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sábado, maio 25, 2013

OS QUE SE ORGULHAM E OS QUE NEGAM


Quando foi criada, a assim chamada "Comissão da Verdade" foi bastante criticada por alguns jornalistas e historiadores não-alinhados com o projeto de poder lulopetista. Disseram, então, que a coisa seria uma inutilidade, um desperdício de dinheiro público. Mais que isso: seria uma tentativa de revanche, dirigida para rever a Lei de Anistia. Uma grande bobagem a serviço de interesses ideológicos, enfim.

Também compartilhei desse ponto de vista, e inclusive escrevi alguns textos a respeito. Neles, busquei mostrar que a Comissão - da qual, estranhamente, não faz parte nenhum historiador - não passaria de uma omissão da verdade, uma forma de escamotear os crimes da esquerda para impor a memória seletiva dos fatos e uma versão ideologicamente conveniente. Uma óbvia empulhação, destinada a reescrever cinicamente a História para que se adapte à propaganda esquerdista.  

Pois bem, faço aqui um mea culpa. Eu estava (parcialmente) enganado. Mais de um ano após sua criação, não é que a tal comissão mostrou que tem alguma utilidade? Vejamos.

Há alguns dias, falou perante a Comissão em Brasília o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. Na verdade, "falou" é maneira de dizer. Ele estava lá para depor, ou melhor, para ser massacrado por seus interrogadores, cumprindo o papel de homem mau, de rosto do porão da ditadura. Comandante do temido DOI-COI do II Exército em São Paulo entre 1970 e 1974, o período mais duro dos chamados "anos de chumbo" no Brasil, quando era então major, Ustra é acusado de ter ordenado e participado pessoalmente de torturas e assassinatos de vários militantes de esquerda. Um dos que passou por suas mãos, hoje vereador, estava presente em seu depoimento para apontar-lhe o dedo e chamá-lo de torturador, assassino etc.  Ustra, mesmo protegido por uma liminar que lhe dava o direito de permanecer calado, confrontou seus acusadores. Entregou-lhes, inclusive, um livro que escreveu, A Verdade Sufocada, no qual conta sua versão da História (o que inclui numerosos fatos que a esquerda gostaria que fossem esquecidos). Aproveitou para lembrar que a atual presidente da República participou de várias organizações terroristas (o que é, diga-se, um fato). Como esperado, houve bate-boca. Um verdadeiro circo, que logo desandou para o grotesco e o ridículo.

Se houve algo que o depoimento de Ustra comprovou é que a Comissão da Verdade, de "da Verdade", não tem nada. Desde o início, ficou clara sua finalidade revanchista: seus integrantes não perdem a chance de lembrar que querem rever a Lei de Anistia para punir os agentes da repressão - e somente estes. Além disso, o objetivo irrealista a que se propôs - investigar as violações dos direitos humanos ocorridas no Brasil de 1946 a 1988 - fez com que ela, previsivelmente, caísse na irrelevância, o que seus membros tentam compensar apelando para a criação de factóides. A "convocação" de Ustra para depor veio comprovar tal fato.

Paradoxalmente, isso já serviu para alguma coisa: desmascarar o caráter parcial e revanchista de tal iniciativa, que, a pretexto do repúdio a torturas passadas, visa, na verdade, a atender a interesses inconfessáveis do presente (José Dirceu e José Genoíno que o digam...). Mas os membros da comissão, ao convocar Ustra para depor, sem querer lhe deram ainda outra finalidade.    

Ustra é um torturador. Ou ex-torturador, como queiram. Seus crimes, que incluem, além de tortura, assassinatos e desaparecimentos, são por demais conhecidos e estão por demais documentados para serem ignorados. Mesmo assim - e aqui entro na questão central deste texto -, seu depoimento foi importante, principalmente por um detalhe: ele negou cada acusação que lhe foi feita. Negou que tenha torturado algum prisioneiro. Negou que tenha assassinado alguém. Negou, apesar da montanha de evidências em contrário, que o DOI-CODI era um centro de torturas. Negou que os militantes presos eram trucidados no pau-de-arara e na cadeira-do-dragão. Enfim, negou. Negou tudo.   

Chamo a atenção para esse fato - a recusa pertinaz de Ustra em admitir o que fez. Trata-se de algo da maior importância, que faz toda a diferença para o tema de que estamos tratando. Por quê? Porque, visto em comparação com o que dizem os remanescentes da esquerda armada, que praticaram atos de terrorismo como assassinatos ("justiçamentos"), sequestros e assaltos a banco, tal fato revela uma diferença fundamental entre os dois lados da disputa ideológica no Brasil de quarenta e tantos anos atrás. Ustra nega ter cometido qualquer delito. Já os ex-terroristas que ele combateu não somente não negam, como - notem bem! - se orgulham do que fizeram.   

Em outras palavras: Ustra, um ex-torturador, sabe que tortura, assassinato e ocultação de cadáver são crimes terríveis, e por isso nega tê-los cometido. Em seu íntimo, ele sente vergonha pelo que fez. Bem diferente de seus inimigos, que sentem não vergonha, mas orgulho de terem matado e ferido pessoas, muitas delas inocentes. Tanto que, não contentes em vangloriar-se por tais atos de barbárie, fazem questão de falsificar a História, tratando como "luta pela democracia" o que era, na verdade, a tentativa de instaurar, pela força das armas, uma ditadura marxista no Brasil. É isso o que faz, por exemplo, Dilma Vana Rousseff sempre que se pronuncia sobre o assunto.

Desse modo, os ex-militantes da esquerda armada (muitos dos quais, aliás, não abandonaram a militância) rejeitam qualquer sentimento de vergonha, emprestando ares heróicos a uma luta que foi, em essência, antidemocrática. Ao contrário dos ex-agentes da repressão, que ou se escondem ou, como Ustra, negam o que fizeram. Estes últimos, pelo menos, têm consciência de que tortura é algo moralmente errado e inaceitável. Os ex-terroristas, por sua vez, não demonstram qualquer sinal de arrependimento. Para eles, todos os meios - matar, sequestrar, jogar bombas, arrebentar a coronhadas o crânio de um prisioneiro - eram válidos para alcançar a revolução socialista. Mais que válidos, tais métodos eram louváveis. Revelam, assim, não possuírem qualquer senso moral. E ainda posam de democratas, exigindo ser - e são! - indenizados pelo Erário...

Essa diferença fica ainda mais marcante quando se compara a natureza dos regimes políticos pelos quais cada lado se batia. Como sabe qualquer pessoa que já leu algum documento de qualquer organização terrorista de esquerda atuante no Brasil de 1961 a 1979, o modelo da luta armada não era a Suécia ou a Dinamarca, mas países como Cuba, China ou a Coréia do Norte. Ou seja: ditaduras totalitárias, de partido único. Já a ditadura militar brasileira era um regime autoritário, que se auto-intitulava "de exceção", e chegou ao fim há mais de 25 anos. Bem diferente da ditadura comunista cubana, que já dura 54 anos, sem dar qualquer sinal de que vai acabar um dia (já tinha cinco anos de existência quando os militares derrubaram o governo de João Goulart, em 1964, e 26 quando o regime militar chegou ao fim, em 1985). Sem contar o número de mortos de cada lado: em Cuba, foram cerca de 17 mil fuzilados até agora (além de uma quantidade incontável de afogados ao tentar fugir da ilha-prisão, o que pode elevar o número de vítimas do castrismo para estratosféricos 100 mil cadáveres). No Brasil, foram 424 mortos pelos órgãos de segurança da ditadura militar (muitos deles, em tiroteios com agentes da repressão). Não são números que devem ser desprezados. Tampouco o objetivo dos militares de impedir que o Brasil se transformasse numa nova Cuba parece ter sido mero delírio ou paranóia (ao contrário do alegado caráter democrático da luta armada, na verdade um mito criado pela esquerda).

Ao negar fatos sobejamente conhecidos, Ustra certamente mentiu, mas demonstrou, pelo menos, algum resquício de vergonha. Colocou-se, assim, um degrau acima de seus acusadores na escala de valores da humanidade. Demonstrou, portanto, superioridade moral em relação aos ex-terroristas.  Com isso, a Comissão da Verdade, de forma involuntária, prestou um serviço ao esclarecimento da verdade histórica. Por vias tortas, já justificou sua existência.

sábado, setembro 22, 2012

MINHA PRÓPRIA COMISSÃO DA VERDADE


Agora que o Diário Oficial da União tornou público o que já era notório - que a tal comissão criada pelo governo para supostamente investigar as violações dos direitos humanos no Brasil nas últimas seis décadas não passa de um comitê para omitir os crimes da esquerda e reescrever a História nos moldes stalinistas -, resolvi eu mesmo fazer o que ninguém quer fazer e criar minha própria Comissão da Verdade. O que é melhor: sem nenhum ônus para o contribuinte. Faço-o de graça, por um dever de honestidade intelectual e por acreditar que a História é uma musa que deve ser tratada com respeito.

Por motivos óbvios, vou deixar de lado os casos que serão analisados pelos membros da dita comissão oficial. Além de já serem conhecidos à exaustão, sendo objeto de centenas de livros, reportagens e filmes, não quero criar nenhum problema de duplicidade de trabalho, concorrendo com Paulo Sérgio Pinheiro e Maria Rita Kehl. Vou, em vez disso, concentrar-me nos casos que não serão investigados, pois, conforme consta no DOU, não foram praticados por agentes públicos - logo, não se enquadram na definição de crimes contra a humanidade.

Antes de passar às vítimas fatais da luta armada no Brasil nos anos 60 e 70 - cerca de 120, inclusive militantes das organizações armadas de esquerda executados ("justiçados") pelos próprios companheiros (vejam aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/49213-o-lado-dark-da-resistencia.shtml)-, vou começar buscando mais informações sobre o seguinte caso, que até hoje permanece envolto em trevas: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/2011/11/alo-senhores-da-comissao-da-verdade.html.

Como se vê pelo exemplo acima - no qual não se sabe sequer o nome da vítima nem o ano de sua morte -, o trabalho de recontar os crimes cometidos pelos esquerdistas é uma tarefa bastante difícil. Isso porque a lista de mortos pela esquerda no Brasil é apenas tentativa, sendo bastante provável que haja mais mortos e, inclusive, desaparecidos dos que os que já se sabe que esta fez pelo caminho. Pelo menos enquanto os esquerdistas continuarem se recusando a abrir seus próprios arquivos, a relação de suas vítimas no Brasil estará incompleta. Ainda espero, por exemplo, saber exatamente o que Dilma Rousseff e José Dirceu fizeram nessa época. Quem sabe um dia...

Infelizmente, não será possível inclur na lista de crimes a serem pesquisados casos como o de Elza Fernandes, estrangulada aos 16 anos de idade a mando de Luiz Carlos Prestes, ou do jovem Tobias Warchavski, morto a tiros e decapitado no Rio de Janeiro (sua morte é até hoje motivo de controvérsia), ou do tenente do exército e participante da revolta de 35 Alberto Besouchet, ao que tudo indica eliminado pela política política da ex-URSS durante a guerra civil na Espanha, em 1936-39 (todas as vítimas, por sinal, militantes comunistas). Tampouco a tortura e assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, ocorridos em 2002, e as mortes suspeitas das testemunhas do caso (oito, até agora) serão investigadas. É que a comissão governamental vai tratar dos crimes acontecidos de 1946 a 1988, fora, portanto, do período em que tais delitos aconteceram. Também ficam de fora, por razões práticas, as vítimas inocentes que foram feridas e mutiladas em atentados cometidos pela esquerda armada, pelo simples motivo de estarem no lugar errado, na hora errada - e que, ao contrário de seus algozes terroristas, não receberam nenhuma indenização do Estado, sequer um pedido de desculpas daqueles que teimam em exigir que os militares se desculpem pelo regime de 64.

Também não vou analisar as mais de 100 mil mortes provocadas, direta ou indiretamente, pela ditadura comunista cubana e por movimentos terroristas de esquerda na América Latina, parte dos cerca de 100 milhões (e ainda contando) de cadáveres deixados pelo comunismo no mundo desde 1917: tal tarefa, além de impossível, seria redundante, pois está claro para qualquer ser vivente com um mínimo de inteligência que os esquerdistas brasileiros, hoje no poder, são no mínimo cúmplices morais desses crimes. Gente como Lula, Dilma Rousseff, José Dirceu, Franklin Martins, Frei Betto, Chico Buarque e Oscar Niemeyer, para citar alguns dos mais conhecidos, que jamais usaram sua fama e influência para dizer uma palavra de crítica ao que acontece em Cuba, por exemplo. Por suas palavras ou por seu silêncio, são co-responsáveis por essas mortes. Não é necessária nenhuma comissão para constatar esse fato óbvio.

Aí está, senhores. Se não gostaram do que vai acima, sugiro que reclamem não comigo, que não inventei nada do que está aí escrito, mas com os fatos.  Lamento se estes se mostrarem um tanto quanto teimosos e desobedientes. É da natureza dos fatos não se ajustarem a ideologias. Principalmente a uma ideologia que, a pretexto de investigar e reparar violações dos direitos humanos, quer fazer tábula rasa da História.

quinta-feira, abril 19, 2012

DEZ FALÁCIAS SOBRE A LEI DE ANISTIA (E POR QUE NÃO SE DEVE REVOGÁ-LA)

Cartaz da campanha pela Anistia, final dos anos 70: antes eles queriam anistia ampla, geral e irrestrita; agora, acham que a anistia foi ampla demais...


Seguem dez falácias frequentemente repetidas por aqueles que querem a revogação da Lei de anistia (Lei 6.683, de 28/08/1979), e por que revogá-la seria uma tragédia para o Brasil.  Refute quem puder.

1. "A Anistia foi imposta pelos militares para garantir a impunidade."

FALSO. A Anistia foi uma conquista da sociedade. Revogá-la atiraria o Brasil numa crise jurídico-institucional de proporções inimagináveis. A Anistia foi o resultado de uma ampla negociação política, que incluiu, sim, o interesse dos membros dos serviços de repressão político-militar de que seus crimes permanecessem impunes, mas que envolveu, também, vastos setores da sociedade civil que começava a se rearticular no Brasil com o processo de abertura políitica no final dos anos 70. A esquerda, principalmente, teve um papel ativo, dentro e fora do país, na campanha pela "anistia ampla, geral e irrestrita", quando a censura e a legislação de exceção já davam sinais de que estavam prestes a acabar (o AI-5 foi extinto no final de 1978). O que resultou daí foi um acordo, a princípio imperfeito, mas um acordo assim mesmo. Não foi, de maneira alguma, algo "imposto" - até porque seria ilógico impor ao inimigo o perdão dos crimes por ele cometidos.

Assim como foi negociada, e não extorquida, a Anistia não pode ser revogada sob a alegação de que o regime em que ela foi implantada era ilegítimo, o que dela também retiraria, portanto, a legitimidade. Nesse caso, todas as leis produzidas desde 1964 deveriam ser abolidas, pois também seriam ilegítimas. Isso incluiria a legislação que criou o Banco Central, o BNH, o FGTS etc. Do mesmo modo, todas as obras construídas pelos militares, como a Ponte Rio-Niterói e a hidrelétrica de Itaipu, teriam de ser implodidas, a EMBRAER fechada e assim por diante... 

Do mesmo modo, é preciso ter em mente que a Anistia não teve nada a ver com "justiça", sendo, na realidade, uma construção política, um pacto político. Tratou-se de garantir a pacificação nacional por meio da extinção dos crimes, ou seja, do  perdão (e não - note-se - absolvição e esquecimento), como o preço a ser pago pela redemocratização. Se a Anistia garantiu a impunidade, foi, portanto, dos dois lados. Exatamente como ocorrera em anistias anteriores, como a de 1945, que extinguiu os crimes cometidos pela ditadura do Estado Novo varguista, pelos comunistas e pelos integralistas. Foi exatamente para permitir o retorno da democracia e o fim do estado de exceção que a Anistia foi concebida.

Há também uma questão jurídica: a Lei da Anistia foi incorporada à Constituição Federal de 1988 (Artigo 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias), não podendo ser revogada sem que se revogue, também, a Carta Magna. Isso criaria, obviamente, uma situação de caos jurídico, com o risco de um retrocesso autoritário. Além do mais, em 2010 o STF decidiu, por 7 votos contra 2, rejeitar a iniciativa de revogação da Anistia para punir os militares acusados de tortura e assassinatos. Os juízes entenderam que a Anistia foi ampla e que os crimes foram perdoados. Ao que parece, os revanchistas, que lutaram por uma anistia ampla, agora acham que ela foi "ampla demais". Daí porque querem revogá-la.

2. "A Lei de Anistia não perdoou crimes de sangue; portanto, não foi ampla" 

FALSO. A Anistia só não perdoou, num primeiro momento, aqueles que já tinham sido condenados, em 1979, por crimes de sangue. Os que praticaram tais crimes, como atentados e assassinatos, mas que não haviam sido até então julgados e sentenciados pela Justiça tiveram seus crimes de imediato extintos. Como diz a lei, no Artigo 1º: "§ 2º - Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal." O objetivo era impedir que tais condenações se repetissem. Mesmo assim, a legislação posterior estendeu o benefício da anistia a TODOS os que tinham cometido crimes políticos ou conexos. Dificilmente se encontrará, na História, exemplo de anistia tão ampla quanto a brasileira, que perdoou a todos indistintamente, em nome da reconciliação nacional.

3. "Tortura é crime contra a humanidade, logo imprescritível"

EM TERMOS. Esse argumento tem sido repetido com base na legislação internacional, que condena a tortura. A questão é saber se essa legislação pode sobrepor-se à lei nacional. Não pode. Além do mais, o terrorismo também é considerado crime contra a humanidade. 

Outro argumento constantemente brandido pelos advogados da revogação da Lei de Anistia é o do chamado "crime continuado", aplicado no caso dos "desaparecidos". Nesse caso, o crime perduraria, já que os corpos não foram encontrados - o sequestro só se encerra quando a vítima é libertada. Aparentemente lógico, tal argumento é também falacioso, pois quem o utiliza parece se esquecer que os desaparecidos já foram reconhecidos oficialmente como mortos (Lei 9.140, de 4/12/1995): suas famílias receberam certidões de óbito e indenizações do Estado. Desde então, não há mais desaparecidos políticos no Brasil - exceção dos que a esquerda mantém no armário.

Trata-se, portanto, de um princípio sem qualquer valor normativo: segundo a Constituição, a lei não pode retroagir, a não ser para beneficiar o réu ("Artigo 5º, XL- A Lei não retroagirá, salvo para beneficiar o réu.")
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4. "Os que lutaram contra a ditadura foram punidos; os torturadores, não". 

FALSO. Nem todos os que se opuseram, com armas ou não, ao regime de 64 foram presos ou torturados. Vários escaparam à prisão e um número maior jamais conheceu a tortura. O último comandante militar da Ação Libertadora Nacional (ALN), um dos grupos terroristas mais violentos, Carlos Eugênio Paz, jamais foi preso. E é apenas um exemplo.
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Além disso, os punidos pelo regime militar foram indenizados - muitos, aliás, por motivos completamente absurdos. O ex-presidente Lula, por exemplo, recebe 6 mil reais mensais de indenização por ter ficado preso por algumas semanas, em 1980, por causa de uma greve ilegal. A presidente Dilma Rousseff foi contemplada com 70 mil reais por mês por sua participação em três organizações guerrilheiras de extrema-esquerda. Diógenes de Oliveira, responsável por atentados como a explosão do carro-bomba em que morreu o soldado Mário Kozel Filho em São Paulo em 1968, foi indenizado em mais de 400 mil reais, enquanto Orlando Lovechio Junior, que perdeu a perna num atentado à bomba do qual Diógenes participou, sobrevive com uma pensão por invalidez de 570 reais mensais. No total, as indenizações já somam cerca de 4 bilhões de reais. Nenhum centavo para as vítimas da luta armada.  Daí a frase do saudoso Millôr Fernandes: "não era ideologia; era um investimento".

Quanto aos militares, a maioria deles já se encontra em idade avançada, muitos são octogenários, sem qualquer influência na vida política nacional. Ao contrário de muitos remanescentes da luta armada de esquerda, que hoje ocupam altos cargos na administração pública - a começar pela Presidência da República.

5. "Brasil pode ser condenado pela ONU, OEA etc."

FALSO. Nenhuma organização internacional tem jurisdição para condenar quem quer que seja no Brasil. A ONU, a OEA ou a CIDH podem estabelecer princípios gerais, declarações etc. sobre tortura e outros delitos, mas não impor-se à lei brasileira (no caso, a de Anistia). Portanto, a menos que o país aceite essas deliberações, estas não têm valor normativo. Ademais, sendo organizações interestatais, tais organismos enxergam somente os delitos cometidos pelo Estado, ficando de fora, no caso, o terrorismo de esquerda. O soldado que der um tapa na cara de um preso será acusado de violar os direitos humanos pela ONU ou pela OEA; já o terrorista não-estatal que explodir um quartel ou um avião, não.

6. "Crimes contra a humanidade são apenas os praticados pelo Estado"

FALSO. Outra falácia repetida à exaustão pelos inimigos da Anistia. Não leva em conta o fato de que terrorismo também é considerado crime contra a humanidade, independentemente de quem o pratique. Além do mais, tal argumento é um tiro no pé para a esquerda, pois os terroristas brasileiros estavam também a serviço do Estado - no caso, não do Estado brasileiro, mas de Estados estrangeiros, como Cuba e China. Militantes esquerdistas brasileiros receberam dinheiro, armas e treinamento militar dos regimes cubano, chinês e norte-coreano, entre outros, para derrubar o regime militar brasileiro. Agiram, assim, como agentes de fato desses Estados. Seus crimes, portanto, também podem ser enquadrados na categoria de terrorismo de Estado.    

7. "Os guerrilheiros lutaram pela democracia"

TOTALMENTE FALSO. De todas as mentiras entoadas como um mantra pela propaganda esquerdista, esta é certamente a mais fácil de ser refutada. A luta armada da extrema-esquerda não teve nada de democrática, como demonstram de forma cristalina os documentos das organizações clandestinas da época, nenhum dos quais fala em democracia, mas em instaurar uma forma de ditadura socialista. Leiam a coletânea organizada por Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá, Imagens da Revolução: documentos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961/1971 (Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985) para constatarem. A restauração das liberdades democráticas simplesmente não estava nos planos dos grupos terroristas - e muito menos, como virou moda afirmar em certos círculos, constituiu um "resultado não-intencional" da ação destes.
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Além disso, o terrorismo de esquerda no Brasil tem início antes do AI-5 - o atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes ocorre em 25/07/1966, dois anos antes do fechamento do regime. Como mostram diversos historiadores, o projeto da luta armada é anterior a 1964. Não por acaso, a Lei de Anistia contempla crimes políticos e conexos cometidos entre 1961 e 1964, o que beneficiou quase exclusivamente a esquerda.

8. "Em outros países, como Argentina e Chile, os militares foram condenados e estão cumprindo pena; por que o mesmo não ocorre no Brasil?"

Não há relação entre o que ocorreu no Brasil e nos países vizinhos. Além de se tratar de casos específicos, cada qual com suas particularidades, na Argentina, Chile e Uruguai não só torturadores militares foram presos e sentenciados à prisão: os terroristas de esquerda também o foram. Na Argentina, em 1990 Carlos Menem indultou os dois lados, decisão que foi revertida anos depois. No Chile, o chefe da DINA, o serviço secreto, general Manuel Contreras, foi preso e condenado por pressão dos EUA devido ao assassinato do ex-chanceler Orlando Letelier nas ruas de Washington, em 1976. Mesmo assim, terroristas de esquerda, como os membros do MIR, permanecem presos e cumprem sentença. Um exemplo é Mauricio Hernández Norambuena, condenado por crimes como o sequestro do publicitário Washington Olivetto em São Paulo. Não há como comparar as situações nesses países com o ocorrido no Brasil, até porque a intensidade da repressão em cada país foi bastante diferente - 30 mil mortos na Argentina, 424 no Brasil.

9. "A Comissão da Verdade só tratará dos crimes cometidos por agentes do Estado"

FALSO. A própria lei que criou a comissão - Lei 12.528, de 18/11/2011 - não faz qualquer referência a isso: fala apenas em "examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos", mas não diz quem as cometeu. A mesma lei, em seu Artigo 2, § 1o, II, afirma que não poderão participar  da comissão aqueles que "não tenham condições de atuar com imparcialidade". Portanto, a "Comissão da Verdade", para ser imparcial, também precisa investigar os crimes cometidos pela esquerda. Além do mais, a lei, em  seu Artigo 3, VIII, § 4o, é clara: "As atividades da Comissão Nacional da Verdade não terão caráter jurisdicional ou persecutório." 

10. "É preciso defender o direito à memória e à verdade" 

VERDADEIRO, MAS HÁ UM DETALHE: o direito à memória e à verdade deve ser defendido em sua integridade, e não pela metade. Em outras palavras: é preciso apurar os crimes dos dois lados, e não somente os dos militares. Do contrário, a comissão vai virar uma omissão da verdade. 

Com relação aos chamados "arquivos da ditadura", por exemplo, é preciso perguntar: só os da ditadura? E quanto aos da esquerda armada? 

Enfim, a Anistia foi o pontapé inicial do processo de redemocratização no Brasil, significando, na prática, o fim da ditadura militar iniciada em 1964.  Lançou as bases jurídicas e políticas para o retorno do estado de direito democrático, que no Brasil ocorreu de forma muito mais tranqüila do que nos demais países da América do Sul que passaram por experiências de regimes militares nos últimos 50 anos.  Certamente não foi algo perfeito, mas foi o melhor que se pôde alcançar, e infinitamente superior ao verificado em países que os membros de organizações de esquerda, muitos dos quais estão hoje no poder, desejavam emular.

Países como Cuba, China e URSS, em que os prisioneiros do regime comunista jamais foram anistiados, e onde (com exceção da URSS e de seus satélites do Leste Europeu, além de outros africanos e asiáticos) a ditadura não faz parte do passado, ao contrário do regime de 64.

Somente o motivo acima já é suficiente para não desejar que a roda da História volte no tempo. Revogar a Lei de Anistia seria um retrocesso, que não teria nada a ver com justiça, mas com revanchismo. E revanchismo não tem nada a ver com verdade, mas com vendetta e acobertamento.  

quarta-feira, maio 12, 2010

ANOS DE CHUMBO: DESMASCARANDO UMA IMPOSTURA HISTÓRICA




O texto a seguir é bem longo. Mas não poderia ser diferente. Conto com a paciência do leitor.

A propósito: desafio qualquer intelectual de esquerda, inclusive o autor do texto que analiso, a provar que o que digo em seguida não é verdade. Está lançado o desafio.


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Tenho o costume – alguns diriam o mau hábito – de ler o que os esquerdistas escrevem. A tarefa é árdua, sei bem, mas pode ser bem instrutiva. Um dos textos que li e que me chamou a atenção nesses dias foi do Professor Vladimir Safatle, do Departamento de Filosofia da USP. O título do artigo é “Do uso da violência contra o Estado ilegal”, e está numa coletânea organizada por Edson Teles e pelo próprio Vladimir Safatle, O que resta da ditadura (São Paulo: Boitempo, 2010, páginas 237-252). Resolvi analisar o texto, pois percebi que muitos dos, digamos, argumentos utilizados pela esquerda brasileira para justificar uma certa visão – infelizmente, bastante difundida – sobre a História brasileira recente encontram-se lá.
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O autor inicia o texto com uma epígrafe retirada do romance 1984, de George Orwell – “Ele expulsou a cena da memória. Era uma lembrança falsa” –, que não poderia ser mais inadequada. A citação de Orwell faz referência à prática costumeira nos regimes totalitários de apagar fatos considerados inconvenientes ao poder. E é exatamente isso que o texto faz, ao criticar o “apagamento da História” pelos militares brasileiros, apenas para apagar, ele mesmo, a parte da História que não convém lembrar à esquerda.
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Já no começo, Safatle usa um exemplo que remete à Lei de Godwin – aquela que diz que, quando se acusa alguém de nazista, é porque já não é mais possível qualquer debate. Ele menciona Auschwitz e os nazistas para condenar aquilo que chama de “desejo de desaparecimento” que estaria presente na Lei de Anistia de 1979, que perdoou ambos os lados dos “anos de chumbo” no Brasil. Ele considera que esse processo de manipulação dos fatos está no cerne “de todo totalitarismo” etc.


À parte o uso equivocado, para dizer o mínimo, do conceito de totalitarismo aplicado à realidade política do regime militar brasileiro – regime que pode ser considerado autoritário, mas não totalitário, como pode constatar facilmente qualquer estudante de Ciência Política ainda não contaminado pelo vírus do marxismo vulgar –, Safatle ignora, em todo o texto, as ações praticadas pela esquerda terrorista no período. Ele nega mesmo essa definição, “terrorismo”, atribuindo-a a uma designação dos militares, e não aos fatos. Os termos “subversivo” e “terrorista”, longe de se referirem a atos concretos, seriam apenas o produto da manipulação semântica daqueles que detêm a soberania (ou seja, o poder). Assim, citando autores como Carl Schmitt, ele considera um uso extensivo e pouco rigoroso do termo em um contexto inacreditável chamar-se, por exemplo, de terroristas os integrantes do MST, ignorando as ações e o culto à violência revolucionária desse movimento pretensamente social, que recebe dinheiro do Estado para invadir e depredar propriedades e intimidar pessoas. .

A idéia central do texto de Safatle é que o Estado surgido após 1964 no Brasil, e que perdurou até 1985, era ilegal e, portanto, a luta contra ele era necessariamente legal e uma forma de resistência democrática. É nesse sentido que ele aborda a questão dos desaparecidos políticos, cujo não-reconhecimento pelo Estado, ou a não punição dos torturadores e assassinos, equivaleria a uma segunda morte: “o Estado deixa de ter qualquer legitimidade quando mata pela segunda vez aqueles que foram mortos fisicamente”, diz ele, esquecendo-se, aparentemente, de que tal processo de assassinato/desaparecimento/esquecimento foi levado às últimas conseqüências nos países socialistas como a ex-URSS e também pelos militantes da luta armada no Brasil.

Após criticar o que seria o pouco rigor conceitual no trato de termos como “terrorista” aplicado aos revolucionários do MST, Safatle não revela qualquer pejo em associar a ditadura militar brasileira ao nazismo, afirmando que “algo de fundamental do projeto nazista e de todo e qualquer totalitarismo alcançou sua realização plena na América do Sul”. Tal associação, se pode ter algum sentido no caso da Argentina, perde completamente a razão de ser no caso brasileiro. Não somente pelo fato – ignorado por Safatle – de que o conceito de totalitarismo (e, por extensão, de nazismo, uma de suas variantes) é inseparável da idéia do Partido-Estado (o regime de 64, ao contrário, extinguiu os partidos políticos), mas sobretudo porque os militares agiram para impedir a transformação do Brasil num Estado totalitário de corte socialista ou soviético. Algo que nem mesmo historiadores marxistas, como Jacob Gorender, ousam negar.

Depois de identificar o regime de 64 com o totalitarismo nazista, Safatle lança suas baterias contra a Lei de Anistia, comparando a situação brasileira ao que aconteceu na Argentina e no Chile, onde os generais foram julgados e condenados. Ele parece se esquecer de que, nesses países, terroristas de esquerda que lutaram contra o regime também tiveram o mesmo destino que os militares. É aqui aonde ele quer chegar: o que ele quer é que somente os crimes de um lado, “da direita”, sejam condenados.

Para ele, “o único país que realizou de maneira bem-sucedida as palavras dos carrascos nazistas foi o Brasil”. E isso porque, no Brasil, houve anistia, que beneficiou igualmente quem torturou e quem pegou em armas contra o regime. Em outras palavras: para Safatle, a anistia, uma conquista da sociedade brasileira, resultado de longa negociação política para viabilizar a redemocratização do País, é uma causa... nazista!

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Rejeitando categoricamente a idéia de que “toda violência se equivale”, Safatle rejeita a tese de que o esquecimento dos “excessos” do passado é o preço a ser pago para garantir a estabilidade democrática. O problema é que os “excessos” que ele não quer que sejam esquecidos são os praticados pelos agentes do regime militar, e somente esses, como se a violência política tivesse vindo de uma única fonte. É como se a luta armada contra o regime militar simplesmente não tivesse existido. O que revela um forte traço de esquecimento de sua própria parte – no caso, dos “excessos” e violências da esquerda armada. Ao se referir unicamente à “amnésia sistemática em relação a crimes de um Estado ilegal”, ele acaba incorrendo na amnésia sistemática em relação aos crimes cometidos pela esquerda armada. Ele é, enfim, um membro do “Partido da Amnésia” que ele critica, apenas com o sinal ideológico invertido.

Ao analisar dois argumentos contraditórios utilizados por alguns defensores do regime militar – “não houve tortura” e “houve tortura e assassinato, mas era uma guerra” – Safatle acaba caindo, ele mesmo, numa série de contradições, resultantes, em parte, de desconhecimento dos fatos históricos. Primeiro, ele agride a verdade quando diz que a idéia de que os militares tomaram o poder de forma preventiva contra um Estado comunista que estava sendo posto em marcha com a complacência de João Goulart é “um claro revisionismo histórico delirante”. (Os próprios comunistas, como o já citado Jacob Gorender, deveriam, portanto, ser acusados de revisionistas históricos delirantes[1].) Em seguida, envereda num debate jurídico com o Supremo Tribunal Federal, que recentemente decidiu pela não revisão (ou não “modificação de interpretação”, como diz Safatle) da Lei de Anistia. Ele se refere à Lei n. 6.683, em que se lê: “Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal”, concluindo que, como esses crimes nunca foram objeto de anistia, os militares que os cometeram não podem ser anistiados, sequer na lei que eles mesmos se “autoconcederam” (o que é errado: a Anistia foi negociada com a sociedade). A conclusão é a seguinte: somente os delitos praticados pelos militares e agentes da repressão configuram “terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal”. Quanto aos que a esquerda cometeu, nenhuma palavra.

Em sua crítica ao STF, Safatle ataca um dos expoentes da “ala conservadora” do tribunal, que, a fim de justificar que, caso militares fossem julgados, antigos membros da luta armada deveriam ter o mesmo destino (como se não fosse, precisamente, o caso), “chegou ao limite”, afirma ele, de invocar o artigo 5, inciso 44, da Constituição Federal, que diz o seguinte: “Constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis e militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático”. Seu argumento é que o regime de 64 era um Estado ilegal, logo a luta armada contra ele não pode ser colocada no mesmo patamar do terrorismo contra um Estado democrático. Aparentemente, ele tem razão, mas se esquece de um detalhe: a luta armada dos anos 60 e 70 não era uma luta pelo restabelecimento da ordem constitucional e democrática (veremos isso mais adiante). Também esquece que já existia guerrilha no Brasil antes de 1964 (retomarei esse ponto).

Safatle afirma que o Brasil é o único país onde a Anistia serve para acobertar “crimes contra a humanidade, como o terrorismo de Estado [e o terrorismo de esquerda não é terrorismo?], a tortura [militantes de esquerda também torturaram prisioneiros] e a ocultação de cadáveres [idem], o único país onde as Forças Armadas não fizeram um mea-culpa sobre o regime militar [e por que deveriam? os militares deixaram o poder muito bem avaliados pela população em geral; além disso, somente uma parcela ínfima dos militares esteve diretamente envolvida na repressão política], onde os corpos de desaparecidos ainda não foram identificados porque o Exército teima em não dar informações [o Exército está subordinado ao Presidente da República; logo, se informações não são divulgadas sobre onde estão os restos mortais dos desaparecidos – os “arquivos da ditadura” –, isso se deve à incapacidade, ou à má vontade, do governo]”. Isso explica por que ele acha absurdo o STF decidir que, caso a anistia a um lado seja suspensa, o outro lado – os militantes da luta armada – deveriam também ser condenados. É que, para Safatle, terrorismo de esquerda não é terrorismo, e tortura de esquerda não é tortura.

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Não contente em tentar “reinterpretar” a Lei a seu talante, por um critério ideológico, Safatle avança sobre a História. Ao tentar rebater o que até as paredes do STF já sabem – que “os dois lados têm crimes contra a humanidade” –, ele pergunta: “qual o caso de tortura feito por ‘terroristas’?” Eu poderia citar os seqüestros de diplomatas estrangeiros, ou as ameaças a inocentes civis em filas de banco durante “expropriações revolucionárias”, ou o adolescente retalhado pelos guerrilheiros do PCdoB no Araguaia, mas acho que isso não iria fazer diferença para Safatle. Para ele, chamar os seqüestros de crimes contra a humanidade é um “argumento de circunstância”, pois crimes contra a humanidade são aqueles “praticados pelo Estado contra seus cidadãos”. (Segundo esse raciocínio, os assassinatos de judeus poloneses ou bielorrussos por alemães durante a Segunda Guerra não foram crimes contra a humanidade, pois afinal não se tratava de cidadãos alemães assassinados pelo Estado alemão...) Sem falar que sua afirmação de que o seqüestro do embaixador norte-americano no Brasil, Charles B. Elbrick, em 1969, não caracterizou tortura porque, ao ser solto, Elbrick “não procurou um hospital por algum tipo de seqüela”, tendo-se resumido a dizer: “Ser embaixador nem sempre é um mar de rosas”, prova tanto seu ponto de vista quanto afirmar que não houve tortura contra guerrilheiros porque eles, ao serem soltos, também não procuraram um hospital – alguns deles, mesmo, passaram-se para o lado da repressão após terem sido capturados. Isso prova que não houve tortura? (A propósito: não consta que ser guerrilheiro também fosse algum mar de rosas.) .

Safatle não economiza sofismas e meias-verdades para tentar convencer de seu argumento de que somente um lado cometeu crimes e que, portanto, a reciprocidade não vale no caso brasileiro. Após agredir a História do Brasil, ele investe sobre a de outros países. No caso, a França do regime colaboracionista de Vichy (1940-1944). Ele pergunta: “por que o Tribunal de Nuremberg não condenou os resistentes franceses contra o governo de Vichy?” Eu poderia responder: pelo mesmo motivo por que os pilotos de bombardeiros aliados que destruíram as cidades alemãs ou japonesas não foram condenados após a guerra. Mas prefiro essa outra explicação: porque os maquis franceses, ao contrário dos “guerrilheiros” brasileiros, argentinos ou chilenos (assim como as FARC colombianas hoje) não lutaram para implantar uma ditadura comunista na França (embora houvesse comunistas em suas fileiras), mas para libertar o país da ocupação nazista e restaurar, numa frente com outras forças políticas, o regime democrático. (Aliás, vale lembrar: os comunistas franceses só se engajaram na resistência após 1941, quando Hitler invadiu a URSS - até então, eram aliados dos nazistas.) Mas isso para Safatle não tem importância: o que vale para ele é que o princípio jurídico adotado no caso de Vichy consistiu em dizer que “a violência sistemática do Estado contra o cidadão em hipótese alguma equivale à violência do cidadão [sic] contra um Estado ilegal e seus aliados”. Como se 1) a violência do regime de 64 no Brasil tivesse sido “contra o cidadão”, e não contra grupos organizados que se opunham ao regime com armas na mão; e 2) como se a violência terrorista, que visava a derrubar o regime vigente para substituí-lo por uma forma de ditadura socialista, fosse a “do cidadão” contra um “Estado ilegal”. Não foi.

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Como se não bastassem a má utilização dos conceitos e os erros e omissões históricas, Safatle insiste num argumento que só pode ser interpretado como má-fé ideológica: a fim de justificar o terrorismo de esquerda dos anos 60 e 70, ele menciona o “direito de resistência” presente na tradição política liberal, desde John Locke. Trata-se da mais pura impostura intelectual. Ele afirma que “essa [a luta armada dos anos 60/70 no Brasil] é uma batalha que não separa esquerda e liberais, mas que se fundamenta no reconhecimento de uma espécie de campo comum entre as duas posições”. E arremata: “toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal”. (grifo dele)

O argumento é falacioso, por duas razões. Primeiro, pela instrumentalização da tradição liberal para justificar uma luta que visava, em última instância, à implantação de um regime totalitário, de perfil socialista ou comunista – o exato oposto do liberalismo. Segundo, porque os terroristas brasileiros não buscaram, em momento algum, formar uma frente única com setores liberais de oposição legal ao regime militar. Pelo contrário: como demonstra Elio Gaspari, a luta armada desprezava o apoio dos setores moderados da oposição, como o MDB de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães(2). Isso mostra, por si só, como os objetivos da luta armada e da oposição legal ao regime militar eram diferentes (eu diria mesmo incompatíveis).

Safatle afirma ainda que, “do ponto de vista estritamente jurídico-normativo, o regime militar brasileiro era mais ilegal que o Estado nazista alemão”. Ele tem certa razão nesse ponto: afinal, Hitler foi eleito democraticamente, ao contrário dos militares. Mas isso não muda a essência da questão. Afinal, Fidel Castro também não foi eleito por ninguém, e nesse sentido o regime cubano também é mais ilegal do que o de Hitler. Hugo Chávez, por sua vez, foi eleito democraticamente, e no entanto comanda um regime que caminha gradativamente para tornar-se uma ditadura. Além do mais, desde quando a luta armada no Brasil se orientou por considerações jurídico-normativas?

Safatle afirma uma grande verdade quando diz que “um governo só é legítimo quando se funda sobre a vontade soberana de um povo livre para fazer valer a multiplicidade de interpretações a respeito da própria noção de ‘liberdade’. Um governo marcado por eliminação de partidos, atemorização sistemática de setores organizados da sociedade civil, censura, eleições de fachada marcadas por casuísmos infinitos, além de assassinato e exílio de adversários como política de Estado certamente não cabe neste caso”. Poucas vezes li definição mais precisa do que é e como funciona um regime totalitário, como o nazismo e o comunismo (que a esquerda armada pretendia emular no Brasil – o que demonstra a inexistência de qualquer compromisso democrático por parte dos “guerrilheiros”). Praticamente, Safatle corrobora o que certa vez disse Roberto Campos, refletindo sobre o que ocorreria caso a luta armada fosse vitoriosa no Brasil: “Em vez de anos de chumbo, teríamos rios de sangue”. Provavelmente por isso, ele tem a precaução de ressalvar o seguinte: “diga-se de passagem, isto vale tanto para ditaduras de direita quanto para revoluções populares em estado de degenerescência, regimes totalitários burocráticos ou despotismo oriental travestido de esquerda”. Se você trocar o que está acima por “ditaduras comunistas”, acertará na mosca. Mas Safatle não pode dizer isso: em vez de chamar as coisas pelo nome, ele prefere fórmulas evasivas como "revolucões populares em estado de degenerescência", "regimes totalitários burocráticos" ou "despotismo oriental travestido [sic] de esquerda". Ele faz parte da legião de marxistas acadêmicos que ainda insistem, contra a própria História, que o “ideal socialista” é puro e imaculado; apenas os homens não estão à altura dele...

Insistindo na identificação do direito de resistência do cidadão com a luta armada para implantar o comunismo no Brasil, o que o leva até mesmo a invocar a Declaração de Independência dos EUA (!) para justificar a violência terrorista de esquerda, Safatle escreve: “o direito fundamental de todo cidadão é o direito à rebelião [para acabar com as liberdades e implantar o comunismo?]. Quando o Estado se transforma em Estado ilegal, a resistência por todos os meios é um direito [por todos os meios? assassinato de inocentes, inclusive?]. Neste sentido, eliminar o direito à violência contra uma situação ilegal gerida pelo Estado significa retirar o fundamento substantivo da democracia” [e por acaso os terroristas queriam democracia? qual documento de organização armada de esquerda fala em restaurar as liberdades democráticas? Lamarca e Mariguella, democratas?].

Em uma nota de rodapé, Safatle admite que o caso brasileiro não pode ser colocado no mesmo nível do terrorismo de grupos como Brigadas Vermelhas, Baader-Meinhof, PAC etc., que ensangüentou a Alemanha e a Itália nos anos 70 (e que tiveram no Minimanual do guerrilheiro urbano escrito por Carlos Mariguella sua obra de referência). Seu argumento é que as ações no Brasil foram contra um Estado ilegal, enquanto a Alemanha e a Itália eram países democráticos. Ele está certo nesse último ponto, no qual se distancia da posição oficial do governo brasileiro, via Tarso Genro (caso Cesare Battisti). Mas, como sempre, comete uma meia-verdade, quando nega que os terroristas brasileiros, embora lutassem contra um “Estado ilegal”, desejavam implantar outro Estado ilegal. Sem perder o cacoete esquerdista, ele atribui à tentativa de confundir as duas lutas, a dos terroristas brasileiros e a dos terroristas europeus, a “setores conservadores”. Ele chega a cometer erros factuais crassos, que só podem ser creditados à ignorância em relação à História. É somente isso que explica sua afirmação de que “nenhum grupo armado brasileiro sequestrou aviões, implementou política de atemorização sistemática da população civil ou absurdos do gênero”.

A afirmação é totalmente falsa. Eis os fatos:

- De 1968 a 1972, houve oito seqüestros de aviões comerciais no Brasil por terroristas de esquerda – dois deles, em julho de 1970 e em maio de 1972, terminaram com a morte e/ou prisão dos seqüestradores em operações de resgate das Forças Armadas.

- Quanto à implementação de uma política de atemorização sistemática da população civil, basta folhear o Minimanual de Mariguella para constatar que esse era um objetivo da luta armada de esquerda: mediante ações ousadas, como explosão de bombas, seqüestros e assassinatos, os terroristas visavam a provocar uma reação autoritária do regime, que se abateria sobre toda a população, a qual, então, se colocaria do lado dos “guerrilheiros”. E isso através do clima de caos e de insegurança generalizada que as ações terroristas provocariam.

- Essa política de intimidação pelo terror foi implementada não somente contra a população civil – como no Araguaia, onde os guerrilheiros do PCdoB estabeleceram uma “zona liberada” maoísta, com suas próprias leis (inclusive pena de morte) –, mas contra os próprios militantes da luta armada suspeitos de traição ou que, por qualquer motivo, discordavam dos demais companheiros ou pretendiam abandonar a luta – os chamados “justiçamentos”, que Safatle prudentemente se omite de comentar.

Em um trecho, Safatle quase deixa transparecer o verdadeiro objetivo da luta armada que defende: “não devemos compreender a idéia fundamental deste direito à resistência simplesmente como o núcleo de defesa contra a dissolução dos conjuntos liberais de valores (direito à propriedade, afirmação do individualismo etc.)”. Ou seja: o “direito à resistência” invocado por Safatle, embora beba na fonte da tradição liberal, deve orientar-se para sua superação, isto é: para o socialismo ou o comunismo. Usa-se, assim, o liberalismo para negá-lo. Uma prática recorrente da esquerda, diga-se de passagem.

O mito da luta armada “pela democracia” está presente em trechos como este: “os jovens que entraram na luta armada aplicaram o direito mais elementar: o direito de levantar armas contra um Estado ilegal, fundado por meio da usurpação pura e simples do poder graças a um golpe de Estado e ao uso sistemático da violência estatal. Desconhecer este direito é, este sim, o ato totalitário por excelência”. Como se a finalidade da luta armada não fosse o estabelecimento de outro Estado ilegal, mil vezes mais autocrático do que a ditadura militar... E como se esse Estado sonhado pelos terroristas de esquerda não fosse a quintessência do totalitarismo(3).

Mas o essencial do texto de Safatle, de sua tese da legalidade intrínseca do terror contra um “Estado ilegal”, encontra-se no seguinte parágrafo:

“Neste sentido, não devemos tolerar o argumento de que nos países socialistas também havia terrorismo de Estado e era isto que a luta armada procurava implantar no Brasil. Os nazistas tentaram desqualificar seus oponentes como serviçais da ordem bolchevique. Galtieri, Videla, Contreras também tentaram. No entanto todos eles foram ou estão presos. O que mostra como o Brasil deve ser o único país no mundo [sic] onde este argumento vale. Pois o resto do mundo sabe que aqueles que lutam contra um Estado ilegal são vistos inicialmente como exercendo um direito maior que é o fundamento de toda democracia real: o direito de dizer ‘não’, nem que seja por meio das armas. Não é por outra razão que países como a França tratam comunistas que participaram da resistência, como Jean Cavaillès e Guy Moquet, como heróis nacionais”.

Primeiro: a existência de terrorismo de Estado nos países socialistas, assim como a intenção da luta armada de implantar isso no Brasil, não é um “argumento”: é um fato. Está abundamentemente comprovado por milhares de depoimentos, assim como por dezenas de documentos das organizações clandestinas de esquerda do período, bem como por suas ações.

Segundo: assim como os nazistas, os comunistas tentaram desqualificar seus oponentes – na verdade, ainda o fazem –, chamando-os de "fascistas", e isso não faz qualquer diferença para a questão em pauta.

Terceiro: assim como Galtieri, Videla e outros generais latino-americanos foram presos, terroristas de esquerda na Argentina e no Chile, como os Montoneros e os membros do MIR, também foram encarcerados, o que mostra a validade do princípio da reciprocidade.

Quarto: a que “resto do mundo” o autor se refere? Certamente, não a parte da humanidade que condena o terrorismo, seja que roupagem tiver – sobretudo se vier disfarçado de “resistência democrática” contra um Estado ilegal para instaurar, em lugar deste, o comunismo.

Quinto: É por esse motivo que a resistência francesa é louvada, mas os terroristas de esquerda latino-americanos, não (pelo menos pelos que têm a democracia em alta conta). Os comunistas franceses só são tratados como heróis porque participaram da resistência em frente com outras forças políticas, como os liberais e inclusive conservadores. Se não fosse o anticomunista general De Gaulle, que tomou a frente do movimento de resistência e impediu o Partido Comunista Francês de tomar o poder, a História seria diferente.

Em seguida, Safatle incorre em mais uma desinformação histórica:

“Devemos lembrar aqui de um dado claro e fundamental. Não havia luta armada de esquerda antes do golpe militar de 1964. Não há nenhum caso registrado de grupo guerrilheiro atuante antes do golpe”. (grifo dele)

E mais: “nenhum historiador até hoje indicou o registro de alguma forma qualquer de ação armada antes do golpe militar”.

Não sei por qual livro de História Safatle estudou o período pré-64 no Brasil. Certamente, ele jamais ouviu falar de Jacob Gorender, Daniel Aarão Reis Filho e Denise Rollemberg, além de Elio Gaspari, todos autores que esmiúçam o projeto guerrilheiro da esquerda anterior à tomada do poder pelos militares, como é comprovado pela existência de focos guerrilheiros das Ligas Camponesas de Francisco Julião, anos antes do golpe de 64. Ele provavelmente desconhece os Grupos dos Onze de Leonel Brizola, que tinham em A Guerra de Guerrilhas, pequeno manual subversivo de Che Guevara, sua obra de referência. Desconhece também o fato, amplamente conhecido, de que, já em 1961 – no governo de Jânio Quadros! –, militantes das Ligas Camponesas (organização antecessora do MST) tinham ido treinar guerrilha em Cuba, sob os auspícios de Fidel Castro. Assim como ignora, ou finge ignorar, que a luta armada jamais esteve ausente dos planos e da ação do Partido Comunista, mesmo em seu período semi-legal, como demonstra a eclosão de guerrilhas camponesas na região de Porecatu, no Paraná, na década de 50. Sem falar, obviamente, na quartelada de 1935, a chamada intentona comunista(4). Enfim, ele, Safatle, não sabe nada de História. Ou sabe, e por isso tenta reescrevê-la, como fazia Stálin.
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É o desconhecimento dos fatos relacionados acima, assim como uma boa dose de desonestidade intelectual, o que explica o mito da luta armada como “resistência democrática”, que perpassa todo o texto de Safatle, e é retomado nesse trecho: “a luta armada esteve vinculada primeiramente à recusa legítima ao regime militar, ao caráter insuportável que ele adquiriu para vários setores da população nacional” (grifo dele). Mentira. A luta armada, como vimos, já surge em embrião antes de 1964, nas Ligas Camponesas e nos Grupos de Onze. O projeto guerrilheiro é anterior à ruptura constitucional de 64. As primeiras ações terroristas ocorrem em 1966 (atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, Recife), mais de dois anos antes do fechamento autoritário do AI-5, quando o regime militar ainda mantinha intactas várias liberdades políticas. Mesmo quando a repressão atingiu o auge, em 1969-1974, o conjunto da população nacional esteve muito longe de simpatizar com os guerrilheiros, que sempre estiveram isolados da sociedade (ao contrário, a popularidade do governo era altíssima). O que levou, primeiramente, à luta armada não foi a recusa legítima a um regime discricionário, nem a reação à falta de liberdades, mas a idéia da revolução socialista, presente na esquerda brasileira desde 1922, e que tomou impulso, no começo dos anos 60, após a Revolução Cubana.

Prossegue Safatle: “De toda forma, a multiplicidade política de trajetórias de ex-membros da luta armada (encontramos vários deles em partidos cujo espectro vai do Psol ao PSDB) mostra retrospectivamente como eles eram unidos principalmente pela recusa, e não pela partilha, de um projeto positivo claramente delimitado. Vale a pena insistir nesse ponto: o que unia todos os que entraram na luta armada não era um projeto comum, mas uma recusa comum”. O que o fato de alguns ex-militantes da luta armada terem aderido ao PSDB prova? Nada! Mostra apenas que alguns trocaram a revolução socialista pela social-democracia, enquanto outros (PSOL), nem isso (Aliás, Safatle fala como se o PSDB fosse um partido "de direita"...) Ora, na Alemanha, alguns terroristas do Baader-Meinhof ingressaram, depois, no Partido Verde. Outros, por sua vez, cerraram fileiras com os social-democratas. Isso torna menos terroristas suas ações do passado? A “recusa comum” de que fala Safatle era a recusa da democracia, o projeto socialista. Nada mais que isso.

Safatle cita os casos de pessoas “que absolutamente nada tinham a ver com grupos comunistas”, como Rubens Paiva e Vladimir Herzog, para tentar mostrar que o argumento central dos militares (“era uma guerra”) não tem validade, logo não há por que eles terem sido anistiados. Nesse caso, ele seria obrigado a reconhecer que os crimes da esquerda também não podem ficar impunes, pois afinal esta também assassinou inocentes, muitos deles simples transeuntes, sem qualquer vinculação político-partidária (o que não era o caso de Paiva e Herzog – este último, aliás, militava no Partido Comunista). O fato de haver vítimas inocentes de um lado não elimina a existência de vítimas inocentes de outro. Mais uma vez: ou se punem todos, ou não se pune ninguém.

(Aliás, é bom lembrar: as famílias das vítimas da repressão política no Brasil - e alguns nem tão vítimas assim - já foram regiamente indenizadas pelo Estado. E os que tombaram sob as balas e bombas da esquerda armada, quando receberão o mesmo tratamento de seus algozes?)

Ao final, Safatle faz uma análise meio lírica do governo João Goulart, que ele nega, contra todas as evidências históricas, ter sido um governo que caminhava para alguma forma de golpismo esquerdista, pois ele “demonstraria a viabilidade de uma esquerda, ao mesmo tempo, profundamente transformadora e capaz de assumir processos próprios às democracias parlamentares, modificando seu sentido ‘por dentro’” etc. Como se o estímulo oficial à quebra da disciplina e da hierarquia nas Forças Armadas, sem falar no apoio a um movimento revolucionário no campo, com o avanço de setores descompromissados com as liberdades em diversas áreas, fossem sinais de uma “verdadeira democracia”... Algo, aliás, em que muita gente no governo Lula acredita.
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Textos como o de Vladimir Safatle demonstram que a luta pela memória dos “anos de chumbo” do regime militar ainda não acabou. Pelo contrário, a visão de esquerda, parcial e mistificadora, teima em se impor aos fatos, insistindo na revogação – ou na “reinterpretação”, como queiram – da Lei de Anistia, inclusive apelando para argumentos pseudo-humanitários e pseudo-humanistas.

Não cabe dúvida de que o regime político instalado no Brasil após 1964 era um Estado autoritário baseado na coação e na força. Era, portanto, um Estado ilegal. Também não se discute que a repressão político-militar foi selvagem e empregou sistematicamente a tortura e o assassinato, e que isso é condenável sob qualquer ponto de vista. Mas nada disso elimina o fato de que a luta armada de esquerda contra esse Estado era, ela também, ilegal e contrária aos princípios universais da democracia e da civilização. Seu objetivo, claro está pelos documentos e proclamações das organizações de esquerda atuantes no período, não era o retorno da ordem liberal-democrática anterior ao golpe, nem tampouco a instalação de uma forma de estado de direito constitucional, mas a substituição do regime provisório e excepcional dos generais por outro regime, permanente, de força, provavelmente socialista e certamente autoritário, quando não totalitário, como bem demonstrou Elio Gaspari. Não há qualquer razão para considerar as ações da guerrilha urbana e rural – assassinatos, seqüestros, assaltos a bancos etc. – como formas de luta democrática ou como expressões do direito legítimo à resistência nos moldes liberais, assim como não há qualquer razão em não considerar tais ações como terrorismo, a não ser a ânsia em falsificar a História para preservar antigos mitos políticos.

Nem toda ação contra um Estado ilegal é necessariamente legal. Do contrário, toda ação – explodir prédios cheios de gente e assassinar inocentes, por exemplo – estaria justificada, em nome da luta pela “liberdade”. No caso brasileiro, a luta armada nasceu não da resistência à repressão, ou do endurecimento do regime autoritário, mas de uma opção política feita por setores radicais de esquerda pela revolução violenta e pelo socialismo, opção esta que é anterior à tomada do poder pelos militares. Não reconhecer essa realidade é falsear a História, em nome de uma visão mistificadora com objetivos partidários.

A Lei de Anistia de 1979 perdoou a todos, torturadores e guerrilheiros, tendo surgido de um pacto entre o governo militar, já sem os instrumentos autoritários do AI-5, e a sociedade civil, que começava a reorganizar-se depois de anos de arbítrio. Tratou-se de uma solução negociada, certamente não a ideal, mas a que foi possível alcançar naquelas circunstâncias. O fato de torturadores e assassinos terem sido anistiados não significa que a anistia foi “autoconcedida” pelos militares, visto que os que praticaram crimes de sangue do lado da esquerda também foram agraciados com o benefício do perdão e do esquecimento. Foi isso, bem ou mal, o que permitiu a reconciliação nacional e a redemocratização do País, em última instância.

Isso significa que a redemocratização, no Brasil, foi “extorquida” pelos militares? Não. Novamente: houve um pacto político, um acordo em que ambas as partes concordaram em deixar de lado as feridas do passado e em anular os crimes de cada um. A anistia seria extorquida se tivesse sido unilateral, ou seja, se não tivesse sido concedida também aos opositores do regime. Criada essa situação, porém, qualquer tentativa de rever ou “reinterpretar” a Lei de Anistia para que puna apenas um dos lados só pode ser entendida como revanchismo e levaria, inevitavelmente, a uma situação de anomia jurídica, que teria, certamente, sérias implicações para a ordem democrática. Não há outra solução: ou se mantém a Anistia tal como está, ou ela é revogada e, nesse caso, todos – torturadores e guerrilheiros – devem parar na cadeia.

Todas essas considerações, obviamente, não farão calar o coro dos que, sob a alegação de que tortura é crime contra a humanidade, logo imprescritível, desejam ver a Lei de Anistia revogada ou modificada para punir apenas um dos lados dos “anos de chumbo” – em geral, generais octogenários e nonagenários, já sem nenhuma influência política. Para essas pessoas, o único acerto de contas possível com o passado é o que resulte de uma ruptura revolucionária da ordem política e social - situação em que costuma vigorar não a anistia, mas o paredón. Ruptura esta que foi perseguida pelos que pegaram em armas contra o regime de 64, sob inspiração de regimes políticos em que os opositores jamais tiveram o benefício de qualquer anistia, como o de Cuba. Ao contrário dos militares brasileiros que os combateram, os revolucionários marxistas não conhecem o perdão.

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(1) "Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse." GORENDER, Jacob, Combate nas trevas (5a edição São Paulo: Ática, 1998, p. 73).

(2) "Ao contrário do que sucedeu nas resistências francesa e italiana ao nazismo e mesmo na Revolução Cubana, onde conservadores e anticomunistas se integraram na luta contra a tirania, as organizações armadas brasileiras não tiveram, nem buscaram, adesões fora da esquerda. A sociedade podia não estar interessada em sustentar a ditadura militar, mas interessava-se muito menos pela chegada à ditadura do proletariado ou de qualquer grupo político ou social que se auto-intitulasse sua vanguarda. A natureza intrinsecamente revolucionária das organizações armadas retirou-lhes o apoio, ainda que tênue, do grosso das forças que se opunham ao regime. Eles viam na estrutura da Igreja católica e na militância oposicionista de civis como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães um estorvo no caminho da revolução. Eles, por seu lado, viam na luta armada um estorvo para a redemocratização." GASPARI, Elio, A ditadura escancarada (São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 194).

(3) "A luta armada fracassou porque o objetivo final das organizações que a promoveram era transformar o Brasil numa ditadura, talvez socialista, certamente revolucionária. Seu projeto não passava pelo restabelecimento das liberdades democráticas. Como informou o PCBR: 'Ao lutarmos contra a ditadura devemos colocar como objetivo a conquista de um Governo Popular Revolucionário e não a chamada ´redemocratização´'. Documentos de dez organizações armadas, coletados por Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá, mostram que quatro propunham a substituição da ditadura militar por um 'governo popular revolucionário' (PCdoB, Colina, PCBR e ALN). Outras quatro (Ala Vermelha, PCR, VAR e Polop) usavam sinônimos ou demarcavam etapas para chegar àquilo que, em última instância, seria uma ditadura da vanguarda revolucionária. Variavam nas propostas intermediárias, mas, no final, de seu projeto resultaria um 'Cubão'." Ibid., pp. 193-4.

(4) "Os grupos armados não pretendiam opor, só e fundamentalmente, uma resistência à ditadura. O projeto de guerra de guerrilhas no Brasil era anterior ao golpe de 64; vinha, desde o princípio daquela década, estimulado pelo exemplo da revolução em Cuba. Para não falar nas propostas de revolução armada que vinham de muito antes, na tradição bolchevique, como o levante comunista de 1935, como a linha política do PCB no início dos anos 50 ou, ainda, como os projetos revolucionários comunistas de tendência trotskista." RIDENTI, Marcelo, O fantasma da revolução brasileira (São Paulo: Unesp, 1993, pp. 63-4).

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

COMISSÃO DA VERDADE OU DA MEIA-VERDADE?


Vítima de atentado à bomba por terroristas de esquerda, Recife, 25.07.66:
a "Comissão da Verdade" do governo Lula vai tratar de casos assim?
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Assisti, um dia desses, a um debate interessante na TV Câmara. TV Câmara? Pois é. É raro, mas às vezes acontece de passar alguma coisa que vale a pena ver ali, além de documentários soporíferos sobre o bumba-meu-boi e discursos analfabetos de deputados idem. O assunto do debate era a tal "Comissão da Verdade" que o governo quer criar para, em suas palavras, "investigar as violações aos direitos humanos durante a ditadura militar de 1964", como parte do pacote chamado 3o Plano Nacional de Direitos Humanos - ou Plano Nacional-Socialista dos Direitos Humanos, como já está sendo chamado.

Preparei-me para mudar de canal ou desligar a TV e ler um livro, mas, como o tema me interessa e é bastante polêmico, já tendo até levado à demissão de general que se pronunciou contra a coisa, resolvi insistir. Frente a frente, havia dois deputados, um a favor e outro "mais ou menos contra" o projeto tal como está, além de dois professores universitários e um coronel, representante do Exército. Um dos deputados, aliás do PT, ficou balbuciando o tempo todo platitudes como "a ditadura foi terrível" e "é preciso apurar a verdade", lembrando seu passado de militante e perseguido político etc. O que era "mais ou menos contra", do PSDB, ficou calado a maior parte do tempo, quebrando o silêncio apenas para falar que era contra a Comissão "do jeito que está". Um dos professores, creio eu uma socióloga, tentou articular um discurso militante em defesa da revisão da Lei de Anistia de 1979, colocando-se contra o que chamou de "lógica da Guerra Fria" ou "lógica de ameaças" dos que se opõem à iniciativa dos ministros Paulo Vanucchi e Tarso Genro. Aproveitou e tascou que os militares "deveriam pedir desculpas" por 1964 e pelo que se seguiu...

Imaginei que iria presenciar um monólogo esquerdista, desses que passam, no Brasil, por "debate", mas nada disso! Tive uma grata surpresa. O coronel do Exército, representante das Forças Armadas, não se intimidou por estar em minoria. Pelo contrário. De maneira firme, porém ponderada, calma, didática, ele deu uma verdadeira aula aos esquerdistas presentes, principalmente à tal professora que queria que os militares se flagelassem em público. Sua superioridade intelectual e moral sobre os demais debatedores ficou claríssima. Ele explicou que a Anistia não teve nada a ver com "justiça", tendo sido, antes, um pacto político para viabilizar a democracia. Como tal, tratou-se de um ato que extinguiu os crimes e a punibilidade dos mesmos. Não foi, como disse a professora, uma anistia "auto-imposta" para garantir a impunidade dos agentes da repressão política, mas uma conquista da sociedade brasileira, inclusive da esquerda, que se organizou, na época, em vários Comitês pela Anistia (um dos deputados presentes tinha sido membro de um desses comitês). Respondeu, ainda, que, se a Anistia não vale e deve ser revogada porque o regime era de exceção (portanto, "ilegítimo"), então toda a legislação produzida após 1964, como a que criou o FGTS, deveria ser anulada. Finalmente, deixou claro que, entre tratados internacionais e a legislação nacional, é esta que vale.

Quanto à "lógica da Guerra Fria" ou "lógica de ameaças" a que se referiu a professora, o coronel (cujo nome, infelizmente, não retive) poderia ter dito mais. Poderia ter dito, por exemplo, que, por trás desse discurso aparentemente anódino, esconde-se um claro viés ideológico. A lógica da Guerra Fria se expressa, por exemplo, na forma da tentativa de revogar a Anistia a fim de punir apenas um dos lados - o dos militares, claro -, enquanto deixa de fora os terroristas de esquerda, que mataram, assaltaram e seqüestraram. Aliás, em todo o debate os que interpelaram o coronel não falaram em momento algum as palavras "terrorista" e "terrorismo". Já o coronel não se furtou em falar de tortura, lembrando, inclusive, que ela também foi praticada pela esquerda radical - e citou um caso específico, ocorrido na chamada guerrllha do Araguaia, em que um adolescente de 17 anos foi retalhado a facão pelos "guerrilheiros" na frente de sua família.

"A repressão foi uma opção dos militares", repetia a professora revanchista, como se isso invalidasse o fato de que a luta armada também foi uma escolha consciente da esquerda radical, que desejava derrubar o governo para instalar, em seu lugar, uma ditadura comunista (e isso, como bem lembrou o coronel, antes já de 1964). "Os militares têm que pedir desculpas", insistia - como se a corporação militar como um todo, que saiu do regime extremamente bem avaliada pela maioria da população (o que não inclui, obviamente, os esquerdistas), e cujos generais acreditam, não sem razão, que salvaram o Brasil do comunismo em 1964, devesse alguma desculpa. Quanto a isso, aliás, o coronel recordou o que quase ninguém, ali, queria lembrar: as vítimas e mesmo não tão vítimas assim do regime de 64 estão sendo agraciadas com fartas indenizações do Erário público. Já aqueles que caíram vitimados por balas e bombas da esquerda armada, muitos deles cidadãos comuns, sem qualquer relação com a luta política travada então, quando é que receberão pelo menos um pedido de desculpas de seus algozes? Se é de perdão que se está falando, por que os esquerdistas não se desculpam perante eles e suas famílias? Por que, em vez disso, endeusam terroristas?

As observações do coronel, claro, ficaram sem resposta. E não poderia ser diferente. Sua análise do regime de 64 e da luta armada, assim como da Anistia, foi impecável. Seu desmascaramento do revanchismo esquerdista, agora travestido de "Comissão da Verdade", foi total e irrefutável. Ficou claro que, qualquer tentativa de rever a Anistia não passa de uma forma de duplo padrão ideológico a fim de beneficiar a esquerda. Além do mais, a idéia de que os militares deveriam "pedir desculpas" pelo que fizeram é ridícula: primeiro, porque em 1964 eles não tomaram o poder sozinhos (tratou-se de um golpe, ou contra-golpe, civil-militar); segundo, porque tiveram amplo apoio popular; terceiro, porque os terroristas de esquerda eram uma ínfima minoria, não representando, de maneira alguma, os anseios da sociedade; e quarto, porque no Brasil, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, na Argentina, não houve um confronto entre a instituição militar como um todo e a população, e os militares que estiveram diretamente envolvidos nas atividades da repressão política foram uma fração pequeníssima das Forças Armadas. Finalmente, os militares concordaram em perdoar os terroristas e em devolver o poder aos civis, retirando-se da vida política - pode-se imaginar o mesmo acontecendo em Cuba, por exemplo? Os militares, com a exceção da minoria de torturadores e assassinos, não fizeram nada de que possam se envergonhar. Por que deveriam pedir desculpas?

Das observações certeiras do representante dos militares no debate da TV Câmara, e dos argumentos toscos de seus contendores, ficou claro para mim o seguinte: se fosse constituída eqüitativamente por representantes dos dois lados, com o objetivo de apurar as circunstâncias da repressão e da luta armada (e não somente da repressão, como se pretende), a tal "Comissão da Verdade" seria, de fato, uma oportunidade de restaurar a verdade histórica e, de certo modo, fazer justiça à memória e à História nacionais. Como não é esse o intento de seus idealizadores, a conclusão óbvia é que ela não passa de um palco para julgar o regime de 64 e impor a "justiça dos vencidos", isto é, o revanchismo. Não será, portanto, uma Comissão da Verdade, mas da meia-verdade. Ou da meia-mentira.

quarta-feira, setembro 09, 2009

AS DUAS TRAIÇÕES DO "CABO" ANSELMO

Reproduzo a seguir texto de Olavo de Carvalho, publicado ontem, 08/09, no Diário do Comércio. O leitor curioso verá que muita coisa que ele diz eu já adiantei em dois posts meus anteriores, o que mostra que estou longe de ser um mero repetidor, como alguém chegou a insinuar outro dia, do pensamento do "filósofo autonomeado" e maior inimigo das esquerdas brasileiras. Não sou "olavete", assim como não sou "reinaldete" ou "mainardete". Mas, se quiserem pensar assim, fiquem à vontade, não dou a mínima.
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Na verdade, como já escrevi aqui, tenho algumas divergências pontuais com O. de C. Mas, para o caso que aqui interessa, isso é irrelevante. O texto dele sobre a entrevista que o "Cabo" Anselmo deu na TV Bandeirantes é, como tudo o mais que ele escreve, preciso, incisivo, quase brutal em sua sinceridade. Prestem atenção a como Anselmo responde à pergunta de se ele se considera um traidor: é uma das respostas mais cortantes que alguém já deu a um entrevistador.
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De fato, sempre que o tema dos "anos de chumbo" da ditadura militar é retomado, o que se vê é uma duplicidade moral, uma tendência quase automática a condenar a "direita" e enaltecer os feitos da "esquerda", tida como sacrossanta e inatacável. O texto de Olavo de Carvalho ajuda a demolir esse mito, mostrando que, quando se fala do "Cabo" Anselmo, o que vem à mente é sua traição à luta armada de esquerda, quando ele foi, na verdade, duplamente traidor - da esquerda radical e, principalmente, das Forças Armadas: primeiro em 1964, como líder da baderna que levou à queda do governo Goulart; depois, ao passar para o lado de uma organização terrorista de extrema esquerda, que lutava para transformar o Brasil numa nova Cuba ou numa Coréia do Norte.
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Os entrevistadores, infelizmente, não foram capazes de se colocar acima da visão simplista e grosseira difundida pelas esquerdas: preferiram focar no Anselmo "traidor da luta armada", não no Anselmo líder da revolta dos marinheiros ou guerrilheiro castrista. Também quase não tocaram nos motivos ideológicos que levaram Anselmo a trocar de lado - a desilusão com o socialismo quando esteve em Cuba, antes de retornar ao Brasil e ser preso. Se é verdade que ele aceitou ser informante da polícia por medo de morrer, não é menos verdadeiro que ele o fez também por não querer para o Brasil o mesmo que viu na ilha-prisão dos irmãos Castro, onde sobra censura e falta até papel higiênico.
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Se há algo que a histórica entrevista de Anselmo demonstrou com exatidão, é que os jornalistas brasileiros estão escravizados a um duplo código moral, como diz O. de C.: um para a "direita" - implacável, radical, intransigente - e outro, para a "esquerda" - a quem absolutamente tudo é permitido. Poucas vezes se viu maior duplicidade, maior servilismo, ainda que involuntário, aos cânones esquerdistas.
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Leiam - e vejam - e tirem suas próprias conclusões. Os grifos são meus.

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DOIS CÓDIGOS MORAIS

A entrevista do Cabo Anselmo ao programa “Canal Livre” (TV Bandeirantes, 26 de agosto, http://www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=2267&Itemid=34) é um dos documentos mais importantes sobre a história das últimas décadas e mereceria uma análise detalhada, que não cabe nas dimensões de um artigo de jornal. Limito-me, portanto, a chamar a atenção do leitor para um detalhe: o confronto do entrevistado com os jornalistas foi, por si, um acontecimento revelador, talvez até mais que o depoimento propriamente dito.
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Logo de início, o apresentador Boris Casoy perguntou se Anselmo se considerava um traidor. Ele aludia, é claro, ao fato de que o personagem abandonara um grupo terrorista para transformar-se em informante da polícia. Para grande surpresa do jornalista, o entrevistado respondeu que sim, que era um traidor, que traíra seu juramento às Forças Armadas para aderir a uma organização revolucionária. A distância entre duas mentalidades não poderia revelar-se mais clara e mais intransponível. Para a classe jornalística brasileira em peso, o compromisso de um soldado para com as Forças Armadas não significa nada; não há desdouro em rompê-lo. Já uma organização comunista, esta sim é uma autoridade moral que, uma vez aceita, sela um compromisso sagrado. Nenhum jornalista brasileiro chama de traidor o capitão Lamarca, que desertou do Exército levando armas roubadas, para matar seus ex-companheiros de farda. Traidor é Anselmo, que se voltou contra a guerrilha após tê-la servido. Anselmo desmontou num instante a armadilha semântica, mostrando que existe outra escala de valores além daquela que o jornalismo brasileiro, com ares da maior inocência, vende como única, universal e obrigatória.
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O contraste mostrou-se ainda mais flagrante quando o jornalista Fernando Mitre, com mal disfarçada indignação, perguntou se Anselmo não poderia simplesmente ter abandonado a esquerda armada e ido para casa, em vez de passar a combatê-la. Em si, a pergunta era supremamente idiota: ninguém – muito menos um jornalista experiente – pode ser ingênuo o bastante para imaginar que uma organização revolucionária clandestina em guerra é um clube de onde se sai quando se quer, sem sofrer represália ou sem entregar-se ao outro lado. Conhecendo perfeitamente a resposta, Mitre só levantou a questão para passar aos telespectadores a mensagem implícita do seu código moral, o mesmo da quase totalidade dos seus colegas: você pode ter as opiniões que quiser, mas não tem o direito de fazer nada contra os comunistas, mesmo quando eles estão armados e dispostos a tudo. Ser anticomunista é um defeito pessoal que pode ser tolerado na vida privada: na vida pública, sobretudo se passa das opiniões aos atos, é um crime. Não que todos os nossos profissionais de imprensa sejam comunistas: mas raramente se encontra um deles que não odeie o anticomunismo como se ele próprio fosse comunista. Essa afinidade negativa faz com que, no jornalismo brasileiro, a única forma de tolerância admitida seja aquela que Herbert Marcuse denominava “tolerância liberdadora”, isto é: toda a tolerância para com a esquerda, nenhuma para com a direita.
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Mais adiante, ressurgiu na entrevista o episódio do tribunal revolucionário que condenara Anselmo à morte. Avisado por um policial que se tornara seu amigo, Anselmo fugira em tempo, enquanto os executores da sentença, ao chegar à sua casa para matá-lo, eram surpreendidos pela polícia e mortos em tiroteio. De um lado, os entrevistadores, ao abordar o assunto, tomavam como premissa indiscutível a crença de que Anselmo fora responsável por essas mortes, o que é materialmente absurdo, já que troca o receptor pelo emissor da informação. De outro lado, todos se mostraram indignados – contra Anselmo – de que no confronto com a polícia morresse, entre outros membros do tribunal revolucionário, a namorada do próprio Anselmo. Em contraste, nenhum deu o menor sinal de enxergar algo de mau em que a moça tramasse com seus companheiros a morte do namorado. Entendem como funciona a “tolerância libertadora”?
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A quase inocência com que premissas esquerdistas não-declaradas modelam a interpretação dos fatos na nossa mídia mostra que, independentemente das crenças conscientes de cada qual, praticamente todos ali são escravos mentais da auto-idolatria comunista.
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Ao longo de toda a conversa, os jornalistas se mantiveram inflexivelmente fiéis à lenda de que os guerrilheiros dos anos 70 eram jovens idealistas em luta contra uma ditadura militar, como se não estivessem entrevistando, precisamente, a testemunha direta de que a guerrilha fôra, na verdade, parte de um gigantesco e bilionário esquema de revolução comunista continental e mundial, orientado e subsidiado pelas ditaduras mais sangrentas e genocidas de todos os tempos. Anselmo colaborou com a polícia sob ameaça de morte, é certo, mas persuadido a isso, também, pela sua própria consciência moral: tendo visto a verdade de perto, perdeu todas as ilusões sobre o idealismo e a bondade das organizações revolucionárias – aquelas mesmas ilusões que seus entrevistadores insistiam em repassar ao público como verdades inquestionáveis – e optou pelo mal menor: quem, em sã consciência, pode negar que a ditadura militar brasileira, com todo o seu cortejo de violências e arbitrariedades, foi infinitamente preferível ao governo de tipo cubano ou soviético que os Lamarcas e Marighelas tentavam implantar no Brasil? Ao longo de seus vinte anos de governo militar, o Brasil teve dois mil prisioneiros políticos, o último deles libertado em 1988, enquanto Cuba, com uma população muito menor, teve cem mil, muitos deles na cadeia até hoje, sem acusação formal nem julgamento. A ditadura brasileira matou trezentos terroristas, a cubana matou dezenas de milhares de civis desarmados. Evitar comparações, isolar a violência militar brasileira do contexto internacional para assim realçar artificialmente a impressão de horror que ela causa e poder apresentar colaboradores do genocídio comunista como inofensivos heróis da democracia, tal é a regra máxima, a cláusula pétrea do jornalismo brasileiro ao falar das décadas de 60-70. Boris Casoy, Fernando Mitre e Antonio Teles seguiram a norma à risca. Desta vez, porém, o artificialismo da operação se desfez em pó ao chocar-se contra a resistência inabalável de uma testemunha sincera.
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Conhecendo as muitas complexidades e nuances da sua escolha, Anselmo revelou, no programa, a consciência moral madura de um homem que, escorraçado da sociedade, preferiu dedicar-se à meditação séria do seu passado e da História em vez de comprazer-se na autovitimização teatral, interesseira e calhorda, que hoje rende bilhões aos ex-terroristas enquanto suas vítimas não recebem nem um pedido de desculpas.
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Moral e intelectualmente, ele se mostrou muito superior a seus entrevistadores, cuja visão da história das últimas décadas se resume ao conjunto de estereótipos pueris infindavelmente repetidos pela mídia e consumidos por ela própria. O fato de que até Boris Casoy, não sendo de maneira alguma um homem de esquerda, pareça ter-se deixado persuadir por esses estereótipos, ilustra até que ponto a pressão moral do meio tornou impossível a liberdade de pensamento no ambiente jornalístico brasileiro.