Mostrando postagens com marcador democracia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador democracia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, outubro 29, 2013

OS ESTÚPIDOS

 
Quando começaram as primeiras "manifestações" em São Paulo, em junho, promovidas pelo "movimento passe livre" (MPL), grupelho de extrema-esquerda alinhado ao PT, tentei alertar que tudo não passava de uma grande provocação e teatro de rua com interesses eleitoreiros, usando o "passe livre" (uma ideia, aliás, inviável e demagógica) como pretexto. Afirmei - e os fatos me deram razão - que o MPL buscava tão-somente provocar a PM, descumprindo acordos, invadindo áreas restritas e promovendo abertamente o caos e a baderna, tentando criar, assim, um cadáver a ser explorado politicamente. (Felizmente, não tiveram êxito.)

Na ocasião, vocês devem lembrar, houve choques violentos, com excessos de ambos os lados. Quando uma jornalista foi ferida no olho por uma bala de borracha, chegou a haver um começo de movimento de repúdio à PM nas redes sociais; artistas e celebridades posaram com maquiagem imitando um olho roxo (foi a maneira escolhida por eles de demonstrar "solidariedade" à moça). Na mesma época, um soldado PM foi espancado e teve a cabeça arrebentada por um grupo de "manifestantes" (ainda era assim que a grande mídia os chamava). Chamei a atenção também para esse fato - a violência dos vândalos contra a PM - e afirmei que deveria ser usada a mesma régua moral para julgar os dois lados. Perguntei por que não se fazia também um movimento de solidariedade ao PM ferido. Por esse motivo, fui bastante criticado.

Logo em seguida, a população saiu às ruas, protestando "contra-tudo-isso-que-está aí". O MPL, vendo que perdera o controle da situação e desencadeara um movimento muito mais amplo e apartidário, rapidamente tirou o time de campo (o que prova que seu objetivo jamais foi o mesmo da população nas ruas). Mas o vandalismo prosseguiu, agora por obra dos black blocs, e com o mesmo objetivo de provocar a PM e instalar o caos. Até que as pessoas, confusas, cansadas e com medo da violência, voltaram para casa. Esvaziados os protestos de seu aspecto de massas, partidos de esquerda que haviam sido expulsos das manifestações e movimentos como o black bloc e o MPL voltaram à carga, metendo-se em greve de professores (instrumentalizada pelo PSOL no RJ) e até em depredação de laboratório para resgatar beagles (outra estupidez).

Pois bem. Durante todo esse tempo, enquanto eu e uma meia dúzia de blogueiros direitistas e reacionários dizíamos que o black bloc e o MPL eram tropas de choque do obscurantismo político, o que fazia muita gente descolada, artistas inclusive? Persistiam na ladainha de atacar a "repressão policial" contra os "manifestantes que só querem um mundo melhor" etc., mesmo quando estes depredavam e saqueavam lojas e bancos. Caetano Veloso chegou a posar fantasiado de black bloc, o que deve achar uma coisa, assim, muito fashion... Surgiu a tal "mídia ninja", financiada aliás com dinheiro público, unicamente para "denunciar" a ação da polícia nos protestos etc. Novamente, muitos caíram na esparrela, inclusive parte da imprensa, como a Rede Globo, que, mesmo tendo seus jornalistas agredidos e veículos destruídos pelos black blocs, ainda insiste em tratá-los não como os fascistas que são, mas como idealistas românticos, os arautos de um novo mundo etc. etc.

Em todos esses momentos, uma constante: a violência seria uma "exceção" à regra, os vândalos seriam "infiltrados" nas manifestações "pacíficas" e - o mais importante - a culpa da violência seria da polícia, não dos black blocs (que estariam apenas "reagindo" à violência policial etc.).

Por incrível que pareça, ainda há quem pense assim. Mesmo depois das cenas do dia 25 em São Paulo, quando um coronel da PM foi salvo por seus colegas de uma tentativa de linchamento nas mãos de um grupo de arruaceiros black blocs, sem que tivesse havido, pelo que mostra o vídeo, nenhuma ação violenta policial (e mesmo que tivesse havido, nada justifica a bestialidade da agressão). Mesmo seriamente ferido na cabeça e na clavícula e tendo a arma roubada, o coronel ainda tentou controlar a tropa, ordenando a seus subordinados que não perdessem a cabeça (duvido que algum black bloc tivesse a mesma preocupação). Mesmo assim, ainda há quem diga que a violência dos black bloc é uma reação à violência da PM etc. Apesar dos fatos, persiste uma animosidade psicológica, instintiva, pela polícia e um sentimento a favor dos que usam de todos os meios - inclusive o terrorismo - contra ela.

Por que isso acontece? Por vários motivos, mas eu destacaria um deles: prevalece, entre nós, um certo ranço anti-polícia, anti-PM, que na verdade é um ranço anti-ordem e anti-autoridade, vista sempre como sinônimo de autoritarismo (o fato de os black blocs se apresentarem como "libertários" também contribui para esse mito).

Esse ranço, essa mentalidade distorcida, que costuma desaparecer quando somos assaltados, tem suas raízes certamente na lembrança do regime militar, mas não somente isso: trata-se de um sentimento de ódio, uma revolta difusa contra a própria Democracia, da qual os militares e a policia são guardiães. Há uma dificuldade tremenda em aceitar o fato de que, num Estado Democrático de Direito, a polícia não é o DOPS, não é o DOI-CODI: é, quer queiram quer não, a DEMOCRACIA FARDADA. Atacar a PM é, portanto, atacar a própria Democracia. Ponto.

É difícil para muita gente entender isso, pois é difícil para a maioria das pessoas entender a Democracia, um regime que, é bom lembrar, é o Império da Lei. Mais difícil ainda, para muitos, é aceitá-la. Defendê-la, então, é para poucos, pouquíssimos. Todos querem se aproveitar e se beneficiar das liberdades, mas quase ninguém arrisca a própria segurança e, muitas vezes, a própria vida para salvaguardar os direitos de todos. Inclusive o direito de protestar. E recebendo em troca não a gratidão ou o simples reconhecimento, mas pau, pedra e coquetel molotov. É isso que faz a polícia.

O ataque brutal e covarde contra o coronel Reynaldo Simões Rossi foi, portanto, mais do que uma agressão de um bando facinoroso de delinquentes contra um representante da Lei e da Ordem (o que já seria grave o suficiente): foi um ATENTADO CONTRA A DEMOCRACIA. Um atentado do tipo fascista e terrorista - as duas palavras mais adequadas para descrever o "movimento" black bloc. Este não passa de uma reunião de bandidos, criminosos estúpidos que usam um discurso ideológico pseudo-anarquista como desculpa para espalhar o caos e preparar o caminho, assim, para o TOTALITARISMO, com a anuência tácita de quem está no poder, hoje, no Brasil.

Aqueles que aplaudiram ou ignoraram a violência contra a PM desde junho têm a obrigação moral de pedir desculpas ao coronel Rossi e a todos os policiais que zelam não somente pela segurança pública, mas pelo direito de todos se manifestarem democraticamente, de maneira ordeira e pacífica. Não é o caso do black bloc, um bando fascista, inimigo da Liberdade, e que tem na violência não uma simples tática de guerrilha urbana, mas a base mesma de sua ideologia antidemocrática e totalitária. Depredar, queimar, destruir, saquear, é a sua razão mesma de existir. Gente assim não merece contemplação. Quem compactua com a violência deles também não. Para eles, Polícia e Democracia.

quarta-feira, julho 24, 2013

UMA MODESTA PROPOSTA PARA MUDAR O BRASIL



 
A onda de protestos que varreu o Brasil em junho foi vista com perplexidade pelo governo lulodilmista e saudada otimisticamente como o despertar de um "novo Brasil" por muitos analistas. Como já escrevi aqui, tenho motivos para ser cético em relação a esse "novo Brasil" que se está alardeando por aí. Isso porque, entre outras coisas, não vi um foco nos protestos, uma liderança capaz de dar um rumo claro e direcionar a indignação represada durante 11 anos de mandarinato petista para além do oba-oba e do eventual vandalismo.  As manifestações, sem comando e sem objetivos claros, perderam-se numa barafunda de reivindicações as mais difusas e até mesmo estapafúrdias (a começar pelo tal “passe livre”, na verdade uma desculpa de grupelhos de extrema-esquerda e de mentes pré-púberes para brincar de “revolução”), sem Norte e sem conteúdo. Como numa tragédia de Shakespeare, tudo pareceu resumir-se a um espetáculo de som e fúria, significando nada.
 
Apesar de todo o barulho, não se tocou, até agora, no essencial, limitando-se os protestos a palavras de ordem vagas e abstratas, que convidam ao sequestro das manifestações pelo próprio governo e pelos partidos esquerdistas. 
.
Um exemplo: quase ninguém se deu conta de que o slogan mais repetido nas manifestações – "mais saúde, mais educação" –, pode significar mais gastança, mais desperdício do dinheiro público, assim como nas obras da Copa. Não por acaso, a maior manifestação popular da História dos EUA ocorreu em 2011 CONTRA a proposta do governo Obama de universalizar o sistema de saúde pública. Mais escolas e mais hospitais (e mais médicos, como quer o governo) significa mais gastos, o que quase sempre quer dizer mais impostos – e mais corrupção. Mas ninguém parece ter percebido isso.
.
Outro exemplo: o desencanto com os "partidos" e os "políticos" em geral, sem dar nomes aos bois (quase não se viram cartazes de "Fora Dilma" ou "Lula na cadeia") e "contra tudo isso que está aí". Os brasileiros que foram às ruas manifestaram-se contra todos os partidos, deixando claro que nenhum deles lhes representa. Mas do quê – ou melhor: de quais partidos e políticos – estavam falando exatamente? O que os representa?
.
Para tentar colocar alguma ordem nesse caos e nessa confusão mental – que parece ser mesmo a característica principal do País de Macunaíma –, apresento a seguir uma agenda política que, asseguro, se for aplicada vai transformar radicalmente o cenário nacional. Eis minha modesta proposta para mudar o Brasil.
 .
Trata-se do seguinte. Um partido, ou movimento - o nome pouco importa -, que defenda os seguintes pontos:
.
- Livre Mercado – Ou seja: livre iniciativa e meritocracia, e não o "capitalismo de Estado" dos companheiros no poder, o capitalismo estatal ou semi-estatal dos Eikes Batistas financiado pelo BNDES e pela Petrobrás.  Isso que dizer lutar pelo fim dos monopólios, estatais ou de empresas queridinhas do governo, e pela livre concorrência. Em outras palavras: trata-se de implantar, no Brasil, aquilo que se implantou nos EUA e na Inglaterra há uns duzentos anos, e que ainda não deu as caras na terra do patrimonialismo e dos bolsas-famílias: o capitalismo.
.
- Redução do Estado – Condição essencial para que exista capitalismo é limitar o papel do Estado ao mínimo indispensável, a fim de não prejudicar a atividade econômica e proporcionar serviços públicos de qualidade onde a ação governamental é imprescindível (segurança, justiça e defesa, por exemplo). Isso passa, necessariamente, pela redução dos impostos e pela utilização mais racional do dinheiro público. Máquina inchada, apadrinhamento, ineficiência e corrupção caminham juntos, como qualquer brasileiro sabe muito bem. (Aí estão 39 ministérios para ilustrar esse fato.)
 .
- Defesa do Estado de Direito Democrático – Parece óbvio (e é!), mas qualquer partido ou movimento que se preze deve ter na defesa das liberdades democráticas  - de expressão, de crença, de reunião, de imprensa – parte inseparável de seu programa. Isso significa defender o mais possível a não-intervenção do Estado na vida privada do cidadão, a defesa das liberdades individuais contra o Leviatã estatal.
 .
- Política externa não-ideológica – Embora não seja um assunto popular no Brasil, a diplomacia deve coadunar-se com os princípios acima, distanciando-se da agenda bolivariana e antiamericana que hoje domina o Itamaraty, ditada pelo Foro de São Paulo (o maior tabu político da América Latina nos últimos 23 anos).   
 .
Aí está. Acredito que ninguém poderá chamar os pontos acima de radicais, ou dizer que eles pecam pela ambição desmedida. Pelo contrário: trata-se  de um programa básico, o mínimo necessário para se construir uma alternativa democrática e liberal aos partidos existentes no País. E, mesmo assim, trata-se de algo absolutamente inédito no Brasil.
.
É incrível, mas nenhum – nenhum! – partido político atualmente existente no Brasil pauta sua agenda pelos princípios acima. Há partidos de todos os tipos e para todos os gostos – de esquerda, de ultra-esquerda, fisiológicos, dinheiristas etc. –, mas nenhum, pelo que sei, define-se abertamente como conservador ou liberal, portanto de direita. Esta continua a ser um anátema, enquanto ser de esquerda (ou seja: a favor de ditaduras como a de Cuba, por exemplo) é visto geralmente como algo bom e positivo. Não por acaso, as eleições no Brasil já viraram um samba de uma nota só, com todos falando a mesma linguagem esquerdista ou de Miss, defendendo "mais saúde", "mais educação", "pela vida" (alguém é contra?) etc.
 .
(A propósito, caro leitor: que país civilizado e democrático não possui pelo menos um partido de direita solidamente estruturado? Que nação democrática possui apenas partidos pertencentes a um lado do espectro ideológico? Poderia responder?)  
 .
Não me surpreende que a maioria da população brasileira, que é honesta, paga impostos e não quer viver mamando nas tetas do Estado-babá, não se reconheça em nenhum partido existente. É que nenhum deles realmente a representa. E não há nada no horizonte para preencher esse vazio. Daí o povo não saber ao certo contra o quê ou quem protesta.
.
Quer mudar o Brasil? Que tal pensar no que está aí em cima, para começar?

quinta-feira, novembro 22, 2012

EM DEFESA DO ÓBVIO

O Brasil - eu quase escrevi: o mundo (ainda não perdi totalmente a esperança...) - está se tornando um lugar em que afirmar o óbvio está cada vez mais difícil. E isso por culpa de "movimentos" (faço questão das aspas) que, em nome de "causas" as mais díspares - e disparatadas - querem porque querem convencer a todos que dois mais dois são cinco, como no célebre livro de Orwell.
 
Em que consiste a tática dos politicamente corretos, herdeiros diretos ou indiretos da velha "linha justa" dos partidos comunistas? Eis alguns exemplos.
 
- Fulano defende o direito de Israel se defender dos ataques terroristas do Hamas e condena o uso por este de civis palestinos, inclusive crianças, como escudos humanos (o que traz sempre dividendos propagandísticos contra Israel)? É um "sionista fanático, racista, imperialista e genocida".
 
- Quer ver os mensaleiros respondendo por seus crimes na cadeia? É um membro da "elite golpista", defensora de um "moralismo udenista de classe média".
 
- Considera o culto da ignorância promovido pelo lulopetismo uma ofensa aos pobres que estudam? É um "preconceituoso" e "elitista".
 
- É contrário ao sistema de cotas raciais no serviço público, pois se trata da oficialização do racismo (pior: num país de mestiços), e tem dúvidas quanto à sinceridade de Barack Obama no tocante à sua nacionalidade? É um "racista" e "teórico da conspiração".
 
- Não se deixa levar pelo discurso ensaiado e baseado em desinformação de celebridades televisivas contra a construção de uma usina hidrelétrica, sem a qual o país corre o risco de ficar às escuras? É um "inimigo da natureza" e defensor dos "interesses ruralistas".  
  
- É contra o desarmamentismo e a "descriminalização" da maconha, e defende leis mais severas para punir a criminalidade, como a redução da maioridade penal para 16 anos? É um "fascista".
 
- Considera revanchismo a idéia de rever a Lei de Anistia de 1979 para punir apenas um dos lados do conflito ideológico dos anos do regime militar, lembrando que a esquerda armada praticou terrorismo e assassinatos? É um "defensor da ditadura", "favorável a torturadores" etc. 
 
- Quer saber a verdadeira opinião de Dilma Rousseff sobre questões como o kit-gay e o aborto? É um representante da "direita medieval" etc. etc.
 
E, finalmente:
 
- Acredita que 1) aquilo que se faz na cama é um assunto estritamente privado; 2) preferências sexuais não devem ser fonte de direitos (nem de deveres); 3)criminalizar a "homofobia" é um disparate que levaria inexoravelmente à institucionalização da censura; 4) o Brasil está longe de ser um matadouro de homossexuais; e 5) nenhum comportamento humano está acima de crítica ou de chacota? Então só pode ser um "homofóbico", "preconceituoso" e inimigo da liberdade e da diversidade sexual etc. etc. etc. - ou seja: um leitor da VEJA (a "mídia golpista").
 
Qualquer pessoa ainda não lobotomizada pela propaganda esquerdopata e "politicamente correta" não terá dificuldade alguma em perceber que as conclusões acima são uma grossa empulhação, uma tremenda impostura decorrente da mais despudorada desonestidade intelectual. É algo facilmente notado por qualquer pessoa razoavelmente dotada de inteligência. Menos, claro, se você for um militante.

O leitor razoavelmente informado e perspicaz também já deve ter percebido do quê estou falando. Há dias, um artigo do colunista da VEJA J.R. Guzzo é motivo de revolta entre os militantes gays (que eu prefiro chamar de gayzistas) e seus simpatizantes. Estes inundaram as redes sociais de comentários indignados, supostamente por causa de uma alusão a cabras que os deixou particularmente ofendidos. Alusão esta que não passou disso: uma alusão, referente ao fato de que o casamento, em nossa sociedade, não é um direito ilimitado, daí a idéia do "casamento gay" não ser algo assim tão simples - assim como a união matrimonial entre um homem (ou mulher) e uma cabra (ou um bode). Aliás, ninguém é obrigado por lei a gostar de gays, de cabras ou de espinafre, é?
 
Em texto meu anterior, fiz questão de rebater ponto a ponto os "argumentos" utilizados por um conhecido porta-voz político-artístico do "movimento" gayzista que, para tentar desqualificar o texto de Guzzo, demonstrou claramente não ter entendido o que leu (se é que leu). E tentei deixar claro - acredito que consegui fazê-lo - que o que mexeu com os brios do pessoal LGBT (ainda é assim que se chamam?) não tem nada a ver com cabras e espinafres: foram simplesmente os fatos citados acima, que Guzzo menciona em seu texto. Principalmente dois fatos que ainda esperam ser contestados: que os gays não são uma classe especial e diferente de cidadãos e que a propaganda gayzista, ao insistir na idéia contrária, acaba confirmando a Lei das Consequências Indesejadas, segundo a qual o resultado de uma luta - nesse caso, por "igualdade" - termina sendo, paradoxalmente, o seu inverso (o mesmo pode ser dito das cotas raciais, que, a pretexto de combater a discriminição racial, acabaram oficializando-a).  Assim, o "movimento" gayzista acaba conspirando contra os próprios homossexuais (que não são todos militantes da "causa", é bom que se diga). 
 
Como eu disse, já escrevi sobre o tema, e não pretendo me repetir. Vou apenas acrescentar um dado que julgo relevante. Trata-se da definição da assim chamada "homofobia", cuja criminalização é uma das principais bandeiras do "movimento" gayzista. Assim como J.R. Guzzo, tenho sérias dúvidas sobre o que viria a ser essa tal "homofobia" de que tanto falam. E, assim como o colunista da VEJA, não consigo ver nenhum sentido em criminalizar algo que não se sabe exatamente o que é e que ninguém - repito: ninguém - até agora definiu com clareza. "Homofobia" é, para dizer o mínimo, algo extremamente vago. Ao contrário, por exemplo, de "Matar alguém" ou de "Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso" (Artigo 208 do Código Penal Brasileiro; pena: detenção, de 1 mês a 1 ano, ou multa) - algo que costuma ocorrer, diga-se, nas paradas gay em várias capitais. Nesse caso, trata-se de um crime claramente tipificado pelas leis do país. Mas, "homofobia"? O que raios é "homofobia"? Citar uma passagem da Bíblia (ou do Corão) que condena a prática homossexual? Mas proibir tal coisa, concordando-se ou não com o trecho assinalado, é claramente um atentado à liberdade religiosa, um dos pilares da democracia. O que resta, então?  Uma piada de bar, talvez? É, sobra essa alternativa. Nesse caso, o que vai a seguir teria de ser proibido:
 
 
Pode-se considerar uma piada de mau gosto, ou discordar de um ponto de vista. Mas pode-se, sob qualquer pretexto, tentar censurá-los em um estado de direito democrático? De qualquer maneira, o que se estaria criminalizando é nada mais, nada menos, do que uma opinião. E delito de opinião só existe em ditaduras. Preciso ser mais claro?
 
Em outras palavras, é o seguinte: para que a tal "homofobia" seja transformada em crime, como pretendem os militantes gayzistas, a liberdade de expressão e de opinião - inclusive a liberdade de contar uma simples piada de bichinha - teria que ir para as cucuias. Isso significaria que todos teriam de ser obrigados a gostar, por lei, de gays. Ou de cabras e de espinafre.
 
Essa é a questão que está por trás (no bem sentido, claro...) de toda a onda de revolta e de indignação dos gayzistas contra o artigo da VEJA. Todo o resto - revolta por ser comparado a uma cabra, por exemplo - não passa de faniquito de viadinhos afetados e nervosinhos. Coisa de boiola.
 
Quando o debate está de antemão tolhido pelo discurso militante, que demoniza o antagonista em vez de analisar os fatos com honestidade, quem perde é a inteligência. Os militantes de "movimentos" como o LGBT se especializaram em satanizar seus críticos, cobrindo-os de injúrias de todos os tipos quando se dizem, eles mesmos, vítimas de injúria. Com essa tática desonesta, procuram desviar a atenção de fatos que lhes são incômodos, por destoarem frontalmente de seu discurso vitimista, fugindo do debate e colocando-se, assim, acima de qualquer crítica. A se julgar pela repercussão negativa do artigo da VEJA, a tática funciona.  

sábado, julho 14, 2012

A BATATADA DE CHICO BUARQUE



Alguns dias atrás, a Folha de S. Paulo divulgou alguns documentos secretos da repressão militar no Brasil. O título da matéria - deve estar por aí na internet - era mais ou menos assim: "Documentos comprovam como a ditadura perseguia artistas e intelectuais", ou coisa parecida.

Até aí, nenhuma novidade. A censura e perseguição que artistas como Chico Buarque e Gilberto Gil sofreram durante os anos 60 e 70 são de todos conhecidas. Mesmo assim, interessado que sou pelo assunto, resolvi ler a matéria. Eu já estava pronto a me indignar com a revelação de mais uma arbitrariedade dos milicos quando deparei com a história a seguir.

O ano era 1978 e a repressão política estava em seus estertores. Chico Buarque voltava de Havana, aonde fora participar do júri de um concurso literário. À época viajar para Cuba estava proibido - as relações diplomáticas estavam rompidas desde 1964 -, e o cantor carioca foi detido pela Polícia Federal no aeroporto e interrogado. À certa altura, irritado por aquela detenção arbitrária, o autor de "Carolina" disparou o seguinte projétil para  seus interrogadores. Cito a Folha:

Chico, no Dops, afirmou que não estava "realizado politicamente" no Brasil, onde "falta liberdade". "Em Cuba sim", disse à época, "há liberdade".
"Lá todos pensam da mesma maneira, pois todo o povo está integrado ao processo revolucionário. O Brasil, para atingir o socialismo, deveria passar por um processo revolucionário idêntico ao cubano. O mundo todo caminha para o socialismo. Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, todos os países serão socialistas."

É isso mesmo que vocês leram: para Chico Buarque, deus e ícone da música e da cultura brasileiras, em Cuba havia liberdade. E isso - vejam só - porque todos pensam da mesma maneira, como na ex-URSS e na Coréia do Norte... Mais: o mundo todo caminhava para o socialismo. Pois é.

O país em que Chico Buarque dizia que faltava liberdade lhe permitia fazer proselitismo do regime comunista cubano até para os policiais que o interrogavam. Já a ilha em que ele estava realizado politicamente dava um tratamento bem diverso aos artistas que ousassem não cantar conforme a música ditada pelos irmãos Castro, como faz ainda hoje.

Contrariando a profecia do bardo, o mundo não se tornou socialista. O regime militar, felizmente, também não existe mais. A ditadura cubana, porém, permanece, já tendo entrado em sua quinta década de existência, sem nenhum sinal de que irá dar lugar, um dia, à democracia. Lá não há liberdade.

É por essas e outras que defendo a divulgação irrestrita de tudo que se refira  à época do regime militar no Brasil. Assim ficamos sabendo muita coisa sobre muita gente. Principalmente sobre quem sempre posou de defensor da liberdade mas estava se lixando para a democracia e os direitos humanos. E que nunca se retratou.

No Brasil, a ditadura pertence ao passado. Em Cuba, ela é o presente. Mas sou otimista. Um dia a ilha-cárcere será um país livre. Apesar de você, Chico Buarque.  

sábado, abril 07, 2012

EXPLICANDO A DEMOCRACIA A UM LEITOR. (OU: DEBATER 1964 VIROU CRIME?)

Mais um momento em que um militante da esquerda progressista debatia com um militar reformado sobre os rumos do Brasil em 1964: atrás dele (ou seria dela?) militantes reforçam seus argumentos, no mais perfeito figurino democrático. Notem o respeito pela opinião divergente...


O leitor que se apresenta como Artur Lima parece não ter entendido meu último texto, em que falo do duplo padrão ideológico e moral dos esquerdistas para falar de fascismo, ditadura, essas coisas.  Ajudo-o a encontrar o caminho da luz. Ele vai em vermelho:

Gustavo, você como um defensor da democracia como se sente ao saber que um grupo de pessoas se reuniu justamente para comemorar um momento da historia Brasileira no qual não houve liberdade ? , uma mancha na historia da democracia.

Primeiro: o grupo de militares que foi agredido covardemente por um bando de baderneiros profissionais na frente do Clube Militar não se reuniu para "comemorar" o que quer que seja. Alguns até poderiam estar lá para celebrar ou movidos por alguma intenção saudosista, mas o objetivo do evento era DEBATER os fatos de 1964. Era um DEBATE sobre os acontecimentos daquele ano, que levaram ao golpe (ou contra-golpe) que derrubou o governo Goulart. Coisa que os esquerdistas fazem o tempo todo, mas não se vê ninguém tentando impedi-los de fazer isso no berro. Os militares estavam lá reunidos para debater e, no caso, expressar sua opinião sobre um fato histórico. Isso é crime?

Segundo: a que o leitor se refere exatamente, quando fala de "um momento da história brasileira no qual não houve liberdade", e "uma mancha na história da democracia"?  Ao movimento político-militar de março/abril de 1964, que - é bom lembrar - teve amplo apoio da maioria da sociedade brasileira na época? Ou à escalada de radicalização política promovida e estimulada pelo governo Goulart, que tinha, sabe-se hoje, pouquíssimo apreço pela democracia (talvez menos ainda do que os militares que o depuseram)? É preciso ser mais específico com as palavras e com os fatos.

Terceiro: que eu saiba, NENHUM dos militares que estavam ali presentes, que foram insultados e agredidos física e verbalmente, é acusado da prática de tortura ou outros delitos (e se havia algum torturador, certamente não era a maioria). Estavam lá, inclusive, veteranos da FEB que lutaram na Itália. Isso não fez diferença para a turba de delinqüentes morais que acusou a todos, aos gritos, de "assassinos" e "torturadores". Então ir a um debate sobre 1964 no Clube Militar e/ou ter uma opinião que diverge da visão da esquerda sobre o assunto é ser um "assassino" e "torturador"?   

Há o que celebrar dessa época ? não vejo razão alguma para comemorar e sim para se envergonhar.

Repito a pergunta: a que o leitor se refere exatamente? Também acho que não há o que se comemorar em 1964. Até porque, NENHUM DOS LADOS queria democracia. Havia dois golpes em andamento. Ganhou o da direita. Nenhum dos dois me parece louvável. O leitor pode dizer a mesma coisa? 

Como você quer se sintam os parentes dos mais de 300 mortos e desaparecidos desta época ao ver que um pequeno grupo estão comemorando os " grandes feitos" deste saldo ?

Resposta: como gente civilizada, e não como um bando de chimpanzés que saem por aí xingando e cuspindo em quem pensa diferente. É pedir muito?
.
Mais uma vez: não era uma celebração, era um debate. Mas OK, vamos pensar nos parentes dos mortos pelos órgãos da repressão política, a maioria dos quais envolvidos com a luta armada.  Nesse caso, seria justo dedicar pelo menos um pouco de tempo a refletir sobre como se sentem os parentes dos cento e tantos mortos pelos terroristas de esquerda. 

Como você, leitor, quer que se sintam os pais do soldado Mário Kozel Filho, feito em pedaços na explosão de um carro-bomba em 1968? Ou do marinheiro inglês David A. Cuthberg, metralhado estupidamente no Rio por um bando terrorista? E quanto ao tenente Alberto Mendes Junior, torturado e assassinado a coronhadas pelo grupo do ex-capitão Lamarca? Ou Marcio Leite de Toledo, exterminado pelos próprios "camaradas de armas" (como diria o Zé Dirceu) num "justiçamento" (há vários casos semelhantes)?

Será que a tal "comissão da verdade" (que melhor seria chamar de "omissão da verdade") vai tratar desses casos? Como você acha que se sentem as famílias desses e de outros mortos pela esquerda armada ao ver que os assassinos de seus filhos, pais e irmãos, contra todas as evidências, são louvados hoje como "lutadores pela democracia"? E que ainda por cima receberam gordas indenizações do Estado, ao contrário de suas vítimas, que não receberam nem desculpas. Então somente os cadáveres de um lado é que contam? (A propósito, não há mais desaparecidos políticos no Brasil: foram todos considerados oficialmente mortos pelo governo em 1995.)  

Você fala em democracia, mas me parece que esta só é mencionada quando o PT ou a esquerda estão em sua contramão.

Talvez seja porque, hoje, quem ameaça a democracia são partidos como o PT e seus aliados de esquerda, que promovem palhaçadas como o "protesto" no Clube Militar, impedindo na base do grito e da cusparada que militares octogenários debatessem sobre 1964. Um dos que participaram da agressão foi o PCdoB, que queria fazer uma revolução maoísta nas selvas do Araguaia e que, até onde eu sei, não renunciou ainda ao comunismo. Com que direito esses grupos vêm falar em democracia? 

E só para que fique claro, não há punks e skinheads por toda a parte entretanto é necessário que se combatam esses grupos com todo o rigor justamente para que não proliferem. 

Não tenho nada contra punks (aliás, nem falei neles), já os skinheads e qualquer movimento racista e neonazista merecem a mais firme condenação de qualquer pessoa decente. Não se deve ser tolerante com esses intolerantes. A questão é: e os comunistas? Por que mereceriam tratamento diferenciado?

Trocando em miúdos, o que está aí em cima é o seguinte: militares têm tanto direito a debater sobre qualquer assunto quanto os esquerdistas. Têm o direito de mostrar a sua versão dos fatos e, inclusive, de comemorar os feitos do regime militar, se assim quiserem. Do mesmo modo como a esquerda comemora e venera seus "heróis". Tentar impedir um ou outro de fazerem isso, ainda mais na base da gritaria e da cusparada, além de um óbvio atentado à liberdade de opinião, é típico de trogloditas que acham que são donos da Verdade - e da História.  Coisa, enfim, de autênticos fascistas.

Quanto a mim, posso dizer que sou contra todas as ditaduras, de esquerda e de direita. E que, sim, defendo o direito à memória e à verdade - à TODA a verdade.

E o leitor que escreveu o comentário, pode dizer o mesmo?

segunda-feira, dezembro 19, 2011

O HERÓI DA DEMOCRACIA E A MÚMIA COMUNISTA



Às vezes a História prega peças na gente, com um sentido de ironia que desafia a compreensão.

Quis o destino que Václav Hável, o herói da luta contra o comunismo na ex-Tchecoslováquia, e Kim Jong-il, o caricato tirano comunista da Coréia do Norte, morressem quase no mesmo dia.

O poeta e dramaturgo Václav Hável, 75 anos, passou quase toda sua vida na oposição à ditadura comunista imposta a seu país por um golpe de Estado após a Segunda Guerra Mundial. Entre idas e vindas pela cadeia e manifestos como o "Carta 77", que pedia respeito aos direitos humanos, teve sua obra literária censurada pelos comunas capas-pretas a mando de Moscou. No auge da "primavera de Praga", sufocada com tanques pelo Kremlin em 1968, e destoando dos comunistas “soft” liderados por Alexander Dubcek, ele dizia o que era, já então, uma realidade inegável: era impossível dar uma “face humana” ao comunismo, uma ideologia e um regime desumanos por natureza (lição que alguns saudosistas ou simpatizantes da foice e do martelo ainda insistem em ignorar). Em 1989, ao sair de sua última estada na prisão, tornou-se o líder da Revolução de Veludo, que encerrou de vez, sem que um tiro fosse disparado, o domínio marxista-leninista no país, do qual se tornaria, meio relutantemente, presidente oito dias depois da queda do Muro de Berlim. Com a divisão da Tchecoslováquia em 1993, assumiu a Presidência da República Tcheca, aposentando-se da política em 2003.

O ditador Kim Jong-il, 69 anos, jamais conheceu a cadeia, embora tenha mandado milhares para campos de concentração. Herdeiro do ditador Kim Il-sung (o "grande lider", caso único na História de "presidente eterno" mesmo depois da morte), Jong-il, o "estimado líder", transformou todo o seu país, a Coréia do Norte (oficialmente, "República Popular Democrática da Coréia", embora não seja nem democrática, nem popular, nem, a rigor, república) numa imensa prisão. Desde a morte do papai-ditador (que tinha, no currículo, a responsabilidade por uma das mais sangrentas guerras do século XX, entre inúmeras violações aos direitos humanos), o nanico Jong-il, com seu jeito esquisitão e cabelo à la Chico César, seguiu à risca o padrão de bizarrices que costuma acompanhar todos os ditadores do tipo. Não contente em matar seu próprio povo de fome (botando a culpa, claro, nos terríveis “imperialistas ocidentais”), ainda ameaçava o mundo com a arma nuclear, que a ditadura construiu em segredo por cinquenta anos. Fiel à tradição familiar e seguindo o exemplo de outros tiranos comunistas como Fidel Castro, algum tempo atrás ungiu seu filhinho, o rechonchudo Kim Jong-un, como seu sucessor. Tudo indica que Jong-Un seguirá a mesma trilha de loucura totalitária do pai e do avô, afastando a empobrecida Coréia do Norte de sua vizinha, a rica - e democrática - Coréia do Sul.

Dificilmente poderia haver contraste maior: de um lado, um homem que dedicou sua vida à luta pela liberdade; de outro, um dos maiores praticantes do totalitarismo. Um deixa como legado a restauração da democracia em seu país, hoje um dos mais prósperos da Europa centro-oriental. Outro, deixa atrás de si um rastro de morte e destruição quase inimaginável, um país arrasado e reduzido à mais absoluta miséria por um regime capaz de tornar suportável a distopia totalitária imaginada por George Orwell em sua obra-prima, 1984. A separar os dois personagens, mais do que a distância, um mundo de diferenças. No caso do norte-coreano, um oceano de cadáveres.

Dizem que a morte iguala a todos. Se isso é verdade, aí estão dois exemplos que desmentem esse lugar-comum. Václav Hável, o herói da democracia, está no Céu, onde devem estar os benfeitores da humanidade. O mundo civilizado, que é a parte da humanidade que presta, chora sua morte e lhe rende justas e merecidas homenagens. Quanto à múmia comunista Kim Jong-il, assim como todos os demais tiranos sanguinários de sua laia, não há nada a se lamentar em sua morte. Que a terra lhe seja pesada.

sábado, dezembro 17, 2011

CHRISTOPHER HITCHENS, A MORTE DE UM INTELECTUAL "DO CONTRA"

Corria o ano de 2003, poucos meses após a derrubada do ditador Saddam Hussein pelas forças da coalizão anglo-americana, quando foram divulgadas fotos mostrando soldados dos EUA claramente abusando de prisioneiros iraquianos. Em imagens chocantes, presos eram mostrados amontoados, nus, cobertos de fezes, encapuzados, ameaçados por cães e em poses obscenas, enquanto sorridentes carcereiros, entre os quais uma jovem franzina de 21 anos de idade, pareciam divertir-se como se estivessem num churrasco. Logo o local dos abusos, a prisão de Abu Ghraib, viraria sinônimo, na imprensa mundial, de tortura e arbitrariedade.

Em meio à onda de revolta geral que se seguiu à publicação das fotos, a opinião que mais se ouviu foi que Abu Ghraib deitava por terra, definitivamente, a justificativa de que a guerra era necessária para derrubar uma tirania e instalar, em seu lugar, a democracia. Como demonstrava o escândalo, os americanos seriam iguais a Saddam etc. e tal.

Foi então que, no meio do clamor universal de condenação aos EUA, um escritor e jornalista britânico, com longos anos de militância na esquerda e conhecido por sua defesa intransigente dos direitos humanos - escrevera um livro com duros ataques ao ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, que considerava um criminoso de guerra - publicou um artigo em que, destoando radicalmente da onda mundial anti-EUA, ousava afirmar que, desde a invasão do Iraque e a queda do regime tirânico de Saddam, o respeito aos direitos humanos dos prisioneiros em Abu Ghraib aumentara drasticamente.

Como assim?, perguntaram-se muitos, atônitos. Simples, meus caros, prosseguia o autor do artigo: após a guerra, os americanos compraziam-se em humilhar e expor os prisioneiros em cenas degradantes; na época de Saddam, nenhum desses presos sairia vivo da prisão.

Em outras palavras: Abu Ghraib era agora um centro de torturas; antes, era um matadouro humano. Além do mais, os soldados americanos que aparecem nas fotos judiando dos presos que deveriam guardar responderam a processos e foram condenados, algo impensável na época de Saddam. Alguém poderia negar que houvera uma evolução?

Quem era esse escritor, jornalista e crítico literário que ousou desafiar assim um consenso mundial, do qual faziam parte a totalidade da esquerda, o New York Times, ONGs, a "Velha Europa", o papa etc.?

Seu nome era Christopher Hitchens.

No último dia 15, Hitchens, inglês de nascimento, morreu de câncer, aos 62 anos, nos EUA, país que (para horror de muitos de seus críticos) adotara como seu há alguns anos. Uma perda irreparável para todos aqueles que prezam a lucidez e o bom senso, pontuado por generosas doses de polêmica, que eram sua marca registrada.

Hitchens foi um dos poucos, praticamente o único public intellectual, ou intelectual público - figura absolutamente inexistente no Brasil, onde predominam os palpiteiros ou os ideólogos de quinta categoria do tipo emir sáder e frei betto - a não fazer coro com os que condenaram de antemão a intervenção anglo-americana no Iraque em 2003.

Na ocasião, ele defendeu ardentemente a mudança de regime em Bagdá como um imperativo da democracia e dos direitos humanos em face de um tirano sanguinário, que tinha em sua ficha corrida duas guerras e milhares de mortes em décadas de terror absoluto.

Por causa disso, ele, Hitchens, apanhou um bocado de seus pares, que pareceram não se importar com a contradição de falarem em nome da humanidade e, ao mesmo tempo, defenderem a permanência no poder de um facínora como Saddam. Hitchens, ao contrário deles, pode ser acusado de muitas coisas, menos de falta de coerência.

Poucos escritores de nossa época conseguiram revelar, com tanta verve e com tanta ênfase, a idiotia do antiamericanismo, sua completa miopia política e moral, que leva autoproclamados defensores da liberdade a se colocarem como escudo entre os EUA e regimes fascistas regidos por tiranos homicidas.

Raros são os intelectuais que, assim como Hitchens, desafiaram consensos fabricados em nome de princípios, não dando a mínima para a opinião do rebanho e para convencionalismos politicamente corretos. O fato de ser George W. Bush o presidente dos EUA não o deixou cego para o caráter realmente demoníaco (embora ele, Hitchens, fosse ateu) da ditadura de Saddam.

Tenho em Christopher Hitchens uma de minhas referências. Nem tanto por suas idéias, que quase nada tinham de originais (era um divulgador, não um filósofo). Mas, acima de tudo, por sua atitude de rebeldia intelectual, baseada no confronto da maioria e no pensar com a própria cabeça.

Como polemista, ele era nada menos do que brilhante. Com a mesma lógica implacável com que defendia a derrubada de Saddam (cujo regime totalitário, ao contrário de muitos que se opuseram à guerra, ele conheceu de perto nos anos 70), Hitchens ajudou a demolir mitos como Madre Teresa de Calcutá e, em livros magistrais como A vitória de Orwell e Carta a um jovem contestador, firmar posição em defesa dos ideais democráticos. Era, enfim, um intelectual sem peias ideológicas, um espírito livre lutando pela liberdade - um verdadeiro "do contra".

Hitchens era ateu, e um cínico veria em sua morte prematura uma espécie de castigo divino (o que só reforçaria, desconfio, seu ateísmo - para quê um deus que fulmina os que não se curvam perante Ele?). Ninguém tentou, assim como no caso de Voltaire, chamar um padre. Sabiam que seria inútil. (Li que, em seu leito de morte, em estado terminal de câncer, ele queria falar de literatura.)

Honestamente, porém, acho essa característica de Hitchens - seu ateísmo - a menos interessante de suas qualidades. Muitos conhecem sua obra principalmente por causa do livro Deus não é grande que, juntamente com outras obras de autores como Richard Dawkins, Daniel Dennet e Sam Harris, tornou-se um best-seller da literatura ateísta que, de uns anos para cá, virou moda.

Pessoalmente, acho esse seu livro mais fraco, embora a premissa por trás dele seja interessante - em um momento em que se vê a ascensão de movimentos fanáticos e do fundamentalismo religioso, que atingiu o auge em 11 de setembro de 2001, um autor atrevido vem e ousa afirmar, com todas as letras que não, Deus não é grande, e que é melhor e mais saudável (mental e fisicamente) viver sem essa invenção de padres, rabinos e mulás...

Como polêmica, o livro é certamente eficaz, mas é raso filosoficamente, concentrando-se nos aspectos exteriores da religião, particularmente na forma como leva pessoas em outras circunstâncias boas e sensatas a cometer toda sorte de loucuras e insanidades em nome da fé. Além do mais, Hitchens ignorava que a militância ateísta e anti-religiosa pode ser um instrumento para tolher a liberdade, como demonstram as ex-repúblicas comunistas e alguns "movimentos" atuais, que, em nome dos direitos de minorias, pretendem calar a maioria que reza (sim, estou me referindo aos talibãs do gayzismo e assemelhados). Prefiro o Hitchens ácido polemista político, inimigo declarado dos chavões e lugares-comuns esquerdistas que, por ter partilhado um dia, conhecia tão bem e demolia com tanta competência.

Tais fatos à parte, o mundo perde com a morte de Christopher Hitchens. Perde em inteligência, perspicácia, incredulidade, inconformismo e, acima de tudo, em espírito crítico e independência intelectual. E fica, infelizmente, um pouco mais parecido com o Brasil de hoje.

segunda-feira, novembro 07, 2011

A SEDUÇÃO DO TOTALITARISMO (OU: EXPLICANDO PLATÃO A UM IGNORANTE SOBERBO)

Platão: alguém precisa defendê-lo dos que o citam


Que tal trocar eleições livres, alternância de poder e liberdade de expressão por partido único, censura e repressão política?

Que tal substituir conquistas democráticas que custaram sangue, suor e lagrimas por um Estado-Leviatã todo-poderoso, eliminando as liberdades individuais, em nome, sei lá, de mais segurança?

Que tal escolher viver, em vez de numa sociedade democrática, onde todos podem ascender socialmente e participar dos destinos do país, em uma sociedade organizada como uma colméia ou um formigueiro, dividida em castas?

Que tal renunciar voluntariamente ao status de cidadão para se tornar súdito de um governo totalitário, dominado por uma elite de iluminados, a que seria vedado, para se dedicarem exclusivamente à função de decidir o que é melhor pata todos, o direito à família e à propriedade?

Então, que tal?

É, eu tambem achei uma péssima idéia.

Mas há quem acredite que isso vale a pena. Um leitor chamado Diogo, por exemplo, botou na cachola que a opção acima – uma sociedade rigidamente hierarquizada, em que os direitos individuais seriam inexistentes e todos teriam as vidas tuteladas pelo Estado – é muito superior à democracia representativa. Por quê? Primeiro, porque a democracia seria uma bagunça (ou, como ele diz: um "oba-oba do caralho"); segundo, porque assim diziam Hobbes e Platão, ora!

Já escrevi sobre o dano que pode causar a cérebros adolescentes uma leitura dogmática e superficial dos clássicos. É algo que deveria, a meu ver, ser proibido a crianças e a idiotas. Lembrei agora de um caso que presenciei há alguns anos: certa vez, em uma palestra na universidade em que me formei, uma aluna do primeiro ano de Direito pediu a palavra e perguntou aos palestrantes por que não adotávamos o direito consuetudinário, tal como ocorre na Inglaterra. Provavelmente fascinada pela palavra – como soa bem, “consuetudinário” –, que ela, provavelmente, tinha acabado de ler ou ouvir pela primeira vez, ela parecia acreditar que este seria um modelo superior ao nosso Direito de inspiração romana, o caminho ideal para a solu;ão de todos os nossos problemas jurídicos. Isso foi até um dos professores presentes lembrar, meio constrangido, que não era possível um país adotar, por decreto, o Direito consuetudinário, pois este se caracteriza justamente por ser… consuetudinário, ou seja, baseado nos costumes, e não nas leis…

Lembrei dessa história ao ver a forma como o leitor se apega a Hobbes e a Platão. Principalmente ao vê-lo negar, com veemência, que seu elogio da república platônica signifique defender ditaduras. Basta ler A República, ele diz. Vou dar um pouquinho mais de atenção a ele:

Como já disse no meu comentário anterior (e que você não colocou por preguiça ou alguma má intenção), Platão era contra a tirania (leia o livro TODO e saberá).

Portanto, ao contrário do que você disse, NÃO ME UTILIZO DA "República para defender regimes como a ditadura castrocomunista em Cuba..." MUITO PELO CONTRÁRIO, SOU CONTRA A DITADURA (TIRANIA).

Hummm.... Será? Então vejamos.

Em primeiro lugar, vamos lembrar: a democracia é - felizmente - um sistema imperfeito. Por que digo "felizmente"? Porque sempre que alguém tentou impor a perfeição aos negócios humanos, sobretudo à política, o resultado foi uma pilha de cadáveres. A tendência a viver na irrealidade e em criar mundos onde tudo seria perfeito tem sido a causa de algumas das maiores tragédias da História da humanidade. Aí estão Hitler e Stálin, para dar apenas os dois exemplos mais conhecidos no século XX. Essa tendência se encontra em Platão, particularmente em A República, assim como em Hobbes, em Thomas More, em Tomás Campanella. E, é claro, em Marx e Lênin, servindo de justificativa filosófica para regimes totalitários.

Obviamente, nem Platão nem Hobbes estavam pensando em tais regimes quando elaboraram suas doutrinas, e isso só leva à conclusão de que propor sua aplicação literal na realidade de hoje é um anacronismo fruto de mentes fantasiosas e irrealistas. O fato de a democracia ser imperfeita leva cérebros dogmáticos e juvenis a tentar implantar, de forma acrítica e mecanicista, tal ou qual teoria redentora e salvacionista. O resultado desse tipo de engenharia social, não é preciso ser um especialista para perceber, só pode ser desastroso.

"Ah, mas eu sou contra a ditadura (tirania)", diz o leitor. Eu não duvido que ele seja contra a tirania tal como Platão a via, assim como não duvido que ele seja contra a democracia ateniense do século IV a.C. O problema, que pelo visto ele ainda não percebeu, é que tanto democracia quanto tirania são conceitos que significavam uma coisa na época de Platão, e outra coisa completamente diferente hoje, 2.300 anos depois. A democracia criticada pelo filósofo era um regime escravista, no qual dez mil cidadãos livres escolhiam diretamente as autoridades da pólis. Hoje, há de se convir, as coisas são um tanto diferentes. O mesmo ocorre com tirania – e com ditadura (uma criação, aliás, romana, e não grega). Dizer-se contra a democracia hoje, em 2011 d.C., só pode significar, portanto, duas coisas: ou a defesa da anarquia (o que não é o caso do leitor) ou da ditadura (autoritária ou totalitária). É colocar-se, portanto, a favor de regimes como os de Cuba ou da Coréia do Norte.

É possível que Platão estivesse certo ao desconfiar da cidade-Estado de seu tempo, em particular da democracia ateniense, que considerava decadente e que condenou seu mestre Sócrates a beber cicuta. Mas daí a imaginar que sua teoria da comunidade ideal seja viável hoje em dia – mais: que seja preferível à democracia moderna – é de uma ingenuidade dogmática que beira a insanidade. Corresponde a tentar substituir a química pela alquimia, ou os carros a motor pela carroça de burros. Não é por acaso que do nome de Platão veio o adjetivo platônico – no sentido em que entrou para o vulgo, como sinônimo de utópico ou irrealizável. Ler Platão com as categorias da atualidade é coisa de quem ainda está sujando as fraldas em termos intelectuais. O mesmo vale para Hobbes, que em vida era tratado como um excêntrico, assim como para qualquer outro autor.

Do mesmo modo, também é verdade que Platão era contra a tirania, que via como o resultado da distorsão da democracia (a "excessiva liberdade", de que fala o leitor, que a identifica, de forma bucéfala, com a corrupção dos petralhas), e que identificava como o predominio de interesses individuais sobre o interesse coletivo etc. Daí sua preferência por um regime de tipo aristocrático, guiado pela sabedoria dos reis-filósofos. Numa leitura superficial e dogmática, isso significaria que a democracia seria um regime inferior, e que a melhor maneira de evitar a tirania seria alguma forma de regime autoritário coletivista. Menos por um detalhe: isso era no século IV a.C...

Viu, caro leitor? Não era preguiça minha, não, tampouco má intenção. É só bom senso, mesmo. Algo difícil de achar em ignorantes soberbos. Sem isso, de nada adianta ler uma biblioteca inteira.

É algo tão evidente que até me dá certa vergonha repetir: na democracia representativa moderna, fruto do Iluminismo, a possibilidade de interesses privados se sobreporem aos demais é contrabalançada por um sistema de pesos e contrapesos (checks and balances), que Platão não conhecia, nem poderia imaginar que pudesse existir um dia. Ele jamais ouviu falar, nem poderia, em separação de poderes, representatividade parlamentar e estado de direito, para citar apenas alguns pilares da moderna democracia. Ele não conhecia, por exemplo, Montesquieu. Até porque, para tanto, teria que viajar alguns séculos adiante numa máquina do tempo. Os mesmos séculos que me separam do leitor que acredita que basta aplicar o que Platão escreveu para que não tenhamos corrupção – e que acha, num desafio à lógica mais elementar, que se pode ser contra a democracia, hoje, e não corroborar ditaduras.

É esse sistema, baseado no império da lei e não na vontade dos homens, e que foi aperfeiçoado nos últimos dois séculos, e não o sistema ateniense, que chamamos hoje de democracia. E, em tal sistema, os virtuais excessos são combatidos e dirimidos pela própria democracia, e não pela sua dissolução ou substituição por um regime ditatorial. Infelizmente, isso passou totalmente despercebido ao leitor, que pelo visto acabou de ler Platão e acredita ter achado o Santo Graal.

Para ficar mais claro: como evitar, por exemplo, que a liberdade de imprensa seja usada irresponsavelmente para caluniar outros? ou que a corrupção se alastre? Uma mente infantilizada pelo dogmatismo diria que o jeito é acabar com a liberdade de imprensa e impor a censura, ou fechar o Congresso e decretar a lei marcial. Uma mente liberal, que leu Platão e Hobbes com o olhar do seculo XXI e não dos séculos XVII ou IV a.C., responderia: com mais liberdade de imprensa e com mais democracia.

O leitor, claro, não pensa assim. Para ele, a corrupção, por exemplo, é aliada da democracia, e não sua inimiga. Ele identifica a corrupção como um "excesso de liberdade". Talvez por acreditar que a propria democracia seja um excesso. Enfim, ele é contra a tirania sim, mas só a de Atenas no século IV a.C…

Dizem que o clube mais numeroso do mundo é o dos inimigos das ditaduras de ontem e amigos das ditaduras de hoje. Pelo visto, esse clube não pára de crescer.

sábado, novembro 05, 2011

DEMOCRACIA É PARA GENTE GRANDE

"E, de tanto ler livros de cavalaria, perdeu o juízo". (Dom Quixote)

Estou me divertindo bastante com os comentários que um certo Diogo Dias encasquetou de fazer no blog. Ele acha que a democracia não presta. Mais que isso: acredita que, ao dizer coisas como "cara, não acredito na democracia" e "com certeza, o Estado-Leviatã é melhor", ele estaria emitindo uma opinião que não tem nada a ver com a defesa de um regime político ditatorial. E, para justificar esse seu ponto de vista, ele cita, logo depois de Hobbes, Platão.

Na minha época de professor, deparei com alguns tipos assim. São os chamados ignorantes soberbos - acreditam que, por terem lido um autor (ou a orelha de um livro sobre um determinado autor), são superiores aos demais alunos, que não leram nada. Até aí, tudo bem. O problema é que não raro eles acham que encontraram a chave para a solução dos problemas da humanidade. Não raro, tropeçam no próprio autor, que citam como se fosse o Quinto Evangelho, caindo numa confusão dos diabos. Mas não perdem a pose. Talvez por vaidade. Certamente, por infantilismo.

É o caso do Diogo. Em seu último comentário, ele escreveu o seguinte:

Falta de senso crítico é não ler as obras com atenção. Se você for até a passagem em questão da República de Platão, verá que ele está falando da virada da democracia para a tirania."A liberdade em excesso, portanto, não conduz a mais nada que não seja a escravatura em excesso, quer para o indivíduo, quer para o Estado".

Logo abaixo ele continua: "É natural, portanto, que a tirania não se estabeleça a partir de nenhuma outra forma de governo que não seja a democracia, e, julgo eu, que do cúmulo da liberdade é que surge a mais completa e mais selvagem das escravaturas"(Platão, República, 564a)

É só ler o livro 8 da República com atenção que você poderá comprovar isso que foi citado e muito mais sobre o que ele fala com relação a democracia e a tirania.

O que está acima (há mais no comentário, mas nem vale a pena responder) comprovou minha suspeita de que é inútil tentar argumentar com alguém como o Diogo. Quem cita autores como Platão ao pé da letra para tentar justificar uma opinião contrária à democracia representativa atual - ainda mais com um argumento bucéfalo, que liga democracia à corrupção no governo - está além do alcance de qualquer razão. Pessoas assim não precisam de aulas de Política. Precisam de aulas de Lógica (ou então trocar o remédio).

Como eu disse antes, os trechos acima são um exemplo de uma forma preguiçosa de pensar. É o mesmo mecanismo mental que move os fanáticos políticos e os fundamentalistas religiosos. Para uns, é a Bíblia ou o Corão; para outros, é O Capital - ou A República.

Do mesmo modo que um crente fervoroso acredita que basta aplicar o que está nas Sagradas Escrituras para que todos vivam felizes e em comunhão, há quem acredite que basta aplicar o que está em tal ou qual autor para que tenhamos um mundo ideal, de ordem e tranquilidade. E não importa, para essas pessoas, que os autores em questão tenham vivido num mundo que desconhecia a existência das galáxias e da luz elétrica, 2.500 anos atrás... Do mesmo modo que não importa que existam passagens no Antigo Testamento que defendem, por exemplo, o apedrejamento de adúlteras. Está no livro? Então basta aplicar (ou "basta ler")...

Trata-se, além de uma expressão de preguiça intelectual, de um anacronismo, uma tentativa de interpretar conceitos e idéias fora do contexto histórico em que elas surgiram. Não é preciso ser um especialista para perceber que a democracia de que falava Platão e da qual ele desconfiava não é, evidentemente, a mesma democracia em que vivemos. Não é a democracia em que todos os cidadãos são considerados e tratados como iguais perante a lei, em que vigora a liberdade de opinião e a tripartição de poderes. Não é, enfim, a democracia de 2011, mas a de Atenas em 380 a.C. Tampouco a tirania de que ele fala tem o mesmo significado da que tem no século XXI. Acredito que não preciso explicar por quê.

Isso, claro, não tem a menor importância para mentes como a do Diogo. Para pessoas como ele, democracia e tirania (para não falar em conceitos como totalitarismo) não são coisas reais, mas simples categorias abstratas, idéias retiradas de um livro de Platão ou de Hobbes. Não fazem parte da realidade, nem da História, mas apenas de um debate acadêmico. Tanto que ele chegou mesmo a me desafiar a "derrubar" a teoria hobbesiana sobre o Estado. Como se "derrubar" uma teoria política fosse algo possível, assim como derrubar uns pinos numa partida de boliche...

Diogo não acredita na democracia, nem na de ontem, nem na de hoje. Eu acredito. Mais que isso: acredito que qualquer coisa que não seja a defesa da liberdade individual é um flerte com o totalitarismo, a pior forma de tirania (por exemplo: insinuar uma suposta relação causal entre a democracia e a corrupção, um argumento - repito - bucéfalo). Também acredito que pinçar trechos da obra de qualquer autor e tomá-los como a Verdade Revelada é típico de quem intelectualmente ainda não saiu das fraldas. É coisa de quem tem preguiça de pensar, para dizer o mínimo.

Platão e Hobbes são autores importantes demais para serem seqüestrados por mentes que nem sabem o que desprezam. Já afirmei, teorias são apenas isso: teorias. O que não significa, claro, que não sejam coisas perigosas. Como tal, não deveriam ficar ao alcance de mentes imaturas, tomadas de afã dogmático (e que nem sabem o que isso significa).

O mais engraçado é que o próprio Platão menosprezava os livros, preferindo a uma cultura livresca o método socrático do diálogo. Mas acredito que até isso nosso amigo desconheça. O que é mais uma razão para afirmar que se trata de mais um ignorante soberbo, orgulhoso da própria ignorância.

Como eu disse antes, até poderia ficar aqui discutindo a teoria do contrato social de Hobbes ou debatendo o que Platão quis dizer, frase por frase. Mas não vejo por que fazê-lo, diante de alguém que acredita que ele escreveu A República para defender regimes como a ditadura castrocomunista em Cuba...

Tenho uma sugestão ao MEC: na capa de livros de clássicos da Ciência Polîtica seria bom colocar um aviso - "não recomendável para crianças e débeis mentais". Aí estão comentários como o do leitor acima para explicar por quê. Democracia, assim como os filmes pornô, é para adultos.

segunda-feira, outubro 31, 2011

AINDA RESPONDENDO A UMA MENTE DOGMÁTICA. OU: OS EXCESSOS DA DEMOCRACIA SE COMBATEM COM MAIS, NÃO COM MENOS, DEMOCRACIA

E ainda tem quem defenda isso...


De vez em quando, sou obrigado a trocar idéias com cérebros ginasianos, altamente influenciáveis pela última leitura que fizeram. Estou acostumado a esse tipo de coisa desde meus tempos de professor. Lembro que alguns alunos ficavam entusiasmados com certas teorias políticas, ao ponto de querer aplicá-las imediatamente na realidade.

Os mais inteligentes logo percebiam que aquilo era uma canoa furada, e abandonavam esse projeto delirante. Outros, porém, insistiam no delírio, acreditando ingenuamente na possibilidade de ajustar o mundo ao que disse tal ou qual filósofo iluminado em tal ou qual parágrafo de sua obra magna. É uma forma preguiçosa de pensar, típica de mentes adolescentes e dogmáticas.

É o caso de um certo Diogo, que, ao que parece, deve ter acabado de ler O Leviatã, de Thomas Hobbes e, acometido da mesma sensação atordoante que geralmente se tem ao se terminar de ler o livro pela primeira vez, acredita ter encontrado o Graal. Ele está convencido de que o Estado-Leviatã é superior à democracia. Está convencido de que eleições livres, liberdade de expressão e pluralismo político são bobagens e que renunciar a essas conquistas da humanidade em nome de uma suposta proteção estatal é algo razoável. Até aqui eu consigo entender. O que não consigo entender de jeito nenhum é por que ele nega que isso seja defender o totalitarismo.

Diogo escreveu o seguinte (e começou com uma epígrafe de Platão; sabe como é: para dar mais autoridade ao que diz):

"A liberdade em excesso, portanto, não conduz a mais nada que não seja a escravatura em excesso, quer para o indivíduo, quer para o Estado". (Platão, República, 564a)

O problema com a utilização de epígrafes é que elas podem dizer qualquer coisa, dependendo da intenção de quem as utiliza. Sempre procurei ser bem cuidadoso quanto a isso. Retirada de seu contexto, uma epígrafe pode ser utilizada para justificar tudo, até o contrário do que se quer dizer. Eu, se quiser, posso interpretar a frase acima de forma alternativa, por exemplo como um alerta contra os que usam a democracia para destruí-la (os extremistas e os demagogos). No caso, o contexto é a tese do Diogo segundo a qual o a democracia seria um regime inferior, pois padeceria de um “excesso de liberdade”, que se revelaria na corrupção do governo lulopetista (um “oba-oba do caralho”, como ele diz). Conclusão: Platão estava falando do mensalão e da roubalheira no ministério dos Esportes…

Agora que aprendi que Platão, além de filósofo, tinha poderes divinatórios (e que a resposta para a corrupção é acabar com a democracia), vou tentar entender o que o Diogo diz em seguida:

O problema que coloquei, e você não entendeu, não é a liberdade, mas sim o excesso.

Sou obrigado a corrigir o leitor, já que ele não se corrige: o problema, caro Diogo, é sim a liberdade, e não seu “excesso”, como você diz: é essa a questão para Hobbes. A liberdade, para ele, é um bem a que os indivíduos renunciam em troca de segurança, em primeiro lugar. Você acha isso perfeitamente válido nos dias de hoje. Portanto, só posso concluir que a liberdade, para você, é um bem descartável, e não um direito natural e inalienável do cidadão.

Prossegue Diogo:

Você coloca as coisas numa teoria dualista que não posso concordar: se é contra a democracia, então é pró-ditadura. Ou seja, ou se é democrata, ou se é pró-ditadura.

Será que fui eu que coloquei a questão em termos dualistas, como diz o leitor? Vamos lembrar o que ele mesmo escreveu:

“Cara, não acredito na democracia”

“O grande problema, a meu ver, da democracia é sua liberdade exacerbada. Tudo pode nessa porra de governo, um oba oba do caralho!”

“Com toda a certeza o Estado Leviatã é muito melhor”

“Renunciar à liberdade em troca da proteção não é nenhum absurdo”

“O Estado tem total importância dentro da composição do cidadão”

Quem escreveu o que está aí em cima é alguém que nega ter uma visão dualista sobre a democracia. Alguém que diz não acreditar nela, pois esta padeceria de uma “liberdade excessiva” (daí a corrupção dos petralhas, nessa visão distorcida e míope), entre outras coisas. A diferença entre mim e ele é que eu acredito na democracia, e acho-a superior a todos os outros regimes. Ele acha que ditadura é melhor.

Mesmo assim, Diogo diz: “sou contra a democracia, mas não a favor da ditadura”. Sério? Conheço apenas duas alternativas possíveis à democracia: a ditadura ou a anarquia. Anarquista, já sei que Diogo não é, pois ele diz defender o Estado (e um Estado “forte”, o Estado-Leviatã). O que sobra?

Vamos colocar a questão assim: digamos que apareça alguém dizendo-se a favor da ditadura. Do que devo chamá-lo? De democrata?

Agora eu pergunto: as frases acima são de quem é a favor ou contra ditaduras?

Por que o Diogo se nega a admitir seu juizo de valor e, portanto, seu dualismo antidemocrático? Porque leu Platão (com as mesmas lentes com que leu Hobbes):

Platão, na Reública, se demonstra tanto contra a democracia quanto ao seu oposto, a tirania. Segundo seu entendimento, a tirania viria da democracia e, portanto, deveria combater as duas formas de governo.

Sim, Platão tinha um problema com a democracia grega de seu tempo – que ele culpava pela morte de seu mestre Sócrates (e que era bem diferente da democracia representativa atual, mas isso também passou despercebido ao Diogo). Ele preferia um tipo de regime aristocrático. A pergunta é: e daí? Platão tambem era a favor de um tipo de sociedade ideal dividida em castas, como na Índia. Devemos tantar "aplicar" isso também?

Embora o leitor negue, fica claro que ele enxerga na filosofia de Platão uma justificativa para regimes totalitários, como a Alemanha nazista e a URSS. Como, aliás, muitos viram, enxergando em A República uma espécie de utopia precursora do comunismo e do nazismo (e, de fato, pode-se tracar a origem filosófica do totalitarismo a esse livro seminal). Se é esse o caso, aproveito para repetir: sorry, sou pela democracia.

Diogo vai além, e, enxergando um “problema metodológico” nos exemplos que dei, recusa-se a ver qualquer relação entre o Estado hobbesiano e regimes totalitários.

De qualquer maneira, há um problema metodológico em seus exemplos. Aonde é que podemos afirmar que Khmer Vermelho, Fidel Castro ou Ditadura Stalinista são exemplo de uma aplicação prática da teoria hobbesiana? Sabemos que todos esses exemplos fogem (e muito) do que seria a aplicação da teoria hobbesiana da maneira como ele a coloca. E você, como leitor e professor de Hobbes, sabe muito bem disso!

Quando eu lecionava, fazia questão de dizer que teorias são teorias, não fórmulas mágicas que podem ser aplicadas como experimentos sociais. Onde quer que isso aconteceu, aliás, o resultado foi opressão e tirania. Com Hobbes não é diferente. Exatamente por isso, teorias são coisas perigosas, que não deveriam ficar ao alcance de cérebros juvenis: estes são incapazes de perceber a relação entre hobbesianismo e totalitarismo, por exemplo. E terminam negando o óbvio, caindo numa grande confusão.

Eu até me disporia a debater filosoficamente com gente como o Diogo, se ele não tivesse recorrido a um argumento bucéfalo. Uma das maiores lorotas que alguém já inventou é que a democracia favorece a corrupção, enquanto a ditadura a combateria. Isso ocorre porque, com a imprensa livre, os escândalos são mais divulgados, dando a impressão, nas mentes pouco cultivadas, de que se rouba mais na democracia. É um argumento bucéfalo, porque se baseia numa inexistente relação causal entre liberdade política e roubalheira. Além do mais, corresponde a dizer que os petistas, por exemplo, são os maiores democratas que existem, pois são os que mais roubam. Se, mesmo com a vigilância das instituições democráticas, esse pessoal apronta tanto, imagine o que fariam com poder absoluto e imprensa sob censura? Já pensaram se, em vez da VEJA, só tivessemos, sei lá, a Carta Capital?

De todos os motivos que se poderia ter para desprezar a democracia, a crença de que ela padeceria de um "excesso de liberdade" que favoreceria a corrupção é, de longe, o mais idiota, o menos digno de ser rebatido. Basta lembrar da frase de Lord Acton: "O poder corrompe; e o poder absoluto corrompe absolutamente".

Não, Diogo, não concordo que o grande problema da democracia seja o “excesso de liberdade”. Qualquer excesso da democracia é resolvido com mais, e não menos democracia. Do mesmo modo que qualquer virtual excesso da liberdade de imprensa é resolvido com mais, e não menos, liberdade de imprensa, como dizia Thomas Jefferson. Qualquer coisa diferente disso – censura, por exemplo – é flerte com a tirania e com o totalitarismo. Ponto final.

O engraçado é que isso tudo começou, lembrem, porque um energúmeno veio aqui e chamou o tirano Fidel Castro de "herói da humanidade", afirmando que trocaria a democracia por um prato de lentilhas...

A história é bastante conhecida, mas vale a pena repetir: certa vez, perguntaram a Winston Churchill o que ele achava da democracia. Sua resposta foi a seguinte: a democracia é o pior dos regimes politicos, excetuando todos os outros. Assino embaixo.

Enfim, assim como não é possível "derrubar" uma teoria política, não se pode "aplicá-la", ipsis literis. Quando tentaram, o resultado foi apenas terror e opressão (e aí estão Hitler e Stalin para provar). Seria bom, juntamente com a leitura, um pouco de senso crítico e de bom senso. É isso que distingue um estudioso sério de um boçal.