa como as FARC, comprova ou não a existência de uma associação criminosa? Deixo que vocês mesmos dêem a resposta.
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Os jornais de hoje informam que os laptops de Raúl Reyes apreendidos pelo exército colombiano revelam a conexão entre as FARC e os governos de Correa e de Hugo Chávez. Este último teria fornecido US$ 300 mil a seus companheiros narcoguerrilheiros. Deve ser por isso que Chávez anda tão esquentadinho. Deve estar com medo de que as autoridades da Colômbia revelem todo seu esquema com as FARC. Será que agora o princípio da não-intervenção, algo tão caro à nossa diplomacia, será finalmente aplicado pelo governo Lula para condenar o que Chávez e Correa vem fazendo na Colômbia? Será que os atuais ocupantes do governo brasileiro terão coragem de denunciar seus próprios companheiros por esse atentado à soberania de um país democrático (a Colômbia, não o Equador)?
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O Brasil está de joelhos para o terror. Aliás, de joelhos não. Em outra posição, bastante conhecida, de submissão. E não é de hoje.

segunda-feira, março 05, 2007

"SOU DE ESQUERDA"


O bafafá que tomou conta do Itamaraty nas últimas semanas por causa da entrevista do Embaixador Roberto Abdenur na qual ele critica a atual política externa brasileira e, principalmente, a resposta da chefia da Casa de Rio Branco, por meio de declarações do Chanceler Celso Amorim à revista Carta Capital, trouxeram à tona algumas questões interessantes. A mais importante delas, na humilde opinião deste que escreve estas linhas, diz respeito à discussão – para mim, bastante reveladora – sobre o caráter ideológico (nesse caso, de esquerda) que estaria sendo dado à diplomacia brasileira sob o governo Lula.

Como escrevi em artigo anterior sobre o assunto, o problema não está nos supostos ou reais motivos que levaram o Embaixador Abdenur a botar a boca no trombone, mas nos argumentos utilizados pelo Chanceler Celso Amorim para descartar qualquer viés antiamericano na atual orientação diplomática brasileira. Mais precisamente, o centro do problema está no fato de ele ter dito, em resposta às críticas que lhe foram feitas, a seguinte frase: "sou de esquerda".

A frase é reveladora, não porque seja exatamente uma surpresa ou algo inusitado – um Ministro do governo Lula, ou qualquer pessoa no Brasil, dizer-se de direita, isto sim, seria algo estranho e surpreendente –, mas porque, se levada a sério, vai contra tudo aquilo que o Chanceler Celso Amorim quer provar – que a política externa brasileira, enfim, não é antiamericana, nem esquerdista. Vou tentar explicar melhor o que quero dizer.

O que caracteriza o esquerdista não é o que ele diz de si mesmo, mas o que ele diz dos seus críticos. Um verdadeiro esquerdista, por mais radical que seja, jamais se dirá antiamericano, e sempre terá uma palavra bondosa para dizer, por exemplo, sobre o povo dos EUA, tentando dissociá-lo do governo de Washington ("sou contra o governo dos EUA, não contra o povo norte-americano" etc.). Basta levantar a menor suspeita de antiamericanismo em suas palavras e atitudes, porém, e a máscara de bom-moço cai por terra: tal acusação só pode vir de "mentes colonizadas", "americanófilos", "indivíduos a soldo do imperialismo" etc. Insista um pouco mais nessa acusação, mostrando fatos e argumentos, e você será brindado com uma saraivada de adjetivos carinhosos, como "lacaio de Wall Street" e "agente da CIA" para baixo.

Pelo mesmo motivo, nenhum esquerdista que se preze ousará falar mal das regras do regime democrático: na verdade, buscará mesmo reivindicar para si a paternidade da própria democracia, posando de paladino das liberdades. Quando essas mesmas regras se voltam contra eles, porém, logo mudam de discurso: o que antes era visto como "defesa da democracia" (por exemplo, a ampliação das liberdades de imprensa e de associação, entre outras), vira "resistências dos setores conservadores e reacionários". Para chegarem ao poder, os esquerdistas não hesitam em usar as facilidades da democracia; uma vez nele, tentam a todo custo miná-la. Foi o que fizeram os comunistas sempre e onde tiveram a oportunidade de fazê-lo.

O que isso demonstra? Apenas uma coisa: que a mente esquerdista, por mais "light" ou moderada que se apresente, funciona em termos ideológicos, de "nós" (o proletariado, o Terceiro Mundo) contra "eles" (a burguesia, os imperialistas ianques). Exatamente o oposto do que diz Celso Amorim a respeito da política externa brasileira.

Portanto, ao se declarar de esquerda, Celso Amorim minou a credibilidade de seus argumentos. Primeiro, porque usou um critério claramente ideológico para classificar as críticas a ele dirigidas. Segundo, porque parece ignorar o que significa ser de esquerda, principalmente em vista dos 100 milhões de mortos pelo comunismo no século XX (não custa nada lembrar: Stálin era de esquerda, assim como Mao, assim como Pol Pot). Tivesse dito que a dicotomia esquerda/direita é uma visão maniqueísta ultrapassada pela História, ou que, em política internacional, o esquerdismo, plagiando Lênin, é uma doença infantil do terceiro-mundismo (como de fato é), então se poderia dizer que são infundadas as acusações de antiamericanismo no Itamaraty. Em vez disso, porém, ele preferiu cerrar fileiras com as hostes esquerdistas.

Pode-se dizer, assim, que Celso Amorim perdeu uma oportunidade de pôr uma pá de cal sobre a suspeita de viés ideológico no Ministério das Relações Exteriores. Suspeita que se reforça ainda mais quando o governo atual mostra tanta má vontade em relação à ALCA e tanta compreensão por ditaduras comunistas como a de Fidel Castro em Cuba, e a candidatos a ditador como Hugo Chávez e Evo Morales, outros notórios esquerdistas. Diante disso, convenhamos, fica difícil não dar ouvidos às críticas do Embaixador Abdenur.

quinta-feira, março 01, 2007

DIPLOMACIA IDEOLÓGICA, SIM


Pela primeira vez desde o governo Jânio Quadros, a política externa brasileira é objeto de intenso debate público. Tudo começou por causa de uma entrevista bombástica do Embaixador Roberto Abdenur, ex-titular da Embaixada em Washington, à revista Veja, há algumas semanas. Resumidamente, as afirmações do Embaixador Abdenur na entrevista foram as seguintes:

a) a política externa do atual governo petista é marcadamente ideológica e esquerdista ("vagamente antiglobalização, anticapitalista e antiamericana");
b) por causa desse viés ideológico, que privilegia as relações "Sul-Sul", o Brasil tem colecionado fracassos, deixando de fazer bons negócios com os países mais ricos;
c) também por esse motivo, há um nítido declínio na qualidade dos quadros do Itamaraty: as promoções estariam sendo decididas pelo critério da afinidade ideológica com a atual direção, e não pela competência profissional. Além disso, os diplomatas estariam sendo constrangidos a se submeter a leituras obrigatórias, de caráter doutrinário de esquerda – uma situação vexatória, principalmente para diplomatas mais antigos.

A repercussão da entrevista foi imediata, provocando, claro, um verdadeiro terremoto na Casa de Rio Branco, um lugar geralmente avesso a polêmicas de todo tipo. Os defensores da atual linha itamaratiana não perderam tempo: a revista Carta Capital (No 433, 28/02/2007), espécie de porta-voz oficioso do governo, apressou-se em publicar reportagem de capa rebatendo as acusações do Embaixador Abdenur, a qual incluiu uma entrevista com o Chanceler Celso Amorim. Subjacente à defesa protocolar dos – supostos ou reais – êxitos da atual orientação diplomática brasileira, incluindo a tão decantada "democratização" do acesso à carreira, o Chanceler baseia seus argumentos na seguinte linha de pensamento:

a) a política externa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva não é antiamericana, nem tem viés ideológico: é, isto sim, uma política altiva e autônoma. Não há doutrinação de qualquer espécie, e a resistência às leituras obrigatórias seria por simples comodismo;
b) as críticas à linha geral do Itamaraty são demonstrações de "certos setores" da diplomacia brasileira ligados à administração anterior (leia-se: ao PSDB), refratários à qualquer mudança. Coisa de "conservadores", portanto;
c) tais críticas e acusações decorrem do descontentamento desses setores com a perda de privilégios e regalias profissionais, de que gozavam no governo anterior. Logo, tudo não passaria de egos feridos e ressentimentos pessoais.

Quem está certo? Pelo que se viu até aqui, ambas as partes parecem ter suas doses de razão. Tirando um certo exagero em dizer que as promoções estariam sendo feitas por afinidade ideológica – se isso for verdade, já tenho pronta minha carta de demissão do Itamaraty, pois prefiro voltar a comer giz em sala de aula a desfilar em alguma parada, seja de esquerda ou de direita –, o Embaixador Abdenur está certo ao dizer que há, sim, uma certa inflexão ideológica da diplomacia brasileira no governo Lula, como demonstra a má vontade com que o atual governo encarou a proposta da ALCA, entre outras razões. Por sua vez, a afirmação de Celso Amorim de que os setores descontentes estariam inconformados com a perda de privilégios, como viagens aos EUA e ao México, também não parece descabida (quem quer que esteja minimamente familiarizado com a realidade do Itamaraty sabe perfeitamente que se trata de uma das maiores – senão a maior – concentração de egos e vaidades da administração pública brasileira). Mas a questão é outra.

A questão é que, ao apontar a ideologização da política externa brasileira sob o governo petista, o Embaixador Abdenur tocou numa ferida profunda da atual administração federal, e provocou um debate que há muito vinha sendo – por medo, timidez, ou falta de oportunidade – postergado. De fato, imprimiu-se, na gestão Lula-Amorim, uma indisfarçável tendência ideológica esquerdista ou, pelo menos, terceiro-mundista, na diplomacia brasileira. Isso fica claro na questão das leituras a que eram submetidos os diplomatas em Brasília: não consigo ver a escolha de um dos livros listados como obrigatórios, o de Moniz Bandeira, como algo dissociado de uma visão ideológica herdada das velhas platitudes marxistas (a menos que se tenha escolhido o título com o objetivo oposto, ou seja, para demonstrar até que ponto vai a paranóia antiamericana). Quem tiver alguma dúvida, recomendo que leia o prefácio do livro, assinado pelo Secretário-Geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, o qual dispensa comentários. A própria direção da Casa tratou de admitir tacitamente esse viés, ao decidir retirar, logo em seguida à entrevista de Abdenur, a obrigatoriedade das leituras, "para encerrar a discussão", segundo Celso Amorim. (algo, aliás, desnecessário: bastaria, na minha opinião, retirar o livro de Moniz Bandeira da lista).

Para complicar ainda mais as coisas, na mesma entrevista à Carta Capital, o Chanceler Amorim acaba dando mais munição a seus críticos. Por exemplo, quando responde a uma pergunta sobre a Venezuela, afirma que, no governo Lula, a aproximação com Caracas "aumentou e foi usada, deliberadamente, para ajudar a consolidar o processo democrático" naquele país vizinho. Visto que Hugo Chávez já anunciou o cancelamento da concessão de funcionamento de uma das principais redes de TV que lhe fazem oposição e acabou de receber poderes praticamente totais da Assembléia Nacional venezuelana (aliás, 100% chavista), a afirmação de Amorim soa, no mínimo, esquisita. Se, por consolidar a democracia venezuelana, o Chanceler entende ajudar Chávez a se reeleger indefinidamente, preparando o terreno para impor aos poucos uma ditadura pessoal, a ponto de até inauguração de ponte ter sido transformada em palanque para que Lula fizesse campanha eleitoral para seu "companheiro" – como de fato ocorreu ano passado –, então, realmente, estamos ajudando a democracia na Venezuela.

Ainda na entrevista à revista, Amorim, perguntado sobre a relação do Brasil com regimes não-democráticos (um eufemismo para totalitários) como o de Cuba, saiu-se com a seguinte frase, usando o exemplo do Oriente Médio: "não basta conversar com os amigos, tem que conversar também com os adversários". Aí é que está. Fosse a ditadura comunista de Fidel Castro um regime "adversário" ou, pelo menos, exótico, como o são, por exemplo, os da China e da Coréia do Norte, vá lá, se poderia falar de pragmatismo. Mas o problema é que Fidel não é bem um adversário de Lula, muito pelo contrário: é um de seus mais íntimos "companheiros", quase um mentor, e o atual Presidente brasileiro não esconde sua admiração pelo regime cubano. A ponto de, sempre que Fidel manda prender dissidentes ou fuzilar alguém, o Brasil adota a política de tapar os olhos na Comissão de Direitos Humanos da ONU (justiça seja feita: essa política é anterior ao governo Lula). O fato de o Chanceler Amorim ter dito, após certa relutância inicial, ser "de esquerda", em nada ajuda a dissipar a impressão de viés ideológico na atual política exterior. Ter Marco Aurélio Garcia como Assessor Internacional da Presidência da República, certamente também não.

Essa última afirmação do Chanceler Celso Amorim – "sou de esquerda" – merece uma análise um pouco mais atenciosa. Ao fazer tal declaração, ele parece querer se distanciar ideologicamente de seus críticos, revestindo-se – e a sua política externa – de uma aura de "progressismo", ao passo que, como ele mesmo diz, "ninguém se diz de direita no Brasil". O próprio Embaixador Roberto Abdenur, segundo a mesma Carta Capital, também engrossa a legião dos que se dizem de esquerda.

Eis algo que sempre me intrigou. No Brasil, dizer-se "de esquerda" virou quase que uma exigência moral, um atestado de pureza e santidade, enquanto que, do lado oposto, "conservador" e "direitista" continuam a ser, entre nós, insultos gravíssimos, verdadeiras ofensas à honra e à dignidade pessoal. Nisso os dois embaixadores não fogem ao lugar-comum historicamente incrustado em nossa mentalidade. Apesar de todas as mudanças que ocorreram no mundo nos últimos vinte anos, dos inumeráveis crimes e atrocidades dos regimes comunistas e do fracasso total do socialismo, ainda é charmoso se dizer "gauche" no Brasil. Mesmo se de instâncias mais altas vierem sinais retóricos de que tal associação automática – esquerda é bom, direita, é mau – é uma construção mental sem base na realidade. O Presidente Lula, como se sabe, já disse publicamente que não é de esquerda. No fim do ano passado, num afago público a Delfim Netto, chegou mesmo a dizer que quem continua de esquerda depois dos 60 anos, certamente tem problemas. Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia têm mais de 60 anos.

Como se sabe, os esquerdistas são pródigos em tentar desqualificar seus críticos, não seus argumentos. Nesse sentido, Celso Amorim, embora recuse a existência de qualquer viés ideológico na diplomacia brasileira, parece seguir à risca a cartilha da esquerda leninista. Não que nosso Chanceler seja algum sinistro capa-preta ou militante bolchevique pronto para saltar das sombras e pular no pescoço do primeiro burguês que encontrar pela frente, nada disso. Mas, ao se declarar de esquerda, em meio a uma polêmica em que a política externa por ele conduzida está sob forte crítica de antiamericanismo, ele se comprometeu com uma visão, sim, ideológica, e não pragmática, do mundo. Uma percepção caolha da realidade, levada a efeito por pessoas que, ao contrário do que dizem Marx e Engels no Manifesto Comunista, costumam esconder seus reais propósitos, camuflando-se debaixo de camadas e camadas de retórica aparentemente anódina e de causas supostamente neutras – os comunistas, por exemplo, tinham por hábito dissimular seus objetivos revolucionários disfarçando-os de defesa da "paz" e da "democracia", quando, como a História do Século XX demonstrou de forma cabal, eram seus maiores inimigos.
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É sobretudo nos adjetivos escolhidos para contrarrestar seus adversários que o discurso esquerdista se revela: ao mesmo tempo em que defende o suposto caráter ideologicamente neutro da política externa do governo Lula, Celso Amorim não hesita em atribuir a seus críticos motivações ideológicas ("é uma reação conservadora"). Ou seja: para defender uma política externa que afirma não ter caráter ideológico, acaba sacando da gaveta velhos chavões esquerdistas – só faltam os indefectíveis "agente da CIA" e "lacaio do imperialismo". Ou, então, busca reduzir as críticas a um simples gesto de ressentimento pessoal de alguém que se acha preterido. Desse modo, tenta-se desviar o foco da questão, atribuindo todo o debate sobre a diplomacia brasileira a uma mera questão de ciúmes. O que é uma forma também de desqualificar o adversário, sem precisar analisar mais a fundo a pertinência, ou não, de suas críticas. É a velha tática de atacar o mensageiro, não a mensagem.

As duas táticas – acusar os críticos de reacionarismo e atribuir a estes inconfessáveis motivações particulares – estão de acordo com a lógica esquerdista: o rótulo ideológico é sempre de quem acusa, não de quem é acusado. As motivações egoístas, também. Como se vê, o passado insiste em bater à nossa porta.