Mostrando postagens com marcador comunismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comunismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, outubro 08, 2009

FANTASMAS DO PASSADO


Um típico debate comunista
.
.
Muitas pessoas fogem do passado como o diabo foge da cruz. Eu, não. Faço questão de lembrar os fatos de meu passado, mesmo os mais constrangedores. Principalmente esses últimos, pois acredito que se aprende muito mais com eles do que com as passagens mais abonadoras de nossa existência. É fácil se orgulhar daquela medalha que você ganhou no campeonato de salto em distância na quinta série primária, mas, a menos que você se torne um atleta, isso não vai acrescentar nada em sua biografia.

Não escondo de ninguém que participei, como simpatizante, de uma organização sectária ultra-esquerdista, quando eu tinha pouco mais de vinte anos de idade. Já escrevi aqui sobre essa minha experiência. Acho que não fiz nada de que eu possa me envergonhar: foi um aprendizado. Hoje vejo aqueles tempos com olhos críticos, até com certo carinho pelo jovem recém-saído da adolescência que acreditava, em sua santa ingenuidade e arrogância, que iria mudar o mundo. Vejo isso como algo meio ridículo, claro. Mas quem disse que o riso não encerra importantes ensinamentos?

Há quase dois anos mandei um e-mail para dois remanescentes dessa minha fase revolucionária, na qual eu sonhava em tomar o poder e fazer do Brasil uma república soviética. Ambos, até onde eu sei, continuam com as mesmas idéias daquela época, acreditando no colapso iminente do capitalismo e na vitória inexorável do comunismo etc. e tal. No e-maill, eu os desafiava a debater comigo suas teses. Ambos são professores em universidades públicas. Em tese, portanto, seriam pessoas abertas ao diálogo, ao debate franco e sem censura. Um deles nem sequer me respondeu. Outro me escreveu um e-mail, mas apenas para me chamar de reacionário e me pedir que eu não o escrevesse mais.

Se tem uma coisa que esquerdista teme mais do que qualquer outra, é o debate. Não os "debates" entre eles próprios, debates que só o são no nome, pois são mais comício do que outra coisa; mas debates de verdade, desses com dois lados, um a favor e outro contra. Devo ter assistido, quando eu estava na universidade, a uns duzentos "debates" entre um sociólogo marxista e um historiador esquerdista, em que os "debatedores" se esforçavam o máximo possível em estar de acordo que o capitalismo é uma porcaria e que o socialismo, seja lá que nome tiver, é o melhor dos mundos. Nunca vi, e desconfio que jamais verei, um verdadeiro confronto de opiniões entre, por exemplo, um esquerdista e um liberal (no Brasil sempre chamado de "neoliberal"). Quando tomam a palavra, os seguidores de Marx e Lênin são muito eloqüentes, falam em liberdade de expressão, dizem-se contra toda forma de censura etc. e tal. Mas quando são desafiados a expor suas idéias e a debatê-las com quem tem uma visão diferente, geralmente acovardam-se, retraem-se, escondem-se feito bicho do mato.

Coisa estranha, isso. E, ao mesmo tempo, bastante reveladora. Afinal, os esquerdistas de todos os tipos adoram dizer-se a favor da livre circulação de idéias e da discussão ideológica. Entre eles próprios, entenda-se. Quando aparece algum historiador ou filósofo que não pertence à sua grei, que não reza pela cartilha marxista ou politicamente correta, a reação dos "intelectuais progressistas" é sempre a mesma: refugiando-se sob a asa do "coletivo", redigem manifestos, organizam abaixo-assinados, fazem passeatas contra o atrevido que ousou invadir o "território deles" e desafiar o consenso etc. Fazem tudo, menos o que é necessário para o bem da honestidade: debater. Acreditam que a medida da verdade é a unanimidade e a força do número, não a razão e a lógica. O esquerdismo, pelo visto, é mesmo uma crença religiosa: para continuar existindo, precisa afirmar-se e reafirmar-se o tempo todo, pelo método performático e auto-indutivo, ou auto-hipnótico, sem admitir qualquer contestação, como fazem os pregadores evangélicos.

Como eu sou um teimoso incorrigível, não desisti de importunar meus ex-camaradas de sonho revolucionário. Mesmo sabendo que eles não estão a fim de papo. Mesmo sabendo que não querem discussão. Nem eles nem quase ninguém na esquerda. Não querem o debate. Querem aplauso. O meu, pelo menos, eles não vão ter.

quinta-feira, outubro 01, 2009

FOLCLÓRICOS, DELIRANTES E... PERIGOSOS


Saindo um pouco, e ao mesmo tempo não saindo, da questão de Honduras - onde o governo brasileiro assumiu definitivamente o papel vergonhoso de embaixador do chavismo -, leio na VEJA desta semana uma reportagem muito interessante, de autoria de Fábio Portela, sobre o grupo mais esquisito e folclórico da política brasileira: o bloco de partidos nanicos de esquerda, que insistem no delírio de que o marxismo não morreu e que o capitalismo, este sim, está condenado inexoravelmente a desaparecer, e em outras sandices do tipo.

O texto, intitulado "O Socialismo Não Morreu (Para Eles)" e ilustrado com uma caricatura de Karl Marx no leito da UTI recebendo cuidados médicos de alguns representantes dessa fauna exótica, aborda os membros do credo esquerdista da única maneira possivel a alguém com a cabeça sobre os ombros: com a pena da galhofa, como diria Machado de Assis. A coleção de chavões repetidos como dogmas pelos Lênins e Trotskys brasileiros, como um tal Zé Maria, do PSTU - "O importante é a revolução. Ela está chegando, e nós estamos preparados. Haverá uma insurreição do povo. Vamos derrubar o governo e mudar o regime" etc. -, de tão risível, só pode ser recebida com escárnio. Os esquerdopatas brasileiros são mesmo uns tontos - ou militontos, como já escrevi aqui, perdidos em delírios revolucionários e eternamente à espera do D. Sebastião bolchevique que irá matar o dragão capitalista e abrir as portas para um futuro brilhante sob a ditadura do proletariado. Gente como Zé Maria, Ivan Pinheiro (do minúsculo PCB), Heloísa Helena (PSOL), Renato Rabelo (PCdoB) e um tal Rui Costa Pimenta (de um tal PCO) estão muito além do alcance de qualquer racionalidade. Não há dúvida que se trata de um caso de hospício. Não há nenhuma divergência quanto a isso.

O problema, porém, está em que a reportagem de VEJA parece se esquecer de um fato essencial: há loucos mansos e há loucos perigosos. Existem os doidos divertidos e os doidos de se botar camisa-de-força. E os extremistas de esquerda, ainda que sejam uns débeis mentais, não têm nada de mansos ou de malucos-beleza. Muito pelo contrário.

A revista erra, e erra feio, a meu ver, quando acrescenta ao quadro patético dos bolcheviques tupiniquins a seguinte observação: "Os esquerdistas radicais formam um grupo tão curioso quanto inofensivo". E: "As ideias disparatadas desses partidecos dão certo colorido à democracia brasileira, nada mais. Ao sonharem com o pesadelo da restauração socialista, seus militantes conseguem apenas criar para si próprios uma imagem folclórica".
.
é que está. Malucos, delirantes, ridiculos, idiotas, isso os radicais esquerdistas são mesmo. Mas inofensivos, de jeito nenhum! Inofensivos, coisa nenhuma!
.
Do mesmo modo, é óbvio que as idéias que defendem são disparatadas, mas que "dão um certo colorido à democracia brasileira", é algo discutível. A menos que a cor em questão seja o vermelho-sangue, o vermelho-genocídio.
.
Talvez seja um reflexo da época em que fui simpatizante de uma organização trotskista, lá pelos meus vinte e poucos anos, mas o fato é que não consigo enxergar os esquerdistas radicais, bem como os esquerdistas em geral, como gente normal, ou como pessoas com quem se possa conviver em sociedade, sem manter com eles um pé atrás, como se deve manter com quem rasga dinheiro, ouve vozes ou baba pelo canto da boca. Se tem uma coisa que aprendi, é que não existe comunista inofensivo, assim como não existe nazista inofensivo. Assim como não existe charlatão inofensivo, aliás.
.
Não custa nada lembrar: Hitler era considerado por muita gente séria, antes de chegar ao poder, um maluco, um fanfarrão ou um palhaço, nada mais do que isso. A mesma visão tinham muitos sobre Hugo Chávez, e alguns ainda têm. Esquecem-se, assim, que o fato de o sujeito ser um bufão ou acreditar em duendes não o torna menos propenso à irracionalidade, ou à concretização de suas ameaças. Ocorre exatamente o contrário: é justamente por serem uns imbecis, uns doidos de pedra, que os esquerdistas radicais, assim como seus primos nazistas, são perigosos e precisam ser vigiados.

É um erro gravíssimo subestimar a capacidade da esquerda de espalhar terror e destruição, com base no caráter obviamente delirante de suas idéias. É mais que um simples erro, na verdade; trata-se de um cacoete ideológico: ninguém em sã consciência deixa de ficar minimamente preocupado quando um grupo de skinheads e adoradores da suástica aparece nas ruas, defendendo abertamente o extermínio de judeus e outras minorias. Com efeito, ninguém deixaria de levar a sério essas ameaças dos neonazistas, mesmo estando eles organizados em grupelhos ridículos e inexpressivos. Suas idéias, delirantes como são, não seriam consideradas inofensivas, e as autoridades ficariam alertas contra qualquer demonstração de intolerância da parte deles. E é assim que deve ser: nenhuma pessoa, pelo menos nenhuma pessoa decente, deixaria de defender vigilância cerrada sobre os discípulos de Hitler, e a imprensa vez ou outra alerta para esse fenômeno com matérias bombásticas e sensacionalistas. Então por que, com os adeptos do credo comunista, que deixou um rastro de mais de cem milhões de mortos, deve-se agir de maneira diferente?

Fala-se muito em fim do comunismo, em morte do comunismo etc. Mas vejam que curioso: o nazismo e o fascismo desapareceram há quase setenta anos e ainda hoje o espectro desses regimes totalitários assombra a Europa, gerando apreensão nos países democráticos. Já o comunismo deixou de existir como realidade estatal há vinte anos, e já é dado como morto e enterrado, como uma coisa pertencente unicamente ao passado. E isso mesmo apesar da existência, ainda hoje, de ditaduras comunistas como em Cuba e na Coréia do Norte, e guerrilhas narcomarxistoterroristas como as FARC. Não vejo como não enxergar nisso um duplo padrão ideológico, uma certa negligência ou cumplicidade em relação ao comunismo. Se uma pessoa com problemas mentais se mutila e diz ter sido atacada por neonazistas em algum país europeu, ou se aparecem cartazes com a suástica, a gritaria é geral e imediata: fala-se em renascimento do nazismo etc. etc. Se, por sua vez, alguém denuncia o perigo de uma nova onda comunista na América Latina, apontando a natureza intrinsecamente genocida e totalitária do comunismo, é imediatamente tachado de louco ou de extremista de direita. É nesse momento que se faz sentir o peso da ação das patrulhas esquerdistas: todos fazem questão de alardear seu antifascismo, mas ninguém tem coragem de se dizer, em público, anticomunista. Essa negligência em relação a uma ideologia que matou milhões chega a ser suspeita: é mesmo uma fórmula para o suicídio.

Um mantra repetido incessantamente é que qualquer condenação ou preocupação com o comunismo é exagerada e significa apenas reacionarismo porque, afinal de contas, os esquerdistas radicais não passam de uma minoria insignificante, são apenas uma meia dúzia de gatos pingados excêntricos e saudosistas, sem qualquer influência sobre a realidade etc. É um erro terrível. Primeiro, os comunistas sempre foram minoria - foi assim também na época da Guerra Fria, nos países ocidentais -, e nem por isso a "ameaça vermelha" (sempre com aspas) era inexistente (o caso de Cuba é exemplar). Segundo, e o mais importante, são precisamente as minorias, e não as massas acéfalas e amorfas, que conduzem a História e fazem as revoluções, já dizia o próprio Lênin. Foi assim na Rússia, em 1917 - onde os bolcheviques, apesar do nome (que em russo significa maioria), estavam longe de constituírem a maioria do movimento revolucionário russo, e mesmo do movimento operário, até às vésperas da tomada do poder. Foi assim também na China, no Leste da Europa, em Cuba, enfim, em todos os países que tiveram a infelicidade de se transformarem em tiranias comunistas: são minorias de militantes profissionais, seguindo uma disciplina rígida, que tomam de fato o poder político e instalam a ditadura. O povo, as massas, a maioria da população, limita-se a assistir a tudo passivamente, ou a ser conduzido como gado. O movimento, porém, é sempre levado adiante por um pequeno grupo, de maneira subterrânea e legal ao mesmo tempo. Nesse processo, essa minoria trata de impingir, gradativamente, sua visão de mundo, de forma quase anestésica, a fim de alcançar aquilo que o maior teórico marxista depois de Lênin, o italiano Antonio Gramsci, chamou de "hegemonia", "ocupando espaços" na imprensa, nas escolas, nas artes etc., transformando-se, assim, em maioria ideológica. Até que, quando se dão por si, as pessoas estáo repetindo mecanicamente, sem pensar e sem o saber, as platitudes marxistas - desprezando a ameaça da esquerda radical, por exemplo, substituindo a vigilância necessária pela troça que alivia. No Brasil, esse processo está bastante adiantado, como pode facilmente perceber qualquer um que visitar um departamento de Ciências Sociais em qualquer universidade pública ou mesmo privada brasileira.
.
Um outro lugar-comum repetido com ares de verdade revelada afirma que se preocupar com o comunismo hoje é um absurdo, pois este não passa de uma ideologia obsoleta e ultrapassada, pertencente ao museu das idéias. É uma tese falsa pela seguinte razão: algo obsoleto, como um vídeocassete ou uma máquina de escrever, é algo que cumpriu uma função por um determinado tempo, que teve uma utilidade durante um certo período, e depois caiu em desuso. Não é esse o caso do comunismo, que ruiu não porque fosse "obsoleto", mas porque constitui uma ideologia incompatível com a noção de liberdade humana. Afirmar que o comunismo não passa de uma ideologia embolorada pode até servir para sublinhar a superioridade do sistema capitalista sobre o dirigismo estatal, mas significa admitir que, em certa época e em certo lugar, as idéias de Marx e Lênin tiveram uma função importante, até mesmo humanitária - algo que a pilha de cadáveres que deixaram pelo caminho desmente de maneira rotunda. É inegável que o capitalismo é superior ao socialismo, e que as idéias de Marx e Engels cheiram a mofo. Mas isso não quer dizer que se deve baixar a guarda.

É por essas e outras que, diante dos marxistas de galinheiro brasileiros, eu prefiro conter o riso, mesmo sabendo-o difícil, e prestar atenção no que dizem os zés marias e heloísas helenas da vida. Mesmo correndo o risco de prestar involuntariamente um serviço a esses lúnáticos, dando-lhes alguma importância, prefiro fazer isso a me refugiar numa cálida e despreocupada hilaridade, que acalma a consciência, mas cega para o perigo. Acredito que com doidos pode-se até dar umas risadas, mas jamais aceitaria uma carona de um deles. Contra os inimigos da liberdade, principalmente os insanos, toda cautela é pouca. Do contrário, teremos motivos não para rir, mas para chorar.

segunda-feira, julho 20, 2009

UMA INICIATIVA HISTÓRICA

Vem de Portugal uma das iniciativas mais transcendentes e importantes dos últimos tempos. O deputado Alberto João Jardim, do PSD (Partido Social-Democrático) da Ilha da Madeira, irá apresentar projeto de revisão constitucional no qual defende a inclusão, na Lei, do comunismo ao lado do fascismo no rol das ideologias autoritárias e contrárias ao Estado de direito democrático. Ele propõe a reforma dos artigos 46, n. 4, e 160, n. 1, alínea d, da Constituição Portuguesa, que citam nominalmente o fascismo como uma ideologia a ser proibida pelo Estado.
.
A Constituição Portuguesa, promulgada em 1976 - dois anos apenas depois da "Revolução dos Cravos" que pôs fim à ditadura direitista de Antonio de Oliveira Salazar - é uma das poucas do mundo a se referir nominalmente ao fascismo. No Art. 46 ("liberdade de associação"), está dito textualmente:
.
"4. Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista."
.
O Art. 160 ("Perda e renúncia do mandato") reforça essa idéia, deixando claro que "1. Perdem o mandato os Deputados que: (...) d) Sejam judicialmente condenados por crime de responsabilidade no exercício da sua função em tal pena ou por participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista."
.
Na nota introdutória ao projeto de reforma constitucional de autoria de Alberto João Jardim (Ponto VII. Outras Alterações), destaca-se a referência ao "esclarecimento de que a Democracia não deve tolerar comportamentos e ideologias autoritárias e totalitárias, não apenas de Direita, como é o caso do Fascismo" - esta expressamente prevista no texto constitucional - "como vem a ser o caso do Comunismo" - não previsto no texto constitucional.
.
O projeto do deputado madeirense merece entrar para a História como um dos mais importantes, em todos os tempos. Deveria ser imitado por todos os países que prezam pela democracia e pelos direitos humanos. Trata-se de uma verdadeira revolução, no sentido positivo da palavra: pela primeira vez - pelo menos até onde eu sei - um deputado de um país democrático propõe colocar o comunismo no mesmo patamar do fascismo num texto legal. Com isso, percebeu o óbvio, vindo a público tocar o dedo na ferida e recolocar as coisas no lugar. Merece, pois, todo o aplauso. Parabéns a Alberto João Jardim pela inteligente e corajosa iniciativa!
.
Apesar de uma tendência minha a concordar com a frase de Paulo Francis, segundo a qual, para desmascarar um comunista, a única coisa necessária é deixá-lo falar, sou obrigado a dizer que o deputado português está certíssimo. O comunismo, assim como o fascismo, é uma ideologia totalitária, logo inimiga da liberdade e da democracia. Não tem por que estar ausente, portanto, de um texto constitucional nascido da luta pela democracia e que faz referência clara à ideologia concorrente fascista. Se há algo que a História dos últimos oitenta anos demonstra com clareza, é que não se pode ser tolerante com os intolerantes, com os que usam a democracia para sabotá-la e destruí-la. Se iniciativas semelhantes tivessem sido adotadas em países como a Venezuela e a Bolívia, palhaços como Hugo Chávez e Evo Morales não teriam usado os mecanismos da democracia para acabar com ela. Entendeu, José Saramago?
.
Como é natural, já se ouvem vozes criticando o projeto. Não somente da parte dos óbvios prejudicados pela iniciativa - os comunistas e seus simpatizantes -, mas, principalmente, da legião infindável de idiotas úteis que vêem no projeto um "atentado à liberdade de associação e de expressão" etc. Besteira. Em primeiro lugar, porque os comunistas estão se lixando para a liberdade de expressão ou de associação, como basta olhar para Cuba para constatar. E, em segundo lugar, porque a proibição das organizações comunistas está perfeitamente em sintonia com a proibição - que ninguém contesta - das fascistas e racistas, presentes no texto constitucional. Do contrário, ou seja, se não se inclui o comunismo ao lado do fascismo, há uma clara discriminação - inconstitucional em todos os sentidos - a favor de uma corrente totalitária em detrimento da outra. Não faz sentido proibir o fascismo se não se condena, também, o comunismo. Ou se condena a ambos ou não se faz referência a nenhum. Simples assim.
.
No Brasil, iniciativas semelhantes a de Alberto João Jardim jamais teriam sucesso. Por um motivo muito simples: os comunistas estão no poder. E não somente nos órgãos de Estado. Eles estão em todos os lugares: na imprensa, nas escolas, nos sindicatos, nas universidades, nas artes etc. São uma verdadeira elite, dona da hegemonia intelectual e cultural no País, no sentido gramsciano do termo. Criticá-los, ainda que seja por cuspir no chão, ainda é visto por estas plagas como o máximo da "intolerância" e até "autoritarismo".
.
De fato, dizer-se anticomunista, aqui, é um tabu, corresponde a se excluir automaticamente do debate político. Ainda persiste entre nós a lenda de que comunismo e fascismo são antípodas, quando são, na verdade, irmãos siameses, unidos no mesmo ódio à liberdade. Duas décadas de regime militar e sete décadas de intensa propaganda ideológica criaram a ilusão de que o comunismo e os comunistas estão do lado da democracia, e que todos que se lhes opõem são "fascistas" e "reacionários". Aqui, um idiota político como Chico Buarque de Holanda, que age há décadas como embaixador informal da ditadura comunista cubana, é considerado um verdadeiro deus, e um stalinista senil como Oscar Niemeyer ainda é tido na alta conta de "gênio", em que pesem suas declarações absurdas e claramente mentirosas - como o artigo que escreveu enaltecendo uma biografia de Stálin como se esta reabilitasse o ditador soviético, quando na verdade o livro faz exatamente o contrário. O governo Lula e seus associados na imprensa e na academia não vêem problema algum em estar cercados de comunistas, e até se orgulham disso. Afinal, eles são de esquerda, e a esquerda é o lado bom e brilhante da humanidade, como sabemos...
.
A iniciativa é tão mais importante por vir de Portugal, país que esteve submetido, durante quarenta anos, a um regime político, o salazarismo, de laivos claramente fascistizantes (embora não tanto quanto na Itália ou na Espanha). Algo que jamais ocorreu no Brasil, pelo menos não com a mesma intensidade - o Estado Novo varguista de 1937-1945 é o que mais se aproxima do que teria sido uma ditadura "fascista" em terras tupiniquins (quanto ao regime de 64, não teve nada de fascista, como já expliquei aqui antes: foi, na verdade, um regime autoritário, não totalitário). Isso significa que lá, ao contrário de cá, há uma noção mais clara do que seja o fascismo. Isso deveria, em tese, tornar o país mais tolerante em relação ao comunismo, certo? Nada disso. O fato de se mencionar abertamente o fascismo em sua Constituição não quer dizer que se deve dar respaldo ou ter simpatia com o totalitarismo comunista, é o que diz o projeto de revisão constitucional. Trata-se de um imperativo lógico e moral: sendo ambas ideologias antidemocráticas, devem ser ambas igualmente rechaçadas em uma Constituição democrática. O comunismo é tão condenável quanto o fascismo, assim como o obscurantismo religioso católico ou protestante devem ser condenados do mesmo modo que o fundamentalismo islamita, malgrado as suscetibilidades "politicamente corretas". E isso não é intolerância, muito pelo contrário. Assim como se pode falar em islamofascismo, pode-se falar perfeitamente em comunofascismo.
.
Nós, brasileiros, gostamos de fazer piada com os portugueses, a quem, talvez por algum ressentimento de ex-colonizado, julgamos pouco inteligentes. Com projetos como o do deputado Alberto João Jardim, verifica-se que os pouco dotados de luzes não são nossos primos lusitanos, mas nós, os "malandros" e "espertos", que fechamos os olhos para questões como essa. É uma pena que no Brasil não tenhamos um Alberto João Jardim para mandar o "politicamento correto" às favas e chamar as coisas pelo devido nome. Por aqui, o Muro de Berlim ainda não caiu.

quinta-feira, julho 16, 2009

SLAVOJ ZIZEK, OU: O DEVER DE ENTERRAR A "HIPÓTESE COMUNISTA"


Alguns anos atrás, quando eu ainda nutria alguma simpatia pelo marxismo - era, então, simpatizante trotskista -, escrevi um artigo para um jornal local, intitulado "O mal que o Stalinismo fez". Era uma crítica meio pedante, embora sincera e apaixonada, ao totalitarismo soviético e suas variantes, que eu, reverberando minhas leituras de Trotsky e Victor Serge, considerava um desvirtuamento, uma traição ao "verdadeiro" comunismo, o comunismo de Marx, Engels e Lênin, supostamente seqüestrado e deformado por Stálin e sua gangue burocrática, e representado pelo "profeta banido" Leon Trotsky. Eu acreditava, à época, que tudo que se dizia na imprensa e nos livros didáticos sobre "fim do comunismo" e coisas que tais estava errado, era fruto da ignorância ou da "propaganda burguesa": bastaria retomar o curso do marxismo original, pensava, expulsando os traidores e construindo uma autêntica liderança revolucionária dos trabalhadores, tal como defendia Trotsky após sua expulsão da URSS, que a História faria o resto.

Passados mais de dez anos daquele artigo - felizmente, hoje, esquecido -, é com uma mistura de alívio e certa melancolia que constato: tola ilusão! Como eu estava enganado! A derrocada do comunismo (ou dos "Estados operários burocraticamente degenerados", como dizíamos), bem como o próprio totalitarismo soviético, não foram o produto de nenhuma falsificação dos belos e nobres ideais marxistas pela brutal e infame camarilha stalinista, mas, sim, o resultado lógico e quase inevitável desses mesmos ideais. Hoje, isso está claríssimo para mim, e ainda espero ser desmentido pelos trotskistas, os sebastianistas da esquerda.

Minha convicção de que o marxismo é uma ideologia essencialmente totalitária, logo incompatível com a democracia, sai reforçada diante da leitura de textos como o do filósofo esloveno Slavoj Zizek (revista PIAUÍ, n. 34, páginas 58-60). Com o título "A hipótese comunista: começar do começo", Zizek, uma espécie de celebridade pop em certos círculos esquerdistas europeus, seguidor de Marx e Lacan e editor de coletâneas de textos de Lênin e de Mao Tsé-tung, propõe uma retomada da "hipótese" ou "Idéia" comunista. A cada frase, ele parece repetir o refrão daquela música de Raul Seixas: "tente outra vez". Parece parafrasear, quando se refere a "começar do começo", uma propaganda governamental até há pouco veiculada na TV: "sou comunista e não desisto nunca".
.
Vejamos o que diz Zizek, para quem os acontecimentos de 1989 no Leste Europeu foram um "désastre obscur": citando Kierkegaard, ele diz que "um processo revolucionário não é um progresso gradual, mas um movimento de repetir o começo e voltar a repeti-lo muitas vezes". O que ele quer dizer com isso? O seguinte: que, após o fim da pátria-mãe soviética e a queda do Muro de Berlim, os comunistas encontram-se diante da possibilidade - melhor, do dever - de voltar ao ponto onde pararam e "começar do começo". Mais que isso: citando Lênin, ele afirma que é necessário "reafirmar a hipótese comunista" constantemente, sem dar bola para o coro das vozes derrotistas que vêm de baixo e torcem, maldosamente, para que o excursionista caia da montanha. "Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor", ele diz textualmente. Nisso, Zizek proclama sua total concordância com seu colega marxista Alain Badiou, que, na mesma PIAUÍ* (n. 23), afirmou o seguinte: "Se precisarmos abandonar essa hipótese, então não valerá mais a pena fazer nada no campo da ação coletiva. Sem o horizonte do comunismo, sem essa Idéia, nada no devir histórico e político tem qualquer interesse para um filósofo". Logo, prossegue Badiou, "o que cabe a nós filósofos como tarefa, e até mesmo obrigação, é ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista".

Pausa para reflexão. O que está aí em cima é bastante revelador. Nas palavras sábias de M. Badiou (e também, portanto, de Zizek), "sem o horizonte comunista, sem essa Idéia" - com I maiúsculo - "nada no devir histórico e político tem qualquer interesse para um filósofo". O que isso significa, exatamente? Significa que, sem a gloriosa e redentora Idéia comunista, sem esse fetiche, nada, absolutamente nada, se pode fazer, nem pensar. A própria Filosofia (com F maiúsculo) torna-se, portanto, impossível. Ou, dito de outro modo: sem o marxismo, sem a perspectiva comunista e revolucionária, não há Filosofia. Toda a enorme tradição filosófica de milênios, portanto - desde Platão e Aristóteles até Heidegger e Wittgeinstein, de Confúcio a Karl Popper, passando por S. Agostinho e S. Tomás de Aquino -, perderia todo o sentido, seria nada mais do que um exercício fútil e descartável de onanismo mental. A Filosofia, se não estiver a serviço da "hipótese comunista", não é Filosofia, é isso que nos dizem Badiou e Zizek. Daí não ser surpreendente a afirmação que vem logo em seguida: a tarefa dos filósofos - na verdade, sua obrigação, como diz Badiou - se resume a tentar ressuscitar o cadáver, "ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista". Tudo o mais - as complexas questões da metafísica e do ser, o debate interminável sobre a realidade das coisas e o infinito etc. - perde completamente qualquer relevância diante desse objetivo sublime (pelo visto, Raymond Aron não estava sendo metafórico quando definiu o marxismo, em um lance de genialidade, como o ópio dos intelectuais...).

Não é preciso ser filósofo para perceber que, por trás desse palavreado empolado, o que existe é uma tremenda picaretagem, a mais pura vigarice intelectual - uma tentativa canhestra de negar o óbvio, a fim de manter acesa a chama da "Idéia" que a História tratou de jogar na lata de lixo junto com outras ideologias totalitárias, como o fascismo e o nazismo. Isso fica claro quando Zizek apresenta a definição do que seria a tal "hipótese comunista", que deve ser preservada apesar de tudo.

Segundo Zizek, o capitalismo global está assentado em quatro antagonismos, a saber: 1) "a ameaça premente de catástrofe ecológica"; 2) "a inadequação da propriedade privada para a chamada propriedade intelectual"; 3) "as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos, especialmente no campo da engenharia genética"; e - o mais importante para Zizek - 4) "as novas formas de segregação social - os novos muros e favelas". Os três primeiros são o que Zizek chama de "commons", usando uma terminologia emprestada dos teóricos marxistas Michael Hardt e Antonio Negri: são os bens comuns a toda a humanidade, que constituem "a substância compartilhada do nosso ser social, cuja privatização é um ato violento ao qual se deve resistir, se necessário, pela força". "Contudo", prossegue Zizek, "é apenas o quarto antagonismo, o dos excluídos, que justifica o termo comunismo".

Olhemos um pouco mais de perto esses quatro "antagonismos do capitalismo global", no dizer de Zizek. O primeiro, a "ameaça premente de catástrofe ecológica", pode ser traduzido assim: o capitalismo é mau, frio e perverso, movido unicamente pela ganância e pelo lucro, o que resulta, inexoravelmente, em destruição do meio ambiente e em poluição. Uma caracterização muito atraente, sem dúvida, que cairia bem em uma cartilha ginasiana ou em uma escolinha do MST. A dedução lógica é que o sistema antagônico ao capitalismo - o socialismo, o comunismo, enfim a "hipótese comunista" -, por colocar o "coletivo" acima do vil egoísmo e da ambição individual, é automaticamente superior e deve-se, portanto, lutar por ele. Objetivo certamente sedutor, sobretudo para adolescentes revoltados de classe média em busca de uma "causa", mas que, infelizmente, não responde às seguintes questões inconvenientes: 1) onde está cientificamente comprovado, senão na mente paranóica dos ecoxiitas, que o capitalismo é necessariamente incompatível com a preservação do meio ambiente e conduzirá, inexoravelmente, a uma catástrofe ecológica? (o desenvolvimento sustentável e o eco-turismo, por exemplo, seriam, nesse sentido, atividades sem fins lucrativos - o próprio Zizek, aliás, parece reconhecer a fragilidade desse "antagonismo"); e 2) se a "hipótese comunista" é mesmo superior ao capitalismo no quesito preservação ambiental, então se deveria concluir que tragédias como a de Chernobyl e o secamento do Mar de Aral, sem falar nas fábricas mais poluentes do mundo, ocorreram em outro lugar, e não na finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Quanto a isso, Zizek silencia.

Sobre o segundo "antagonismo" (a "inadequação da propriedade privada para a propriedade intelectual"), suponhamos, por um momento, que a propriedade privada seja mesmo inadequada à propriedade intelectual. Nesse caso, teríamos que admitir que os artistas e intelectuais, sem falar nos cientistas, que lucram com as patentes e royalties de seus livros, filmes e invenções, viveriam em outro planeta. Já os escritores, músicos e cineastas vinculados à UNEAC - União dos Escritores e Artistas de Cuba -, obrigados a entregar seus direitos autorais ao Estado, e que vivem em um país onde vigora, segundo Zizek, a "idéia comunista", seriam os mais ricos do mundo.

Quanto ao terceiro ponto ("as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos" etc.), parece-me que Zizek confunde o avanço da ciência com o próprio capitalismo (no que, aliás, pode estar certo: afinal, foi o capitalismo, e não qualquer outro sistema socieconômico, o responsável pelas maiores descobertas científicas e pelo maior salto de qualidade na vida da humanidade, em toda a História). Além do mais, comete um erro crasso, ao inferir que, por estarem supostamente submetidos à lógica implacável do mercado, tais avanços estariam além de qualquer controle: qualquer ameaça potencial à segurança genética da humanidade - a clonagem de embriões humanos ou os vegetais transgênicos, por exemplo - encontra-se, há anos, sob intenso escrutínio governamental e da opinião pública na maioria dos países, e o simples debate acalorado entre defensores e inimigos da engenharia genética demonstra-o cabalmente. O mesmo não pode ser dito, porém, dos antigos países socialistas, nos quais a vigência da "Idéia" levou a aberrações como o lyssenkismo, com todos os funestos resultados conhecidos na produção de alimentos. É inegável que, em sociedades totalitárias, a ciência, como tudo o mais, está subordinada ao Estado, constituindo, assim, uma ameaça muito mais temível. O problema, portanto, não é a ciência em si, mas sua utilização por regimes totalitários. Quem leu Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, sabe do que estou falando.

Mas é no quarto "antagonismo" apontado por Zizek ("as novas formas de segregação social") que a "idéia comunista" se mostra, para ele, mais forte e necessária. Para Zizek, o pecado maior do capitalismo, aquilo que ele, Zizek, não pode perdoar, não é a devastação dos rios e florestas, a incompatibilidade com a noção de propriedade intelectual ou as ameaças inerentes à manipulação dos genes, mas o antagonismo incluídos (a "classe dominante" de outrora), de um lado, e excluídos (a "classe dominada"), de outro. É, enfim, a velha luta de classes, hoje ampliada para além da dicotomia clássica "burguesia versus proletariado" para abarcar a questão dos muros e favelas etc. A "hipótese comunista", nesse sentido, seria a busca por reduzir a distância - social e geográfica - entre esses dois setores, ao mesmo tempo em que rejeita a "noção liberal predominante" de democracia como inclusão dos excluídos "como vozes minoritárias" em favor da "universalidade corporificada dos excluídos". Esta seria, segundo Zizek, a concretização da "hipótese comunista" em seu mais alto grau: "Desde a Grécia Antiga, temos um nome para a intrusão dos excluídos no espaço sociopolítico: democracia". E arremata: "Em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm 'nada a perder além de seus grilhões', o que nos une é o perigo de perdermos tudo".

Mais uma vez: algo muito lírico, muito bonito, poético até. Pena que essa descrição da "hipótese comunista" como o éden dos excluídos-tornados-incluídos seja tão verdadeira quanto o conto de fadas marxista que quer preservar a qualquer custo. Em primeiro lugar, a definição dessa "idéia" como "a intrusão dos excluídos no espaço sociopolítico" - que corresponde, de fato, ao conceito clássico de democracia, desde Atenas - tem tudo a ver com o capitalismo da atualidade, e nada a ver com o que quer que seja identificado com o comunismo, seja como realidade estatal, seja como "hipótese" ou "idéia". Pois é somente no capitalismo que floresceram, até agora, sociedades plenamente democráticas - se Zizek tem alguma dúvida quanto a isso, sugiro olhar para os países da Europa onde vive, por exemplo. É verdade que o capitalismo pode conviver com regimes autoritários (o Chile de Pinochet e a China atual são dois exemplos), mas é um fato inegável que, até o momento em que escrevo estas linhas, não surgiu ainda nenhum exemplo de país não-capitalista que fosse, também, uma democracia. Isso sem mencionar a brutal separação incluídos/excluídos nas "democracias populares" do Leste Europeu entre 1945 e 1989, onde uma elite privilegiada de burocratas do Partido excluía a maioria da população das delícias da "ditadura do proletariado" (foi o que ocorreu em TODOS os países socialistas). Inclusive com o mais famoso Muro da História - o Muro de Berlim -, uma prova cabal de separação política e social não só interna, mas de um regime em relação ao resto da humanidade. Zizek jamais irá reconhecer, mas a inclusão dos excluídos nos espaços de decisão coletiva é, na verdade, uma característica do... capitalismo.

A obstinação dos marxistas de hoje, como Slavoj Zizek, no que chamam de "hipótese comunista" só se explica por uma necessidade platônica e psicológica de separar o "ideal" do "real', da mesma forma como ainda hoje muitos filósofos e cientistas sociais persistem na distinção entre "socialismo ideal" (a "hipótese comunista" de Zizek e Badiou) e "socialismo real" (a dura e feia realidade dos países comunistas). Assim, pretendem manter as consciências limpas, preservando o ideal da juventude ao mesmo tempo em que o inocentam de qualquer responsabilidade pelos crimes dos comunistas. Estes seriam culpa da maldita realidade, que insiste no péssimo hábito de não se curvar ante nossos mais puros desejos...
.
É uma tática eficiente, não se pode negar. Muitos que jamais leram uma linha de Marx na vida, e que sabem tanto sobre o comunismo e a Revolução Russa quanto de física quântica, repetem automaticamente essa tese. Mas isso demonstra apenas o triunfo não da verdade, mas da propaganda e do wishful thinking. É fora de dúvida que, por mais que queiram o contrário os órfãos da utopia marxista, o fato é que a realidade comunista é inseparável da "Idéia". O Gulag e os processos de Moscou, os milhões de mortos em sangrentos expurgos ou em fomes generalizadas e induzidas pelo Estado na Ucrânia e na China, os campos da morte no Camboja, o paredón em Cuba... nada disso surgiu do nada, do vazio; tampouco foi o resultado de um desvio de rota, de um desvirtuamento do plano revolucionário original, supostamente puro e imaculado, devido, talvez, ao caráter intrinsecamente mau e pervertido da natureza humana, ainda não tocada pela vara de condão redentora do marxismo. Pensar assim é pura auto-ilusão, mera racionalização da derrota. O "socialismo real" nada mais foi do que a aplicação, na prática, do "socialismo ideal"; a tradução, no plano da realidade, dos pressupostos e dogmas marxistas e comunistas. Os que hoje negam esse fato e se refugiam no engano neomarxista ou neocomunista - como se repetir o mesmo erro resultasse, um dia, em acerto -, deveriam ter a honestidade e a coragem intelectual de admitir que toda a obra marxista, e inclusive o comunismo pré-marxista, contém em germe a semente do totalitarismo, assim como as teorias eugenistas e racistas do século XIX forneceram a base pseudo-científica à "Solução Final" e a Auschwitz - tese que nenhum estudioso sério do nazismo ousa contestar.
.
Os verdadeiros pais intelectuais do extermínio de 100 milhões de seres humanos não foram Stálin ou Mao, nem Lênin e Trotsky, mas Marx e Engels. Aqueles foram apenas seus operadores, tendo acrescentado muito pouco ao que os mestres disseram. Querer dar uma nova chance a essa "Idéia" responsável por tanta morte e sofrimento é, para usar uma imagem do próprio Marx, tentar fazer a História repetir-se, seja como tragédia, seja como farsa (ou, o que é mais provável, como as duas coisas ao mesmo tempo). Transformar a distopia em utopia é a melhor maneira de iludir os incautos. Contra essa monumental impostura, contra essa tentativa de coletivização do pensamento, é necessário resistir, aqui sim, se necessário, pela força. Comunismo nunca mais. Nem como hipótese.
---
* = A PIAUÍ é aquela revista moderninha que posa de "independente" e que vez ou outra publica artigos de Tariq Ali ou de Alain Badiou, mas que nunca publicou nada, pelo menos não que eu saiba, de Jean-François Revel, Bernard Lewis ou Victor Davis Hanson. É, novamente, a "imparcialidade" a favor de um lado só.

quinta-feira, junho 04, 2009

TIANAMEN: 20 ANOS DEPOIS






.
Quando será que estas imagens pertencerão unicamente ao passado?
.
Minha pequena homenagem
ao desconhecido da camisa branca
- e a todos aqueles
que deram suas vidas
por algo chamado
LIBERDADE.

segunda-feira, março 16, 2009

OS CRIMES DOS COMUNISTAS


É, lá vou eu de novo. Mais um texto sobre o comunismo e os comunistas? Mais um. Fazer o quê? Ao contrário da maioria das pessoas, que preferem assistir ao BBB, eu me interesso por História.

Está para ser lançado um livro que, espero, vai dar o que falar. É Elza, a garota, do jornalista e escritor mineiro Sérgio Rodrigues (Nova Fronteira). Por trás do título singelo, até juvenil, está uma das histórias mais escabrosas e, estranhamente, menos conhecidas da História do Brasil. Uma história que encerra importantes lições.

O livro, metade romance, metade reportagem, conta a trajetória de Elza Fernandes, codinome de Elvira Cupelo Colônio, jovem analfabeta do interior de São Paulo, com idade registrada de 21 anos (na verdade, tinha 16), que aderiu ao então ilegal Partido Comunista do Brasil em meados da década de 30. Elza era a companheira do então secretário-geral do PCB, Antônio Maciel Bonfim, codinome "Miranda". Como tal, ela foi presa junto com o amante pouco depois do fracassado levante comunista de novembro de 1935, a chamada Intentona Comunista, que eclodiu inicialmente em Natal e em Recife e foi decretada no Rio de Janeiro por ordem de Luiz Carlos Prestes e da Internacional Comunista, que enviara vários agentes para o Brasil com a missão de desfechar o golpe para a tomada do poder. Na violenta repressão que se seguiu, muitos comunistas e simpatizantes foram presos, como o próprio Prestes, e vários mortos. Elza Fernandes, talvez por ser menor de idade, foi logo solta.

Para a direção do PCB, era urgente achar um bode expiatório para o fracasso da revolta. Este foi encontrado na figura de Miranda, durante décadas apresentado pela versão oficial do Partido como o único responsável pela débâcle. Mas isso não era o suficiente para "lavar a honra" do Partido.

As sucessivas prisões dos militantes só poderiam ser o resultado de algum trabalho de infiltração, de alguma traição interna, acreditavam os comunistas. E quem se ajustava melhor a esse papel do que a companheira de Miranda, a jovem e ingênua Elza? Afinal, ela passara pouco tempo na prisão, tendo sido liberada logo em seguida... Em liberdade, ela visitou Miranda na cadeia várias vezes, e levara e trouxera mensagens do companheiro. Não demorou para que a direção do PCB, com Luiz Carlos Prestes à frente, chegasse à conclusão: Elza era uma traidora. Escondido na clandestinidade, Prestes deu o veredicto: Elza precisava morrer.

A sentença foi cumprida pouco depois: aos 16 anos de idade, a perigosíssima Elza Fernandes foi atraída a um encontro com membros do Partido, sendo então estrangulada e enterrada no quintal de uma casa de subúrbio no Rio de Janeiro. Não faltou sequer o detalhe macabro: antes de enterrá-la, os assassinos quebraram sua espinha, dobrando seu corpo em dois, para que coubesse no saco de aniagem com o qual a enterraram. Preso pouco depois do crime, em março de 1936, Prestes, o festejado "Cavaleiro da Esperança", cantado em verso e prosa, negou até morrer, em 1990, contra todas as evidências, que partira dele a ordem para matar Elza. Assim como negou até a morte que a intentona de 35 fora planejada na URSS, e que recebera dinheiro de Moscou para desfechá-la - fatos que se revelaram verdadeiros há alguns anos, como demonstra o livro de William Waack, Camaradas (Companhia das Letras, 1993).

A morte de Elza Fernandes é considerada a maior mancha na história do PCB. Mas não foi a única. Houve vários outros assassinatos - "justiçamentos", como prefere chamá-los essa turma - cometidos por militantes comunistas no Brasil, tanto de agentes da repressão (militares, policiais) como de outros militantes, acusados vagamente de traição. Quantos? Não se sabe. Há casos em que até a data e o nome da vítima permanecem desconhecidos. O militante Hércules Corrêa, que foi por anos do Comitê Central do PCB, narra em livro (Memórias de um stalinista, Ed. Ópera Nostra, 1994, página 73) um caso particularmente escabroso, de um membro do partido assassinado e cujo corpo foi derretido com ácido em uma banheira... Durante o regime militar, como se sabe, houve também vários casos de militantes de organizações armadas de esquerda que foram "justiçados" por seus próprios companheiros, como Márcio Leite de Toledo, fuzilado à queima-roupa em 1971, em pleno centro de São Paulo, por outros membros da ALN (Ação Libertadora Nacional). Como esse, houve vários outros casos, narrados por Jacob Gorender em seu livro Combate nas Trevas (Ed. Ática, 1987). Em todos eles - todos - não se comprovou absolutamente nada de concreto contra as vítimas; elas foram mortas com base não em provas, mas em meras suspeitas de traição, ou, como no caso de Márcio, de divergências com outros militantes. No mais absurdo deles, revelado recentemente em outro livro, um membro do PCdoB foi morto a tiros, na chamada guerrilha do Araguaia, após ter sido condenado à morte pelo "tribunal revolucionário" pelo terrível crime contrarrevolucionário de... ter um caso com outra companheira, casada com outro membro do Partido!

Por que nenhum desses casos, embora conhecidos em detalhes como o de Elza Fernandes - quem quiser saber mais, é só procurar na internet -, causa tanta indignação e tanto furor quanto os de comunistas ou seus simpatizantes mortos no Brasil? Por que o caso de Elza não teve, por exemplo, a mesma repercussão do de Olga Benario, a agente alemã da Internacional Comunista que teve uma filha com Prestes e que foi entregue por Getúlio Vargas para morrer num campo de concentração nazista na Alemanha, e que já virou até filme? (Aliás, o assassinato de Elza é até citado no filme que saiu recentemente sobre Olga Benario - bem en passant, claro, sem mencionar a responsabilidade direta de Prestes no episódio, como convém -, mas sem querer suscitar a mesma reação emocional na plateia. Pior: o filme, baseado no livro do quercista Fernando Morais, chega mesmo a flertar com a tese de que Elza era mesmo uma espiã infiltrada no Partido...). Enfim, por que o caso de Elza, apesar da abundância de provas, permanece até hoje relativamente pouco conhecido, visto mais como um embaraço do que um crime nefando?

A resposta, pelo menos para quem tiver um mínimo de interesse na História, não é muito difícil de encontrar. Os crimes cometidos pela esquerda, entre nós, sempre foram vistos com muito mais indulgência do que os de seus adversários de direita por um motivo muito simples: ao contrário da direita, a esquerda brasileira detém a hegemonia da vida cultural e intelectual do Brasil. Isso foi o resultado de um processo de décadas, que começou com o antigo PCB, e atingiu o ápice com o PT de Lula et caterva. Nem é preciso citar nomes aqui: todos os conhecem. Basta perguntar a você mesmo, que lê estas linhas, que autor você leu em sua aula de História ou de Ciências Sociais, ou que professor você teve no segundo grau ou na faculdade, que não era, ou não se declarava, um inimigo jurado das "elites" e do "imperialismo"... Compare-os agora com quantos autores você leu que eram abertamente "de direita".

Segundo a visão incutida em gerações pela intelligentsia esquerdista, ditaduras sempre são de direita, jamais de esquerda. Alguns dias atrás, dois professores da USP (portanto, de esquerda) causaram uma polêmica ao criticarem asperamente um artigo na Folha de S. Paulo que chamava de "ditabranda" o regime militar de 64 - os mesmos professores, curiosamente, não têm peias em negar a mesma classificação de ditadura a regimes como o de Cuba. Até hoje, aliás, há quem se recuse a chamar Fidel Castro, por exemplo, de ditador, a despeito do meio século de ausência total de liberdade na ilha de Cuba e dos quase cem mil cubanos que ele mandou para o túmulo. Sem falar, claro, em ícones da esquerda tupiniquim como Oscar Niemeyer, para quem Stálin era uma flor de pessoa, sempre a cantar a e dançar alegremente com seus amigos...

Logo, é natural que os crimes perpetrados pela esquerda, como o assassinato frio de Elza Fernandes, sejam considerados não como crimes, mas ora como "erros", um simples embaraço, ora como algo necessário. Jamais como o que de fato foram - assassinatos frios e covardes. Isso faz parte de um processo de desumanização do inimigo, que os comunistas são pródigos em identificar em seus adversários ideológicos, jamais neles próprios. Em outras palavras, segundo a visão esquerdista, as vítimas do PCB ou do paredón em Cuba não eram sequer seres humanos: eram inimigos de classe, e pronto. A morte deles, portanto, era uma "necessidade"; já a de qualquer comunista, ao contrário, é uma tragédia. Recentemente, o governo federal deu seu respaldo oficial a essa perversão moral: um livro publicado com estardalhaço pelo governo Lula apresenta, caso a caso, uma relação de todos os mortos por motivos políticos no Brasil nas mãos de agentes da repressão política do regime militar de 1964, e cujas famílias receberam fartas indenizações do governo por causa disso. Quanto às pessoas "justiçadas" pela esquerda no mesmo período, o livro não menciona nenhuma delas. É que os cadáveres escolheram o lado errado.

Assim como se manipula a História, manipula-se a linguagem. Em um processo semelhante à novilíngua de George Orwell, em seu livro 1984, assassinatos, quando praticados pela esquerda, não são assassinatos, mas "justiçamentos"; do mesmo modo, assaltos a banco, como os praticados pela esquerda radical nos anos 60 e 70, nos quais morriam inclusive inocentes transeuntes, não são assaltos, são "expropriações"... E assim por diante, quase ninguém discute esses termos. Já os crimes cometidos contra a esquerda são crimes mesmo. A questão é: por que somente eles?

Por tudo que está escrito aí em cima, um livro sobre um obscuro assassinato de uma pobre adolescente cometido a mando do maior ícone do comunismo no Brasil, mais de setenta anos atrás, é certamente muito bem-vindo. Demonstra que o mundo não é assim tão preto-e-branco quanto nos acostumamos a pensar que é, desde nossa mais tenra infância - ou talvez seja, mas com o sinal invertido.

sexta-feira, março 06, 2009

RAZÕES DE UMA OBSESSÃO

Hitler e Stálin: ditadores e cúmplices, mas muitos ainda repudiam
apenas um dos dois. A questão é saber por quê.


Eu sou um obsessivo. Sou o primeiro a reconhecer e a proclamar esse defeito (será defeito?) de minha personalidade. Admito que meus temas favoritos de discussão, assim como certos gostos pessoais, artísticos ou culinários, são da preferência de pouquíssimas pessoas. A maioria prefere discutir sobre futebol, ou fofocar sobre os parentes e os colegas de trabalho, ou jogar conversa fora. Eu, não. Esses assuntos me entediam. Se eu tiver a chance, debato um assunto apenas: política. E, dentro da política, tenho uma ideia fixa: o comunismo.
.
Ninguém quer discutir sobre o comunismo, eu sei. Assim como poucas, pouquíssimas pessoas mesmo, se dispõem a debater sobre política a sério, fugindo da banalidade de uma conversa de botequim. Também sei que, para a maioria das pessoas, o assunto é árido, chato mesmo, e não combina muito com uma mesa de bar. Ninguém quer perder suas horas de lazer pensando e debatendo sobre coisas como totalitarismo, stalinismo, maoísmo e outros ismos que, segundo uma visão anestésica e reconfortante que já virou lugar comum, pertencem ao passado apenas. Para que remexer nesses esqueletos? É aí que eu entro: com minha mania de ser "do contra", corro o risco de parecer maluco dizendo que os comunas não desapareceram da face da terra coisa nenhuma. Pelo contrário, a cada dia que passa, eles ocupam cada vez mais espaço na vida cultural e cotidiana, de forma quase imperceptível, como demonstram o governo Lula e o Foro de São Paulo etc. Enfim, recordo, pondero, me exalto, analiso. Claro que isso só me traz dissabores, reforçando minha fama de pessoa obcecada e paranóica, sem falar em polêmica e persistente, o que me afasta da maioria, com sua obsessão - ops! - em parecer correta, "normal". Mas não me importo. Como dizia Nelson Rodrigues, outro obcecado, o que somos é a soma de nossas obsessões. Além do mais, só as mentes obsessivas me interessam. Os cucas frescas, os que não ligam para nada, os que acham tudo normal, os que estão sempre sorrindo, os que não se inflamam, são tão vazios quanto suas cabeças. Ninguém se lembrará deles pelo que pensam. Simplesmente porque escolheram não pensar em nada.
.
Nas últimas semanas, alguns fatos contribuíram para reforçar ainda mais essa minha obsessão pelo - na verdade, contra - o comunismo em particular e as ideologias totalitárias em geral. Refiro-me à farsa da brasileira Paula Oliveira, que confessou ter inventado a estória da agressão por um grupo de skinheads neonazistas na Suiça, e à discussão sobre o antissemitismo, reavivada pelo caso do arcebispo católico inglês Richard Williamson, expulso da Argentina e ameaçado de excomunhão por negar o Holocausto numa entrevista a uma TV sueca no ano passado. O que esses dois casos têm a ver com minha fixação anticomunista e antitotalitária? Já vou chegar lá. Antes, quero me concentrar no que eles têm em comum.
.
O caso de Paula, como se sabe, foi um vexame nacional, com a revelação de que a advogada não foi atacada por neonazistas coisa nenhuma, nem estava grávida, e que inventou a estória toda, sabe-se lá por que motivo obscuro. O caso foi um constrangimento porque a mídia e o governo brasileiro o tomaram desde o início como verdadeiro, baseando-se tão-somente no testemunho de um lado apenas, deixando de consultar o governo suiço e dispensando maiores verificações. O Itamaraty, inclusive, acrescentou mais uma gafe em sua lista de fanfarronices patrioteiras, ao ameaçar, com estardalhaço, levar o caso à ONU e tudo o mais. Durante alguns dias, os brasileiros ficaram horrorizados e revoltados com o que seria - ninguém prestou atenção ao condicional - um caso de xenofobia e brutalidade contra uma compatriota num país europeu. Foi preciso que a própria imprensa suiça divulgasse a confissão de Paula de que armara tudo para que a onda de revolta e indignação furibunda dos brasileiros arrefecesse, e desse lugar finalmente a um sentimento de vergonha, a um silêncio acabrunhado. Ninguém - absolutamente ninguém - colocou em dúvida, por um minuto sequer, que Paula Oliveira tinha sido vítima de uma agressão neonazista na Suiça. Por quê? Porque, como disse uma famosa jornalista defensora da "imparcialidade" midiática, tentando justificar, num programa de TV, a monumental barriga da imprensa brasileira no caso, era algo "verossímil", embora não verídico... Como se o compromisso da imprensa - na verdade, de qualquer pessoa honesta - fosse não com os fatos, mas com hipóteses.
.
O caso do arcebispo Richard Williamson tem algumas semelhanças com o de Paula. Assim como no caso da brasileira, a onda de indignação foi geral, desta vez pelo motivo certo - Williamson negou o Holocausto. Como não poderia deixar de ser, os inimigos da Igreja Católica, que não são poucos e não perdem uma boa oportunidade, aproveitaram para atacar o papa Bento XVI, exigindo a cabeça do bispo e denunciando a suposta leniência da Santa Sé no caso. Aproveitaram para recordar a conduta até hoje meio nebulosa do Vaticano diante do Terceiro Reich nazista e do extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Como no caso de Paula, aqui também não havia necessidade de verificação. Afinal, a Igreja não é acusada, até hoje, de omissão diante da morte dos judeus pelas SS? Diante disso, as declarações claramente antissemitas de Richard Williamson caíram como uma luva. Um bispo católico negando o Holocausto? A Igreja fazendo vista grossa ao antissemitismo de um dos seus? Verossímil, sem dúvida.
.
Quem quer que tenha botado um pouco a cabeça para funcionar já deve ter percebido aonde eu quero chegar. Os dois casos, com suas diferenças, tratam, no essencial, da mesma questão: o repúdio, diria eu instintivo, que qualquer pessoa decente tem pelo nazismo e pelo antissemitismo, em qualquer de suas formas. Trata-se de algo que já nos é natural, tendo sido ensinado a cada um de nós desde o pré-primário. O antissemitismo do bispo Williamson é inaceitável e causa repulsa, e não precisamos nos indagar por quê. O mesmo sentimento de horror e repúdio, porém, não costuma se repetir quando se trata de quem nega, por exemplo, os crimes de Stálin ou de Fidel Castro. Paula Oliveira, para montar sua farsa, inventou uma agressão por três neonazistas, chegando ao requinte de descrever um deles com uma suástica tatuada na cabeça. Se tivesse dito, em vez disso, que foi brutalizada por um bando de comunistas agitando bandeiras vermelhas, teriam lhe dado o mesmo crédito? Em outras palavras, uma estória assim também seria considerada, como diz Eliane Cantanhêde, verossímil?
.
É aqui que entra minha obsessão anticomunista ou, se preferirem, antitotalitária, de que falei há pouco. Sim, há xenofobia na Europa, como há antissemitismo. Sim, a negação do Holocausto é uma aberração histórica. Sim, o fascismo e o nazismo são ideologias totalitárias e inimigas da espécie humana. Mas e o comunismo? Por acaso seus crimes foram menores? Não estou dizendo que se deve deixar de lembrar os horrores de Auschwitz ou de Dachau. Mas por acaso isso anula ou diminui o Gulag? Ambas as ideologias não são totalitárias?
.
O contraste entre a forma como são encarados pelo senso comum o nazifascismo, de um lado, e o comunismo, em todas as suas variações, de outro, é um fenômeno que sempre me intrigou. Afinal, o comunismo matou cerca de 100 milhões de pessoas, demonstrando ser uma máquina genocida muito mais eficiente do que os campos de concentração nazistas, onde pereceram 6 milhões de judeus. Para se ter apenas uma ideia, em dois anos, 1930 a 1932, foram mortos de fome induzida cerca de 20 milhões de camponeses na Ucrânia. Em apenas um ano - 1961 - morreram, também de fome provocada pelo Estado, quase 30 milhões de chineses. E isso como parte de um plano sistemático, meticuloso, de extermínio de classes inteiras, assim como o nazismo planejou o extermínio das "raças inferiores".
.
Mesmo assim, os dois totalitarismos, o de raça e o de classe, são vistos com prismas diferentes. Quem quiser ser enxotado do debate político que se declare abertamente pró-fascista ou pró-nazista. Será tratado com desprezo e com horror. Já os comunistas - igualmente totalitários, igualmente defensores de um Estado opressor e inimigos da liberdade - são tratados com respeito e reverência, ocupando posições de destaque na área cultural. Alguns deles, como José Saramago ou Oscar Niemeyer, são tidos na conta de grandes humanistas e até mesmo gênios. Por sua vez, os nazifascistas são - corretamente, nunca é demais dizer - execrados, assim como execrado é qualquer um que tenha a audácia de negar o Holocausto. Então, por que o mesmo não ocorre com quem nega a montanha de mortos deixada pelo comunismo? Por que o mesmo não acontece com os comunistas e seus simpatizantes?
.
Uma parte da explicação está, claro, no fato de que as democracias ocidentais (EUA, Reino Unido, França etc.) e a URSS de Stálin foram aliados na Segunda Guerra Mundial contra o Eixo nazifascista. Isso conferiu ao comunismo uma aura de respeitabilidade e um manto de resistência ao nazifascismo que apagaram da memória coletiva a cumplicidade explícita entre os dois regimes totalitários antes da invasão da URSS pelas tropas de Hitler, em 1941. Subitamente, todos pareceram se esquecer do pacto Molotov-Ribbentrop de agosto de 1939, que dividiu a Polônia entre os dois ditadores e foi, na verdade, a causa imediata da Segunda Guerra Mundial. Como pareceram se esquecer, também, dos massacres promovidos pelo stalinismo, que continuaram durante e após a guerra. Com o detalhe adicional de que, ao contrário dos nazistas, os esbirros comunistas não deixaram muitos registros gráficos de seus crimes...
.
Outro motivo da amnésia coletiva em relação às atrocidades vermelhas é que, no Brasil, estamos acostumados a ver os comunistas no papel de vítimas e perseguidos, jamais como algozes. A luta armada dos anos 60 e 70, por exemplo, ainda é vista pela maioria dos estudantes como uma forma de resistência democrática contra a ditadura militar e a favor do retorno das liberdades constitucionais, quando a verdade é que os guerrilheiros lutavam, na realidade, pela implantação de outra forma de ditadura no País - uma ditadura comunista, em nome da qual praticaram não poucos atos de terrorismo, e não só contra agentes do governo. Tais mitos estão entranhados na mentalidade coletiva brasileira, de maneira que levará muito tempo ainda para que a verdade se imponha.
.
Assim como sequestraram a democracia, os comunistas sequestraram o antifascismo e o antinazismo. De fato, ninguém usa com mais frequência o termo "fascista" como xingamento do que os comunistas. Na boca de um comunista, a palavra "fascista" se dilui e se banaliza, perde completamente seu significado, sendo utilizada como mera arma de propaganda, a fim de classificar qualquer um que lhe desagrade - qualquer um que se diga anticomunista, enfim, o que inclui um leque bastante abrangente de correntes políticas, desde os fascistas propriamente ditos até conservadores, liberais e democratas. Aquele político ousou lembrar os horrores do Gulag tropical da ilha-prisão de Cuba e denunciar a tirania castrista? É um "fascista". Aquele jornalista teve a petulância de lembrar que Stalin e Mao Tsé-Tung eram dois genocidas sanguinários, responsáveis pelos piores crimes cometidos contra a humanidade em todos os tempos? É um "fascista", claro. Aquele historiador teve o desplante de comparar as ditaduras de direita, como os regimes militares da América Latina, com as ditaduras totalitárias comunistas do Leste Europeu, concluindo pela maior quantidade de mortos e pela maior brutalidade dessas últimas em relação àquelas? Só pode ser um propagandista do fascismo, é evidente. Criou-se uma associação, que certamente demorará anos ou décadas para desaparecer, entre anticomunismo e fascismo, ou entre este e conservadorismo ("direitismo"), associação esta que não tem sentido algum fora dos slogans da propaganda comunista, que associam, também de forma totalmente mecânica e automática, comunismo com antifascismo. Como se todos os que se opõem, de alguma maneira, às teses comunistas - democratas, liberais, sociais-democratas etc. - fossem, automaticamente, fascistas ou simpatizantes do fascismo. Uma completa farsa.
.
(O mais curioso é que os mesmos esquerdistas que se enchem de indignação contra o que consideram uma nova onda neofascista ou neonazista na Europa ou dentro da Igreja Católica não hesitam um segundo em cerrar fileiras ao lado dos islamofascistas do Hamas ou do Hezbollah e da tirania xiita iraniana, que juraram exterminar os habitantes de Israel e provocar um novo Holocausto. Babam de fúria contra as declarações antissemitas de um bispo católico, mas aplaudem entusiasmados, ou dão de ombros, para o antissemitismo de Mahmoud Ahmadinejad, descartando suas ameaças contra Israel e o Ocidente como mera invenção da CIA. Deve ser porque não consideram isso algo verossímil, é claro...)
.
Os comunistas e a legião de idiotas úteis que os acompanham não têm o menor direito de condenar o fascismo, por mais repugnante que tenha sido essa doutrina política, e qualquer crítica que fizerem a regimes como o de Mussolini ou de Hitler não passa de manipulação cínica e mentirosa. Por dois motivos principais: primeiro, porque os crimes cometidos pelas tiranias comunistas no século XX - e que continuam no século XXI, ao contrário do nazifascismo, em países como Cuba, China e Coreia do Norte - ultrapassam, em gravidade e magnitude, tudo que os nazifascistas possam ter concebido, inclusive o Holocausto. E segundo, porque comunismo e fascismo, ao contrário da percepção comum, são irmãos gêmeos, não são antagônicos.
.
Tamanha é a propaganda de esquerda destinada a esconder esse último fato que até mesmo muitos democratas e anticomunistas sinceros se deixam cair nessa armadilha. Outro dia li na imprensa uma carta de um leitor que reclamava da ênfase excessiva da mídia nas barbaridades cometidas pelos nazistas, como o Holocausto. "Por que falar dos crimes dos nazistas? Os crimes dos comunistas foram muito piores". A premissa é verdadeira, mas o leitor esqueceu desse detalhe fundamental: tanto na ideologia, quanto na prática, o nazifascismo não fez outra coisa senão macaquear o comunismo. Está tudo lá: os campos de concentração (criação de Lênin, em 1918), a polícia política, a ditadura do partido único, o controle partidário das forças armadas (a prática dos bolcheviques de manter comissários políticos junto aos militares), o uso intenso da propaganda, o culto da personalidade do chefe (o Vozhd Stálin, o Führer, o Duce)... Não custa lembrar que Mussolini começou sua carreira no Partido Socialista italiano. Até no nome que escolheram para si - Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães -, os nazistas eram uma paródia da propaganda bolchevique. E por aí vai. Condenar a barbárie nazista, portanto, não é desviar o foco dos crimes comunistas, mas chamar a atenção para a mesma realidade brutal e desumana do totalitarismo, comum a ambos os regimes.
.
Daí mais uma vez a questão do verossímil e do verdadeiro, tão cara à imprensa brasileira dita "imparcial", para analisar o caso Paula Oliveira na Suiça. Um suposto crime cometido pela "direita" neofascista, mesmo sem provas, é julgado mais digno de verossimilhança do que um que tenha sido praticado pela esquerda, portanto merece mais repercussão e uma revolta imediata e mais profunda. Enquanto isso, militantes do MST fuzilaram à queima-roupa três seguranças de uma fazenda em Pernambuco, mas ainda há quem resista a classificar essa organização como criminosa. Do mesmo modo, o governo Lula resiste em classificar as FARC como terroristas e fecha os olhos para os ataques contra brasileiros no Paraguai, onde governa um presidente alinhado com as teses petistas. E os dólares de Cuba ao PT? E o envolvimento direto de figurões do governo Lula com os narcoterroristas das FARC? E de Lula no escândalo do mensalão? Tudo isso é ou não é bastante verossímil? Então por que nada disso provoca um décimo da revolta causada por casos como o de Paula Oliveira? Por que nada disso é investigado como deveria?
.
Esses episódios deixam claro que nossa percepção da realidade está contaminada ideologicamente de alto a baixo. Verossímil ou verídico, na visão de nossa imprensa "imparcial" e isentista, é o que é verossímil ou verídico para a esquerda. Todo o resto, tudo que não vier das hostes esquerdistas, é suspeito e passível de dúvida e verificação. Ponto.
.
Então, tenho ou não tenho razão para ser obsessivo?

segunda-feira, janeiro 12, 2009

ERRATA

(ler primeiro o post anterior):
.
Meu último post contém algumas incorreções pontuais. Culpa da pressa e da memória, que às vezes falha (alguns podem achar que não, mas também sou humano). Diferente do que escrevi, o caso por mim narrado não ocorreu na década de 70, mas numa data incerta, não especificada (deduz-se que tenha sido nos anos 40 ou 50; portanto, não nos "anos de chumbo" da ditadura militar). Nem foi em São Paulo, mas em Belo Horizonte.
.
Nada disso, claro, invalida o essencial do que está escrito. Pensei em corrigir esses detalhes no próprio texto, mas isso seria facilmente notado por quem já o tivesse lido, que poderia pensar, assim, que eu estaria sendo desonesto.
.
Resolvi, então, fazer algo melhor. Aí vai o trecho do livro citado do dirigente comunista Hércules Corrêa (Memórias de um Stalinista, p. 73), em que me baseei:
.
"Algo também marcante aconteceu com um sujeito encarregado de zelar pela gráfica do Partido, em Belo Horizonte. O fulano, comprovadamente, não apenas entregou à polícia nossas instalações, como delatou companheiros, que acabaram presos em conseqüência disso. Aparentemente, o homem queria estabelecer-se como uma espécie de espião, dentro do PCB. Nem desconfiava que já sabíamos de sua traição. Convocado para uma reunião, foi levado a um aparelho. Lá chegando, foi sumariamente executado. Seu corpo foi derretido com ácido muriático numa banheira e os restos, despejados na latrina." (Grifo meu)
..
O autor afirma ainda: "Como esses, deram-se muitos outros episódios, naqueles anos, que foram reeditados, esporadicamente, na década de 70". E ainda: "Não estou aqui, propriamente, confessando arrependimentos. Apenas expondo até onde se pode, ou se precisa chegar, não sei, quando perdemos a medida da política de convivência com a sociedade".
.
É uma pena que Hércules Corrêa não tenha revelado os nomes dos autores e da vítima desse crime nefando, nem o local e a data exatos em que ele foi cometido (daí minha pequena confusão com datas e locais no post). Ele ainda tenta justificar tais barbaridades, como no caso de ditaduras, quando "isso" (ou seja: assassinar e derreter pessoas com ácido) se torna - é ele que diz - "uma necessidade". Se tivesse sido um pouco mais honesto consigo mesmo, teria percebido, também, que, longe de serem uma "necessidade", o crime e a mentira são parte essencial e inseparável do ideário comunista. Digo mais: eles são o próprio ideal comunista.
.
No mais, não há o que reparar. Faço a correção, transcrevendo aqui o texto original, pelo seguinte motivo: ao contrário de Oscar Niemeyer, procuro ler antes de emitir uma opinião. E, diferentemente de nosso gênio oficial, não tenho a desculpa da idade para justificar qualquer erro que eu venha a cometer. Ele pode dar-se ao luxo de citar um livro sem tê-lo lido, a ponto de confundir denúncia com elogio a Stálin. Afinal, ele é stalinista e vive em outra realidade. Eu não.

"A CANTAR E A DANÇAR"... UMA HISTÓRIA DESCONHECIDA DOS "ANOS DE CHUMBO"


Querem conhecer uma história de arrepiar? Um verdadeiro conto de horror, de deixar o sangue gelado?

Vou logo avisando: é coisa forte. Se você não tem estômago para cenas horripilantes, é melhor parar por aqui. Aí vai.

Em um dia da década de 1970, um militante do então ilegal Partido Comunista Brasileiro (PCB) desapareceu na cidade de São Paulo. Em uma casa de periferia, um grupo de facínoras agarrou-o e, sem dar-lhe o direito de defesa, matou-o sumariamente. Em seguida, os algozes atiraram seu cadáver, ou a vítima ainda viva (não se sabe ao certo), em uma banheira cheia de ácido. O corpo - pele, músculos, nervos, ossos - foi dissolvido, até virar uma pasta repugnante e irreconhecível. Após essa operação macabra, os assassinos despejaram o que pouco antes fora um homem na privada e deram descarga. Serviço feito, juraram silêncio sobre o ocorrido e foram para casa. O homem, que pouco antes caminhava pelas ruas, agora não existia mais. Fora evaporado, literalmente liquidado. O esgoto seria seu túmulo.

Já estão enojados? Esperem, não contei tudo ainda. Há motivos a mais para sentir engulhos. Sabem quem matou e deu sumiço no corpo da infeliz vítima? Se você respondeu que os assassinos foram torturadores do DOPS ou do DOI-CODI, a serviço da ditadura militar brasileira que, no mesmo período, estava caçando, matando e esquartejando comunistas, a resposta é: errado! Os autores desse assassinato brutal e até agora praticamente desconhecido foram nada mais, nada menos, do que... os próprios companheiros de militância política da vítima, membros do PCB!

A revelação de mais esse "justiçamento" cometido pela esquerda brasileira está no livro Memórias de um Stalinista (Rio de Janeiro: Ed. Ópera Nostra, 1994), do dirigente comunista Hércules Corrêa (falecido no ano passado). Quem quiser verificar por si mesmo, e não confiar nas palavras deste blogueiro, pode ir lá, na página 73 do livro. Os militantes do Partido estavam desconfiados que o sujeito era um traidor e que estaria espionando para a repressão, por isso resolveram eliminá-lo. Infelizmente, o autor não identifica a vítima, nem dá nome aos assassinos. Limita-se a notificar o assassinato, sem dizer sequer onde e quando exatamente ele ocorreu. É mais um crime dos "anos de chumbo" no Brasil que permanece e permanecerá, pelo visto, sem solução.
.
Esse não foi o único caso de militante de esquerda morto pelos próprios companheiros de organização, inclusive pelo PCB (outros casos, como o de Elza Fernandes, na década de 30, são bastante conhecidos, tendo sido seu assassinato ordenado diretamente pelo chefe do "Partidão", Luiz Carlos Prestes, o "Cavaleiro da Esperança"). Há vários outros praticados por membros de organizações da luta armada. E, assim como ocorreu naqueles casos, o nome da vítima não consta em nenhum livro ou lista de mortos e desaparecidos políticos desde 1964 no Brasil, inclusive do publicado pelo governo Lula algum tempo atrás, e seus familiares não serão agraciados com gordas indenizações saídas do Erário público. Aliás, não se sabe sequer o nome da vítima. Outra diferença é que o crime foi cometido pelo moderado PCB, um partido que, nessa época, vejam só, era contra a luta armada e acusado de "pacifismo" e "legalismo" pelos grupos mais radicais.

Por que estou recordando história tão escabrosa? Porque ainda estou lembrando do artigo inacreditável de Oscar Niemeyer - militante do PCB desde a juventude -, em que o centenário arquiteto e fundador de Brasília derrama-se em louvores ao genocida Josef Stálin, chegando ao cúmulo de citar, como hagiográfico, um livro (que não leu) extremamente crítico e revelador sobre os anos de juventude do tirano soviético. Niemeyer diz que o livro "está reabilitando" Stálin, responsável direto por cerca de 30 milhões de mortes, e enaltece a juventude do monstro, quando este passava o tempo, entre um assalto a banco aqui e uma conspiração acolá, "a cantar e a dançar com seus amigos". Como a cantar e a dançar deveriam estar os companheiros comunistas de Niemeyer, ao derreterem o corpo do militante na banheira de ácido.

Niemeyer tem 101 anos. Está caduco? Certamente. Mas não pela idade. Suas ideias comunistas, como o próprio stalinismo, é que estão faz tempo, pertencendo ao museu de horrores da História, como o nazismo. Deveríamos jogá-las no ralo e dar descarga, como foi feito com aquele pobre homem, mais uma vítima anônima do fanatismo e da loucura, de quem não sabemos sequer o nome, mais de trinta anos depois.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

A IDEOLOGIA GAGÁ DE NIEMEYER



Vamos rir um pouquinho? Depois de tantos dias de intensa propaganda antiisraelense na mídia, em que fomos bombardeados com todo tipo de crítica ao "massacre" das forças israelenses contra os palestinos enquanto quase não se fez menção ao caráter terrorista-genocida do Hamas e à maneira cínica como utiliza as crianças palestinas como escudos humanos, sem falar nas declarações bucéfalas de Marco Aurélio Garcia sobre o conflito em Gaza, acho que é hora de desopilar o fígado.

Oscar Niemeyer publicou um texto hoje, dia 9, na Folha de S. Paulo. O que diz o nosso gênio oficial? Ele fala de um livro, "uma obra fantástica do historiador inglês Simon Sebag Montefiore, sobre a juventude de Stálin, que tem alcançado enorme sucesso na Europa, reabilitando a figura do grande líder soviético, tão deturpada e injustamente combatida pelo mundo capitalista".

O venerável Oscar vai mais além. Ao analisar a obra que supostamente leu, ele enaltece "a figura de Stálin ainda muito jovem, sua paixão pela leitura, o seu interesse nos problemas da cultura, das artes e da filosofia, sempre a cantar e a dançar alegremente com seus amigos".

Há mais:

"E o livro relata as prisões sucessivas que ocorreram em plena juventude, as torturas que presenciou, enfim, tudo que marcou a sua atuação heroica na luta contra o capitalismo".

E mais (quando Niemeyer se refere ao autor do livro):

"É bom lembrar que não se trata de autor de esquerda, mas de alguém que, pondo de lado suas posições político-ideológicas, soube interpretar uma juventude diferente, marcada pela inquietação cultural, que levou Stálin à posição de revolucionário e líder supremo da resistência contra o nazismo".

O livro que Niemeyer menciona com tanto entusiasmo e que diz ter emprestado a um amigo seu é O Jovem Stálin, de Simon Sebag Montefiore. Até aí, tudo bem. Acontece que o livro não reabilita Stálin coisa nenhuma. Pelo contrário: trata-se de um compêndio, fartamente documentado, de atrocidades, crimes e loucuras cometidas pelo futuro ditador soviético. Traz, inclusive, revelações surpreendentes, como sua verdadeira data de nascimento e seu papel como líder de uma gangue terrorista orientada por Lênin no Cáucaso antes da Revolução de 1917. Não por acaso, o livro começa com uma descrição bastante gráfica de um assalto a banco comandado por Stálin ("Sossó" ou "Koba"), em que morreram cerca de cinqüenta pessoas. Como eu sei disso? Simples: eu li o livro.

O autor do livro-denúncia que Niemeyer transformou em louvação a seu ídolo-deus Stálin, Simon Sebag Montefiore, escreveu ainda outro livro, Stálin - A Corte do Czar Vermelho, em que demole por completo qualquer resquício que ainda pudesse existir de culto da personalidade do tirano soviético e de sua camarilha, mostrando, com base em documentos recentemente publicados, o que eles realmente foram: uma gangue de assassinos, dedicada 24 horas por dia a matar, torturar e exterminar qualquer um que passasse por inimigo - inclusive entre eles mesmos. Há, inclusive, revelações interessantes de como Stálin via com bons olhos outro ditador da época - Hitler - e de como os dois genocidas foram, na prática, aliados durante um período e desfecharam juntos a Segunda Guerra Mundial. Como eu sei disso? Simples também: fiz aquilo que Niemeyer não fez - eu li o livro.

O artigo de Niemeyer é uma das coisas mais engraçadas que eu li nos últimos tempos. Não resisti a tanta sabedoria e mandei uma cópia do artigo para um amigo meu que, por acaso, está lendo o livro. Até agora, não consegui parar de rir.

O fato de desconhecer totalmente o assunto de que fala, a ponto de escrever um artigo de jornal elogiando um livro que obviamente não leu, como se fosse um panegírico, e não uma crítica demolidora, a um personagem que admira, deveria ser o suficiente para desmoralizar o grande arquiteto para sempre. Mas a senilidade ideológica de Niemeyer vai mais além. No final do texto, ao afirmar que mandou uma cópia a um seu amigo editor, nosso gênio relata que este, muito animado, disse-lhe que "esse vai ser um dos livros que com o maior interesse irá publicar". Não sei se Niemeyer emprestou a seu amigo uma cópia francesa ou inglesa do referido livro, pois o mesmo já é facilmente encontrado em qualquer livraria brasileira há mais de um ano, em excelente tradução, em uma edição da Companhia das Letras.

Eu já sabia que Niemeyer era um gênio da arquitetura, e já sabia que era um comunista e admirador de Stálin. Sabia também que ele é visto como uma espécie de totem inatacável, um verdadeiro semideus. Só não sabia ainda que ele era autor de textos cômicos. Um verdadeiro humorista, o velho Niemeyer.

Algumas almas piedosas ou excessivamente indulgentes poderiam dizer que estou sendo duro demais com um ancião de 101 anos, que esse tropeço do grande arquiteto se deve à sua idade avançada, e que, diante disso, é até covardia zombar do bom velhinho. Seria, certamente, se não fosse um detalhe: Niemeyer já repetia essas sandices quando tinha 30 ou 40 anos. Seu descompasso com a realidade não é, portanto, de hoje. A senilidade de Niemeyer não é de idade: é ideológica. Na verdade, ele é a prova viva de que nem sempre a idade traz sabedoria. Pelo contrário: em alguns casos, pode-se ficar ainda mais burro com o passar dos anos. Se você for stalinista, então, a probabilidade de piorar com o tempo é bem maior.

Ah, sabem qual o título do texto de Niemeyer? "Quando a verdade se impõe". Pois é. Nessas horas eu me lembro da frase do Paulo Francis: "Se você quiser ver um comunista se desmoralizar, basta deixá-lo falar".

Stálin foi um tirano sanguinário que deixou atrás de si um rastro de opressão e morte, contabilizando cerca de 30 milhões de mortos, dos mais de 100 milhões que o comunismo produziu no século XX. Sob sua ditadura, milhões foram torturados até a morte, e as artes e a cultura se tornaram um apêndice do Partido Comunista. E isso tudo ele fez com seus amigos, a cantar e a dançar alegremente, como diz Niemeyer.